Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 9

Sousuke Aizen encontrava-se no saguão de embarque do Aeroporto Internacional de Tóquio, aguardando pela decolagem de um voo que o levaria à Espanha. Sentado sozinho no assento do meio de uma fileira de cadeiras, ele tinha os olhos fixos na tela do celular e uma maleta sobre os joelhos.

Chegara cedo ali, mas não se importava de esperar. Sabia que estava sendo procurado pela polícia australiana, mas não temia. Sentia-se tranquilo ali onde era apenas mais uma pessoa em meio a tantas e tantas outras, e uma vez que estivesse na Espanha, se reuniria com seus mais mortíferos subordinados e então a ameaça de uma captura seria de todo afastada.

Mais ou menos perto de onde ele estava, cirandava uma mulher tentando fazer o filho pequeno parar de chorar. Quando ele levantou os olhos para acompanhar a cena, a mulher desceu o menino ao chão e, tão logo se viu livre, o pequeno saiu correndo. Atribulada, a mulher correu atrás do filho, mas não pôde impedir que a criança se chocasse com as pernas de alguém.

Perdendo o interesse, Sousuke fitou novamente o celular, mas um estalo em sua alma o fez olhar novamente para a pessoa que sugira no caminho da criança e então toda sua tranquilidade lhe foi arrancada.

Reconheceu a pessoa de imediato. Um homem alto e robusto, de barba bastante longa e branca e cabeça calva. Em seu país natal, aquele homem era considerado uma lenda viva, o líder do Departamento de Polícia do distrito de Seireitei, Genryuusai Yamamoto. Aquele veterano sozinho já era um perigo em potencial e ele ainda estava acompanhado de dois rapazes, um loiro e um oriental. Aizen os reconheceu também. O loiro era Izuru Kira, e o oriental, Shuuhei Hisagi, dois atiradores de considerável perícia.

Por um milésimo de segundo, ele se sentiu apreensivo, mas logo recobrou o autocontrole e obrigou-se a pensar em uma solução. Ele não chegava a estar disfarçado, mas estava bem diferente, levando em conta a aparência que exibia quando deixara a Austrália, até por seus aliados não seria facilmente reconhecido. O trio ainda estava a certa distância, ele tinha tempo de sobra de se camuflar na multidão e despistá-los.

Tratou então de se mover muito cautelosamente, sua intenção era chegar à área externa do aeroporto e se meter em um táxi. Buscando não chamar atenção, caminhava em um ritmo normal, mas não contava com uma adolescente desastrada que esbarrou com ele, derrubando sua maleta no chão.

– Foi mal, cara! - disse ela, ao passar por ele muito apressada.

Amaldiçoando a garota em pensamento, Sousuke se abaixou para pegar a maleta, conformado de que havia perdido a pouca vantagem que a criança fujona lhe dera.

Disfarçadamente, olhou ao redor. Não avistou mais Yamamoto, mas viu que Kira e Hisagi estavam abordando um homem. Da posição em que se achava o abordado estava de lado para ele, mas mesmo assim Aizen pôde perceber que o homem tinha cabelos castanhos e o mesmo porte físico que o seu. Sorriu de leve, apesar de tudo, estava com sorte. Ergueu-se e voltou a andar, agora um pouco mais rápido.

Gastou alguns minutos até chegar ao saguão principal e agora já podia avistar a linha de táxis estacionados. Estava a poucos metros de se livrar do perigo, mas então seu instinto disparou em alerta. Quase podia sentir a aura do perseguidor em seu encalço. Mesmo assim, forçou-se a não olhar para trás. Pensou então que se fosse visto entrando em um táxi, a placa do veículo poderia fazer com que fosse facilmente rastreado, portanto, antes de fugir, precisava criar alguma distração.

Olhou adiante, em busca de um alvo, e logo avistou um executivo caminhando na direção oposta. Fingindo ler qualquer coisa no celular, Sousuke trombou com o homem de propósito e com a destreza de um ladrão conseguiu espetá-lo na mão com um alfinete retrátil engenhosamente equipado em seu relógio de pulso.

– Me desculpe... - disse e saiu andando apressadamente.

O executivo praguejou, mas seguiu seu caminho tão apressado quanto, contudo, cerca de dez metros adiante, desabou inconsciente no chão.

Quando o alvoroço começou, Sousuke apertou o passo. Não sabia se aquilo iria deter seu perseguidor e apenas seguiu adiante. Foi então que olhou de lado e enxergou, pelo reflexo de uma imensa vidraça, um aglomerado de pessoas ao redor do executivo tombado, mas viu também alguém saindo do meio do alvoroço, alguém que se destacava pela altura e soube que era Genryuusai. Então fez a única coisa que julgou poderia livrá-lo: ele correu.


Ichigo tocou a campainha do apartamento de Rukia. Chegava ali todo contente e com um largo sorriso, imaginando que faria uma surpresa a ela, mas, quando a porta se abriu, foi ele quem teve uma surpresa, e das mais desagradáveis.

– Você?! - exclamou num brado incontido.

À frente dele estava o oficial Renji Abarai.

– O que você veio xeretar aqui, garoto?

Os dois se encaravam como jogadores de times adversários antes de um confronto quando Rukia apareceu ali, passando por baixo do braço estendido de Renji.

– É a pizza? - questionou ela e deu um pequeno sobressalto, quando notou a presença do estudante. – Ichigo? Você por aqui? Por que não avisou que vinha?

Ichigo não conseguiu responder de imediato. Ele acabara de pegar a pequena em fragrante com outro homem e ela sequer ficava vermelha. Fechou a cara e ficou possesso.

Com um ar indiferente, Renji saiu de lado.

– O que está acontecendo aqui, Rukia? Por que esse cara- dizia ele, mas foi cortado por uma voz trovejante vinda de dentro do apartamento.

– Kuchiki! Não temos a noite toda!

– Ainda não é a pizza, capitã Soifon - disse a pequena e encostou a porta atrás de si.

Percebendo o olhar zangado dele, Rukia se explicou:

– A capitã Soifon e o Renji estão aqui. Estamos trabalhando em um caso bem complicado de um assassinato. Eu acabei nem te ligando. Foi mal...

– Um caso? - ele repetiu, suavizando a carranca. – Então é por isso que ele tá aí?

– Quem? O Renji? - depois que ele assentiu, Rukia ajuntou: – Nós estamos trabalhando! O que você pensou?

– Não pensei nada!

– Sei... Como você faz um mau juízo de mim, Moranguinho... - reclamou ela em um tom manhoso e depois o puxou pela camisa e deu um beijo na boca dele.

Ichigo sorriu dentro do beijo. Adorava aqueles rompantes pervertidos dela. Depois que se separaram, ele falou baixinho:

– Ah, não briga comigo. Eu venho te ver e um tatuado cabeludo abre a porta! O que você queria que eu pensasse?

– Seu bobinho... Você não confia em mim?

Rukia ainda estava agarrada ao rapaz quando o entregador de pizza chegou e pigarreou para que o notassem.

– Ah, olha aí a pizza... - comentou Ichigo.

Rukia se dirigiu ao entregador.

– Você pode esperar um minutinho? - pediu ela, depois abriu a porta e exclamou alto: – Renji, me ajuda aqui! A pizza chegou.

Assim que ela se endireitou, Ichigo disse:

– Beleza, Rukia... Não quero te atrapalhar, vou nessa. Me liga depois. Não esquece.

– Ichigo, não vai ainda. Entra e come pizza com a gente.

Ele a encarou com surpresa e antes que respondesse, o tatuado voltou a aparecer e se dirigiu ao entregador.

– Renji, o Ichigo vai comer com a gente... - Rukia anunciou.

– E eu com isso? A casa é sua - o oficial retrucou seco.

Assim que Renji terminou de pagar pela comida, os três entraram no apartamento. Chegando à sala de estar, Ichigo saudou a capitã Soifon, que estava sentada no sofá de três lugares com um laptop sobre os joelhos.

– Ah, eu conheço você! É o garoto hacker que nos ajudou quando você deixou a gente na mão, Abarai - comentou a capitã.

Coçando a parte de trás da cabeça, Ichigo se defendeu:

– Eu já disse que não sou hacker, capitã.

– Tanto faz...

– Que papo é esse que eu deixei vocês na mão, capitã? - perguntou Renji, que trazia a pizza consigo.

– Daquela vez do caso do arquivo criptografado - adiantou-se Rukia. – Deixa ali na mesa, Renji. Eu vou pegar os pratos.

– Eu te ajudo com isso! - prontificou-se Ichigo.

A baixinha e o estudante seguiram à cozinha, deixando Renji e Soifon sozinhos na sala.

Depois de deixar a pizza na mesa, Renji sentou-se no sofá de dois lugares, olhou na direção de Soifon e se justificou, dizendo:

– Foi o próprio capitão-comandante quem me chamou naquele dia. Não pude não atender.

– Então foi isso? - rebateu a capitã.

Renji balançou a cabeça em concordância.

Ao mesmo tempo, na cozinha Ichigo agarrou Rukia e a encurralou contra a pia, para tomar-lhe a boca num beijo voraz, era seu contra-ataque pelo beijo roubado no hall.

– Para com isso! Eles vão acabar vendo a gente... - advertiu ela e deu um tapinha no braço dele.

– E daí? Vai dizer que eles ainda não se ligaram?

Encararam-se por alguns instantes e logo se agarraram e se beijaram de novo. Ao término do beijo, eles sorriram um ao outro e só então cuidaram de reunir os utensílios.

Ao mesmo tempo na sala, Soifon acabara de perguntar a Renji onde era o banheiro. Depois que ele apontou uma direção, ela deixou seu notebook sobre a mesinha de centro e se levantou, porém, antes que desse um único passo, acabou tropeçando no fio estendido. E ela teria caído desastrosamente, se Renji não tivesse lhe segurado. Seu corpo pequeno e esguio ficou tombado no braço musculoso dele e os olhos escuros dele se prenderam aos dela.

– Tudo bem? - ele perguntou com um olhar preocupado.

Soifon não saberia dizer o que exatamente na situação a estava deixando tão sem jeito. Se a própria estupidez por ter tropeçado, ou o modo gentil com que ele a olhava, ou aquele braço forte e tatuado que a envolvia.

Como ela nada dissesse, Renji lhe ajudou a firmar os pés no chão e se erguer. Assim, eles estavam devidamente distanciados quando Rukia e Ichigo voltaram à sala, trazendo pratos, copos e talheres.

– Ah, finalmente vou comer alguma coisa nessa casa! - implicou Renji.

Soifon pediu licença para usar o banheiro e logo deixou a sala sem olhar na direção dos mais novos. No entanto, Rukia percebeu o rubor no rosto dela e ficou intrigada com aquilo. Ela lançou então um olhar interrogativo a Renji, mas ele fez que não era com ele e seguiu à mesa.

Diante daquilo, Rukia franziu o cenho e pensou consigo: "Parece que está rolando alguma coisa entre esses dois. E eu achando que a Soifon estava gostando do meu irmão.".


Yoruichi abriu os olhos e logo se sentiu desorientada, momentaneamente esquecida de onde se encontrava. Certa escuridão a envolvia, mas seus instintos tão treinados captaram de imediato um vulto perto de si e antes que ela alcançasse o entendimento do que se passava, escutou a voz grave de Byakuya.

– Enfim você acordou, eu já estava ficando preocupado.

Ainda mais desorientada, ela piscou algumas vezes, tentando realinhar as ideias.

– Eu vim me desculpar - disse ele.

A declaração fez a memória dela se reativar e ela reviveu em sua mente o inusitado assédio que sofrera mais cedo. Apertou a têmpora, sentindo-se fatigada.

– Tudo bem, está desculpado. Agora dá o fora daqui... - antes que Byakuya retrucasse, ela emendou: – Espera... Mas como você entrou aqui?

– Pela porta.

– Que por acaso eu tranquei?

– Tenho cópias das chaves de todas as portas desse barco.

– Claro que tem... - ela rebateu mal humorada. – Anda, dá o fora!

Por alguns instantes, Byakuya permaneceu onde estava e quieto como uma estátua, mas então se encaminhou à porta.

Aliviada, Yoruichi se apoiou nos cotovelos para se levantar, pensando que um bom banho a faria despertar por completo.

Apesar de já estar com a mão sobre a maçaneta da porta, Byakuya ignorou o pedido e voltou-se a ela.

– Você já está trancada aqui há horas. Se ficar tanto tempo assim sem se alimentar, vai se sentir ainda pior.

– Ainda está aí? - ralhou ela.

Fitando-a nos olhos, ele comentou:

– Você me desculpou, mas ainda está brava.

– Não é sem motivo, certo?

Ele se aproximou em um caminhar lento e, sem pedir licença, sentou-se na cama, que era apenas um pouco mais larga que uma cama de solteiro. Yoruichi o encarou sem esconder seu descontentamento.

– O que foi? - ela indagou.

– Poderia me perdoar por ter perdido o controle e me deixado levar por seus dotes num momento tão... Inoportuno? - pediu ele em sua extrema calma.

– Você não existe... Não me diga que esse é o efeito colateral que o mar causa em você?

Byakuya pestanejou, aparentemente surpreendido com a indagação, mas logo sorriu de leve e foi um sorriso tão bonito que fez Yoruichi enrubescer. Como ele permanecesse calado ela continuou a reclamar, para disfarçar seu acanhamento:

– Justo você que fugia das minhas provocações que nem diabo foge da cruz.

Encarando-a com uma expressão irritantemente serena, ele disse:

– As coisas mudam...

– Ah, então essa é a sua explicação? - retrucou exaltada.

A despeito de sua exaltação, ele mudou o rumo da conversa.

– Uns dias atrás meu avô me contou que você abandonou o convívio do nosso círculo de nobres porque sua tia-avó queria te forçar a um casamento arranjado.

Yoruichi franziu o cenho, mas acabou assentindo.

– E um dos homens para quem ela encaminhou a proposta foi um Kuchiki. Um viúvo chamado Hideki. Certo?

Ela assentiu outra vez.

– Casar-se tão cedo e com alguém como Hideki Kuchiki, não é a toa que você preferiu fugir. Até hoje, ele é uma maçã podre no cesto da minha família. Libertino, displicente, arrogante... Sem falar que ele é bem mais velho que você, não é?

– Míseros vinte anos.

– Que desalmada aquela sua tia... Você, que ao atingir a maioridade seria a líder do clã Shihouin, forçada a se casar com aquele projeto malfadado de ser humano.

– Qual é o ponto, Byakuya?

– Você já vai entender... Meu avô também comentou que se eu tivesse pelo menos quinze anos naquela época, muito provavelmente eu que teria sido o alvo da proposta da sua tia.

– Che! Que sorte a sua, hein? Escapou por pouco de ter que se casar comigo.

– Pois eu estava agora mesmo me perguntando se foi sorte ou azar.

Yoruichi bufou.

– Fala sério...

– Eu estou falando sério. Estive pensando... Se você não tivesse sido forçada a partir naquela época, se tivesse continuado na minha vida e eu na sua, será que nós teríamos nos apaixonado por outras pessoas?

Ela o encarou com espanto, mas logo suspirou e retrucou:

– Como eu vou saber? O que poderia ter sido não importa.

– Tem razão. O que importa é o que está acontecendo hoje, agora.

Ela o encarou com um olhar interrogativo, mas não disse nada.

Passados alguns instantes, Byakuya se virou na cama, de modo que pudesse olhá-la de frente, e então continuou:

– Só hoje eu percebi que estamos na mesma situação, Yoruichi. O homem que você ama não te corresponde e a mulher que eu amei se foi. Nossos corações estão quebrados e o trauma que essas desilusões nos causaram foi tão grande que por mais de dez anos temos estado sozinhos.

Yoruichi ficou completamente desconcertada com o discurso, seu batimento cardíaco acelerou, uma tremedeira lhe tomou o corpo. A simplicidade com que ele falava de coisas tão íntimas e tão difíceis de ouvir era simplesmente espantosa. Percebendo o olhar dele pousado em si, sentiu-se pressionada, então achou melhor dizer qualquer coisa.

– Nem todos têm sorte no amor...

– Pra mim você vem dizer isso? - rebateu ele.

Ela teve vontade de bater na própria testa.

– Eu fico tentando imaginar como teria sido se você não tivesse partido naquela época. Se as coisas tivessem continuado como eram. Com você fugindo pra minha casa pra me azucrinar e me tirar do sério, para roubar meus doces e quebrar meus brinquedos...

Ela acabou sorrindo e retrucou:

– Eu não quebrava seus brinquedos! Só os escondia.

Sorriram ambos, nostálgicos, mas logo a expressão de Yoruichi voltou a endurecer.

– Não vale a pena ficar pensando no que passou - disse ela com frieza.

– Diante do que acabou de se abrir para nós, não mesmo. Nossos caminhos se separaram anos atrás, mas podem voltar a se unir agora - ele se aproximou um pouco mais. – Se você deixar, eu posso tentar colar os cacos do seu coração. O que com certeza irá regenerar o meu também.

Yoruichi enrubesceu e arregalou os olhos.

– Que loucura, Byakuya. Para com isso! Eu não gosto de você. Quer dizer, não gosto de você desse jeito. Você é como um irmão pra mim.

– É fato que crescemos como irmãos, mas não precisa continuar sendo assim.

Abalada, ela afastou o cobertor do corpo e escapou pela parte inferior da cama. Já estava a um passo de deixar o quarto, mas se deteve e olhou para ele, que logo se levantou da cama e ficou olhando em sua direção.

– Pode parar com isso! Nossa relação é ótima como é. Prefiro mil vezes você como meu arquirrival do que... - ela não conseguiu concluir a frase. – E se depois de tantos anos você resolveu lembrar que tem necessidades físicas, eu já disse a Soifon é a mulher certa pra você.

Ele a fitou por alguns instantes e então disse:

– Já que voltou a esse assunto... Me diz uma coisa: É você que tem incentivado ela a flertar comigo?

– Claro que não! Quer dizer, pode ser que sim... Na verdade, tudo que eu fiz foi dar a ideia pra ela, mas só porque acho que vocês dois combinam muito.

– Acontece que nem ela e nem eu somos marionetes que você pode juntar ou separar conforme sua vontade. E agora que você me confirmou que tem parte na coisa, começo a duvidar que ela esteja realmente interessada em mim.

– E por que não estaria?

– Porque se tem uma pessoa para quem Soifon não sabe dizer não, essa pessoa é você, Yoruichi. Mesmo em uma situação como essa.

– Nada a ver... Claro que ela teria me dito se não estivesse gostando de você.

– Teria?

Ele conseguiu deixá-la em dúvida.

– Seja como for, eu admiro muito Soifon pela policial exemplar que ela é, mas, como mulher, não estou interessado. Mesmo porque antes de tudo isso começar, antes desse caso bizarro, eu estava mais inclinado a ficar sozinho pelo resto dos meus dias, só que agora não mais.

– Por que não?

– Porque voltar a estar tão próximo de você me fez ver que ainda podemos ter um futuro juntos, que não é tarde demais para nós dois.

– Não pode estar falando sério... Eu e você, Byakuya? Não faz o menor sentido!

– Pelo contrário, faz todo sentido. Até me atrevo a dizer que esse sempre foi o nosso destino.

Ele se aproximou até ficar a um passo de distância.

– Negativo - insistiu ela. – E nós não estamos na mesma situação. A pessoa de quem eu gosto ainda está-

Ele a silenciou, pousando um dedo sobre seus lábios.

– Aquele sujeito não te merece. Se até hoje ele não percebeu o quanto você é especial, então ele não pode ser digno de você.

Ela sentiu os olhos inundando de lágrimas e só conseguiu se conter com muito esforço.

– Mas mesmo assim é dele que eu gosto!

Byakuya a fitou intensamente antes de retrucar.

– Isso passa... Entendo que esteja confusa agora. Tudo aconteceu tão de repente, mas se refletir com calma, verá que tenho razão... E não esqueça que meu avô e Rukia adoram você e você a eles. E que uma união entre nós seria mais que aprovada pelos nossos clãs. Não percebe? É tão lógico.

– Não é lógico. É insano!

Ele lhe sorriu e depois passou por ela.

– Já é tarde e você está todo esse tempo sem comer nada. Vou te trazer qualquer coisa, enquanto isso pense a respeito.

Depois de dizer isso, ele deu um beijo na testa dela e logo seguiu para a porta.

– Byakuya?

– Sim?

– O que exatamente você está esperando de mim?

– Que se case comigo, é claro.

Ao ouvir aquilo, Yoruichi ficou petrificada enquanto ele simplesmente deixava o quarto.


Tessai acabava de chegar ao casarão, carregando nas mãos duas sacolas cheias de suprimentos. Ao passar pelo salão principal, percebeu Kisuke sentado à mesa baixa, com um olhar vazio.

Depois de ter guardado as compras, Tessai preparou chá, ajeitou sobre uma bandeja um bule e dois copos de cerâmica e foi até onde o amigo estava. Adentrou o recinto, depositou a bandeja sobre a mesa, sentou-se à frente de Kisuke, serviu o chá e apontou para um dos copos.

– Ah, muito obrigado, Tessai.

O grandalhão assentiu e tomou o outro copo para si. Bebeu um gole do líquido fumegante e perguntou:

– Qual o problema?

– Problema? Por que você acha que existe um problema? - retrucou e bebeu um gole do chá. – Ainda não sei se é realmente um problema, mas já faz sete horas que Yoruichi-san não manda nenhum relatório.

– Talvez ela tenha esquecido. Seja como for, num espaço de tempo tão curto, não haverá grandes mudanças nas leituras das câmaras.

– Ah, sim... Não é isso que está me preocupando. Yoruichi-san é uma pessoa muito metódica, do tipo que não esquece as coisas. Até então ela estava me mandando relatórios de quatro em quatro horas, mas agora já se passaram sete e ela não envia nada.

– Então é com ela que está preocupado.

– Sempre... Imagino que essa não deve estar sendo uma viagem fácil para ela, já que várias vezes ela me disse que não gosta do mar.

Tessai tomou mais um gole de chá.

– Mas você sabe que ela gosta de superar os próprios limites.

– É verdade... E também não conheço ninguém mais altruísta.

– Nem eu...

Silenciaram um tempo.

– Na noite passada, sonhei com ela - comentou Kisuke. – Eu estava andando no meio de um nevoeiro e ouvia ela chamando meu nome, mas não conseguia encontrá-la. Andava por aquela névoa fria, procurando, procurando, e nunca a encontrava, até que não ouvi mais sua voz.

O grandão não disse nada.

– Como você interpretaria esse sonho, Tessai?

– Às vezes, os sonhos têm significado, às vezes, não. É difícil saber quando é um caso ou o outro.

– Que bela resposta evasiva... - rebateu Kisuke desanimado.

– Sonhos não são minha especialidade, mas posso falar do que tenho observado na vida real.

– E o que você tem observado?

– Que você e Yoruichi-san são duas pessoas bem complicadas. Tudo leva a crer que vocês se amam, mas o amor de vocês é tão frágil que o menor obstáculo é suficiente para que se mantenham separados.

– Pra que fui perguntar? - angustiou-se o cientista.

– Sinceramente, eu acho que o melhor que você tem a fazer, Kisuke, tanto a si mesmo quanto para ela, é se conformar que suas vidas vêm fluindo por estradas paralelas. Vocês andam bastante próximos, mas estão fadados a nunca se cruzar.

– Estamos fadados? Parece que sim...

– Se quiser um conselho... Acho que você deveria deixar de sonhar com o inalcançável e abraçar o que tem bem diante de si.

– Mas como? Enquanto Yoruichi estiver com a chave do meu coração, Kukkako não tem como abri-lo.

– Ela teria, se você trocasse a fechadura. Então, ao invés de três desiludidos seriam apenas dois.

Com mais um gole, Tessai terminou seu copo de chá e deixou Kisuke sozinho.


O anoitecer no Sakura Hime foi terrivelmente silencioso. Byakuya observava Yoruichi andando pelo barco, calada, introspectiva e visivelmente inquieta. Ela não lhe dirigia a palavra e saía de todo ambiente que ele entrava. Mas ele não se incomodava, tinha uma convicção inabalável que aquela desavença não se prolongaria por muito tempo.

Ele estava jantando, quando a avistou saindo ao convés. Ficou intrigado. Ela não costumava ficar do lado de fora quando a noite caía. Pouco depois, ele envolveu o muito que sobrara da comida em plástico filme, guardou tudo na geladeira e seguiu atrás dela.

Encontrou-a com as mãos apoiadas na grade de segurança, com o corpo levemente curvado e com a cabeça baixa. Para além das luzes do iate não se via nada além do manto negro e ondulante, salpicado de pontinhos brancos refletidos.

Caminhou até ela e conforme se aproximava, ela o encarou por sobre o ombro, mas logo voltou a fitar as águas escuras. Ele chegava ali pensando em sugerir que ela entrasse, que fosse vestir algo que lhe resguardasse melhor o corpo, que tentasse comer, mas o silêncio solene era tão inebriante que ele apenas se postou ao lado dela e ali ficou, contemplando a noite escura também.

Depois de um bom tempo, Yoruichi retesou a postura e se virou a ele. Byakuya não reagiu de imediato e permaneceu do mesmo jeito alguns instantes, até que se endireitou também e ficou de frente para ela.

Por mais que ele tentasse não conseguia decifrar a expressão dela, então desistiu de tentar e apenas a encarou. Ele não saberia dizer por quanto tempo ficaram se encarando, mas quando deu por si, estava andando na direção dela, como um marujo atraído pelo feitiço de uma sereia.

Para sua satisfação, ela não recuou, nem mesmo quando ele pousou as mãos em sua cintura e inclinou o rosto em busca de seus lábios. Em resposta, ela aceitou seu avanço e veio de encontro aos lábios dele. As bocas se uniram em um beijo intenso. Ela se abraçou a ele e ele a apertou mais forte contra si.

Quando os lábios se separaram, Yoruichi estava com os braços ao redor do pescoço de Byakuya e ele lhe enlaçava o corpo. Ele já estava acreditando que a crise havia passado, mas então ela começou a balançar a cabeça em negativa.

– Não, isso não está certo. Não está... - murmurou ela.

– Está sim... - ele sussurrou de volta. – Não tem nada de errado, nada nos impedindo. Nada...

Com um semblante atribulado, Yoruichi se desvencilhou dele e escapou para o interior do iate.

Byakuya esperou um pouco para só então segui-la. Lá dentro, procurou por todos os cômodos até que só restassem os quartos. Ele se inquietou ao pensar que ela podia ter se trancado de novo, mas, assim que chegou ao corredor, percebeu a porta do quarto dela entreaberta.

Ao adentrar, encontrou-a estirada de lado na cama, com os olhos abertos, uma das mãos próxima ao rosto e a respiração agitada.

Por um instante, seu sangue ferveu com a visão, mas isso logo passou quando a imagem diante de si se mesclou a uma do passado. Rememorou então uma noite em que ela fora agredida pela tia e se refugiara em sua casa, no seu quarto, na sua cama. Ele não tinha mais que onze anos, mas ela já era uma moça de dezesseis, com o corpo plenamente florescido, mas, naquela noite, era como se tivesse voltado a ser uma menininha que precisava do consolo dele.

Evidentemente, a situação não era a mesma, mas o estado vulnerável dela sem dúvida o era. Então ele se deitou na cama, encaixando o corpo atrás do dela e a abraçou da mesma forma que fizera naquela noite.

Por algum tempo, ela permaneceu inerte, mas por fim escorou a cabeça em seu peito, aconchegando-se mais contra ele. Percebeu a respiração dela se acalmar gradativamente e se sentiu mais calmo também. Quando ele percebeu que ela tinha caído no sono, fechou os olhos e em pouco tempo adormeceu.

CONTINUA...


Olha só, consegui postar um capítulo menorzinho! Demorei, né? Mas como sempre vontade de escrever não me faltou, mas, enfim, temos todos nossas obrigações e prioridades.

Esse foi um capítulo mais sentimental, mas no próximo, a aventura volta com tudo com nossos policiais na caça aos bandidos e quem sabe Ichigo não vai ter uma participação na investigação de Rukia, Soifon e Renji.

Ah, falando em Soifon e Renji... Depois de ler a fanfic "Jogo Perigoso" da minha amiga querida Velvetsins, eu passei a shippar muito esses dois, porque achei a combinação simplesmente fantástica!

Bom, então é isso... Agradeço a todos que estão acompanhando e de modo especial àqueles que têm comentado: "8579" e Hinalle. Muito obrigada, gente!

Grande abraço!

Amanda Catarina

11-07-2015.