Nota da autora: levei as crianças da Leigh Bardugo para passear brevemente, mas espero ter devolvidos sãos (ops) e salvos. Eu tenho muito pouca intimidade com o universo, mas é isso - depois que li Ruína e Ascensão fiquei com esse what if na cabeça: e se a Alina tivesse ido ao encontro do Darkling após a morte da Bahgra?

Espero que vocês se divirtam lendo tanto quanto eu me diverti escrevendo.

É publico e notório que esse ship é super problemático. Mas hey, é ficção, baby. Melhor boy lixo na fantasia que na vida real.


Gritara a plenos pulmões, com todas as forças do seu ser; gritara até a voz se partir, o gosto de sangue em sua boca. Por fim, deixou as lágrimas correrem, desimpedidas, enquanto todo seu corpo cedia à exaustão física e à sobrecarga emocional. Todas as emoções que contivera extravasaram em todas as direções. Encolheu-se junto às raízes de um pinheiro, as costas comprimidas contra a casca vermelha e áspera. Abraçou os joelhos com uma força desnecessária, os dedos arroxeados agarrados às calças sujas, como se aquele gesto fosse a única coisa à impedi-la de quebrar em mil pedaços.

A visão de Nikolai – não o adorável príncipe de cabelos loiros, mas a criatura na qual o Darkling o transformara – minara o pouco autocontrole que ainda lhe restara. Até aquele instante, fizera o seu melhor para não pensar objetivamente em nada do que acontecera. Precisava continuar, não apenas por si própria, mas pelos outros. A respiração se tornou entrecortada por soluços. Agora, libertos, os acontecimentos recentes espiralaram em sua mente, sem começo ou fim, trazendo à tona toda a dor que espreitava sob a superfície.

Em meio à tormenta dos próprios pensamentos, ela sentiu aquela vibração. Clara e inquestionável, emanava do cordão invisível que os unia. O que ele queria? Que tipo de afronta era aquela? Um desafio? O Darkling se provara vez após outra um monstro; mas ela não o esperava naquele momento. Não. Embora quisesse se encolher e afastar daquela conexão, por um instante, ela se concentrou unicamente na sensação, perplexa. Para sua inteira surpresa, ela podia sentir o sofrimento dele se mesclar ao seu próprio.

Seus lábios crisparam em desgosto – o sofrimento de ambos nada tinha em comum; ele era um monstro, assassino, e tinha buscado cada uma de suas amarguras. Esfregou os olhos nas mangas, respirando lentamente e buscando acalmar os pensamentos. Contudo, o chamado dele inflamou uma raiva que cresceu rapidamente dentro de si, tomando uma força imensurável. Ele dera vida ao que havia de pior em seu ser: não achava que nada que ele pudesse dizer seria capaz de aumentar sua dor; pelo contrário, talvez houvesse algum prazer sombrio em saber que ele também, de alguma forma, fora atingido pelos acontecimentos recentes.

Cada ínfima parte de seu ser que conservava alguma racionalidade dizia que ela não deveria vê-lo novamente; e, contudo, Alina se viu cedendo à conexão entre ambos para abrir os olhos em uma escuridão densa, absoluta.

Quase.

Piscou algumas vezes, deixando os olhos se acostumarem, até que por fim o Darkling entrasse em foco. Se ele tomara consciência de sua presença, não dera sinal algum. Estava tão completamente destituído da sua graça e elegância habitual, sentado em uma cadeira de espaldar alto cujos detalhes permaneciam ocultos nas sombras. Embora suas roupas fossem, como de costume, negras, não se dera ao trabalho de trajar seu kefta. Um brilho frio e quase etéreo parecia emanar da mão pálida e longa que ocultava-lhe o rosto – e, embora isso pudesse dar um tom levemente sobrenatural à sua persona, Alina teve a impressão que nunca o vira parecer tão humano.

Instintivamente, deu um passo na direção dele e um de seus pés colidiu com uma massa escura que rapidamente entrou e saiu de foco. Embora ela não tenha sido capaz de divisar no que tropeçou, o barulho foi suficiente para atrair a atenção do outro, tirando-o de seu estupor. Ele ergueu lentamente os olhos para Alina, como se a estivesse observando através de um véu. Por um instante, ela chegou a cogitar se ele sequer a via.

Ao encará-lo nos olhos, contudo, Alina sentiu a boca secar.

Ele sustentou o olhar dela, mas tinha os olhos cinzentos injetados e vazios – encará-lo era como encarar um abismo interminável, uma sensação de desolação intransponível. O rosto pálido parecia estranhamente macilento e, Alina contemplou, as cicatrizes deixadas pelos volcras pareciam mais destacadas do que nunca. O Darkling parecia um homem submetido a provações inomináveis desde a última vez que ela o vira.

"Alina."

A voz dele parecia estranhamente rouca, mas, assim como sua expressão, não traía qualquer sentimento. Os olhos dele desviaram para algum ponto ao fundo da sala e ele inspirou profundamente.

"O que você quer?" ela disse, cruzando os braços diante do corpo num gesto petulante – uma tentativa de recuperar algum controle sobre si mesma. Ela parecia subitamente incomodada com toda a situação em que se pusera: com a escuridão borrada ao seu redor, com não saber onde estava e, principalmente, com a fragilidade do homem à sua frente. Ela não viera até ali por empatia e precisou repetir isso para si mesma, engolindo em seco.

"Por que você veio, Alina?" ele respondeu, tornando a encara-la.

Infinitas respostas eram possíveis para essa pergunta: porque o odiava; porque queria vê-lo sofrendo; porque, até mesmo, achava que serias capaz de se regozijar na dor dele. Mas naquele momento, uma única resposta pareceu suficientemente sincera para escapar-lhe por entre os lábios, não mais alta que um sussurro. "Porque eu precisava saber que você ainda é capaz de sentir alguma coisa.", ela confessou com a voz miúda, afastando uma mecha branca de cabelo do rosto.

Ele se levantou, diminuindo a distancia entre ambos consideravelmente. Agora, olhava-a de cima, com aqueles olhos cinzentos enevoados; um mero vislumbre da presença intimidadora de outrora. "Você me fez o seu vilão, Alina." Mesmo que a voz fosse baixa e contida, havia uma raiva incontestável sob a superfície. "Isso não quer dizer, contudo, que eu não tenha lamentado pessoalmente cada gota de sangue sacrificada. Que eu não tenha perdido muito mais do que você, na sua juventude, seria capaz de entender.

Os últimos passos entre eles, no entanto, foram vencidos por ela. "Não ouse tentar me convencer, Darkling" ela disse, cuspindo o titulo dele como uma maldição, "que você lamenta. Lamenta o que seus nichevo'ya fizeram. O que você fez a Nikolai." Por um momento, ela estreitou os olhos, antes de acrescentar. "O que fez a Bahgra."

"Não.", ele rosnou, cerrando os olhos com força, desviando o rosto.

"Você nega?", e a raiva transbordava do tom irônico e parecia radiar em ondas quase palpáveis de toda Alina. Ela gesticulava abertamente, a meros passos dele. "Explique-me, porque eu não entendo: o que especificamente você nega? Que tomou centenas de vidas? Que desfigurou Genya ou que transformou Nikolai em uma espécie de abominação sem precedentes? Ou, por acaso, que cegou sua própria mãe co-"

A frase dela ficou incompleta, pairando entre ambos. Ele a interrompera, tomando o pulso fino dela em sua mão, e ela se calou, em choque – do toque dele, tão frio e desprovido da certeza habitual que fluía da conexão entre ambos; e da vertigem breve da sala repentinamente entrar em foco. "Basta.", ele acrescentou, com uma frieza forçada. Os olhos dele haviam tornado a se abrir e a encaravam com uma tristeza indescritível, repentinamente muito brilhantes. Naquele momento, Alina sentiu algo dentro dela quebrar também. "Basta.", ele repetiu, a voz tão fraca quanto um suspiro. Ele deixou os olhos caírem para onde a mão dele ainda a segurava e, por fim, ele a soltou, fazendo menção de dar as costas para ela. "Você deveria ir."

"Aleksander!", Alina o deteve, os dedos pousando novamente no braço dele, sentindo-o estancar. Dessa vez, quando a sala entrou em foco, Alina foi surpreendida pela compreensão de uma completa destruição: havia papéis espalhados por toda a parte, coalhados com uma série de objetos partidos; a luz etérea que ela notara antes era proveniente de pesadas cortinas negras que foram cortadas, expondo aqui e ali partes de janelas banhadas pela luz do luar. O olhar dele acompanhou o dela e, mais uma vez, ele interrompeu o contato entre ambos, afastando-se.

"Vá embora."

Havia um problema em vê-lo assim, tão frágil e humano: para Alina, era muito fácil odiá-lo quando se pegava olhando para Genya, o rosto outrora deslumbrante coberto de cicatrizes; quando contemplava o destino de Nikolai e de todas as outras vidas que foram arruinadas pelo simples toque do Darkling; era excepcionalmente fácil odiá-lo a distância, odiar o titulo que ele tomara para si e a persona que compreendia, sem ver a dor naqueles olhos cinzas; quando ela não o tocava e sentia aquela certeza e sensação de completude fluir da ligação entre eles. Quando ela era capaz de se distanciar o suficiente e esquecer que, ao fim do dia, eles ainda eram os únicos de sua natureza, sob vários aspectos.

Ali, tão perto, tão imersa nele, era muito difícil manter essa perspectiva clara – naquele momento, ele era só o garoto que, num passado agora tão descolado dessa realidade, ela ouvira Bahgra falando sobre.

"Não.", ela disse, e de um ímpeto venceu a distancia que ele havia imposto entre ambos, abraçando-o. Ele permaneceu rígido em seus braços, cada inspiração áspera e demorada; por um momento, ela temeu ter transposto um limite e que ele iria repeli-la com uma fúria ainda maior do que ela vislumbrara antes. Lentamente, contudo, ela o sentiu relaxar, a respiração se tornando mais lenta e regular. Por fim, ela o sentiu apoiar o rosto no topo de sua cabeça, os braços circundaram suas costas, os dedos longos traçando pequenos círculos.

Eles se deixaram envolver pelo conforto da presença um do outro e a paz daquele momento agridoce surpreendeu Alina: não havia a urgência, o desejo ou a tensão que ela ligava a Aleksander. "Por que, Aleksander?", ela deixou escapar num sussurro. "Por que não pode haver paz entre nós?" A voz dela soou cansada e derrotada até mesmo para os próprios ouvidos.

"Eu já cruzei muitas linhas... Tantas para as quais não há volta.", ele sussurrou contra o cabelo dela e, se afastando o suficiente para encara-la nos olhos, prosseguiu. "Não há paz ou redenção para alguém como eu, Alina. Eu não sou, nem posso ser quem você deseja que eu seja. Eu fiz o que era necessário, embora muitas vezes isso não fosse bom ou fácil. Um dia, talvez, você entenda." Ele acariciou o rosto dela num gesto terno, os dedos longos a tocando com a suavidade de uma pena, e apertou os lábios contra o topo da cabeça dela.

Antes que ela pudesse encontrar o que dizer – fosse em concordância ou não –, uma batida seca soou a porta. "Moi soverenyi.", a voz de Ivan acompanhou. Alina sentiu as sombras emanarem dele, adensando a escuridão da sala, e um arrepio a percorreu. Os olhos de ambos se cruzaram uma ultima vez e ela notou que a mascara de frieza habitual havia sido recolocada. "Vá.", ela viu se formar silenciosamente nos lábios dele e, no minuto seguinte, ela estava novamente sentada só entre as árvores – os olhos marejados e, de alguma forma, ela sabia que aquele era um adeus.