Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 7

Depois de um jantar muito descontraído na residência dos Kurosaki, Rukia e Ichigo seguiam de volta ao departamento de Polícia, em um percurso que não demoraria mais que alguns minutos. Já eram quase dez da noite. Ambos estavam tranquilamente quietos até que Ichigo quebrou o silêncio.

– Preciso te perguntar uma coisa... - disse ele.

– Pergunta.

– Foi de propósito ou você caiu mesmo no meu colo naquela hora?

Rukia virou o rosto para ele com uma expressão maliciosa.

– Vamos ver se entendi a pergunta: está querendo saber se eu caí mesmo ou se eu me joguei em você?

– É isso aí! Entendeu direitinho.

Com dissimulada indignação, ela exclamou:

– Claro que eu caí! Mas uma vez que eu estava caída lá, não pude resistir sentir seu perfume mais de perto.

Estando naquele momento parados em um farol, Ichigo também voltou seu olhar a ela.

– Sei...

Rukia não desperdiçou a oportunidade de provocá-lo.

– Mas se aquilo foi tão traumático assim pra você...

– Ah, dá um tempo! - ele a cortou bem humorado. – E se eu fizesse o mesmo? Você me daria um tiro?

Ela precisou se segurar para não rir alto.

– Sei lá... Por que não arrisca?

O ruivo pestanejou ante ao desafio e pensou que ela não precisava provocá-lo tanto. Estavam só eles dois no carro e ela usando um vestidinho curto, a situação já era um convite à quebra do pudor.

– Percebo o quanto essa dúvida deve estar te corroendo, Ichigo, mas não vai passar direto, por favor. Já é um pouco tarde e fazer retorno aqui é complicado.

– Ainda bem que você avisou a tempo - disse ele e um pouco depois estacionava o carro na mesma vaga de visitantes que ocupara horas mais cedo, com a diferença de que o local estava bem menos movimentado agora. – Prontinho, aqui estamos.

– Muito obrigada, Ichigo. Foi ótimo! Você e sua irmã Yuzu são mesmo bons na cozinha.

– Obrigado. Quando quiser repetir a dose, é só dizer - rebateu ele, observando-a se soltar do cinto de segurança.

Rukia virou o corpo para ele com um sorriso sedutor nos lábios. Ichigo deu uma rápida olhada ao redor e como não avistou ninguém, ele também se livrou do cinto.

Depois, os dois ficaram se encarando por algum tempo até que Ichigo começou a esticar seu corpo na direção do corpo de Rukia. Ela não se moveu e logo ele estava a aspirar-lhe o pescoço. Ligeiramente surpresa com a ousadia dele - ainda que estivesse contando com aquilo -, Rukia fechou momentaneamente os olhos, deliciada com o calor que o leve roçar da pele dele na sua lhe trouxe ao corpo todo. Ela não entendia como podia estar tão irresistivelmente atraída por aquele rapaz, nada parecido lhe acontecera antes.

Ichigo se afastou só um pouco e comentou:

– Não que eu seja um expert em perfumes de mulheres, mas, seja lá qual for esse seu, achei muito bom.

Rukia o encarou ali tão perto de si. Se ela inclinasse a cabeça adiante uma polegada que fosse, ficaria com a boca colada na dele, porém não precisou fazê-lo, pois o próprio Ichigo avançou nela. Não foi um beijo acalorado, mas também não foi um mero encostar de lábios. Durou pouco, mas pelo pouco que durou rendeu uma boa satisfação aos dois.

– O nome é Allure - sussurrou Rukia, abaixando o rosto assim que o jovem lhe deu espaço.

Allure? Vou tentar me lembrar.

Trocaram um sorriso traquinas, antes de Ichigo endireitar o corpo. Logo em seguida, Rukia abriu a porta do carro e saiu. Rapidamente, Ichigo tratou de abrir o vidro do lado do carona e então Rukia se inclinou ali.

– Muito obrigada - disse ela.

– Você já agradeceu - ele retrucou pirracento.

– Tem razão... - ela ajeitou o cabelo atrás da orelha, fazendo-se de encabulada.

– Quer que eu te acompanhe até o seu carro?

– Não precisa. Eu vou descer pelo elevador.

– Certo... E a casa do seu avô é muito longe daqui?

– Não, é perto. Não demoro nem vinte minutos pra chegar lá.

– Me manda uma mensagem quando chegar?

– Hum... Preocupado com a minha segurança? Que gracinha...

Ele apenas sorriu em resposta.

– Até a próxima, Ichigo - ela se despediu e saiu andando.

– Que espero seja em breve!

Sem se voltar a ele, Rukia ergueu uma das mãos em um aceno. Ichigo esperou que ela estivesse dentro do prédio, para só então tomar seu caminho de volta.


Na manhã seguinte, Byakuya voltava a seu quarto depois de um exercício de corrida, o qual havia sido ótimo para aliviar seu estado de nervos. Tivera uma noite horrível, repleta de delírios e sonhos perturbadores, visto que adormecera irado com Rukia e preocupado com Yoruichi.

Ao entrar no quarto, ele acabou deixando a porta entreaberta e por conta disso pôde escutar o celular de Yoruichi tocando, quando ela deixou o quarto no qual passara a noite. Ele pensava que ela fosse retornar ao quarto para atender a chamada, mas não, então ele pôde ouvir a conversa.

– Kisuke? Tudo bem? Você tá legal?

Byakuya captou a preocupação no tom dela e aquilo o deixou furioso.

– Eu vou ver o que posso fazer... Yamamoto acabou de me mandar uma mensagem exigindo que eu esteja no gabinete dele hoje no primeiro horário.

Ele ficou apreensivo ao ouvir aquilo.

– Eu queria ter estado lá, talvez eu tivesse conseguido convencer o capitão-comandante a não ser tão... drástico. Por que no fim tudo não passou de uma perda de tempo.

Houve um prolongado silêncio até que Yoruichi voltasse a falar.

– Eu sei que foi melhor, mas... Ah, deixa isso pra lá. Tudo bem, se cuida... Assim que o velho Yama me liberar eu te ligo. Até lá, vê se não se mete em encrenca.

Em seguida, Byakuya soube que ela se dirigia às escadarias pelo som das passadas do sapato de salto. Ponderou alguns instantes, nada contente com a situação, mas sabia que não poderia obrigá-la a cortar relações com Urahara. Esperou algum tempo ainda para só então fechar sua porta.

Cerca de quinze minutos depois, ele já estava de banho tomado e vestido com uma calça de linho e uma camisa social de manga curta. Por fim, prendeu os cabelos compridos com um elástico e depois desceu para fazer seu desjejum.

Ao chegar à sala na qual a refeição costumava ser servida, Byakuya encontrou a mesa já posta e Yoruichi a sua espera. Reparou que ela vestia a camisa clara e a saia cinza do conjunto social que ele lhe comprara - evidentemente o traje havia sido lavado e passado por alguma das serviçais.

Ohayou - ele a saudou na típica aspereza.

Morning - devolveu ela sem olhá-lo, concentrada na tela do celular.

– Não vai comer? - perguntou ele.

– Já comi.

Ele tomou o acento ao lado do qual ela estava e logo se servia de chá verde e de duas fatias de pão integral. Pensava em sondá-la acerca do que faria naquele dia sem que parecesse interessado demais, mas antes que dissesse qualquer coisa sua irmã chegou ali.

– Yoruichi-san!

Hi Rukia-chan!

– Que surpresa você por aqui...

– Eu dormi aqui.

– Sério?

– Se não tivesse chegado tão tarde ontem, estaria sabendo - entrecortou Byakuya, deixando claro pelo tom o quanto estava descontente.

– Mas eu não cheguei tão tarde.

– Ah, chegou sim! - retrucou Yoruichi. – E já sabemos porquê! Vou querer saber todos os detalhes sobre seu encontro, mas vai ter que ser depois, okay? Byakuya, podemos ir?

– Não foi um encontro! - Rukia protestou vermelha como uma cereja.

– É bom mesmo que não tenha sido, se o sujeito em questão é um Kurosaki - interpôs Byakuya. – Hoje você almoça comigo e me conta essa história direito - intimou ele e depois se dirigiu à investigadora. – Sim, podemos ir.

Rukia se encolheu acuada e ocupou um dos acentos. Pouco depois, Byakuya se levantou e como não tinha nem tocado na segunda fatia de pão, largou-a em um prato vazio à frente da irmã.

– Bye bye, Rukia-chan! - despediu-se a investigadora e deu um abraço por trás nos ombros da mais nova. – Juízo, hein!

– Você vai voltar pra cá hoje, Yoruichi-san?

– Provavelmente não, mas eu te ligo.

– Ah, tudo bem... - retrucou com um ar decepcionado.

Byakuya acabou saindo da sala primeiro, mas Yoruichi logo se alinhava com ele.

– Vamos direto pra sede - disse ela.

– Tem certeza? Ainda é cedo.

– Eu sei, mas o capitão-comandante quer falar comigo.

– Tem ideia do que possa ser?

– Não, mas posso apostar que é bronca.


Depois de ter conversado com Yoruichi e tê-la chamado para vir a seu apartamento tão logo fosse possível, Kisuke aguardava pela chegada de seu amigo Tessai Tsukabishi, o que aconteceu quando ele conversava pelo telefone com outra amiga deles.

– Perdoe-me por te pedir algo assim, Kuukako-san. Em outras circunstâncias, Yoruichi-san poderia me ajudar, mas se ela for vista lá será pior.

Do outro lado da linha, a mulher retrucou:

"Não precisa ficar se justificando, Kisuke. O Tessai já me colocou a par de tudo. Você sabe que pode contar comigo."

– Muito obrigado, Kuukako-san. Nos vemos à noite.

Assim que Kisuke desligou o celular, Tessai perguntou-lhe:

– O que você pediu a ela?

– Que ela fosse até o hospital para onde eles foram levados. Tenho que saber o estado deles, mas Genryuusai me mandou ficar longe.

– Entendo...

O grandalhão se acomodou em dos sofás da sala.

– E quanto à Yoruichi-dono? Falou com ela?

– Sim, agora pouco. No fim foi bom nem você e nem ela terem sido pegos no armazém. Pedi que ela viesse aqui hoje à noite. Imagino que Kuukako-san já nos trará informações até lá e então sim poderemos traçar um plano.

Tessai assentiu e perguntou:

– Tem alguma comida aqui?

– Nem um grão de arroz. Eu estava mesmo esperando você chegar para ir até o mercado - e aproximando-se Kisuke deixou seu celular com o amigo. – Fique com isso. Talvez qualquer uma das duas ligue. Eu não demoro.

Pouco depois, Kisuke estava na rua, caminhando em passadas velozes até o supermercado mais próximo da região, um bairro na fronteira do distrito de Seireitei com o distrito vizinho. Tantas coisas o inquietavam que era difícil focar a mente em apenas uma.

Foi rápido à procura dos suprimentos: congelados, chá, sake, peixe. Com carrinho cheio, ele se encaminhava ao caixa quando, ao virar em um corredor, avistou um casal que chamou sua atenção. Um homem tão loiro quanto ele mesmo, porém de cabelos raspados à moda dos militares, ao lado de uma mulher de pele escura como a de Yoruichi. O homem parara o carrinho próximo a uma vasta prateleira de fraldas, enquanto a mulher escolhia uma das marcas.

Passou pelos dois sem ser notado e reparou na aliança dourada no dedo anelar da mulher. Enquanto esperava na fila do caixa, foi impossível não pensar em Yoruichi. Já fazia mais de dez anos que ela dera fim a seu relacionamento e até hoje ele tentava entender o porquê daquilo. Daria tudo para saber por que ela recusara seu amor. E o pior, sentia que ela ainda o queria, mas toda vez que ele tentava se aproximar, ela fugia dele. Contudo, todas suas investidas, após o término do namoro, foram precedidas de algum deslize dela: um toque, um olhar, uma palavra trocada como um "querido" no lugar de "amigo".

Olhando de lado, percebeu o mesmo casal não muito distante de onde ele estava. E ao ver o homem selar rapidamente os lábios da mulher, ele os invejou. Suspirou desalentado e olhou adiante. Talvez depois que aquela crise passasse, ele devesse tentar mais uma vez reatar com Yoruichi. Não seria a primeira vez, nem a segunda, na verdade, já perdera a conta de quantas vezes tentara. Ela não parecia ter olhos para outro e aquilo o deixava tão confuso quanto contente - talvez mais contente que confuso -, mas era horrível estar separado daquela que ainda era o único amor de sua vida.

Ao chegar sua vez na fila, ele tratou de afastar aqueles pensamentos, já tinha muito no que pensar para ainda ficar remoendo suas desventuras amorosas.


Passava das onze da manhã, quando Kuukako Shiba chegou ao Hospital Madison disfarçada de enfermeira para atender ao apelo que Kisuke Urahara lhe fizera. Ela não teve problemas para descobrir que os oito enfermos estavam no décimo terceiro andar e que este havia sido isolado para eles e era vigiado por policiais dia e noite.

Ao sair do elevador, Kuukako deu uma repassada na câmera camuflada no broche em seu peito e rumou à procura dos oito. Kisuke lhe pedira para filmar os quartos e os aparelhos hospitalares, scannear os prontuários médicos e, se possível, coletar amostras de sangue. Ela estava convicta de que tudo isso seria muito simples, mas titubeou assim que deu o primeiro passo no corredor e ouviu sons estranhos. Logo percebeu que eram gritos. Gritos hediondos. Tentou não parecer assustada e continuou andando. Deparou-se então com uma extensa parede de vidro e ficou paralisada de terror com o que viu através dela.

Os supostos enfermos em coma estavam todos bem despertos, ainda que a maioria deles estivesse fortemente amarrada nos leitos por cintos de couro. Porém dois dos oito estavam soltos e dando muita canseira aos enfermeiros daquela ala. Três enfermeiros tentavam controlar o atlético Kensei, que urrava como uma besta-fera, enquanto a acrobática Mashiro tentava acertar chutes altos contra outros dois que tentavam agarrá-la.

Trêmula, Kuukako ligou a câmera, chegou o mais próximo que pôde e filmou muito daquele pesadelo.

Com demasiado esforço os médicos conseguiram conter Kensei, mas ainda terminavam de amarrá-lo no leito, quando a pequena Hiyori conseguiu se soltar e logo ela derrubava vários dos equipamentos da sala. Veloz como um tiro, Mashiro avançou contra Hiyori e teria acertado um chute mortal na cabeça dela, se Shinji não tivesse impedido, arremessando contra ela um pequeno monitor, depois de ter se soltado parcialmente. Mashiro tombou atordoada, grunhindo e com isso os enfermeiros conseguiram rendê-la. Os outros três rodearam Hiyori. Vendo a pequena rosnando acuada, Shinji começou a se debater furiosamente, mas logo estava a tossir sem controle e então uma gosma branca começou a transbordar de sua boca. Um médico correu a socorrê-lo e logo usava o rádio, provavelmente chamando reforços.

Temendo ser notada e incapaz de continuar presenciando aquele horror, Kuukako fugiu para o elevador e em pouco tempo estava a caminho do apartamento de Kisuke.


Depois de uma longa conversa com Genryuusai, Yoruichi sentia-se inquieta. O veterano deixara claro que desconfiava de que ela teria ajudado Kisuke Urahara, ainda que nenhuma evidência disso houvesse sido encontrada. Foi repreendida pela falta de resultados na busca dos oito sequestrados e se justificou dizendo que ninguém era perfeito. Mas a razão maior da convocação do veterano foi para sondá-la sobre a acusação de Kisuke contra Aizen Sousuke. Mesmo que quisesse, ela não teve muito a dizer, mas insistiu com veemência que Aizen fosse investigado. Depois disso, Genryuusai a liberou.

Naquele momento, ela estava em sua sala, no segundo andar, tentando colocar alguma ordem na bagunça que quase uma semana de ausência trouxera a seu posto de trabalho, mas mal tinha começado a juntar os papéis quando Soifon chegou ali.

A jovem capitã chegava com um largo sorriso, parecendo tão contente em vê-la que Yoruichi precisou dar-lhe a devida atenção. Gastaram quase meia hora conversando e Yoruichi contou a ela tudo que pôde do que vinha fazendo nos últimos dias.

– Cheguei a pensar que a senhora também tivesse sido sequestrada. E como estou aliviada em saber que a senhora não estava envolvida com aquele sujeito!

– Imagine... As coisas se embolaram e ainda me chamaram para aquela reunião dos clãs, justamente no dia que o Kisuke foi preso. Mas, Soifon, pelo que o major Ukitake me contou, Kisuke estava sim tentando ajudar aquelas pessoas. Ele não teve culpa.

Aborrecida, Soifon se colocou em pé e se aproximou da janela da sala.

– Em partes ele teve sim! Ele não tinha nada que ter tentado resolver as coisas por conta própria. Tinha que ter chamado a Polícia. Ele não passa de um insubordinado. Não sei como o capitão-comandante ainda o admite aqui.

– Não fala assim, Soifon.

A mais nova ficou sem graça e voltou a se sentar. Então pousou uma das mãos sobre a mão daquela a quem considerava uma mestra.

– Ah, me perdoe, Yoruichi-sama. Eu sempre esqueço o quanto a senhora gosta daquele sujeito.

A investigadora deu um riso amargo e comentou cabisbaixa:

– Você fala igualzinho ao Byakuya.

Soifon não teve tempo de retrucar, pois Yoruichi levantou o olhar a ela e perguntou:

– Ah, é! Falando nele... Como andam as coisas entre vocês? Ele te chamou pra sair?

A capitã endireitou a postura e deu um riso desconfortável.

– Ainda não. E, francamente, Yoruichi-sama, eu... - dizia ela, mas se calou quando o celular da investigadora tocou.

A mais velha gesticulou, pedindo licença para atender.

– Shihouin falando.

"Yoruichi, sou eu, Kuukako. Se não estiver sozinha, não diga o meu nome."

A investigadora entreabriu os lábios, mas não soube o que dizer. Em face à expressão perturbada dela, Soifon deduziu que devia ser algo particular.

– A senhora quer que eu saia?

Yoruichi assentiu e, abaixando momentaneamente o celular, disse:

– Mas, Soifon, eu vou almoçar com você. Me espera!

A mais nova assentiu com um sorriso e em seguida se retirou.

– O que aconteceu, Kuukako?

"Onde você está?"

– Na sede.

"Então talvez você consiga chegar a tempo de impedir o Kisuke."

– Como assim?

"Hoje cedo, ele me pediu para ir até o hospital e ver como o pessoal estava. Bom, a situação é a pior possível. Eles foram tirados do coma e estão pior que cachorro com raiva. Eu fiz um vídeo e quando mostrei para o Kisuke, ele ficou fora de si e foi pra lá!"

– Pro hospital? Mas a condicional dele...

"Exato! É esse o problema! Se ele chegar perto daquelas pessoas, vai violar a condicional e será preso de novo."

– Mas que merda!

"Você tem que tentar chegar lá antes dele. Eu e Tessai estamos seguindo ele, mas o imbecil pegou minha moto e está dirigindo feito um louco. Não dá pra acompanhar!"

– Tudo bem, deixa comigo!

Yoruichi saiu depressa como um raio, mas só ao chegar ao estacionamento, lembrou que seu carro não estava ali.

– Inferno!

Por um instante ela ficou indecisa entre pedir o carro de alguém ou usar uma viatura. No fim, acabou deixando o prédio pela saída de veículos mesmo e assim que chegou à rua, se enfiou em um táxi.

Byakuya estava na janela de sua sala, no sexto andar, e flagrou o momento em que Yoruichi entrava no táxi, ficando bastante intrigado com aquilo.


Kisuke abateu um dos funcionários do hospital para tomar-lhe o uniforme e logo estava no elevador. Chegando ao décimo terceiro andar, conseguiu passar despercebido e rapidamente localizou a sala que procurava, devido à plaqueta colada na porta da sala com o nome do médico responsável pelo andar: Dr. Szayel Aporro Granz.

Sua vontade era chutar aquela porta, mas bateu levemente. Instantes depois, um homem esguio e bastante alto apareceu. Tinha os cabelos claros e os olhos eram de um castanho amendoado, vestia terno e gravata, sem jaleco e usava óculos de aro fino.

– Doutor Granz?

– Eu mesmo. Em que posso ajudá-lo?

– Meu nome é Urahara Kisuke. O senhor teria um minuto?

– Urahara? - o homem repetiu, medindo o loiro de alto a baixo e depois o convidou a entrar.

Assim que os dois se acomodaram, Kisuke disse:

– Doutor Granz, eu soube que o senhor tem tratado de um caso bastante atípico de oito pacientes que...

– O senhor não precisa desse teatro, senhor Urahara. Sei quem é e tudo o que alega saber sobre a doença de meus pacientes. Diga: o que veio fazer aqui?

– Vim para que o senhor me coloque em sua equipe. Eu sei como curá-los.

– Sabe?

Kisuke assentiu.

– Mas que interessante... Se é assim, ficarei contente que o senhor me prepare um dossiê detalhado a esse respeito.

– Não, o senhor não está entendendo... Eu ainda não tenho a cura, mas tenho certeza que a encontrarei se o senhor me deixar examiná-los.

– Ah, claro... Lamento muito, senhor Urahara, mas isso não será possível. O senhor bem sabe que nem devia estar aqui. Sua condicional o proíbe de chegar a menos de um quilômetro daquelas pessoas.

O loiro lutava para conter a fúria.

– Por que o senhor os tirou do coma induzido? Não vê que eles estão à beira da loucura?

– As pernas deles já estavam começando a exibir úlceras de pressão pela imobilidade. Foi melhor assim.

– Melhor? Eles estavam estáveis e controlados, agora estão sendo mantidos amarrados como animais!

– Meu caro senhor Urahara, espero que não tenha vindo aqui para criticar meus métodos. O senhor não está em posição de um desacato assim.

– Pro inferno! São oito vidas em jogo! Já chega!

– Nem eu teria dito melhor... - alcançando o telefone sobre a mesa, o médico fez uma chamada. – Recepção? Preciso de mais policiais aqui.

– Seu miserável! Acha que vai me intimidar com isso!

Não demorou nem um minuto para que dois homens armados entrassem na sala e eles rapidamente renderam Kisuke. Szayel lançou ao loiro um sorriso maléfico, enquanto ele era retirado do local.

Ao cruzar o corredor, Kisuke observou, pela parede de vidro, os amigos internados e então percebeu que a pequena Hiyori estava olhando em sua direção. Sentiu a cabeça girar com um espiral de emoções: fúria, revolta, medo. Foi então que um dos homens o empurrou adiante.

Reagindo com o reflexo de um lutador experiente, ele se virou e socou o homem no estômago, nocauteando-o. O outro, ele derrubou com um chute certeiro. Antes que outros chegassem ali, ele correu às escadarias e conseguiu a façanha de fugir do hospital.

Quando Yoruichi chegou ao local, ao avistar duas viaturas atravessadas na entrada do prédio, ela soube que chegara tarde. Inconformada, tratou de procurar um refúgio antes que sua presença ali fosse notada. Rumou para um restaurante a dois quarteirões do hospital, onde contatou Kuukako e depois ficou esperando pela notícia da captura de Kisuke, mas, cerca de vinte minutos depois, a mensagem que recebeu foi a de que ele escapara.


Depois de ter ficado três dias desaparecido, Kisuke Urahara bateu à porta do apartamento de Yoruichi.

– Eu tenho um plano. Mas preciso de ajuda, de toda a ajuda possível.

– Seu idiota! - ela exclamou e se abraçou a ele, agarrando-o pelo pescoço.

Mas ela logo se afastou e o encarou, alarmada com seu estado. Vestes arruinadas, o odor de alguém que não se banhava há dias e um ferimento profundo no braço esquerdo.

– O que diabos te aconteceu?

– Não importa. Chame Tessai e Kuukako, temos muito a discutir.

– Antes de qualquer coisa você vai tomar um banho - então ela puxou-lhe o braço e deu uma olhada no ferimento. – E temos que tratar disso também.

Tessai e Kuukako chegaram ao apartamento cerca de uma hora depois, quando Kisuke já estava devidamente banhado, medicado e vestido com um kimono verde. Os quatro se acomodaram ao redor de uma mesa baixa no centro da sala e logo o loiro tinha a palavra.

– Não pensem que passei esses três dias apenas fugindo da Polícia. Claro que não. Eu estive a procura de um computador poderoso o bastante para me permitir roubar dados da inteligência norte-americana.

– Kisuke, você já bem encrencado pra continuar dando brecha assim... - advertiu Kuukako.

– Coisa pouco relevante no momento, minha cara. Que me joguem na prisão perpétua depois que tudo isso acabar, eu não ligo. O que não posso suportar é falhar com os nossos amigos.

– Continua... - incentivou Yoruichi. – O que esperava encontrar nesses arquivos?

– Uma ideia que já desfila nos livros de ficção científica há décadas, um projeto do qual eu suspeitava já foram feitos protótipos. Câmaras de criogênese. São como sarcófagos dentro dos quais uma pessoa pode entrar em estado de hibernação por períodos muito longos e depois ser reanimada. Câmaras assim serão usadas para levar uma tripulação humana para além da órbita de Plutão, nos limites do Sistema Solar.

– Mas não é só ficção? - questionou Tessai.

– Enquanto algum órgão governamental não bancar uma missão oficial esse projeto será mantido em sigilo.

– Kisuke, ninguém aqui vai conseguir arranjar coisas mantidas em sigilo, do outro lado do mundo, diga-se de passagem! - exaltou-se Yoruichi.

– Isso não será necessário. Eu só precisava do projeto e consegui. Agora posso construir essas câmaras aqui, desde que tenha a matéria prima.

Os três se entreolharam e seus semblantes exibiam descrença e até certa apreensão.

– Não me olhem assim, ainda não estou louco. E não é nada tão mirabolante quanto parece. Um engenheiro eletrônico experiente como você, Tessai, comprovará assim que vir o projeto. A ideia da hibernação é factível e o responsável por esse prodígio é o líquido que preenche a câmara. Um líquido similar ao líquido amniótico, no qual todos nós vivemos nas barrigas das nossas mães. Conheço sua fórmula e sei que posso produzi-lo sinteticamente.

– Mas você pensa em meter aquelas pessoas nessas tais câmaras de hibernação até quando? Até achar uma cura? - questionou a investigadora.

– Impressionante a rapidez com que você leva a sério as ideias dele, Yoruichi - comentou Kuukako.

– Olha só quem fala... - rebateu Yoruichi.

Tessai olhou na direção das duas, percebendo o costumeiro atrito entre elas. Eram amigas que se queriam como irmãs, mas, quando estavam na presença de Kisuke, pareciam entrar em disputa pela atenção dele.

Indiferente, Kisuke continuou:

– A construção das câmaras é a parte mais trabalhosa do que tenho planejado, mas não a que irá solucionar o problema. Eu preciso delas não apenas para mantê-los estáveis, mas, sobretudo, para tirá-los daqui. Eu não posso continuar aqui agora que a Polícia está de novo atrás de mim. Preciso sair do país. Você tem que me colocar em um voo para o Japão, Kuukako-san. Tessai me ajudará a construir as câmaras. Depois, eu parto, e por último você, Yoruichi-san, me levará os oito, nas câmaras. Eu já estarei com um laboratório pronto para recebê-los lá.

O plano soava insano, mas tamanha era a seriedade e a convicção de Kisuke que seus amigos se virão forçados a tentar colocá-lo em prática.


Uma semana depois, Byakuya estava de volta à sua velha rotina, sem Yoruichi. Ele chegara a pouco do trabalho e se deitara no espaçoso sofá da sala, largara os sapatos em algum canto, livrara-se do cinto e puxara a camisa para fora da calça, relaxando ali um pouco antes de ir tomar um banho. Não queria admitir, mas estava preocupado com Yoruichi. Kisuke Urahara estava foragido há dias e Yoruichi vinha lhe evitando deliberadamente. Aquilo não poderia ser um bom sinal.

Bufou irritado e pensou que precisava arranjar algo para fazer naquele começo de noite, do contrário não conseguiria tirá-la da cabeça. Cogitou se não podia ligar para Soifon e marcar um encontro com ela. Antes de Genryuusai ter lhe colocado à procura de Yoruichi, Soifon vinha galgando uma aproximação com ele. Algo realmente inusitado vindo de uma mulher tão recatada e que até lhe despertara certo interesse, ainda que até o momento ele não tivesse reagido no sentido de corresponder à investida. Julgando que aquele pudesse ser um bom momento, pegou o celular e buscou o número de Soifon na agenda, mas antes que efetuasse a chamada a campainha tocou.

Estranhou aquilo. Era raro alguém vir visitá-lo ali e o porteiro nada anunciara. Foi até a porta e ao abri-la, deparou-se com Yoruichi.

– Você me deu sua palavra de que me ajudaria. Pois bem, preciso de ajuda.

Ele suspirou pesadamente e deu espaço para que ela entrasse. Yoruichi veio se sentar naquele sofá grande que ele tinha estado, então ele se sentou à frente dela, em um sofá menor.

– Já vou avisando que tem a ver com o Kisuke.

Byakuya franziu o cenho.

– Por que não me surpreendo? Será possível que você descobriu onde ele tem se escondido e veio pedir minha ajuda para prendê-lo?

– Engraçadinho... Vai manter sua palavra, sim ou não?

– Ninguém melhor do que você sabe que eu sempre honro uma palavra empenhada.

Ela ainda demorou em expor o caso então Byakuya pôs-se a observá-la. Seu traje resumia-se em uma única peça, um vestido de alças finas, preto e cujo comprimento não ultrapassava os joelhos. Os cabelos estavam apenas parcialmente presos por duas presilhas douradas, uma de cada lado da cabeça. Achou que ela estava bonita, mas deduziu que ela havia se produzido daquele jeito para Urahara e essa ideia o desagradou enormemente.

– Tenho uma lista de coisas que vou precisar em grandes quantidades. Não sei como vou faturar sem levantar suspeitas... - dizia ela, mas ele a interrompeu.

– Pode parar. Se acha que vou te ajudar cegamente está muito enganada. Posso até cooperar, mas antes quero saber tudo.

– Você é tão chato...

Cerca de uma hora se passou até que Yoruichi relatasse a Byakuya todo o plano de Kisuke Urahara. Ao término do relato, Byakuya ficou apenas a encará-la.

– Diga alguma coisa! - angustiou-se ela.

– Não sei nem o que dizer. Acho que nunca ouvi tanto absurdo na vida.

– Por que não me surpreendo? - parafraseou ela. – Escuta, nós não precisamos que você goste do plano, okay? Vamos levar adiante com ou sem sua ajuda.

– Com ou sem minha ajuda isso não tem como dar certo.

Encararam-se por algum tempo.

– Vou te mostrar uma coisa - disse Yoruichi. – Se depois de ver esse vídeo você continuar pensando assim, eu vou embora e você fica desobrigado da promessa que me fez.

Ela veio se sentar ao lado dele, tão perto que seus corpos ficaram encostados. Puxou o celular de dentro da bolsa, largando-a ali no sofá, e depois exibiu a tela do dispositivo a ele. Antes que os gritos hediondos no vídeo começassem, toda a atenção de Byakuya esteve no corpo dela, mas em poucos instantes ele tinha o olhar vidrado no dispositivo.

– Isso foi filmado há seis dias. Kisuke acredita que se eles continuarem assim em pouco tempo o estrago em suas mentes será irremediável.

Byakuya soltou o ar que vinha prendendo já há algum tempo.

– Enquanto estamos aqui conversando, Tessai está montando os circuitos de controle das câmaras. A liga metálica para a estrutura delas não precisará ser tão resistente quanto a que se usaria para as condições do espaço. Tendo a liga e o maquinário necessário, Tessai e Kisuke garantem que conseguem montar as câmaras em poucos dias.

Levantando-se de súbito, Byakuya reclamou:

– Dá um tempo! - e sem disfarçar sua revolta, ele se dirigiu até a estante-bar ali naquele mesmo ambiente.

Yoruichi ainda continuou no sofá, mas logo se levantou e se dirigiu até a imensa janela onde ficou contemplando a exuberante vista da cidade dali de cima.

Depois de se servir de uma dose de whisky, Byakuya ficou olhando na direção dela.

Mal podia acreditar que ela estava lhe pedindo para tomar parte nas maquinações de um homem que ele não suportava. E vê-la tão entregue à causa desse homem o encheu de fúria. Então ele lembrou que havia sentido o mesmo quando escutara a conversa dela com o sujeito pelo telefone, na casa de seu avô, e quis entender por que a devoção dela a Urahara lhe transtornava tanto e ficou aturdido quando a palavra ciúme pipocou em sua mente. Tomou mais um gole de whisky, perguntando-se como podia estar sentindo ciúmes dela. Ela não era sua mulher. Poderia ter sido, mas seus destinos haviam se separado anos atrás.

Ele ainda refletia nessas coisas quando Yoruichi voltou para perto dele.

– Eu sei que parece loucura...

– Parece? - cortou ele.

Ela o encarou com um olhar contrariado e continuou argumentando.

– Genryuusai partiu à caça de Aizen, mas deixou Kyouraku responsável pela segurança deles. Por mais que Kisuke tente, ele não conseguirá chegar nem perto para ajudá-los. A partida para o Japão é a única saída.

– Única saída? Serem confinados em caixas metálicas cheias de uma substância química? Serem atirados em um avião cargueiro como se fossem bagagem? Acha mesmo que essa é a única forma de ajudá-los? O que esse homem faz com você só pode ser algum tipo de lavagem cerebral! - sentenciou irado.

Mas Yoruichi enfrentou a ira dele com uma calma fria.

– As câmaras tanto vão ajudar no transporte como vão proteger a sanidade mental deles. E com um avião militar dá pra chegar no Japão em oito horas. Não tem nada de tão sobrenatural na operação assim, Byakuya.

– Ah, não? Mas e se o seu querido gênio errar na composição da substância e ao invés de hibernar eles morrerem afogados? E se as forças aéreas japonesas tomarem um avião australiano como inimigo e dispararem mísseis em defesa?

– Nada disso vai acontecer - ela afirmou resoluta, sem se deixar abalar.

Byakuya apenas a encarou, transpirando revolta.

– Você não vai ajudar? - insistiu ela.

– Eu não tomaria parte em algo assim nem que eu estivesse louco.

Yoruichi endureceu o semblante.

– Não acredito que você vai dar pra trás comigo numa situação dessas! Será que não viu no vídeo como eles estão sendo tratados? Não viu o estado que estão? Você não se importa?

– Claro que me importo. E depois de saber que tipo de coisa passa pela mente desse alienado do Urahara, é meu dever garantir que ele continue bem longe daquelas pessoas!

– Então você prefere deixar eles na unha desse médico miserável do que dar uma chance para o Kisuke?

– Se esse médico miserável não está sabendo conduzir o tratamento, ele precisa ser afastado do caso. Não passou pela sua cabeça procurar o Kyouraku e dizer a ele o que está acontecendo?

– Mas é claro que eu falei com o Kyouraku! Foi a primeira coisa que fiz!

– E o que ele disse?

– Ele me mandou ficar fora disso. E sabe por quê? Porque a rixa dele com o Kisuke é pessoal. Não é nenhum segredo que Kyouraku e Lisa estavam dormindo juntos. Foi por isso que ele fez de tudo para manter o Kisuke preso e longe dela. Mas agora ele meteu na cabeça que ela e outros estão além da cura e tanto faz pra ele quem irá tratá-los desde que não seja o Kisuke, porque ele culpa o Kisuke pelo que aconteceu.

– Alguém como ele agindo pela emoção assim... - comentou Byakuya, sem ocultar sua perplexidade.

Alheia ao comentário, Yoruichi continuou defendendo seu amigo.

– O plano de Kisuke tem muitos riscos, eu sei. Mas ele é o único que tem falado em cura, ao invés de concordar que eles sejam mantidos confinados e amarrados como animais. Foi por eles que eu entrei nessa, Byakuya! Se houver a menor chance de cura, qualquer esforço é válido pra mim.

– Estou vendo o quanto quer ajudá-los, mas preciso te fazer entender que ajudar Urahara a levar adiante esse plano ridículo não é a solução!

– Deixa de ser implicante, Byakuya. Você só precisa ajudar com a compra do material, com o resto a gente se vira.

– Esqueça! - vociferou ele.

Yoruichi suspirou fundo, compreendendo que ele não cederia. Voltou então para o sofá onde deixara sua bolsa.

– Pode pelo menos não ficar no nosso caminho? - ela perguntou.

– Que bom que você sabe que eu deveria obrigá-la a me dizer onde Urahara está escondido.

– Mas você não vai fazer isso, certo?

Byakuya não deu resposta.

Desanimada, Yoruichi pendurou a bolsa no ombro e se encaminhou à porta.

– Espera... - disse ele, atravessando-se no caminho dela.

– O que foi agora?

– Quero te fazer uma contraproposta.

– Como assim?

– Passe a trabalhar comigo e não com ele. Nós dois trabalhando juntos poderemos encontrar uma solução.

– Bobagem... O que eu ou você entendemos de mutações?

– Nada, mas temos condições de encontrar quem entenda. E eu até já tenho alguém em mente.

– Quem?

– Unohana Retsu.

Yoruichi pareceu se interessar.

– Ela é amiga de Juushirou e uma médica famosa. Chega a ser estranho que ela não tenha sido designada para esse caso desde o início. Nada de caixas metálicas, nada de sair do país. Em outros tempos, você não levaria um minuto para perceber que é uma boa ideia.

Yoruichi desviou o olhar, pensativa e, naquele instante, a alça de seu vestido escorregou por seu ombro livre.

Atento ao desalinho do traje, Byakuya deu um passo adiante e enfiou o dedo indicador por debaixo da alça fina e depois a endireitou no lugar. Um gesto cavalheiresco em essência, mas que também o permitiu tocá-la com certa intimidade, enquanto fitava-lhe o busto de muito perto, como um predador que encontrou uma presa onde não estivera procurando.

Bem mais ocupada em ponderar as possibilidades, Yoruichi não se apercebeu do olhar dele em si.

– O que acontece se eu recusar? - ela perguntou. – Você se junta ao Kyouraku na caça ao Kisuke?

– Pode apostar que sim - ele respondeu de imediato, bem pouco distraído, a despeito da crescente excitação que ela vinha despertando nele.

Yoruichi cerrou os punhos.

– Então eu entrei aqui em busca de um aliado e vou sair com um inimigo?

– Negativo. Entrou aqui muito iludida e encontrou alguém que realmente pode te ajudar.

– Sem essa, Byakuya. Kisuke está contando comigo. Você não vai me colocar contra ele!

Byakuya trincou os dentes, tomado por outro surto de ciúme, mas em questão de instantes camuflou isso sob uma máscara de serenidade e em um tom habilmente contido, ele rebateu:

– Não seja inconsequente. Não é assim que você costuma agir. Pense um pouco: Qual dos dois planos você acha que tem mais chance de dar resultado? O dele ou o meu?

– Isso não é uma competição. Vidas estão em jogo! - ela advertiu desesperadamente.

– Mais uma razão para você reavaliar suas alianças. Pelo menos pra mim fica difícil acreditar que você esteja pensando apenas no bem estar dos nossos colegas e não se aproveitando da situação para tentar salvar a reputação do seu querido Urahara.

Ela o encarou com raiva, indignada com a insinuação.

– Seu miserável! É claro que eu estou pensando neles!

– Então prove.

Yoruichi engoliu em seco, como quem estivesse acuada, mas logo questionou:

– E se Unohana não puder curá-los?

– Coisa pouco provável. Mas seja como for, você há de convir que recorrer a ajuda dela é algo bem mais simples de se colocar em prática.

Abatida, Yoruichi se afastou, fugindo do olhar incisivo dele para poder raciocinar melhor, então voltou para perto da janela e logo se autoabraçava em angústia.

– O que eu vou dizer pro Kisuke? Sem o material ele fica de mãos atadas...

Sorrateiro como um tigre, Byakuya se aproximou dela por trás, envolveu-lhe levemente a cintura com um dos braços e murmurou-lhe junto ao ouvido.

– Não precisa dizer nada a ele.

Yoruichi se arrepiou inteira, enfim percebendo o comportamento atípico do mais novo, mas não teve tempo de cobrar explicações, pois ele logo lhe dera mais no que pensar, ao dizer em um tom mais alto, porém com a boca ainda rente a sua orelha:

– Apenas deixe-o acreditar que está gastando nosso dinheiro enquanto investigamos porque Unohana não está no caso.

Yoruichi se manteve imóvel por alguns instantes, mas então deu dois passos adiante para escapar do enlace do braço dele. Depois girou o corpo e ergueu o rosto a ele. Seus olhares ficaram fixos um no outro por algum tempo até que ela anunciou:

– Só posso concordar com isso se você me garantir que me ajudará com o plano de Kisuke, no caso da Unohana não conseguir curá-los.

Byakuya refletiu um instante, seu instinto lhe dizia para não aceitar aquela condição, mas sentia-se tão confiante na capacidade de Unohana que julgou mais produtivo concordar.

– Tudo bem, concedido.

Ela suspirou forte e depois acrescentou:

– E se você der pra trás comigo de novo, Byakuya, eu não descansarei até difamar por completo sua honra de nobre.

– Se estou bem lembrado, eu me comprometi em te ajudar a salvar aquelas pessoas. E uma vez que é exatamente isso que estou fazendo, você não tem motivos para querer me difamar.

Afastando-se dela, Byakuya veio pegar as chaves de seu carro.

– Vamos jantar no Trattoria Zagara. Não tenho nada além de whisky pra te oferecer aqui e essa vai ser uma noite bem longa.

– Depois que essa crise passar, eu espero nunca mais ter que trabalhar com você!

Byakuya não deu resposta e simplesmente se dirigiu à porta. E quando escutou as passadas dela atrás de si, sorriu satisfeito. Vencera aquela batalha contra Kisuke Urahara e assim que Hirako e os outros estivessem curados também venceria a guerra. E ao pensar que quando as coisas estivessem assim sacramentadas poderia exigir de Yoruichi uma gratificação pouco ortodoxa seu sorriso satisfeito se transformou em um riso malicioso.

CONTINUA...


NOTAS TÉCNICAS:

Influências ficcionais: Livro "2001, uma odisseia no espaço" (1968). Filmes "Prometheus" (2012) e "Star Trek Into Darkness" (2013).

Para os fãs do anime que quiserem rever como foi a agonia dos nossos queridos Vaizards, são os episódios 210 a 212, da saga "Voltando o Pêndulo".

Capítulo mega técnico (e enorme) que exigiu demais dos meus pobres neurônios por isso, por favor, comentem. Ou, no mínimo, comentem o primeiro beijo IchiRuki. E, sim, tem mais de onde veio esse.

Trivia: A cena IchiRuki ficou pronta a dias e a cena final ByaYoru foi a razão da demora. Byakuya está na ofensiva pela Bakeneko, mas Kisuke nem imagina o que tem rolado entre ela e o Kuchiki. Eu duvido que Kisuke vai deixar isso quieto sem luta.

Agradeço muito todos que ainda estejam acompanhando! E deixo um agradecimento especial para minha amiga querida Ray Shimizu que me consolou e ouviu minha choradeira quando eu surtava por NENHUM comentário ter chegado no Nyah depois de DIAS da postagem anterior. E também expresso minha gratidão ao leitor 8579, que tem comentado no Fanfiction Net. Muito obrigada gente!

Grande abraço e até a próxima!

Amanda Catarina

21-04-2015.