Acordei quando percebi que estava sozinha na cama. Ele e a incrível mania de sair sem me avisar. Suspirei, mais alto do que esperava, com os olhos fechados.
- Eu ainda estou aqui, senhorita.
Abri os olhos, procurando uma claridade que ainda não existia. A voz de Edward vinha de algum lugar próximo a mim, mas o sono não me deixava ter certeza de onde. Tateei até encontrar o botão do abajur, acendendo a luz.
- Que horas são? - perguntei, com a voz falhando no final da frase.
- Exatamente quatro e meia. Volte a dormir, Bella. Elizabeth não vai acordar nas próximas duas horas.
Só fazia uma hora e meia desde que deitei pela última vez, mas meu cansaço me apagou de uma forma que parecia muito mais. Mesmo com a luz baixa, observei que Edward estava se vestindo para o trabalho.
- Por que está se arrumando no escuro?
- Não quis correr o risco de te acordar sem necessidade - respondeu – Mas parece que meus esforços foram em vão - acrescentou, exagerando no drama. Eu ri e revirei os olhos.
- Vem aqui… ainda é cedo - pedi
- É cedo, mas seu sogro convocou uma reunião com os atendentes antes do horário das rondas, já que estamos desfalcados com a saída do Laurent. Seis em ponto e você o conhece, não é fã de atrasos.
- Ele poderia ser mais tolerante, vocês estão sobrecarregados de trabalho.
- Como se você não conhecesse o chefe. A única pessoa com permissão para se atrasar é a minha mãe e mesmo assim ela nunca chegou um segundo depois do horário.
Esme era uma pessoa incrível, muito mais do que eu esperava. Por trás da imagem de deusa da traumatologia que ela ostentava com orgulho diante da comunidade médica e da sociedade em geral, havia uma mãe extremamente devota à família. O tanto que Esme era focada no trabalho se multiplicava quando o assunto era se dedicar aos filhos, marido e, mais recentemente, a mim, Elizabeth, Emmett, que ocupava essa posição há mais tempo que nós duas, e claro, a todos os sobrinhos que ela tratava como filhos. Além disso, ela havia se tornado uma boa amiga quando minha mãe estava longe. Definitivamente, ela era muito melhor do que eu qualquer dia imaginei ao procurá-la no Google.
- Um beijo por seus pensamentos.
Edward estava de volta ao meu lado, com o rosto a centímetros do meu.
- Só estava pensando em sua família - respondi - Agora aceitarei meu beijo.
- Nossa família - deu um beijo na ponta do meu nariz - Você faz parte dela desde a primeira vez em que passou pela porta da casa dos meus pais.
Eu realmente pensei que a família Cullen me odiaria. Eu não vinha de nenhuma família tradicional, era estagiária e cinco anos mais nova que o filho perfeito deles. Milhares de pensamentos passaram pela minha cabeça quando Edward me convidou para um almoço na casa dos seus pais. Surpreendentemente - apenas para mim, é claro, pois minha mãe tinha certeza de que eles me adorariam - não foi assim. Eu tinha minhas dúvidas se Rosalie ou Edward haviam preparado o terreno de alguma forma, mas fui recebida muito bem.
Abri a boca para rebater quando seu celular tocou ao lado da cama.
- Bom dia, pai - ouvi Carlisle desejando um bom dia ao filho do outro lado da linha - Mamãe está bem? Estou quase saindo de casa.
A conversa durou poucos minutos, mas os dedos de Edward no meu cabelo foram o suficiente para quase me fazer pegar no sono novamente. Ouvi quando ele se despediu e desligou o telefone.
- Meu pai queria confirmar se chegaríamos no mesmo horário, aparentemente ele e mamãe querem alinhar agendas para um jantar em família - disse - Vou só olhar como Liz está no quarto e vou sair, ok? Saio às seis, posso dispensar Kate e Carmen e ficamos sozinhos depois que ela dormir… o que acha? - completou, passando o nariz no meu pescoço. Inferno de homem perfeito.
- Não estou em condições de pensar em negar qualquer pedido seu agora, negocie os horários com as duas, sabe que não me importo com isso - eu não sabia nem distinguir o que estava sentindo nesse momento - Traga Elizabeth aqui antes de sair, pelo menos não fico sozinha nessa cama.
Escolha errada de palavras.
- Você sabe que odeio te deixar sozinha… - começou, se afastando de mim.
- Edward, você precisa trabalhar. Não é como se fosse um grande sacrifício ficar algumas horas sozinha, tenho a Kate me ajudando e Carmen cuidando da casa. São quase cinco da manhã, não vamos entrar nessa discussão mais uma vez.
O tempo que Edward trabalhava sempre foi um problema. Desde o início do nosso namoro ele se culpava pelos horários malucos no hospital, mesmo que não tivesse escolha. Apesar de ser herdeiro e praticamente o dono de tudo também, ele ainda estava em formação e o pai não deu regalias, assim como não deu para nenhum dos sobrinhos. Eu não ligava muito para isso, com o trabalho e a faculdade não me sobrava muito tempo livre, apesar de ter Rosalie como chefe - e amiga, o que me dava o privilégio de poder negociar sair mais cedo ou entrar mais tarde algumas vezes. Perdi as contas de quantas vezes almocei na lanchonete do hospital ou aceitei uma carona do trabalho até em casa apenas para aproveitar a companhia de Edward. Era assim que as coisas funcionavam, nós tínhamos que nos adaptar.
Quando nos casamos ele já não estava mais na residência, sobrava mais tempo, mas ainda assim ele se culpava por me deixar sozinha quando saía muito cedo ou voltava muito tarde.
Com a chegada de Elizabeth sua culpa se multiplicou. Foram longos nove meses onde ele tentava estar presente o tempo todo e se frustrava quando não conseguia, mesmo que eu estivesse bem com a situação. Eu também trabalhava muitas horas por dia, tinha uma rotina puxada com os clientes e entendia que nem sempre iria conseguir priorizar todas as coisas que gostaria, mas fazia parte da nossa vida.
Quando nossa filha nasceu, Edward tirou uma licença maior que o normal do hospital para acompanhar a minha licença maternidade - um privilégio concedido por Carlisle. Talvez tenha sido a primeira vez em muito tempo que o vi sem preocupações. Ele dedicava cem por cento da atenção a nós duas e estava muito feliz com isso.
Mas o tempo passou e, eventualmente, ele precisou voltar ao trabalho. E eu também quis voltar. Nossa rotina passou por mais uma adaptação. Elizabeth e eu estávamos bem com ela, mas Edward ainda se culpava por não estar sempre por perto.
Não sei exatamente quanto tempo fiquei perdida em devaneios, mas logo meu neném estava em meus braços, Edward estava se despedindo de nós duas e saindo para o trabalho.
- Me ligue se precisar de algo.
- Ficaremos bem, papai - respondi, mexendo a mãozinha de Elizabeth na direção dele.
Quando estávamos sozinhas ajeitei os travesseiros para que ela não rolasse para fora da cama e me deitei, pensando em como gostaria que aquele momento durasse para sempre.
Como um reloginho, cerca de uma hora depois minha filha estava acordada e com fome. Enquanto ela se ocupava com seu café da manhã, peguei meu celular e vi as mensagens. Ser parte de uma família de médicos significava que o dia deles começava cedo e o falatório nos aplicativos também. Passei por uma mensagem privada de Edward, avisando que já estava no hospital.
De: Edward Cullen
Já cheguei. Milagrosamente sem trânsito hoje
Minha mãe vai atrás de você pra falar algo sobre o jantar do final de semana. Ela está muito animada para reunir a família de novo, nem parece que estivemos juntos há menos de quinze dias.
De: Isabella S. Cullen
Muito bem, senhor pontualidade. Sua mãe ficaria orgulhosa.
Provavelmente ela quer que eu bloqueie as agendas.
Olhei para baixo, Liz continuava sugando meu peito como se fosse a última coisa que ela veria no mundo.
- Vá com calma aí, neném.
Como se me entendesse, ela deu um meio sorriso e diminuiu o ritmo.
- Você é tão mais do que eu mereço.
De: Edward Cullen
Parece que em breve teremos uma nova colega de trabalho, minha nova chefe, mas ninguém quis me dar mais detalhes. Não sei porque meu pai simplesmente não me coloca no cargo logo se é o que ele quer.
O que está fazendo aí?
De: Isabella S. Cullen
Você escolheu fazer as coisas dessa forma, seu pai vai esperar seu tempo agora.
Sua filha está tomando o café da manhã. Eu estou contemplando
Aproveitei a oportunidade e registrei o momento, enviando uma selfie de nós duas para Edward em seguida.
De: Edward Cullen
É o amor da minha vida inteira
Você é o segundo
Depois da nossa conversa ele não vai me promover tão cedo
De: Isabella S. Cullen
Me conformo com o segundo lugar, você também é por aqui
Mas você mudou de ideia sobre ter um cargo de chefe?
De: Edward Cullen
Não sei se mudei de ideia, mas é frustrante ter que dobrar turnos porque o chefe do departamento saiu sendo que eu poderia ser o chefe. Só me faz pensar...
De: Isabella S. Cullen
Podemos conversar sobre seus pensamentos mais tarde…
Agora preciso dar atenção a uma pessoinha aqui
Antes que eu pudesse mudar de conversa no aplicativo de mensagens, Elizabeth reclamou e soltou meu peito. Timing perfeito. Troquei-a de braço, torcendo para que ela estivesse com fome e pudéssemos passar mais tempo juntas.
Infelizmente não teríamos paz e mais uma mensagem chegou em seguida.
De: Rosalie Cullen
Bom dia, meu lindíssimo raio de sol. Está podendo falar? Meu pai acabou de jogar uma bomba no nosso colo, teremos um dia cheioooo
De: Isabella S. Cullen
Bom dia, deusa da criação. Acabei de trocar sua sobrinha de peito, aproveite que não posso sair daqui
Eu ia completar a mensagem, mas um dos nossos grupos de trabalho também apitou. Seria um longo dia.
Cullen Foundation x CM
De: Carlisle Cullen
Bom dia, meninas. Me desculpem o horário, mas preciso de uma reunião com vocês hoje.
Vou pedir que alguém envie as informações.
Quase que ao mesmo tempo, meu celular tocou com uma ligação de Rosalie. O relógio mal passava das sete da manhã, eles não podiam dormir como pessoas normais?
- Me dê uma boa notícia, Rose.
- Infelizmente ainda não consigo. Juro que meu pai está tentando nos matar - a voz de sono era inconfundível - Ele SABE que não funciono antes das nove. Não sei nem o que ele quer e já detesto o tema!
- Não funciona antes das nove até ser mãe. Sua sobrinha me acordou três vezes essa noite e já está acordada de novo.
- Deus me livre. Vou repassar essa informação ao Emmett, quem sabe ele desiste.
- Sabe que isso não vai acontecer, você também quer um bebê de olhos azuis.
- Mais alguns anos… - a voz dela ainda estava arrastada, idêntica à do irmão - posso passar aí? Te levo pra tomar café, vejo a Liz também, já estou acordada mesmo.
Olhei no relógio. 7h15. Em breve Carmen e Kate estariam aqui.
- Vem tomar café comigo aqui em casa, depois vamos juntas - convidei.
- Chego em 20 minutos.
- Perfeito, a mesa estará posta.
A essa altura, Elizabeth já havia terminado seu café da manhã e estava brincando com um botão do meu pijama, ela ficava cada dia mais esperta.
Coloquei meu bebê na cama cercada por travesseiros e, sob protestos dela, fui me vestir para o dia. O clima ainda estava meio frio então escolhi uma calça preta e uma blusa de tricô azul, provavelmente colocaria uma jaqueta por cima. Não tinha a menor paciência para montar looks totalmente planejados, como Rosalie e Alice faziam, eu era prática. Estava escovando meu cabelo quando a campainha tocou. Rapidamente atravessei o apartamento e abri a porta para Carmen e Kate.
- Bom dia, sra. Cullen - cumprimentaram
- Já pedi para me chamarem de Bella, pessoal - respondi, dando passagem - Ainda estou me arrumando, podem colocar a mesa para o café da manhã, por favor? Rosalie está chegando, ainda vamos ficar um tempo por aqui.
- Claro, Bella. Quer que eu faça alguma coisa em especial?
- O de sempre para mim, Carmen. Quanto a Rosalie, acho que podemos esperar, nunca sei qual dieta ela está seguindo. Vou terminar de me maquiar, pode vir no quarto quando terminar aqui, Kate?
Carmen era uma velha conhecida da família. Ela trabalhou na casa dos Cullen, conhecia Edward e Rosalie desde o berço e gostava de continuar cuidando deles. Quando nos casamos, ela veio trabalhar conosco. Kate, sua filha, era uma enfermeira que chegou na nossa casa ainda na minha gravidez, para me ajudar nos primeiros dias de maternidade e ficou como babá.
Eu gostava das duas, sentia que minha filha estava segura. Além disso, elas também eram boas companhias, tinham ficado ao meu lado durante o tempo todo.
Não passei muito tempo pensando sozinha, porque Elizabeth recentemente havia descoberto que poderia gritar. Não sei como, nem em qual momento, mas agora ela sabia que quando quisesse chamar atenção de alguém, era só gritar.
- Sua mamãe precisa se arrumar. Logo a tia Rose chega.
Além de gritar, ela agitava as mãos e os pés no ar. Minha filha era geniosa, eu dizia que ela era um recado do universo me dizendo: pague agora tudo que fez seus pais passarem, Isabella. Precisei colocá-la sentada em meu colo, com um pincel que ela usava de brinquedo nas mãos, enquanto terminava a maquiagem. Era isso ou provavelmente esqueceria alguma etapa - e dessa parte, eu gostava.
Estava escolhendo um sapato no closet, ainda segurando Liz, quando Kate entrou no quarto.
- Precisa de alguma ajuda, Bella?
- Ah, graças a Deus! Hoje ela está impossível, só quer ficar no colo. Vai com a tia Kate, neném - ela se esticou ao mesmo tempo em que Kate abriu os braços - Edward comentou com vocês sobre horários? Provavelmente ele chegará mais cedo hoje, aí vocês podem sair mais cedo também.
- Tem certeza que não vão precisar de nada mais tarde?
- Sinceramente espero que, após o jantar, não - ri enquanto calçava uma bota - Já será um milagre se conseguirmos de fato chegar mais cedo em casa.
Terminei de me arrumar enquanto Kate brincava com Elizabeth em frente ao espelho e ela dava gritinhos de empolgação quando se reconhecia. Quase no mesmo momento em que finalizei, ouvi a campainha tocar novamente. No segundo em que colocamos os pés na sala, um furacão loiro estava ao meu lado.
- Cadê a neném mais linda da titia? - perguntou Rosalie, já pegando a sobrinha dos braços de Kate.
- Bom dia pra você também, Rose - continuei caminhando até a mesa de jantar, onde Carmen estava colocando nosso café da manhã.
- Meu anjo celestial, eu preciso de um momento de paz e tranquilidade antes do caos que está prestes a se tornar esse dia. E quem melhor que a outra anja enviada diretamente dos céus para me dar isso?
Rosalie era a maior entusiasta da minha família. Ela arranjou minha primeira saída com Edward, planejou o pedido de casamento, foi madrinha do mesmo e quase surtou quando descobriu que seria tia. Até rolava um ciúme entre ela e Leah, mas eram situações e lugares muito diferentes. Tinha espaço para todo mundo.
Ela estava noiva, há algum tempo, de Emmett McCarty, um advogado de dois metros de altura que me fez ter vontade de sair correndo quando o vi pela primeira vez. Isso até ele abrir a boca e soltar alguma brincadeira ou provocação que fizesse todos no ambiente darem risada. Eles eram um casal muito bonito visualmente falando, mas conhecendo mais a fundo percebi que eram também exatamente o complemento um do outro. Enquanto Rose era extremamente agitada e por muitas vezes até impulsiva, Emm era tranquilo e planejava cada passo. Ele acabou se tornando um grande amigo também.
- O que é tão grande e caótico? - perguntei, me sentando à mesa - Escolha algo para comer e me conte.
- Você abriu seu e-mail hoje? Sabe qual é o tema da reunião? - rebateu com outras perguntas - Carmen, pode trazer aqueles ovos mexidos maravilhosos que só você sabe fazer? - voltou sua atenção para Carmen, que acabara de deixar meu prato na mesa.
- Claro, querida. Volto já.
Não eram nem oito da manhã e Rosalie já parecia estar ligada no 220v. Puxei seu braço livre - minha filha estava no outro - levemente para chamar atenção.
- Respira, Rose. Você vai ter um infarto antes dos 30 - pedi - Não faço ideia do tema de nada.
- Eu faço 30 no ano que vem, cunhadinha - respondeu, ignorando completamente meu pedido. Pelo menos ela se sentou à mesa - O tema é a nova contratação do hospital.
Ela tinha raiva na voz, algo incomum até para Rosalie. Às vezes ela alterava o tom com algum cliente, mas nunca se descontrolava totalmente.
- Qual é o problema, Rosalie?
- Jessica Stanley é o problema.
Aquele nome automaticamente fez minha cabeça voltar para anos atrás.
