Hamal Mumiah não era um viajante amador.

Podia, sim, ser ainda bem jovem, mas já viajara muito pelos doze reinos e sabia como ninguém identificar possíveis perigos e ciladas. Contudo, nem era preciso sua experiência e esperteza nata para lhe acenderem o sinal de alerta de que estar sozinho, e cercado por estranhos mal-encarados em um beco sem saída, era um claro sinal de perigo.

Foi sem querer que acabara ali. Tentava ainda decifrar qual enigma rondava toda a exuberante figura do modelo vivo que desenhara no largo da fonte, enquanto caminhava por entre as milhares de tendas do mercado quando, distraído, fora guiado pelo fluxo frenético de pessoas até uma viela sem saída. Os transeuntes, então, foram reduzidos a um pequeno grupo de pessoas, cujo interesse nas mercadorias dos expositores era maior do que em seu dilema pessoal, o qual tivera início no momento em que foi cercado por seis homens e obrigado a caminhar até o final da estreita rua.

Enquanto era escoltado à força, o forasteiro não conseguia deixar de pensar que, se estava ali, prestes a ser assaltado e sabe-se lá o que mais, a culpa era toda de Shakyan Pavo, que o fez expor seu abastado saco de moedas pesadas para o pagamento de dois Ciclus de Ouro por tê-lo desenhado. Em sua mente, já ligava os pontos e racionalizava onde havia errado. Certamente, num mercado grande como aquele, haveriam de ter todo tipo de olhos voltados principalmente às algibeiras de ouro, e ele sem dúvida fora visado enquanto fazia negócios, nada vantajosos para si, com aquele comerciante tagarela. Já começava a pensar que estivera sendo seguido por aquele bando desde que deixou a tenda; eles facilmente usando a multidão como disfarce.

Suor frio escorreu pela têmpora de Mu, que tenso apertou forte com ambas as mãos a algibeira de moedas presa em seu cinto de couro por debaixo da roupa, enquanto discretamente olhava ao redor na tentativa, talvez, de traçar alguma manobra de fuga. Porém, ele estava sozinho contra seis sujeitos enormes e visivelmente dispostos a não largar o ouro, literalmente.

O calor que sentiu repentinamente lhe subir para a face era uma soma do clima quente de Sei Samsara e sua terrível apreensão. Aflito ele enxugou o suor maldizendo a si mesmo por tamanha distração, porém determinado a criar alguma distração, dar meia volta e correr para o sentido oposto ao beco sem saída, mas bem nesse momento sentiu um objeto pontiagudo ser encostado em suas costas, na altura dos rins.

— Nem pense nisso — chiou uma voz grave e potente que lhe saltou das espaldas aos ouvidos — Continue andando e talvez nós te deixemos vivo e com as roupas de baixo.

Enquanto ouvia risadas abafadas, o forasteiro engoliu em seco e sentiu os músculos do corpo todo retesarem em um reflexo natural ao medo. Hesitou por um curto instante, até que preocupado, além de inconformado com o próprio descuido, começou a caminhar a passos lentos seguindo o que se assemelhava a uma pequena procissão, já que os outros homens, fechados em cerco, caminhavam em silêncio obstinado no mesmo ritmo cadenciado de seus passos, ávidos por chegar o momento em que colocariam as mãos cascudas nos ídolos de ouro que carregava em sua algibeira.

Mesmo assim, sem nenhuma perspectiva de sucesso, Mu seguia atento e alerta. Com os olhos ágeis, perscrutava todo o perímetro em volta na esperança de encontrar qualquer realidade que lhe fosse favorável à fuga, mas tudo o que via eram tentas infinitas e o beco logo à frente, cada vez mais próximo, onde uma tenda mofina à esquerda parecia vazia, pois que estava apenas encoberta por uma grande lona marrom escuro.

Ele costumava escapar, até que com certa facilidade, de situações como aquela, e não seria a primeira vez que sofreria um assalto, mas certamente era a primeira que não conseguia pensar em nada que não fosse tão estúpido quanto sair correndo, gritar por socorro ou lutar sozinho contra seis homens tão grandes quanto armários.

Resignado com aquela realidade, ele tentou o que talvez fosse a alternativa menos estúpida.

— Olha... é dinheiro que vocês querem? Eu tenho um pouco aqui. Não é muito, mas podem ficar com ele — disse, e na mesma hora mudou de ideia, achando totalmente estúpida aquela manobra. Fora, na verdade, mais impelido em querer evitar ter de entrar naquela tenda vazia com sujeitos mal-encarados fedendo a um rebanho inteiro de bisões, do que agir com o mínimo de perspicácia.

O homem com a faca, que também tinha uma cicatriz na testa em forma de estrela enrugada, chegou a abrir a boca e puxar o ar para deliberar sobre a "oferta" do forasteiro, mas a chegada repentina e inesperada de um intruso ali o fez engolir as palavras e produzir um ronco grave de descontentamento.

— Mu! Então ai está você, seu danado!

A surpresa fez todos arregalarem os olhos e olharem imediatamente para o recém chegado, incluso Mu, que ainda sentindo a ponta da faca na altura dos rins se colocou na ponta dos pés para espiar por cima das espaldas largas do homem à sua frente, que era bem mais alto e tinha uma vasta cabeleira até os ombros, além de uma barba volumosa cinza como alumínio polido.

E, mesmo assim, nem era preciso ele olhar para saber de quem se tratava, pois que reconhecera a voz de imediato.

— Pavo! — bronqueou o homem com a faca, enquanto os outros cinco já se punham em alerta.

Avançando em direção a eles com a segurança e elegância de um felino, sendo acompanhado de seu sorriso mais amistoso e dos tilintares frequentes das tornozeleiras e das dezenas de pulseiras em seus braços, Shakyan Pavo descaradamente enfiou-se entre o bando e sem cerimônia alguma puxou Mu para um abraço.

Tamanha foi a velocidade e a força com que executou a ação que os corpos dos dois se chocaram fazendo com que ambos deixassem escapar um gemido; em seguida Shaka tascou um beijo estalado na bochecha de Mu.

— Aonde estava indo? Não me ouviu te chamar? — Shaka perguntou, enquanto andando de costas trazia Mu junto consigo, o segurando firme pelos ombros, sem demora o afastando do bandido — A quanto tempo não nos vemos, seu tratante! Você vem tão pouco à Sei Samsara, e quando vem não me avisa? Que tipo de amigo você é?

— Ei! Pavo! — o homem com a faca imediatamente protestou quando os viu se afastar. Os outros fecharam-se em círculo em torno deles — Que merda está fazendo aqui? Este não é o seu setor.

Shaka parou de andar e olhou para ele.

— O setor pode não ser meu, Hagen Caolho, mas o amigo é — disse enérgico o encarando nos olhos vesgos, depois aproximou-se mais de Mu e fingiu repreende-lo: — Como se atreve a oferecer o meu dinheiro a esses homens?

Mu franziu a testa e o encarou nos olhos azuis contornados em kajal preto. A troca de olhares foi tudo o que precisava para entender o que acontecia ali. Então Shaka desceu os braços e lhe segurou firme ambas as mãos.

— Pavo, você é idiota? — disse Hagen Caolho, e nessa hora uma torrente de gargalhadas se ergueu ali.

— Ele acha que a gente é burro, chefe! — zombou o homenzarrão da cabeleira cinza.

— Some daqui, seu merdinha exibido — chiou um outro que tinha um porrete em uma das mãos, o qual ele ameaçadoramente batia repetidas vezes contra a palma da outra.

Não deixando se intimidar pelos bandoleiros, Shaka dissimulou desdém dando um longo e ruidoso suspiro. Sem soltar as mãos de Mu.

— Ah, eu devo ser idiota sim! — ele disse correndo os olhos entre eles, os percebendo lhe encararem feito bestas carniceiras — Vivo confundindo amizade com negócios... Esse meu amigo aqui, por exemplo, me deve uma fortuna, senhores! Não é, Mu? E ele vai me pagar agora mesmo. Vamos à minha tenda e...

— Saia daqui antes que eu corte a sua garganta, Pavo — bronqueou o líder dos ladrões avançado até eles, quase colando a faca novamente nas costas de Mu — Quem pensa que engana com esse seu falatório embrulhão, imbecil?

— Nossa! Mas por que tanta hostilidade gente? Nós dois queremos a mesma coisa, não é mesmo, Hagen Caolho? O ouro desse homem — disse Shaka enquanto rapidamente analisava as posições e posturas de cada um deles junto ao cenário que os cercava. Então, quando soube exatamente o que deveria fazer, apertou forte as mãos de Mu e discretamente forçou os braços dele para baixo, lhe dando um claro sinal do que esperava que ele fizesse.

Mu entendeu o recado de pronto, e quando Shaka lhe soltou as mãos tudo aconteceu tão rápido quanto um tiro de canhão.

Mu só não esperava que pudesse dar certo.

— ABAIXA!

A ordem do mercador foi executada por Mu com a rapidez e perícia de um soldado bem treinado, e no mesmo instante em que se jogava contra o chão, viu Shaka saltar sobre Hagen Caolho e o acertar com um chute certeiro, além de espantosamente forte, no queixo. O bandido tombou para trás e derramou-se no chão feito um tronco seco de carvalho.

O bando de Hagen Caolho reagiu imediatamente.

Com a mesma voracidade de um bando de hienas famintas, já com facas e porretes nas mãos, os cinco homens avançaram contra Shaka, salivando de raiva e sedentos por esfolá-lo vivo, mas este, ágil como um pássaro, usou como apoio o tronco seco que gemia desorientado estirado no chão para alcançar a lona que encobria a tenda vazia no fim do beco, e com um puxão solta-la.

Tão rápido quanto um cata-vento à mil por hora, Shaka jogou a lona sobre as cabeças dos cinco homens, os deixando temporariamente cegos e atrapalhados, mas tempo o suficiente para ganhar os segundos de vantagem que precisava para fugir dali com Mu.

— Venha, Mu! Depressa! — disse Shaka saltando no chão, puxando Mu pelo braço.

No mesmo instante em que se viu de pé, o viajante se pôs a correr, tendo a mão bem segura por Shaka, que o guiava por entre aquele labirinto de vielas estreitas e tendas abarrotadas de toda a sorte de quinquilharias, abrindo espaço na multidão. Seu coração batia frenético e acelerado, quase no mesmo ritmo das pernas, que ligeiras ora saltavam obstáculos com reflexo perfeito, ora se arrastavam tentando acompanhar a destreza absurda do outro.

Mu já começava a pensar que além de modelo vivo e comerciante picareta podia jurar que Shakyan Pavo também era artista mambembe.

— Depressa Mu! Por aqui.

A cada ordem, mais o forasteiro apertava o passo, esforçando-se em tentar acompanhar o ritmo dele e ignorando os protestos acalorados das pessoas com quem frequentemente esbarravam.

Nesse ritmo eles cruzaram esquinas a perder as contas, desceram por mofinas ladeiras, depois subiram por ruas ainda mais estreitas, e quando pensava que já teriam despistado o bando de ladrões, eis que Mu dava uma rápida olhada para trás e lá estavam eles, com sangue nos olhos e fogo nas ventas. Não tão graciosos quanto era seu salvador de cabelos loiros cheirando a flor de lótus, mas igualmente velozes e determinados. Naquela altura, já tinha quase perdido o lenço vermelho, e seus cabelos cor de lavanda dançavam no ar criando, junto ao de Shaka, um balé chamativo em meio a fuga.

Quando passaram por uma tenda onde eram vendidos produtos de limpeza, acendeu na mente de Mu uma ideia ousada que poderia lhes dar mais alguns minutos de vantagem naquela corrida. Ele viu ali uma grande bacia cheia com sabão líquido, então, com a mão livre, apanhou do bolso externo de sua bolsa de couro dois pequenos frascos de vidro com pitorescos símbolos gravados, um contendo um pó e outro um líquido. Os destampou com a boca e os atirou na bacia produzindo uma reação química imediata.

Em segundos, a bacia que antes continha sabão começou a expelir espuma efervescente feito um vulcão em erupção.

— O que foi isso? — Shaka perguntou assustado, mas sem parar de correr.

— Só uma distração. Iodeto de potássio, água oxigenada super concentrada e sabão — Mu respondeu ofegante.

Surpreso, Shaka olhou para trás e viu um mar de espuma se formar no chão e crescer feito um monstro famélico que engolia tudo à volta. Assim como ele, as pessoas se assustavam e corriam desorientadas aos gritos.

— Caramba! — ele disse rindo alto.

Mas o riso morreu do rosto de Shaka quando ele viu os homens do bando de Hagen Caolho atravessarem a espuma e mesmo aos escorregões seguirem correndo em seus encalços.

— Eles não vão desistir! — Mu gritou ofegante, já meio desnorteado devido a tantas voltas, descidas e subidas.

— Eu sei, por isso vamos pegar um atalho — respondeu Shaka correndo os olhos azuis celestes pelo infinito de tendas intrincadas até encontrar o que procurava — Venha!

Puxando Mu pela mão ele dobrou uma viela e entrou por outra ainda mais estreita. Nesse ponto era inevitável seguir correndo sem esbarrar em ninguém, mas mesmo assim eles continuaram avançando, num caminho que Mu julgou ser sem fim.

O forasteiro já estava ficando sem fôlego, e suas pernas começavam a dar sinais de peso e lentidão, quando finalmente Shaka dobrou uma esquina bifurcada pegando o cainho da esquerda. Depois de correrem por mais alguns metros, entraram em uma tenda que vendia tapeçarias trazidas dos reinos do Leste. Um homem velho calvo, e de olhos de retinas embaçadas e pálidas, estava sentando em uma cadeira de balanço fumando um cachimbo que exalava no ar um forte odor de mato.

A cadeira parou de ranger quando o homem se inclinou para frente com a fisionomia em alerta.

— É você, Pavo? — perguntou a voz pigarrenta.

— Sim, sou eu. Preciso usar a passagem — Shaka respondeu apenas. Ao seu lado, ainda segurando forte sua mão, Mu olhava para o homem na cadeira.

Era nítido que ele e Shaka se conheciam.

— Quem está com você? — o velho perguntou erguendo o queixo coberto por uma barba branca de fios ensebados amarelentos, enquanto seus olhos procuravam decifrar o vulto à poucos palmos à sua frente.

— É um amigo — Shaka respondeu já puxando Mu pela mão para os fundos da tenda.

De repente ouviram uma gargalhada troante.

— E desde quando você tem amigos, Pavo? — o velho ria, voltando a fazer a cadeira ranger e levando o cachimbo à boca. Havia percebido a respiração ofegante de ambos — De que está fugindo agora? O que você roubou dessa vez, seu ladrãozinho velhaco? Ouro? Pedras preciosas?

De frente com uma pequena porta de madeira embolorada, a qual revelou quando puxou uma das tapeçarias expostas para o lado, Shaka baixou a cabeça e deu um riso fraco. Em seguida, recuou dois passos e ficou frente à frente com Mu. Ainda segurando em sua mão, olhou diretamente nos olhos dele, que confuso com toda aquela situação não disse nada, apenas se pondo a observa-lo.

— Eu ainda não roubei, mas pretendo roubar — Shaka sussurrou aproximando-se de Mu até quase seu nariz tocar o dele — Afinal, que homem encontra o tesouro mais precioso desse mundo e não o deseja ter para si?

Mu sentiu-se gelar.

Que magia, afinal, residia no olhar daquele trambiqueiro de beleza ímpar que parecia lhe prender em uma espécie de hipnose e lhe tirava o tino? E lá estava ele novamente, sem reação, o ouvindo verbalizar toda sua má intenção para consigo e tudo o que conseguia pensar era que não havia como Shakyan Pavo lhe roubar algo que ele mesmo não lhe quisesse entregar de bom grado.

Mu bem tentou balbuciar essa intenção, mas Shaka logo afastou-se e num movimento rápido abriu a porta.

— Te devo mais essa, velho! — disse ele antes de entrar na passagem e ser envolvido pela escuridão, sempre puxando Mu consigo.

Ainda ouviam as risadas do homem quando fecharam a porta para seguir caminho; este era escuro, estreito, fedia à barro molhado, bolor e sem nenhuma passagem de ar. Felizmente, Shaka já estava familiarizado com ele, e poucos foram os acidentes ocorridos durante o percurso, durante o qual Mu nada disse.

Passados alguns minutos, Mu já se deu conta de que tinham percorrido uma longa distância, porque depois de um tempo considerável suas pernas começaram a pesar e seu caminhar tornou-se mais lento. Não podia precisar quanto tempo já estavam dentro daquele labirinto de túneis, até porque sua mente estava ocupada demais questionando a si mesmo acerca do que o levara a estar ali, naquele exato ponto. Pela manhã havia deixado seu quarto na hospedaria da cidade para continuar sua expedição ao Mercado Dourado e, talvez, comprar algumas especiarias, e agora estava caminhando no escuro, por uma passagem secreta gigantesca que o levaria sabe-se lá para onde e de mãos dadas com um homem tão bonito quanto pilantra. Certamente o mais bonito e o mais pilantra que já conhecera em toda sua vida.

Ainda assim, sentia-se capaz de ir com ele para onde quer que o levasse, embora estivesse ciente de que dava passos em direção a outra possível armadilha.

Nos últimos metros do trajeto, eles desceram alguns lances de escada aos tropeços e finalmente chegaram a uma porta. Antes de Shaka abri-la, Mu imaginou que nunca mais conseguiria arrancar de si aquele cheiro de umidade impregnado em suas roupas e cabelos, até que outro odor forte lhe capturou o olfato.

Maresia!

Aquele dia de fato parecia não parar de surpreende-lo.

Quando saíram da passagem, um novo cenário saltou aos olhos verdes arregalados de espanto do forasteiro. Ele piscou os longos cílios de um lilás quase transparente para habituar-se novamente à luz e divisou o perímetro à sua volta. Sob seus pés sentia o chão de pedra coberto por uma fina camada de areia seca.

— Onde estamos? — finalmente deu voz a seu alarde, percebendo que agora estavam em uma espécie sala vazia, cujo teto e paredes altas eram feitos de pedra, e nessas haviam várias aberturas do que, claramente, outrora foram grandes janelas. As marcas do tempo estavam impressas por toda a parte; na corrosão natural das rochas, na areia acumulada no chão, na vegetação rasteira e no musgo que se acumulava nas rachaduras.

O puxando pela mão, Shaka caminhou até uma das aberturas na parede. Olhando por ela se via o vasto horizonte coral de Sei Samsara, com as muralhas da cidade mais abaixo permeadas pela imensidão azul do oceano.

— Estamos nas ruinas da Cidade Velha — ele disse, olhando para o cenário vasto do lado de fora enquanto seu rosto belíssimo tingia-se com os tons do fim da tarde — Sei Samsara nasceu aqui... Há quem diga que essas câmaras abrigavam um feudo que fornecia mercadorias contrabandeadas trazidas dos Doze Reinos para o Mercado Dourado, antes de ele ser como você o conheceu hoje.

— Hum... daí a passagem! — exclamou Mu.

Shaka fez que sim com a cabeça.

— Por ela eles abasteceriam um tipo de mercado ilegal onde todo tipo de produtos bizarros eram oferecidos, desde iguarias com propriedades mágicas a grimórios antigos e até animais exóticos que hoje já estão extintos — disse, olhando agora para o rosto sério de Mu — Outros dizem que nesse lugar existiu um reino próspero, e que exatamente aqui ficava a morada do rei. A passagem seria uma rota de fuga em casos de guerra. Há ainda quem diga que tudo isso pertencia a um templo sagrado, mas ninguém sabe que tipo de deuses eram cultuados aqui... A verdade é que, feudo, castelo ou templo, tudo o que sobrou é isso que está vendo, apenas ruínas... Estamos seguros, não se preocupe.

Mu ouvia cada palavra sem nada dizer, admirado tanto pelas histórias de Sei Samsara, ainda que essas não passassem de lendas, quanto pelo homem que as contava, cuja pele bronzeada e os cabelos dourados eram banhados pelo sol que adentrava a câmara e que o deixava ainda mais desejável. Estranhamente, ainda segurava firme a mão dele, mesmo aquele contato não sendo mais necessário, mas porque desejava a todo custo mantê-lo.

Consumido por um desejo forte de entender o que afinal ainda fazia ali, e sem a menor vontade de ir embora, Mu olhou fundo nos olhos azuis enigmáticos de Shaka, então a pergunta sussurrada escapou de seus lábios entreabertos.

— Por que?

Shakyan Pavo se viu surpreendido pelo questionamento dele, porém mais ansioso ainda por responde-lo.

— Por que? — repetiu a pergunta, e com um sorriso largo que expunha os dentes perfeitos branquíssimos balançou a cabeça junto dos ombros jogando as longas madeixas loiras para trás das costas, produzindo uma sinfonia de tilintares, e conforme se mexia, com a malícia sinuosa de uma serpente, trouxe a mão dele para perto de seu rosto e lentamente começou a beijar-lhe os dedos, um a um — Essa pergunta sucinta e tímida pode ter várias respostas. Qual delas você deseja saber?

Sem perceber que prendia o ar, com o rosto corado o forasteiro experimentava em êxtase o toque suave e lascivo da boca rosada em seus dedos tatuados, até que não se contendo contornou os lábios dele com a ponta do indicador.

— Todas — disse com um ofego, sentindo o coração palpitar — Por que foi atrás de mim?... Por que me ajudou?... Por que me trouxe aqui? — "para me seduzir e confundir com cada gesto seu?", completou mentalmente antes de recolher a mão e quebrar contato. Por mais envolvido que estivesse por aquele homem, seu senso de autopreservação o impelia a recuar — Não me tome por tolo, senhor Pavo. Já me ficou claro o quão golpista o senhor é quando ouvi da boca dos meus algozes que "Aquele não era o seu setor"! Sei que sou mais uma de suas vítimas. No entanto...

Shaka estreitou os olhos e o divisou instigado.

— No entanto? — perguntou mordendo os lábios.

— No entanto, sinto que não é o meu ouro o que você quer — disse Mu.

— Ah! Mas não é mesmo! — ele respondeu com um sorriso espontâneo, então começou a caminhar a passos lentos em torno dele, e conforme andava, batia com vigor os pés no chão fazendo cantar as dezenas de minúsculos guizos das tornozeleiras em seus pés — Ouro eu consigo em qualquer lugar... a qualquer hora.

— Continua se negando a me responder... — Mu protestou com um suspiro, enquanto seus olhos verdes cativos seguiam cada movimento dele e seus ouvidos pareciam surdos a qualquer outro som que não fosse o dos guizos em seus tornozelos.

Ousado, no mesmo tempo em que parecia se exibir para Mu, ao passar por suas costas Shakyan Pavo puxou-lhe uma mecha dos cabelos cor de lavanda para fora do lenço vermelho em torno do pescoço e a trouxe até o nariz, aspirando forte o perfume dos fios sedosos. Inebriou-se do odor dele até sentir sua respiração ficar presa na garganta e um frisson lhe percorrer o corpo feito corrente elétrica.

— Não lhe é óbvio? — questionou ofegante, já de frente para ele novamente, com seus olhos faiscantes a encararem os dele com a firmeza de um rochedo — Eu fui atrás de você porque quero muito mais que as suas moedas de ouro e os seus desenhos, Hamal Mummiah, esteja certo disso — mordeu os próprios lábios para não avançar nos dele; ainda o sentia arredio e desconfiado, e não podia arriscar ser rejeitado — O resto não é nada além do que você mesmo já viu. E a prova de que já sabe o suficiente sobre mim, é que se sente à vontade para afirmar que sou um golpista.

— E não é? — Mu perguntou não conseguindo segurar o riso.

Shaka riu junto dele, depois voltou a caminhar deixando cair o manto laranja por um dos ombros quando balançou a cabeça fazendo dançar os cabelos longos com o vento que entrava por uma das aberturas na parede.

— Depende do ponto de vista. Ele pode ser ruim, ou pode ser bom — ele disse direcionando um olhar cheio de malícia para o viajante — As tatuagens em suas mãos, por exemplo — apontou para as mãos dele.

Mu hesitou por um instante, sem deixar de observa-lo com atenção.

— O que tem elas? — perguntou.

— Essas insígnias tanto podem ditar terríveis maldições, quanto belas preces... Já que me são desconhecidas, o que você disser para mim acerca de seu significado eu irei acreditar. Mas, se fizer mistério quanto a elas, automaticamente estará me dando o direito de pensar o que quiser, de decidir por mim mesmo o que elas são — novamente ficou de frente para ele a uma distância perigosamente curta — Eu te mostrei quem eu sou. Um comerciante, não tão honesto, admito, que ganha a vida no Mercado expondo a figura e joias de valor contestável... E você, Mu, quem é? O que veio fazer em Sei Samsara? Por que procura rochas celestes?

Mu fixou seus olhos nos dele, incapaz de desviar.

— Agora é você quem faz perguntas demais — disse, e sorriu por um instante sentindo a respiração cada vez mais acelerada.

A razão de Mu lhe gritava para que fosse embora dali e desse por encerrado aquele episódio pitoresco de sua viagem ao reino de Khan, em contrapartida, sua alma e seu instinto lhe sussurravam que, talvez, tivesse esbarrado com um mistério maior do que aqueles escondidos nas fórmulas raras da alquimia com as quais tão bem sabia lidar. E sendo ele quem era, naturalmente curioso e destemido, sabia que não conseguiria recusar o evidente convite que o destino lhe fazia para decifrar Shakyan Pavo.

— Está bem — disse Mu, então fitou o rosto dele por um breve instante antes de continuar: — Você me deu meias respostas, eu então me reservo o direito de te dar meias verdades sobre quem eu sou. Troca equivalente. Nada mais justo sob as leis da alquimia que rege tudo em minha vida.

A curiosidade e surpresa ficaram evidentes na fisionomia de Shaka, que viu Mu se afastar alguns passos, enquanto lentamente desenrolava o lenço vermelho envolto em seu pescoço. O movimento lento e cauteloso era feito sem desviar o olhar dos belos olhos azuis que o encaravam sérios e interessados, acompanhando cada ação sem nem ao menos piscar. Quando o lenço caiu inerte no chão, o pescoço, e parte do colo do forasteiro, ficaram totalmente expostos, e por toda a pele branquíssima se podia ver desenhos em tinta negra que compunham uma mistura perfeitamente simétrica e artística de números, figuras geométricas, símbolos e enigmas.

— A busca pelas rochas celestes foi o que me levou a deixar o meu reino, além da grande Muralha de Cristal, para desbravar os Doze Reinos em uma viagem ainda sem previsão de volta — Mu continuou, agora levantando as mangas das longas e pesadas roupas que vestia para expor os antebraços, também cobertor por tatuagens que, definitivamente, não se limitavam apenas àquela região — Sendo assim, senhor Shakyan Pavo, respondendo às suas perguntas, é isso que estou fazendo em Sei Samsara. Estou atrás de rochas celestes porque quero delas o que todo alquimista quer... O raríssimo e poderoso pó de estrelas.

Os olhos do mercador percorriam atraídos e deslumbrados cada centímetro da pele exposta, enquanto ele tentava, em vão, decifrar os muitos símbolos impressos nela.

— Um alquimista do Norte! De além da muralha! — fez Shaka arqueando as sobrancelhas e levantado o olhar para os olhos de Mu — Eu logo imaginei que uma criatura tão exótica só poderia mesmo vir de algum reino muito distante daqui... Então é assim que vocês são! Bem diferente dos boticários metidos a besta de Khan! — sorriu, verdadeiramente entusiasmado, pois que os grandiosos alquimistas do Norte eram quase um folclore em terras do Sul.

Mu ser um alquimista justificava seu conhecimento apurado sobre pedras preciosas, também a "magica" do vulcão de espuma, na fuga do mercado, e as tatuagens. Desse modo, como não podia deixar de ser, fascinado Shaka inclinou-se na direção dele e sem qualquer cerimônia tocou-lhe o peito, contornando com a ponta dos dedos o desenho de um triangulo dentro de um círculo permeado por formas sinuosas que lembravam o aspecto de uma flor, mas que quando se olhava bem de perto percebia-se não se tratarem de pétalas, mas de algum tipo de inscrição ou sequência numérica, para ele, sem nenhuma lógica.

— Incrível!... — Shaka perguntou levantando os olhos para ele — E como é que se extrai esse... esse pó de estrelas das rochas celestes?

Mu olhou firme nos olhos de Shaka e com um movimento preciso e vigoroso segurou forte a mão que lhe tocava o peito.

Não permitiu qualquer avanço dos dedos curiosos dele, mas também não o repeliu.

— Disse que lhe daria apenas meias verdades — respondeu Mu segurando forte o punho dele — Você e eu fizemos uma troca equivalente. Isso é tudo o que saberá de mim com o que me deu sobre você, Shakyan Pavo.

Shaka curvou os dedos e apertou a carne firme do peito do alquimista, depois, com um sorriso malicioso, colou seu corpo ao dele numa ação lenta e ousada.

— Seu coração está batendo tão rápido... tão forte — Shaka sussurrou. Seus lábios quase encostando nos de Mu, que em momento algum se intimidou ou recuou, permitindo o contato, enquanto o encarava nos olhos azuis já quase sem fôlego — Eu acho que gostei dessa tal troca equivalente... Me diga, Mu, o que eu conseguiria de você se te desse mais?

— Mais? — Mu o questionou, um pouco confuso. Era certo que sua confusão também se dava devido à adrenalina daquele contato tão próximo com o outro — Mais do que?... Mais respostas? Mais rochas celestes? Mais...

— Mais de mim — esclareceu Shaka antes que ele completasse a frase, depois, em resposta a um desejo urgente de seu corpo, o beijou. De início suave e delicadamente, atento à maneira como Mu reagia e avançando apenas até o ponto que lhe fosse permitido, depois com paixão e volúpia, como desejou desde o primeiro momento que o viu.

Já completamente preso aos encantos de Shakyan Pavo, Mu correspondia com lascívia e livre de pudores.

Não havia mais como negar.

Mu agora tinha total consciência de que também estivera esperando por aquele beijo desde o encontro no Mercado Dourado.

E se a intenção de Shaka fosse realmente lhe prender em uma armadilha de sedução, então já declarava o plano dele bem sucedido.

Entre arquejos e gemidos sufocados, Mu soltou a mão de Shaka permitindo agora que ele o tocasse deliberadamente, o que aconteceu de imediato.

Despudoradamente, o comerciante exibido subiu a mão pelo peito do alquimista, alcançou-lhe o pescoço e com ela alojada atrás da nuca arranhou de leve a pele tingida pela lua, a sentindo arrepiar instantaneamente.

— Ah... que feitiço é esse que você possui que me fez desejá-lo desde o primeiro momento que o vi? — Shaka sussurrou na boca dele com um suspiro convulso, delirando ao percebe-lo completamente entregue quando segurou seu rosto para encaixar melhor o beijo.

E o que começou como um beijo suave e comedido, em instantes tornou-se pura luxuria. Seus corpos, incendiados de desejo, roubavam-lhes o fôlego, e os corações agitados palpitavam ruidosos dentro dos peitos febris.

Anseio mútuo. Prazer compartilhado. A formula exata da troca equivalente.

E assim como era na alquimia, a reação em cadeia não podia mais ser contida.

Mu sentia-se tão envolvido por aquele homem, por seus toques, por seu beijo e seu poder enigmático, quase místico, de reduzir sua razão à uma espiral insana de emoções conflitantes que mal se dera conta de que já estava quase o deixando nu. Ele também já lhe puxava afoito as roupas, abrindo-lhe a camisa e mergulhando ambas as mãos em seu peito alvo tatuado.

— Hum... Shaka... — o viajante gemeu de olhos fechados, deixando-se levar por ele como um naufrago à deriva é levado pelo balanço do mar, até sentir suas costas baterem contra a parede áspera de pedra.

As rachaduras traziam algum desconforto para Mu, especialmente porque Shaka usava o próprio corpo para mantê-lo preso ali, entre ele e a rocha, enquanto suas mãos afoitas o tocavam de um modo tão obsceno quanto delicioso.

Mu considerava uma loucura o que estava fazendo. Oh, sim! Com toda a certeza era uma loucura. No entanto, em momento algum cogitou parar ou mesmo pedir a ele que se afastasse. Ansiava, verdadeiramente, por descobrir até onde aquele mercador pilantra e tagarela o levaria. Não que estivesse à mercê dele, pelo contrário, suas mãos, por vontade própria, metiam-se afoitas por debaixo do manto laranja e lhe agarravam com vigor libidinoso as nádegas nuas, apalpando a carne, deleitando-se com as formas perfeitas, enquanto experimentava um frisson alucinante correr por dentro de seu corpo todo.

Shaka por sua vez, já descia as mãos para a cintura de Mu buscando desafivelar o cinto de couro que ele usava, doido por senti-lo sem o escudo dos tecidos grossos de linho. Desejou aquele homem desde o primeiro momento em que seus destinos se cruzaram e seu instinto lhe fez ter certeza de que o teria. Por isso, ansiava por mergulhar no calor incandescente daquele corpo o quanto antes, inebriar-se cada vez mais com o odor viril que exalava dele, enquanto suas mãos trabalhavam ligeiras empenhadas em livra-lo das calças para agarrar-lhe o tão almejado sexo, o qual já sentia firme como rocha contra o seu.

— Já esteve com outro homem e foi até o fim? — Shaka sussurrou a pergunta enquanto sua boca atacava com beijos sequiosos o pescoço quente e pulsante de Mu.

— Não, mas... não vejo problema algum... — Mu respondeu, ligeiramente acanhado com a pergunta, mas sem qualquer receio ou temor — Há uma primeira vez para tudo.

Embora nunca estivera antes com outro homem, agora sentia, desesperadamente, que precisava descobrir tudo o que aquela nova experiência poderia lhe trazer, tudo o que aquele falsário canastrão tinha a lhe proporcionar, porque se apenas o beijo dele já o punha louco, imaginava que o sexo deveria ser inesquecível.

Aquela resposta era só o que Shaka precisava ouvir para avançar, mas eis que de repente, no momento em que abriu os olhos quando ouviu Mu gemer languido seu nome, surpreendeu-se ao ver o sol quase se pondo.

Shaka sentiu seu corpo enrijecer na exata hora em que a explosão em tons de coral e rosa forte que tingiam o horizonte derramou-se em seu rosto o pondo em alerta imediato.

Com força vigorosa, seus dedos apertaram a carne de Mu, e seu corpo, febril de desejo, colou-se ainda mais ao dele, como se unidos por forte magnetismo.

Não queria separar-se. Não queria ir embora.

Fechou os olhos contraindo firme as pálpebras. Talvez assim não visse os raios corais do pôr do sol e não sentisse o chamado.

Desejou com toda sua força que ao menos dessa vez fosse diferente.

Desejou ficar com Mu ao cair da noite.

Porém, mais forte que seu desejo era sempre o chamado da Natureza.

— Sinto muito... — ele disse de repente, e com uma determinação espantosa, porém nada satisfatória, segurou Mu pelos braços cessando as carícias e beijos, depois afastou-se recuando alguns passos — Eu preciso ir.

— O... que? — Mu perguntou incrédulo e alarmado.

Fora tão pego de surpresa que mal se mexera para alinhar os cabelos bagunçados ou as roupas descompostas já abertas, ficando ainda com as costas coladas na parede de pedra.

— Eu preciso mesmo ir — Shaka continuou se afastando.

— Como assim, precisa ir? — ofegante e com o corpo em chamas, Mu olhava para Shaka com um semblante alarmado e irritadiço. Não. Aquele patife não poderia estar fazendo aquilo. Não mesmo! — Precisa ir para onde? Não está falando sério, está?

Shaka pigarreou tentando disfarçar o embaraço, enquanto apressado já ajeitava o manto laranja em seu corpo, encontrando certa dificuldade em disfarçar a ereção proeminente sob ele.

Discretamente, conferiu a posição do sol com um olhar de soslaio pela abertura na parede, conferindo se haveria ao menos tempo para uma breve despedida.

— Então... eu deixei a minha banca sozinha sob os cuidados do meu jovem ajudante, mas eu me lembrei que ele me pediu para liberá-lo até o sol se pôr, porque... porque tem um compromisso com o pai doente... Ufa! — deu um suspiro longo jogando os cabelos para trás dos ombros, abanando-se com as mãos — Que tarde quente fez hoje, não?

Com os olhos arregalados e o rosto lívido Mu o interrompeu:

— Isso é mais algum de seus truques, Shakyan Pavo? — estava deveras irritado e até um tanto ofendido — Está brincando comigo?

— NÃO! — Shaka respondeu com um grito e apressado foi até ele — Ouça, por favor, Mu. Não sei como não fazer parecer que isso é uma fuga, mas tem que acreditar em mim... — fez uma breve pausa e num gesto afoito segurou o rosto dele com ambas as mãos — Tudo que eu mais queria era que meus pés criassem raízes aqui, agora, e então a noite seria pequena para nós, para abrigar os beijos que anseio dar no teu corpo inteiro, mas...

Com a mesma afoiteza Mu pousou as mãos sobre as dele, e sem acreditar no que julgou ser uma mentira deslavada, fitou as íris azuis procurando nelas qualquer centelha de verdade. Foi então que percebeu nelas uma urgência real, um desespero genuíno.

Contudo, sua própria urgência também lhe falava mais alto.

— Não vá — rogou a Shaka sem nenhum orgulho, segurando-lhe as mãos — Não me deixe...

O pedido sussurrado atingiu Shakyan Pavo feito flecha certeira envenenada.

Um ardor consumiu-lhe o peito, e sem poder resistir ao ímpeto de beija-lo assim o fez uma vez mais, tomando-lhe a boca num beijo profundo, ganancioso, mas que foi interrompido logo que os últimos raios do sol que tingiam a parte mais alta daquelas ruinas se apagaram.

— Fique comigo essa noite — rogou sôfrego de paixão o alquimista.

— Ah... meu belo Mu! Não me peça o impossível — Shaka lamentou encostando sua testa na dele, então sem mais delongas novamente se afastou andando de costas até uma das aberturas na parede, enquanto mantinha os olhos fixos aos dele — Amanhã não vá ao mercado. Pode ser perigoso... Quando o sol estiver a pino, venha para cá. Venha nessas ruinas... Eu o estarei esperando aqui.

Confuso e ainda sentindo-se meio que atordoado com tudo aquilo, Mu tencionou correr até ele, mas Shaka foi mais rápido e saltou por sobre a abertura, já correndo para o outro lado.

— Ei! Shaka! — o alquimista chamou apoiando ambas as mãos no parapeito.

Mu só teve tempo de ver os cabelos loiros dançando, sacudidos pelo vento forte do litoral, até ele desaparecer na penumbra das ruinas.

No horizonte o mar engolia por completo a imensa bola de fogo no céu, e agora ali sozinho Mu dava-se conta de que em poucos minutos a noite encobriria tudo com seu manto negro salpicado de estrelas.

Estava a quilômetros de distância da cidade, no alto de uma construção abandonada da qual não fazia ideia de como sair, e certamente no escuro; além de difícil seria assustador achar o caminho seguro de volta à hospedaria.

— Merda! — praguejou, ainda sentindo o corpo excitado e a mente confusa — O que estou fazendo aqui?... Eu só posso ter ficado louco!... Maldito vigarista safado. Você me paga, Shakyan Pavo, seu picareta lindo e... Argh! Merda!

Mu arrumou as roupas apressado e contrariado, enquanto refletia consigo mesmo.

Nada do que acontecera naquele dia deveria de fato ter acontecido, especialmente seu envolvimento com Shakyan Pavo, o qual julgava ter sido fruto de um óbvio surto de insanidade temporária, pois que era nítido que aquele tagarela embrulhão dos cabelos de ouro e pele cor de bronze polido significava problema.

E de ciladas Mu queria distância.

Ainda que essa cilada fosse alta, forte, belíssima e possuísse os olhos azuis mais incríveis e enigmáticos que já vira em toda sua vida.