Vítimas do dever

Por Amanda Catarina

Bleach e seus personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 2

Aproveitando que seu chefe fitava a irmã com um olhar afiado como navalha, Renji saiu de mansinho da sala, deixando a pequena com o rojão.

– Perdi meu celular - disse Rukia e deu a volta na mesa, com o firme intento de alcançar a porta que ficara entreaberta e depois simplesmente sair correndo, achando, realmente achando, que conseguiria se safar do irmão assim tão fácil, mas ele, movendo-se rápido como raio, se interpôs entre ela e a porta.

– Perdeu onde?

– Se eu soubesse, não estaria perdido. Mas vou agora mesmo encontrá-lo!

– Rukia... - começou Byakuya e só o tom a fez petrificar no lugar -, quando vai deixar de ser tão imprudente? Será que não entende que...

Rukia franziu o cenho e fez um bico. Um dos maiores prazeres na vida de seu irmão era dar sermão nos outros, logo nada o faria parar agora. Ciente de que teria que ouvir toda a ladainha de sempre, ela resolveu que era melhor ficar bem quietinha, concordando com tudo que ele iria dizer, para que a tortura psicológica terminasse mais rápido. Foi o que fez, assim enquanto seu irmão discorria sobre a imaculada tradição da família Kuchiki, sobre seu destaque na área da segurança, da baixa dos índices de criminalidade que os Kuchiki tinham provido à cidade, ela se perguntava se o seu celular estaria com o garoto do Mazda 3.

– Um carrão aquele... - ela falou sozinha.

Byakuya lançou-lhe um olhar congelante e ela imediatamente soube que havia jogado no lixo sua única chance de tornar aquilo rápido. Sentiu que não ia escapar, que dessa vez ia tomar um belo cascudo, mas antes que o irmão erguesse seu punho contra ela, ambos ouviram um celular tocando. O dele, logicamente.

– Kuchiki, na escuta - ele atendeu de pronto e sua expressão até então muito séria, ficou muito mais séria ainda.

Depois de soltar um suspiro de alívio, Rukia olhou na direção de Byakuya, que após uns instantes ouvindo fosse quem quer que fosse do outro lado da linha, respondeu:

– Não, capitão-comandante. Eu não a vejo desde a semana passada.

A mais nova arregalou os olhos ao saber de quem se tratava. Ficou curiosa, ser contatado pelo próprio capitão-comandante não era algo comum. Chegou a aguçar mais os ouvidos, mas, num lampejo, percebeu que aquela era sua brecha para sumir dali - na batalha entre a curiosidade e a autopreservação em seu íntimo essa última venceu.

– É provável que ela esteja investigando o caso daqueles traficantes - disse Byakuya, observando Rukia deixar a sala.

Do outro lado da linha, o oficial superior rebateu informando que a tenente Soifon estava cuidando do caso por ele mencionado e depois acrescentou que era imperativo que ele encontrasse Yoruichi Shihouin.

– Sim, senhor. Farei isso.

Após dizer que contava com ele, o oficial superior encerrou a ligação com um seco agradecimento.

Guardando o celular no bolso da calça, Byakuya sentou-se na beira da mesa da irmã, com um ar pensativo. Sentia-se intrigado, além de surpreso. Aquela fora a primeira vez, em sete anos que ele estava trabalhando no departamento, que o capitão-comandante, Yamamoto Shigekuni Genryusai, tratava diretamente com ele e ainda lhe dispensava uma tarefa.

Genryusai era uma das poucas pessoas no mundo a quem Byakuya Kuchiki admirava profundamente. Militar dono de uma carreira destacável e cabeça de um dos principais departamentos de segurança do estado de Queensland, aos 86 anos, o homem continuava na ativa e ainda trabalhando com esmerada competência. Mas, apesar disso, a alta cúpula federal vinha pressionando-o muito para que se aposentasse. Porém, quanto mais insistiam nisso, mais Genryusai cuidava de provar que, a despeito da idade avançada, ele mantinha não só a lucidez, como também uma astúcia invejável. Os casos mais complexos dos últimos anos haviam sido solucionados em sua maioria por ele. Assim, Byakuya, recentemente empossado como capitão por indicação do próprio Genryusai, ficou bastante lisonjeado com o pedido. E se o astuto capitão-comandante suspeitava de alguma coisa, só podia ser algo grave.

– Como se esse dia já não estivesse horrível, agora devo procurar aquela Shihouin.

Depois de dizer isso, em passadas duras e apressadas, Byakuya deixou a sala da irmã.

ooOOOoo

Em sua sala e muito concentrado na escrita de um código de programação, Renji estava com o rosto quase colado ao monitor de 31 polegadas que compunha seu sofisticado equipamento de trabalho, algo como um mini supercomputador, quando teve a atenção desviada, ao captar com a visão periférica, uma mãozinha pegando seu celular.

– Ei! Não, nada disso! Vai acabar com os meus créditos de novo!

– Cala a boca, Renji. Eu tenho que descobrir onde está o meu celular.

Mexendo na agenda do aparelho, Rukia buscava seu próprio número ali. Ao encontrá-lo, efetuou a chamada. Depois de oito toques, a atendente da operadora alertou que a ligação estaria sujeita à cobrança após o sinal. Ela até pensou em deixar um recado, mas o olhar zangado de Renji a fez desistir da ideia.

– Ninguém atendeu - disse ela com um ar decepcionado. - Deve estar desligado.

– Ótimo, então vai tratando de me devolver o meu.

Rukia olhou para o dos cabelos tingidos, fazendo pose de donzela que precisa de amparo, mas o amigo ficou impassível e logo estendeu a mão pedindo o celular. Ela bufou, mas antes que devolvesse o aparelho, este começou a vibrar e logo tocou. Com o rosto radiante de satisfação, ela voltou o display para si e viu seu próprio nome na tela.

– Ah, viu só? Eu estou ligando pra você - sem perder tempo, ela atendeu a ligação. - Alô? É você, garoto do Mazda? Aqui é a dona desse celular que está na sua mão.

Do outro lado da linha, Ichigo, todo alvoroçado pelo modo como a tenente se referiu a ele, respondeu:

"Sim, policial Kuchiki Rukia. Sou eu sim. E só pra constar, eu me chamo Kurosaki Ichigo. A senhora esqueceu..." - ele dizia, mas Rukia o cortou num brado:

– Senhora é a mãe, seu moleque! Eu nem sou casada!

O rapaz, que usara aquele tratamento propositalmente, vibrou por ela ter caído na singela armadilha.

"Ah, mil perdões, policial." - ele falou, fingindo que tinha ficado muito embaraçado, e depois passando para um tom maroto e espontâneo, comentou: "Então não é casada. E namorado, a senhorita tem?"

Rukia ficou tão desconcertada que chegou a tirar o celular da orelha e fitar o aparelho como se assim pudesse direcionar um olhar congelante - igualzinho ao do irmão - para o rapaz do outro lado da linha. Indignada com a ousadia dele, colocou novamente o celular no ouvido, e esbravejou:

– Garoto, você não desacate um oficial da lei!

"Longe de mim, policial Kuchiki." - ele retrucou, o tom maroto fora substituído por um de teatral polidez. "Eu tenho muito respeito e admiração pela polícia. E só entrei em contato para saber como faço para devolver o seu celular."

– Ah, assim está melhor. Onde você está agora?

"No campus sede da Universidade de Tecnologia. Sabe onde fica?"

– Claro que sim. Quem não sabe? Bom, não estou muito longe daí...

Renji começou a encará-la como quem não está gostando nada do rumo da conversa, isso não lhe passou despercebido, então nada interessada em mais problemas por um dia, ela ajuntou:

– Vamos fazer assim: eu vou mandar uma pessoa aí para pegar com você então. Como é mesmo o seu nome?

"Kurosaki Ichigo. Quer que eu soletre? É "K" no começo e no final."

– Garoto, por que você acha que eu não saberia escrever Kurosaki?

"Ah, é mesmo... Como sou distraído, a senhorita também tem sobrenome japonês. Então também deve morar em Seireitei, certo?" - indagou todo maroto de novo.

Antes que ela respondesse, Renji reclamou:

– Oe! Rukia? Vai ficar aí de papinho com o meu celular até quando?

– Ah, não enche, Renji! Ninguém te liga mesmo.

– Sua peste! - ele se levantou da cadeira num ímpeto. – Me dá isso aqui!

Rukia se afastou alguns passos pra trás e fez um gesto ao grandalhão, pedindo um minuto.

– Desculpe. O que você disse, Kusanagi?

"É Kurosaki, policial." - ele falou sem alterar o tom de voz, como quem não tivesse achado ruim, mas achara sim, muito, tanto que até cerrou os punhos de indignação.

– Ah, por favor, me desculpe - ela pediu, verdadeiramente chateada com a gafe.

"Ah, sem problema." - o jovem rebateu mansamente. "A senhorita não prefere que eu vá até aí levar seu celular?"

– É, pensando bem eu acho que isso ia ser bem melhor.

"Então é só me dizer o endereço."

– OK, anota aí: Avenida Kent, número 705. Tenho que sair às 17h, então venha assim que puder.

"Estou indo agora mesmo, policial."

– Muito bem então. Muito obrigada e até logo.

Rukia olhou para a cara aborrecida de Renji e entregou o aparelho. Ele colocou o celular na mesa e depois ficou com a mão estendida.

– Ah, nem vem - reclamou Rukia. - Ainda tem crédito!

– Dois centavos? Dispenso.

– Deixa de ser mão de vaca, Renji!

– Se você é uma patricinha cheia da grana, sorte sua. Mas gente pobre que nem eu tem que controlar os gastos.

– Como é que é, seu mercenário? Duzentos mil por ano e quer se achar o pobre?

Renji trincou os dentes, engolindo um xingamento, então achou melhor voltar para o seu supercomputador. Rukia deu risada dele e depois, sem mais nem menos, abraçou os ombros dele carinhosamente e colou a cabeça na dele.

– Você é um fofo! Sabia?

O grandalhão chegou a enrubescer. Mesmo já estando acostumado com as repentinas demonstrações de afeto dela, sempre ficava desconcertado com aquilo.

– Para de ficar me agarrando - ele reclamou baixo. - Vai que ela vê. Você teve sua chance, mas preferiu me dar o fora. Já esqueceu?

Fazendo um bico, Rukia se soltou dele.

– A gente nunca teria dado certo, Renji.

– Quem é que sabe? - ele retrucou azedo.

Rukia deu dois passos de lado, porém se encostou na mesa dele, com um ar pensativo.

– Não precisa ficar com todo esse medo de ela ver a gente agarrado. O que você precisa é conseguir fazer ela tirar da cabeça aquele tutor de vocês.

– Hum, isso ficou mais fácil... Aizen-sensei saiu do país, a negócios eu presumo.

– É sério?

– Foi o que eu ouvi. Parece que ele precisou viajar às pressas, nem sei pra qual país ele foi.

Depois de assentir com a cabeça, Rukia ficou olhando para a tela do computador. Ela até tentou entender no que Renji estava trabalhando, mas, em poucos instantes, começou a achar aquilo ainda mais complicado que os kanjis que seu avô tanto insistia em fazê-la decorar.

– Ai, deu até fome - ela comentou. – Vou comer alguma coisa. Se o garoto chegar enquanto eu estiver fora, você pode, por favor, pegar meu celular com ele?

– Tá bom. Agora sai daqui de uma vez e me deixa trabalhar.

– Ih, vai! Começa assim, viu? Daqui a pouco tá igual o meu irmão: workaholic sem cura.

– Bah! Some daqui, mulher!

ooOOOoo

Sunshine Coast, a 103 quilômetros de Brisbane.

Alongando um pouco a musculatura, que ficara tensa por ter permanecido quase uma hora sentada e apenas escutando o amigo, Yoruichi virou a cabeça e direcionou seu olhar aos oito leitos momentaneamente, depois voltou a fitar o loiro com um olhar incisivo.

– Espera mesmo que eu acredite numa loucura dessas?

– Eu sinceramente espero, minha cara, sobretudo agora que tenho tão poucos com quem contar.

A morena engoliu em seco.

– Mas você se mete em cada encrenca, Kisuke.

Após dizer isso, Yoruichi se colocou em pé e se aproximou dos leitos. Precisava ver de perto.

Os oito leitos estavam divididos em duas fileiras e entre eles, havia mais de um metro e meio de distância e entre uma e outra fileira, aparentemente uns quatro metros. Não se tratava de simples leitos hospitalares, eram unidades autônomas de tratamento das mais avançadas. Todos os oito policiais tinham os corpos bem estendidos, vestidos com túnicas brancas e com agulhas de acessos fincadas nos braços e através das quais coquetéis de medicamentos eram injetados em suas veias.

– Eles sentem dor?

– Não. Não sentem nada. Estão em coma induzido.

– E isso é bom ou ruim?

– Não chega a ser ruim, ao menos não por enquanto, mas também não acho boa ideia mantê-los assim por muito mais tempo. Tenho medo de não conseguir fazê-los voltar.

– Que beleza - disse ela nada animada.

Então ficou quieta só olhando para aquelas oito pessoas. Cinco homens e três mulheres. Shinji Hirako, Kensei Muguruma, Rose Otoribashi, Hachigen Ushoda, Love Aikawa, Lisa Yadomaru, Mashiro Kuna e Hiyori Sarugaki. Eram seus amigos. Não fazia muito tempo tinham estado todos juntos, Kisuke inclusive, em um resort à beira mar, bebendo e se divertindo, e agora eles estavam ali naquele estado vegetativo de semivida.

As três mulheres - Lisa, Mashiro e Hiyori - estavam nas extremidades das duas fileiras. A exótica Mashiro, com seus cabelos pintados de verde e corpo escultural, e a franzina e loira, Hiyori, estavam na mesma fileira, a da esquerda. Lisa estava na fileira da direita, curiosamente, ela que ostentava um nome ocidental, era a única que tinha a aparência típica de uma japonesa, com cabelos pretos lisos e olhos puxados. Ao lado de Mashiro, estava o atlético Kensei, com seu chamativo cabelo curto pintado de branco. Ao lado de Hiyori, estava o magricela, Shinji, ele também tinha os cabelos loiros, mas de uma cor bem mais viva do que a cor dos de Hiyori, os cabelos deles também eram diferentes em seus cortes, os dela não passavam do ombro e eram repicados, os de Shinji eram muito lisos e longos. Na outra fileira, depois de Lisa, estava Rose, outro loiro, bem mais alto do que Shinji, porém menos másculo, até costumavam taxá-lo de efeminado, por causa do corpo esbelto e dos cabelos longos e ondulados. Depois dele estava Love, um moreno alto e de cabelos crespos em estilo blackpower e, por último, o corpulento de mais de dois metros de altura, Hachigen, com seu grande bigode.

Aos olhos da investigadora eles pareciam estar apenas dormindo, porém, a palidez em suas faces, lhe dava uma impressão horrível e aterradora, como se eles fossem estátuas de cera.

– E onde foi a incisão? - Yoruichi questionou.

Kisuke, que ainda estava sentado, levantou-se e veio até ela.

– Foram duas na verdade - explicou ele, aproximando-se de Hiyori, então tocou a nuca dela e disse: – Uma aqui, mas quase não dá mais para perceber, porque o cabelo cresceu e já está escondendo. Ele provavelmente perfurou o osso craniano e as meninges com um feixe de laser absurdamente fino e preciso. Então implantou um filete de nanotubos diretamente no cerebelo, o órgão responsável pelo nosso equilíbrio.

– Meu Deus, é insano pensar que ele realizou um procedimento assim tão complexo em oito pessoas e num lugar desses.

– Sim, chega a ser notável. Nunca foi segredo que Aizen e Hirako não se davam bem, mas eu não imagino o porquê de ele ter submetido os outros a isso.

– Talvez para que demorássemos mais para percebermos o sequestro - supôs a morena. – Ou talvez tenha sido algo relacionado com as diferenças físicas entre eles.

– Sim, isso faz sentido... Homens, mulheres, cada qual com um biotipo diferente.

– Pra mim, só é mais uma prova de que aquele Aizen não pode ser uma pessoa normal. Isso é coisa de gente perturbada.

– Acho que você pode estar certa. E é ainda mais complicado lidar com pessoas assim quando elas também possuem um intelecto muito acima da média.

– Parece que estamos com sorte, hein? - ironizou ela. – E quanto ao outro implante? Onde foi?

– Ah, sim. A outra incisão foi aqui na testa. Essa ainda está perceptível. Foi bem na direção da pineal - ele tocou a testa da policial, que mais parecia uma adolescente de tão franzina, e acrescentou: – É uma glândula que até bem pouco tempo pensava-se que fosse apenas um órgão sem função. Hoje sabe-se que ela está relacionada com os ciclos circadianos, como o sono e o ciclo reprodutivo.

– E, segundo os hinduístas, a pineal é nosso terceiro olho, o olho da mente - comentou Yoruichi, se autoabraçando quando um arrepio atravessou-lhe a espinha.

– Pois é, há um forte misticismo relacionado à pineal, mas acredito que esse experimento não chegou afetá-la. Os dois implantes visavam mesmo as células nervosas.

Kisuke suspirou fundo e ficou quieto, pensava em como dar seguimento à explicação, mas Yoruichi se antecipou, perguntando:

– E como são esses nanotubos?

– Um nanotubo é um tubo muito, muito fino. Nano é um prefixo que representa o resultado da divisão do número 1 por um bilhão, ou seja, é um número tão pequeno que nos leva para o universo microscópico. Um nanotubo é composto de carbono e é cem mil vezes mais fino que um fio de cabelo, porém 20 vezes mais resistente que o aço. Nanotubos são virtualmente inquebráveis. Minha teoria prescrevia dois filetes feitos de nanotubos tão finos quanto os mais finos dos vasos sanguíneos. Um deles seria implantado no cérebro pelo lobo frontal e o outro no cerebelo. Depois, esses filetes seriam estimulados eletricamente, de modo a aumentar a atividade das células nervosas, incrementando assim todas as funções fisiológicas e químicas do corpo: raciocínio, memória, força, movimento, resistência.

– Criando assim um supersoldado.

– Exatamente...

– Francamente, Kisuke, você não tinha nada melhor pra fazer nas horas vagas, não? Tinha que ficar teorizando coisas malucas assim?

– Ah, Yoruichi-san, eu tinha pouco mais de 20 anos quando escrevi esse ensaio e como me arrependo de não o ter destruído. Naquela época, eu tinha medo de uma guerra. Medo de passar pelo mesmo que os meus parentes que permaneceram no Japão passaram. Esse país nunca se engajou seriamente em conflitos, essa ia ser a minha contribuição para o exército, caso algum dos países belicosos decretassem guerra contra nós.

A investigadora ficou muito surpresa ao ouvir aquilo.

O silêncio pairou um tempo no galpão, até que o loiro retomou sua explicação:

– Teoricamente, os nanotubos são biocompatíveis, assim não deveriam causar mal ao corpo humano.

– Mas não é isso que está acontecendo aqui? - atalhou ela.

– Infelizmente não. Mas duvido que seja por causa dos nanotubos em si, provavelmente deve ser um problema com a estrutura que os envolve. Na minha teoria isso não estava muito bem detalhado. Meu instinto me leva a crer que é essa estrutura a fonte de impureza que está gerando a contaminação.

Yoruichi ficou observando o semblante pálido de Hiyori.

– Cara, é muita viagem... - disse ela. – E você não tem a menor ideia de como tudo isso foi parar nas mãos do Aizen?

– Não... Cheguei a pedir que Tessai me hipnotizasse e assim extraísse diretamente da minha memória toda e qualquer interação que eu tivesse tido com Aizen nos últimos tempos.

– Hipnose? Você não devia mexer com essas coisas.

– Eu sei, mas nessa situação julguei necessário. Fizemos isso, mas não deu em nada. Não encontramos nada suspeito. Tessai acredita que Aizen tenha invadido meu apartamento. Mas, sem querer me gabar, pensar que alguém tenha sido capaz de burlar meu sistema de segurança, me soa improvável.

– Pra você ver o tipo de pessoa com a qual estamos lidando.

– É verdade... Bom, esse ensaio não estava impresso em papel, então ele teve acesso a algum de meus computadores - ao dizer isso o loiro silenciou uns instantes. – Ah, meu Deus, agora lembrei de uma ocasião... Mas isso já tem tantos anos.

Yoruichi o olhava com ar interrogativo.

– Foi na época da faculdade. Teve uma vez que ele pediu meu laptop emprestado, disse que se esquecera de fazer um trabalho, mas que não era nada complicado que só precisava fazer umas simulações e anotar os resultados. E eu, estúpido, não desconfiei de nada e emprestei.

– E você nem pra colocar uma senha no arquivo?

– Tinha senha sim, mas já naquela época Aizen tinha fama de hacker. Talvez ele tenha espelhado o HD inteiro e só depois vasculhado os dados com todo o tempo do mundo.

– Bom, isso não faz diferença agora.

O loiro assentiu.

– Mas, Kisuke, eles não me parecem assim tão mal. E se essas coisinhas, esses nanotubos, são tão pequenos assim, o corpo não é capaz de os expelir sozinho ou com a ajuda de algum antibiótico?

Kisuke sorriu levemente.

– Eu estou contando com isso, Yoruichi-san. Essa é na verdade a minha linha de ação. Mas como eu disse, quando cheguei aqui Aizen já tinha feito os implantes há alguns dias. E ele também já devia ter detectado a contaminação, o que só podia implicar em uma coisa: o experimento foi um completo fracasso. Acredito que essa foi a razão de ele ter fugido, sem nem ao menos tentar nada contra minha vida, abandonando todo esse aparato que deve estar avaliado em alguns milhões de dólares. Fiquei num grande dilema entre correr atrás dele ou continuar aqui e descobrir o que tinha acontecido com essas pessoas.

Yoruichi assentiu.

– OK, mas voltando, o que você está tentando me dizer é que a situação deles é grave?

– Sim, e muito. Provavelmente, os nanotubos ou aquilo que os está envolvendo, não foi assimilado pelo corpo e agora está causando mutações nas células.

– Mutações? - assustou-se a investigadora. – Mas que tipo de mutações?

– Eu ainda não sei... Pode haver inchaços e deformações, começando pela face.

– Deformações na face? Ah, meu Deus, Kisuke, mas isso é muito sério! Como eles poderão continuar sendo policiais e levando uma vida normal se ficarem deformados?

– Eu sei disso, Yoruici-san. Claro que seria horrível, mas...

– Mas o que, pelo amor de Deus!?

– Isso seria horrível, mas contornável com cirurgias plásticas ou talvez eles pudessem usar máscaras, porque mesmo deformados eles ainda seriam... Eles mesmos.

– Aonde está querendo chegar? - entrecortou tensa.

– Não restam dúvidas que o que está causando o câncer são os nanotubos implantados pelo lobo frontal, já que não há sinais de contaminação na região do cerebelo, mas se isso acontecer, todo o sistema neurológico poderá ser afetado e daí as consequências serão irreversíveis e catastróficas: movimentação involuntária ou paralisia, neurose, esquizofrenia, só para citar algumas possíveis.

– Esquizofrenia? Ah, não! Você tem que estar brincando.

O loiro meneou a cabeça em negativa.

– Tá, então agora me explica, se a coisa é tão séria assim, como você acha que pode impedir tudo isso? Como espera reverter esse processo? - indagou exaltada.

– Eu confesso que ainda não sei. Mas tenho que acreditar que sou capaz de reverter isso, Yoruichi-san. Por eles e pela minha própria sanidade mental.

Ela o encarou com uma expressão extremamente aflita, seus olhos dourados chegaram até a ficar mais brilhantes.

Após uns instantes, Kisuke prosseguiu:

– A prioridade agora é manipular uma droga que neutralize o câncer.

– Isso não tá com cara que vai ser simples! - sentenciou brava.

– É verdade. Se isso não funcionar, a única alternativa será tentar extrair os filetes.

– Extrair? Como? Tipo com uma pinça? Que nem a gente faz com um pêlo? Que é muitas vezes mais grosso que esses malditos tubinhos?

– Eu sei que parece mirabolante, mas é possível. Só preciso do equipamento certo, de paciência e muito cuidado.

Incrédula e transtornada, Yoruichi balançou a cabeça em negativa. Depois, fitou Kisuke bem dentro dos olhos, mas ele não aguentou sustentar seu olhar reprovador por muito tempo. Afastou-se, ficou de costas para ela e apoiou as mãos na estrutura do leito no qual Lisa estava.

– Muito bem sejamos práticos - pressionou ela. – Do que exatamente você precisa?

– Tenho que fazer um exame neural completo e para isso vou precisar de um equipamento de tomografia computadorizada.

– Fala daquela máquina enorme que tem nos hospitais?

– Essa mesmo.

– Você não vai dizer que quer que eu traga uma dessas pra cá?

– Na verdade, eu vou sim.

– Ah, dá um tempo! Qual é, Kisuke? Está agindo como quem já soubesse que eu fosse aparecer aqui... - a investigadora emudeceu um momento. – Espera... Foi isso mesmo! Foi você que me atraiu aqui.

Um leve assentir de cabeça foi toda a resposta dele.

– E eu achando que não tinha sido notada. Seu astuto miserável! Mas como eu vou conseguir isso sem levantar suspeitas, Kisuke?

– Eu não sei - ele retrucou, enfim dando sinais de desânimo. – Só sei que com a polícia procurando por eles, eu não posso simplesmente leva-los a um hospital e fazer esse exame, não vão me deixar continuar com o tratamento. Tenho sólidos conhecimentos de Medicina, mas não tenho uma licença, minha especialização é em Genética. Sem contar que serei investigado, talvez mantido sob custódia, enfim, você entende disso melhor do que eu.

– Tá, desse jeito não ia funcionar mesmo. Mas vamos falar com Genryusai. Você não é o culpado. Pelo contrário: está tentando ajudá-los! As coisas precisam ficar esclarecidas para que você possa trabalhar direito, num lugar decente.

– Isso seria ótimo, Yoruichi-san, mas eu duvido muito que será tão simples assim ou rápido. E não há tempo, a contaminação avança a cada minuto. Eu tenho que descobrir um jeito de neutralizar isso e logo.

– Calma. Sou uma Shihouin. Tenho influência bastante para contornar a burocracia. Vou dar um jeito.

O loiro a encarava com uma expressão apreensiva, porém grata também.

– Onde está Tessai? - ela perguntou.

– Deve estar para voltar. Pedi que ele me arranjasse material hospitalar. Os estoques aqui já estão baixos.

– Então assim que ele voltar, eu vou.

– Mas Yoruichi-san pode me prometer que manterá isso no maior sigilo possível?

– Claro. Não precisa se preocupar. Vamos dar um jeito nisso.

Ele sorriu. Os dois trocavam olhares de profunda cumplicidade, quando Tessai resolveu se manifestar, tossindo ruidosamente.

– Tessai! - exclamou a morena. – Há quanto tempo você estava aí?

– Há algum tempo, Yoruichi-dono - respondeu o homem, que devia ter muito mais de dois metros de altura e tinha uma voz grave.

– E você sabia? - Yoruichi apontou o dedo na cara do loiro, que assentiu. – Vocês dois vou te falar, hein, sabem mesmo ser sorrateiros.

Passados mais alguns minutos, a investigadora finalmente deixou o complexo fabril. De antemão ela imaginara que a coisa na qual seu amigo estava envolvido devia ser séria, mas nem mesmo ela poderia ter imaginado que fosse tão séria assim.

CONTINUA...

ooOOOoo

Esse deu um pouco de trabalho, mas também acho que é o capítulo mais técnico da fic. Minhas influências ficcionais foram o mangá Akira de Katsuhiro Otomo, a série de TV, O Universo, e o filme Star Trek Into Darkness.

Comentários, críticas, sugestões? Deixe sua opinião... Ah, não é tão demorado vai...

Então é isso aí, até o próximo capítulo! (Daqui uma semana ou um pouquinho mais).