Sem chamar atenção, um forasteiro perambulava por entre as infindas vielas estreitas e atulhadas de toda a sorte de mercadorias que faziam do majestoso Mercado Dourado o maior e mais famoso daquele reino.

Com seus passos leves que mal deixavam pegadas no chão enxovalhado de blocos escuros de pedra, o homem passava despercebido pela turba de transeuntes; estes muito mais preocupados em conferir os infinitos estoques que vinham de todas as partes conhecidas do mundo, do que colocar reparo em rostos estrangeiros, embora ele mantivesse o seu quase totalmente oculto por um grande lenço de seda púrpura, o qual também usava para esconder os cabelos longos de um tom exótico de lilás, que trazia trançados, e proteger a pele excessivamente branca quando comparada àquele mar de pessoas de tons de peles que variavam entre o mostarda, o negro e os tons terrosos.

Situado estrategicamente no coração da cidade portuária de Sei Samsara, o Mercado Dourado era a maior joia do próspero Reino de Khan, além do entreposto mais antigo de todos os Doze Reinos, tudo devido à sua localização que tornava possível o acesso à cidade tanto por terra quanto pelos mares do Sul e do Oeste.

Em meio à balburdia de sons, vozes de todas as entonações criavam uma miscelânea de idiomas em dialetos diversos, que somadas a chiados, gritos e guinchos de animais, só não ganhavam mais destaque do que um som em específico, o do tilintar das moedas repicando enquanto passavam de mão em mão entre as milhares de tendas.

O ar era carregado, e nele reinava uma miscelânea de odores, desde os mais aprazíveis ao olfato, como o da alfazema e das ervas que vez ou outra saltavam de alguma tenda que oferecia especiarias, até o azedo cheiro de urina humana, fezes de animais, das carnes de sol penduradas por ganchos em algumas bancas, ou mesmo o azedume de suor das roupas sujas das pessoas que por ali perambulavam.

Ele já estava na cidade a dois dias; os fortes odores fétidos já tinham se tornado tão comuns que não o incomodavam mais. Tinha quinze mil tendas distribuídas em um pouco mais de cem ruas para passar os olhos à procura do que viera buscar em Khan, e não havia explorado nem um quarto disso. Em algumas dessas ruas haviam grandes construções erguidas em pedra maciça. Ali era onde se instalavam os estabelecimentos mais requintados, cujos donos eram importantes e ricos comerciantes, enquanto lotando as ruas, dando a elas um aspecto de formigueiro humano, ficavam os ambulantes.

Ele nunca havia visto tanta variedade de mercadorias, e também de pessoas, juntos em um único lugar.

Podia-se encontrar absolutamente de tudo no Mercado Dourado de Khan; tecidos finos, especiarias, mobília, tapetes manufaturados em toda parte do mundo, cerâmicas, remédios e ervas raras, animais exóticos, pedras preciosas, armas de todo tipo, mapas, livros, comida, artesanato, matérias primas para tudo o que a mente for capaz de imaginar ser feito. E embora fosse de uma terra distante, ele entendia o suficiente da língua falada pela maioria daquela gente para saber que o que uma velha banguela, que o abordou no meio do mercado, queria lhe vender eram poções mágicas. Chegou a cogitar aceitar a oferta, mas uma olhada mais atenciosa nos frascos transparentes de vidro o fez constatar facilmente que se tratava apenas de água tingida por corantes.

De fato, o que falavam daquele lugar era honesto: ele era tão incrível quanto caótico.

Incrível também era a cidade de Sei Samsara. Não tivera tempo o suficiente, tampouco livre, para uma exploração mais despretensiosa desde que chegara, mas nos poucos lugares que havia conseguido visitar, o que mais chamou sua atenção sem dúvida fora o clima tropical, a explosão de cores da fauna e da flora local, muito diversificada e extravagante, bem diferente da gélida monocromia de sua terra natal.

Desviando de um mágico que claramente tencionava usá-lo para exibir seus truques, e depois de um encantador de serpentes, que com sua flauta fazia três répteis embolarem-se uns nos outros enquanto saiam de um cesto feito de palha, o forasteiro seguiu para uma das vielas de onde ouvia uma música agradável repicar bem distante. Conforme avançava, o som ficava mais alto, e ele então conseguiu distinguir alguns dos instrumentos, cítaras, alaúdes, tablas, flautas...

Haviam muitos músicos ali no mercado, e vez ou outra ele os ouvia ao longe, sempre encantado com a batida forte e ritmada que era parte da identidade daquele reino.

Às vezes, curioso ele parava em frente a uma ou outra banquinha culinária, onde encontrava uma grande diversidade de frutas típicas da região, e também pães, sementes, folhas e temperos. Como não estava acostumado com esses tipos de alimentos, acabava por provar alguns que não eram de seu agrado, fazendo em seguida uma careta, arrependido. Em outras vezes a experiência lhe era tão extraordinária que ele sorria e comprava um bocado para levar para hospedaria onde estava instalado para degustar com calma.

Em uma dessas experimentações desbravadoras, ele acabou em uma tenda que vendia especiarias e ali provou uma pimenta tão forte para seu paladar que em segundos o seu rosto pálido ganhou um tom vermelho intenso, e ele sentiu como se tivesse dentro de uma caldeira.

— Por favor... Água! — pediu ao dono da banca, em voz alta e no idioma nativo, gesticulando, abanando a própria boca fazendo seus dedos de leque.

O homem, um senhor de meia idade de pele morena e cabelos escuros quase inteiramente cobertos por um turbante que um dia foi branco, riu da situação do forasteiro enquanto lhe entregava de bom grado seu cantil.

— Agradeça que eu não te ofereci a pimenta Jolokia! — disse o homem, ainda aos risos — Você não é daqui, é?

O viajante olhou para ele enquanto tombava a cabeça para trás. Quase não havia água no cantil.

— Não — disse enxugando a boca com as costas da mão — Sou do Norte.

— Percebi pelo seu sotaque — disse o comerciante, que depois apontou para uma bifurcação naquela pequena rua, logo mais à frente — Depois daquela esquina há uma loja grande de tapetes. Vire a esquerda e vai chegar em uma praça, lá você vai encontrar uma fonte pública. A água é pura, fresca, e boa para beber. Brota de uma nascente subterrânea.

O forasteiro devolveu o cantil ao homem e o agradeceu com um aceno de cabeça antes de sair dali às pressas, aflito por encontrar água.

Com alguma dificuldade em conseguir passar por entre o mar de pessoas que circulavam por ali, e inevitavelmente esbarrando em várias delas, o que o forçava a proteger os bolsos das possíveis mãos leves, logo ele chegou até a dita esquina, onde ficava mais uma das centenas de tendas que vendiam tapetes, mas dali ele já conseguia ver a fonte que o comerciante de especiarias lhe dissera. Caminhando apressado até lá, ele se deu conta de que ela ficava bem no centro do que parecia ser um largo, no qual dezenas de pessoas se aglomeravam realizando as mais diversas atividades à céu aberto.

Para ele foi um grande alívio poder respirar um pouco de ar livre de toda aquela poluição do mercado, e notou que muitos ali procuravam aquela clareira pelo mesmo motivo, além de algum descanso para os pés e para os olhos, exaustos de tanto calcorrear por infindos tesouros oferecidos.

Também ali, junto dos viandeiros, em torno da majestosa fonte centenária, erguida em pedra sabão e mármore branco, rodeados por macacos de pelo vermelho e toda a sorte de pássaros coloridos, os quais vinham aliviar a sede na água sempre fresca e cristalina, haviam muitos artistas; pintores, caricaturistas, músicos, mímicos, escultores, poetas... Eles se instalavam longe das vozes gritadas do mercado para conseguirem ter as suas ouvidas.

Embora curioso por cada nova figura que seus olhos encontravam ali, o forasteiro teve que conter a ansiedade, pois que o incêndio em sua boca o fez correr diretamente até a fonte, onde apoiou apressado o joelho na borda de pedra e com a mão em concha apanhou um punhado de água, já deleitando-se com o frescor desta, e afastando o lenço vermelho do rosto bebeu à vontade. O alívio veio depois de muitas idas e vindas de sua mão na água.

Sem o desconforto da ardência na boca, ele enfim pode olhar ao redor com mais calma, fascinado com cada detalhe que seus olhos atentos capturavam, até que um em especial lhe chamou mais a atenção.

Alguns metros à frente de onde um quarteto tocava tabla e citara para um pequeno grupo de pessoas que lhes ofertavam moedas, uma considerável multidão atiçou sua curiosidade. Já havia notado aquele aglomerado de pessoas naquele ponto quando fora matar a sede na fonte, pois que, diferente dos demais grupos que se concentravam em torno de uma atração e momentos despois já migravam para outra, aquele grupo não se dispersava, ao contrário, a cada minuto mais e mais pessoas se juntavam a ele. Todos, porém, tinham um perfil semelhante, e executavam um mesmo ritual. Traziam consigo cadernos de desenho e giz de carvão, os quais sacavam das bolsas assim que encontravam um lugar para se instalar em meio à multidão, então começavam a rabiscar o papel. Alguns se espremiam entre um tripé e outro; e havia ainda aqueles que rabiscavam no que pareciam ser pequenos pedaços de couro curtido.

Curioso o forasteiro contornou a fonte até ficar de frente com a multidão. A distância e o mar de cabeleiras escuras desgrenhadas, turbantes e lenços sujos, não o permitiram enxergar, de onde estava, o responsável por reunir tanta gente num só local, mas agora que chegou mais perto precisou de algum tempo para confiar que seus olhos, ou mesmo sua mente, não lhe pregavam uma peça; e era absolutamente justificável tal sensação, uma vez que o que via ali parecia ter saltado de um de seus livros de fantasia, tamanha beleza e majestade.

Os olhos do forasteiro estavam cravados na figura em destaque no centro daquele oceano de gente. Um jovem, que sentado displicentemente sobre uma rocha irregular posava completamente nu para as centenas de olhos que o observavam tão atentos que mal piscavam, hipnotizados. Seu corpo era esguio e forte; dava para notar que era bem alto pelas pernas alongadas de tônus perfeito. A pele bronzeada de um tom de cobre rosado reluzia aluminada pelo sol, dando até a impressão de que ele emitia luz própria. Os cabelos, longuíssimos e lisos, caiam em cascatas pelo tronco viril e escorriam pela rocha. Tinham um tom amarelo cor de ouro puro; não se recordava de ter visto um loiro tão vivo daquele em nenhum dos tantos reinos que visitara, nem mesmo em sua terra natal, onde as cabeleiras pálidas eram mais comuns. O ouro também estava presente nas muitas joias que ele usava; pulseiras, anéis, colares, tornozeleiras...

No entanto, embora lhe fosse igualmente instigante, como era para todos que ali estavam, não foi a nudez sem pudores do modelo que mais chamou a atenção do forasteiro, mas os seus olhos.

Sentando-se na borda da fonte, o viajante tentou ver seu rosto, mas este estava parcialmente encoberto, do nariz ao queixo, por uma grande e vistosa pena de Ave-do-paraíso, a qual ele segurava com as pontas dos dedos longos e finos. Por detrás dela, contornados por grossas camadas de kajal negro, revelavam-se os olhos do azul mais incrível que já vira em toda sua vida; cristalinos e profundos como o céu límpido de sua amada terra natal.

Os olhos do modelo na pedra eram inexplicáveis.

O forasteiro ficou tão surpreendido que perdeu a noção do tempo, apenas tentando decifrar aquele olhar, que por fim julgou se assemelhar ao de um corcel selvagem e indomável. Então, levado por uma vontade que surgiu com a mesma força de uma tormenta, sem desviar o olhar daquela criatura em toda sua majestade, ele meteu a mão na bolsa de couro que trazia junto do corpo e de dentro dela tirou um livreto grosso de folhas lisas e amareladas — ele o usava para fazer anotações importantes, ou mesmo como um diário de viagem — e com um grafite que sempre trazia junto para escrever começou ele também a desenhar.

Alguma coisa dentro do forasteiro lhe dizia que precisava registar aquele olhar enigmático e tudo o que ele lhe fazia sentir, e conforme desenhava o jovem na pedra, mais certeza ele tinha de que era uma criatura cuja beleza nenhuma palavra inventada pelo homem podia definir com exatidão ou devida justiça.

O forasteiro era apenas mais um ali, em meio aquele rebanho de artistas, amadores ou não, mas diferente de todos, somente ele tinha sido notado pelo modelo.

Pouco tempo depois, sem qualquer aviso prévio o jovem na pedra girou o corpo esbelto para o lado dando as costas à turba, que lamuriosa principiou a guardar os carvões e pinceis numa manobra que parecia até ensaiada. Ele então se curvou para frente, apenas seu cabelo longo de ouro lhe cobrindo a nudez, e do chão apanhou um manto de puro linho de um tom de laranja tão vivo que parecia ter sido tingido pelas próprias labaredas incandescentes do majestoso pôr-do-sol de Sei Samsara. Antes de se cobrir, pendurou a pesada e farta algibeira em um dos ombros, e sem nada mais a fazer ali deixou o local sem ao menos olhar para trás.

A sessão havia acabado.

Ainda ali, o forasteiro seguiu o jovem com os olhos até determinado ponto e então baixou o olhar modestamente para o papel rabiscado em sua mão. Seus lábios rosados esticaram-se num sorriso comedido, e sem ter mais o que fazer naquele local, já que o alvo de sua inspiração havia se retirado, ele fechou o diário e o devolveu à bolsa de couro, pronto para retomar a exploração do Mercado Dourado.

De volta às vielas e ao mar de barraquinhas, lojas e ambulantes, o forasteiro tentava calcular em sua mente quanto tempo mais levaria para encontrar alguma informação que fosse útil à sua busca. Já começava a pensar que aquele caos não era de todo o mau, afinal não se importaria em perder um pouco mais de tempo conhecendo também as atrações turísticas do Mercado Dourado, não se essas fossem tão interessantes quanto o homem nu na clareira da fonte.

Com um sorriso tão discreto nos lábios que mal chegava a formar um arco para cima, o forasteiro vagueou por entre as ruas lotadas sem rumo ou destino por longos minutos, até que de repente seu olfato apuradíssimo e refinado detectou um odor peculiar, que destoava um pouco de todos os que já sentira ali até o momento.

Ele fechou os olhos e inspirou profundamente. Ah! Que doce e sublime aroma!

O viajante o conhecia muito bem.

Nelumbo nucifera! — ele sussurrou abrindo os olhos.

Guiado pela fragrância ele começou a ziguezaguear à procura de sua origem, pensando no quanto era incrível que um perfume tão singelo e suave quanto o da flor-de-lótus conseguia se destacar daquela maneira em meio a tantos outros odores tão mais fortes, até que sem se dar conta chegou a uma pequena tenda que se destacava das demais por ser exuberantemente colorida e bem organizada. Do forro pintado em azul com constelações impressas em branco desciam lenços de seda coloridos e mandalas de vários tipos. No chão haviam almofadas sobre tapetes persas luxuosos e no balcão, entre os vários mostruários, uma infinidade enorme de pedras preciosas, ornamentais, também joias e algumas penas de pássaros.

O perfume de flor-de-lótus agora era tão intenso que quando ele se aproximou para olhar de perto as mercadorias expostas teve certeza de que ele vinha daquela tenda, o que julgou estranho em razão de se esperar que uma fragrância, aparentemente tão pura e marcante, viesse de algum bazar de perfumes ou essências. Olhou para os lados, intrigado. Era demasiado estranho não haver ninguém ali; um vendedor ou vigia que fosse, já que haviam tantos tesouros naquela bancada.

Depois de um momento pensou em deixar a tenda, visto que na ausência de um dono, e sendo o único a estar ali, em meio a tantas outras barracas abarrotadas de gente, temeu se tornar suspeito caso houvesse algum roubo, mas uma inexplicável vontade maior mantinha seus pés enraizados naquele limitado espaço de chão e seus olhos presos às peças expostas na bancada; em especial em uma sem grande valor aparente.

Era para ela que ele olhava quando de repente o perfume de lótus tornou-se tão forte que chegou a sentir-se levemente inebriado. Atento, ergueu ligeiramente a cabeça inspirou profundamente fechando os olhos, excessivamente distraído para focar-se em qualquer outra coisa que não fosse tentar descobrir de onde ele vinha, até que...

— 50 Ciclus de ouro. Qualquer peça sobre o mostruário à esquerda. As gemas são legítimas. Não faço por menos, por isso não perca seu tempo pechinchando, mas... Podemos negociar outros métodos de pagamento, se for o caso, mas sem pechincha.

A voz veio de suas costas, e o viajante podia jurar que sentiu o calor das palavras perpassar sua nuca.

Ela era de um grave profundo e tão melódico que abalou seus sentidos quase que de imediato, então ao virar-se para seu interlocutor sua surpresa fora igualmente, ou mais, perturbadora.

Ali estava, a apenas dois palmos os separando, o modelo vivo que vira no largo da fonte sobre a pedra. Ainda tinha o manto laranja lhe cobrindo o corpo, mas agora sem a pena a lhe ocultar o rosto.

Com o olhar extático, por um momento o forasteiro o divisou, completamente absorto.

Olhar para ele era como cegar-se voluntariamente, apenas por uns míseros segundos de deleite, para poder contemplar a beleza do sol.

Nada mais existia.

Só ele.

E tudo em seu entorno se apagava.

A proximidade agora permitia ao viajante vê-lo com mais clareza. Ele era alto, alguns centímetros maior do que si, mas não muito pelos seus rápidos cálculos. Seus longuíssimos cabelos loiros quase alcançavam os joelhos, tinham um viço incomum e sob o sol reluziam igualmente majestosos como o ouro exposto naquela tenda. Nem se vivesse mil anos encontraria uma palavra que descrevesse com justiça suas feições, extraordinariamente belas. A boca tinha um desenho perfeito, e era um tanto mais rosada que o tom da pele. O rosto quadrado e a barba rala lhe conservava o ar viril e selvagem que talvez pudesse ser perdido pelas tantas joias que usava. Pulseiras, de todo tipo, quase lhe chegavam aos cotovelos proeminentes. Os brincos de argola eram grandes e pesados. Mas, sem dúvida alguma, continuavam sendo os olhos dele, contornados perfeitamente com finíssimos traços de kajal negro, seu maior chamariz.

— Eu devo considerar que o seu silêncio se deve a um súbito engasgo do seu ego vaidoso como uma resposta física ao preço, claramente justo, da minha mercadoria, ou por não ter entendido o que eu disse, já que claramente você não é daqui; é um estrangeiro — disse o dono daquela tenda, e franzindo a testa com curiosidade levou a mão até o cabelo do viajante e atrevidamente puxou para fora do lenço uma mecha — Nunca tinha visto deste tom antes! É natural?

Como se saísse de um transe, já que estava preso àqueles hipnotizantes olhos que mais pareciam duas gemas da mais rara turmalina azul, o forasteiro piscou os seus, verdes como a relva, e com um gesto tímido e atabalhoado puxou rapidamente de volta o cabelo para dentro do lenço, o ajeitando atrás da orelha a fim de esconde-los novamente. Tudo o que menos precisava era chamar atenção indesejada para sua aparência que destoava da de todos ali.

— Eu entendo a sua língua — ele respondeu na língua nativa de Khan, mas deixando aparente um sotaque carregado.

Um dos cantos da boca do mercador curvou-se para cima num despudorado sorriso, depois, com os olhos fixos aos do viajante, ele levou a mão até o nariz e cheirou os próprios dedos, causando um leve rubor no rosto pálido do outro.

— Como suspeitei! — murmurou mordendo os lábios — Lavanda!

O forasteiro olhava para ele alarmado e em silêncio.

— Lavanda sempre foi um dos meus preferidos! — ele continuou, e fazendo uma pausa moveu-se ligeiro para o interior da tenda, colocando-se atrás da bancada. Seus passos conduzidos por uma sinfonia de tilintares constantes das joias que usava — Muito bem, estrangeiro com cheiro de lavanda, será que o que o trouxe até Sei Samsara está nesta banca?

Os gestos, o cheiro, o caminhar, até o modo como o mercador falava, deixaram o viajante desassossegado, mas ele não sabia exatamente dizer por quê.

— Eu... eu creio que não. — respondeu em tom baixo e comedido.

— Imaginei. Você não me parece alguém que procura por ouro ou joias... — disse o mercador enquanto corria os olhos azuis pela figura à sua frente, e seu olhar era tão intenso que parecia até querer desnudá-lo — Faz algum tempo que não vejo tipos como você por aqui.

— Tipos como eu? — deixou visível sua curiosidade e apreensão.

— Sim. — o mercador se inclinou na bancada para ficar mais perto dele — Tipos bonitos... que cheiram bem, e cuja pele parece ter sido tocada pela lua. — sorriu sedutor para ele, depois endireitou a postura — Ainda não me respondeu. São naturais? — apontou para os cabelos dele.

O forasteiro de repente sentiu ficar sem ar.

— São. São naturais. — respondeu, intrigado com a expressão de pura malícia que estampava o rosto do outro. Rapidamente ajeitou o lenço em torno da cabeça como se quisesse ter garantia de que os cabelos lhe estivessem bem ocultos do olhar firme dele, pois que subitamente teve a impressão de que toda aquela cordialidade e curiosidade poderiam ser um flerte.

Estaria delirando? Ou apenas impressionado demais com a beleza extravagante e ousadia daquele homem?

Sem desviar os olhos do forasteiro, o mercador riu.

— Eu por acaso o estou deixando constrangido? — perguntou sem rodeios — Peço desculpas se for o caso, mas é que todos os dias, dezenas de milhares de homens e mulheres passam por esse mercado, mas raros são aqueles cuja espantosa beleza alcança os meus olhos — fez uma pausa e voltou a ficar sério — Eu o vi na fonte, assim que chegou... E depois junto dos artistas.

O forasteiro arregalou os olhos. Sua surpresa com a revelação abafou um pouco o alarde daqueles elogios descaradamente diretos que o outro lhe fizera.

— Viu? — perguntou interessado, pois que nunca teria cogitado tal façanha.

No meio de tanta gente, era presunção demais imaginar que sua discreta presença pudesse ter sido notada por um homem como ele, sobretudo tendo sobre ele tantos olhares ávidos e cobiçosos, enquanto apenas o desenhava timidamente à distância.

— Com certeza vi — o mercador sorriu.

— É, eu também vi você — o forasteiro imediatamente baixou a cabeça e com os dedos apertou os olhos por um instante, atrapalhado. Encolhendo os ombros tratou logo de se corrigir — Quero dizer, obviamente que eu vi você. Não havia como não ver! Você estava muito... bonito.

Com um olhar felino para ele, o mercador correu a unha ligeiramente pontiaguda do polegar pelo lábio inferior, enquanto sorria sensual.

— Belo, porém desonesto — ele disse.

— Perdão? — o viajante perguntou ao levantar a cabeça e olhar para ele.

Com um movimento gracioso e ligeiro, o mercador regressou ao lado de fora da tenda e parou a poucos passos do outro.

— Eu sei que esses belos olhos verdes viram muitos tesouros nesse mercado hoje, e que alguns deles considerou verdadeiramente bonitos, mas certamente esse atributo simplista não faz jus à minha figura, não acha? — cruzou os braços e levantou o queixo com certa altivez — Pelo menos não foi apenas isso que seus olhos me diziam enquanto olhavam para mim na praça.

O viajante ficou tão embaraçado com aquela ousadia que não suportou manter firme o olhar no rosto dele; virou a cabeça para o lado e comprimiu os lábios, sem saber o que dizer, constrangido pelo flagrante, já que ele estava certo. Quando o viu na clareira, posando nu sobre aquela rocha, não o julgou simplesmente bonito, mas extraordinariamente fascinante! E além da aparência, inquestionavelmente bela, algo nele atraiu sua atenção de imediato. Não era capaz de dizer se era o olhar penetrante e selvagem, a aura misteriosa que parecia englobar toda sua figura que beirava o divino, ou ainda uma força estranha e desconhecida que o fez ter a sensação de estar olhando para um evento da Natureza, tal qual uma queda d´água ou a boca de um vulcão ativo, e não simplesmente para um homem.

Não.

Com toda certeza não saberia como dizer tais coisas a ele sem parecer ridículo.

O silêncio do forasteiro deixava a ele constrangido e ao mercador ansioso.

— Hum... Um homem de poucas palavras — o comerciante suspirou resignado — Não que estas façam falta, já que os seus olhos me dizem tudo que é preciso saber.

Com uma afoiteza súbita, finalmente o forasteiro reagiu.

— Pelo visto as palavras que faltam em mim parecem sobrar em você, junto de uma presunção nem um pouco comedida, não é mesmo? — disse ele voltando a encarar aqueles olhos azuis incríveis, os quais de imediato se arregalaram em companhia de um sorriso espontâneo.

— Ora! Veja só! O receoso colibri enfim saiu da toca! — disse, e então começou a caminhar em torno dele. O tilintar constante de suas joias compondo uma trilha sonora que acompanhava seus movimentos — Eu não chamaria de presunção, mas apenas empreendedorismo.

— O que? — o forasteiro o acompanhava com os olhos.

— Ora, eu sou um comerciante honesto. Contanto, eu espero a mesma honestidade dos meus fregueses — parou quando ficou novamente cara à cara com ele — E você, estrangeiro, adquiriu algo de mim e não me pagou.

O viajante arregalou os olhos surpreso.

— Como é? Eu... eu não comprei nada de você — disse nervoso, então de repente abriu a boca num gesto de espanto — Está sugerindo que... enquanto estava ausente da sua tenda eu peguei algo do balcão? Está insinuando que eu te roubei?

— Não exatamente.

O mercador tinha o semblante tão tranquilo que chegava a deixar o forasteiro com raiva.

— Como assim, não exatamente?

— Você pode esconder muitos segredos a seu respeito, mas eu sinto que ladrão você não é. O que você adquiriu de mim foi na legitimidade, apenas ainda não me pagou por isso.

— Isso é algum tipo de brincadeira? Eu já disse que não peguei nada da sua tenda.

— Da tenda não, mas do que eu vendia na praça — sorriu estreitando os olhos azuis enigmáticos — O meu corpo, a minha nudez. O alimento da alma e dos desejos mais íntimos dos artistas.

O rosto do forasteiro corou instantaneamente, tanto pela acusação quanto pela lembrança do corpo nu daquele homem, exposto aos olhos de todos, inclusive aos seus.

— Você... você é um modelo vivo?! Claro! — atrapalhou-se um pouco com as palavras e desconcertado coçou a testa, perto de onde tinha tatuados dois pontos em paralelo num tom de carmim desbotado, um pouco acima das sobrancelhas raspadas — Eu não sabia, eu...

O mercador olhava concentrado para os dedos dele, que também eram tatuados, com inscrições e símbolos que desconhecia.

— Você me desenhou, não foi? — disse ele cruzando os braços.

O forasteiro deu um suspiro longo, inspirando fundo e expirando o ar pela boca bem devagar, com a sensação de que havia caído em uma armadilha. Ruborizado, considerou explicar a ele que embora sua nudez despudorada lhe tivesse chamado a atenção imediata, não fora ela quem o tinha levado a desenha-lo, mas seus olhos azuis incríveis, e seu olhar de corcel selvagem e indomável. Todavia, achou mais prudente não dizer nada, afinal explicações em demasia só trariam ainda mais perguntas, e afirmariam seu embaraço diante dele.

— Sim, eu o desenhei. — limitou-se a dizer apenas isso.

— Então me deve 2 Ciclus de ouro. — ele disse levantando a mão e mostrando dois dedos.

O forasteiro deu de ombros com uma falsa calma.

— Certo. O que é justo, é justo — disse ele — Mas... esse valor está um tanto exorbitante — voltou a massagear as tatuagens em sua testa — Por 2 Ciclus de ouro eu consigo comprar uma dúzia de meretrizes, que me serviriam por uma noite inteira bem mais que apenas nudez.

O comerciante deixou escapar um riso largo e desenvolto.

— Ora, deveras! — disse apoiando as mãos na cintura esguia, depois inclinou-se para ele e baixou o tom de sua voz — Mas nem doze meretrizes da melhor estirpe seriam capazes de servir a você o que eu sozinho fui. Admita.

— E o que eu deveria admitir? — questionou aflito.

— Que eu lhe proporcionei uma experiência artística inesquecível! — dito isto, ele endireitou a postura e estalou os dedos no ar — Arte! Belo estrangeiro dos cabelos de lavanda. Arte! Tão vital para o espírito quanto o sexo é para o corpo.

O viajante respirou fundo. Estranhamente sentia o coração palpitar e as palmas das mãos suarem.

— Está bem — disse rendido, então levou a mão à cintura e retirou da algibeira escondida por baixo das roupas grossas e pesadas duas moedas de ouro — Não serei eu a questionar o preço que um artista cobra por sua... arte, sendo ele abusivo ou não. Mas que a perda destas duas moedas de ouro me sirva de lição, porque já me ficou bem claro que nenhuma beleza é de graça neste reino, além daquela que a natureza me oferta.

O comerciante concordou com um aceno e estendeu a mão a ele, com a palma virada para cima.

— Serei mais atento de agora em diante — disse o forasteiro, então colocou os 2 Ciclus de ouro na palma dele, mas não os soltou — Mas... já que eu estou pagando tão caro pelo produto que consumi, quero saber exatamente o que comprei.

— Vê-se que é um negociante bem perspicaz. — o mercador fechou os dedos nas moedas, praticamente as arrancando da mão do forasteiro.

Ele sorriu.

— Qual o seu nome, belo modelo e explorador de estrangeiros desavisados?

O mercador olhou para ele e lhe sorriu malicioso, mas antes de responder à pertinente pergunta, abriu rapidamente o manto laranja expondo a lateral do corpo nu esguio e também a pesada algibeira presa à sua cintura, na qual depositou as moedas. Voltou a fechar o manto logo em seguida. Foi uma ação extremamente rápida, mas impossível de passar despercebida pelos olhos do forasteiro, que embaraçado tentou disfarçar pigarreando e direcionando o olhar para um outro ponto qualquer.

— Bem... agora que fizemos negócios não somos mais dois estranhos, portanto nada mais justo que saiba a minha graça — disse jogando os cabelos longos para trás dos ombros, em seguida ofereceu a mão cheia de anéis ao outro em cumprimento — O meu nome é Shakyan Pavo, ao seu inteiro dispor.

Apertaram as mãos vigorosamente.

— Muito prazer, Shakyan Pavo — disse o viajante com um sorriso.

— Aqui no mercado os inimigos me chamam de Pavo e os amigos me chamam de Shaka. Fique à vontade para escolher, mas espero que escolha a segunda opção. — lhe deu uma piscadinha — E você quem é?

— Hamal Mumiah. — disse ele, sem entender a razão de estar dando tanta trela para aquele estranho, que apesar de lindíssimo e charmoso, era visível que não passava de um trambiqueiro nato.

De repente, e sem que o forasteiro esperasse, ainda segurando sua mão Shakyan inclinou-se até que seu rosto ficasse bem próximo ao dele, então inspirou profundamente fechando os olhos. Ele parecia tragar para dentro de si mesmo o odor que exalava da pele do outro, um cheiro que aos sentidos de homens comuns beirava o imperceptível, mas que aos seus era como bálsamo puro.

— Hamal Mumiah... — repetiu num sussurro breve, depois abriu os olhos azuis e encarou o forasteiro, ainda segurando sua mão — O seu nome é tão singular quanto tudo que vem com ele... Quisera ter a chance de desvendar esse instigante, e certamente delicioso, mistério que é você.

Mais uma vez a face do viajante ganhou tons de entardecer, e sem saber o que dizer, quiçá como reagir àquele descarado flerte, ele apenas ficou calado, enquanto o mercador soltava sua mão e vagarosamente voltava para dentro da tenda, se colocando atrás do balcão.

— Bem — disse Shakyan — Embora sua graça me pareça carregar um ar de importância e nobreza, saiba que como não o conheço, ainda, não me obrigarei a chama-lo por seu nome completo. É impessoal demais, Mu.

— Mu? — o forasteiro o encarou franzindo a testa, unindo as pintinhas tatuadas.

— Se importa que o chame de Mu?

— E faz alguma diferença? Nomeie-me como quiser... Shaka. — ele deu de ombros.

— Ótimo! — o mercador sorriu batendo uma mão contra a outra — Então, Mu, se procura ouro e gemas está no lugar certo! Eu tenho o ouro mais puro e as pedras mais raras de todo o reino de Khan. Porém... — nessa hora levantou o indicador em riste e apontou para o forasteiro — Como vi que é um freguês meio pão-duro, por achar abusivo pagar 2 míseros Ciclus de ouro pela joia mais bela desse mercado, aviso que tenho também artigos a preços mais acessíveis, dentro do seu orçamento.

Mu cruzou os braços e foi impossível segurar o riso.

— Prata, bronze, suvenires e... Ah! — com um gesto efusivo, Shaka foi até uma parte da tenda onde havia um tecido de veludo vermelho que servia de cortina. Com um puxão o jogou no chão revelando um grande viveiro, confortável e espaçoso, que ficava ao fundo. Ali havia algumas aves sobre sofisticados poleiros de madeira que imitavam galhos de árvores — Aves ornamentais? Tenho algumas. Faisão, ave-do-paraíso, coruja, pavão... Elas são companheiras melhores que meretrizes, posso te garantir!

Mu olhou curioso e divertido para as aves, mas rapidamente balançou a cabeça em negativa.

— Agradeço a oferta. São belas aves, em especial aquela ali, com a cauda comprida — apontou para o pavão — Mas não preciso de companhia.

— Ora, mas que isso! Todo mundo precisa de companhia.

— Eu gosto de ficar só, e também não desejo viajar carregando nenhum pássaro... Posso te fazer uma pergunta pessoal? — mudou rapidamente de assunto e de fisionomia, se pondo sério.

O rosto de Shaka iluminou-se como se a ele fosse feita uma proposta indecorosa. Deu uns passos à frente, debruçou sobre o balcão e sorriu instigado.

— Até duas, meu caro. — disse ele.

Mu sorriu. Ainda tinha as maçãs do rosto rubras por conta do atrevimento daquele jovem.

— Está bem, farei duas então. Primeira: Se é proprietário de uma tenda que vende o ouro mais puro e as pedras mais raras, além de belas aves, porque então estava nu na praça se expondo daquela maneira? — questionou com uma ruga na testa, verdadeiramente curioso.

Shaka apoiou os cotovelos no balcão e o queixo nos dedos cruzados de suas mãos.

— Já quer fazer a segunda pergunta antes que eu responda a primeira?

— Sim, pode ser — Mu respondeu piscando os olhos — Você sempre de despe em público?

Com os olhos azuis faiscantes fitos no rosto ruborizado do outro, e a rapidez habitual de seus gestos, Shaka se afastou do balcão e puxou mais uma vez para o lado o manto laranja que cobria seu corpo, o expondo pela lateral e despindo parte do peito largo. Em seguida, apoiou a base da algibeira abarrotada de moedas que trazia presa à cintura na palma da mão e deu leves tapinhas.

Era notável que havia uma enorme quantidade de moedas ali, dado o visível peso que ela parecia ter e o som do tilintar do metal.

— Isso responde a ambas as perguntas?

Mu ouvia o som das moedas, mas seus olhos estavam bem longe da gorda algibeira na cintura dele; estavam mais acima, no mamilo rosado exposto, depois na curva do pescoço com o ombro forte, até que vaguearam pelo queixo másculo, pela boca viçosa, e enfim estacionaram cheios de embaraço nos olhos azuis bravios.

Desconcertado novamente, o viajante pigarreou e desviou o olhar para outro ponto qualquer que não fosse o corpo exposto dele.

— Ahh... Sim. Isso responde sim — disse Mu, e sentindo-se quente demais enxugou o suor que brotava da testa com o lenço vermelho.

Shaka voltou a se cobrir, satisfeito ao notar o desconserto do outro.

— São muitos Ciclus de ouro adquiridos em poucos minutos apenas tirando a minha roupa — disse ele sorridente — Regra número um do mercado: nem todos os homens que aqui estão podem pagar por ouro e pedras preciosas, mas todos que aqui estão podem, e querem, pagar para ver um corpo nu. A nudez, meu belo amigo, o sexo, ou simplesmente a insinuação destes, seduzem muito mais que o ouro! O corpo humano sempre vai ser o produto mais rentável desse mundo, e eu seria um comerciante medíocre e estúpido se não explorasse o meu mais perfeito produto: eu. — deu uma piscadinha para Mu.

— De fato. Vendo por esse lado, realmente é um bom negócio... além de um belíssimo produto. — o forasteiro disse a última frase em tom mais baixo.

Notando o olhar discreto, porém claramente cobiçoso do outro, de forma tremendamente espalhafatosa Shaka esticou o braço até alcançar um vaso no fundo da tenda, de onde apanhou uma pena exuberante de pavão branco que estava junto de outras penas de pavão azul, depois a trouxe até o rosto. Fez uma pose sensual e sorriu.

— Eu diria que o mais belo de todo o Reino de Khan — disse sem modéstia alguma, conseguindo arrancar uma pequena risada de Mu — Mas, respondendo às suas perguntas de maneira mais honesta, eu não estava apenas exibindo a minha figura por simples vaidade. Eu estava vendendo inspiração, estava dando aos artistas e aos curiosos o alimento para seus espíritos. Assumo, porém, que gosto de ver os olhares deles sobre mim.

— É, deu para notar que você gosta — Mu sorriu — Você posa para eles todos os dias? Ou com frequência?

— Não. Embora os pedidos sejam incessantes e a demanda exorbitante, eu só poso quando, digamos, as vendas aqui estão fracas e o meu pão e minha farinha estão acabando. Depois, tem as aves... elas precisam comer também. Não posso faltar com elas. — apontou para os pássaros.

— E pela beleza de suas penas, elas recebem uma excelente alimentação e cuidados. — Mu constatou ao desviar sua atenção para as aves que Shaka vendia, admirado com a perfeição das cores.

— Sim. Infelizmente, meu amigo, não se pode comer ouro e pedras, não é mesmo? Aves ornamentais requerem um cuidado muito dedicado e especial, afinal a primeira coisa que desaparece quando elas adoecem é sua beleza. Mas olha que boa nova! Só hoje já garanti o meu pão e a ração das aves para as próximas três semanas!

Pela primeira vez Mu abriu um sorriso largo, bonito, daqueles que mostram os dentes e alcança os olhos. Ele tinha constado que o belo mercador não era apenas um sedutor fútil.

— Você é um homem deveras interessante, Shakyan Pavo. — disse Mu.

— Eu sei. — Shaka respondeu convencido.

— Quando fala das aves, os seus olhos... eles brilham. — o viajante disse, e pela primeira vez desde que chegou ali conseguiu enfim olhar diretamente dentro dos olhos dele, para as íris de extraordinário azul, sem se sentir intimidado.

Um breve momento se deu em que eles ficaram assim, em silêncio, apenas olhando um para o outro, e então Shaka caminhou até Mu, pé ante pé, até parar a poucos palmos dele e lhe estender a pena de pavão branco que trazia nas mãos.

— Pegue. É um presente meu para você.

Estavam tão próximos que o hálito quente cheirando a hortelã dele tocou o rosto de Mu, que fechou os olhos por alguns instantes; era como sentir o prazer de ser tocado pelo frescor perfumado de uma manhã de primavera.

— Um presente? — perguntou abrindo os olhos e pegando a pena ofertada, admirado com a beleza do celo* branco na ponta dela.

— Sim, o mais valioso deles.

Sem entender o que Shaka queria dizer com aquelas palavras, Mu ficou em silêncio novamente, agora segurando a pena entre os dedos, até que numa súbita explosão de euforia, o mercador voltou para a tenda, e balançando os cabelos e o ouro em seus braços pegou um outro mostruário com joias que ficava debaixo do balcão.

— Chegue mais perto, Mu dos cabelos de lavanda, eu quero te contar um segredo.

Já muito envolvido por aquele jovem, Mu deu um passo à frente e se inclinou sobre o balcão, de modo que seu rosto ficou bem próximo ao de Shaka.

— Sabia que algumas espécies de aves têm um único parceiro por toda a vida? — disse Shaka entusiasmado. Seus lábios quase tocando os de Mu, enquanto mostrava a ele um camafeu de madrepérola com dois cisnes esculpidos na tampa — E que quando separadas elas morrem de tanta tristeza?

Mu desviou os olhos do camafeu para os dele.

— Não sei muito sobre aves — disse simplesmente — De onde eu venho não há muitas. Na verdade, quase não há nenhuma.

— As aves têm muito mais paixão e compromisso do que os homens. — Shaka falava em tom baixo, quase confessional — O amor dos homens é falho, fraco, mas o das aves é forte como as leis da Natureza... Elas demoram a escolher um companheiro, as vezes até passam a vida sem encontrar nenhum, mas você sabe por que? Porque quando uma ave ama, Hamal Mumiah, o amor dela será leal e incondicional enquanto o seu coração bater.

A maneira como aquela frase foi dita, somada à intensidade do olhar de Shaka, fez o coração de Mu disparar dentro do peito. Por um segundo chegou a pensar que ele fosse lhe beijar ali mesmo, assim, sem aviso ou mesmo razão, e o mais absurdo era que sentia que se ele cometesse tal atrevimento ficaria aprazivelmente satisfeito.

Mas o beijo não aconteceu.

E como se o momento anterior nunca tivesse acontecido, Shaka endireitou a postura, afastou-se e voltou a falar cheio de entusiasmo.

— É por isso que as aves são os melhores animais de estimação — disse animado devolvendo o camafeu para o mostruário, enquanto Mu piscava os olhos e tentava acalmar o turbilhão dentro de si — Eu já vivi rodeado de homens e de aves, e como pode ver, eu escolhi viver rodeado apenas delas — deu uma piscadinha para o viajante — Mas chega desse falatório e vamos ao que interessa. Quando cheguei aqui você estava com os olhos compridos nas minhas mercadorias. Há algo aqui que deseje?

"Você."

Mu pensou, ainda pelejando para se recompor do furor causado pelos instantes anteriores.

— Bem... Talvez haja algo — disse enfim, limpando a garganta para disfarçar o estranho nervosismo, então tratou logo de correr os olhos pela banca — Não sei...

— Deixe-me ajuda-lo. Tenho aqui esse colar de turmalinas legitimas, e esses brincos de ouro e safiras são raríssimos!

Shaka tagarelava mostrando as peças, mas as únicas preciosidades que Mu conseguia ver ali eram seus olhos azuis, seus cabelos de ouro, sua pele de cobre rosado.

A única joia que interessava a Mu era mesmo o dono da tenda.

— Essa gargantilha de turmalinas negras legítimas já pertenceu à uma renomada dama da corte de Khan, lady Fubertha. Infelizmente ela precisou vende-lo a mim para poder pagar uma caravana que levou para os reinos do Leste. Ela fugiu com um plebeu, acredita? Um criador de cabras, mas foi para livrar-se de um casamento arranjado com um bufão asqueroso que depois morreu de tifo. Felizmente ela se casou com o plebeu, e é dito que tem vida feliz e próspera. Como pode ver, esse colar tornou possível uma bela história de amor, portanto, é uma peça muito auspiciosa.

Mu tomou a peça das mãos dele e a observou por alguns instantes, passando seus olhos treinados pelas gemas negras, depois, para total surpresa do mercador, tirou de um dos tantos bolsos de seu cinturão de couro uma pequena e potente lupa de ourives, com a qual passou a analisa-la com atenção.

Surpreso, Shaka o observava fazendo um gesto de desagrado, erguendo as sobrancelhas em um arco enquanto com os dedos torcia e retorcia o carnudo lábio inferior. Estava visivelmente nervoso.

— Turmalinas negras são muito valiosas, realmente — disse Mu com a lupa encaixada em um dos olhos — Porém, sinto que lhe serei portador de más notícias.

Nessa hora o rosto de Shaka dissimulou uma expressão de espanto.

— Oh! Não me diga que se trata de uma peça falsa? — perguntou correndo os dedos para o queixo, roçando as unhas na rala camada de barba que o encobria.

— Infelizmente sim. A tal lady lhe passou a perna, sinto muito.

— Oh! Não pode ser! — ele espalmou as mãos no peito fingindo indignação.

— Se trata de uma réplica até que bem feita, e considerando que você seja um exímio conhecedor de pedras preciosas, como me parece ser, acho que ela te convenceu pela história comovente — afastou a joia do rosto, guardou a lupa e entregou o colar de volta ao vendedor com um sorriso irônico — São Ônix negras, e não turmalinas, ou seja, o valor desse colar é irrisório.

— Mas veja só! Que velhaca a lady Fubertha! — falou Shaka, e depois de quase um minuto parado ali olhando para Mu lhe deu as costas para guardar o colar junto de outras peças, todas roubadas, as quais ele mesmo havia afanado em suas andanças pelo reino — Espero que também morra de tifo.

De honesto Shakyan Pavo não tinha nem a boa intenção.

Ele era tão bom ladrão quanto era inventor de histórias, e sua beleza única e oratória sempre impecável e convincente, o ajudavam a tornar suas invencionices legítimas, tanto que ele nem se esforçava para ser persuasivo. Quando calhava de encontrar um sujeito mais desconfiado, bastava-lhe usar seu charme e apelo sedutor que o tinha exatamente onde queria.

Mu foi o primeiro homem que o deixara sem uma carta na manga.

— Bem, se o colar era falso, mas ao menos a história verdadeira, eu posso considerar o prejuízo menor. — Shaka sorriu ao voltar-se para o viajante, pensando no que lhe ofereceria, já que agora sabia ele não se tratar de qualquer um, mas de um conhecedor insigne de pedras preciosas. Pensando nisso, apanhou um estojo de madeira entalhada e ao abri-lo revelou um verdadeiro baú de tesouros — Eu tenho aqui muitas outras pedras... Claro, essas eu tenho certeza de que são legítimas, e por isso seu valor é bem superior ao que te passei. Deixa ver... safiras... esmeraldas... Hum... rubis...

Mu admirou o brilho das pedras sabendo que aquelas, sim, deveriam ter algum valor, mas de repente seus olhos se desviaram para uma em específico, que estava do lado de fora do estojo servindo como peso para algumas plumas de faisão.

Ele já havia batido o olho nela quando chegou naquela tenda. Não era uma gema preciosa, mas uma rocha cinza escuro do tamanho de um punho fechado, irregular e disforme, parecendo conter metal fundido em meio ao mineral. Sua superfície parecia porosa, mas em determinados pontos era demasiadamente lisa, o que levava a crer que pudesse ter passado por intenso atrito, frio e calor. Não brilhava, era opaca e nem um pouco bonita, talvez justamente por isso estava sendo usada como peso, porém era a única em toda a tenta, e talvez em todo o enorme Mercado Dourado, que lhe tinha algum valor.

— Esta! — o forasteiro apontou para pedra cinza — Quanto quer pela rocha celeste?

Mais uma vez Shaka se viu surpreendido, e mais uma vez teve certeza de que Mu escondia segredos dos quais a cada minuto que passava em sua companhia ansiava mais e mais por desvendar.

— Esta? — perguntou pousando o dedo indicador na rocha sobre as plumas coloridas.

— Sim. Quanto quer por ela?

O mercador estreitou os olhos fitando sério o rosto ansioso de Mu, então de modo mais comedido, sem o estardalhaço habitual, apanhou a rocha nas mãos e ele mesmo a analisou por um instante.

— Por que quer uma rocha celeste? Sabe de onde ela vem?

— Ora! Achei que sua função fosse vender, e não questionar o que farei com a mercadoria.

Shaka o encarou com firmeza e curiosidade, mas agora seu olhar era analítico, ele estudava Mu, enquanto traçava centenas de hipóteses esdruxulas em sua mente a seu respeito. Talvez ele fosse um feiticeiro, ou quem sabe um andarilho em busca de relíquias raras apenas; poderia ser um colecionador excêntrico, ou ourives à procura de matéria prima sem valor monetário, mas com estima artística, talvez até trabalhasse em um circo e fosse viciado em meretrizes...

— Ei? — Mu chamou a atenção do mercador quando o percebeu distraído.

— Você é viciado em meretrizes? — Shaka perguntou parecendo indignado.

— Como é? — o viajante soluçou assustado pela pergunta descabida.

— Ah! Me perdoe. — Shaka piscou rapidamente os olhos reprimindo aqueles pensamentos estapafúrdios — O que você disse?

— Eu disse que, como um comerciante, o seu interesse deveria se limitar a vender o produto, não acha? Não cabe a mim, que quero compra-lo, lhe dizer o que pretendo fazer com ele. Ou você costuma perguntar aos seus fregueses o que eles farão com as mercadorias que lhes vende?

Shaka respirou fundo, não querendo dar o braço a torcer, e respondeu com certa relutância:

— Quando se trata das minhas aves, não apenas pergunto como também os faço firmar um pacto comigo que me permite ir visita-las para me certificar de que estão sendo bem cuidadas. Não quero ave minha virando ensopado de ninguém. — disse com altivez, então deixou o balcão e foi até o viajante novamente, com todo seu tilintar o acompanhando — E quanto à essa rocha celeste?... Eu posso até vende-la à você, mas creio que tenhamos que negociar outra forma de pagamento.

Mu olhou para ele desconfiado e apreensivo.

— O que está querendo dizer com isso? — estreitou os olhos.

— Que o valor de uma rocha celeste não pode ser medido em Ciclus de ouro.

Mu cruzou os braços tentando domar o nervosismo. Inevitavelmente pensou que vinda daquele homem só poderia ser uma proposta insidiosa, pois que já tinha notado que o que ele tinha de bonito também tinha de ardiloso, dava voltas como uma serpente até chegar onde queria, e se aquela seria a moeda de barganha dele, então teria que recusar, mas não sem antes jogar com sua moralidade.

— Então me diga, Shakyan Pavo — falou em volume baixo e com um pequeno sorriso — Se não quer moedas de ouro, o que posso oferecer em troca da sua mercadoria?

Shaka deu um sorrisinho de lado, e sem dizer nada acercou-se do viajante até que seu nariz, reto e perfeito como se tivesse sido moldado pelas mãos de um caprichoso estatuário, tocasse a pontinha do dele, o fazendo retesar quase todos os músculos do corpo em resposta.

— Hum, vejamos... Talvez você possa me dar... — enquanto falava, com voz rouca e sussurrada, Shaka tocou o ombro de Mu, e sem o menor pudor desceu a mão por seu torso apalpando-lhe a carne firme por debaixo da vestimenta rústica, até chegar a cintura e parar ali — Uma coisa que para você talvez nem tenha tanto valor, mas que para mim...

Num dado momento, Mu sentiu os dedos dele escorregarem por debaixo de seu cinto de couro, e como se fosse tomado por uma inexplicável e inconveniente paralisia, que o fazia prender até o ar dentro dos pulmões, não conseguiu se mexer, tampouco esboçar qualquer reação. Tudo piorou quando sentiu um choque lhe percorrer a região púbica e culminar em uma pequena contração de seu sexo.

Mu engoliu em seco, aflito, não de vergonha, não de apreensão, mas porque surpreendeu-se desejando que a mão dele descesse mais, até enfiar-se completamente entre suas pernas.

Num súbito lampejo de razão, Mu respirou fundo e fechou os olhos.

— Se espera que eu vá... — interrompeu-se quando foi obrigado a puxar o ar pela boca porque a mão de Shaka havia tomado um caminho inesperado; escorregava atrevida até suas nádegas. Mas antes que as mãos dele as alcançassem, o toque desapareceu junto do hálito aprazível de hortelã que tocava seus lábios, e quanto abriu os olhos viu que ele tinha recuado dois passos.

— Que você vá o quê? — o mercador tinha no rosto um risinho de vitória.

Embaraçado, e surpreendentemente excitado, Mu olhou firme nos olhos de Shaka, que fitavam os seus com um ardor voluptuoso, mas eis que de repente ele ergueu a mão na altura do rosto e balançou no ar o seu caderno de anotações e diário de viagem.

— Ei! Como você... — alarmado Mu baixou os olhos para a bolsa de couro que usava à tiracolo e às pressas verificou o interior dela, não encontrando seu livreto de notas — Como você pegou isso?

— A pergunta correta é quando eu peguei isso. — Shaka respondeu sorridente.

— Eu não posso acreditar que você...

— Eu é que não posso acreditar que chegou a pensar que o meu preço fosse sexo. — disse com falsa inocência, fazendo um biquinho — Eu não sou esse tipo de homem, não se preocupe... O meu preço é simples, Mu. Você me desenhou nesse livreto, certo?

Mu esfregou os olhos tentando acalmar sua libido em chamas.

— Sim. — suspirou esfregando o rosto.

— Dê-me o seu desenho e a rocha celeste é sua.

Com a surpresa estampada na face encoberta pelo lenço vermelho, o viajante fitou o diário na mão de Shaka por um momento. Mais uma vez ele o deixava sem palavras.

— E então? — o mercador insistiu — Devo entender o seu silêncio como um sim, ou como um não?

Súbito, num gesto rápido e não muito delicado, e ainda o encarando firme nos olhos, Mu apanhou o livreto de volta das mãos dele.

— Se é isso que deseja... — disse, e então abriu o caderno, folheou as páginas, e entre tantos outros registros de sua viagem que anotara ali encontrou o desenho que havia feito dele. Destacou duas folhas do papel amarelado e após dobra-las ao meio as entregou a ele.

— Eu fiz dois desenhos. Pode ficar com os dois. O primeiro não passa de um esboço, e o segundo está incompleto.

Shaka apanhou as folhas e entregou para ele a rocha celeste.

Assim que fizeram a troca o forasteiro guardou o artefato em sua bolsa e imediatamente em seguida estendeu a mão ao comerciante.

— Foi um prazer fazer negócios com você, Shakyan Pavo. — disse com um sorriso indeciso.

Embora Mu sentisse que poderia passar horas ali, jogando conversa fora e flertes inexplicáveis com aquele completo estranho, o sol já tinha descido um bocado do ponto mais alto do céu, e havia ainda muitas tendas a serem exploradas. Em poucos dias voltaria a sua terra natal e não podia se dar ao luxo de desperdiçar seu precioso tempo com um galanteador trambiqueiro.

— O prazer foi todo meu. — Shaka respondeu apertando a mão do outro — Quando precisar procurar por ouro ou inspiração, sabe onde me encontrar.

— Sim. — sorriu tímido, e quando o outro finalmente largou sua mão recuou uns passos começando a caminhar ainda de costas, sem tirar os olhos dele — Bem, então... adeus, Shaka.

— Até breve, Mu.

O mercador sorria para ele enquanto o via se afastando, até que finalmente ele lhe deus as costas e seguiu andando até ser engolido pela multidão.

Shaka ainda ficou por um tempo ali, com o olhar perdido naquela direção, então de repente sentiu ser tomado por uma melancolia atípica.

Num gesto automático, já que parecia divagar em seus próprios pensamentos, aproximou as duas folhas de papel do rosto e as cheirou. O cheiro do viajante estava impregnado nelas.

De olhos fechados ele inspirou mais algumas vezes, até guardar em sua memória olfativa aquele odor que como nenhum outro parecia mexer com todos os seus sentidos. Não se recordava de algum dia um homem ou mulher lhe ter exercido tal fascínio imediato, e com tamanha intensidade. Será que o veria de novo? Ele pensou.

Desejou, com ânsia febril, que sim.

Se pudesse ir atrás dele decerto que o faria, mas estava claro que ele não era daquele reino, embora não lhe tenha dito de onde era ou sequer dado uma pista. A pele demasiadamente branca, os cabelos exóticos, as tatuagens... Hamal Mumiah deveria ser de um reino distante, talvez um que nem conhecesse, e estava fadado a viver em Khan até o fim de seus dias. Tal constatação o fez dar um suspiro longo e lamentoso.

Afastando os papeis do rosto e os pensamentos melancólicos da cabeça, Shaka regressou à tenda. Ainda tinha que recolher algumas mercadorias e sair para comprar as farinhas para o pão e a ração das aves, mas antes de começar a juntar os badulaques todos expostos ali, recostou-se no balcão e finalmente foi dar uma olhada nos desenhos feitos por Mu.

Ao desdobrar as folhas ásperas, percebeu que o grafite sobre elas em algumas partes havia já se borrado, mas se via que Mu era tão fascinante e belo quanto talentoso. Os traços não demonstravam o mínimo de insegurança. Eram firmes. Começavam em um ponto e iam até o outro em uma constante, reproduzindo seu corpo tal qual seus olhos e sua alma de artista o via; másculo, viril, um tanto devasso ao seu julgamento particular, perfeito!

Shaka sorriu instigado ao reparar que Mu desprendera certo tempo e capricho em determinada parte de sua anatomia, logo abaixo da cintura. Era certo que ele havia gostado do que vira, caso contrário não teria empenhado tamanho esmero e fidelidade ao que tinha no meio das pernas e deixado o rosto inacabado, quase em branco.

— Mas que libertino! — murmurou para si mesmo enquanto retorcia o lábio inferior com os dedos da outra mão — Ele nem desenhou o meu rosto, aquele safardana.

Desencostou-se da bancada e enquanto se preparava para começar a recolher as mercadorias nos expositores foi dar uma olhada na outra folha que continha o segundo desenho.

Foi então que o mundo parou.

Uma lividez de morte tomou seu belo rosto ao olhar para o segundo desenho.

Os olhos azuis selvagens arregalaram-se quase a lhe saltar das pálpebras, e seu corpo todo foi balançado por um tremor tão espontâneo quanto forte.

O coração de Shakyan Pavo principiou a bater tão ligeiro que ele jurava que podia escutá-lo pulsando frenético dentro de si.

Nunca, em toda sua vida, havia sentido tamanho abalo como o que sentia olhando para os traços riscados naquele papel amarelado.

Traços que pareciam desgrudar do papel e tocar sua alma.

— Isso não é possível! — sussurrou em verdadeiro choque.

Num impulso alucinado jogou a folha com o primeiro desenho sobre o balcão e com pressa dobrou e guardou a segunda em sua algibeira. Apanhou um cinto largo de couro com o qual amarrou firme o manto laranja na cintura, calçou apressado as sandálias que deixava na tenda e afoito correu até os fundos desta, passando pela parte de trás dos viveiros com as aves. Ali havia o que parecia ser uma pequena e confortável acomodação, com um colchão feito de crina de cavalos e um espaço para cozinhar pequenas refeições. Todo o resto estava tomado por caixas e mais caixas de sabe-se lá o quê, entre rações para pássaros e mercadorias afanadas para serem vendidas ou trocadas em outros mercados menos visados. Ali também estava um rapaz que tirava um cochilo no colchão. O nome dele era Ágora, e era quem vigiava a tenda na ausência do mercador.

Rapidamente Shaka acordou o rapaz e ordenou que ele fosse para a frente da barraca e de lá não saísse até seu regresso, então feito uma folha que cai da árvore e é levada pelas águas ligeiras de um rio que tem pressa, ele se embrenhou naquela correnteza de gente nas vielas do Mercado Dourado.

Shaka ia atrás do viajante.

Não podia perde-lo... não agora que finalmente o havia encontrado.

* Celo – o olho na ponta da pena do pavão