A noite já se via avançada do céu de Sei Samsara.

Em um dos nobres distritos mais afastados, às margens da cidade, num reduto reservado aos viajantes uma hospedaria luxuosa fora erguida para abrigar os ricos mercantes que vinham de todos os cantos dos Sete Reinos desfrutar das belezas e prazeres da joia do reino de Kahn, o Mercado Dourado; uma fachada perfeita para manter distantes os olhos dos curiosos, já que o lugar era na verdade mais um dos tantos refúgios espalhados pelo mundo que servia de guarita para magos e alquimistas que desbravavam os reinos em busca de toda a sorte de encantos. Um lugar discreto e acolhedor para aqueles que vinham de terras longínquas, como as do Norte.

Quem olhasse para a fachada do antigo sobrado não via nada além de uma construção em alvenaria, no entanto, por dentro, para se chegar aos cômodos reservados aos "hospedes especiais" era preciso percorrer uma série de passagens ocultas e labirintos de confundir até o raciocínio mais astuto. Tanto zelo e precaução se faziam necessários, pois que muitos eram os segredos e mistérios que carregavam em suas algibeiras e grimórios aqueles que ali chegavam.

No final de um corredor estreito e iluminado por lampiões presos às paredes, atrás de uma porta de madeira rústica no térreo, portanto bem longe da movimentação dos quartos que serviam aos hospedes comuns, apenas mercadores e simples visitantes, o exausto viajante de além da Muralha de Cristal finalmente conseguia descansar.

Chegar àquele quarto naquela noite tinha sido uma tarefa hercúlea para Mu. Além de perigosa, sua jornada desde as ruínas antigas da cidade até ali tinha praticamente lhe exaurido todas as forças. Levou horas em meio à escuridão e o vento desconcertante, que soprava ruidoso nas ruínas à beira mar, até conseguir se esgueirar por um caminho estreito e finalmente alcançar a estrada, a qual imaginou ser o caminho de volta ao centro de Sei Samsara, e depois mais um longo tempo para encontrar uma rota segura até a hospedaria, afinal, era na escuridão e silêncio da noite que ladinos e bandidos procuravam por vítimas, e ele não seria feito de alvo novamente. Sentiu frio, fome, medo, raiva... muita raiva. A cada inseto que lhe zunia aos ouvidos enquanto se arrastava pelas vielas, ou formiga que lhe mordia por debaixo da roupa, ele maldizia o infortunado momento em que seu caminho tinha cruzado com o de Shakyan Pavo, o único culpado por estar naquela situação, além de o deixar literalmente de calças na mão.

Que loucura havia cometido! Onde é que estava com a cabeça?

Tivera a sorte de chegar inteiro, ao menos.

Depois de comer e tomar um bom banho, e de alguns minutos sentado à mesa à luz de uma lamparina a óleo recobrando o fôlego, as forças e o juízo, ainda muito cansado e irritado para conseguir dormir, Mu passou a avaliar o seu dia, seus ganhos e prejuízos. Vestido apenas com calças confortáveis de dormir, ele tirou de dentro da maleta que trouxera na viagem consigo um frasco pequeno de vidro contendo um líquido marrom escuro de cheiro muito forte, o embebeu num trapo de linho e passou sobre os pequenos ferimentos que adquirira tanto na fuga dos ladrões no mercado quanto em seu retorno perigoso à hospedaria.

— Ai! Hmm... merda. Isso arde!

Aquele dia insano tinha lhe deixado marcas não apenas pelo corpo... Suspirou irritando recordando-se das palavras embebidas em malícia que Shakyan Pavo lhe dissera nas ruínas, e acometido por um repentino arrepio chacoalhou severamente a cabeça como que para enxota-las para longe, então focando em algo bem mais concreto e importante avaliou os esfolados na pele. Felizmente nenhum deles lhe danificou severamente seu bem mais valioso, as preciosas tatuagens.

— Que dia! — resmungou esgotado enquanto retornava o líquido que usou para os curativos à maleta.

Teria sido melhor se tivesse ficado na hospedaria estudando as fórmulas que trouxera; ou que nunca tivesse ido tomar água naquela fonte, na praça do Mercado Dourado, dessa forma não o teria visto, não o teria desenhado, não o teria desejado...

Era nisso que pensava enquanto se deitava na cama e tentava dormir, mas parecia que aquele mercador embusteiro tinha mesmo o dom de lhe tirar a paz. Quando fechou os olhos ele estava lá, lindo, olhando para si com aqueles olhos azuis arrebatadoramente sedutores, lhe sorrindo com aqueles lábios que gotejavam lascívia, impregnando todo seu ser com aquele cheiro inebriante de flor de lótus... completamente nu, seduzindo até sua alma!

— Que merda está acontecendo comigo? — resmungou levantando-se da cama, agastado, inconformado, então aproveitou-se da insônia para tratar de ocupar seus pensamentos com outra coisa que não fosse Shakyan Pavo.

Mas Mu não foi para muito longe daquilo que o consumia. De volta à mesa, ele abriu a algibeira e dela retirou a rocha celeste que conseguira com o Shaka, então sob a luz de uma candeia, e munido de seu poderoso jogo de lupas, começou a avaliar o artefato. Ficou fascinado pelas ranhuras e minúsculas fissuras. Partículas exíguas de um material translúcido e muito brilhante pareciam estar aderidas ao mineral de cor escura que compunha a rocha, e isso era um forte indício de que estava muito próximo do que realmente viera procurar ali, em Sei Samsara.

Mas a questão é que tudo indicava que havia encontrado muito mais do que fora procurar.

Mesmo concentrado, mesmo com a mente fervilhando em possibilidades, cálculos e fórmulas alquímicas que poderia aplicar àquela descoberta, tinha a sensação de estar sentindo o cheiro dele, e como um eco vindo do além ouvia o tilintar das joias em seus pulsos e tornozelos, forte, em volume cada vez mais alto, e se repetindo, se repetindo...

— ARGH! — o grito veio quando furou o dedo com a espátula pontiaguda que usava para raspar e perfurar a rocha — Merda! Merda! Merda!... Mas o que está acontecendo comigo?

Aquele pequeno incidente colocou o alquimista em alerta, não pela gravidade, mas porque enfim ele constatou que não conseguia parar de pensar no mercador.

Nunca um encontro frustrado o tinha deixado antes em tamanha consumação. No entanto, ele se perguntava como poderia frustrar-se por algo que nem sequer havia desejado.

Não havia desejado Shakyan Pavo?

A quem ele queria enganar?

Consumido em autoanálises irrisórias, não notou quando a criatura pousou no parapeito da pequena sacada, mesmo seu pouso sendo desajeitado e demasiado barulhento.

Os voos de longa distância não eram seu forte, mas naquela noite ela havia revoado bem mais quilômetros do que o habitual, numa carreira difícil e custosa.

Por isso parecia cansada.

O peito largo e branco tal qual a neve no cume mais alto da montanha, subia e descia acelerado. Arfava, muda, atenta.

Com as longas garras em forma de foice cravadas no beiral de madeira ela sentia-se segura para esticar o alongado pescoço emplumado e espreitar o homem dentro do quarto; assim mesmo, sem muita graça ou perfeita cognição, balançando-se toda de um lado para o outro, depois para frente e para trás, em busca do ângulo perfeito. A cabeça trépida movia-se ainda mais rápido fazendo tremelicar o caprichoso topete de penas brancas como leite.

Um bailar bem mais lento e elegante tinha a cortina de tecido fino do lado de dentro do quarto; o único véu que a separava de seu objeto de desejo.

Feito dois perfeitos círculos de fogo, os olhos escarlates da criatura acompanhavam concentrados cada movimento do homem dentro do quarto. Assim, eles o viram buscar algo dentro da bolsa para estancar o sangue que lhe escorria do dedo e depois o acompanharam se sentar na beirada da cama. Passou algum tempo nessa contemplação muda, até que o pescoço longo projetou-se o mais que pôde para trás e enchendo os pulmões com o ar puro da noite ela o chamou.

No silêncio entranhado o canto soou macabro, especialmente aos ouvidos do alquimista, que como se tivesse sido atingido por um raio sofreu um sobressalto e com o susto sentiu o coração disparar e os pelos do corpo eriçarem-se. Olhou imediatamente para a sacada.

Então o gorjeio funesto seguiu sem pausa, agudo, medonho, constante.

Na mente do alquimista uma lembrança veio à tona. Já o tinha ouvido antes, quando se banhara no lago da clareira na pequena mata atrás da hospedaria por onde tinha se aventurado na noite anterior; e como da primeira vez, este agora também lhe soara horripilante e agourento, porém inusitadamente mais alto e terrível, arrancando todo o calor de seu sangue e lhe fazendo gelar até a alma. Mas, diferente da noite anterior, agora podia ver, ainda que por detrás do bailar da cortina, a criatura que o emitia.

Não era um demônio ou gênio recém escapado de alguma prisão fantástica, como havia sussurrado em seu ouvido o seu próprio imaginário, mas tão somente uma... ave.

Esta, impaciente e indômita, com o bico pontudo apontado para o céu tinha pressa. Por que tanta demora em lhe atender o chamado? Não estaria sendo clara o suficiente em suas intenções? Já fora melhor nisso...

Então, tomado pela curiosidade ímpar que somente os amantes do saber possuem, o alquimista abandonou os itens de primeiros socorros sobre a cama e pé ante pé caminhou lentamente em direção a criatura. Com cuidado, como se temesse que sua presença fosse percebida — desconhecendo completamente os anseios do seu visitante ilustre — ele abriu a cortina, atravessou o batente e reconheceu a ave como sendo uma daquelas que vira no Mercado Dourado, da espécie que abria a cauda em leque.

Um grande e desajeitado... pavão?

Sim, era esse o nome, ele se lembrava claramente.

Entretanto, aquele pavão era diferente dos que vira. Suas penas eram inteiramente brancas. Não havia uma só mácula de outra cor que fosse em sua composição, a despeito dos olhos, vermelhos como o sangue vivo. Jamais se vira diante de uma criatura de tamanha beleza e majestade como aquela, e não fosse devido à comoção e fascínio que o tomara ao olhar para ela podia jurar que sob a luz do luar o pavão lhe parecia brilhar.

Era como se, tal como a lua, suas penas nevadas refletissem a luz do sol.

Vitorioso em seu primeiro intento, e como se tivesse consciência de estar sendo observado com tamanho embevecimento, o pavão parou de cantar e espichou as enormes asas brancas. Sua envergadura era poderosa o suficiente para fazer dançar os cabelos lavanda do alquimista, que diante de sua imponência mal se mexeu.

Então, virando para o lado a pequena cabeça coroada o pavão olhou para Mu, e Mu olhou de volta para o pavão.

Nem homem, nem ave, se deram conta, mas ambos prendiam o ar dentro dos pulmões enquanto viviam aquele pequeno instante mágico.

Os olhos vermelhos do pavão encaravam com intensidade hipnotizante e de tal forma convicta os verdes do alquimista, que quando se deu por si já estava a apenas dois palmos de distância dele. Nem se dera conta de seus passos.

Sem conseguir desviar os olhos do círculo de fogo, e como se fosse atraído por uma força misteriosa aquém de seu controle ou vontade, Mu esticou o braço e tencionou tocá-lo.

Mas o pavão queria mais que isso. Mais que simples toques, mais que puro encanto.

Antes de se deixar ser tocado ele alçou um voo desajeitado e pousou desengonçado no chão, do lado de fora da hospedaria.

Surpreendido Mu debruçou-se no parapeito para olha-lo lá embaixo.

Certo de que agora tinha cativo o interesse do homem, o pavão encheu novamente o peito de ar e cantou mais uma ou duas vezes antes de preparar-se para seu número principal, então eriçou as penas brancas do peito e das asas e reunindo todo empenho de que fora capaz — já que não podia se dar ao luxo de falhar — abriu a cauda em leque e tremeluziu, orgulhoso, os inúmeros ocelos exuberantes, dando início à dança.

Tantos foram os reinos pelos quais passara, tantas as terras que desbravara, tantos os encantos e maravilhas que seus olhos viram, mas ele estava certo de que beleza nenhuma se igualava ou sobressaia àquela. Talvez tal esplendor tivera sido dado àquela ave para compensar o canto horrendo e o desajeito no voo, ele pensou.

Iluminadas pelo luar, as centenas de olhos na ponta de cada pena da cauda trépida pareciam olhar todos para si desejando dominá-lo, encanta-lo. Estaria louco ou aquele pavão o estava querendo seduzir? Era aquele bailar algum tipo de corte? Mu não sabia o suficiente, mas tinha suas deduções, mesmo assim, isso pouco importava, ele era lindo, mágico, hipnotizante, e só desejava que o espetáculo continuasse. Por isso, sem pensar muito, e com medo de perder tão rara oportunidade, saltou por sobre o parapeito e novamente aproximou-se dele. Caso tivesse em condições de ser racional e ponderado, teria pego seu diário de notas para desenha-lo, assim teria uma recordação daquele encontro inusitado, mas já em solo temeu voltar ao quarto e perde-lo de vista.

Com cuidado, Mu agachou-se ao lado do pavão, lento e silencioso a fim de não assusta-lo. Ficaria frustrado caso ele se incomodasse com sua presença e fosse embora.

Quão ingênuo!

O pavão estava justamente onde queria estar.

Cada passo do alquimista para mais perto era celebrado com um novo gorjeio dissonante e um novo agito das penas e da cauda fabulosa. Agora andando em torno de seu belo alvo, a criatura executava sua dança repetidas e repetidas vezes, num empenho que beirava à perfeição. Seu estímulo vinha dos olhos verdes brilhantes vidrados em si, da boca entreaberta desenhada por um sorriso de puro encanto, dos cabelos lavanda que lembravam-lhe os cachos da sua Glicínia, onde passava as noites solitárias, da pele alva que exalava um odor tão agradável a si que o fazia cada vez mais impelido a continuar aquela corte, agitando-se, cantando, seduzindo, até que percebeu o alquimista tocar-lhe gentilmente a coroa de penas sobre a cabeça.

Um toque suave, receoso, com a ponta dos dedos curiosos. Um afago inocente.

Dessa vez o pavão não apenas permitiu o toque como projetando o pescoço longo para frente abriu o bico e pinçou alguns fios de cabelo cor de lavanda, então abaixou a cauda e dedicou-se apenas a desfrutar daquele encontro. Atiçado, esfregava a cabeça coroada no pescoço quente e nas madeixas úmidas, emitindo um chiado forte que lhe nascia da garganta.

— Quem diria... Você é dócil! — o alquimista murmurou surpreso e aprazido, enquanto acariciava-lhe o pescoço longo e emplumado — Não é possível... uma ave tão rara e bela, amigável assim... você deve ter um dono.

Afrontado por aquela conclusão leviana, já que era livre como o pensamento, o pavão chacoalhou a cabeça frenético e crispando as penas empurrou com o bico a mão do alquimista, que sarapantado com o gesto arregalou os olhos e recolheu os dedos ao próprio peito.

Teria passado dos limites? Mu pensou.

Mas quais seriam os limites de um pavão branco que no meio da noite veio cantar na sacada de seu quarto e em seguida claramente o convidou para assistir sua corte?

Mu, que tanta facilidade tinha para desvendar os mistérios do mundo, aquele era o segundo que Sei Samsara lhe estendia em um único dia, e que julgava ser incapaz de sequer encontrar o fio da meada.

O primeiro era Shakyan Pavo.

E exatamente como o belo comerciante de olhos azuis celeste fizera no Mercado, o pavão parecia exigir sua total atenção, não lhe dando espaço nem para os próprios pensamentos. Rodopiava e chacoalhava as penas brancas ciscando o chão arenoso com as garras; meio desajeitado, porém majestosamente belo, e cada movimento dele lhe soava tão hipnótico que quando percebeu já o seguia por uma pequena trilha na mata como estava: seminu, descalço e com os cabelos molhados do banho.

Tinha que parar de seguir desconhecidos daquela forma...

De salto em salto, de giro em giro, em pequenos carreirões ou voos baixos, sempre olhando para trás para certificar-se de que o alquimista o seguia, logo o pavão chegou à clareira onde residia sua Glicínia e o lago onde Mu tinha se banhado na noite anterior. Com um salto desengonçado pousou sobre uma das tantas grandes pedras que circundavam a água cristalina e novamente abrindo a cauda em leque esperou pelo seu acompanhante, que surpreendeu-se ao perceber para onde ele o havia guiado.

Atendendo ao chamado, Mu caminhou até o pavão e sentou-se ao pé da frondosa árvore florida. Descansando as costas no tronco, agora assistia hipnotizado ao seu balé gracioso, que naquele cenário pareceu-lhe ainda mais fantástico.

Diferente da noite anterior, quando suas medições estelares e buscas o levaram até ali, tudo dessa vez pareceu-lhe diferente, mágico. Os cachos lilases que pendiam da Glicínia tinham um perfume doce inebriante, a água cristalina do lago parecia cantar quando tocada pelo vento, o pavão...

Ah! O pavão!

— Então era você ontem — disse Mu. Os olhos verdes fixos aos círculos de fogo em meio à nevoa branca de penas crispadas — O seu canto me assustou, sabia?

Ele tinha consciência de que falava deliberadamente com uma ave, e baixando a cabeça por um momento esfregou os olhos cansados e riu.

— Eu acho que invadi o seu espaço, não é mesmo? Você vive aqui?... Me desculpe por ontem... — voltou a olhar para ele e lhe estendeu a mão.

Mu não pôde deixar de se surpreender quando o viu fechar a cauda e rapidamente saltar para junto de si, então ele esfregou a coroa de penas em sua palma e depois bateu os pés no chão dando giros agitados, como se estivesse excitado em ter o alquimista ali consigo.

— Você está feliz? — o alquimista ria como há muito não se recordava, enquanto o pavão lhe beliscava sutilmente os ombros e pescoço — Sabe, eu vou te contar um segredo, bela ave... — Àquela altura dos acontecimentos, depois de tudo que lhe acontecera naquele dia ele não se importava em parecer demasiado louco por estar falando com um pavão. Talvez louco fosse o fato de que ele se sentia completamente compreendido por ele. — Eu vim parar aqui ontem no seu lago porque estava em um missão, numa longa busca que me fez percorrer todos os Sete Reinos e que no fim me trouxe até Sei Samsara... A procura longa e difícil por uma estrela... Uma de verdade, brilhante, linda, poderosa, e que despencou do céu. Você viu alguma estrela cadente por aqui? — perguntou despretensiosamente com um doce sorriso.

Afagou o peito largo e branco sem de fato esperar por uma resposta. Ainda não tinha perdido totalmente o juízo.

Mas, para o completo espanto do alquimista, como se isso ainda fosse possível, já que tudo naquele dia estava sendo demasiado estranho, o pavão de repente se agitou e com um carreirão bateu as asas saltando desengonçado até uma das pedras na borda do lago. Lá, ele mergulhou a cabeça na água até quase ter o pescoço todo submergido.

— Mas o que? — Mu desencostou as costas do tronco da árvore e arregalou os olhos.

No instante seguinte o pavão retornou até o alquimista trazendo consigo no bico um dos muitos cascalhos que haviam no fundo do lago, o deixando cair sobre o colo dele.

Mu o apanhou atônito.

— Não pode ser! Isso é...

Numa breve análise ergueu a pequena pedra em direção à lua e percebeu se tratar de uma pequena, e muito chamuscada, rocha celeste.

Não era a sua tão almejada estrela, mas era o mais perto que havia disso, era a prova física de sua existência, além da anunciação de que sua longa busca estava próxima do fim.

— Ei! Você sabe o que é isso? Como você...

Orgulhoso de seu feito, o pavão se agitou tremendo as penas e dando pequenos saltinhos sem sair do lugar, então deu dois beliscões no peito, e mais dois na barriga de Mu, que encolheu-se assustado com toda aquela euforia, e depois novamente saltou para a borda do lago, num local diferente dessa vez. Repetiu a ação anterior, agora com muito mais empenho e satisfação.

Em poucos minutos Mu tinha um punhado de pequenas rochas celestes chamuscadas em seu colo e um pavão todo molhado, de peito inchado e bico empinado, ciscando ao seu redor enquanto dava seus gritos dissonantes de arrepiar até a mais vil das almas.

— Oh, sim, já entendi, já entendi. São todas para mim, não é? — gracejou, já bem à vontade com a ave, mas ainda impressionado com aquele desfecho inesperado.

O pavão respondeu beliscando sua cabeça e ombros nus. Felizmente seus beliscões não doíam.

— Obrigado... elas serão muito úteis para mim... Elas são os sinais de que estou próximo de encontrar minha estrela — ele sorriu, então percebendo que o pavão tremia por estar todo molhado, abriu os braços e fez um gesto para que viesse se aninhar em seu peito — Vem cá, você deve estar com frio, o clima daqui é quente, mas o vento está gelado.

O convite fora atendido de imediato.

Pronto.

Agora Mu tinha total certeza de que perdera a sanidade.

Em silêncio, recostado no tronco da árvore com o pavão aninhado em seu peito, o alquimista agora pensava em toda a sorte de absurdos consecutivos que aconteceram consigo só naquele curto espaço de horas. Primeiro o encontro inusitado com Shakyan Pavo, depois a tocaia dos ladrões no Mercado, a fuga alucinada pelas tendas, o caminho pelo túnel escuro até as ruinas da cidade, o beijo, os toques... por fim o pavão misterioso e as rochas celestes.

Aonde mais sua missão o levaria?

Estaria disposto a desvendar aqueles mistérios de Sei Samsara, ou seria melhor parar por ali?

Imerso em suas reflexões não se deu conta de quando fora vencido pelo esgotamento e adormeceu ali mesmo, abrigado pelos cachos esvoaçantes da Glicínia.

Um barulho abrupto e muito alto despertou Mu horas depois.

Sonolento e um tanto desorientado ele não soube identificar o ruído, mas quando enfim piscou os olhos pesados se deu conta de onde estava. Graças aos poucos raios de sol que começavam a despontar no horizonte percebeu que havia dormido sentado na clareira.

— Eu não acredito que passei a noite aqui, abraçado com um pa... pavão? — num sobressalto desencostou as costas doloridas do tronco da árvore percebendo que a ave havia sumido. Restavam ali somente os presentes rochosos e uma pena de sua cauda, exatamente e longa, igual a outra que ganhara de um certo mercador. Felizmente era a prova que precisava para ter certeza de que não havia delirado — O que está acontecendo comigo? O beijo daquele trambiqueiro do Pavo deve ter algum componente alucinógeno, não é possível!... Argh... ai... Minhas costas! Cadê aquele bicho?

Levantou-se dolorido, segurando com cuidado as pedras com as mãos; ao alongar-se ainda procurou ao redor pelo pavão.

Não havia nem sinal dele.

— Ótimo! Abandonado duas vezes. Nem aquele bicho me quis no final — constatou com um riso sem graça e um suspiro, irritado consigo mesmo por ter pensado no mercador logo que despertou — Nessa terra quente pelo jeito estou fadado aos encontros fracassados.

"Ou não!"

Isso Mu completou mentalmente quando se lembrou da proposta indecorosa que Shakyan Pavo lhe havia feito no dia anterior. Em poucas horas ele o estaria esperando nas ruinas.

Mu deu um suspiro longo e pesado. Estava completamente confuso sobre o que deveria fazer, mas uma coisa era certa, se não tomasse as rédeas da situação acabaria completamente engolido pelos encantos e mistérios de Sei Samsara.

Aquelas terras de fato faziam jus à reputação que tinham. Na verdade, eram muito mais perigosas do que lhe fora alertado, e era justo que fosse ali que sua busca chegasse ao fim, de um jeito ou de outro.