Vítimas do dever

Por Amanda Catarina

Bleach e seus personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 3

O primeiro ato de Byakuya no sentido de descobrir o paradeiro de Yoruichi foi tentar contatá-la pelo celular, o que só resultou em perda de tempo. Se ela estava envolvida em alguma situação controversa - e se tivesse que apostar, ele apostaria que sim -, claro que ela não iria atendê-lo. O próximo ato foi pegar seu carro e seguir para o apartamento dela. Mas, lá chegando, também não a encontrou. Ele estava mesmo estranhando aquele sumiço, ou melhor, a paz que vinha desfrutando em função disso, já que azucriná-lo parecia ser o passatempo preferido daquela mulher.

Aos olhos da sociedade, Byakuya Kuchiki e Yoruichi Shihouin mantinham uma relação no melhor estilo cão e gato. Eram rivais em tudo e, no consenso geral, qualquer um diria que eles não se suportavam. Mas isso era apenas uma fachada, quem os conhecia um pouco melhor sabia que eles compartilhavam laços mais profundos.

A família de Yoruichi, tal como a dele, constituía um clã de nobres. Por essa razão, os dois se conheciam desde pequenos e foram educados de acordo com os ditames das milenares tradições japonesas. E sendo os primogênitos das vertentes centrais de seus respectivos clãs, aprenderam desde o berço a língua e a escrita japonesa - em detrimento da língua inglesa que ficou em segundo plano -, além das tantas e tantas regras de etiqueta. Um legado cultural tão diferente da cultura do país no qual eles haviam nascido e crescido, porém um legado do qual sentiam muito orgulho e respeito. Nos churrascos, saraus e outros eventos sociais da casta nobre de Seireitei, eles sempre estavam presentes e se destacavam, trajando as opulentas vestes orientais e demonstrando seus talentos nas artes, danças e músicas típicas do Japão.

A rivalidade sempre foi uma constante entre eles, mas foram os laços tecidos pela morte que verdadeiramente interligaram suas vidas. Um desses laços foi atado na adolescência, quando eles dois perderam seus pais no mesmo dia, em um acidente de avião. Um outro, anos mais tarde, quando Yoruichi o impediu de se matar, aos vinte anos, no dia em que a morte o visitou novamente, dessa vez, para lhe tomar sua jovem esposa, Hisana, vítima de um câncer no pâncreas.

Byakuya tinha dez anos quando perdeu os pais, sua irmã, Rukia, mal tinha completado quatro anos. Eles dois foram criados pelo avô, Ginrei, pai do pai de Byakuya e viúvo havia pouco tempo. Yoruichi, já uma adolescente de quinze anos, não teve a sorte de ter um parente próximo que cuidasse dela, sendo assistida por uma tia-avó da qual parecia não gostar muito, visto que sempre fugia dessa senhora. E ela sempre fugia para casa de Byakuya.

Quando ele menos esperava, Yoruichi aparecia na mansão Kuchiki para importuná-lo nos treinos de kendo, ou ridicularizar suas marcas no atletismo ou só para roubar a parte dele da sobremesa. E o que mais o deixava inflamado de ira era ver o apreço que seu avô mantinha por ela. Na época, ele se mordia de ciúmes com isso, e precisou de anos para compreender que era consolo pela dor com a falta dos pais que ela encontrava em seu avô. Por conta disso, pelos dois anos que seguiram após a tragédia, ele e Yoruichi mantiveram um estreito convívio e foi nesse tempo que a rivalidade entre eles ficou mais acirrada. Byakuya, tão infante, só pensava em ser melhor que ela. Queria ser mais esperto, mais rápido, melhor no arco, na caligrafia, no hipismo, na natação. Viviam se desafiando, e, na maioria das vezes, ele levava a pior. E justo quando a balança parecia que ia começar a se equilibrar, sem explicação ou aviso, Yoruichi simplesmente sumiu da vida dele.

Passaram-se quatro anos até que eles voltassem a se ver, o que aconteceu em um tribunal de justiça. Ele estava na plateia com seu avô e ela, contrariando a expectativa dele de que deveria estar no banco dos réus, estava na bancada da promotoria, atuando como assistente de investigação. Três eram as carreiras preferidas pelos membros dos clãs Kuchiki e Shihouin: segurança, direito e tecnologia. Byakuya, aos dezesseis anos, se sentia indeciso quanto a qual dessas carreiras seguir e ter visto Yoruichi trabalhando naquele tribunal pesou em sua própria escolha, mas, em alta voz, ele jamais admitiria isso.

Muitas coisas em relação à Yoruichi ele nunca admitiria em voz alta. Nunca admitiria que a tinha como a uma irmã, não admitiria jamais que a admirava e nem sonhava em admitir que, se não fosse por ela, talvez não tivesse se tornado um policial. Só uma coisa não era difícil para ele admitir, que qualquer outra pessoa provavelmente não teria conseguido tirá-lo dos braços da morte.

Depois de seu reencontro no tribunal, eles voltaram a conviver e, naturalmente, a competir. Provavelmente, o eletrizante atrito que sempre surgia entre eles tinha a ver com o fato de suas personalidades serem diferentes como pedra e vento. Ele, sempre muito precoce, aos dezoito anos, já pensava em constituir família e se casar. Ela, ainda depois dos trinta, só queria saber de farra e curtição, sem nunca ter se prendido a ninguém. Ele sempre comedido e asseado. Ela, irreverente e extrovertida. E essas diferenças tão contrastantes no jeito deles de ser, levava Byakuya a se perguntar frequentemente como ela conseguia ser tão irritantemente eficiente em tudo quanto se dispunha a fazer.

Em uma das primeiras batidas que ele liderou, quando ainda era um sargento, ele trombou com Yoruichi aparentemente muito bêbada em uma balada, mas, ao final da mesma noite, ele havia capturado um simples intermediário na distribuição de drogas, enquanto ela prendera ali o chefão traficante da área. Atualmente, estando ele com trinta e um anos e ela com trinta e seis, sua visceral rivalidade seguia tão acirrada quanto no tempo da adolescência e, para seu infortúnio, ela ainda estava na frente. Ele recentemente havia sido promovido a capitão, ao passo que Yoruichi já abdicara desse cargo para assumir um mais elevado, na coordenação da divisão de investigações especiais. Ele simplesmente não se conformava com o fato de Yoruichi ocupar um cargo mais alto que o dele, visto que ela sempre agia de modo questionável e irresponsável, exatamente como estava fazendo agora.

Entretanto, seu semblante fechado e a má disposição com a tarefa apenas serviam para camuflar o que ele verdadeiramente sentia naquele momento: preocupação. Sim, estava preocupado com ela, pois suspeitava que fosse o que fosse a complicação na qual ela estava metida, Urahara Kisuke também devia estar envolvido. E Urahara Kisuke era uma pessoa de quem Byakuya não gostava.

Dirigindo por uma das principais avenidas de Brisbane, raciocinando em como continuar sua busca, ele teve a atenção minimamente desviada da pista, quando seu celular tocou. Olhou de esguelha para o aparelho, que estava preso no suporte que o conectava pelo sinal Bluetooth ao som automotivo, e viu a tela iluminada exibindo o nome Yoruichi. Apertou o botão que estabelecia a ligação no modo viva-voz, e tão logo o canal ficou aberto, e antes que ele falasse qualquer coisa, ela se adiantou dizendo:

"O que você quer?"

Bastou aquela mera pergunta para que ele tivesse certeza de que sua preocupação era fundamentada. Ao invés de dissimular, usando o tom debochado de sempre e dizer coisas sem nexo que o deixariam irritado ou constrangido, ela foi seca e direta o ponto.

– Onde você está? - ele retrucou igualmente seco.

"Em casa."

– Negativo. Acabo de deixar seu apartamento.

"Quem te mandou me procurar? O comandante?"

– Você não aparece no departamento há dias, então quem deveria estar respondendo perguntas é você.

"Byakuya" ela fez uma pausa. "Me faz um favor: fica na sua." - e em seguida ela encerrou a ligação.

Depois de desativar o aparelho, ele comentou consigo mesmo:

– Pelo visto o faro de Genryusai continua tão apurado como sempre.

ooOOOoo

Depois de ter perguntado para várias pessoas onde poderia encontrar a tenente Kuchiki Rukia naquele prédio tão maior do que ele havia imaginado, Ichigo, andando a esmo por um setor menos agitado, foi abordado em um corredor por um homem muito alto, de cabelos compridos e pintados de vermelho.

– Você é o garoto que está com o celular da tenente Rukia?

Ichigo não gostou nada de ser chamado de garoto, mas teve a prudência de não contestar.

– Eu mesmo - confirmou, olhando com um ar desconfiado para o homem.

Reparou então que ele tinha tatuagens negras nos braços e no pescoço e que, diferente dos outros funcionários com os quais havia cruzado no prédio, os trajes desse indivíduo eram menos formais: calça jeans, camiseta escura com capuz e tênis surrado. Ele também achou a expressão do homem muito carrancuda e sua postura corporal lembrava a dos valentões.

– O senhor sabe aonde ela está? - perguntou dissimulando amenidade, se questionando se aquele sujeito poderia mesmo ser um policial, pois não achara que ele fazia o tipo.

– Ela deve estar no Cafe aí na frente, mas me pediu que pegasse o celular com você. Sou o oficial Abarai Renji - explicou e estendeu a mão, querendo o item extraviado.

– Ah, entendi... - ele falou, sem disfarçar o desapontamento, tanto que se manteve estático.

O tatuado o encarava com perceptível impaciência, ainda com a mão estendida, então ele se viu forçado a colaborar. Meteu a mão no bolso da jaqueta para pegar o aparelho, mas antes que o entregasse ao homem, escutou a mesma voz autoritária que ouvira naquela manhã, agora em um tom mais ameno, dizer:

– Ah, aí está você, garoto.

Era a tenente Rukia e vê-la fez a expressão de Ichigo se iluminar de satisfação. Ele reparou que ela não estava mais com o coldre axilar e que agora seus cabelos estavam presos. O vestidinho branco com uma faixa azul era o mesmo e os sapatos tipo mocassim também. Um visual bem pouco notório, mas aos olhos dele, que só a ela enxergavam agora, compunha um quadro hipnotizante e o qual sua imaginação cuidou de enfeitar com umas flores e luzes cintilantes. Enlevado, ele realmente parecia não se lembrar de que menos de seis horas atrás aquela pequena mulher havia lhe apontado uma arma e por pouco não levara seu carro novinho a um sinistro de perda total.

Alheia a exasperada comoção que sua chegada causara no rapaz, Rukia se posicionou bem ao lado do oficial e falou com um ar contente:

– Você veio rápido!

– Você achou? - ele rebateu um tanto perdido e sem jeito, chegou até a enrubescer, mas nem se deu conta disso.

O tatuado bufou e virou nos calcanhares para sair dali, mas a baixinha o segurou pelo braço.

– Eu trouxe um pão de mel pra você - disse ela num tom ameno e estendeu ao dito oficial uma sacolinha caprichosamente enfeitada e lacrada com uma fita amarela.

Ichigo franziu muito o cenho diante da cena. O modo carinhoso como ela tocou no braço do grandalhão, o fato de ter confiado a ele a tarefa de pegar o celular e, o mais grave, o fato de ela estar querendo agradá-lo só podiam ser indícios de que eles deviam ser um casal. Ele ficou muito aturdido. Então aquele era o tipo dela? Tatuado, cabeludo, mal encarado? Se era assim, ele não tinha a menor chance. Um tremendo inconformismo se apossou dele e estava até de ombros caídos, quando ouviu o tatuado, com a sacolinha pendurada no dedo, responder:

– Valeu. Mas uma nota de vinte teria sido melhor.

O estudante remexeu a cabeça numa leve negativa. Ele já não tinha gostado do sujeito e, depois de ouvir aquilo, esse sentimento centuplicou. Aquela pequena musa - porque aos olhos dele a baixinha já alcançara o patamar de musa –, trazia um presente tão meigo praquele rebelde-sem-causa e ele respondia daquele jeito? Sentiu um impulso louco de cortar aquele cara em mil pedaços. Se alguém passasse ali com uma faquinha de manteiga que fosse, ele faria exatamente isso. Ichigo cerrava os punhos, irado, quando ouviu a tenente retrucar para o oficial, numa voz meiga:

– Mal humor se cura com honey, Renji.

– E dívidas com money - o infeliz revidou de pronto, e depois de dar as costas a ela, seguiu dali.

Ichigo encarou a policial como quem perguntasse "Qual o problema desse cara?", mas toda a resposta dela foi um descontraído menear de cabeça. Depois, ela estendeu a mão para ele, que demorou a entender o gesto.

– Ah, sim, o celular!

Ele pegou o dispositivo e simplesmente o entregou a ela, e somente no instante em que o fez, lembrou que não tinha fuçado na agenda, nem anotado o número dela, nem feito nada para que o lance entre eles não acabasse ali mesmo - sim, a despeito de tudo que havia acontecido, ele acreditava convictamente que havia um lance. Mas agora era tarde.

– Muito obrigada mesmo! - ela agradeceu com um sorriso lindo.

– Não tem de que - ele devolveu abobado.

– Então... - começou ela, mas Ichigo, intuindo que ia ser dispensado, se antecipou e perguntou: – E aquele cara era mesmo um serial killer?

Pega de surpresa com a pergunta, Rukia vidrou os olhos graúdos, mas depois de alguns instantes respondeu:

– Claro que sim. Mas, pode ficar tranquilo. Ele já está no xadrez.

– Tudo graças à senhorita!

Ela sorriu de leve, mas depois cerrou um dos punhos, fez um bico e contou:

– Sim, mas quem ficou com os méritos foi o capitão Ichimaru.

Abatido com o tom triste dela, Ichigo raciocinou depressa e, buscando enaltecer a ação dela, retrucou:

– Mas isso não muda o fato de que foi a senhorita quem achou o sujeito.

– Foi... - Rukia concordou, como se só então tivesse se dado conta do fato, então um largo sorriso desabrochou em seus lábios rosados. – Não precisa ser tão formal assim, me chamando de senhorita o tempo todo.

Ichigo sorriu em resposta e, em face à amenidade dela, teve a certeza que estava mesmo rolando uma química entre eles. Então relaxando a postura, um tanto retesada até então, ele perguntou:

– E como você prefere ser chamada?

– Só Rukia está bom.

O sorriso dele se alargou mais ainda. Claro que algo estava rolando.

– Certo! E me diz, Rukia - ele proferiu o nome num tom lento e aveludado –, o trabalho por aqui é sempre assim tão agitado?

– Às vezes... - disse ela, fazendo beicinho e toda charmosa, aos olhos dele, mas então cruzou os braços na frente do corpo e ficou a encará-lo bem dentro dos olhos.

Ichigo não soube como interpretar aquele olhar incisivo, mas o sustentou sem se intimidar e, depois de alguns instantes, passou a fitá-la com mais intensidade ainda.

– Já são quase seis - comentou Rukia. – Não tem ninguém te esperando?

Ele ficou na dúvida com o propósito da pergunta. Estaria ela interessada ou apenas querendo dispensá-lo?

– Não, ninguém - ele respondeu todo maroto.

Continuaram se olhando e ele mirou com atenção as mãos dela, a procura de algum anel de compromisso ou uma aliança. Não havia nenhum dos dois, mas ele notou uma corrente prateada no pescoço dela e como parte desse adorno estava oculta dentro da gola do vestido, ele ficou curioso para saber se havia algo pendurado ali.

Rukia abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas antes disso, foi chamada por outra pessoa.

– Tenente Kuchiki? - outra voz feminina e autoritária se fez ouvir, levando Ichigo a se perguntar se aquilo era um requisito para as mulheres daquele departamento de polícia.

Ele olhou de lado e, para seu espanto, se deparou com outra mulher de estatura baixa e traços orientais. Chegou a piscar duas vezes, desconcertado com a coincidência.

– Capitã Soifon? - disse Rukia. – O que foi?

Ichigo fitou a recém chegada, admirado. Ela tinha os olhos mais escuros e mais puxados do que os de Rukia, e também era ligeiramente mais alta. Os cabelos eram da mesma cor e igualmente curtos, mal chegando nos ombros, diferiam apenas no corte, o de Rukia, ele tinha reparado antes, era um chanel sem franja, e o da dita capitã, repicado e com franja. A capitã vestia um terninho cinza grafite, camisa clara, calça social e sapato de salto baixo. Aos olhos dele, a combinação lhe deixara com um aspecto um tanto masculinizado, mas como ela tinha um rosto tão delicado quanto o de uma boneca de porcelana, não achou isso um grave problema.

– Eu preciso deixar essa papelada com seu irmão, mas não o encontrei na sala dele. Já estou de saída e não venho para cá amanhã. Posso deixar com você?

– Claro. Eu entrego pra ele.

A capitã assentiu grata e ia se retirando, mas então perguntou:

– Mas você tem como entregar ainda hoje? Pelo que entendi, ele vai precisar disso amanhã bem cedo.

– Tenho sim. Nós estamos passando uns dias na casa do vovô, porque a saúde dele não está muito boa, sabe?

Ichigo escutava a conversa com toda a atenção, fitando minuciosamente ora uma, ora a outra.

– É mesmo? Pois então eu estimo melhoras ao seu honorável avô - disse a capitã em uma polidez tão acentuada que tornou seu vínculo com as famílias tradicionais de Seireitei evidente para Ichigo.

– Muito agradecida, capitã - a tenente devolveu no mesmo tom.

O estudante estava impressionado com aquelas duas mulheres. Por um instante, sentiu como se tivesse sido transportado para dentro de um dos filmes que o pai dele adorava assistir, com castelos japoneses, dragões, samurais e princesas vestindo kimonos. No entender dele, para que aquelas duas policiais virassem autênticas princesas japonesas só faltava os kimonos mesmo. Ele ainda olhava na direção que a capitã tinha seguido, mas então voltou sua atenção para a tenente, quando essa falou:

– O seu nome é Ichigo, né?

– Isso mesmo, Rukia.

– Escuta, Ichigo, o papo tá legal, mas eu também preciso ir agora.

– Ah, OK! Sem problemas! Não se prenda por minha causa.

Ela assentiu e se despediu, no mesmo tom formal que usara com a capitã:

– Tenha uma boa noite.

– A senhorita também - ele falou amuado.

Assim que Rukia deu-lhe as costas, uma imensa desolação cobriu o semblante dele. E bem quando ele pensava que estava tudo acabado, ela, que tinha dado apenas alguns passos, esticou o pescoço por cima do ombro e perguntou:

– Daqui você vai pra onde?

A desolação evaporou da face dele na mesma hora, sendo substituída por uma incontida euforia.

– Pra Spring Hill. Quer uma carona?

– Depende - ela se virou novamente para ele. – Você deixa eu dirigir seu carro de novo?

Ichigo deu um riso pequeno e sentiu um frio tão intenso percorrer-lhe a espinha como se um espírito descarnado houvesse lhe feito cócegas. Por que ela teve que pedir justo aquilo? Mas olhou bem para o rostinho angelical e pueril dela e então pensou que seria uma loucura negar-lhe qualquer coisa.

– Bem - ele gaguejou - Eu acho que tudo bem, sim, tudo bem...

– Seu bobo! - ela o cortou e deu uma risada espontânea e alta. – É brincadeira! Mas aceito a carona. Não estou de carro e eu ia embora com o meu irmão, mas, pelo visto, ele já se mandou.

– Beleza! Então, quando a senhorita quiser.

– Agora mesmo. Eu só vou pegar minha bolsa. Você me espera aqui?

– Claro!

Pouco depois, eles deixavam o prédio, caminhando vagarosamente lado a lado. Ichigo pensava que para um dia que tinha começado tão bizarro até ele que estava se dando bem.

ooOOOoo

Sunshine Coast.

Já passava da meia noite e Kisuke Urahara estava muito aflito por até então não ter tido qualquer notícia de Yoruichi. Ele se achava sentado em uma elevada trave metálica, parte da estrutura do galpão fabril, a qual lhe permitia ter uma visão da autoestrada mais adiante, enquanto Tessai cuidava de inspecionar os leitos.

Sentia-se angustiado e assolado por um mau pressentimento. Inspirou fundo e apertou a têmpora, depois baixou os olhos para aquelas oito pessoas desacordadas e ficou olhando para elas. Jurara a si mesmo que iria ajudá-las a qualquer custo, mas como era horrível ter que lidar com a ideia de que esse custo poderia ser não apenas sua própria carreira em decadência, mas a de Yoruichi também.

Não era justo. O destino parecia realmente conspirar contra eles dois.

Voltou então a olhar para a estrada e alguns instantes depois uma aparente luminosidade o fez esfregar os olhos, indeciso se não estaria vendo coisas. Mas a incerteza teve fim quando, para seu deleite, avistou um caminhão.

– É ela! - ele se alegrou. Então se pôs de pé e veio depressa até a estreita escada que o levaria até o chão. – Tessai, vem chegando um caminhão. Só pode ser a Yoruichi-san!

Cerca de seis minutos depois, Kisuke estava diante de um veículo de vinte e oito metros de extensão e de sua cabina saltou um homem que aparentava ter uns quarenta anos. Ansioso, Kisuke esticou a cabeça para dentro da cabina, procurando por Yoruichi, mas logo constatou que ela não estava lá.

– Urahara Kaisuke? - indagou o homem com dificuldade para proferir o nome oriental.

– Kisuke - corrigiu ele, mansamente. – É /ai/ com som de /i/, como em killer.

O homem assentiu, sem disfarçar certo espanto com o termo usado de exemplo.

– Eu trago uma entrega da senhorita Makoto.

Makoto? O loiro repetiu mentalmente, pontuando que aquele era um dos codinomes de Yoruichi e rapidamente deduzindo que ela usara uma identidade falsa para contratar aquele serviço de entrega.

– Entendo... E a senhorita Makoto não teria deixado algum recado para mim?

– Mas como o senhor adivinhou? Era isso mesmo que eu ia dizer! - exclamou o homem e depois entregou um envelope a ele, mas sem esperar que o loiro lesse o recado, perguntou: – Posso descarregar?

– Claro - concordou e deu uns dois passos para trás. – O senhor precisa de ajuda?

– Não, já estou acostumado. Além disso, veio uma empilhadeira também.

O loiro assentiu e, ao ver Tessai se aproximar, se dirigiu a ele:

– Você pode acompanhar isso?

– Sem problemas.

Voltando para o galpão, Kisuke abriu o envelope, encontrando em seu interior apenas um pedaço de uma folha de papel com a seguinte mensagem, escrita em ideogramas japoneses: "Tive um contratempo. Mas estarei aí amanhã. Me espere."

Ele engoliu em seco, tentando imaginar o que poderia ter sido o contratempo. Amassou o papel entre os dedos e depois olhou para os leitos logo mais à frente. Era tarde, ele estava exausto, mas uma vez que o equipamento havia chegado, era melhor que começasse a trabalhar. Mesmo porque sabia que seria impossível se entregar ao sono agora que uma preocupação maior ainda para com sua amiga investigadora havia se instalado nele.

CONTINUA...

ooOOOoo

NOTAS.

Kendo significa "caminho da espada" e é uma arte marcial de combate. Em geral, seus praticamente usam espadas de madeira pra treinar.

Killer significa assassino, em inglês.

O motorista do caminhão chamou Kisuke de Kaisuke porque no alfabeto inglês a vogal "i" tem som de /ai/. E ao explicar como é a pronúncia correta, Kisuke diz que essa vogal soa como a vogal "e", nesse mesmo alfabeto, com som de /i/. Na cena, na fala do Kisuke, eu usei os sons para que vocês pudessem entender, já que no nosso idioma a coisa ia ficar estranha.

Acho que todos já deviam saber disso, mas não custava esclarecer.

E aí, pessoal, o que estão achando? Que tal deixar um comentário? Fico na expectativa, hein!

No próximo capítulo: A paquera de Ichigo e Rukia continua esquentando. O que terá acontecido com Yoruichi? E Byakuya vai mostrar porque mereceu ser promovido a capitão. Não percam!

Agradeço a todos que estão acompanhando! Grande abraço e tudo de bom!

09-05-2014.