Dinheiro Fácil Traz Castigo


Tribunal de Royal Woods.

"Silêncio na corte. Iniciemos a sessão." Ordenou o juiz, dando marteladas na bancada. "Caso 9.861: famílias Loud e McBride contra o shopping de Royal Woods. Mais precisamente, contra o setor de segurança do shopping. Acusação: abuso infantil, falsa apreensão e roubo de dinheiro que os queixosos usariam na compra de ingressos do show da banda SMOOCH que por sinal, é uma das minhas favoritas. Como a parte acusada se declara?"

"Inocente, meritíssimo." Avisou o advogado de defesa. "Meu cliente não fez nada além de cumprir os procedimentos regidos pelo setor de segurança do shopping de Royal Woods. Aquelas crianças não deviam ter se envolvido em ações ilegais. Com certeza, mereceram a punição devida."

"EU PROTESTO." Gritou Rita Loud quase quebrando a mesa com um murro. "Ele roubou de duas crianças não só dinheiro, mas o sonho de verem seu primeiro show ao vivo. Ele é um canalha e ladrão. Exijo justiça. Exijo transparência. Exijo providência."

"Ordem, ordem." O juiz se manifestou. "Senhora Loud. Entendo que se sinta nervosa, mas devo pedir que se controle. Entendido?"

"Sim, excelência. Desculpe." Rita sentou-se mais calma, amparada por seu marido, dizendo que tudo se resolveria.

"Certo. Prosseguindo, ouçamos a parte queixosa. Advogada?" A moça de cabelo ruivo aproximou-se do juiz.

"Sou Sharon Katsutomo, advogada representante das duas famílias. Chamo ao banco Lincoln Loud e Clyde McBride."

"Mas logo os dois ao mesmo tempo, senhorita Katsutomo?"

"Eles fizeram questão, excelência. Além disso, ambos estão envolvidos na questão." Com a permissão dada, os dois meninos se assentaram ao lado do juiz.

"Por favor, digam seus nomes."

"Sou Lincoln Loud." "E eu, Clyde McBride e juntos somos..." Ambos juntaram as mãos nos ombros. "CLINCOLN MCLOUD."

"Clincoln Mcloud? Bem, coisa de criança. Vejamos então. Poderiam contar com suas próprias palavras o ocorrido?"

"Certamente. Bem, Clyde e eu somos grandes fãs do SMOOCH e trabalhamos muito pra ganhar dinheiro pros ingressos no show que se ia se dar no shopping, fazendo diversas tarefas pela vizinhança, indo de cortar grama até passear com animais. Foi um sufoco, mas valeu a pena."

"Nos preparamos como grandes fãs que somos, nos vestindo e maquiando. Chegamos lá e tivemos que enfrentar uma baita fila, mas valia tudo pelo show. Quando foi nossa vez, os ingressos tinham acabado. Parecia tudo perdido, mas um homem disse que era cambista e nos ofereceu os ingressos. Quando o pagamos e pegamos os ingressos, ele nos algemou. Era um segurança pronto pra pegar quem comprasse entradas."

"Na detenção, liguei pra minha mãe vir nos buscar, mas quem atendeu foi minha irmã Luna. Ela veio disfarçada pra nos soltar, mas infelizmente, o Bobby, namorado da minha irmã Lori..."

"O Bobby bobão. A Lori não merece ele." Resmungou Clyde bem aborrecido.

"Aham. Continuando, o Bobby deu com a língua entre os dentes e Luna foi desmascarada, ficando presa com a gente. Levou um tempão pra minha mãe vir nos buscar, mas era tarde demais. Perdemos o show das nossas vidas."

"E como se isso não fosse o suficiente, o guarda que nos pegou nem devolveu nosso dinheiro. Suamos pra caramba pela grana e além de nos fazer perder o SMOOCH, ele nos roubou na cara dura." Clyde declarou parecendo que ia chorar, mas Lincoln lhe deu um abraço.

"Err, acho que é suficiente. Podem descer, crianças." Autorizou o juiz. Ele desviou o olhar sobre o acusado e foi dos mais feios que já tinha feito, o deixando tão nervoso que puxou a gola da camisa. "Advogada, a próxima testemunha."

"Eu chamo Luna Loud." Luna se ergueu e sentou no banco dos réus. "Senhorita Luna. Confirma tudo que seu irmão e o amigo dele disseram?"

"Pode crer, digo, sim, senhorita. Tava em casa afinando minha guitarra quando atendi o telefone. Era o Lincoln dizendo o que tinha acontecido. Vendo que estavam em apuros e não desejando que perdessem seu show, fui disfarçada como mamãe e tentei tirá-los de lá, mas o tonto do Bobby estragou tudo ao me reconhecer. Fiquei arrasada por tudo que se deu, pois sei como é importante o primeiro show, pois quando assisti a apresentação com Mick Swagger, na hora descobri quem eu era e sou o que sou hoje, mas por causa das ações de um guarda corrupto, meu irmãozinho perdeu esse momento."

"Protesto. Não aceito que me chame assim. Só cumpri minha obrigação."

"Qual? De roubar os sonhos de duas crianças? Não podia escolher outra vítima, seu traste? Se eu estivesse com minha guitarra agora, eu descia o som dela na sua cabeça oca."

"Ordem no tribunal. Ordem. Mocinha, não irei tolerar ameaças no meu tribunal, embora esteja certa e até esteja de acordo. Pode descer." Luna saiu contente pelo que tinha dito e não se arrependia, pois faria isso sem pestanejar.

"Advogada, chame a próxima testemunha e espero que seja mais comportada."

"Sim, meritíssimo. Chamo Bobby Santiago." O jovem hispânico veio pra frente e tinha uma cara bem deprimida, com que caído em lágrimas intermináveis, mas foi pra depor.

"Então, senhor Santiago. Você conhece os dois garotos, Lincoln e Clyde. Correto?"

"C-correto. Lincoln é o irmão caçula da minha, e espero que ainda seja, namorada Lori."

"E os viu no dia do show do SMOOCH?"

"Sim, eu os vi. Eles esperavam na fila pra comprar as entradas e um pouco depois, encontrei a Luna vestida como a senhora Loud na sala de segurança. Não saquei bem o que se deu na hora, mas depois do que a Lori me contou, eu devia ter feito algo. Agora, de bronca, ela não vai falar comigo por 2 semanas. Nem responde minhas mensagens. Meu docinho...buááááá." O jovem latino derramou lágrimas como uma cachoeira. Vendo ter o bastante, o juiz o dispensou.

"Espero que possamos terminar logo. Isso está ficando ridículo. Senhorita Katsutomo...?"

"Eu convoco pra depor Ulisses Baker, o segurança do shopping." Uma vez escutado seu nome, Ulisses deixou seu assento e tomou o de lado do juiz. Sharon veio pra perto com um semblante agressivo.

"Então, senhor Baker. Trabalha como segurança do shopping de RW, certo?"

"Sim, está certo."

"E seu serviço é de manter a ordem no lugar. Confere?"

"Perfeitamente, incluindo deter menores infratores. Eles deviam estar cientes de que é ilegal comprar ingressos e entradas de cambistas."

"Mas não sabíamos disso. É o primeiro show que iríamos participar e por sua culpa, perdemos o SMOOCH. Nem nosso dinheiro você devolveu e ralamos muito pra ganhá-lo." Lincoln protestou.

"Ele era prova. Lamento por seu show, mas não deviam ter infringido a lei."

"Mas essa situação não precisava ter acontecido." Sharon tratou de falar. "Pra começar, eles são os culpados de terem comprado os ingressos, você diz, mas quem os ofereceu em primeiro lugar? Não foi o senhor?"

"Bem, é claro, mas..."

"Ao meu ver, se não queria vê-los cometendo um crime no seu território, não devia ter incitado o crime. Comprar ingresso de cambista é ilegal, mas vendê-los, principalmente pra menores, também é ilegal. Não concorda?"

"Concordo, porém..."

"Então reconhece que sabia da gravidade das ações que se dariam e mesmo assim, optou por realizá-las. Não e verdade?"

"Não. Quer dizer, sim, mas se eu puder falar..."

"O senhor recebe pouco na sua função de segurança?"

"Bem. Mais ou menos. Não é uma mixaria, mas tem horas que se é necessário um bico ou outro pra ter uma renda extra."

"E que melhor meio de aumentar essa 'renda' do que vender ingressos pra crianças e depois detê-las, alegando que cometeram uma infração e com isso, embolsar o dinheiro que deram tanto trabalho pra ganhar, sem se importar que efeito iria se dar nas vítimas?"

"Não é verdade. Eu cumpro meu trabalho com dignidade e integridade."

"Oh, é sério? E por que não vejo no seu relatório de serviço o registro do dinheiro coletado como 'prova' desse crime? Eu falo porquê: porque não passa de um ladrão ordinário e abusador de sua própria autoridade. Colocar algemas em crianças? Por favor, são dois meninos de 11 anos que só queriam ir ao show de suas vidas e acabou com esse sonho por uns trocados? Não passa de um abusado e corrupto que merece todo o peso da lei."

"Objeção, meritíssimo. Ela está se dirigindo ao meu cliente de forma grosseira e inadequada." Falou o advogado de defesa.

"Negado. Vejo que a senhorita Katsutomo tem toda razão em se queixar de seu cliente. Se fosse eu a passar pelo que esses meninos sofreram, iria querer justiça também. Tem mais alguma coisa que queira declarar, advogada?"

"Somente que ele pague por seu crime e uma indenização mais que justa seja paga aos meus clientes por parte do shopping de Royal Woods, uma vez que foram nas dependências do estabelecimento que ocorreram as infrações." Tendo concluído seu depoimento, Sharon retornou para seu lugar. Os Loud e os McBride se mostraram contentes por ela.

"Saiu-se bem, Sharon. Creio que temos uma chance, não acha?"

"Não duvide, senhora Loud. Já era tempo de alguém pôr um ponto final nesse tipo de imundice. Estamos com a faca e o queijo na mão."

"Faca e queijo? Vamos a um piquenique? Achei que era um julgamento." Leni disse em toda sua ingenuidade. Ninguém quis dizer nada, exceto Howard McBride ao chegar perto da advogada.

"Obrigada por nos defender, Sharon."

"Não por isso, amor. Qualquer coisa pro meu futuro noivo e meu futuro filho, Clyde. Lamento que Shiori não pôde vir, pois ela precisou levar Komimo à aula de natação."


Após o intervalo, todos se puseram de pé para receber o juiz, aguardando pela decisão. "Todos se sentem." Ele ordenou.

"Depois de examinar com cuidado as provas e depoimentos apresentados, cheguei a minha decisão. A corte decide em favor...das famílias Loud e McBride."

Uma explosão de hurras e vivas soou por toda a sala. Eram abraços, fogos, cadeiras voando e qualquer outra coisa em comemoração da vitória. Ulisses Baker desceu a cara na mesa em sinal de derrota. Por fim, o juiz pedir silêncio e ordem no recinto.

"Não foi tão complicado chegar a essa decisão, pois entendo como essas crianças passaram por um grande desgosto em perderem uma grande oportunidade de verem seus músicos favoritos e nada é pior do que machucar o coração de uma criança. Dessa maneira, a gerência do shopping de Royal Woods terá de pagar uma justa indenização aos queixosos por perdas morais e materiais e não vai ser barata nem baixa."

"Isso inclui a restituição do valor dos nossos ingressos, senhor juiz?" Perguntou Clyde.

"Esteja certo disso, filho, e garanto que o valor da indenização será de milhares de dólares. Além disso, o shopping deverá garantir ingressos aos dois meninos para o dia em que a banda SMOOCh retornar à cidade, o que se dará em 8 meses."

"8...meses? Bem, ao menos teremos lugares garantidos." Lincoln ponderou do modo mais otimista que tentou apresentar.

"Por fim, sentencio o infrator, Ulisses Baker, por abuso de autoridade e maus tratos à menores, a um período de serviços comunitários que deverá ser pronunciado logo."

"Ei, excelência? Me permite dar uma sugestão?" Pediu Rita, cochichando algo no ouvido do juiz, que mostrou uma face feliz pela ideia escutada.

"Hmmm. Eu gostei. Vai servir de lição. Já tenho a sentença: o senhor Baker deverá pelos próximos 8 meses, 10 horas por dia exceto domingos, trabalhar como cuidador das crianças da família Loud ou até que a banda SMOOCH regresse nesse período. O que vier primeiro."

"Eu? Cuidar de crianças? Ok, não deve ser pior que a cadeia. Qual a dificuldade de ser babá?" Mas bastou escutarem isso que Lincoln e suas irmãs trocaram vários olhares cheios de malícia e de más intenções.


No dia seguinte...

"Bem. Outro dia de trabalho no restaurante bem sucedido. Se seguir desse jeito, vou ganhar o prêmio de melhor estabelecimento alimentar do Michigan." Lynn Loud falou pra sua esposa dentro do carro.

"Não duvido nada de suas positividade, meu querido." Rita beijou seu marido antes de descer da vanzilla. Uma vez fora, o casal seguiu para sua grande casa barulhenta.

"Hmmm. Como será que Ulisses está se virando?"

"SOCORRO. ME DEIXEM SAIR." A voz desesperada soou por trás da porta de entrada e uma vez aberta, viram o ex-segurança de shopping num estado lastimável como que saído de um combate.

"Ora, vejam isso. Nosso excelente cuidador. Como se deu com as crianças?" Perguntou Rita.

"Crianças? CRIANÇAS? Isso não é uma casa, é um pandemônio. Não faltou arremessos de bolas, explosões químicas, cobras, me atropelarem com um carrinho à motor, as fraudas fedorentas. Não posso com isso. Eu imploro, digam ao juiz que prefiro a cadeia."

"Lamento, meu bom homem, mas escutou o que ele falou. 8 meses ou até o SMOOCH voltar, mas veja o lado bom: só lhe restam 7 meses de sentença."

"7 meses, 30 dias, 4 horas, 25 minutos, 52 segundos e 40 décimos, se não tiver calculado errado, o que duvido." Falou Lisa ao chegar na porta. Nesse minuto, um tentáculo de polvo surgiu, agarrando Ulisses e o puxando pra dentro.

"AAAAHHHHH. DE NOVO, NÃO."

"Sosseguem, unidades paternais. Octus é vegetariano. Não irá devorá-lo...a menos que decida ir contra seu adestramento e provar humanos pela primeira vez." A gênia se virou e entrou. O casal apenas sorriu.

"É, minha vida. Nada como estar em nossa vida normal." Comentou Lynn pra sua mulher quando entravam em seu ruidoso lar. "Escuta. Podíamos usar o dinheiro da indenização pra irmos na praia nas férias."

"Bem dito. Justiça, transparência e providência obtidas, tal para qual."

Vendo seus pais entrarem, Lincoln saiu e como de costume, conversou com quem sempre fala.

"Tá na cara, minha gente, qual a moral. Não há grana fácil pros metidos a espertalhões, pois ela sempre resulta em castigo. Agora é ser paciente e aguardar pelo próximo show, pois pra esse ao menos terei garantia de assistir. Tchauzinho."

FIM.


O que se deu nesse episódio foi um momento dos mais injustos que Lincoln sofreu na série, razão pela qual quis escrever uma versão diferente.

A advogada Sharon, bem como Shiori e Komimo aqui citadas, é remanescente de outro dos meus contos de TLL, O Aguardado Dia, onde ainda defendo certos tabus em relação à alguns personagens e pretendo explorar mais esse conceito.

Não creio ser pouco a punição que Bobby recebeu pelo seu vacilo. Na realidade, talvez devesse ter dado uma pena mais dura, embora seja refresco se comparado ao que o segurança disfarçado ganhou pelo que fez.