Minha relação com meu pai sempre foi boa. Apesar de ter vivido a vida toda como filha de pais separados, ele sempre esteve presente e fazia de tudo por mim. Os muitos finais de semana na casa de Charlie guardavam algumas das minhas melhores memórias da infância e adolescência.

Durante muito tempo fomos só nós dois. Às vezes ele me levava para brincar com o filho de algum amigo, mas na maior parte do tempo nossos programas favoritos eram feitos em dupla. Sair para comer fast food (coisa que minha mãe abominava), jogar boliche, assistir jogos de baseball ou de futebol americano comendo pizza e tomando refrigerante e até acompanhá-lo na pesca ou passear de viatura (outra coisa que minha mãe nunca entendeu porque eu gostava tanto) eram algumas das coisas que eu adorava fazer.

Nossa dinâmica mudou um pouco quando eu tinha catorze anos e meu pai se casou novamente. Junto com a nova esposa, Sue, vieram mais três novos integrantes para a nossa família. Eu já os conhecia há algum tempo e foi muito importante para a Bella adolescente conviver com alguém que tivesse menos de trinta anos de diferença fora dos muros da escola.

Leah era a mais velha, com um ano a mais que eu, e nos tornamos muito amigas apesar das diferenças. Jacob era o do meio e, no começo, as coisas foram um pouco confusas entre nós com os sentimentos se misturando de uma forma estranha, mas nos acertamos e viramos grandes amigos. Com Seth eu nem precisei tentar - ele era uma criança muito fofa que no primeiro dia já me adotou como sua nova irmã mais velha e pronto. De repente, eu passei de filha única a peça de uma grande família e isso foi muito bom. Claro que eu não era mais a única prioridade do meu pai, mas era legal ter com quem dividir a vida. Sue também era uma boa madrasta e eu fiquei feliz por Charlie ter alguém cuidando dele, ela era enfermeira e trabalhava em um hospital, mas também passou a cuidar da casa então eu ficava aliviada que ele pararia de comer comida congelada diariamente.

Não muito tempo depois, quando eu tinha quase dezessete, nossa dinâmica familiar mudou mais uma vez, quando minha mãe decidiu voltar a viver em Forks, a cidade onde nasceu, com o marido, Phil, e eu fui morar com meu pai. Eu sentia falta dela, mas pensei que sentiria muito mais de tudo que estava construindo em Seattle. Era meu último ano na escola, já estava começando a pensar em faculdades e largar tudo para viver em uma cidade minúscula não fazia parte dos meus planos.

Se eu tivesse acompanhado minha mãe, talvez nunca tivesse conhecido Edward e não vivesse tão feliz quanto hoje. Não teria criado vínculos e não teria multiplicado o tamanho da minha família. Sem dúvida alguma, ter escolhido ficar com meu pai foi uma das melhores decisões que tomei.

Quando contei a Charlie sobre Edward, ele me disse duas coisas: eu estava me apaixonando e Edward teria medo demais das armas do chefe Swan para quebrar meu coração. E é claro que meu pai estava certo.

Novembro 2014

Era quinta-feira e devia ser a décima vez que Edward me levava para casa depois do trabalho. Desde a primeira vez, há quase três semanas, ele deu um jeito de falar comigo pelo celular durante o dia todo e aparecer ao final de alguns deles.

Quando vou poder te levar para jantar? - perguntou, quando estacionou em frente à minha casa.

Notei que o carro de Charlie já estava ali, torci para que ele não estivesse na sala ou em qualquer lugar que desse visão para a rua.

Logo, eu prometo.

Antes do feriado de Ação de Graças? - insistiu.

Você é apressado demais, Edward - brinquei, mas ele pareceu não gostar porque não sorriu.

Eu só quero passar mais tempo que os vinte minutos do seu trabalho até aqui com você.

Por mais que adorasse estar com ele, eu não queria que as coisas fossem rápidas demais e acabassem ficando estranhas. Eu tinha experiências nesse aspecto e nenhuma era boa, eu sempre terminava sofrendo.

Nós podemos passar mais tempo juntos, só não precisamos apressar as coisas, tudo bem? - pedi, me aproximando mais dele.

Tudo bem, mas não vejo como um jantar poderia apressar qualquer coisa. Nós já nos falamos o dia todo e quantas vezes eu já te trouxe em casa?

Ele estava certo, mas antes que eu pudesse responder, meu celular tocou. O nome de Leah na tela me deu um sobressalto, ela era a única que sabia quem me levava para casa.

Oi Leah, o que...

Seu pai já está perguntando se alguém sabe de quem é o carro parado aqui na frente. Seja lá o que você esteja fazendo, termine logo e entre.

Não tive tempo de completar a pergunta nem de rebater o que ela disse porque a ligação se encerrou. Olhei para a casa e vi que a luz da sala se acendeu. Muito sutil, papai.

Podemos continuar essa conversa mais tarde? Aparentemente meu pai está curioso para saber de quem é esse carro.

Edward riu e concordou com a cabeça, roubando um beijo meu. Eu poderia ficar ali por horas.

Podemos. Quem sabe até lá eu não te convenço a sair comigo e aí você pode contar a ele de quem é o carro - respondeu, ainda rindo. Ele não desistiria tão fácil assim.

Nos despedimos rapidamente, antes que meu pai viesse pessoalmente bater no vidro e me levar para dentro. Assim que passei pela porta, lá estava ele me esperando. Eu quase ri da sua postura, encostado na parede com os braços cruzados, mas me contive.

Boa noite, Bella.

Boa noite, papai.

Tem alguma coisa para me dizer?

Eu deveria? - tentei me esquivar, logo ele começaria a usar técnicas de interrogatório comigo.

Se acha que não, tudo bem. Deixe suas coisas lá em cima, nós já vamos jantar.

Subi e joguei minha bolsa no quarto, já sabendo que Leah viria atrás. No momento em que eu separava as coisas para tomar banho, ela entrou.

Você é maluca de desafiar seu pai assim, Bella! Nesse momento ele deve estar pesquisando a placa do carro.

Se acalme, doida. Meu pai não é um tirano, eu vou falar com ele mais tarde e explicar que é só uma carona, não tem nada de mais nisso.

Bella… você confia nesse cara tanto assim?

Ele é irmão da minha chefe, não tem porquê não confiar. Relaxa, Leah.

Além de ser irmão de Rosalie, Edward tinha se mostrado uma pessoa legal durante as semanas que estávamos conversando. Ele se importava comigo, perguntava se eu estava dormindo bem, sobre as aulas e durante o dia falávamos sobre qualquer coisa só para não deixar o assunto morrer. Alguma coisa nele era diferente dos outros caras, eu sentia isso.

Durante o jantar os assuntos foram todos relacionados ao dia de cada um e algum planejamento que meu pai estava tentando fazer para o final de semana. Aparentemente Sue conseguiria tirar uma folga do hospital e Charlie queria dar um passeio no Pike Place*, já que nós íamos muito lá quando eu era criança.

*Pike Place é um shopping a céu aberto em Seattle, cheio de lojas, restaurantes e onde fica a primeira loja da Starbucks!

Meu celular vibrou no bolso do meu moletom, era uma mensagem de Edward. Tentei esconder minha animação quando fui responder, mas percebi o olhar de Jacob do outro lado da mesa, ele já sabia que alguma coisa estava acontecendo e odiava ser deixado de fora.

De: Edward Cullen

Já vai dormir?

De: Isabella S.

Ainda nem terminei de jantar…

De: Edward Cullen

Ah, ainda temos tempo então 👀

Seu pai perguntou alguma coisa?

De: Isabella S.

Perguntou se eu tinha algo a dizer e eu fugi ️

Mas ele quer me arrastar para Pike Place no fim de semana, deve achar que é a melhor ocasião para me interrogar

De: Edward Cullen

Rosalie acha que seu pai procurou a placa do meu carro no sistema da polícia

Isso é possível?

Adoro Pike Place!

De: Isabella S.

Possível, é hahahahahahaha

Minha irmã também acha que ele fez isso

De: Edward Cullen

Tomara que não tenha achado a multa que tomei por excesso de velocidade ou ele nunca mais vai te deixar entrar no meu carro

Nossa conversa estava muito mais interessante que qualquer papo na mesa, mas em algum momento chamaram minha atenção e eu não percebi. Tomei um chute por baixo da mesa e quase soltei o celular no chão. Jake.

Você vai com a gente, Bella? - minha madrasta perguntou.

Desculpe, Sue?

Ela perguntou se você vai a Pike Place no sábado, mas parece que seu celular está mais interessante - meu querido irmãozinho alfinetou. Apesar de ser mais novo, Jacob era muito maior que eu, era quase eufemismo chamá-lo de irmãozinho. Seth parecia ir pelo mesmo caminho.

Eu vou, Jake. Obrigada pelo chute - pisquei, esperando a bronca que ele tomaria.

Nossa relação era boa, apesar de tudo. Depois da paixão platônica, ele virou meu segundo maior protetor, só perdendo para Charlie. É claro que ele já tinha percebido que alguma coisa estava acontecendo e provavelmente estava infernizando Leah para descobrir o que era.

Deixei o celular de lado para não ter mais problemas e terminamos de jantar ouvindo meu pai falar sobre as férias que ele planejava tirar nos próximos meses. Ser chefe tinha suas vantagens, ele podia escolher as férias antes de qualquer um na delegacia.

Apesar de Charlie sempre ter me proporcionado uma vida confortável, nós nunca tivemos grandes luxos. O maior deles talvez fosse não precisar dividir o quarto com ninguém, com seu trabalho ele conseguiu comprar uma boa casa com espaço suficiente para todos nós, mas não fazíamos grandes viagens ou comprávamos roupas de marcas caras. Tínhamos dois carros que teoricamente eram divididos entre quatro pessoas, mas quase sempre estavam com os adultos, e meu pai guardava muito dinheiro desde sempre para pagar minha faculdade. Por isso, foi tão importante quando consegui um trabalho na área em que estudava, era muito bom finalmente poder ganhar dinheiro a partir de algo que eu gostava de fazer.

Escuta - Jake falou quando nos sentamos no sofá para assistir ao jogo de basquete daquela noite, sua voz era tão baixa que só eu ouvia - Charlie vai te perguntar porque um herdeiro te trouxe em casa hoje. Eu sei que essa mesma pessoa tem te trazido há dias porque vi o carro, mas seu pai é muito mais esperto e pesquisou a placa, ouvi ele falando com a minha mãe na cozinha.

Você só pode estar brincando que ele fez isso! - sussurrei de volta - Onde estava o chefe enquanto Mike Newton me traía?

Ele voltou a olhar para a televisão e não me respondeu mais, esse ainda era um assunto perigoso. Jacob quase desfigurou o rosto de Mike quando descobriu que ele havia me traído e não se perdoava por não ter percebido antes. Eu já tinha superado o relacionamento, mas ele não conseguia superar a traição dupla, afinal, os dois eram amigos.

O narrador tinha acabado de ler a escalação do time quando meu pai me chamou da cozinha. Lá vamos nós.

E então, você não tem mesmo nada para me contar? - perguntou e cruzou os braços em frente ao peito.

Você já sabe, não preciso mais contar nada, chefe - repeti seu gesto, também cruzando os braços.

Charlie respirou fundo.

Não acha errado eu precisar fazer isso já que você não me conta as coisas? O que anda fazendo por aí, Bella?

É só uma carona, pai! Não tem nada de errado nisso.

Uma carona com um garoto rico. Você acha que não vi esse filme antes?

Ah, era isso. Mike Newton tinha muito mais dinheiro que nós, já que seus pais eram donos de praticamente todas as lojas de artigos esportivos da cidade, mas ele não se comparava à família Cullen.

Foi a minha vez de respirar. Não era possível que meu pai estivesse fazendo aquela comparação.

Papai, me escuta. Edward é o irmão mais novo da minha chefe que se ofereceu para me trazer e eu aceitei, não tem mal algum. Ele não é o Mike.

Como você pode saber disso se é só uma carona? - ele ergueu a sobrancelha para mim - Está saindo com esse cara, Isabella?

Apesar de todos os esforços dele, não estou - a postura do meu pai relaxou, mas não por muito tempo - Ainda.

O que quer dizer com isso?

Quero dizer que Mike já passou, papai. Eu já superei e você também deveria, assim como Jake. Eu vou me envolver com outras pessoas, talvez quebre a cara mais algumas vezes, e tudo bem, vocês não podem me proteger pra sempre. Edward é um cara legal, nós estamos nos dando bem e é com isso que quero me importar agora.

Foi como se minhas palavras tivessem dado um choque em Charlie, que automaticamente soltou os braços ao lado do corpo e deu um passo para trás. Nós ficamos em silêncio por um longo tempo até que ele finalmente me olhasse novamente, mas logo percebi que não era para mim que ele estava olhando. Na porta da cozinha, todos os moradores daquela casa nos espiavam, esperando alguma reação. Talvez nós não tivéssemos falado exatamente baixo durante aquela conversa.

Eu vou subir - anunciei, quando ninguém se moveu - Boa noite.

Tentei não bater a porta do quarto e parecer como uma garota mimada, mas foi inevitável. Eu tinha dezenove anos, estudava e trabalhava, estava tudo bem se eu quisesse sair com outro cara que não fosse o babaca do meu ex namorado. Edward não era como ele, eu sabia disso.

Me enrolei na coberta e peguei o celular que ainda estava no bolso do meu moletom, digitando uma mensagem para o contato mais recente.

De: Isabella S.

Ele pesquisou a placa do seu carro.

Meu pai é a porra de um stalker.

Isso não é contra a lei?

Não demorou muito para que ele respondesse.

De: Edward Cullen

Devo me preocupar?

De: Isabella S.

Só se esconder algo muito ruim.

Agora ele sabe de nós.

De: Edward Cullen

Wow

Isso é a senhorita "vamos com calma" contando para o pai que me beija?

De: Isabella S.

Não de forma tão direta, mas ele deve imaginar ️

Acho que brigamos, ainda não entendi direito o que aconteceu lá embaixo

De: Edward Cullen

Sério? Ele não gostou da ideia de você estar comigo?

De: Isabella S.

Digamos que o passado recente não deixa meu pai muito confortável com meus relacionamentos

De: Edward Cullen

Então você admite que isso aqui é um relacionamento?

Parece que todos temos passados complicados...

Quer falar sobre isso?

De: Isabella S.

Não confirmo nem nego nada.

Hoje não. Prefiro qualquer outro assunto.

Continuamos conversando amenidades, sem voltar no assunto relacionamento até que alguém bateu na porta do meu quarto. Me surpreendi quando abri e vi que uma reunião familiar estava organizada bem ali. Ótimo.

Bella eu queria…

Filha, você tem que entender que…

Eu falei pra eles não virem...

Parecia uma grande feira de Natal com todos falando juntos.

Ela não vai entender nada com vocês falando ao mesmo tempo - Seth declarou e todos se calaram - Um de cada vez, igual a mamãe ensinou.

Ele era esperto demais para a idade, mas sendo irmão de Jacob e Leah isso não era uma grande surpresa. Com dez anos, às vezes Seth era mais sensato que todos naquela casa, e naquele momento eu queria agradecê-lo por tentar organizar aquela bagunça.

Ainda na porta do quarto, um a um, minha família começou a falar. Jacob foi o primeiro, dizendo que a hesitação de confiar em Edward não era por ele ser quem era, mas porque ainda não conseguia acreditar que qualquer outra pessoa não faria o mesmo que Mike fez. Era difícil mas eu entendia que ele precisava de tempo. Seth não entendia muita coisa, mas concordou com o irmão. Meu pai foi o próximo, quase repetindo o mesmo discurso, mas acrescentando que esperava que Edward tivesse medo das armas dele antes de fazer qualquer coisa que pudesse me ferir. Já Sue e Leah tinham um pouquinho mais de fé em mim. As duas acreditavam que eu estava pronta para conhecer alguém e me envolver novamente, confiavam que eu faria uma boa escolha e achavam que eu deveria investir nele já que estava gostando tanto da companhia.

Aos poucos, as coisas se acertariam. Eu sabia disso.

2019

Já fazia algum tempo desde a última visita ao meu pai, já que mais uma vez ele estava cheio de casos para resolver na delegacia e trabalhando mais que o normal, mas naquela sexta-feira era aniversário de Sue e ele jamais passaria a data trabalhando.

Eu estava esperando Edward sair do banho, já quase pronta - se não fosse por um neném pendurado no meu peito. Às vezes eu sentia que só tinha serventia nesse momento, já que era onde passava grande parte do meu tempo, mas isso logo sumia quando eu olhava para quem estava bem ali nos meus braços.

Acho que nunca vou cansar dessa cena - levantei o olhar para a divindade que estava parada na minha frente. Sério, eu nunca me acostumaria com isso.

Eu também não canso de olhar para você, baby - pisquei.

Observei enquanto ele se movia pelo quarto, ficando pronto em minutos. Eu tinha certeza que se ele tivesse se enrolado em um lençol continuaria bonito, mas não seria nada apropriado para a ocasião. Ao invés disso, Edward escolheu uma calça preta e uma blusa de gola alta azul marinho, separando também um casaco, já que fazia um pouco mais de frio naquela noite. A roupa dele estava bem parecida com a que eu tinha escolhido para Elizabeth, os dois ficariam lindos. Decidi combinar a roupa com eles também e troquei a blusa branca que tinha escolhido antes por uma azul.

O caminho até a casa do meu pai, a mesma que vivi durante anos, não levava mais que dez minutos. Eu e Edward fomos conversando sobre como havia sido nosso dia no trabalho enquanto ficamos de olho em Elizabeth pelo retrovisor, ela tinha desistido de tentar tirar a manta que colocamos por cima da cadeirinha e agora estava batendo um papo animado com o lobo de pelúcia - a ideia desse brinquedo obviamente não foi minha, era coisa de Jacob. Ele tinha acabado de estacionar quando chegamos e estava carregando algumas sacolas para fora do carro quando nos viu.

Boa noite, casal! Querem uma mãozinha com todas as coisas da mini terrorista? - ele riu e apontou com a mão livre para Edward, que tentava equilibrar o carrinho e uma bolsa em um braço enquanto trancava o carro com a outra.

Eu ri junto com ele e corri para dentro com Liz nos braços, ela deve ter achado divertido ver todo mundo rindo e nos acompanhou, mas ainda tentava sair do casulo que montei com o cobertor. Boa tentativa. O céu estava estranho, eu não sabia dizer se o que viria era uma tempestade ou a neve.

Jacob, eu apreciaria a sua ajuda se você viesse aqui ao invés de ficar rindo da minha cara! - meu marido ainda estava na metade do caminho enquanto Jake já tinha deixado todas as sacolas na porta e voltado para ajudá-lo.

Você é um pediatra brilhante mas não consegue fechar o carro e segurar um carrinho e uma mochila de bebê ao mesmo tempo que tranca o carro, Cullen. É claro que vou rir da sua cara, me dê isso aqui - e passou a bolsa das mãos de Edward para o seu ombro.

Quando finalmente estávamos dentro de casa - e obrigada a quem inventou a calefação - notei que havia mais uma pessoa ali. Ao lado do meu irmãozinho no sofá, uma garota loira que devia ter, no máximo, quinze anos e estava usando um casaco maior que ela.

Oi neném! - Seth percebeu nossa presença ali e levantou para puxar Elizabeth do meu colo, que se jogou nos braços dele - Oi, irmãzinha - piscou para mim.

Oi… oi amiga do Seth - acenei para o sofá e ele pareceu lembrar que tinha mais alguém ali - Onde estão os outros?

Mamãe está no quarto com Leah, seu pai acabou de chegar e está lá em cima e a minha namorada está bem aqui - disse. Eu ainda estava incrédula.

Como assim ele tinha uma namorada e eu não sabia?

Oi namorada! - Edward falou, tentando quebrar o clima estranho que se instalou na sala - Eu sou o Edward, peguei seu namorado no colo e agora estamos aqui.

Você não me pegou no colo… - Seth resmungou - Eu já tinha dez anos.

E ainda dormia no sofá, eu era o único que aguentava te carregar pro quarto - riu.

A garota ainda estava quietinha no sofá, sem dizer uma palavra, mas também riu do que Edward disse. E nós ainda nem sabíamos o nome dela. Mas antes que eu pudesse perguntar...

Bella! Que bom que chegaram - meu pai anunciou, descendo a escada - Já conheceram a Claire?

Ah, então esse era o nome dela.

O Seth estava ocupado demais para nos apresentar, papai.

Meu irmão finalmente percebeu que tinha esquecido de me contar sobre a namorada com o olhar que recebeu de Charlie e nos apresentou a garota, ela realmente tinha quinze anos, como imaginei, e era colega de classe dele. Aparentemente o relacionamento era bem recente e meu pai teve que conversar com o pai dela para que os dois pudessem ficar juntos.

Parece que o jogo virou, hein Charlie? - Edward provocou, mas meu pai apenas revirou os olhos.

Não esqueça que você também é pai de menina, Cullen.

Logo estávamos todos reunidos na mesa de jantar - Sue, Charlie, Jacob, Leah, Seth, Claire, Edward e eu, com Elizabeth sentada no carrinho entre nós dois. Àquela altura, ela já tinha passado pelo colo de todos e estava atenta às conversas, como se entendesse alguma coisa.

Como era aniversário de Sue, meu pai não quis que ela cozinhasse e comprou um jantar completo do restaurante favorito dela, um libanês que tinha o melhor falafel do mundo, e apesar de eu não conhecer muitos além daquele, poderia passar a noite inteira só comendo aqueles bolinhos.

As conversas foram amenas, com todos dividindo um pouco dos últimos dias. Jacob contou sobre o projeto de um novo modelo de sistema de segurança para carros esportivos que estavam desenvolvendo na montadora em que trabalhava, ele ficava muito empolgado ao falar disso porque sempre amou carros e qualquer coisa relacionada a esse universo. Como engenheiro, ele passou os anos de faculdade buscando uma oportunidade em alguma empresa no setor e Washington era o paraíso nesse sentido, as maiores fábricas do mundo tinham escritórios aqui.

Leah tinha acabado de entrar em uma indústria farmacêutica, assumindo um cargo de liderança que anteriormente era controlado por homens. Ela estava muito feliz, é claro, mas em sua fala ainda havia certo receio de expressar toda essa felicidade. Minha irmã era brilhante, mas não se enxergava com clareza. Ela, às vezes, sofria com a ideia de que não deveria estar nos lugares que ocupava. Eu e Claire tentamos convencê-la do quanto ela deveria sim vibrar pelas próprias conquistas.

Seth estava começando a pensar em qual curso faria na faculdade, ainda sem saber direito qual área gostaria de seguir. Ele caminhava entre a área de humanas e biológicas, e tinha entre as opções tanto a faculdade de marketing quanto a de biologia marinha. Mas tudo bem, ele ainda tinha algum tempo para decidir.

Eu contei sobre como o trabalho estava uma loucura porque o escritório tinha entrado em uma concorrência para ganhar uma nova conta e ninguém, exceto Edward, entendeu o que era uma concorrência. Expliquei que era o processo para conquistarmos um novo cliente e, no caso de grandes empresas, elas expunham suas necessidades para o mercado e avaliavam as melhores propostas, escolhendo quem mais se encaixasse com o que procuravam naquele momento. Era um período um pouco conturbado porque sempre surgiam novas demandas, literalmente como um teste para ver quem conseguia atender exatamente no formato que o possível cliente - a conta - desejava.

Charlie dividiu conosco sobre o treinamento de novos policiais que estava coordenando. Ele e Edward embarcaram em um papo que basicamente se resumia a lembrar de situações engraçadas que os novatos passavam, seja no campo de treinamento ou no estágio no hospital, fazendo com que todos ríssemos das histórias.

Um pouco antes das nove da noite, Elizabeth começou a ficar irritada e tentar chamar nossa atenção. Claro que eu reconhecia os sinais, ela estava com sono.

Acho que é a hora da sobremesa! - Sue anunciou, quando percebeu a mesma coisa que eu - Vem Seth, me ajude a trazer o bolo.

No final, todos os homens ajudaram a retirar a mesa do jantar e preparar a mesa do bolo enquanto as mulheres estavam distraindo minha filha e tentando mantê-la acordada até o parabéns. Eu só esperava que ela dormisse a noite toda depois disso e me desse algumas horas de descanso.

Quase como mágica, os olhos de Elizabeth se acenderam quando ela viu o bolo decorado em cima da mesa. Edward a pegou do meu colo e levou para mais perto, mesmo que ela não pudesse comer nada foi um momento de expectativa em todos nós para ver qual seria sua reação. Ela esticou uma das mãos, tentando pegar uma flor da decoração, mas foi impedida pelo pai e, ao invés de chorar ou ficar emburrada como esperei, ela tentou novamente com a outra mão e riu para ele, fazendo com que todos rissem também.

Ela passou para o colo de Sue quando chegou a hora do parabéns e ficou encantada com a vela de aniversário que brilhava como uma estrelinha. Claro que eu gravei a cena toda com meu celular.

Depois de comer o bolo e ajudarmos a organizar a bagunça, Charlie se preparava para levar Claire em casa e Edward começou a recolher as nossas coisas para irmos embora também.

Com tudo nas mãos, incluindo um bebê agora adormecido, notamos que começava a nevar. Era a primeira neve daquele inverno, já que no Natal não fez frio o suficiente para isso, e consequentemente a primeira neve de Liz. Ainda que ela estivesse dormindo no meu colo, levantei os braços de forma que ela aparecesse mesmo praticamente enrolada no cobertor, coloquei Edward ao meu lado e pedi para Leah registrar o momento. A foto ficou bonita, nós três em frente a uma árvore que havia ali, com alguns flocos de neve já caindo ao redor.

Aquela noite tinha sido simples e feliz, estávamos guardando mais uma lembrança na nossa história. Eu esperava que pudéssemos repetir a mesma cena por muitas vezes: nossa família, cercada de sentimentos bons e felizes.