Cheguei em casa mais tarde do que o costume, encontrando as luzes apagadas e o apartamento em um enorme silêncio, o que não era muito comum desde que tínhamos uma criança em casa. Era a primeira vez que eu passava tanto tempo longe em seis meses e não via a hora de voltar. Olhei rapidamente pela sala e, não muito surpresa, encontrei brinquedos espalhados no chão e uma mamadeira quase vazia na mesa de centro. Alguém ficou com fome enquanto a mamãe estava fora.

Ignorei a bagunça e atravessei a sala e o corredor, chegando rapidamente ao quarto principal. Abri a porta o mais silenciosamente possível e coloquei a cabeça lá dentro, tendo a visão mais linda do mundo: apenas sob a luz do abajur ao lado da cama, Edward estava deitado em meio a vários travesseiros amontoados e com uma das mãos na barriga de Elizabeth, que dormia calmamente com uma mão na boca. Meu marido estava sem camisa, deixando o braço direito todo fechado por tatuagens à mostra, o que deixava a cena melhor ainda. Ainda tentando não fazer nenhum barulho, entrei e deixei minha bolsa em um canto, aproveitando para registrar aquele quadro com o celular. Eu tinha vontade de guardar cada segundo de interação entre os dois.

Tirei o blazer, os sapatos e os acessórios e lavei as mãos antes de me deitar no quase inexistente espaço restante na cama. Fiquei alguns minutos observando os dois, eu tinha a família mais perfeita do mundo. Passei os dedos pelos cabelos de cor ainda indefinida da minha filha, em alguns dias parecia mais loiro e em outros era ruivo como o do pai, enquanto ela piscava os olhos muito verdes preguiçosamente.

Elizabeth, ou Liz, dominava nossas vidas há exatos seis meses e vinte dias. Ser mãe era um sonho meu desde sempre, mas um sonho que era planejado apenas para dali alguns anos. Tudo mudou quando li uma simples palavra em um teste. Ela era o inesperado mais esperado de todos. Nada era mais maravilhoso do que acordar todos os dias sabendo que existia uma razão para a qual daríamos a vida, se fosse preciso. Um caleidoscópio de sensações novas diariamente.

- Te amo tanto, sabia? - disse, encarando seus olhinhos que já haviam me reconhecido.

Apesar do pouco tempo de vida, ela parecia entender tudo que se passava ao seu redor e esticou as mãos em minha direção, sorrindo ao alcançar meu rosto e apertando os dedinhos em minhas bochechas. Mas, como eu esperava, a brincadeira não durou muito e logo um bico adorável se formou enquanto uma de suas mãos começou a puxar a gola da blusa que eu usava, tentando abaixá-la. Quando não teve sucesso na missão, Liz começou a resmungar. Ri baixinho e me movi para tirar a blusa, ficando apenas com o top de amamentação.

- Não vamos acordar o papai, ele está muito cansado - sussurrei, pegando-a no colo e tentando não acordar Edward, que permaneceu imóvel quando mexi em sua mão.

Fiz um malabarismo para sair da cama e do quarto com um bebê no colo sem fazer barulho, indo até o quarto dela. Acendi a luz e sentei na poltrona rosa, com uma Elizabeth já impaciente ameaçando chorar.

- Pronto, gulosa. Hora do seu jantar.

Estávamos em nossa bolha particular, enquanto olhávamos uma para a outra com a plenitude que o momento nos trazia. Liz arrastava a mãozinha no meu colo e eu sorria cada vez mais para aquele gesto tão espontâneo, que em minha filha era esplêndido. Nada era melhor.

Depois de dez minutos ela largou meu peito, chamando atenção quando pediu mais.

- Ninguém te alimentou hoje? - comentei quando a troquei de braço. Como se me entendesse, ela deu uma gargalhada, que foi acompanhada por outra, vinda da porta.

Um Edward de cara amassada e cabelos bagunçados, usando só a calça do pijama, veio até nós. Mesmo sonolento esse homem me deixava fraca só de se aproximar.

- Chegou cedo, já estávamos indo dormir sem você - ironizou, dando um beijo no topo da minha cabeça.

- Foi muito tempo fora, precisei me atualizar das coisas - justifiquei - Rosalie quer contratar uma nova estagiária e promover Bree, ficamos em reunião e perdemos a hora.

- Estou brincando, Bella. Estivemos ansiosos por sua volta - respondeu, se sentando no chão ao meu lado - Mas talvez eu deva falar com a minha irmã para não te sobrecarregar assim de cara.

Fiz uma careta com sua afirmação. Eu gostava de trabalhar e, mesmo que a primeira semana estivesse corrida e me deixado morrendo de saudades de casa, era a hora de voltar para a rotina na agência de relações públicas da qual a irmã mais velha de Edward era a dona.

Preciso de lembrar que sem a rotina de trabalho de Rosalie, nós provavelmente não teríamos nos conhecido? - provoquei - O que você faz acordado? Tem plantão amanhã cedo, não deveria ter dispensado a babá.

- Eu te encontraria em qualquer lugar - rebateu, dando meu sorriso preferido - Só vou dormir depois que colocarmos Liz no berço e você tomar banho, colocar um pijama, se alimentar e deitar ao meu lado para que eu te mostre uma coisa.

- Edward… você precisa dormir.

- Será rapidinho, prometo.

Ainda como se entendesse tudo ao seu redor, Elizabeth escolheu aquele momento para encerrar sua refeição e bocejar. Prendi o top de volta e levantei, passando-a para os braços do pai.

Timing perfeito, neném. Só falta dormir a noite toda - Edward disse, colocando a filha no ombro para arrotar.

Fique de olho se ela vai precisar de uma fralda nova, eu já volto.

Me permiti alongar o banho, finalmente sentindo o cansaço do dia. Por mais que a rotina no escritório estivesse presente em minha vida há mais de cinco anos, foi um pouco estranho voltar depois de dedicar seis meses exclusivamente a minha filha. Rosalie até me ofereceu mais tempo de licença mas, após algumas conversas com Edward, preferimos adaptar os horários. Nossa filha era prioridade, mas decidimos que era a hora de voltar, mesmo que o começo fosse mais complicado.

Sai do banho quando meu estômago começou a protestar de fome. Realmente, eu não comi muito mais depois do almoço e já passava das nove da noite. Me vesti e fui até a cozinha, encontrando um Edward pondo pratos na mesa e a babá eletrônica no balcão.

- Não tive tempo de preparar nada, é só a comida para viagem daquele restaurante italiano perto do hospital - se justificou - Tenho certeza que você prefere um desses feito por mim.

- Se você tivesse trazido um lanche estaria ótimo por mim, apesar de não sentir falta dos sanduíches do hospital.

- Ei, não fale mal do meu alimento diário. Você que nunca soube apreciar a alta gastronomia da lanchonete - riu, abrindo as embalagens de comida e revelando um dos meus pratos favoritos: ravióli de cogumelos.

Eu amo esse homem, puta merda.

- Casaria mais mil vezes com você depois dessa.

Começamos a comer em silêncio e eu não sei dizer se era a fome falando ou aquele era um dos melhores raviolis da cidade, e eu já havia experimentado quase todos.

- Como foi seu dia? - Edward perguntou, quando estávamos acabando.

- Mais corrido que o normal, mas nada muito fora do esperado para uma volta. Rosalie está desesperada com uma proposta para cuidar de um novo festival de música, ela quer todos os esforços concentrados nisso. Ainda estou me atualizando dos meus clientes e dos novos, apesar de não serem muitos - contei - Como comentei mais cedo, ela também quer contratar uma nova estagiária e deixar sob meus cuidados, colocando Bree como assistente das duas, fizemos uma reunião sobre isso que tomou bastante tempo, por isso me atrasei. Acredito que até o final da semana tudo se ajeite e eu consiga trabalhar nos horários que combinamos. Gosto de Kate, você sabe, mas não sei se estou 100% confortável com a ideia de deixar minha filha com a babá o tempo todo.

- Rose deveria contratar alguém para te ajudar, não te dar mais trabalho.

- Você conhece sua irmã, ela não confia em ninguém de fora para os trabalhos maiores. Foi um milagre ela ter confiado em mim como estagiária. E no hospital, como foi?

Tentei desviar o foco da conversa de Rosalie. Edward amava a irmã, é claro, mas não estava exatamente contente que ela tivesse apoiado minha volta ao trabalho. Na cabeça dele, eu poderia trabalhar de casa - ou nem trabalhar, já que conseguia nos proporcionar uma vida confortável, mas eu sempre amei a rotina que vivia.

- A nova turma de internos é horrível. Eu sinceramente não sei se algum deles vai conseguir passar na prova final. Meus residentes são um pouco mais tragáveis, mas a maioria só está passando um período na pediatria para cumprir as horas obrigatórias. Tem um ou outro que talvez se saia bem com isso, mas não vejo a hora de trocarem de especialidade. Acredita que uma garota me perguntou se precisava mesmo encostar nos bebês? E amanhã eu começo um plantão de 12 horas ao lado desses adoráveis futuros médicos.

Ri antes de responder. Edward sempre foi extremamente perfeccionista em relação à profissão, até mesmo seus colegas de internato e residência sofreram com isso. Ele queria ser o melhor, assim como os pais eram em suas especialidades.

- Não se fazem mais residentes como antigamente, bebê. Você foi o último.

Ia me começar a lavar os pratos do jantar quando Edward me lembrou que amanhã, quinta-feira, era o dia em que, além de Kate, teríamos Carmen conosco. Eu detestava deixar bagunça para a simpática senhora arrumar, mas dessa vez me deixei vencer e larguei tudo na pia.

Dei uma última olhada em Elizabeth antes de ir para o nosso quarto, meu neném estava dormindo plenamente com uma chupeta na boca. Nem parecia que me acordava todas as madrugadas, a cada duas horas, para mamar.

Encontrei um Edward com envelopes em cima da cama. Reconheci alguns de cara: eram todas as cartas que escrevi para ele antes e durante nosso namoro e em datas especiais. Outros ainda eram estranhos para mim.

- Não fique brava comigo nem me mande dormir no sofá, ok? Separei algumas coisas para relermos hoje, já que marca mais um acontecimento especial em nossas vidas - pegou minha mão e me colocou sentada a seu lado na cama - Primeiro, vamos abrir essa.

Eu reconheceria o envelope rosa em qualquer lugar do mundo. Foi a primeira carta que escrevi, mesmo sem saber se um dia chegaria a ter alguma coisa com ele.

- Edward! Você guardou! - exclamei, surpresa.

- É claro que guardei, foi o primeiro presente que ganhei de você.

"Maio de 2014,

Edward, hoje trocamos mais que duas palavras pela primeira vez. Você provavelmente nem se lembrará de mim, mas eu já te conhecia. Conhecia do porta retrato na mesa da sua irmã, das incontáveis vezes que ela contou orgulhosa sobre o irmão na faculdade de medicina, das ligações que transferi para o ramal dela, já que você nunca acerta e das vezes que você apareceu por aqui.

Hoje, você me perguntou se eu tenho namorado e ficou, aparentemente, bem surpreso quando respondi que não. Ou talvez seja só coisa da minha cabeça. Você não perguntou mais então não tenho como saber qual era sua intenção com aquele questionamento. Mas, caso se interesse algum dia, lá vai:

Não namoro porque ainda não encontrei o que tanto quero. Quero um amor tranquilo, que me beije, me faça rir e me provoque pedindo para dizer o quanto o amo. Alguém que me diga que sempre estou linda, mesmo quando corrermos na chuva de um dia de verão, e que saiba exatamente quando usar elogios íntimos. Quero alguém que tenha orgulho em me apresentar para os amigos e para a família, com uma sogra que não seja minha inimiga e um sogro que verdadeiramente acredite que eu sou a pessoa certa para seu filho. Quero ser amiga dos seus irmãos.

Quero receber mensagens a noite, a tarde, em qualquer período do dia, dizendo que ouviu uma música e pensou em mim.

Ele irá rir da minha cara quando eu chorar por causa de um filme com final feliz, mas dirá que vai me ajudar a realizar todos os sonhos. E eu tenho tantos.

Não namoro, Edward, porque quero um amor verdadeiro, daquele que todos olhem e digam que somos perfeitos um para o outro.

Não sei se essa carta um dia chegará até você, mas espero ter respondido sua pergunta.

Bella"

De fato, a carta demorou para chegar até Edward. Depois desse dia, ele apareceu algumas outras vezes, sempre dando alguma desculpa para gastar um tempo falando com a, até então, estagiária de sua irmã. Logo, as indiretas de Rosalie sobre o assunto se tornaram muito diretas e eu decidi perguntar exatamente onde ela queria chegar. Ela respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo: meu irmão não para de falar de você. Faz duas semanas que ele me pergunta qual seria a melhor forma de te chamar para sair. Eu já dei todas as dicas, está nas mãos dele agora. Ele demorou mais uma semana para aparecer na hora do meu almoço me chamando para sair a noite. Sob o olhar atento de Rose pelas portas de vidro do escritório, aceitei. Podia jurar que ela deu pulinhos de alegria.

Depois saímos mais uma vez, e outra, e outra, e mais outra, até eu perder as contas. E algumas aulas também. Até eu me dar conta que estava muito apaixonada e fazendo planos com aquele cara, que era cinco anos mais velho que eu, estudava medicina e em breve iniciaria a residência.

Quando contei sobre esse nosso quase relacionamento em casa, foi uma comoção. Para meus meio-irmãos, Edward estava apenas se divertindo comigo e me largaria na primeira oportunidade. Para meu pai, ele teria juízo - ou medo demais das armas do delegado Swan para fazer alguma coisa assim.

Já com Sue, minha madrasta, e sua filha, Leah, as coisas eram muito mais fáceis. Ela dizia que, se eu sabia que estava apaixonada, deveria investir nisso. Se não investisse, jamais saberia o que poderia ter acontecido. Minha mãe, uma grande sonhadora, concordava com ela, em uma das poucas vezes que as duas concordaram sobre alguma coisa.

E foi o que fiz. Abri o jogo para Edward, entreguei a carta e investi todas as minhas fichas em algo que eu esperava que se solidificasse. Contei todos os medos, falei sobre a minha família, assim como ele contou tudo sobre si. Na semana seguinte, estávamos namorando de verdade - como meu pai dizia. Fui apresentada na casa dos Cullen, como falei na carta. Conheci seus pais, irmãos, primos e sua avó - que me abraçou como filha. Pensar em Elizabeth Masen me deixou triste por um segundo, eu a amava tanto que dei seu nome para a minha filha, sentia muita falta dela. Edward percebeu.

- Eu também sinto falta da vovó. Ela estaria muito feliz de nos ver realizando nossos sonhos - falou, como se lesse minha mente.

- Como sabia que pensei nela?

- Você fala de conhecer a família na carta, sua expressão mudou de repente quando chegou nessa parte. Te conheço.

É claro.

Mas não mostrei a carta com a intenção de te deixar triste, mas sim para fazer uma pergunta: hoje, depois de voltar de um exaustivo dia de trabalho pós licença maternidade, diria que está realizada? Eu consegui ser quem você esperava?

A pergunta poderia ter me pego de surpresa, mas foi muito fácil responder.

- Edward, eu sou muito mais do que realizada. Ao escrever aquela carta, jamais imaginei que estaria aqui, cinco anos depois. Eu era uma estagiária encantada pelo irmão da minha chefe, que vergonha. Hoje sou casada, tenho uma filha com ele e uma família que me completa. Você acha que não conseguiu? Nós ultrapassamos e fomos além de todos os planos.

Não percebi que algumas lágrimas escorreram até que ele passou os dedos no meu rosto.

- Obrigado por tudo que você me deu, e por nunca ter desistido de nós. Eu prometo que faremos dar certo dessa vez, assim como fizemos em todas as outras.

Suspirei, mais uma vez muito apaixonada, quando Edward se aproximou e me beijou após concluir a frase. As cartas foram colocadas e esquecidas em algum lugar próximo a cama, porque naquele momento já não eram tão importantes.

Era sobre isso. Nós sempre faríamos dar certo, independente da situação.