Ainda estava meio dormindo quando senti uma mãozinha mexer no meu cabelo. De um lado, do outro, chegando no rosto e voltando.
- Cuidado com a mamãe - a melhor voz de sono falou em algum lugar próximo a mim.
Mamãe. Ouvir essa palavra sendo direcionada a mim ainda me causava um misto de sensações boas. Não pude deixar de sorrir quando abri os olhos e encontrei Edward deitado ao meu lado e Elizabeth sentada entre nós dois, procurando onde mais seus dedos poderiam explorar, iluminados pela luz do abajur.
- Bom dia, Bella adormecida.
A saudação de Edward me fez olhar para o relógio ao lado da cama e conferir a hora. 6h30.
Era sábado, finalmente. Depois de uma exaustiva primeira semana de volta ao trabalho, eu teria um dia inteiro com a família.
- Nem tão adormecida assim. É muito cedo - sorri para os dois.
- Eu sei. Nós fizemos um neném muito pontual.
Olhei para minha filha, que agora estava concentrada na nossa conversa.
- Você chorou e eu não ouvi? Nós já fomos melhores…
- Ela não chorou. Eu que estava em um sono leve demais e a ouvi pela babá eletrônica conversando com o móbile.
Edward sempre queria se justificar, mesmo não precisando. Notei que ele parecia ansioso demais para quem acordou há pouco tempo.
- Edward, está tudo bem. Ela nos acordaria de qualquer forma - peguei sua mão.
Antes que pudéssemos conversar mais sobre isso, Elizabeth se lembrou do porquê de estar acordada e tentou se aproximar de mim, se lançando para frente.
- Hora do café da manhã. Abri os botões do pijama sob os olhares atentos dela, que nem esperou que eu a puxasse para o colo e deitou no meu peito.
- Calma aí, você não pode comer por cima da roupa da mamãe - Edward disse, enquanto tentava tirá-la de cima de mim. Em troca, recebeu um bico emburrado - Tenho certeza que se você fosse maior cruzaria os braços como a tia Rose faz.
A comparação não parecia ter agradado porque rapidamente o bico aumentou e logo se transformou em um resmungo. Terminei de abrir o sutiã e estendi os braços antes que o choro viesse.
Não sei se era manha ou fome - mesmo que ela tivesse mamado há duas horas, mas a expressão fechada não se desfez de seu rosto. Elizabeth não teve calma alguma e me fez soltar um gemido de dor quando mordeu meu peito.
- O que foi?
Sua filha é canibal - respondi - Pela dor ela me mordeu e está levando um pedaço.
- Tem sangue? Me deixa ver, Bella.
- Não precisa, está limpo - afastei sua mão, que já procurava qualquer indício de algo errado - Quando acabar vemos. Não é como se nunca tivesse acontecido.
Edward abriu a boca para responder, mas fechou em seguida e recostou na cama. Não eram raras as vezes que ele queria fazer o papel de médico e isso era bem vindo na maioria delas, mas hoje eu percebia que era a ansiedade de agradar agindo. Ele sempre fora assim, sempre querendo colocar as necessidades dos outros na frente, até que deixasse de ser saudável. Sua rotina no hospital também não era cem por cento tranquila e algumas vezes isso se refletia em todo o resto. Não tinha muito o que fazer, senão ter paciência e ajudá-lo a sair desse lugar.
Por mais que eu adorasse amamentar, não era uma tarefa exatamente fácil. O começo foi o pior e eu chegava ao ponto de passar horas chorando me sentindo incapaz de alimentar minha própria filha. Com o tempo nos entendemos e as coisas foram melhorando, mas nem sempre era um momento tranquilo. E tudo bem. Eu também não poderia me cobrar todas as vezes que a maternidade não fosse um conto de fadas. Só que com Edward era diferente. Ele vivia em uma constante insegurança por achar que deveria estar fazendo mais. Sendo um pai, marido, filho, irmão, médico, amigo melhor.
Ficamos em silêncio por algum tempo, até que Elizabeth se cansou e decidiu voltar a dormir. Agradeci mentalmente aos céus por isso.
- Deixa que coloco ela de volta no berço. Já volto para te ajudar.
Permaneci na mesma posição, sentada na cama, observando os dois pela babá eletrônica. Edward se movia lentamente para não acordá-la, até que a colocou no berço e saiu do quarto, voltando para o nosso.
- Posso ver agora? - perguntou
- Já disse que não foi nada demais…
Não que minha fala adiantasse de algo, porque ele acendeu a luz e veio me examinar.
- Eu falei que não era nada - disse, quando o silêncio fez parecer que éramos médico e paciente em uma consulta.
- É sempre bom checar. Provavelmente os dentes dela vão começar a nascer logo e as mordidas se tornarão mais frequentes, vamos ficar de olho.
- Ok, Dr. Cullen - revirei os olhos. Ele estava transformando algo tão comum em um grande drama - Agora podemos voltar a dormir? - pedi, puxando seu cabelo para cima até encontrar seus olhos.
Eu amava olhar nos olhos de Edward e tentar adivinhar o que se passava em sua mente, foi meu passatempo favorito durante muito tempo. Talvez tenha sido a primeira coisa que me deixou apaixonada por ele. E o sorriso. O mesmo que me dava agora. Ele sabia exatamente como me ganhar.
- Sim, senhora Cullen - respondeu, dando um beijo na ponta do meu nariz e nos movimentando para ficarmos deitados - Temos quase duas horas até a dona da casa acordar de vez, apesar de não achar que vou conseguir voltar a dormir.
A ansiedade não era impressão minha.
- Nervoso hoje? - perguntei, ainda com as mãos em seu cabelo.
- Um pouco - admitiu - Sei que meu pai vai falar sobre aceitar o cargo de chefe no hospital mais uma vez. O tempo está acabando, não sei como ele vai reagir quando eu recusar.
Aquilo foi uma surpresa, eu não fazia ideia que ele tinha decidido recusar a oferta do pai. Por meses, Carlisle vinha falando sobre como Edward seguiria o legado da família e em breve se tornaria chefe, assim como os pais eram e o avô foi.
Eu sabia que ele era capaz, tinha total certeza disso, mas algo estava segurando-o.
- Por que escolheu recusar? - questionei.
- Não me sinto preparado - respondeu, escondendo o rosto no meu pescoço e respirando fundo - Não é o momento de aceitar uma responsabilidade desse tamanho. Eu era um residente até outro dia…
Já fazia algum tempo que ele não era mais um residente. Era a ansiedade falando novamente.
- Edward, nós dois sabemos que você está mais preparado que qualquer outra pessoa. Qual é o real problema?
Ao invés de responder, ele passou a mover os lábios por todo meu pescoço, numa clara tentativa de me distrair. Tudo bem, eu pensaria nisso depois.
Estávamos indo almoçar na casa de Esme e Carlisle naquela tarde. Minha sogra adorava reunir toda família e pelo menos uma vez por mês dava uma desculpa para organizar alguma coisa. Durante toda manhã tentei arrancar respostas de Edward, mas tudo que consegui foram algumas evasivas. Achei melhor não insistir mais.
Observei o céu pela janela do Volvo enquanto andávamos lentamente pela rua de casa - parecia que todos os vizinhos resolveram sair no mesmo horário, era fevereiro mas o céu estava azul e o sol brilhava naquele sábado, talvez fosse por isso.
- Acho que tenho medo da reação dos meus pais - Edward começou, chamando minha atenção quando entramos na avenida - A decepção será a pior parte. Eles esperam pelo dia em que me tornarei chefe desde quando entrei na faculdade.
Seus olhos estavam fixos na avenida, mas eu enxerguei o brilho de uma lágrima no canto deles.
- Você quer voltar para casa? Eu ligo, digo que tivemos um problema com Elizabeth - olhei, pelo retrovisor, minha filha dormindo tranquilamente presa à cadeirinha.
- Não, não precisa disso. Uma hora ia acontecer, de qualquer forma. Não será pior do que foi com Rose, eu acho. No final eles acabaram apoiando - a última frase foi quase um sussurro.
Carlisle Cullen não era apenas o pai de Edward. Ele era o chefe. E não como alguém que apenas tinha um cargo de liderança, mas como dono do lugar. A família Cullen não era o que nós, meros mortais, estávamos acostumados. Eram donos da Cullen Foundation for Health, um império na área da saúde. Era natural que Rosalie e Edward seguissem o mesmo caminho, mas a filha mais velha quis fazer faculdade de comunicação. Claro que o pai surtou. Até onde eu sabia, foi preciso muita conversa e uma ajudinha de Esme para que ele cedesse. Não que ele fosse um pai ou uma pessoa ruim, muito longe disso, mas essa sucessão era esperada por Carlisle e ele criara muitas expectativas.
- Sabe que sua mãe vai apoiar qualquer decisão que tomar - peguei sua mão quando paramos em um cruzamento - Seu pai também vai, pode não ser logo de cara mas ele vai entender seus motivos. Eles te apoiariam até se você decidisse largar a medicina e seguir outra profissão, tenho certeza.
Edward não respondeu, apenas apertou minha mão de volta. O caminho entre nosso apartamento e a casa dos Cullen não levava mais que quinze minutos, mas naquele dia parecia mais demorado. Além do trânsito, a ansiedade era quase palpável no ar dentro do carro.
- Lembra de quando fizemos esse caminho pela primeira vez? - perguntou.
- Lembro de cada detalhe daquele dia. Eu estava tão nervosa que me apegava a qualquer coisa mínima para tentar me acalmar.
Era minha primeira vez na casa dos Cullen, Edward queria que eu conhecesse sua família e me levou para um jantar. É claro que Rosalie já sabia e passou a semana inteira animada demais com o grande acontecimento.
"Estou te liberando mais cedo, mas não pense em fugir!" ela tinha dito naquela sexta-feira à tarde, quando me dispensou do trabalho para que eu me preparasse para a grande noite - nas palavras dela.
Tenho certeza de que, se pudesse, ela mesma me faria de Barbie e me arrumaria para jantar.
Enquanto Edward dirigia pelas ruas de Queen Anne - porque era óbvio que seus pais moravam no bairro mais caro da cidade, eu pensava em mil maneiras de fugir quando me avaliassem da cabeça aos pés e decidissem que eu não era boa o suficiente para o filho perfeito deles.
Se acalme, Bella, eles não vão se transformar em monstros e te engolir - meu namorado disse, quando estacionou em frente a enorme mansão dos Cullen.
Não precisam me engolir, só vão me julgar. Esse casaco que estou usando deve ser mais barato que o arranjo de flores ali na porta - meu casaco vinha de uma liquidação, pelo amor de Deus.
Isabella, meus pais não vão te odiar, muito menos pelas suas roupas - ele rebateu, com a voz firme - Tenho certeza que a essa altura eles estão pensando que demos o cano no jantar.
Os pais de Edward eram completamente diferentes da minha imaginação (graças às buscas no Google), mas não tive muito tempo de processar isso porque assim que passamos pela porta, Rosalie me pegou em um abraço.
Não acredito que isso finalmente está acontecendo! Bella, você está aqui!
Parecia que ela era a adolescente ali, não eu.
Você já a monopoliza a semana toda, deixe um pouco para os outros, Rose - disse o gigante namorado dela, Emmett. Eu o conhecia de algumas idas ao escritório, ele era simpático demais para alguém daquele tamanho todo.
Os próximos segundos foram divididos entre cumprimentos dos pais Cullen e logo me puxaram para a sala de estar que deveria ter o tamanho da casa em que eu morava. Tudo ali gritava dinheiro, do tapete ao lustre. Era estranho estar em um lugar daqueles porque eu achava que não pertencia ali, mas tudo mudou quando recebi o caloroso sorriso de Elizabeth, a avó de Edward e Rosalie.
- Então é você que tem povoado os pensamentos do meu neto. É o dia inteiro de "tomara que a Bella me responda logo", "será que a Rose precisa de algo? assim posso ver a Bella", "a Bella tem os olhos mais lindos do mundo"...
- Vovó… - segurei uma risada quando vi que ele estava corado.
- Ai garoto, não me interrompa! É bom que ela saiba onde está se metendo - a senhorinha fofa pegou minhas mãos - Bem vinda a família, querida.
- Obrigada, senhora Cullen.
- Nada de senhora! A pessoa que se casará com meu neto, porque eu sei que vocês vão, não precisa dessa cerimônia.
E foi ali que eu soube que estava exatamente onde deveria estar.
- Pensando na vovó?
- Sim, ela foi o ponto alto da minha primeira visita à casa da família Cullen.
- Ela sempre sabia o que fazer no momento certo.
Eu sabia qual era a resposta que ele esperava, mas naquele momento só consegui concordar com a cabeça. Não era nem a hora do almoço e eu sabia que seria um longo dia.
Logo o trânsito deu lugar às ruas tranquilas do condomínio fechado em que os Cullen moravam e, como se reconhecesse o caminho, Elizabeth se mexeu no banco de trás, chamando nossa atenção.
Eu vou aceitar isso como um sinal de que minha atenção deve estar nela, vovó.
Assim que estacionamos o carro na porta da casa ela decidiu acordar de vez e resmungar alguma coisa, fazendo Edward olhar para trás.
- Tudo bem aí, neném?
Ele direcionou seu foco a ela a partir daquele segundo, entrando em uma quase conversa e me deixando como espectadora da bolha dos dois - e eu não reclamaria disso, porém, logo fomos interrompidos por Esme batendo no vidro do carro.
- Olá, vocês três! O almoço será lá dentro hoje.
Edward forçou um sorriso e desceu do carro para abraçar a mãe enquanto eu soltava Elizabeth - impaciente por ter sido tirada de seu momento com o pai - da cadeirinha. Ela praticamente se jogou nos braços dele quando nos aproximei, escondendo o rosto.
- Oi amor, você não quer vir com a vovó? - a pergunta de Esme foi totalmente ignorada pela neta, o que não era comum - Está tudo bem?
- Ela acabou de acordar, mãe, deve ser isso - Edward respondeu antes que eu abrisse a boca para dar alguma desculpa. Eu também não entendi porque minha filha agiu daquela forma.
Minha sogra tentou esconder a decepção de ter sido rejeitada pela neta - mas falhou, é claro, e nos levou para dentro da casa, que estava mais lotada que o normal naquele dia.
Além de Esme, Carlisle, Rosalie e Emmett, também estavam na sala o tio de Edward, Aro, com os filhos, Jane, Alec e Alice, que estava acompanhada do namorado, Jasper. Era uma convenção dos médicos da fundação e ninguém tinha me avisado?
- Olha neném, é uma festa e não fomos avisados! - Edward mexeu Elizabeth no colo, fazendo com que ela virasse para olhar todo mundo ali. Não durou muito, ela continuava mais interessada nas linhas da camisa dele.
- Vocês sabem como é difícil conciliar a agenda de todos ao mesmo tempo, eu não podia perder a oportunidade! - a Esme empolgada com a reunião estava de volta.
Não tive muito tempo antes de ser puxada para uma conversa só das mulheres no sofá. Alice, Jane e Esme falavam sobre algum caso na última madrugada de plantão no hospital que envolveu as especialidades das três, algo que me deu arrepios porque uma pessoa que precisava de médicas de áreas tão diferentes não poderia estar bem.
- Foi um acidente bem feio, o marido até que teve sorte, só precisou operar o braço. Mas a mulher… Jane operou um milagre ali e cada dia será uma vitória - Alice balançou a cabeça - Pelo menos o bebê deles está bem, eu preferia ter chamado o Edward para estabilizar, é óbvio, mas insistiram no James que já estava lá.
- Alice, por Deus, o Edward esteve em todos os seus plantões nas últimas semanas, dê um descanso para o homem - Jane respondeu.
- Eu vou fazer o que se ele é nosso melhor pediatra?
- Seu melhor pediatra também precisa dormir - ri.
- Como vocês estão com a volta ao trabalho, Bella? Rosalie já te sobrecarregou? - foi a vez da minha sogra perguntar.
- Ei! Eu não sobrecarrego ninguém, cuido muito bem do meu time - Rose apareceu pela porta da cozinha, com uma taça em uma das mãos e um copo na outra - Até trouxe um suco, já que você ainda não voltou a me acompanhar no gin - piscou.
- Ela não me sobrecarrega, só somos duas viciadas em trabalho - pisquei de volta - Estou exausta, ainda não peguei o ritmo de volta. Elizabeth continua acordando a noite toda, mas pelo menos temos Kate e Carmen durante o dia facilitando a vida.
- Edward tem te ajudado? - Alice perguntou.
- Muito. Acho que ele está mais cansado do que eu, na verdade. Essa semana peguei os dois dormindo na minha cama todos os dias quando cheguei - peguei o celular para mostrar a foto que tirei no outro dia.
- Quem diria, Edward Cullen homem de família! Quem verdadeiramente opera milagres aqui é a Bella - Jane riu, chamando atenção de todos na sala - O que? Todo mundo sabe que ela mudou a vida dele.
Olhei para Edward do outro lado da sala, ele não parecia prestar muita atenção na conversa dos homens. Elizabeth ainda estava pendurada em seu ombro, ignorando todas as tentativas dos tios e do avô de chamar sua atenção. Eu não conseguia distinguir se tinha alguma coisa errada de fato ou se ela e o pai eram tão ligados que ela só estava imitando o comportamento dele. A conversa do lado de cá logo mudou de assunto e agora Jane era a protagonista, contando sobre sua última aventura na ilha de Esme, no Brasil. Eu me entretive com suas lembranças, tinha boas memórias daquele lugar também, foi onde eu e Edward passamos nossa lua de mel. Carlisle não brincava em serviço e deu apenas uma ilha de presente quando ele e Esme completaram 25 anos de casados. Eu nunca me acostumei com o tanto de dinheiro que aquela família tinha.
Jane estava contando sobre uma trilha nova que tinha inventado pela ilha quando Edward encostou no meu ombro.
- Fica com ela? Acho que você é a única de quem ela vai aceitar colo, todos ali já tentaram - estendi os braços e dessa vez minha filha veio sem reclamar - Vou falar com meu pai.
Talvez estivéssemos entretidas demais na conversa, mas só ali percebemos que Carlisle estava na porta do escritório e o clima na sala estava diferente. Respirei fundo e apertei a mão de Edward, antes que ele saísse para entrar no escritório e fechasse a porta.
Em um segundo todos estavam em volta do sofá e eu virei o alvo das perguntas.
- O que aconteceu?
- Sobre o que eles vão conversar?
- É por isso que ele está estranho hoje?
- Ei! Acalmem-se, todos vocês. Parece que tenho a casa cheia de adolescentes de novo - Esme pediu - Se Bella quiser falar, ela falará. Se não, esperamos que eles saiam de lá. Não deve ser nada grave, não é, querida?
- Não se preocupem - me limitei a dizer.
Logo Esme recrutou Jasper, Emmett, Jane, Alec e Aro para ajudar na cozinha enquanto eu, Elizabeth, Alice, Rosalie subimos para o antigo quarto de Edward, era hora de alimentar minha fera e eu esperava que isso pelo menos acalmasse sua inquietação.
- E então, o que ele fez? - Rose perguntou quando estávamos sentadas na cama. Ela me conhecia muito bem para saber que eu não contaria nenhum problema na frente da família toda.
- É o que ele não quer fazer, na verdade - comecei a falar, sob os olhares atentos das três - Edward não quer aceitar o cargo de chefe na pediatria.
- Ele o que?! - Alice exclamou, verdadeiramente surpresa - Como assim? Ele não me disse nada, nós demos plantões juntos nas últimas duas semanas e ele nem mencionou isso.
- Eu só soube hoje, Ali. Ele me contou enquanto checava o corte que a madame aqui fez no meu peito.
- Que romântico - ela ironizou - Mas, sério, o que ele está pensando?
- Não é ele, é a ansiedade falando - Rosalie se manifestou - Edward tem um problema em aceitar grandes coisas na vida, ele sempre acha que não é merecedor, que não é bom o suficiente. Mas nós sabemos que ele é. Eu conheço meu irmão, sei que ele está exatamente onde deveria estar.
Era verdade. O medo de não ser suficiente era uma constante na vida de Edward, em todos os aspectos possíveis. Ele se cobrava demais, se forçava ao limite todas as vezes apenas para provar para si mesmo que poderia fazer.
Elizabeth cansou de mamar em algum momento da nossa conversa e começou a fechar os olhos. Finalmente ela aceitou outro colo e foi para os braços de Rosalie.
Não sei quanto tempo passamos na mesma posição e falando aos sussurros até que alguém batesse na porta.
- Posso falar um segundo com a minha esposa, senhoritas? - as duas se olharam e levantaram da cama.
Alice apertou minha mão antes de sair, enquanto Rosalie se aproximou e sussurrou no meu ouvido.
- Vai ficar tudo bem, Bella. Sempre vai.
Ela também falou algo para o irmão, mas eu não consegui ouvir, e saiu fechando a porta, ainda com a minha filha no colo.
- Vem aqui - bati no espaço vazio na cama. Mesmo que ninguém mais usasse aquele quarto, tudo estava sempre arrumado. Coisas de Esme - E então?
Edward atravessou o espaço entre a porta e a cama em dois passos e deitou ao meu lado.
- Eu gostava mais quando essa cama só tinha lembranças felizes - começou - Carlisle não ficou exatamente feliz, é claro - outra pausa - Mas disse que vai esperar até que eu me sinta preparado. Ele provavelmente vai fazer um rodízio de atendentes até lá. Não é o certo, eu não gostaria que pensassem que fui privilegiado por ser filho do chefe, mas foi a condição dele. Foda-se, eu sou privilegiado mesmo, assim como todos que estão lá embaixo.
Foi como se um peso enorme tivesse sido arrancado das minhas costas naquele momento. Ele poderia respirar aliviado e, por consequência, eu também.
- Eu disse que ele entenderia. Vai ficar tudo bem Edward, sempre vai - repeti a frase de Rosalie.
- Você quase me faz acreditar nisso.
Eu poderia retrucar, mas naquele momento ele me puxou para deitar ao seu lado e me beijou. Ficaria tudo bem, mesmo.
O almoço correu sem grandes acontecimentos, só comentários sobre qualquer assunto e algumas piadinhas sobre o tempo que demoramos para descer. Não que alguma coisa tivesse acontecido no quarto, nós realmente só nos beijamos.
Tudo estava mais calmo, o clima já não era mais tenso como antes e ninguém perguntou sobre o que pai e filho conversaram mais cedo. Até Elizabeth estava dormindo tranquilamente em seu carrinho, que alguém buscou no carro em algum momento, eu agradeceria a Alice para sempre por ter me convencido a comprar aquilo.
Depois da sobremesa todos começaram a se dispersar, com os médicos combinando cafés e lanches entre os atendimentos da semana, e nós também decidimos voltar para casa. Na despedida, Esme me perguntou mais uma vez se estava tudo bem e eu finalmente pude ser verdadeira. Agora estava.
Nosso caminho de volta também foi tranquilo, sem trânsito e com um ambiente muito mais agradável que na ida. Tão tranquilo que Edward me deixou dirigir o Volvo até nosso prédio.
- Nós podemos aproveitar o tempo até a próxima vez que ela acordar… - sugeriu depois que coloquei Liz no berço, me abraçando por trás.
- O que tem em mente? - perguntei, como se não soubesse exatamente o que estava passando na cabeça dele.
- O que você quiser, senhora Cullen - me levou para fora do quarto, em direção ao nosso - Acho que minha esposa merece ser mimada depois do dia de hoje.
Eu tinha muitos planos para Edward Cullen. Tomara que nossa filha colaborasse e dormisse por mais algumas horas.
