Diante disso, no entanto, o ruivo definitivamente não conseguia entender o porquê de uma Linka aparentemente muito irritada estar insistindo para que ele se levantasse em plena madrugada, compreendia menos ainda o motivo da loira estar vestindo tão somente camisola e calça do pijama naquela circunstância.
—Pelo amor de Deus, Linka. — Com a mente ainda parcialmente aérea e um bocado confusa devido o despertar recente e abrupto de um sono pesado, Wheeler sentou-se na cama e, usando a lanterna de seu celular, visto que, dado o frio que fazia, seria de fato um sacrifício levantar-se para acender o interruptor de luz, encarou a colega de equipe, vulgo sua paixão platônica, esforçando-se muito para ignorar o busto inconvenientemente evidenciado pela peça fina de roupa e olhar apenas para o rosto estranhamente sério. —Olha a hora... — Queixou-se e Linka deu um suspiro exasperado.
—Eu sei, Wheeler! É hora de levantar, temos muitas coisas para fazer e você aí, dormindo! — Linka o repreendeu.
—O que?! — O ruivo escancarou a boca, incrédulo e ainda muito confuso, afinal, no dia seguinte, os protetores certamente tinham muitos afazeres. No entanto, a russa estava levando a expressão acordar mais cedo demasiadamente a sério.
Linka, de repente, aproximou-se deveras dele e inclinou-se em sua direção, surpreendendo-o ao deixar seu rosto rente ao dele. Wheeler, subitamente eufórico com a situação, não conseguiu evitar um leve arquejo ao sentir a respiração dela em sua face e constatar o quão perto estavam. Por algum motivo que ele não entendeu, sua mão tremeu levemente ao que segurou a luz do celular de modo a possibilitar a ambos uma melhor visão um do outro, mas então notou algo que fez toda sua animação praticamente desaparecer.
Era impressão sua, ou o olhar de Linka estava estranhamente vago?
—Vamos logo, Wheeler! — A detentora do anel do vento puxou-o pelos braços em uma tentativa de tirá-lo da cama. O ruivo sentiu a pele arrepiar, mais por conta do quão gelados os dedos dela estavam contra seu braço ainda quente do que por qualquer outra coisa, e gemeu em protesto enquanto se enrolava ainda mais nas cobertas. Olhou mas uma vez para a loira que, agora, tinha se afastado e andava impacientemente de um lado para o outro, e então finalmente se tocou do que muito provavelmente estava acontecendo.
"puta merda."
Ele não sabia se ria do fato de que, apesar das controvérsias e do quão assustador isso era, presenciar Linka dormindo de olhos abertos e cobrando-o coisas que ele teria de fazer apenas muitas horas mais tarde era mesmo engraçado, ou de nervoso por justamente estar testemunhando um episódio de sonambulismo de sua amiga. Quer dizer, primeiramente, ele não fazia ideia que Linka tinha isso. Ele mesmo jamais havia presenciado algo assim, na verdade, portanto estava incerto sobre como agir apesar de ter conseguido identificar o que estava acontecendo. Além de que, de repente, ele deu-se conta de que não sabia quais outras coisas esquisitas, sem sentido, e incluso perigosas, Linka poderia tentar ou fazer estando como estava
—Tudo bem, você venceu! — Saiu da cama, por fim, estremecendo quando o ar frio fez contato com seu corpo coberto apenas pelo pijama. Estava frustrado, obviamente, porém decididamente preferia isso a ter de resgatar a loira do mar da Ilha da Esperança ou de sabe-se lá quais coisas loucas ela resolvesse executar em seu estado atual.
—Finalmente! Eu já estava indo acordar os outros. — Linka reclamou, para desespero de Wheeler, que correu em sua direção e a segurou pela cintura.
—Pelo amor de tudo o que seja sagrado, Linka, não faz isso! — Ele implorou, alarmado, mas tomando cuidado para não falar muito alto e acabar acordando-a acidentalmente. Já havia ouvido diversas histórias, todas ruins, a respeito do que acontecia caso acordasse uma pessoa sonâmbula, e Wheeler decididamente não estava a fim de fazer Linka ter um ataque do coração, por exemplo.
—Ei, me larga! — Ela se exaltou, empurrando-o e afastando-o de si. —Wheeler, o que está acontecendo com você? — Inquiriu quando virou-se para ele, fazendo-o perceber que precisava, no mínimo, acalmar-se, Até porque, Não era necessário mais uma pessoa com a mente alterada naquele recinto.
Ele respirou profundamente, tentando pensar em uma maneira decente de lidar com a situação. Linka, vagarosamente, começava a andar de costas em direção à porta, Wheeler diminuiu mais uma vez a distância entre eles e colocou suavemente uma mão em seu ombro a fim de pará-la e impedir que ela porventura se machucasse.
—Está acontecendo, Linka, que você está dormindo de olho aberto e prestes a fazer coisas no mínimo bem estranhas. — Retrucou em um só fôlego e a loira o encarou.
—Wheeler, como é que eu posso estar dormindo, se estou de olho aberto e conversando claramente com você? — Ela redarguiu, irritada.
—Você, que é tão inteligente, por um acaso Já estudou sobre sonambulismo,? — Provocou enquanto dava um sorriso presunçoso.
—Pois saiba o senhor que, eu não só já estudei um pouco sobre isso, como já tive quando criança. Mas eu não tenho mais. — Ela salientou, um tanto quanto desdenhosa, fazendo o colega rir com sarcasmo.
—Tem certeza de que não tem mais? Então, o que significa isso? — O ruivo mostrou a ela a hora no telefone celular, 2 h 24 am. Linka franziu o cenho, contudo, logo tornou a assumir o ar de sabe tudo que vinha ostentando.
—Por Deus, Wheeler! Você precisa ajustar o horário do celular, está explicado porque você é sempre o último de nós a acordar! — Wheeler suspirou, derrotado, ele precisava mudar de tática caso quisesse fazê-la voltar a dormir. Não sabia o que fazer para isso, contudo, sabia que não adiantaria continuar discutindo. Pensou um pouco, nada. Mais um pouco, e novamente nenhuma ideia veio à sua mente. De repente, porém, algo chamou sua atenção para a loira à sua frente.
Linka havia cruzado os braços à frente do corpo e estava tesa, trêmula.
—Frio, não é? — Foi até ela, uma ideia começando a se formar em sua cabeça.
—É, eu não esperava que a temperatura fosse baixar assim. — Ela ciciou.
—Me admira isso vindo de você, Lin. Eu achei que os russos fossem imunes ao frio. — Ele brincou, recebendo um tapa de leve no braço.
—Eu sou russa, não um urso polar! — Os dois riram e ele se aproximou ainda mais.
—O que você está fazendo? — Lin indagou, curiosa, quando ele começou a tirar a camiseta de mangas compridas que usava enquanto ainda se aproximava.
—Toma. — Estendeu-a para ela, mas Linka não reagiu. Ela parecia encarar um ponto fixo em meio à escuridão, e não ofereceu qualquer resistência quando ele mesmo vestiu-a com a camiseta. A roupa ficava folgada em seu corpo esbelto, mas a loira abraçou-se ainda mais de modo a ter o máximo de contato possível com o tecido ainda quente.
—Mas e você? — Linka de repente olhou para ele, um pequeno sorriso em seu rosto de aspecto ainda distante.
—Eu gostaria de voltar para a minha cama, e inclusive o faria se fosse você. — Ele aconselhou, calmo, Linka pensou por alguns instantes.
—Mas, e nosso trabalho? — Wheeler, apesar de tremer violentamente por estar com a parte superior do corpo desnuda, deu um tapa na própria testa, ao mesmo tempo incrédulo e divertido.
—Você é algum tipo de workaholic, por acaso? — Provocou, ela suspirou irritada em resposta.
—A gente faz isso outra hora, vai. — Ele bocejou. Segurou-lhe as mãos frias e, lenta mas seguramente, começou a guia-la até a cama.
—Ei, veja se se comporte! — A loira advertiu enquanto ele ajudava-a a deitar-se, Wheeler a olhou confuso enquanto ela enrolava-se nas cobertas.
—Como?
—Não se faça de inocente, Wheeler. Você sabe muito bem do que estou falando. — Replicou, severa, os braços sugestivamente esticados no lado vazio do leito. —Além do mais, a cama é sua, não é? Não é justo que você fique aí. — Concluiu em um tom mais brando.
"Puta que pariu!" Ela estava mesmo...
Sim, a animação do ruivo havia voltado com tudo, porém, murchou mais uma vez ao que lembrou-se do estado relativamente inconsciente no qual Linka estava.
Ainda assim, no entanto, ele não era bobo. Por mais que soubesse que Linka ficaria irritada com ele quando acordasse e se visse em sua cama no outro dia, ele não perderia aquela oportunidade. Obviamente, não faria nada além de deitar-se na mesma cama que ela, pois também não era um filho da puta pervertido. Todavia, considerando o quão arredia Linka geralmente era com sigo, ela estar lhe permitindo ficar tão próximo já era um luxo do qual não estava disposto a abrir mão.
Ele bem que pensou em retirar do armário alguns cobertores reserva e fazer para si uma cama no chão, todavia, além de tudo o frio quase cortante forçou-o a deixar de lado tal ideia.
Assim sendo, pegou somente alguns travesseiros, os colocando cuidadosamente como uma espécie de divisória a fim de evitar toques involuntários e constrangedores. Tão cautelosamente quanto podia, deitou-se do seu lado da cama e ficou apenas ouvindo a respiração regular da loira incrivelmente já adormecida ao seu lado.
"Era só isso?" Perguntou-se, ligeiramente irritado com sigo mesmo por não haver pensado naquela ideia antes. Lin havia dormido tão rápido, e ele próprio estava prestes a pegar no sono.
Contudo, um braço esguio sendo posto por sobre o travesseiro e o envolvendo despertou-o rapidamente.
—Lin? — Sussurrou.
—Eu gosto quando você me chama de Lin. — Ele surpreendeu-se mais uma vez, mais pelo tom que a loira usava do que pelas palavras em si. —É fofo. — Ela concluiu de maneira suave e aveludada, em nada lembrando a garota esquiva, altiva e geniosa que Wheeler conhecia.
—Sério? Eu jurava que você ia se irritar quando eu te dei este apelido, já que não gosta muito de intimidades. — Ele admitiu, casualmente.
Lin tentou puxá-lo mais para si, entretanto, foi impedida pelo limite improvisado de travesseiros. Não se deixando parar por este pequeno empecilho, no entanto, a loira simplesmente afastou os objetos e aninhou-se a ele. Wheeler ficou tenso, porém não fez qualquer objeção.
—Tudo isso é frio? — Ele brincou, apesar do gesto inesperado tê-lo deixado ligeiramente espantado.
—Também. — Havia algo no tom de voz novamente alterado da loira que fez acender um estranho alerta no cérebro do detentor do anel de fogo. —Mas, tem outra coisa. — A russa continuou, casualmente, e aquela sensação de alarme apenas aumentou na mente do ruivo.
—Sabe, Joey, eu pensei que não gostava de você, mas... — Ele tentou se afastar, mas o aperto de Lin intensificou-se levemente em torno de si.
Joey Wheeler estava tendo um estranho deja vu, aquilo já tinha acontecido antes e isso fazia as partes de seu cérebro entrar em um conflito angustiante. Afinal, tinha certeza de que Linka ainda estava sonâmbula, todavia, ao mesmo tempo também havia a história de que pessoas adormecidas falavam apenas a verdade quando conversavam. E Wheeler definitivamente queria saber a verdade sobre os sentimentos dela em relação a si.
Ou seja, ele acabaria com a raça de qualquer coisa ou ser que ousasse interromper aquele momento, como já havia acontecido tantas vezes.
—Mas? — Ele a incentivou, ansiosamente à espera.
—Mas eu gosto. — Revelou, simplesmente, porém sequer deu tempo ao ruivo de pensar ou dizer qualquer coisa antes de continuar: —Quer dizer, eu não tenho certeza do que é isso, já que me considero terrivelmente inexperiente com essas coisas. — Desatou a falar e Wheeler só pôde ouvir, totalmente estupefato com aquela faceta recém descoberta da loira. —Eu gostaria de ficar com você, eu definitivamente odeio vê-lo correndo atrás de outras garotas feito um cachorrinho idiota. E por Deus, Joey, você é gostoso pra caralho. — Ela passou as mãos pelos músculos perceptíveis sob a pele ainda despida de seu peito e abdômen.
—Baby... — Havia tanto que ele desejava dizer. A maioria das coisas certamente idiotas, era verdade, mas ainda assim. Gostaria de enfatizar novamente o quão atraído havia ficado por ela desde o momento em que a vira, o quão inteligente e incrível a achava. Queria enumerar para ela os sonhos em que a via de biquini, sorrindo maliciosamente para ele ou fazendo outras coisas... Ou então dizendo mais ou menos as mesmas coisas que acabara de dizer, apenas com palavras levemente diferentes.
Mas havia um porém. Em todos aqueles sonhos, Linka fazia tudo aquilo estando plenamente consciente.
—Por que você nunca me disse isso antes? —Questionou, ele precisava saber. Mesmo que Linka não fosse se lembrar de absolutamente nada no dia seguinte e que ele fosse ficar com um leve peso em sua consciência depois, Wheeler iria mais a fundo naquela história que já durava tanto tempo.
—Porque você não me parece o tipo de garoto que leva essas coisas a sério, não quando dá em cima de praticamente qualquer uma que aparece na sua frente. Na verdade, às vezes você parece que não leva nada a sério. — Linka respondeu, e pela primeira vez naquela noite, Wheeler desejou que ela não tivesse sido tão franca. Apesar do tom ainda calmo e vago, aquelas palavras soaram inesperadamente duras para ele.
Ficou quieto por um tempo, não sabia ao certo o que dizer. Linka gostava dele, queria ter algo a mais com ele, porém não confiava o suficiente nele para dar uma chance.
—Você pagaria para ver se eu dissesse que, se começássemos algo, eu levaria a sério? — Sussurrou, virando-se de modo a ficar de frente para ela. Parecia patético, de fato, porém mesmo que Linka de nada se lembrasse quando acordasse, havia uma necessidade de defender-se. Afinal, por mais que gostasse de flertar com as garotas, especialmente com ela, recordava-se perfeitamente de que, mesmo tendo tido apenas uma namorada e terminado com esta inclusive antes de entrar para os protetores, ela havia sido a única enquanto o relacionamento durou.
—Eu não tenho certeza. Eu queria, mas têm vezes em que acho que está bom do jeito que está. E eu não quero que nossa amizade se comprometa caso algo acabe dando errado. Afinal, nós somos amigos, não somos? — Ele demorou muito a responder.
E céus, sentiu-se um total estúpido quando finalmente respondeu. Afinal havia, mais uma vez, tanto que poderia, que deveria ter dito:
Ter afirmado que a amizade de ambos não seria comprometida se algo viesse a dar errado caso um possível relacionamento entre eles não acabasse dando certo era o mínimo. Joey, primeiramente, deveria ter assegurado a Lin que nada daria errado, que ele a levaria a sério e que, se haviam vezes em que não parecia levar as coisas a sério, era porque aquele era simplesmente sua maneira de lidar com a vida e que isso não significava, necessariamente, que ele não se importava. Deveria ter dito, com todas as letras que o que sentia por ela ia muito além da mera atração física e, sentia, um pouco além de uma simples paixão de adolescente.
Mas ele não disse nada daquilo. Incrivelmente, o sempre loquaz e expressivo Joey wheeler ficara quase calado quando mais deveria ter falado.
—Sim, somos. Com certeza. — Afirmou, baixinho, sentindo-a aconchegar-se ainda mais nas cobertas e travesseiros.
Uma parte de seu cérebro o culpava, diminuía e repreendia por haver se omitido daquela forma, mas felizmente a outra parte, a maior, lembrava-o de que dizer tudo aquilo de nada adiantaria, visto que, naquele momento, Linka nem mesmo seria capaz de assimilar corretamente todas aquelas palavras.
Wheeler, por fim, relaxou e resolveu tentar dormir. Sequer tinha vontade de verificar o horário, a versão sonambulamente cômica e aberta de Lin havia tomado bastante de sua noite de sono. Felizmente, agora, a loira jazia outra vez adormecida, e sinceramente ele esperava que continuasse assim até a hora certa de levantar.
O detentor do anel do fogo, no entanto, de repente sorriu abertamente.
Afinal, as peripécias e falas inconscientes feitas e ditas por Linka durante aquela madrugada, definitivamente, não haviam sido algo ruim.
"Ela gosta de mim."
"Deus, ela realmente gosta de mim!"
Pela terceira vez naquela noite, sua animação com toda a situação atingiu um nível alto. Porém, diferentemente das duas vezes anteriores, agora muito provavelmente não tornaria a diminuir. Sua mente fervilhava com planos e mais planos a respeito de como lidar e o que fazer com a valiosíssima informação recentemente obtida, Wheeler já nem tinha certeza se conseguiria voltar a dormir.
