"Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras."

– Marcel Proust


Chris acordou novamente, mas dessa vez com um cheiro de alvejante hospitalar. Enfim estava de volta depois de ter sido salvo do meio do oceano pela B.S.A.A. e muito provavelmente levado ao hospital. De todos os sonhos que já teve na vida esse foi o mais insano e vívido de todos.

Quando abriu os olhos o que encontrou estava longe de ser o que esperava. Não que o que viu fosse uma novidade a essa altura dos acontecimentos.

– Você acordou – Jill o olhou com uma expressão preocupada, a ruga entre suas sobrancelhas demonstrava isso. Estava deitado em uma cama e a sua frente podia ver os rostos da colega e de Barry.

– O que houve?

– Você apagou – ouviu a voz de Wesker de algum lugar de onde não podia ver. – Estava bebendo café com a Valentine em um minuto e no seguinte estava no chão.

Chris olhou Jill buscando por uma confirmação.

– Vou procurar o médico para dizer que você acordou – ela informou antes de sair.

O que tinha dado errado? É assim que se acorda de um sonho, certo? Ele tinha assistido Inception e pelo que entendeu havia situações que o faria acordar de um sonho. Alterar lugares e situações era um deles, morrer era mais um. Quando tudo ficou preto acreditou que acordaria, mas não foi bem isso o que aconteceu.

– Onde estou? – perguntou a próxima coisa óbvia que tinha para perguntar. A dor na cabeça tinha diminuído, porém a sensação de confusão crescia exponencialmente. Ao se movimentar na cama viu o capitão em pé mais afastado.

– Onde mais estaria? – Barry resmungou. – No hospital. Você apagou por mais de uma hora.

– Uma hora? – algo estava muito errado, não poderia ser possível.

Enquanto tentava reorganizar sua mente para descobrir o que de fato estava acontecendo um médico afastou a cortina entrando no cubículo em que estavam. Jill vinha logo atrás.

– Acordou em boa hora, Sr. Redfield. Consegue se sentar? – o homem se aproximou e após fazer o que foi pedido ele apontou um tipo de lanterna para seus olhos. – Siga a luz com os olhos, por favor. Sente algum enjoo, tontura ou dores?

– Eu estava com dor de cabeça hoje cedo, mas nenhum enjoo – uma baita de uma dor. Qualquer pessoa estaria se tivesse voltado 15 anos no passado e não fosse um sonho. Porque estava totalmente aberto para desistir da ideia de aquilo ser um sonho.

– Seus amigos disseram que vocês saíram para beber ontem, certo?

Queria dizer que não, já que na noite anterior estava na China lutando para salvar a humanidade e não se embebedando. A ideia era até agradável, mas irreal. No entanto teria que seguir o que quer que achassem que ele fez naquele lugar para não levantar suspeitas.

– Isso.

– Certo. Os exames que fizemos enquanto dormia estavam todos normais, você também está com os reflexos ótimos, então o seu desmaio pode ser por estresse ou fadiga. Um pouco de ressaca também, é claro. Aconselho que descanse o resto do dia e se alimente bem que amanhã estará como novo. Está liberado.

Tão rápido como o médico veio ele se foi. Aquele deveria ser o pronto socorro e o ritmo em lugares assim era sempre frenético.

– Volte para casa e tire o resto do dia para descansar, amanhã conversamos sobre isso – Wesker se aproximou colocando a mão em seu ombro. O desconforto era grande. O homem parecia tão companheiro e leal como quando o conheceu pela primeira vez. – Preciso de toda a minha equipe em alerta.

– Capitão posso acompanhar o Chris até em casa antes de voltar para o departamento? Não sei se é uma boa ideia deixá-lo voltar sozinho – Jill também se aproximou. A forma como ela olhava o capitão com respeito e fé cega fez com que Chris regressasse ainda mais suas atitudes.

Se tivesse que ser sincero teria tirado a mão de Wesker de seu ombro e atacado antes que fosse tarde. O homem que conhecia e se lembrava era o vilão, aquele que vendeu almas em troca da imortalidade. Alguém responsável pela morte de milhares de inocentes em troca de poder. A pessoa responsável pela vida sombria que vivia.

– Faça isso – com um aceno ele se retirou.

– Também estou indo. Mais tarde passo para ver como está – Barry se despediu. De todas as coisas diferentes com que se deparou até agora o amigo parecia a mais concreta delas.

Assim que estava pronto deixou o hospital. O caminho de volta para seu apartamento foi feito em silêncio dentro do táxi. Enquanto saiam Jill explicou que em um momento estavam conversando e que no seguinte Chris colocou as mãos na cabeça e apagou no chão. Primeiro ela veio acompanhando-o na ambulância e em seguida Barry e o capitão chegaram preocupados. O restante da equipe ficou na delegacia.

Precisava fazer alguma coisa para descobrir o que tinha acontecido. Nos seus papéis de alta constavam a data de 19 de outubro, era impensável algo assim ser possível ao mesmo tempo em que era isso o que estava acontecendo. Sua mente trabalhava em uma velocidade incrível enquanto decidia que chamaria sua vizinha, a Sra. Díaz, e pediria alguns jornais antigos. Sabia que a senhora guardava por causa dos gatos e lá deveria ter alguma informação relevante.

– Está sentido dor? – Jill quebrou o silêncio, estavam quase chegando ao seu destino.

– Não – respondeu evasivo. Ela era uma mulher muito inteligente. Sabia que a Jill de alguns anos à frente o conhecia como ninguém jamais o conheceu. As missões, dores e perdas que compartilharam os uniram em um nível de intimidade tão alto que não era preciso falar muito para que ela perceber suas mudanças de humor. De alguma forma essa garota de agora também parecia entendê-lo e não se lembrava de as coisas serem assim naquela época. Havia companheirismo, mas não toda a cumplicidade complexa que construíram anos depois.

Voltaram para o silêncio no momento que o táxi virou entrando na sua rua. Chris se sentiu envergonhado quando não teve dinheiro o suficiente na sua carteira para pagar a corrida e Jill assumiu as despesas. Não era como se ele tivesse saído de casa achando que voltaria de táxi porque o baque de saber que viajou no tempo foi demais para segurar.

– Chris – Ela o chamou segurando seu braço. Era um toque conhecido e trouxe um pouco de paz para sua cabeça acelerada. – Sobre o que você me disse mais cedo... Sobre aquelas coisas... Não contei a ninguém, mas se estiver acontecendo alguma coisa quero que me conte.

Droga. Tinha falado demais.

Como saberia que tinha voltado ao passado, que estavam no dia 19 de outubro e que nada do que aconteceu na Mansão Spencer tinha realmente acontecido? Os olhares estranhos que vinha recebendo dela podiam ser entendidos. Agora compreendia o porquê de pessoas importantes, tirando o Chefe de Polícia Irons, não acreditarem neles quando voltaram da mansão em julho. Se não tivesse visto e vivido o terror também não acreditaria.

– Aquilo? Não era nada – fez uma pausa dosando suas palavras, o que o Chris de 25 anos diria? Ele provavelmente riria da situação e tiraria o melhor do que tinha em mãos. – Era só uma piada. Você parecia preocupada por causa da noite anterior e eu inventei aquela história. Quem diria que cairia de exaustão logo em seguida?

– Certo – Jill não parecia confiante no que dizia, porém também não insistiu em uma resposta melhor elaborada. – Eu volto mais tarde quando sair do departamento, então... descansa e depois nos falamos.

– Claro – tentou acenar de forma jovial falhando miseravelmente logo em seguida. Era estranho pensar que naquele tempo ele era bom com isso. Era bom com milhares de coisas banais e movimentos despretensiosos, diferente do que tinha se tornado.

O que estava feito estava feito.

Se queria que tudo voltasse ao normal teria que começar a se movimentar e com isso na cabeça tratou de subir as escadas do prédio de dois em dois degraus. Ao parar na porta da Sra. Díaz não hesitou em bater. Não hesitaria mais, já tinha traçado o objetivo e não importava quem aparecesse no seu caminho não vacilaria. Não importava que todas aquelas pessoas já estivessem mortas, que ele não pôde salvá-las ou protegê-las, nada o pararia.

Como imaginou conseguiu os jornais que queria. Era na verdade uma pilha deles, inclusive de cidades vizinhas. Havia recortes também e todos eram sobre casos de assassinatos. Aparentemente havia acontecido muita coisa em Raccoon durante o final do mês de junho e até pouco mais da metade do mês de julho. Pegou o primeiro e leu.

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28 de Junho de 1998

ENCONTRADO CORPO DE JOVEM DESAPARECIDO

Foi encontrado na noite passada o corpo de Norman Redley, 14 anos, depois de sete dias desaparecido. O jovem havia fugido de casa após uma discussão com os pais. Depois de um trabalho cuidadoso da R.P.D. o corpo foi encontrado próximo ao Victory Lake com escoriações profundas. Os pais serão chamados para depor.

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5 de Julho de 1998

NOVOS CASOS EM RACCOON

Foi encontrado com menos de 24 horas de diferença os corpos de Susan Wand, 37 anos, desaparecida em 29 de junho e Stuart Boyle, 45 anos, desaparecido na última sexta-feira dia 3. O número de pessoas sumidas tem aumentado exponencialmente com o de corpos encontrados. A equipe forense informa similaridade nos cortes de Susan e Stuart com os de Norman.

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8 de Julho de 1998

ASSASSINATO EM SÉRIE?

O Departamento de Polícia de Raccoon veio a público anunciar uma investigação mais minuciosa sobre o aumento nos casos de desaparecimento e posterior morte. O Chefe Irons fez uma coletiva na tarde de ontem, 7, confirmando a ligação entre as três últimas mortes. "Chegamos a conclusão, junto com a equipe de legistas responsáveis, que há compatibilidade com as mortes dos últimos dias. Estamos investigando a ligação entre as vítimas para prender os culpados", anunciou o Chefe.

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15 de Julho de 1998

SERIAL KILLER OU FERA?

O grupo de jovens desaparecidos há cinco dias foi encontrado em Raccoon Forest. Um amigo próximo aos jovens Mark Brown, 17, William Corcoran, 16, Arthur Holt, 17, e Amber Holt,15, disse que eles foram até a floresta para gravar um documentário paranormal. No início da semana mais dois corpos haviam sido achados nas proximidades e com essas novas mortes o número de casos subiu para 9. O estado dos corpos, diferente dos três primeiros, estava irreconhecível. O rosto das vítimas e alguns membros estavam dilacerados por dentes. O prefeito se uniu a R.P.D. e juntos adotaram o toque de recolher.

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Ali estava. Era impossível que com todas aquelas notícias o passado estivesse errado. As vítimas eram as mesmas daquele tempo, os lugares e as datas. Naquele tempo as pessoas faziam turnos dobrados no departamento de polícia tentando pegar o culpado sem se dar conta da verdade tenebrosa. Não era um serial killer, nem feras selvagens ou canibais. Era o verdadeiro caos.

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20 de Julho de 1998

OS CANIBAIS DE RACCOON - SEITA RELIGIOSA

O Chefe de Polícia Brian Irons veio novamente a público para informar que conforme as especulações da mídia os corpos das vítimas, que agora são onze, foram devorados. Diferente dos três primeiros casos onde as vítimas sofreram cortes profundos as demais possuíam saliva humana e podemos dizer que eles foram comidos. Devido a gravidade da situação a equipe dos S.T.A.R.S. será a responsável de agora em diante, todos acreditam se tratar de uma seita religiosa adepta ao canibalismo. Também foi anunciado que o toque de recolher ficará mais rigoroso.

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Ah, isso mesmo. Naquele tempo tudo fazia sentido. Ninguém nunca adivinharia que a boa empresa farmacêutica, responsável pelo crescimento da cidade, desenvolvia secretamente um vírus de laboratório para fazer guerra com bio-armas.

Se tudo estava lá Chris não entendia como chegaram ao dia 19. Os casos e ações que foram tomadas, tudo milimetricamente correto. A não ser que Raccoon não tivesse ido pelos ares. Mas e Wesker? Ele era um traidor que foi supostamente morto na Mansão Spencer, não tinha como ainda estar com eles fingindo integridade.

A mansão! Era isso!

Depois que conseguiram escapar com vida da mansão os jornais noticiaram a explosão como um vazamento de gás, os ataques canibais pararam e os S.T.A.R.S remanescentes viraram uma piada. Tinha que ter alguma notícia sobre isso.

Remexeu mais alguns jornais antigo e achou um com data interessante.

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25 de Julho de 2021

MANSÃO SPENCER VAI PELOS ARES - O FIM DOS CASOS CANIBAIS

Na tarde do dia 24 a Equipe Bravo dos S.T.A.R.S. foi enviada para uma missão de reconhecimento em Raccoon Forest, triangulado como o possível local da seita canibal. Depois de longas horas sem se reportar a Equipe Alpha descobriu que perderam o contato com a sua equipe secundária e partiram para a floresta logo em seguida. Durante a madrugada do dia 24 para o dia 25 a equipe principal seguiu as pistas em direção a Mansão Spencer que ficava nas proximidades, lá eles encontraram os seus companheiros que foram capturados pela seita no meio de um ritual. Havia um total de 14 membros de diferentes idades. A mansão estava desativada há alguns anos visto que o dono fica em outra de suas residências o que facilitou o uso discreto da seita. Os seis membros da Equipe Alpha conseguiram salvar os seus parceiros capturados, porém por se tratar de uma construção antiga um vazamento de gás causou a explosão que matou quase todos os membros da seita restando apenas dois. É de conhecimento comum que o jovem Chris Redfield, membro da Equipe Alpha dos S.T.A.R.S., foi o responsável pelo plano que salvou seus companheiros e evitou que mais vidas fossem perdidas.

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Ele foi o responsável pelo o quê? Impossível. Não ele. E não que não tivesse os seus méritos naquela madrugada, mas os fatos estavam errados. Seus companheiros estavam todos mortos. Achar Rebecca e tirá-la dali com vida foi uma vitória interna sua. A jovem era tão nova e inexperiente. Quando a via também enxergava Claire e ainda se lembrava de ter prometido a si mesmo que tiraria a garota com vida daquele lugar.

Sua cabeça voltou a doer. Não era a mesma dor de antes, apenas um desconforto como se estivesse pensando demais. Tentar colocar os fatos em ordem cronológica e adicionar as matérias era complicado. Então resolveu tirar um cochilo. Uma parte sua aceitava a possibilidade de viagem no tempo e a outra de que estava em coma, então se fosse a segunda era uma boa ideia fechar os olhos te tentar acordar no lugar certo com a linha do tempo certa.

Antes foi até a geladeira em busca de algo para comer, o que tinha dentro era um pack de cerveja, água, um queijo meio esverdeado e uma garrafa de leite. Encheu um copo com o leite, bebeu e foi se deitar. Não pretendia dormir a tarde inteira, mas quando acordou com um barulho na sua porta viu pela janela que já era escuro lá fora. E que ele ainda estava em 1998, é claro. Pegou a arma que ficava na cabeceira e pé ante pé foi em direção a porta, alguém estava forçando a fechadura. Quando a pessoa ouviu o "click" e virou a maçaneta ele sabia o que fazer. Com um solavanco puxou a porta, pegou a pessoa pelo braço derrubando no chão no processo e em um movimento rápido imobilizou o corpo.

– Sou eu, sou eu! – Jill gritou do chão. Mesmo imobilizada suas mãos apontavam para cima mostrando rendição. – Meu Deus, Chris, o que você tem na cabeça?

Como ele explicaria isso?

– Droga, Jill, foi mal – pediu soltando o seu braço e ajudando-a a ficar de pé. Ao menos uma coisa continuava a mesma, não tinha tato nenhum perto da garota por quem tinha uma queda. – Me desculpa. Eu estava dormindo e ouvi alguém forçando a minha porta e achei... Achei que estivessem invadindo.

– Você me deu as chaves, não se lembra? – ela balançou um chaveiro na sua frente. Aparentemente uma daquelas era a sua chave.

– É. Foi mesmo – não se lembrava porque nunca aconteceu, mas fingiria que sim. Tinha perguntas que queria fazer e dúvidas a sanar.

– Eu trouxe o jantar, mas está no chão agora – Jill apontou para o saco no chão com a logo do Bar do Jack. – Achei que você não sairia de casar para comer então passei no Jack e comprei dois hamburgueres. A parte boa é que não tocou no chão, a parte ruim é que o meu frango deve ter trocado de lugar com o seu bacon.

De forma natural, como se pertencesse àquele lugar, Jill pegou o saco de papel do chão, fechou a porta e foi até a sua cozinha dizendo que arrumaria os hamburgueres. Quando voltou com duas latas de refrigerante e dois pratos com hamburgueres remontados foi direto em direção a sua cama se sentando ali. Não poderia censurá-la por isso já que não tinha sofás. Ou poltronas. Ou cadeiras. Nem bancos.

– Isso está maravilhoso. Acho que um pouco do seu molho espirrou no meu.

Chris não se faria de rogado. Estava faminto e não perdeu tempo ao dar a primeira dentada. O sabor foi, mais uma vez, nostálgico.

E doloroso.

– Você está comendo com gosto – a companheira sorriu analisando suas reações.

– Estava com fome. Obrigado por isso.

– De nada. Você é relaxado demais com a sua alimentação. Claire sempre me liga preocupada perguntando se você está se alimentando ou apenas se machucado por perseguir bandidos.

– Você tem falado com a Claire? – aí estava mais uma coisa estranha. As duas se conheciam, mas não eram amigas ou trocavam ligações.

– Você não?

– Não sei, acho que tem alguns dias que não nos falamos – respondeu o que seria o mais próximo da verdade. Do lugar em que veio fazia um tempo que não falava com a irmã.

– Então é melhor ligar antes que ela apareça aqui e vocês briguem porque ela largou a faculdade. De novo.

Um silêncio confortável deu início assim que os dois voltaram a comer sua janta. Jill pareceu notar os recortes e notícias que largou ali perto.

– Tempos sombrios aqueles. Fico feliz que tenha acabado bem – ela comentou com um sorriso cansado. Era o tipo de sorriso que se dá quando você faz o seu trabalho, mas não se sente glorioso por isso.

Aquela era sua chance.

– Pode me falar mais sobre o que aconteceu naquela madrugada dentro da mansão – o pedido abrupto fez Jill encará-lo. Não conseguia ler a pergunta escondida em seus olhos, no entanto sabia que estava lá. – Eu não me lembro muita coisa. Algumas partes estão confusas.

– Oh – iniciou a parceira. – Bem, estávamos esgotados com a história dos desaparecimentos. A mídia estava pressionando os supervisores e eles estavam nos pressionando. Quando perdemos o contato com a Equipe Bravo próximo do possível local dos culpados recebemos ordens de ir investigar. Lá seguimos algumas pistas, rodamos por horas a floresta e descobrimos que havia uma mansão que era usada como o covil ritualístico da seita. Enrico, Richard, Kenneth, Rebecca, Forest e Edward estavam presos em uma das salas. Os caras eram bizarros, usavam mantos e pinturas, tinham foices e rastelos. Parecia que fomos transportados para outra realidade. Você criou um plano de distração para conseguirmos resgatar os outros. Nossas ordens eram as de pegarmos os culpados vivos, mas um deles liberou o gás para que os seus rastros fossem apagados. Eles tinham esse plano desde o começo caso fossem pegos, tinha um tipo de explosivo por toda a casa. Sobrevivemos por pura sorte nossa e sua inteligência. Você salvou a vida de quatorze pessoas incluindo a sua e de dois membros da seita.

Naquele ponto Chris já estava bom em fingir suas emoções, sejam elas surpresa, indignação ou qualquer que seja. Talvez tenha sido o fato de ter lido previamente a história no jornal, mas quando terminou de ouvir apenas maneou a cabeça concordando.

– Fico feliz que tenha terminado de forma satisfatória. Os escombros da mansão foram investigados?

– Sim. Não encontraram nada sobre a seita. Se era algo novo ou se tinha ramificações, mas depois da explosão os ataques acabaram. Os dois culpados não quiseram abrir a boca e agora ficarão lá até mofarem.

Não era bem disso que ele estava falando.

– Você não sabe se eles encontraram mais alguma coisa? – o olhar confuso de Jill demonstrava que ela não estava entendendo. Teria que ser mais claro. – Quero dizer, não encontraram nenhum túnel, ou salas esquisitas na construção. Quem sabe alguma passagem secreta?

– Não até onde me falaram. Era apenas uma casa normal. O dono veio para a cidade logo em seguida para questões burocráticas, mas nada mais foi dito.

A mansão era uma casa normal, Spencer veio para a cidade, Wesker era seu capitão modelo e Chris era um herói de caso de canibalismo. Sem contar que Jill estava confortavelmente sentada na sua cama. Não importava mais onde estava, desde que fossem convincentes e que tirasse todas as provas acreditaria em tudo o que estava acontecendo ali. Não sabia explicar como e nem porque, porém se não usasse um pouco de pequenas loucuras sairia dali em uma camisa de força.

– Sabe se os escombros ainda estão lá? Ou se já mexeram? – tentou mais uma vez.

– Na mansão? Não sei, não ouvi nada sobre isso. É improvável que o dono tenha mandado arrumar o lugar, já estava caindo aos pedaços antes.

– Será que podemos ver o local? – arriscou novamente. Precisava ver com os próprios olhos que não havia passagem secreta para laboratórios secretos.

Jill o encarou. O mesmo olhar enigmático de antes. Ela parecia sentir que havia algo de errado com ele, que o homem que estava a sua frente não era o mesmo que conhecia.

– Este caso te marcou, não é? Foi uma das garotinhas, você e Berry a conheciam, certo? Ainda não consigo entender o que leva uma pessoa a fazer o que fizeram e para ser sincera nunca quero saber. Se esse dia chegar toda a humanidade dentro de mim já estará morta - aquela parecia a Jill que conhecia, menos leve e mais cansada. – Podemos sim, que tal ir amanhã no horário do almoço?

– Você vai comigo? – Chris perguntou desconfiado. Não queria alguém escrutinando seus movimentos, porém era bom ter alguém que já o achava pirado o suficiente para conseguir novas informações. Se achasse o que queria poderia até contar com uma aliada.

– É claro. Somos uma equipe - a mão da garota veio em direção a sua em um aperto reconfortante. A essa altura os lanches já tinham acabado. – Bom, como você não parece bem eu vou voltar para a minha casa essa noite. Vou deixar você descansar mais um pouco essa noite e depois... nos vemos.

– Ah, certo. Desculpa, a minha cabeça está mesmo confusa. Marcamos algo para hoje?

– Algo para hoje?

– É, para você... você sabe... ficar aqui? – perguntou um pouco desconfortável.

– Marcar para ficar aqui?

– É. O porquê de você ficar aqui – Jill parecia um papagaio de pirata repetindo suas perguntas. Chegava a ser engraçada a confusão dela.

– Será que não é porquê somos namorados?

No entanto sua mais nova confusão não era nem um pouco engraçada.

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E aí, pessoal.

Estavam ansiosos pelo capítulo? Me digam quais são as teorias de vocês? Suas perguntas foram respondidas ou ganharam novas no lugar? A leitura está muito maçante? Aceito feedbacks.

Bebam água e cuidado com o Coronga.