Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 6

Após uma demorada reunião com o ganancioso diretor da Thelven Research, Yoruichi e Byakuya finalmente chegavam ao moderno edifício comercial sede da companhia aérea Skylinx Airlines para uma audiência de venda de ações com a diretoria da companhia.

Com posturas muito austeras, eles se dirigiram ao elevador e logo estavam no vigésimo andar. Depois de caminharem por um corredor, eles se depararam com uma jovem secretária, de traços acentuadamente orientais, porém de cabelos aloirados e olhos de um azul claríssimo. E ela os encarava em grande aflição, visto que estava ao telefone e a poltrona a seu lado - que devia pertencer à segunda secretária -, estava vazia.

Impaciente, Yoruichi moveu o pulso na intenção de ver as horas, preocupada com o atraso, e então constatou que esquecera o relógio em algum lugar. Bufando, ela puxou o braço de Byakuya para olhar o relógio dele.

Diante daquela cena de aparente intimidade, a jovem secretária chegou a uma conclusão desastrosamente equivocada, e depois de conseguir finalmente encerrar a ligação, mas antes que pudesse se dirigir aos recém-chegados, foi obrigada a atender novamente o telefone, uma vez que a chamada vinha do ramal da presidência.

– Pois não, Namikawa-sama? - disse ela e depois de ouvir alguma instrução, retrucou: – Sim, senhor, farei isso. Ah! E farei entrar agora mesmo o casal Kuchiki, que acabou de chegar para a reunião.

– Casal? - repetiram em uníssono o homem e a mulher à sua frente e também o executivo do outro lado da linha.

Ciente de que só podia ter cometido uma gafe, a jovem corou até as raízes dos cabelos.

– Só um instante, Namikawa-sama! - ela disse e não percebeu quando desligou o telefone na cara do presidente da companhia. – Não são casados? - ela perguntou aos dois à sua frente.

Byakuya e Yoruichi negaram com a cabeça, ele num movimento lento e ela com grande veemência.

– Mas o senhor é o senhor Kuchiki? - arriscou a jovem com o coração aos saltos no peito.

– Sou sim, mas o seu banco de dados deve estar bastante desatualizado, uma vez que minha esposa faleceu há quinze anos.

A cor fugiu do rosto da secretária. Seu primeiro dia de trabalho ali estava sendo um belo caos.

– Minhas imprestáveis desculpas, meus honoráveis senhores! - ela exclamou em um japonês arcaico e curvando-se tanto que desapareceu atrás do balcão.

– Ei! Também não precisa ficar assim, guria - disse Yoruichi. – Você deve ser nova aqui. Não é?

A moça assentiu com um nervoso balançar de cabeça.

Bem menos solidário a inexperiência da jovem, Byakuya se aproximou do balcão e depois de ler o sobrenome dela em seu crachá, ele disse:

– Senhorita Yamada, poderia, por favor, anunciar ao senhor Namikawa Takeshi a chegada de Kuchiki Byakuya e Shihouin Yoruichi.

– Claro, senhor Kuchiki. Só um instante... - ela escreveu os nomes em um papel para não cometer mais erros. – Kuchiki Byakuya e Shihouin... Ah, meu Deus! Como eu pude não reconhecê-la, senhorita Shihouin! Por favor, me perdoe! - implorou e voltou a se curvar exageradamente.

Yoruichi rolou os olhos.

– Sem problemas, okay? Apenas faça o favor de nos deixar entrar que já estamos bem atrasados.

Quase em prantos, a jovem assentiu e apenas naquele momento a outra secretária que deveria estar ali apareceu e logo tratou de dar fim à embaraçosa situação. Pouco depois, Byakuya e Yoruichi foram conduzidos a uma grandiosa sala de reunião, onde ocuparam os dois únicos acentos vazios ao redor de uma larga mesa oval.

Tão logo eles se acomodaram, de lados opostos da mesa, um colérico Takeshi deu início à audiência, mas em questão de minutos, Yoruichi já cativara o homem, que devia ter uns cinquenta anos, e Byakuya teve a certeza de que a transação seria bem sucedida.

Assim, ele não prestou muita atenção no que se sucedeu dali em diante e ficou apenas olhando para Yoruichi, que encenava o papel que ele havia escrito para ela com a aptidão de uma atriz. Mas, de repente, ele se pegou tentando entender o que fizera a jovem secretária tomá-los por um casal e logo ficou surpreso com o fato de que a ideia não o incomodava tanto assim.


Solitário e trancafiado em uma cela, vestindo um uniforme de detenção cinza, Kisuke Urahara se achava sentado na estreita cama, com as costas apoiadas na parede de pedra e a cabeça nos joelhos flexionados. Sua mente transbordava de preocupação, quando uma mulher apareceu ali, mas não a que ele esperava. Uma morena, de pele muito clara, cabelos longos, ajeitados em trança e olhos verdes. Parecia não ter mais que vinte anos e era muito bonita.

– Kurotsuchi Nemu? - disse Kisuke assim que a reconheceu.

– Boa tarde, senhor Urahara. O senhor deve vir comigo.

Após um instante de reflexão, ele falou:

– Entendo. Você veio para me levar para o hospício do seu pai? Por que não me surpreendo?

– Está se precipitando. Mayuri-sama deseja apenas fazer exames no senhor. Ele só interna em seu hospital pacientes que realmente tenham se tornado mentalmente perturbados.

Colocando-se de pé, Kisuke veio depressa até as grossas grades da cela e fitou a moça por alguns instantes, antes de questionar:

– Está me dizendo que Kurotsuchi Mayuri está aqui?

– Sim, senhor.

– Então eu acho que quero sim vê-lo.

Nemu assentiu e logo desativou a trava eletrônica. Assim que Kisuke saiu da cela, ela o algemou e pediu que ele a acompanhasse.


Passava da hora do almoço, quando Byakuya, na direção de seu sedan prata, cruzou os portões da mansão Kuchiki.

– Espera! - exclamou Yoruichi no banco ao lado. – Por que entrou aqui? Achei que ia me deixar na minha casa.

– Na verdade, você não disse nada sobre isso. E como faz tempo que não vem visitar meu avô, achei que esse podia ser um bom momento.

Yoruichi cerrou um dos punhos e trovejou em resposta:

– Não podia ter pensado numa desculpa menos esfarrapada? Se está achando que vou continuar sob sua rédea. Pode esquecer! Fiz tudo que você queria. Agora, vê se me deixa em paz, Byakuya!

– Não terá servido de nada, se você estragar tudo indo atrás daquele sujeito.

– Para esse carro - ela exigiu entre dentes, mas ele não lhe atendeu, então ela berrou a plenos pulmões: – Para esse carro!

Irritado, Byakuya pisou no freio com tudo e apesar da baixa velocidade que o veículo estava, ambos foram lançados um tanto para frente. Depois de desligar o carro, ele virou o rosto a ela. Não disse nada, apenas ficou a encará-la com um olhar gélido.

Sem se intimidar, Yoruichi se livrou do cinto, mas no que tentou abrir a porta, percebeu que não conseguia destravá-la.

– Não entendo de que adianta toda essa exaltação. Ele foi pego em flagrante. O que acha que pode fazer? Além é claro de arruinar sua carreira?

– Isso não é da sua conta! Destrava essa maldita porta senão eu vou arrebentar o vidro!

Balançando a cabeça em negativa, ele liberou as travas e em dois segundos Yoruichi estava fora do carro.

Byakuya realmente quis deixá-la ir e fazer o que bem entendesse, mas em outros dois segundos ele também deixou o carro e atravessou o caminho dela.

– Sai da minha frente! - ela exclamou e desferiu um golpe de muay thai contra ele.

Byakuya conseguiu bloquear o ataque no último instante, pois caso tivesse sido atingido provavelmente estaria de joelhos no chão e ofegando sem ar, visto que o alvo dela fora sua traqueia. Percebendo que ela baixara a guarda com sua esquiva inesperada, ele conseguiu imobilizar os braços dela e ainda a deixou imprensada contra o porta-malas do carro e o corpo dele.

– Me solta seu desgraçado! Não vai me nocautear de novo!

Byakuya não gostou nada da loucura na expressão dela. Sua vontade era sim abatê-la como tinha feito na noite passada, mas sentiu que daquela vez precisava tentar trazê-la de volta à razão. Então depois de um forte apertão nos braços dela, ele falou muito sério:

– Para com isso e me escuta! Você acredita que ele é inocente? E que pode conseguir uma condicional para ele? Tudo bem, não tem nada de errado nisso. Mas não tem que ser desse jeito! Por Deus, ponha essa cabeça no lugar e volte a agir como a Shihouin que é!

As palavras dele tiveram um efeito nela bem mais atordoante que um soco.

– Mas ele foi preso injustamente - ela insistiu em defesa do amigo.

– E terei que ser eu a te dizer como funciona um processo criminal?

Yoruichi desviou o olhar, envergonhada.

– Mas eu tenho que estar lá com ele agora. Ele precisa de mim.

– Não, não precisa. É você que quer estar com ele. Escute a si mesma. Está falando como uma adolescente apaixonada, cega pelo amor. Acha mesmo que esse sentimentalismo vai te levar a algum lugar?

Yoruichi sentiu as faces esquentarem ante a crueza do mais novo.

– Tá bom eu admito, não tenho sido um exemplo de sensatez, mas não é por causa dessa besteira de sentimentos, tá legal? Não sei se você lembra, mas tem oito vidas em jogo, Byakuya! E só o Kisuke sabe como salvá-las!

Byakuya estreitou os olhos, refletiu alguns instantes e então retrucou:

– O que te dá tanta certeza? Você não tem qualificação para saber disso e já parou para pensar que essa história pode ter sido apenas uma mentira do Urahara? Pra te deixar abalada? E vejam só, deu certo.

– Mas e se for verdade? É isso que você não está querendo entender! O preço que teremos que pagar será o de oito túmulos! Oito! Você consegue fazer uma aposta tão alta assim? Eu sei que não consigo.

Finalmente aturdido, Byakuya reconheceu o rastro de um pavor na expressão dela que ele já vira antes, num dia muito funesto para eles dois: o dia do velório de seus pais. Compreendendo que se equivocara quanto às motivações dela, ele parou de apertar-lhe os braços, mas ainda deixou as mãos na lataria do carro, mantendo-a entre seus braços.

– Claro que eu não faria uma aposta dessas. Mas por que eu deveria acreditar que estou sendo insensato em dar um voto de confiança à equipe médica que ficou responsável pelo tratamento daquelas pessoas?

– Porque esses médicos não devem nem imaginar o que está causando aquilo a elas!

– É isso que me irrita em você e naquele Urahara. Vocês dois sempre se acham os únicos com um cérebro no mundo! Se acham heróis de histórias em quadrinhos, capazes de resolver tudo. Acorda, Yoruichi! Isso aqui é a vida real. Quando vai aprender a confiar nas pessoas com as quais trabalha? Existe mais gente competente no mundo, sabia?

– Eu não sei da onde você tira essas ideias, Byakuya. Eu não nem aí pra isso! O que eu não quero é ter que viver com o peso de oito mortes nos ombros. Mesmo que eles estejam no melhor hospital do país, sem o tratamento certo, eles podem morrer! Eu queria sim poder acreditar que é você quem está apostando nos cavalos certos. Mas e se não for?

Yoruichi se calou e abaixou a cabeça. Byakuya ficou olhando para ela. Então expirou levemente e sua mente prática e lógica o fez ver que ele também não conseguiria conviver com aquilo.

– Pois muito bem. Façamos assim: se dentro de sete dias não houver melhora no quadro deles, eu passo pro seu lado.

Yoruichi levantou o rosto a ele na mesma hora.

– O que quer dizer? Vai me ajudar mesmo que seja para tirar o Kisuke da cadeia?

– Se esse for o meio de salvar aquelas pessoas, sim.

– Isso é uma promessa?

– Um Kuchiki não precisa prometer para honrar uma palavra empenhada, mas se prefere assim, que seja.

– Então eu vou cobrar, Byakuya.

– Eu sei... - ele falou e abaixou o rosto, como se já estivesse arrependido e só então se deu conta de como estavam com os corpos colados e aquilo o perturbou um pouco.

– Pois muito bem, agora sim temos um acordo - disse Yoruichi, instantes antes que ele afastasse os braços de perto dela.

Voltaram ao carro e logo Byakuya seguia rumo à grande casa mais adiante.

– Pensando bem até que essa não foi uma ideia tão ruim - ela falou mais consigo mesma e depois se dirigiu a ele: – Seu avô está melhor?

– Sim, mas está tendo que seguir uma dieta muito rigorosa e claro que não está lidando muito bem com isso.

– Por dieta rigorosa devo entender sem doces?

– Claro.

– Tadinho do oji-san... Não deve estar sendo fácil.

Em cerca de um minuto, os dois estavam no hall de entrada onde foram recebidos com satisfação por Ginrei Kuchiki.


Aquela fora uma tarde extremamente tensa tanto na mansão Kuchiki quanto no departamento de polícia.

Na mansão, por mais que Byakuya tivesse tentado manter o caso Urahara longe do conhecimento de seu avô, isso se tornou completamente impossível em face à astúcia do próprio Ginrei e ao estado exaltado de Yoruichi, com sua pungente insistência em querer notícias do cativo.

A princípio, Byakuya ficou muito descontente com a situação, mas depois que Ginrei, já a par de tudo, repreendeu Yoruichi e enalteceu as medidas rápidas que ele tomara, Byakuya se sentiu um pouco melhor. Menos arredia ao homem de idade, a quem muito considerava, Yoruichi aceitou a repreensão, mas ainda insistia na gravidade do problema e no pouco tempo para agir.

No departamento, outra batalha se desenrolou durante toda a tarde. Enquanto Kisuke Urahara era submetido a vários exames pela pequena equipe de Kurotsuchi Mayuri, os dois oficiais imediatos de Genryusai, Shunsui Kyouraku e Juushirou Ukitake, batiam boca acerca da conclusão do interrogatório que fora realizado durante a madrugada.

Kyouraku queria manter Kisuke preso, mas Juushirou lutava por sua liberdade, alegando que um exame médico feito nas oito vítimas deixava claro que as incisões em seus corpos eram anteriores a estada de Kisuke no armazém e ele ainda contava com uma dezena de álibis para comprovar o fato. Acabou que Juushirou levou a melhor, porém, Genryusai submeteu à concessão da liberdade condicional ao parecer médico de Kurotsuchi. Se ficasse atestada a perda da sanidade mental de Kisuke, ele não seria posto em liberdade, mas sim transferido dali para ser confinado no centro psiquiátrico de Kurotsuchi por tempo indeterminado.

Todas essas notícias chegaram à mansão Kuchiki por meio do próprio Juushirou, que bem imaginava o quanto Yoruichi devia estar preocupada.

E de fato quando ela soube de tudo aquilo, chegou a sentir vertigens. A simples ideia de Kisuke internado em um asilo psiquiátrico revirou suas entranhas. Ele que havia perdido a mãe para a loucura, ele que estudara uma vida inteira em busca de uma cura para esse distúrbio. Tais pensamentos quase a levaram a um desmaio e foi Ginrei quem a acudiu.

Assim, pelo resto daquela tarde, os três ficaram reunidos na biblioteca da mansão, aguardando pelo resultado dos exames que livrariam ou condenariam Urahara Kisuke.


Naquele começo de noite, após o término das aulas, Ichigo e seu amigo Sado Yasutora estavam numa acalorada conversa sobre uma partida de beisebol, na lanchonete da universidade, quando o celular de Ichigo tocou e ele atendeu sem nem ver quem era.

– Tenente Rukia? - ele exclamou e ficou todo alvoroçado. – Você me ligando... É mesmo, como conseguiu meu número?

Do outro lado da linha, Rukia respondeu:

"Ah, talvez um besourinho tenha me contado. Mas isso não importa!

Ichigo, estou com um abacaxi aqui e acho que só um hacker de computadores como você vai poder me ajudar."

Preocupado com o comentário, ele se defendeu:

– Que é isso policial, eu não sou hacker! Sou um cara do bem!

"Me engana que eu gosto. De todo modo, não parece ser uma coisa muito complicada para entendidos em computação, então imagino que mesmo um estudante deve conseguir resolver. É um arquivo criptografado. O Renji estava tentando torná-lo legível e já tinha algumas centenas de chaves de decodificação possíveis, mas ele foi sumonado pela alta cúpula da repartição administrativa e não pôde concluir o processo."

– Sumonado? Isso é gíria de jogo de RPG! Você joga, Rukia?

"Eu não. Então é daí que vem? O Renji sempre fala isso e eu acabei repetindo agora de tanto ouvir ele."

– É... Eu ligado que vocês são muito próximos.

"Ah, Ichigo, você nem imagina o quanto."

O rapaz trincou os dentes, louco de ciúmes.

– Deixa eu ver se entendi: a senhorita quer que eu vá até aí terminar o serviço que seu colega tão chegado largou pela metade?

"É isso aí! Se você vier, eu ficarei muito agradecida."

Ichigo lançou um sorriso matreiro ao amigo grandalhão, que ouvia a conversa tão quieto quanto uma estátua.

dentro! Pode marcar no relógio que em quinze minutos eu chego aí!

Depois de guardar o celular, Ichigo comentou:

– Papo estranho... Sabe o que eu acho, Chado? Eu acho que ela só está a fim de me ver e por isso inventou essa história.

– Acha mesmo que ela está tão interessada assim em você?

– Claro que tá! Ela tá me dando mole! E dessa vez eu não vou dormir no ponto.

– Você não disse que ela é uma mulher mais velha?

– Disse, mas eu não ligo.

Amontoando os guardanapos usados na bandeja e terminando de beber a Coca-cola, Ichigo se levantou.

– Vou lá! Depois eu te conto como foi.

Sado assentiu e acenou a ele em despedida.


Por volta do mesmo horário, no departamento de polícia, Genryusai estava em seu gabinete, sentado à mesa no canto oposto à porta da sala, quando sua nova secretária apareceu ali e anunciou a presença do médico psiquiatra Kurotsuchi Mayuri. Sem se dignar a olhar no rosto da mulher, que era extremamente jovem e substituía a velha senhora que trabalhara para ele por quase meio século, ele pediu que ela fizesse o médico entrar.

Um pouco depois, entrava na sala um homem de estatura mediana, vestindo terno e gravata de uma alta grife. Ele tinha os cabelos escuros com um brilho azulado, os olhos amendoados, que sob uma luz forte adquiriam um tom quase amarelo, porém, o traço mais chamativo de sua desconcertante presença eram os dois estranhos objetos dourados que ele exibia acoplados em cada uma das orelhas. Aquilo por certo devia ter intrigado a secretária que o trouxera ali, mas não a Genryusai que sabia que Mayuri perdera ambas as orelhas em um acidente terrível e o que a real função daqueles objetos era guarnecer seus orifícios auriculares.

– Boa noite, doutor Kurotsuchi - saudou o policial veterano e apontou uma das cadeiras à sua frente.

Mayuri se acomodou e então respondeu:

– Boa noite, caro Yamamoto. Antes de mais nada, permita-me esclarecer que quando o major Ukitake me contatou ontem à noite e expôs o caso, não pude pensar em ninguém melhor que eu mesmo para atender sua solicitação.

– Foi o que imaginei. E suponho que já fez todos os exames cabíveis.

– Evidentemente. E além desses, tomei a liberdade de fazer mais alguns outros. Um em particular muito interessante, de DNA, que me tirou uma suspeita de vários anos.

– Cuidado com o que fala, doutor. O senhor não vai querer me ter como inimigo. O único resultado que me interessa agora é do exame psiquiátrico que o senhor fez no detento. Diga: o que concluiu?

Com uma expressão marrenta e pouco intimidada, Mayuri cruzou as pernas e encarou o veterano bem dentro dos olhos antes de responder.

– Parece que o senhor estava torcendo para que eu lhe atestasse que seu filho está louco, mas lamento decepcioná-lo - e só Deus sabe o quanto lamento. Mas esse é o fato, não há qualquer rastro de esquizofrenia na mente de Urahara Kisuke.

Os olhos do veterano se inflamaram de ira, ante a audácia do médico em comentar aberta e descaradamente o parentesco entre ele e Kisuke, mas logo a relevância da declaração o ajudou no esforço de se dominar. No entanto, ele não se alegrou com a notícia e ainda disse ácido:

– Em face aos teus tão excêntricos métodos, creio que não irá se opor se eu requisitar uma segunda opinião.

Mayuri riu com estardalhaço.

– Se o senhor não se constrange de gastar o dinheiro dos cofres públicos com coisas assim, quem sou eu para censurá-lo?

– Saia - o velho soprou entre dentes.

Mayuri fez uma cômica reverência e depois se dirigiu à porta da sala, mas antes de sair ainda disse:

– Permita-me apenas um último comentário, meu senhor: Se Kisuke Urahara não está louco, então deve estar dizendo a verdade. E se ele diz a verdade, então existe um culpado que está impune. Certo?

Genryusai franziu o cenho, enquanto o médico fechava a porta atrás de si. Assim que ficou sozinho, sua mente tão engenhosa não precisou de mais que alguns instantes para se inquietar com a pertinência das palavras do médico e uma vez que ele se inquietava, não demorava muito para que seu instinto de caçador entrasse em ação.


Três andares abaixo de onde o capitão-comandante se encontrava, a tenente Rukia tentava disfarçar o desassossego que o bater incessante do salto da capitã Soifon no chão estava lhe causando.

– Ah, aí vem ele! Aqui, Ichigo! - exclamou a tenente.

– Já não era sem tempo... - reclamou a capitã.

Ichigo se aproximou das duas policiais com um sorriso, mas logo a expressão pouco amistosa da capitã o intimidou, então ele se curvou respeitosamente em saudação.

– Boa noite, senhoritas. Tenente Rukia, desculpe o atraso, está um trânsito infernal lá fora!

– Não esquenta, Ichigo! Vem aqui! - disse Rukia, sentando-se depressa na estação de trabalho de Renji, diante de um grande monitor, que até então exibia uma tela de proteção com a insígnia daquele departamento de polícia.

Enquanto Rukia efetuava o login, consultando a senha de acesso escrita em um pedaço de papel, Ichigo se sentou na cadeira ao lado.

– Já está tudo no jeito. É só descobrir a chave correta que essa joça vai voltar a ser legível.

– Mas que arquivo é esse? - o rapaz perguntou curioso.

– É um e-mail que comprova que o assistente do reverendo Louis, da pastoral aqui perto, estava desviando dinheiro para uma quadrilha do tráfico de drogas.

Ichigo vidrou os olhos, ele não achava que Rukia estivesse falando sério quando o chamou até ali.

– Okay, deixa comigo! Vou fazer um script e rapidinho vamos recuperar esse arquivo.

Ele mal tinha começado a mexer no código quando testou uma chave e a era correta.

– Já conseguiu? - espantou-se Rukia! – Uau, você é bom mesmo!

– Mas...

Ele ficou vermelho, primeiro pelo comentário dela e segundo porque não tinha certeza do que fizera. Mas ele não teve tempo de pensar a respeito, porque a mulher mais velha se manifestou.

– Manda imprimir logo essa droga, Kuchiki! Com isso eu posso emitir um mandato e prender aquele machista filho de uma puta!

Ichigo arregalou os olhos ante a fúria da capitã e Rukia obedeceu prontamente. Naquela tarde, Rukia presenciara quando Soifon fora afrontada e insultada pelo tal assistente, que era um mau caráter, por isso ela podia imaginar o quanto ela não devia estar louca por poder prender o sujeito.

– Aqui está, capitã. Muito obrigada, Ichigo! Eu tenho que ir agora, mas depois eu te ligo.

– Fique aí, Kuchiki! Se vier junto, você só vai me atrapalhar.

Rukia fez um bico indignado e se levantou para protestar, mas a capitã já se afastava em passadas ligeiras e o olhar atabalhoado do jovem a seu lado a fez ficar onde estava.

– Caramba! Ela é invocada, hein! - comentou Ichigo.

– E você ainda não viu nada...

Um silêncio assombrado pairou sobre eles, até que Ichigo perguntou:

– Era só isso mesmo?

– Era... - Rukia confirmou e depois de ajeitar uma mecha do cabelo atrás da orelha, comentou um tanto sem jeito: – Viu, Ichigo, foi mal ter usado os recursos da polícia para rastrear seu telefone. Em geral, não fazemos isso, okay? Foi mesmo uma emergência.

– Sem problemas, Rukia... - e, aproximando o corpo um pouco mais, ele acrescentou junto ao ouvido dela: – Mesmo porque você não me deixou seu número ontem e eu estava sem ter como te ligar.

Depois que ele se endireitou, Rukia o encarou com um olhar de descrença, para disfarçar que estava percebendo que ele estava reparando no quanto a pele dela tinha ficado arrepiada com a breve proximidade dele.

– Você ficou todo aquele tempo com o meu celular e nem pegou o número?

– Aconteceu tanta coisa ontem que eu nem lembrei disso.

Os dois trocaram sorrisos travessos.

– Bom, você é testemunha de que ela não quis minha ajuda. Se acabo de ser dispensada por uma oficial superior e se já está quase no final do expediente, ninguém pode reclamar se eu sair agora, certo?

– Certíssimo - retrucou ele, gostando do rumo da conversa.

– Ontem, você comentou que achou a comida mexicana um pouco apimentada, então, já que está aqui, não quer me levar pra comer algo mais light?

Ichigo ficou surpreso, contudo respondeu de pronto:

– Mas com certeza!

Rukia lhe sorriu e ele ficou empolgado, teria muito para contar a Sado no dia seguinte. Mas quando começou a pensar onde poderia levá-la, acabou se lembrando de um detalhe, então franziu o cenho e disse:

– Eu vou adorar te levar num lugar bem legal, Rukia, mas acho que não vai poder ser hoje, porque é o meu dia de fazer o jantar lá em casa - e assim que disse aquilo ele rapidamente teve uma ideia. – A não ser que comida caseira esteja no páreo...

– Comida caseira?

– Isso mesmo! O cardápio de hoje lá em casa é arroz e peixe assado.

– Está me convidando para ir comer na sua casa? - Rukia retrucou surpresa, mas logo ficou bastante animada.

– Estou sim. E tenho certeza que você vai adorar!

– Peixe assado? - rebateu ela com um riso de canto.

Ichigo assentiu e disse:

– E aí? Quer encarar?

– Eu acho que sim!

– Então fechou! - ele exclamou e se colocou em pé. – Vamos?

– Sim, mas hoje eu estou com o meu carro. Onde você deixou o seu?

– Lá na frente.

– O meu está no estacionamento aqui do prédio - disse ela e ficou pensativa, então acrescentou: – Tem um posto antes do cruzamento com a avenida, reparou? Vamos nos encontrar lá e depois eu vou te seguindo.

– Não seria mais fácil se você fosse comigo? Assim, vamos com um carro só e depois eu te deixo aqui.

– Mas não vai te dar muito trabalho?

– De jeito nenhum.

– Então tá bom! - concordou ela com um lindo sorriso. – Só me deixa ligar para o meu avô e avisar vou chegar mais tarde.


Ao deixar o improvisado laboratório de exames, Kisuke foi conduzido de volta a sua cela, mas só precisou permanecer ali por cerca de meia hora, até que um oficial veio lhe avisar que o resultado dos exames era negativo e que, em poucos minutos, ele seria liberado.

Ele suspirou de alívio e pensava em Yoruichi, quando escutou alguém se aproximando. Foi então que ele deu um sobressalto quando viu quem era a pessoa que chegava ali, trazendo uma a caixa entre as mãos, a mesma caixa na qual ele depositara suas roupas e os poucos pertences na noite passada quando fora encarcerado.

– Capitão-comandante?

Pai e filho trocaram um demorado olhar até que Genryusai disse:

– Receio que tenha sido demasiadamente severo com o senhor e por isso venho me desculpar. Todavia, muito me agradaria ter sua palavra de que ficará longe daquelas pessoas e que não irá interferir no tratamento delas.

Kisuke engoliu em seco. O fato de Genryusai ignorar o sangue que compartilhavam e o tratar como a um estranho ainda doía muito.

– Não posso prometer isso. E já aviso que pretendo fazer tudo que estiver em meu alcance para curá-las.

– Está em seu alcance ficar longe.

– Mais isso não irá curá-las.

– Entendo... Bem, já que não posso contar com sua cooperação, só me resta acrescentar uma clausula em sua condicional.

Kisuke franziu o cenho, sem compreender o significado daquelas palavras e ele só viria a compreender alguns dias depois.

Genryusai abriu a cela e estendeu a caixa ao filho. Depois de pegar a caixa, Kisuke a deixou em cima da estreita cama e, se mantendo de lado para o veterano, disse:

– Agora que ficou provado que não sou louco, será que sou digno de perguntar a respeito do paradeiro de Aizen Sousuke?

– Tudo que posso lhe dizer é que suas acusações a Aizen Sousuke serão averiguadas.

– Claro, é assim que as coisas funcionam por aqui, quem tenta salvar vidas, é preso, e quem tenta tomá-las, fica impune.

Genryusai só não acertou outro soco no filho porque Kisuke teve a prudência de não o olhar nos olhos ao dizer aquilo e também porque percebeu o quanto o filho estava tremendo. Foi então que a imagem que tinha diante de si se mesclou a uma do passado e ele reviu o filho tremendo de medo dele depois de lhe confessar que não tinha prestado o teste da academia militar, mas sim um vestibular para o curso de Biologia. Afastando a lembrança e se focando no momento presente, o veterano retrucou com ferina calma:

– Espero que não esteja criticando a maneira como conduzo meu trabalho.

– Longe de mim tal afronta - Kisuke meneou a cabeça tentando diluir a própria amargura, pois sabia que aquilo não o ajudaria em nada. – Perdão, capitão-comandante, não era isso que eu pretendia dizer. O que quero é fazer um apelo para que o senhor em pessoa prenda aquele miserável, porque eu duvido muito que haja outro oficial aqui que seja capaz disso.

Genryusai observou atentamente o filho, ciente do quão humilhante deveria ser para ele apelar a um pai que o havia renegado. Admirou-lhe a firmeza de espírito, porém nada disse e logo se foi dali em vagarosas passadas.


Ao chegarem à residência dos Kurosaki, Rukia foi recebida por três rostos muito surpresos.

– Uóóó! Meu filho trouxe uma garota bonita pra casa, Papai Noel existe e leu a minha cartinha!

Karin deu um empurrão no pai.

– Dá um tempo, velho!

– Pessoal, essa é a tenente Kuchiki Rukia, então demonstrem respeito porque ela é uma oficial da lei. E eu a convidei para jantar aqui com a gente essa noite.

Com um simpático sorriso nos lábios, Rukia se apresentou:

– Kuchiki Rukia, a seu dispor. Muito prazer!

Yuzu, a loirinha, se colocou de pé e veio depressa saudar a convidada.

– Muito prazer, Kuchiki-san! Sou Kurosaki Yuzu, a seu dispor.

Em seguida, a mais velha, que era morena, fez o mesmo:

– Kurosaki Karin. Bem vinda, ao nosso humilde lar.

– Você já viu duas gêmeas mais diferentes do que essas? - Ichigo comentou com Rukia.

– Ele sempre fala isso - interpôs Karin.

– Kuchiki? - exclamou alto o pai de Ichigo. – A senhorita disse Kuchiki?

Um tanto apreensiva, Rukia fez que sim com a cabeça.

– Ó grande Kami-sama! Como sou abençoado por ter vivido até o dia que uma Kuchiki colocou seus pezinhos nobres em minha miserável casa! É muita alegria para um homem só! - e correndo a um pôster colado na parede, ele ajuntou: – Ó, amada Masaki, como eu queria que estivesse viva para compartilhar conosco esse momento glorioso!

– Não liga não, Rukia - disse Ichigo, olhando para a policial. – Meu pai é meio retardado assim mesmo, mas conseguiu criar nós três direitinho.

Rukia caiu na risada e ao longo daquela noite ela ainda riria muito ali com aquela simpática família.


Quando a notícia da liberdade condicional de Kisuke chegou à mansão Kuchiki, Yoruichi conseguiu finalmente se tranquilizar. Tendo presenciado todo o estresse dela, Ginrei sugeriu que ela se banhasse, trocasse de roupas e depois viesse tomar um lugar à mesa junto dele e Byakuya. E ela acatou de bom grado as sugestões, uma vez que se sentia realmente exausta e faminta.

Assim, naquele momento, Ginrei e Byakuya aguardavam a chegada dela na sala de jantar.

– E por que mesmo estamos usando kimonos? - Byakuya questionou ao avô.

– Porque como a Shihouin aceitou jantar conosco, eu pedi que fosse preparada uma genuína refeição oriental e claro que uma refeição oriental exige trajes orientais.

Byakuya bufou irreverente, mas assim que Yoruichi finalmente deu o ar da graça, vestida com um kimono verde belamente estampado, ele estreitou os olhos nela e pensou que a ideia não tinha sido de todo ruim.

– Desculpem a demora. Vocês devem estar morrendo de fome! Eu pelo menos estou.

– Não se preocupe - disse Byakuya –, bem sabemos que pontualidade nunca foi o forte dos Shihouin.

– Engraçadinho... Essa deve ser a única coisa na qual você ganha de mim.

Ginrei olhou para o neto e depois para mulher que considerava como parte da família também e gostou da cena.

– E a Rukia-chan? - questionou Yoruichi. – Ela não ia vir para cá?

– Ela ligou agora pouco dizendo que vai jantar na casa de um amigo - foi Ginrei a responder.

– Que amigo? - questionou Byakuya, saindo de seu estado contemplativo.

– Ih, lá vem o irmão superprotetor...

– Não se meta, bakeneko!

– Não me chame desse jeito, seu pirralho! E é você que tem que parar de se meter na vida da Rukia!

Ignorando-a, Byakuya se dirigiu ao avô:

– Que história é essa, oji-sama?

– Também não estou muito a par. Ela só disse que era um amigo - respondeu Ginrei.

– Não me ignore! - Yoruichi jogou um guardanapo de pano em Byakuya. – E para de se meter na vida da sua irmã! Ela é uma garota linda! E já passou da hora de ela arranjar um cara legal. Ela não tem que ser uma encalhada que nem você!

– E você! - Byakuya foi ligeiro ao devolver o insulto.

E Ginrei não conseguiu conter o riso, pensando consigo que aquele seria um jantar memorável.

– Encalhados à parte, o que ela faz ou deixa de fazer não é sua conta!

– Uma vez que ela é minha irmã, o que ela faz ou deixa de fazer é totalmente da minha conta!

– Rukia já é maior de idade, vacinada e sabe muito bem cuidar do próprio nariz.

Byakuya ia dar uma resposta nada educada, mas antes que o fizesse, Ginrei anunciou:

– Ah, a comida chegou em boa hora.

Byakuya endireitou a postura, descrente da cena vergonhosa que acabara de protagonizar.

Yoruichi bufou e pegou o pequeno copo de chá que uma das serviçais acabara de lhe servir e tomou a bebida fulmegante. E logo sua expressão aborrecida suavizou.

Passados alguns instantes, os três acabaram se entreolhando e foi impossível segurar as risadas.

– Ah, como é bom ouvir algum riso nessa casa... - comentou Ginrei.

– Quem é o cara, oji-san? - Yoruichi perguntou.

– Rukia-kun comentou qualquer coisa a respeito, mas minha memória está uma lástima. Como era mesmo o sobrenome dele? Ah, sim! Como pude esquecer? Kurosaki.

Ao ouvir aquilo, Byakuya bateu os punhos na mesa e bradou:

– O que?

Yoruichi mordeu os lábios como quem estivesse diante de um vulcão prestes a explodir.

– Eu acho melhor você tomar um pouco de chá, Byakuya-dono - ela tentou amansá-lo num tom açucarado, tocando uma das mãos dele.

O toque dela teve o poder de paralisá-lo, mas não pela razão que ela teria imaginado. Trocaram um olhar penetrante e logo Yoruichi se endireitou.

– Quando começo a acreditar que as coisas não podem piorar é aí que elas pioram mesmo! - reclamou ele.

– Vá, deixa de ser dramático. Não é porque ele é um Kurosaki que ele tem que ser safado, trapaceiro, dedo duro como aquele que te infernizava nos tempos da faculdade. E por que mesmo você queria matar o cara? Ah, é, porque ele tentou roubar a Hisana de você.

Byakuya lançou um olhar gélido à mais velha, que entendeu a deixa e ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Quando aquela cabeça de vento chegar, terei uma coversa séria com ela - o mais novo jurou.

Yoruichi nem sonhou em contestar, sabia que enquanto Byakuya se sentisse senhor da situação tudo ficaria bem. Assim, a refeição transcorreu sem outras surpresas. Não houve muitas conversas, mas o pouco que os três falaram foi relacionado aos assuntos de ambos os clãs.

Ao término da refeição, Byakuya e Yoruichi seguiram à sala de estar. Ela se sentou em uma das poltronas e ele ocupou outra ao lado.

– O motorista do seu avô pode me deixar em casa? - ela perguntou com ar cansado.

– Já são quase dez, passe a noite aqui.

– Ah, não... Eu quero ir pra minha casa.

– Houve um tempo que esse era o único lugar que você considerava um lar.

Ela sorriu e recostou a cabeça no estofado macio.

– Um tempo bem longínquo, hein... Você acha divertido jogar na minha cara que estou ficando velha?

– Não existe vergonha alguma em envelhecer.

– Típica filosofia de homem.

Yoruichi se colocou de pé e alongou o corpo.

– Anda, pede pra ele, por favor.

– Se insiste em ir, terei que ser eu a te levar. Hanatarou precisa ficar de prontidão caso o oji-sama se sinta mal.

– Ah, mas se é assim, você não precisa se incomodar. Eu vou pegar um táxi. Seria maldade minha tirar você de casa uma hora dessas e depois de um dia tão estressante.

– Se quiser me fazer uma gentileza, faça o que pedi e fique. Um quarto de hóspedes já deve estar arrumado.

– Por que a última palavra sempre tem que ser sua, seu irritante! Tá, eu durmo aqui e amanhã? Vou para a sede de kimono ou com o conjuntinho de grife estilo senhora distinta que você me comprou?

– Muito simples. Amanhã, antes de ir para a sede, eu te deixo no seu apartamento para que possa se vestir à moda das modelos de calendário de borracharia da qual tanto gosta.

– Touché! Você anda com a língua afiada, hein moleque?

– Tive boas influências.

Yoruichi rolou os olhos e deixou a sala, tomando o bem conhecido caminho até os quartos, deixando para trás o mais novo.

Depois de algum tempo que ela tinha subido, Byakuya se pegou pensando nas coisas estranhas que tinham acontecido naquele dia. Embora fosse sua intenção continuar ali até a chegada de Rukia, ele se sentiu fadigado demais para confrontar outra mulher que provavelmente o tiraria do sério.

Então ele acabou rumando ao próprio quarto, mas ao contrário de Yoruichi, e apesar do cansaço, ele demorou a pegar no sono. E o motivo de sua inquietação não era outro senão a mulher de olhos dourados, que aquela hora dormia pesadamente no quarto logo em frente ao dele.

CONTINUA...


Eita, capítulo grande! Foi pra compensar os quase três meses sem atualizar. Como sempre, vontade não faltou, mas tempo e inspiração sim. Devo deixar um agradecimento especial novamente para a Eduarda Tomasio do Nyah, que me cobrou a continuação a ainda essa semana, bem quando eu me debruçava no pequeno esboço que tinha do capítulo e do qual não aproveitei nada.

Eu fiquei extremamente feliz e motivada com os comentários muito ricos que recebi no capítulo anterior (no Nyah). E até me sinto um pouco envergonhada de ter demorado tanto para retomar o projeto. Muito obrigada mesmo, gente! De coração! Vocês sabem que sem esse incentivo dos comentários não tem fanfic que sobreviva.

Bom, espero que tenham gostado. E deixo uma perguntinha aqui: Acham que vai dar YoruHara ou ByaYoru?

Amanda

22-03-2015.