Os olhos de intensas íris verdes se comprimiram quando ele conferiu no céu a posição do astro rei; majestoso, o sol estava em seu ponto mais alto, açoitando a todos com sua luz brilhante e quente.
— Merda! — praguejou abaixando rapidamente o rosto, depois enxugou o suor da testa com a mão mesmo e bebeu um pouco da água que trazia consigo em um cantil preso ao cinto de couro em sua cintura.
Há apenas alguns dias nas terras de Khan e Hamal Mumiah já se dera conta de que caminhar sob o sol de Sei Samsara era uma completa tortura. Ele não podia deixar de pensar que deveria ser assim que se sentiam os beduínos ao cruzarem os escaldantes desertos. Contudo, a irritação que o fazia bufar a cada passo avançado não provinha tanto do calor, mas de seu próprio estado de espírito, da maldita pontualidade, e por que não dizer, da curiosidade que o fez abandonar a confortável estalagem onde estava hospedado para rumar para as ruinas da cidade. Uma hora de caminhada sob o sol; e para quê? Apenas para encontrar-se com aquele espertalhão do Shakyan Pavo e cara a cara poder dizer a ele que fora até ali pôr um ponto final naquilo... seja lá o que aquilo fosse.
Por vezes, nos momentos em que o calor lhe dificultava a respiração, ou quando temia estar se afastando cada vez mais do real motivo pelo qual estava em Sei Samsara, Mu maldizia a decisão que o levou até ali. De fato não era necessário caminhar aquele longo percurso, já que podia simplesmente ignorar o convite; sua ausência já seria sua resposta a Pavo. Contudo, ele não era um homem de deixar assuntos pendentes. E Shakyan Pavo era um assunto tão pendente que lhe fizera perder horas preciosas de sono.
Então estava decidido. Sacrificaria aquela manhã e o início de tarde, mas finalmente encontraria aquele mercador vigarista, lhe daria seu veredito e voltaria a se concentrar em sua missão; não tinha tempo para perder com Pavo. Estava em Sei Samsara apenas para encontrar sua estrela.
Embora tivesse pressa, assim que alcançou as ruinas Mu perdeu bons minutos a contemplando. Agora de dia, e com calma, foi que se deu conta do tamanho daquela monumental estrutura, que deveria contar com milhares de anos. Conforme ia correndo os olhos pelos imensos arcos de pedra que delineavam a entrada do que outrora teria sido uma cidade, com outro nome, outras histórias, ele se perguntava quantos homens teriam sido necessários para erguer tudo aquilo, e o que teria causado seu fim. Se não estivesse com tanta pressa em retornar à estalagem, tomaria seu diário de viagem e desenharia aquelas intrigantes formas arquitetônicas, então depois, num momento mais tranquilo, quem sabe as estudaria para desvendar-lhes os segredos.
Depois de um momento ali, caminhando entre estreitas vielas e perdido em pensamentos embalados pelo bater constante das ondas do oceano ao longe, finalmente Mu respirou fundo e embrenhou-se nas ruinas, agradecido pela brisa fresca vinda do mar e pela sombra que a construção lhe fornecia. Contudo, ele não sabia para onde deveria caminhar, visto que Shakyan Pavo não lhe dera uma localização precisa de onde estaria, considerando que aquele lugar era um verdadeiro labirinto, cheio de corredores, ladeiras, becos, salas... O mercador poderia estar em qualquer lugar, ou em lugar nenhum!
A mera possibilidade de ter caído em um dos engodos daquele sacana fez Mu dar um suspiro irritado, que a cada passo avançado menos certeza tinha de que estava agindo corretamente. Por um momento, sua disciplinada razão o fizera desejar que sim, que Pavo realmente não estivesse ali, que o tivesse enganado, iludido, então uma raiva brotou fundo de seu peito e ele passou a caminhar ainda mais decidido dentro das ruínas. Era bom que aquele vigarista estivesse ali sim, caso contrário o procuraria no Mercado Dourado e daria um fim naquilo de uma vez por todas para tomar de volta para si as rédeas de sua própria vontade.
Mas a verdade era que a vontade de Hamal Mumyah deixara de ser um corcel domesticado no momento em que a boca de Shakyan Pavo tomara a sua; agora esta ansiava por correr livre e bravia para uns braços cujo único desejo pungente era possuí-la.
E foram esses braços, longos e adornados em ouro, que de repente surpreenderam o alquimista o acordando bruscamente de seus devaneios.
Surgidos do nada eles o agarraram pelas vestes e o puxaram para dentro de uma das salas.
O repentino ataque fora tão rápido quanto forte. Num instante o corpo de Mu estava sendo sacudido e no outro já batia com as costas numa parede arruinada. Nem bem ele teve tempo de dizer o que quer que fosse em protesto que sua boca fora invadida por uma língua tão quente e impiedosa quanto o sol de Sei Samsara.
O beijo era ansioso, impaciente; exatamente como tinha sido sua espera.
— Quando o sol subiu das montanhas nesta manhã, o meu pau subiu junto com ele, Mu. — O sussurro foi dito nos lábios do alquimista, entre gemidos e chupadas obscenas.
— Hmm... Ei, Pavo! Es... espera... — Mu grunhiu tentando dar vez às palavras, mas Shakyan o seguia beijando sem clemência.
— Você demorou... eu já estava quase indo busca-lo — protestou sugando os lábios dele.
— Sha... Shaka... espera aí...
Nesse ponto, percebendo que o mercador não iria ouvi-lo, Mu segurou com força em sua cintura e tentou empurra-lo; foi então que percebeu que ele estava nu. Tal constatação pegou de surpresa o alquimista, que alarmado, com os olhos arregalados e o coração aos pulos sentiu o corpo todo estremecer violentamente.
Quantos níveis de descaramento cabiam naquele sujeito, afinal? Que certeza ele tinha de que cairia em seus encantos para o estar esperando daquele jeito descomposto, completamente nu?
Enfim, depois de lutar com as próprias mãos, que pareciam não querer abandonar a cintura delgada de Pavo, Mu conseguiu segura-lo pelos ombros e afasta-lo de si o suficiente para poder encara-lo nos olhos.
— O... o que você pensa que está fazendo? — Pretendeu impor certa autoridade em seu tom de voz, mas falhou assim que seus olhos fitaram os dele; toda sua força de vontade mais uma vez fora sugada para as profundezas daquele turbilhão azul celeste.
— Pensar? Ah, não! Eu já pensei muito nisso. Pensei a manhã toda! Você e eu, aqui... — ele disse dirigindo a Mu um sorriso malicioso, depois tomou os punhos dele com considerável força e o fez baixar os braços, assim pôde acercar-se novamente usando o próprio corpo para pressiona-lo contra a parede.
— Shaka... eu... — Mu ainda lutou um pouco para afastá-lo, conservando a ingênua ideia de que tinha ido até ali para dizer a ele tudo que havia tão cuidadosamente decidido.
Mas a verdade era que tal convicção caiu por terra no momento em que aqueles braços o tomaram e a boca quente e destemida de Pavo sugou seus lábios com o furor de um amante saudoso. Desse ponto em diante, Mu não conseguia mais negar que sua mente estava uma bagunça total.
— Não achou que apenas um beijo seu me seria o suficiente, achou, Mu? — dizia Pavo esfregando-se todo nele enquanto lhe beijava o pescoço. — E para você também não foi, eu sei... afinal, você está aqui.
Mu suspirou resignado sentindo-se patético por ter pensado que seria capaz de resistir ao calor daquele corpo estonteante, ao perfume fresco de lótus que exalava da pele e dos cabelos dourados como o sol, aos toques tão atrevidos...
— É, eu estou aqui, mas... — murmurou, mas a fala deu lugar a um gemido quando ele lhe mordeu o pescoço; estremeceu encolhendo os ombros.
— Eu quero continuar o que começamos ontem... Você não quer? — Pavo sussurrou no ouvido dele enquanto corria as mãos por debaixo de suas vestes para tocar-lhe a pele levemente suada.
— Ontem... foi um erro... — Mu respondeu sem convicção alguma. Esta foi completamente embora quando ele começou a esfregar o pênis duro como rocha contra o seu.
— O erro foi termos parado! — murmurou o mercador cujos dedos curiosos deslizavam para dentro do cós da calça do alquimista. — Mas agora podemos reparar esse erro.
— N-não... — Mu sussurrou. Suas mãos, que deslizaram para as nádegas expostas dele, agora experimentavam e apertavam a carne macia, enquanto com os dentes mordia os próprios lábios numa tentativa vã de segurar os gemidos. — Eu vim aqui justamente para... hmm... Para pôr um fim nisso.
— E que fim melhor do que aquele que acaba com você adormecido em meu peito, completamente exausto depois de eu te fazer gozar repetidas vezes? — Shaka gemia as palavras, esfregando os lábios no rosto de Mu enquanto sorvia o odor instigante que exalava da pele muito alva.
Mu comprimiu as pálpebras com força diante de tão explícita declaração. Não que fosse ingênuo, pois que sabia exatamente o que ele pretendia ao marcar aquele encontro; era que a afoiteza dele, que somada a seus modos obscenos e palavras descaradas que o assustavam.
Que Shakyan Pavo era um sujeito movido pela própria vaidade e orgulho isso já era sabido, a pergunta que se fazia era se daria conta de lidar com tudo isso.
— Você é... completamente insano — Mu cuspiu as palavras de qualquer jeito quando sentiu ele passar os dedos e depois agarrar seu pênis por cima da calça, como se estivesse verificando tanto o tamanho como o quanto estava duro.
— Eu quero ele todo na minha boca! — Pavo sussurrou no ouvido de Mu.
— Oh! Merda!
Dali em diante Mu entregara totalmente os pontos.
Todo seu corpo reagia com vigor e ânsia voluptuosa às provocações de Shakyan Pavo; sua vontade era completamente escrava da dele e nem adiantava mais querer negar. Se ao menos tivesse previsto que ele o surpreenderia de forma tão lasciva... Teria se desmanchado em seus braços do mesmo jeito, foi o que concluiu com um suspiro de pura derrota. Afinal, toda aquela resistência nada mais era que a consciência de saber exatamente o que aconteceria no momento em que reencontrasse aquele mercador vigarista. O queria mais do que tudo, e lutar contra esse orgulho tolo simplesmente não era mais uma opção.
— Ah, Shaka! O que você fez comigo? — gemeu, agora ele mesmo procurando a boca do mercador para tomar-lhe os lábios com um beijo abrasador.
"Se eu me entregar..." Mu pensou, e de repente uma porcentagem de seu pensamento, aquela que remetia ao medo que inevitavelmente guardava consigo em segredo, foi verbalizada em palavras abafadas junto aos lábios do mercador, que insaciáveis chupavam os seus: — Não vai me abandonar de novo... vai?
— E qual o homem que é capaz de abandonar o desejo? — Pavo sussurrou enquanto divisava alucinado os olhos enegrecidos de luxuria dele, depois emendou: — A não ser aqueles que abdicaram dele em busca da luz para seus espíritos eu não conheço nenhum outro... O que está longe de ser o meu caso, porque... tudo o que eu faço é deseja-lo mais e mais, Mu... desde que coloquei meus olhos em você pela primeira vez, no Mercado, e agora aqui... e amanhã, e depois...
Cada palavra dita era selada por um beijo intenso, ao qual Mu ofegava e gemia em resposta, enquanto em algum local obscuro de sua mente ele tentava entender aquela declaração. "Amanhã. E depois..." Oh, deuses! O que ele queria dizer com aquilo? Pensava ele, com a mente em turbilhão e o coração batendo descompassadamente.
Quando a fome da língua e a urgência dos lábios calaram de vez as palavras, Shaka levantou Mu do chão o fazendo enlaçar sua cintura com as pernas, então o carregou até um grosso tapete de pelos macios colocado caprichosamente no centro daquele ambiente. Sobre este havia meia-dúzia de almofadas coloridas; no entorno dele alguns cestos de capim dourado continham frutas, castanhas e outros petiscos diversos. Havia também ali um jarro grande de cerâmica com duas cuias pequenas, e mais dois jarros menores do mesmo material. Tudo isso, mais as lamparinas acesas colocadas nos beirais das aberturas na parede e as pétalas de flores de lótus salpicadas no chão Mu só conseguiu reparar quando foi deitado gentilmente sobre as almofadas.
O safado pensou em tudo! Pensou ele.
Com a mesma amabilidade com que o deitara ali Shaka o despiu da camisa, então suas mãos ávidas puderam louvar a textura incrivelmente macia e sedosa da pele que encontraram por debaixo do tecido áspero. Interrompeu os beijos para poder olha-lo, já que exatamente como suspeitava todo o torso dele, a partir do pescoço, ombros e incluindo os braços, era tatuado com desenhos, números, símbolos e inscrições indecifráveis que formavam um arranjo único e belo. Esses mal deixavam livre uma fração pequena de pele, e seguiam descendo por debaixo da calça.
— Ah, pelo majestoso sol que me permite caminhar entre os homens... você é magnífico, Hamal Mumiah! — Ele sussurrou delineando com o indicador alguns dos desenhos antes de espalmar ambas as mãos no peito agitado.
Ouvir aquilo de alguém cuja presença e beleza só poderiam ser equiparadas à força da natureza era de massagear até o mais modesto dos egos.
— Não tanto quanto você... Shaka — Mu disse em enlevo. Suas mãos igualmente percorreram sequiosas o peito largo e bronzeado, só depois então subiram para o rosto iluminado pela luz do sol, a qual entrava por uma das aberturas na parede. — Oh, pelos céus, os meus olhos jamais viram antes tamanha beleza reunida toda em uma única criatura.
O mercador mordeu a boca e sorriu safado. Aquela confissão só não o envaidecia mais do que os beijos famintos que o alquimista lhe demandava, estes que só se apartaram quando a necessidade urgente de Shaka em explorar o corpo abaixo do seu se tornara maior.
— Ah, eu o quero tanto! — Ele confessou aos sussurros enquanto abocanhava um dos mamilos o sugando impudentemente sem hesitar.
Mu deixou escapar um gemido e apertou a cintura de Shaka com as pernas. O calor e o perfume do corpo dele, somado àqueles lábios atrevidos em seu peito o estavam pondo louco. Com ganas em toca-lo levou a mão até à nuca dele e arranhou a pele, dando em seguida um puxão forte nos longuíssimos cabelos loiros.
— Não... Não me provoque assim... — Mu gemeu ofegante.
Shaka levantou a cabeça e cheio dos sorrisos dirigiu a ele um olhar obsceno; um olhar que declinava totalmente daquele alerta.
— Você me pede o impossível — ele disse apoiando-se nos joelhos para levantar o tronco e assim poder olhar para ele deitado ali, ofegante e corado. Devagar correu as mãos pelo interior das coxas do alquimista, apertando a carne macia por cima do tecido até chegar aonde queria e conferir com o coração palpitante a ereção dele por debaixo da calça. — Cada parte do seu corpo me pede para ser provocada... em especial esta aqui.
Mu ofegou mordendo a boca. Embora estivesse certo do que queria, havia ainda um pouco de temor pelo que se seguiria. Decerto que não era nenhuma donzela ingênua e virginal, mas é que nunca tinha praticado sodomia, não com um homem, e considerando o modo como Shakyan Pavo olhava para si, com os olhos azuis faiscantes de luxuria, Mu sentia que seria devorado por ele até os ossos.
— Oh... O que está esperando então? — disse encarando aqueles olhos contornados em kajal negro que o comiam sem pudor algum. — Você me seduziu e me atraiu até a sua armadilha... eis que aqui estou, completamente rendido... à mercê dos seus desejos... Agora faça o que quiser comigo, Shakyan Pavo.
Os olhos do mercador cintilaram uma faísca escarlate ao ouvir tais palavras.
— Oh! Bem corajoso da sua parte me conceder tal liberdade! — Shaka disse antes de mergulhar no corpo febril debaixo do seu e tomar a boca do alquimista com um beijo tão intenso que parecia até que ele pretendia engoli-lo. — Eu gosto disso! — emendou lhe mordendo os lábios.
A verdade era que Pavo esperava por aquilo desde que chegara às ruinas, pouco depois do sol atingir o ponto mais alto do céu. Esperava pela entrega de Mu, por ser capaz de fazê-lo deseja-lo tanto quanto o desejava, e de posse dessa consciência nada no mundo o faria parar desde aquele ponto. Contudo, uma força maior o impelia a agir com surpreendente calma com aquele alquimista, diferente das outras tantas vezes em que saciar os desejos da carne era tudo o que lhe importava. Nunca fora para ele tarefa fácil domar seus instintos, mas surpreendentemente agora ele sentia uma necessidade recém-adquirida de fartar também os anseios do coração, e era isso que parecia lhe conferir forças para lutar contra sua natureza.
Impelido por aquele sentimento inédito, Shakyan pacientemente traçava uma trilha de beijos intercalados com mordidas pelo pescoço e ombros de Mu, enquanto suas mãos hábeis desafivelavam sem pressa o cinto de couro. Um pouco mais de manejo e o livrou também das botas e das calças, então mais uma vez ele se apoiou nos joelhos para admirar o alquimista, agora totalmente nu; e além da deliciosa ereção que apontava para si úmida e pulsante, novamente os desenhos na pele cativaram sua atenção, pois que, como previa, preenchiam todo e qualquer espaço, descendo pelas virilhas, coxas e joelhos até chegarem aos pés. Mordeu os lábios já os imaginando ocupando a carne alva das nádegas dele.
Mu era realmente um festim sublime aos seus olhos de fera indomável.
— Gosta do que vê? — Mu perguntou quase sem fôlego ao nota-lo absorto e com os olhos azuis presos em sua pelve. Sabia muito bem que seu corpo tatuado causava curiosidade e fascínio, visto que nem mesmo seus genitais escapavam das tatuagens, e se Shaka o estava contemplando assim era um privilégio que jamais tinha cedido a mais ninguém.
— Se gosto? Gostar eu gosto da minha algibeira pesada e bem cheia de moedas de ouro, agora você... Você eu adoro!
Mu não conseguiu conter uma risada acanhada.
— Você fala isso para todos que seduz, Shakyan Pavo?
— Não. Só falei para você.
— Devo me considerar um homem de sorte então?
— Eu não chamaria de sorte aquilo que já estava destinado a acontecer, chamaria de Fortuna!
A seriedade com que ele dissera aquilo, somada à maneira como olhava para si, bem dentro dos olhos estupefatos, como se conseguisse lhe enxergar a alma, causou em Mu um forte calafrio. De repente ele passou a se perguntar por que Shaka seguia dizendo tais coisas tão... sedutoras, sendo que já estava ali, totalmente entregue a ele. Não saberia dizer se lhe agradava ouvir aquelas declarações confessas e apaixonadas, se seu coração palpitava de emoção ou de receio, mas também não quis se ater a esses questionamentos, até porque eles foram embora logo que Shaka apoiou uma mão em cada joelho seu e lhe fazendo abrir mais as pernas debruçou-se sobre seu torso. Agora os beijos deliciosamente obscenos que minutos antes acariciavam seus mamilos e o pescoço eram dados em sua barriga, virilhas, coxas e no pênis. Este em dado momento ele segurou com considerável força e arrancou de si um gemido contido.
Os gemidos e a visão do homem desfeito em delírios lascivos eram para Pavo como brasa atirada ao mato seco. Num só movimento ele juntou seu pênis ao de Mu e segurando a ambos juntos começou a empenhar movimentos de vai e vem numa cadencia lenta e deliciosa marcada pelo tilintar das dezenas de pulseiras em seu pulso. Por vezes jogava a cabeça para trás e de olhos fechados suspirava e gemia sem o menor pudor, sorvendo cada minuto daquele contato com um capricho hedonista, até que sentindo o corpo explodir terrivelmente em volúpia escorregou para baixo e tomou o pênis dele em sua boca, sugando e lambendo com tanto apetite que era como se degustasse a mais saborosa das iguarias.
— Oh... Shaka... — A voz de Mu soou trêmula e baixa. O calor da boca dele parecia penetrar com furor em seu corpo lhe fazendo se sentir como uma imensa bola de fogo.
Foi exatamente nesse ponto que Mu perdeu-se de vez e sem volta.
Não havia mais nada ali, nem o som das ondas se quebrando no rochedo, nem o vento assoviando ao correr por entre as vielas e aberturas das ruinas; só havia Shaka, sua língua macia e sua boca esganada emitindo sons para lá de obscenos que ecoavam em sua mente cada vez mais alto e lhe fazia sentir um prazer muito maior do que esperava. Consumido por inteiro, levou uma das mãos até a própria boca e mordeu os dedos para conter a vontade de gritar, enquanto com a outra agarrou com força a cabeleira loira entre suas pernas, observando com os olhos turvos aquele homem belíssimo que se fartava tão avidamente de seu sexo.
Em dado momento Shaka, com o pênis todo enfiado na boca, levantou o olhar para Mu, e no exato momento em que seus olhares se tocaram este sentiu a garganta dele vibrar. Então uma forte descarga elétrica explodiu de seu períneo irradiando por todo o corpo e ele se viu obrigado a contrair-se e apertar o tapete com os dedos dos pés; nesse ponto já lhe era impossível conter os gritos.
— Oh... Shakaaa... espere eu... ahhh... — gemeu alto e em desespero, puxando os cabelos loiros dele com força, e sem que pudesse ter qualquer controle sobre seu próprio corpo gozou, com impressionante e vergonhosa rapidez.
Talvez o motivo fosse a crescente tensão causada pela ansiedade que acumulara desde o dia anterior, ou o mais óbvio, pela espantosa habilidade oral de Pavo, que engoliu toda sua semente como quem sorvia um doce néctar.
O orgasmo arrebatador consumiu por completo as energias do alquimista, que desvanecido sobre o tapete tal qual uma ave delicada após um longo e exaustivo voo arfava com uma das mãos sobre o peito que subia e descia agitado.
Uma visão maravilhosa para o par de olhos azuis que o contemplavam transbordando lascívia.
— Uau! Você tinha razão!... Estava mesmo com pressa em pôr um fim nisso — Shaka riu dele em tom de zombaria, passando a língua entre os lábios. — Achei que você fosse aproveitar um pouco mais.
— Ah, cala essa boca! — Mu resmungou baixo e acanhado, escondendo os olhos com o braço para não ter de olhar para o rosto zombeteiro dele. Ele tinha mesmo que fazer aquele comentário vergonhoso?
— Pois vou calar agora mesmo! — Shaka respondeu aos risos, então lentamente debruçou-se sobre o corpo macilento abaixo do seu, sobrepondo seu peito ao dele, segurou seu rosto e lhe tomou a boca ofegante com um beijo esfomeado, no que era retribuído com igual intensidade.
Diferente do sabor doce das outras vezes, a língua dele agora tinha o gosto de seu sêmen, o que a princípio fez Mu contrair ligeiramente o rosto numa careta.
— Não gosta? — Shaka perguntou; suas respirações se misturando em meio ao beijo.
— Hmmm... não é isso, é só... novo para mim — Mu respondeu com sinceridade.
— O seu gosto, Mu... é maravilhoso — murmurinhou enquanto chupava os lábios dele, então depois de longos minutos os saboreando encarou os olhos do alquimista com uma expressão terrivelmente maliciosa. — Eu quero mais!
Foi só o tempo de ouvir aquela frase e já o tilintar das pulseiras nos braços longos de Pavo entregaram a Mu as intenções dele.
Com pressa, porém bastante compostura, ele rolou para o lado, ajeitou uma almofada bem fofa debaixo da cabeça de Mu e o fez deitar-se de bruços. Como esperava encontrar, não havia ali também uma só fração da pele dele que não fosse coberta por tatuagens. E ele gostou muito do que viu.
— Eu me pergunto, e você? De quais enigmas da natureza você é feito... — murmurou muito baixinho, correndo os olhos pelos desenhos.
— O que disse?
Mu perguntou esticando para ele o olhar por cima dos ombros, mas logo que sentiu os cabelos loiros fazerem cócegas em suas costas, junto dos beijos molhados que pareciam traçar desenhos aleatórios na pele, fechou os olhos e suspirou roçando as bochechas no tecido macio da almofada. A princípio sentiu-se um pouco acanhado pela posição em que estava, já que era mais do que óbvio o que se seguiria, e também havia um parco nervosismo lhe acelerando as batidas do coração.
Mas o que de fato intrigava Mu era qual alquimia podia existir nos beijos daquele homem que pareciam ter o poder de penetrar-lhe a pele e lhe causar tão grande frenesi?
Completamente perdido nas delícias dos beijos e no êxtase dos toques daquelas mãos, que apesar de belas e delicadas tinham uma pegada espantosamente forte, logo Mu sentiu-se relaxado como nunca; por isso mesmo que apenas se dera conta de que Shaka lhe mordia as nádegas quando num único movimento brusco ele as levantou até uma altura suficiente para poder enfiar uma almofada debaixo de seus quadris e levar os beijos, que antes saboreavam suas costas, diretamente à sua intimidade. Alarmado, e até meio assustado, Mu comprimiu fortemente os lábios para tentar disfarçar o alvoroço dentro de si, pois que de todas as coisas que esperava poder acontecer naquele inusitado encontro com aquele homem, tal toque tão íntimo quanto ousado sequer lhe passou pelos pensamentos, até mesmo nos que considerou mais pervertidos. Agradeceu a si mesmo, ou melhor, ao seu inconsciente intuitivo, por ter tomado um longo e demorado banho antes de vir até as ruinas. Isso lhe pouparia de constrangimentos, já que sentia a língua atrevida e gulosa de Pavo agora entrando em si sem a mínima sombra de modéstia.
E não apenas a língua do mercador tinha um apetite selvagem por experimentar aquele corpo. Também suas mãos o provavam, ora correndo com suavidade pelas coxas, tateando os músculos firmes, ora apertando impiedosamente a carne macia das nádegas tatuadas. Numa dessas ele agarrou ambos os lados e os afastou o quanto pôde para um melhor deleite.
Quantos corpos já havia experimentado... Quantos gostos e quantos cheiros magníficos... Mas nenhum era como o daquele alquimista das terras de além da Muralha de Cristal.
Shakyan Pavo já tinha certeza de que não desejaria nenhum outro corpo que não fosse aquele debaixo do seu... para o resto de sua vida.
As carícias tão íntimas que antes causavam estranhamento e vergonha, logo se tornaram aprazíveis e instigantes para Mu. Sem dar-se conta ele ofegava e soluçava, apertando o tapete com as mãos e erguendo os quadris involuntariamente, oferecendo tão plenamente sua intimidade àquele homem de forma que nem mais conseguia reconhecer a si mesmo ali.
— Shaka... Shaka... — gemia repetidamente o nome dele.
Súbito, Pavo abandonou tudo o que fazia e sem disfarçar a euforia que punha sua respiração acelerada e seus modos um tanto mais brutos, arrastou-se ágil como um felino por cima dele e para sua surpresa lhe abocanhou a nuca, fazendo Mu encolher os ombros sentindo um arrepio repentino e forte.
— Ah, eu quero entrar em você, Mu... — ele sussurrou enquanto com os dentes arranhava a pele eriçada, forçando o quadril contra as nádegas dele, esfregando o pênis firme como rocha no vão entre elas — Você me quer? Disse que nunca esteve com um homem antes... então... é importante para mim... saber se você também me quer dentro de você.
Mesmo antes de ter uma resposta, Shaka esticou o braço por debaixo das tantas almofadas que haviam ali e apanhou um pequeno frasco com óleo lubrificante.
— Eu disse mais cedo... que você poderia fazer o que quisesse comigo — Mu arfou empinando o quadril para aproveitar melhor aquele roçar insistente que o estava pondo louco. — Ah... Shaka... Me enlouqueça!... Eu nem mais sei o que estou fazendo, eu... eu só sei que quero...
— O que você quer, Mu? — Pavo brincava com ele enquanto descia a mão para suas nádegas já com os dedos encharcados pelo lubrificante.
— Eu quero tudo! — Mu gemeu contorcendo-se debaixo dele e decidido a aproveitar ao máximo aquela experiência. — Eu quero você por inteiro, todo o seu ser... quero até mesmo o ar que você respira, Shaka... Ah, eu quero você dentro de mim!
Uma corrente excitante percorreu todo o corpo do mercador ao ouvir aquelas palavras. Estremecido de desejo ele fechou os olhos e gemeu no mesmo instante em que introduzia o indicador na intimidade do alquimista; foi ao delírio quando o sentiu contrair-se todo em resposta àquela presença invasora.
— Relaxe e aproveite... — sussurrou beijando a nuca e o pescoço de Mu.
E entre muito beijos, sussurros e suspiros calorosos, Shaka explorava o corpo de Mu, enlouquecido com aquele aperto e o calor intenso como brasa, sempre atento aos sinais que ele lhe dava; quando o sentiu mais relaxado introduziu um segundo dedo e seguiu com a preparação fazendo movimentos ora circulares, ora de vai e vem, o vendo se desmanchar por inteiro mais e mais; ele mesmo buscando forças dentro de si para domar o ímpeto em toma-lo de forma selvagem e sem preparação ou cuidado algum. Porém, aquele homem não era qualquer um, Mu era especial, muito mais do que ele próprio supunha e portanto daria a ele todos os cuidados que merecia... ou ao menos tentaria, antes de sucumbir totalmente aos seus instintos.
Já sentia seu pênis terrivelmente dolorido e excitado. Gotas de suor brotavam de sua testa, especialmente quando percebeu que Mu passara a desfrutar dos dedos que o estimulavam gemendo e contorcendo-se conforme estes o invadiam com maior vigor, abraçando com naturalidade aquele prazer recém-descoberto. Aquela entrega do outro era o sinal que estava esperando.
Com a respiração acelerada, Shaka retirou os dedos de dentro dele ouvindo um longo gemido em resposta. Ansioso, e sentindo como se seu peito fosse explodir de tanto tesão a qualquer momento, encharcou o pênis com lubrificante e o segurando firme pela base começou a esfregar a glande inchada e úmida na intimidade de Mu; tanto autocontrole era fruto de um mantra que ele obrigava-se a repetir incessantemente em seus pensamentos: "Vá devagar. Vá devagar. Porra, vá devagar!"
— Oh, Mu... — gemeu alto entre suspiros quando o penetrou. Pretendia enfiar-se dentro dele aos poucos e com cuidado, mas quando sentiu a carne dele estrangular com deliciosa pressão o seu pênis só foi capaz de parar quando enterrou-se por inteiro, embora o fizesse com surpreendente lentidão. — Aaah... pelo sol e pela lua... eu quero foder você para o resto da minha vida!
Mu sequer tinha ouvido o que ele dissera.
O pênis dele era de fato muito maior que apenas dois dedos atrevidos, e abria passagem dentro de si como se fosse uma espada de fogo afiada. Ofegante Mu contraiu-se agarrando-se às almofadas, mas imediatamente em seguida fechou os olhos e apressou-se a controlar a respiração e tentar relaxar, pois sabia que se ficasse tenso pela dor ela só se tornaria mais intensa.
— Espere, Shaka... Dê-me apenas... apenas um momento — implorou com a voz falha quando finalmente conseguiu dizer algo.
— O quanto você achar que precisa... — Shaka murmurou escorregando uma das mãos para o peito dele e lhe acariciando o mamilo enquanto beijava ternamente a lateral de seu rosto; o único movimento que seu corpo executava era o da respiração ligeiramente arfante. Embora por fora seu corpo parecesse completamente disciplinado, por dentro um vulcão lhe consumia. — Só não me faça esperar demais ou tenho certeza que enlouquecerei!... Ah, eu o desejo tanto que meu peito dói e meus sentidos aguçam!
Mu fechou os olhos e gemeu sentindo a pele toda arrepiar-se com os beijos de Shaka; a sensação daqueles lábios quentes em sua pele era tão divina que sem dar-se conta remexia-se e levantava os quadris em busca de um melhor encaixe, então após alguns minutos experimentando tal deleite ele percebeu que seu corpo parecia ter finalmente se acomodado com todo aquele volume invasor; a dor também se abrandara significativamente.
— Ah... é... tão bom... — gemeu, então por fim pediu arfante: — Prossiga, Shaka... já não dói tanto...
Só depois de ouvir aquilo foi que Pavo permitiu-se seguir com o ato.
Ainda beijando o pescoço de Mu ele buscou sua mão e ao toma-la na sua entrelaçou os dedos com força, então começou a se mover. No início ainda conseguiu guardar algum zelo; movia-se devagar, com extremo cuidado, acomodando-se dentro daquele corpo tão apertado, mas não demorou muito para que o furor que crescia dentro de si se tornasse indomável.
— Oh... Mu... — Shaka praticamente rosnou o nome do alquimista enquanto esfregava o rosto nos cabelos cor de lavanda; daquele ponto em diante ele já não era mais senhor absoluto de suas vontades.
E Mu tampouco das suas.
Ao passo que seu corpo febril era sacudido com cada vez mais força ele só conseguia pensar que o êxtase de se entregar a outro homem era algo inimaginável, um prazer que nunca havia experimentado antes e que agora o impelia a gritar e pedir por mais.
E os clamores do alquimista punham louco o mercador, que passando ambos os braços por debaixo do peito dele o abraçou num forte e possessivo abraço, enquanto o penetrava com estocadas cada vez mais fortes e vigorosas. O suor já brotava de sua pele fazendo seus cabelos loiros grudarem nas costas; a carne trêmula e o corpo convulso de Mu o faziam perder a razão e por vezes lhe desferir algumas dentadas nos ombros e pescoço. Nessas horas ia ao delírio com o sabor único e salgado da pele que preenchia toda sua boca.
As carnes de ambos agora colidiam-se uma contra a outra produzindo um som alto e delirante, o qual ecoava pelas ruinas numa cadencia dezenas de vezes mais acelerada que a das ondas que se quebraram no paredão de pedra do lado de fora.
E embora o ato fosse intenso, Shakyan Pavo não demonstrava o mínimo sinal de cansaço ou de que já estava próximo do clímax.
Quando teve certeza de que Mu disfrutava prazerosamente do sexo forte, sem todo aquele cuidado do princípio Shaka saiu de dentro dele, o agarrou pela cintura e num único movimento o fez girar o corpo e deitar-se de costas no tapete; no instante seguinte segurou em seus joelhos, abriu-lhe bem as pernas e conforme as erguia e se deitava sobre o corpo dele o penetrou novamente com uma estocada lenta e profunda. Esforçou-se para não ser demasiadamente bruto, mesmo quando até seus beijos já tornavam-se violentos, parecendo querer devorar os lábios de Mu.
E quando não era a boca, eram os olhos selvagens de Shakyan Pavo que pareciam querer arrancar pedaços de Mu. Enquanto o penetrava, esses o miravam num misto de embevecimento e torpor lubrico, deleitando-se com o que viam. Por vezes erguia o tronco e então sustentava as pernas dele nos ombros apenas para poder olhar para a doce expressão de agonia que ele fazia quando lhe mordia as coxas suadas e empurrava-se para dentro dele o mais profundo que conseguisse.
— Aaah... Shaka... — Mu gemia o nome dele como se invocasse um encantamento mágico, sentindo-o dentro ainda mais quente e mais forte, e a visão daquele homem magnífico o tomando com tanta paixão e furor lhe causava uma emoção indescritível. Não conseguia tirar os olhos dele, agarrado aos próprios cabelos e por vezes pensando se não delirava, já que Pavo ali lhe parecia a própria força da natureza encarnada.
A certa altura, já sem nenhuma noção de tempo, espaço ou realidade, Hammal Mumiah sentiu mais uma vez as correntes elétricas do orgasmo correrem por todo seu corpo, então um formigamento forte tornou mais quente a região púbica e os desenhos tatuados ali com tinta produzida por alquimia de repente se destacaram; como na vez anterior, mas agora de maneira mais intensa e visível, os traços e inscrições adquiriam um tom preto mais forte e tremeluziam a medida em que a pele onde estavam gravados esquentava.
— Ohh... Shaka! Não pare! Continue! — rogou rolando os olhos, e quase em desespero levou a mão ao próprio pênis duro como pedra e começou a se masturbar. — Não pare... eu... eu vou...
Mu gozou mais uma vez diante do olhar consumido em êxtase de Shaka; o orgasmo intenso que sacudira todo seu corpo fora de tal forma sublime que não poderia iguala-lo a nenhum outro que tivera.
Os espasmos dele, o sêmen derramado no torso e os músculos amolecidos levaram o mercador à loucura.
Emitindo um som que mais parecia um rosnado Shaka agarrou-se a Mu com força e então as estocadas se assemelharam a pancadas furiosas. Com mais algumas investidas ele se permitiu desfrutar do prazer maior desabando sobre o alquimista enquanto ainda o preenchia com sua semente.
Por um instante o tempo pareceu estacionar para ambos. Em silêncio eles ficaram ali, deitados sobre o tapete, entre as almofadas, embalados pelo som das vagas, de suas respirações agitadas e de seus corações que palpitavam juntos e sobrepostos, compartilhando das mesmas sensações de embevecimento pleno.
Quando o fôlego de ambos assumiu uma cadência mais amena, as mãos se procuraram e mais uma vez os dedos se entrelaçaram. Shaka então levantou a cabeça e beijou os lábios quentes de Mu com ternura.
— Foi... incrível! — o alquimista sussurrou na boca do mercador, depois abriu os olhos e encontrou os olhos azuis fixos aos seus; eles tinham uma expressão indecifrável.
— Não. — Shaka disse beijando o queixo dele. — Está sendo incrível!... Quem disse que terminei?
Surpreso Mu arregalou os olhos e logo sentiu o pênis de Shaka crescer dentro de si conforme ele voltava a se movimentar entre suas pernas; gemeu mordendo os lábios e agarrou-se ao corpo suado dele lhe arranhou as costas sem piedade.
A fama de comerciante desonesto de Shakyn Pavo só não era maior do que a de amante insaciável.
Todos que caíram em seus encantos conheceram a ambas, já que ele sempre furtava algo de seus parceiros antes de abandona-los desmaiados depois do sexo. Contudo, com Mu fora diferente. Para ele entregara-se de forma plena e genuína.
Como havia dito horas mais cedo, quando finalmente deu por saciado o seu desejo Shaka ajeitou-se confortavelmente entre as almofadas e aninhou Mu em seu peito, que exaurido de todas as suas forças não sentia-se capaz nem de se mover sem ajuda.
Com toda a certeza aquela tarde seria para Mu uma das suas memórias mais preciosas, sua mais incrível história de viajante, e a qual certamente contaria ao seu mestre em uma noite de bebedeira quando regressasse ao lar.
— Acho que... vai ter que me carregar até a hospedaria — o alquimista brincou rindo de olhos fechados. Sua cabeça sobre o peito do mercador subia e descia acompanhando a cadencia da respiração dele. — Foi maravilhoso mas... eu não sinto nem minhas pernas.
Shaka sorriu de volta e lhe beijou a testa enquanto fazia um cafuné em seus cabelos.
— Eu o carregaria para onde me pedisse, mas desde que pudesse ficar com você quando chegássemos ao seu destino... — ele disse, e de repente sua fisionomia ganhou um ar melancólico; tratou logo de enxotar tal melancolia mudando de assunto: — Está com sede? Deve estar. — perguntou se esticando para apanhar um dos jarros menores de cerâmica postos ao lado do tapete. Na ação aproveitou para alcançar também os cestos com frutas e trazê-los para perto.
— Você realmente pensou em tudo. Uma armadilha completa! — Mu exclamou ao levantar o tronco e apoiar um dos cotovelos no chão para pegar uma tâmara seca, enquanto ele lhe servia a bebida, um vinho bem suave.
— Armadilha? Não me parece que o mantive aqui à força, tampouco que fiz algo contra sua vontade — Shaka riu encantador botando uma uva na boca enquanto observava o alquimista beber sedento o vinho.
Mu nada disse a esse respeito; no lugar disso levou o jarro à boca, mas não bebeu o vinho; guardou um tanto na própria boca e depois inclinando-se sobre Pavo serviu a bebida a ele diretamente de seus lábios.
Um longo e delicioso beijo com sabor de vinho foi trocado antes que Mu repousasse novamente no peito de Shaka de maneira preguiçosa e confortável, que tratava de aproveitar cada momento o aninhando em seus braços enquanto lhe acariciava os cabelos e corria os olhos pelas tatuagens enigmáticas em sua pele.
— Como você faz aquilo? — ele perguntou depois de um momento em silêncio.
— Aquilo o quê? — Mu inquiriu com voz macilenta; a exaustão e o vinho estavam lhe dando sono.
— As tatuagens no seu corpo... Eu perco um pouco a razão quando estou com muito tesão, mas eu tenho certeza que vi algumas delas se mexerem e ficarem mais escuras quando você gozou, em todas as vezes que gozou — frisou. — Falo dessas aqui... — passou os dedos sobre as tatuagens em torno do pênis de Mu, depois virou-se de frente para ele e encarando seus olhos esticou o braço e deslizou a mão para o meio de suas nádegas introduzindo gentilmente o indicador em sua intimidade. — E das que você tem também por aqui. — deu um sorrisinho safado.
— Ah!... Isso! — o alquimista suspirou sorrindo de volta.
Mu então rolou para o lado e deitou-se de barriga para cima sobre as almofadas, de modo a expor seu corpo todo sem pudor algum, depois fechou os olhos e respirando fundo começou a falar:
— Eu sou um alquimista do Norte, como você já sabe... A minha Ordem desenvolveu uma técnica especial para proteger e guardar o nosso bem mais precioso: o conhecimento. — fez uma pausa e ponderou por um instante se deveria prosseguir, já que o que estava revelando ali poderia custar-lhe a vida. — Existe uma razão para que o nosso conhecimento jamais tenha sido furtado. Os nosso segredos não são guardados em livros... nós os gravamos nos nossos corpos.
Shaka arregalou os olhos e olhou para ele verdadeiramente espantado.
— Uau! Por isso não se encontra um único pergaminho, transcrição ou grimório da alquimia nortenha, por mais que se busque por eles — disse surpreendido.
— Exato.
— Eu tenho alguns clientes alquimistas, sabia? No Mercado Dourado, querendo ou não eu acabo lidando com todo tipo de gente. Já fiz negócios com viajantes de todos os Sete Reinos... Vez ou outra me procuram em busca de qualquer material que remeta à alquimia praticada além da Muralha de Cristal, e sempre estão dispostos a pagar qualquer preço... Você, meu caro, aqui no Sul deve valer algumas centenas de Ciclos de Ouro! Talvez até um baú inteiro cheio deles.
Mu abriu os olhos e o encarou estupefato.
— Por acaso está pensando em me vender, Shakyan Pavo?
— O que?
Mu riu debochado da cara de susto que ele tinha agora, em seguida sentou-se e bebeu mais um gole de vinho.
— Pois se tal pensamento passou por essa sua cabeça loira, eu lamento dizer que terá que abandoná-lo. Você nos toma por tolos ingênuos ou o quê? Acha que eu contaria tal segredo a um mercador vigarista sem nenhuma garantia? É claro que sempre consideramos a possibilidade de nosso conhecimento cair em mãos erradas... por isso mesmo que firmamos um pacto. Os segredos da alquimia nortenha são passados de mestre para aprendiz, e estão tatuados na pele de cada um de nós. A tinta das nossas tatuagens é vinculada à nossa vida, de forma que quando morremos toda ela desaparece. Então, se me vender para qualquer um dos seus clientes, senhor Pavo, eu vou cumprir o pacto e dar cabo da minha vida para salvar os segredos do meu povo. Será bastante rápido e eficiente, inclusive. — referia-se a cápsula de cianureto implantada cuidadosamente em seu último molar, a qual se rompida propositalmente lhe conferiria uma morte limpa e quase instantânea. Isso, no entanto, ele não revelou ao mercador.
Shaka ficou chocado ao ouvir aquilo; um repentino sentimento de medo e aflição fez seu peito gelar.
— Ei! — ele tomou o vinho das mãos de Mu e num movimento apressado jogou-se em cima dele o derrubando de volta sobre o tapete, então segurou seu rosto com ambas as mãos e com força. Sem fechar os olhos para não quebrar o contato visual o beijou de forma afobada. — Não repita isso! Foi uma brincadeira! Agora percebo o quão sério é o seu modo de vida e a sua arte. Isso só me fascina ainda mais, Mu. Me desculpe, não deveria brincar com isso.
Mu suspirou e abriu um sorriso.
— Pois tal ideia vinda de você, Shaka, um homem que conheci no maior entreposto do mundo vendendo a própria nudez a todo tipo de gente, e depois enganando pobres viajantes, eu não duvidaria que quisesse arrancar o meu couro para vende-lo por ai — disse apertando sua cintura.
Shaka sorriu para ele, então sentou-se sobre seus quadris e com as pontas dos dedos passou a delinear alguns dos desenhos em seu abdome.
— Eu preferiria morrer mil mortes horríveis a cometer tal atrocidade a você. Acredite em mim, jamais te trairia Hamal Mumiah. No que depender de mim, os segredos da sua alquimia estarão a salvo para sempre.
Mu então tomou a mão dele e entrelaçou seus dedos dando um leve apertão.
— O que você está vendo nenhum homem ou mulher jamais viu antes, não assim, por completo. São as fórmulas alquímicas que eu domino — disse enquanto lentamente guiava a mão de Shaka até seu púbis. — Essas, especificamente, estão ligadas à fertilidade, virilidade, saúde e vigor sexual.
— Humm... então vem daqui o vigor capaz de saciar uma dúzia de prostitutas de uma só vez? — brincou, referindo-se ao que ele havia lhe dito no mercado no dia anterior.
Mu riu alto.
— Certamente que nem uma dúzia de prostitutas juntas me dariam um terço do cansaço que um único Shaka me deu, nem por isso precisei recorrer aos meus elixires — brincou de volta, e ambos riram enquanto suas mãos exploravam os corpos um do outro. — Falando sério agora, essas são apenas fórmulas alquímicas, nada mais.
— Fórmulas que, suponho eu, sejam escritas em códigos.
— Sim. Apenas minha Ordem consegue interpreta-las. Por estarem gravadas no meu corpo com tinta alquímica, algumas delas são ativadas durante o ato sexual, como se fosse mesmo um encantamento.
— Você é mesmo uma criatura fascinante, Mu! É bom mesmo que saiba produzir tais elixires, porque não há nada mais desleal com o homem do que o tempo... Quando nós dois estivermos velhos e cansados essas suas fórmulas nos serão bem úteis! — Shaka sussurrou enquanto se inclinava para beija-lo.
Mu retribuiu o beijo, mas manteve os olhos bem abertos, encarando as pálpebras cerradas delineadas em kajal negro de Shaka.
Ao termino do beijo Mu delineou o rosto dele com a ponta dos dedos enquanto agora olhava fixo em seus olhos tão azuis quanto o firmamento.
— Não sou nenhum pobre ingênuo, tampouco um sonhador, Shakyan Pavo. Sou um homem, jovem sim, mas que já percorreu todos os Sete Reinos e já viveu muita coisa... Você e eu sabemos que irei embora tão logo o meu objetivo aqui em Sei Samsara for concluído.
Shaka suspirou esboçando uma careta.
— Então... você não precisa me fazer promessas desnecessárias, nem declarações absurdas — Mu emendou com seriedade.
Em silêncio, e um pouco absorto depois de ouvir aquelas palavras, já que elas acionaram um gatilho dentro de si que por horas não fizera questão nenhuma de dar importância, Shaka ficou ali por mais um momento divisando os olhos de Mu com um olhar fixo e distante.
Como pôde ser tão distraído? Era óbvio que o que já era tão certo para si, para Hamal Mumiah não passava de palavras ao vento, lábia de um conquistador barato.
Ao menos se lhe pudesse dizer a verdade...
Visivelmente aborrecido, Shaka se levantou e ainda sem dizer nada caminhou até um cesto de capim dourado trançado que havia ali entre os outros. De dentro dele tirou um manto da cor do sol poente e enquanto caminhava de volta para Mu no tapete o enrolou no corpo cobrindo sua nudez.
— Nenhuma promessa é desnecessária quando feita por um coração sincero — ele disse estendendo a mão a Mu, o ajudando a se levantar. — Assim como não se deve chamar de absurdas as declarações ditas no calor da paixão, pois estas também estão agasalhadas pelo manto da sinceridade. — Com um sorriso no rosto ele abraçou a cintura do alquimista e descansando o queixo em seu ombro suspirou longamente. — Você deve estar me achando um belo de um calhorda.
— Hum... não exatamente. Como disse, não sou nenhum tolo ingênuo, também tive minha cota de conquistas mundo afora — Mu suspirou o abraçando. — Só não entendo aonde pretende chegar.
— Eu não o culpo por manter firmes os seus dois pés no chão quando tudo que sou capaz de fazer é... voar.
Mu franziu a testa, cada vez mais confuso. Shaka era um homem misterioso, e cada vez mais tinha certeza de que ele lhe escondia algo grave; só não conseguia decidir se queria desvendar os segredos daquela belíssima joia de Sei Samsara, ou se preferível fosse manter-se seguro galgando pelo terreno da ignorância.
A lucidez de Mu, porém, era para Shaka como um tropeço acidental no caminho perfeito que ele trilhara para ambos até ali, mas que jamais o impediria de seguir em frente.
Depois de um momento roçando os lábios na curva do pescoço do alquimista, sorvendo seu cheiro para grava-lo tanto na pele quanto na memória, ele segurou o rosto de Mu e voltou a olhar em seus olhos.
— Até quando vai ficar em Sei Samsara? — Ele perguntou com certo pesar na voz. Quem dera fosse livre como fingia ser para poder segui-lo para onde quer que ele fosse... mas não era livre. — Sei que o nosso começo foi um pouco desastroso, mas... eu quero uma chance de provar a você que não sou feito só de lábia e mentiras. Há verdade em mim também, Mu.
— Então me diga qual é. — Ele perguntou convicto, olhando fixo nos olhos dele.
Shaka respirou fundo enquanto acariciava os cabelos dele. Podia sentir a ansiedade que ele inutilmente tentava esconder, e desejou do fundo do coração poder saná-la, mas infelizmente alguns segredos foram feitos mesmo para jamais serem revelados, por mais que esse fosse o desejo de seu portador.
— Eu me apaixonei, Mu.
Aquela era uma verdade. Talvez não exatamente a que o alquimista ansiava por ouvir, mas certamente tinha o mesmo peso.
— E... o que você quer de mim? — ele perguntou meio atordoado com a revelação. Não sabia ao certo como queria lidar com ela. Era possível se apaixonar em apenas tão pouco tempo? Olhando naqueles olhos de um extraordinário azul reluzente, não sabia afirmar que sim, mas também era incapaz de dizer que não.
— Eu quero tudo de você! — ele respondeu, o apertando forte contra seu corpo.
— Quer tudo de mim, mas como anseia que eu lhe dê tudo quando nem ao menos sei com quem, ou com o quê, estou lidando? Shaka... eu te revelei coisas sobre mim que nem as pessoas mais próximas a mim jamais saberão, e o que eu sei de você? Que é um ladrão sorrateiro, comerciante de joias falsas e aves exóticas. Que posa nu para artistas e tarados no mercado, e que muita gente por ai parece querer ver a sua cabeça arrancada do pescoço.
— Tudo isso já não é o suficiente? — Shaka riu sem graça, parecendo nervoso.
Mu suspirou.
— Está bem — disse esfregando os olhos, cansado. — Eu afinal falei sobre mim porque eu quis. Não estou lhe exigindo que faça o mesmo em troca.
— De certa forma está.
— Não seria justo? — questionou, mas logo percebendo o visível desconforto dele tratou de mudar de assunto: — Enfim, respondendo à sua pergunta, ficarei em Sei Samsara até encontrar o que me foi destinado.
"Já encontrou!". Shaka pensou, e um sorriso formou-se em seu rosto, embora este não tenha durado muito, já que Mu prosseguia falando:
— Estou longe de casa a muito tempo e sei que é aqui que minha longa jornada terminará, então pronto regressarei ao meu lar.
Shaka acariciou o rosto dele muito sério questionou:
— E o que existe aqui em Sei Samsara que pertence a você?
Mu se perdeu naquele olhar por um instante sem conseguir responder de imediato, e então confessou:
— Uma estrela.
— Uma estrela? — perguntou fingindo surpresa. — Fala das rochas celestes? Por isso estava interessado na rocha celeste que eu tinha no meu mostruário?
— Não! — ele tomou a mão de Shaka e lhe beijou os dedos suavemente — Falo de uma estrela real... Há muitas luas, uma estrela caiu do céu. Não uma rocha celeste ou pedra lunar, mas uma estrela inteira. O meu mestre e eu estávamos no observatório celeste naquela noite. Nós a vimos se soltar de sua constelação, despencar do firmamento e cair em terras do Sul. Desde então, eu a venho procurando... Todas as pistas que coletei ao longo das minhas viagens me trouxeram até aqui, em Sei Samsara. Tenho certeza que foi aqui que ela caiu.
— E uma estrela pode despencar assim do céu? Isso é possível? — Shaka perguntou curioso. Sua mente então de repente lhe desenhou a imagem de uma estrela brilhante e dourada cortando os céus de Sei Samsara e desaparecendo num amontoado disforme do que pareciam bosques ou florestas, com árvores cujos galhos formavam lindos cachos de cor lilás.
Mera imaginação, ele pensou... ou seria uma lembrança?
— Sim, em teoria isso é possível. Há registros anteriores, mas eu prefiro sempre trabalhar com a prática — Mu respondeu.
— E essa estrela que você busca... o que tem ela de especial para trazê-lo até aqui, tão longe da Muralha?
— Isso, meu caro, não é da sua conta.
Encarando o alquimista, Shaka estreitou os olhos assumindo uma fisionomia muito zangada, mas depois de poucos segundos essa desapareceu por completo dando lugar a uma alta e sincera gargalhada.
— Muito bem, eu não tenho pressa — disse, e em seguida o abraçou forte e olhou para o horizonte, então respirou fundo parecendo triste. — Ademais, é justo que guarde algum segredo com você... Venha se vestir, nós precisamos ir. Em pouco mais de uma hora o sol vai se pôr e essas ruínas serão engolidas pelo breu da noite. Ficará difícil enxergar o caminho de volta.
— Ah, sei bem como é isso! — Mu resmungou. — Me deixou sozinho aqui ontem, lembra? Levei horas para encontrar uma saída e conseguir voltar para a hospedaria sem enxergar um palmo à minha frente.
— Eu sinto muitíssimo por ontem, Mu. — Shaka desculpou-se embaraçado, depois estendeu a ele o jarro maior com água junto de algumas tiras de linho. — Tome, para se limpar.
Com um suspiro Mu apanhou os itens e não disse mais nada.
Ficou tão claro quanto a luz do dia para ele que Shaka não falaria nada sobre tê-lo largado ali sozinho e ido embora daquela maneira, parecendo um fugitivo. Resignado se limpou como conseguiu, vestiu-se e depois foi ajuda-lo a enrolar o tapete. Caprichosamente o ajeitaram num dos cantos do cômodo junto das almofadas; cobriram o amontoado com um largo tecido de estopa, colocando uma pedra em cada extremidade para fazer peso. Quando o questionou se abandonaria tão boa e expansiva peça de tapeçaria ali, Shaka lhe disse que não se preocupasse, pois ninguém ia àquelas ruinas além dele, e depois, uma hora que viesse ali menos carregado os levaria de volta para sua tenda no mercado. Feito isso, eles guardaram as frutas e os jarros nas cestas de capim dourado e as penduram nos ombros pelas alças para iniciarem a caminha para fora dos labirintos. Faziam o percurso de mãos dadas, lado a lado; vez ou outra paravam diante de uma abertura para olhar o mar e as cores do céu que lentamente começavam a ganhar um tom de rosa claro, então se beijavam, mas logo retomavam a caminhada.
Já do lado de fora, num setor diferente daquele que Mu havia entrado, um cavalo branco os esperava pastando num pequeno terreno com grama verde e fresca. Não havia sela, arreios ou qualquer outro objeto de montaria que sinalizasse que ele pertencesse a alguém, mas assim que viu Shakyan Pavo, o robusto animal balançou o rabo e a crina e veio a seu encontro fazendo festa.
— Demorei, né amigão? — Pavo disse estendendo a mão e dando alguns tapinhas na cabeça do cavalo. — Sinto muito... dessa vez a ocasião era especial. — Olhou para Mu, sorriu e lhe deu uma piscadinha.
— Ah, só faltava mesmo essa... Você tem um cavalo branco! Como nos contos de fadas! — Mu riu estupefato levando a mão ao rosto.
— Não, ele não é meu — disse Shaka tomando a cesta que Mu carregava e junto da sua as ajeitou com cuidado no lombo do cavalo. — Jamais escravizaria um animal... Ele é livre, como todos deveriam ser. Ele está só me prestando um favor, não é meu amigo?
O cavalo respondeu balançando a cabeça e raspando a pata dianteira no chão, para completo assombro de Mu, que não podia crer que o estava vendo conversar com um cavalo.
— Mas você tem aves em cativeiro, Shakyan Pavo.
— Resgatadas de senhores que as maltratavam... Infelizmente, uma ave criada em cativeiro jamais poderá viver em liberdade novamente. Estará fadada a ser escrava para toda a vida, então, as que consigo salvar eu me encarrego de lhes encontrar bons mestres... Por que acha que eu as ofereci a você? — disse, depois com um só salto preciso montou no cavalo e estendeu a mão a Mu para ajudá-lo a subir. — Não as ofereço para qualquer um.
— Por que? — Mu segurou a mão dele e com um impulso subiu no animal, na garupa, um pouco desajeitado pela falta de cela e precisando segurar-se nele para não tombar para o outro lado.
— Porque as aves gostam de você. Você seria um ótimo tutor. — Ele disse, e com dois tapinhas no pescoço do cavalo, segurando cuidadosamente em sua crina, este começou a rumar de volta para a cidade.
Mu riu alto.
— Você fala cada bobagem... — disse, e depois agarrou-se mais firme à cintura dele; com um suspiro pousou a cabeça em suas costas e então fechou os olhos.
A viagem de volta fora rápida. Logo eles estavam nas imediações da cidade e para surpresa de Mu o cavalo parou no início do caminho que levava à estalagem onde estava hospedado.
— Nos despedimos aqui. — disse Shaka pegando na mão dele e a levando ao rosto para beijar-lhe a palma delicadamente.
— O que? Ah, não! Estamos tão perto da estalagem. Por que não vem comigo? Podemos tomar um banho descente, de água quente, e depois podemos pedir uma refeição bem gordurosa para...
— Não, Mu... — Shaka o interrompeu, em seguida respirou fundo e desceu do cavalo. Com a fisionomia muito séria o ajudou a descer também. — Eu preciso ir.
— Ir? Ir para onde? — Mu perguntou em tom austero e firme. — Para o mercado? Para sua tenda?
Shaka sentiu como se tivesse suas emoções afogadas por um mar revolto e implacável.
— Si... sim... — respondeu, mas apenas porque precisava dar qualquer resposta coerente que fosse.
— Tudo bem, então vamos para o mercado. Eu vou com você. — O alquimista disse com total sinceridade. Não era possível que Shaka fizera tanto esforço para seduzi-lo para acabar passando outra noite sozinho. — Eu só preciso passar na estalagem para...
— Não, Mu... Você não pode vir comigo — disse, e nessa hora seu coração ganhou o peso de toneladas. — Eu... eu não tenho espaço para recebe-lo lá... tem as aves e... tem o meu assistente também e...
— Fale a verdade. Você não quer passar a noite comigo, é isso? — perguntou com uma profunda dúvida nos olhos.
— Era tudo o que eu mais queria. Não existe outra verdade além dessa.
— Então qual é o problema, Shaka? Tudo o que falou para mim nas ruinas, tudo o que disse sobre estar... — De repente Mu parou de falar e ficou sério. No instante seguinte arregalou os olhos e seu rosto então ganhou uma lividez de morte. — Oh, não! Não!... Claro! Como eu sou idiota! — Praguejou levando ambas as mãos à cabeça, visivelmente irritado. — Como eu não percebi antes?
— Do que está falando, Mu? — Shaka engoliu em seco.
— Todo esse mistério só pode significar uma coisa!
— O que? — Shaka perguntou torcendo o tecido do manto que cobria seu corpo com ambas as mãos, cujas palmas suavam frias de nervosismo.
— Como o que? Você é casado! — lançou um olhar dardejante de acusação.
— Que? — soluçou com o susto. — Não!
— Claro que é! Marcou um encontro comigo num lugar inóspito, saiu correndo ontem sem explicar nada e agora não pode passar a noite comigo nem na estalagem, nem a sua tenda, e pelo jeito nem em lugar nenhum! — esbravejou bravíssimo. Nunca em sua vida pensou que se envolveria com qualquer pessoa casada. Sentia-se ofendido, ultrajado, desrespeitado e usado. — E não pense que não notei que tomou um caminho escuso quando chegamos na cidade. Foi para que ninguém nos visse juntos? Você... você é casado, seu CANALHA!
— Eu não sou casado, Mu. — Shaka suspirou esfregando os olhos. Sabia que seria difícil.
— Vá embora, Shakyan Pavo! — gritou esticando o braço e apontando o caminho oposto que levava para o mercado. — Vá passar a noite com a sua esposa ou com o seu... enfim, suma daqui e não me procure mais!
— Ei, você não me ouviu? — Shaka o segurou pelo punho e mesmo sob forte resistência o abraçou forte e o beijou com paixão. — Eu não sou casado. Não existe uma esposa ou companheiro nenhum.
— Mentira! Que outra explicação lógica teria para a maneira como me trata e para querer me esconder a verdade?
— Eu... Eu não posso dizer... — Shaka abaixou o olhar e Mu abrandou a face zangada o encarando com o canto dos olhos, relutante em acreditar nele. — Tudo o que disse a você nas ruinas são as verdades do meu coração. São essas que importam... Por favor, não busque as verdades da minha vida, aquelas que eu não disse a você para protege-lo... Apenas confie em mim.
Mu contraiu os lábios e respirou fundo e pesado.
— É por isso que disse ser justo que eu tenha ao menos um segredo meu guardado comigo? Por acaso isso torna mais leve o fardo que carrega por você ter vários?
— O que o faz pensar que tenho tantos segredos assim, Hamal Mumiah? — Shaka suspirou acariciando os cabelos dele. — Eu lamento não poder passar a noite com você, mas amanhã, assim que a luz do sol espantar o véu da noite, se me quiser eu serei seu, então poderemos tomar quantos banhos de água quente você quiser, e poderemos pedir tantas refeições gordurosas quantas aguentarmos comer... ou podemos fazer sexo de novo... e de novo... — sorriu o provocando com beijos no queixo e pescoço.
Mu fechou os olhos e bufou tentando acalmar seu ímpeto e seu coração, que palpitava num misto de enlevo e raiva. Não respondeu de imediato, mas deixou-se levar pelos beijos e os carinhos enquanto procurava pensar a respeito de tudo. Por mais que a sua razão e o seu orgulho lhe conferissem ainda certa resistência, o seu querer sobrepunha a ambos, não tinha como negar. Além disso, no fundo ainda guardava alguma esperança de poder desvendar os mistérios que aquele homem parecia guardar a sete chaves. Assim, com um suspiro longo acalmou por fim o rebuliço dentro de si e abraçou Shaka procurando sua boca e a tomando com um beijo longo e delicado.
— Eu te quero, Shaka — disse com sinceridade. — Se há mesmo alguma verdade nas suas palavras, então é sua vez de aceitar o meu convite. Encontre-me aqui amanhã, no mesmo horário de hoje.
O rosto de Shaka se iluminou por inteiro.
— Eu virei, Hamal Mumiah. Espere por mim, que eu virei. — disse, selando a promessa com um beijo antes de separar-se dele e todo sorridente montar o cavalo. — Eu virei todos os dias, enquanto estiver em Sei Samsara!
Mu o viu ir embora. Pouco depois, no horizonte, o sol se escondia atrás das montanhas.
Já em seu quarto, na hospedaria, Mu jogou-se na cama absorto demais por tudo o que tinha vivido naquela tarde para pensar em qualquer outra coisa. Com os olhos vagos pregados no teto, sem banho e ainda de roupas ele divagava distraído sobre tudo o que Shaka lhe dissera; também se recordava com deleite dos momentos íntimos nas ruinas. Diferente das noites anteriores, nem sequer chegou perto de seus materiais de estudo. Seu corpo ainda guardava as dores e as marcas da aventura romântica e seu pensamento estava ocupado demais repetindo as doces juras ditas pela voz sedutora de Pavo, as quais sem que tivesse controle faziam seu coração acelerar.
— Louco!
Resmungou fechando os olhos e suspirando. A exaustão lhe tomando completamente.
— Ele provavelmente deve ser louco, mas eu... principalmente eu... certamente que sou!
Outro murmúrio e ele então piscou os olhos preguiçosamente. O sono estava conseguindo vencer a batalha contra os pensamentos; ele quase estava entrando num estado de torpor profundo quando de repente o barulho de uma pancada, seguido do som demasiadamente alto do farfalhar de asas, o despertou com um susto.
— O que? — disse arregalando os olhos num sobressalto.
Ainda meio desorientado pelo sono, Mu sentou-se abruptamente na cama, e qual não foi sua surpresa ao dar de cara com o pavão branco ali, o mesmo da noite anterior, empoleirado nos pés de madeira do leito.
O bicho tinha invadido o quarto e agora o encarava com surpreendente determinação, balançando o longo pescoço emplumado e projetando-se para frente, lhe dando bicadinhas nos tornozelos e nas canelas.
— Mas... Ei! Que porra é essa! — Mu arrastou-se para cima encolhendo as pernas. — Você de novo?
O pavão reorganizou-se no poleiro recém-conquistado e bateu as asas fazendo festinha, então esticou-se todo e cantou três vezes, para total desespero e desconforto de Mu, que encolheu os ombros e comprimiu as pálpebras fazendo uma careta.
— Está bem, está bem... Você pode ficar ai, desde que quietinho, tudo bem? — disse esticando o braço e fazendo um gesto com a mão. — Pelos céus... acho que fiquei surdo!
Como se tivesse entendido perfeitamente, o pavão aprumou-se todo e chacoalhou a cabeça fazendo tremer a coroa sobre ela.
Estava satisfeito, pois passar a noite ali com ele era exatamente o que queria.
