Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 10

Contemplando a exuberante vista da cidade de Tóquio do alto da janela de um hotel, Genryuusai apenas escutava a discussão de seus dois subordinados acerca da fuga daquele a quem vinham perseguindo há vários dias. Foi então que ele sentiu o celular vibrar no bolso de seu casaco. Buscou o dispositivo, examinou a mensagem que acabara de chegar e após alguns instantes de reflexão, ele se pronunciou:

– Tenente Kira?

– Sim, capitão-comandante? - retrucou o rapaz loiro.

– Leia novamente os destinos dos voos daquele horário.

– Sim senhor. Londres, Dubai, Mônaco, Madrid...

– Madrid! - interrompeu o veterano e, depois de se virar na direção dos subordinados, disse: – É pra lá que o miserável foi.

– Por que diz isso, capitão-comandante? - questionou o rapaz de traços orientais.

– Porque Aizen é um declarado apreciador da cultura espanhola. Tenente Kira, providencie nossas passagens para Madrid.

– Agora mesmo, capitão-comandante!

– Hã? - abismou-se o outro subordinado. – Mas nós vamos para a Espanha só por causa disso?

O veterano franziu o cenho e o policial loiro arregalou os olhos em assombro e logo exclamou:

– Hisagi-san! Mais respeito! Onde já se viu questionar uma ordem de um oficial superior desse jeito?

O advertido encarou seu colega com um olhar ressentido, porém não quis abandonar seu ponto de vista, então dirigiu o olhar ao veterano e disse:

– Me desculpe se for impertinência minha, capitão-comandante, mas eu acho que nós irmos até a Espanha com base apenas nisso que o senhor comentou sobre o Aizen me parece um pouco insensato.

Genryuusai fitou o policial de cabelos escuros com uma expressão séria por alguns instantes antes de retrucar:

– Se minha resolução estivesse fundamentada apenas no gosto dele pela Espanha eu teria que lhe dar razão, tenente Hisagi. Acontece que agora mesmo recebi a informação de que a quadrilha dos Arrankar está refugiada em uma cidadezinha espanhola chamada Las Noches, a menos de cem quilômetros de Madrid.

– Os Arrankar? - repetiu o rapaz.

Antes que o veterano dissesse qualquer coisa em resposta, o subordinado loiro se adiantou:

– Hisagi-san, já é praticamente certo que Aizen e o líder dessa quadrilha estão trabalhando juntos.

– Disso eu sei, Kira! - o outro revidou mal humorado.

O loiro rolou os olhos.

– Mais alguma objeção, tenente Hisagi? - questionou o veterano.

– Não senhor... - retrucou abatido e em seguida abaixou a cabeça.

– Então eu estou indo comprar nossas passagens! - anunciou o loiro e se encaminhou à porta do quarto.

Genryuusai olhou na direção do oficial cabisbaixo.

– Gostei do seu jeito franco, rapaz. Continue assim.

Bastante sem jeito, Hisagi assentiu.

– Vá, ajude o tenente Kira com as passagens.

– Sim senhor!

Assim que ficou sozinho, Genryuusai voltou a contemplar a vista. Sousuke Aizen lhe escapara por muito pouco, despachando um táxi sem passageiro do aeroporto. O tempo que ele gastou para interceptar o veículo foi mais do que suficiente para que o fugitivo desaparecesse e evidentemente usando o mesmo voo que reservara.

Mas apesar da frustração, o que mais perturbava Genryuusai naquele momento era o remorso de não ter acreditado no próprio filho. Tão logo sua caçada teve início, ele encontrou fortes evidências que incriminavam Aizen, mas não teve tempo de compartilhar isso com Kisuke. Se tivesse feito, talvez agora Kisuke não estivesse foragido também. Suspirou fundo e decidiu que não iria pensar no que o filho estaria fazendo, sua prioridade era prender Aizen e era isso que ele iria fazer.


Sentado do lado do carona de um sedan conduzido pela capitã Soifon e com Rukia no banco de trás, Renji contemplava a paisagem ao seu redor com surpresa: vários quilômetros de pistas de pouso clandestinas.

– Lá está o hangar! E também o SUV que rastreamos - disse Soifon.

– Faz sentido... - comentou Rukia. – Se o suposto chefão se mandou do país, claro que os lacaios dele devem estar querendo fazer o mesmo.

– O que me preocupa é que não sabemos quantos são esses lacaios - ajuntou Renji. – Vocês não acham melhor chamarmos reforços?

– Não! - as duas exclamaram juntas.

Renji rolou os olhos diante da teimosia de suas parceiras. Ele estava com um mau pressentimento com aquela operação. Cruzando diversos dados, ele conseguira rastrear atividades suspeitas ligadas a um centro de pesquisas genéticas, mantido e administrado por Sousuke Aizen, o homem que Kisuke Urahara afirmava ser o responsável pelo experimento que usou a equipe de narcóticos como cobaias humanas. Estavam em um bom rastro, ele sentia, mas pouco havia sido descoberto sobre a pessoa que estava liderando o centro na ausência de Aizen, por isso Renji aconselhava que agissem com cautela.

– Daqui vamos a pé - anunciou a capitã.

Os três seguiram então rumo ao hangar. Buscaram os fundos da construção e logo podiam escutar vozes. Buracos na estrutura lhes deram uma visão do interior. Havia um jatinho no centro do espaço e dois homens conversavam próximos dessa aeronave. Um deles era enorme e corpulento e o outro tinha um porte esguio, mas era impossível ver sua fisionomia porque, a despeito do calor de quase trinta graus, ele estava usando um blusão de capuz.

Rukia e Renji olharam para a capitã, aguardando por ordens, e ela não titubeou: gesticulou para que invadissem.

Há poucos metros de distância, um abismado Ichigo observava Rukia, a capitã baixinha e o cabeludo tatuado adentrando o hangar.

Ichigo então saltou da motocicleta que tomara emprestada de seu amigo Sado, largou-a próxima ao sedan usado pelos policiais e correu até o galpão logo à frente. Quando Rukia lhe contara que estava no encalço de um assassino ele ficou muito preocupado. Não descansou enquanto não arrancou dela os detalhes do crime e quando viu as fotos do inquérito, sobretudo, do estado que a vítima foi encontrada, ele temeu pela segurança de sua impulsiva namorada.

Ele estava na universidade, conversando com Rukia via webcam, quando ela interrompeu bruscamente a ligação dizendo que precisava sair e de imediato ele intuiu que tinha a ver com o assassino. Largou então o que estava fazendo e foi atrás dela, rastreando-a pelo celular. Não pensou que ela era uma policial experiente e que ele não tinha sequer uma arma. Só pensou que precisava estar com ela, ainda que não pudesse fazer nada para ajudar.

Dentro do galpão, o trio de policiais abordava os suspeitos.

– Parados! Polícia! - gritou Soifon.

Ela, Rukia e Renji tinham suas armas apontadas, mas agora só quem estava perto do jato era o homem grandalhão. Ele tinha a pele parda e o entorno da cabeça raspada, porém seu cabelo era longo, preto e estava amarrado em um rabo-de-cavalo que ia até o meio das costas e também usava costeletas. Suas roupas eram brancas e ele exibia um grande revólver preso no cinto do traje.

– Mãos ao alto! - intimou a capitã.

Com um ar debochado o grandão seguiu a ordem.

– Mas pra onde foi o outro? - questionou o Renji.

Rukia olhava ao redor e, ao ouvir um barulho, ela simplesmente saiu correndo em uma direção qualquer.

– Rukia! - alarmou-se Renji.

– Vá atrás dela! - mandou Soifon. – Eu cuido do gigantão aqui.

Renji ficou indeciso, olhou para a capitã e depois na direção em que Rukia tinha seguido, mas não se moveu.

O grandão soltou um riso de escárnio e, veloz como um pugilista, avançou e desarmou a capitã com uma manobra precisa. E ele ainda teria baleado Renji com a arma de Soifon se Renji não tivesse conseguido se esquivar no último instante - apesar de ultimamente só estar lidando com computadores, o tatuado mantinha os bons reflexos.

– Me devolve minha arma seu miserável! - berrou Soifon e avançou contra o gigante, aplicando socos e pontapés, mas era tão inútil quanto golpear uma muralha.

– Afaste-se, capitã! Assim eu não consigo mirar!

Derrubando Soifon no chão com um tapa, o grandão partiu para cima de Renji, que não teve tempo de atirar e levou um violentíssimo soco no estômago. Curvado no chão e sem fôlego, Renji teria o pescoço quebrado por um chute se Soifon, alucinada de ódio, não tivesse pulado nas costas do gigante e arrancado tufos dos cabelos dele.

Como quem fosse inume a dor, o grandão deu risada do ato dela e agarrando-a pela nuca, jogou-a com tudo no chão.

– Vocês não passam de dois ratinhos - zombou o homem. – E o Yammy aqui - disse batendo os punhos cerrados - vai trucidar vocês!

Mesmo tendo escutado os tiros, Rukia não voltou para junto de seus colegas. Ela avistara o encapuzado e seus instintos lhe diziam que ele só podia ser o líder e possivelmente o assassino que procuravam. Escutando um som de passos vindos do alto, ela ergueu o rosto e avistou um mezanino. Procurou ao redor por alguma escada e encontrou uma mais adiante. Corria para lá, mas de repente sentiu uma dor escruciante e gritou a plenos pulmões. Alguém lhe agarrara os cabelos e logo lhe puxava para trás.

Rukia foi derrubada no chão, seus olhos lacrimejavam com a violência da agressão e ela deu de cara com um homem que tinha os cabelos curtos pintados de azul cyan e também usava vestes brancas.

– Aonde a garotinha pensa que vai? - indagou o sujeito e depois chutou a arma dela para longe.

Rukia mal conseguia encarar o agressor de tão intensa que era a ardência em seu couro cabeludo, mas logo percebeu que ele tinha uma expressão lunática, os olhos de um azul celeste e sorria para ela como quem tinha os intentos mais vis em mente. Ele sacou um revólver de coronha em marfim branco e numa movimentação quase sobrenatural de tão rápida veio para cima dela e encostou o cano da arma em sua cabeça, logo acima da sobrancelha esquerda.

Ela paralisou em face à morte eminente, sem conseguir pensar em nada a não ser na própria estupidez e incompetência. Sentiu a pressão contra seu supercílio aumentar no que o dedo do lunático rumava para o gatilho. Ciente de que aqueles eram seus últimos instantes de vida, seus olhos ficaram vidrificados e a respiração em suspenso.

Mas, um instante antes do disparo fatal, alguém gritou:

– Sai de perto dela!

Violentamente, o lunático foi empurrado de lado e acabou derrubado ao chão alguns metros adiante.

Rukia reconhecera a voz de Ichigo de imediato, mas não conseguia acreditar na presença dele ali.

– Quem diabos é você? - falou o dos cabelos azuis, ainda caído.

Ichigo se posicionou protetoramente à frente de Rukia e ficou encarando o sujeito, mas, em questão de instantes, o derrubado se colocou de pé, recolheu o revólver em um coldre axilar camuflado sob a camisa, e veio para cima de Ichigo, que precisou se defender de uma impressionante sequência de socos.

– Olha só... Até que o fedelho sabe se defender! Mas por quanto tempo pode aguentar, hein? - provocou e em seguida desferiu mais socos.

Saindo de seu estado de assombro, Rukia berrou:

– O que diabos cê tá fazendo aqui, Ichigo?

O universitário não deu resposta. Manteve os olhos fixos no oponente e depois de se esquivar de um cruzado, conseguiu uma brecha para encaixar um soco no externo do sujeito.

– Ho! Nada mal para um verme... - zombou o de cabelos pintados, com a mão do lado do corpo.

Concentrado, Ichigo não se deixou levar pela provocação.

– O que temos aqui? A anãzinha aí deve ser sua mulher e você está bancando o herói.

Ichigo mantinha os punhos erguidos em postura defensiva.

– Uma pena eu não ter tempo de continuar surrando você... - disse o lunático e abaixou a guarda para sacar novamente seu revólver.

– Cuidado! Ele vai atirar! - advertiu Rukia.

Mas antes que o criminoso tivesse tempo de um disparo, foi a vez de Ichigo avançar e atacá-lo com socos e com isso o revólver de coronha branca caiu no chão.

O lunático ficou possesso e bradou ensandecido:

– Eu vou acabar com sua raça! - e começou a socar também.

Ichigo foi empurrado contra uma parede e recebeu golpes terríveis. Desesperada para ajudá-lo, Rukia procurou por sua arma. No entanto, o lunático estava para acertar um violento soco no meio do crânio de Ichigo, quando alguém em um plano mais alto exclamou:

– Já chega de brincadeiras, Grimmjow! Não temos tempo!

Rukia ergueu a cabeça e avistou alguém que ela tomou por um adolescente. Magro, de pele muito clara, olhos verdes e que também estava vestido todo de branco.

– Só me deixa acabar com esse marmanjo, Ulquiorra... - disse o de cabelos azuis e buscou o revólver caído.

No entanto, Rukia encontrou sua arma primeiro que o sujeito e engatando-a, exclamou:

– Fica longe dele ou eu estouro seus miolos!

O lunático lançou um olhar pouco intimidado a ela, porém antes que ele reagisse, o suposto adolescente saltou de onde estava e com isso ficou tão próximo de seu aliado que pôde dar fim à briga dele.

– Eu já disse: não temos tempo! - e, sacando um revólver semelhante ao de seu comparsa, ele atirou na coxa de Ichigo.

O universitário berrou em agonia e tombou sentado no chão.

– Ichigo! - desesperou-se Rukia.

Aproveitando-se da distração da policial, o dos cabelos azuis alcançou seu revolver caído e apontou para ela, mas antes que ele atirasse, o dos olhos verdes apertou-lhe o pulso e com um olhar desaprovador fez uma negativa com a cabeça. O dos cabelos azuis teve ímpetos de empurrar o aliado, mas acabou sendo arrastado por ele em direção ao portão do hangar.

Vendo Ichigo agonizando com o ferimento e vazando sangue, Rukia deixou que os suspeitos fugissem e correu a ajudá-lo.

– Calma... - disse ela e tratou de examinar a ferida.

A bala não chegou a sair do outro lado, o que trazia a vantagem de não aumentar a perda de sangue, mas tornava a remoção dele para um hospital mais urgente. Rukia tinha o celular na mão quando Renji apareceu ali, trazendo Soifon apoiada no braço.

– O que esse garoto está fazendo aqui? - bronqueou a líder.

– Se não fosse por ele, eu estaria morta agora, capitã.

Soifon bufou irritada e Renji balançou a cabeça em negativa. Ele até quis dar uma advertência em Rukia, mas a situação era tão crítica que ele resolveu deixar aquilo para outra hora.

– O que aconteceu lá? - Rukia perguntou.

Depois de acomodar Soifon no chão perto de Ichigo, Renji respondeu:

– O grandão deve ter recebido alguma ordem porque simplesmente parou de nos atacar. Ele fugiu e quando eu ouvi o tiro, vim atrás de você.

Rukia assentiu e depois fez sua chamada por socorro.

– Aqui fala a tenente Kuchiki Rukia do distrito de Seireitei. Em uma tentativa de prisão um civil e uma oficial de polícia foram feridos. Precisamos de socorro médico... - após alguns instantes ouvindo a atendente, ela ajuntou: – O local é afastado do centro urbano, então vou enviar coordenadas de GPS - ela lançou um olhar a Renji, que entendeu a deixa, rapidamente buscou o próprio celular e logo exibia a tela com as coordenadas para ela. – A senhorita poderia anotar, por favor?

Assim que Rukia desligou o celular, Renji falou:

– Deve ter um kit de primeiros socorros no avião. Eu vou lá buscar!

Enquanto esperavam pelo retorno de Renji, Soifon contou a Rukia o que lhe acontecera.

– O grandão era forte como um urso... - ela arfava e seu tom era arrastado. – Ele apertou minha canela e girou com tudo. Só não me quebrou a perna porque sei uma acrobacia para escapar disso. Mas do jeito que está doendo, acho que não me safei de uma distensão.

– Urso? Ele estava mais para um monstro...

Minutos depois, Renji voltou para junto dos três, trazendo a maleta de primeiros socorros.

– O major Ukitake vai ficar uma fera... - comentou Rukia, enquanto enrolava uma gaze na perna do febril Ichigo.

– Disso pode ter certeza - emendou Renji, empenhado em fazer Soifon engolir um comprimido analgésico.

O resgate demorou um bom tempo para chegar e enquanto esperavam a sensação de frustração era generalizada. Haviam subestimado aqueles criminosos e o preço daquela ação mal calculada poderia ter sido realmente trágico.


Horas mais cedo naquele mesmo dia, nas águas do Oceano Pacífico, Byakuya acabava de despertar. Ainda com os olhos fechados, ele esticou o braço em busca do corpo de Yoruichi, mas nada encontrou.

Abriu os olhos e se surpreendeu com a claridade ao redor. Sentando-se à beira da cama, tentou se lembrar da noite passada e não precisou de muito esforço para deduzir que ele e Yoruichi não tinham feito nada além de dormir naquela cama.

Suspirou decepcionado e pouco depois se levantou. Alongou os músculos e logo seguia ao quarto que separara para si. Banhou-se rapidamente, vestiu-se com trajes leves e em menos de dez minutos descia as escadas que conduziam ao alojamento das câmaras.

Adentrando o local, encontrou Yoruichi observando os displays eletrônicos como se eles encerrassem algum mistério universal profundo. Ela o olhou por um instante, mas logo virou o rosto.

Diante daquilo ele refletiu um momento. O semblante dela não denotava qualquer satisfação com sua presença, o que demolia sua expectativa de que ela houvesse consentido com sua proposta de casamento. Sentindo-se frustrado, ele julgou que não valia a pena dar início a uma discussão, ao menos não tão cedo, além disso, ele estava faminto. Então ele se foi dali, sem dizer uma única palavra.

Cerca de uma hora se passou. Byakuya achava-se então na cabine de comando, acomodado em sua espaçosa poltrona de capitão, tentando se convencer de que precisava ser paciente com Yoruichi e que não deveria pressioná-la além do que já tinha feito, no entanto, paciência nunca foi um de seus pontos fortes.

Cheio de ansiedade, ele ficou de pé e se aproximou da ampla vidraça de inspeção. Fitou o oceano por alguns instantes e de repente estranhou o quanto o manto azul estava calmo, anormalmente calmo. Seu instinto de navegador disparou e ele bateu a mão no bolso da bermuda em busca do celular. Só então percebeu que não estava com o dispositivo e se deu conta de que não o consultava desde o dia anterior.

– Nada bom... - disse a si mesmo e voltou à mesa de controle.

Era sua incumbência de capitão checar os registros meteorológicos de tempos em tempos e o celular vinha ajudando-o com essa tarefa. Tocou a ampla interface touchscreen - que constituía a dorsal do sistema de navegação do iate -, e uma série de gráficos e tabelas lhe saltaram aos olhos. Ele quis acreditar que estava imaginando coisas, mas até antes que os dados lhe dessem a confirmação daquilo que seu instinto de marinheiro antecipara, ele já se repreendia pelo relapso. Fitou então o barômetro a tempo de ver a pressão atmosférica caindo vertiginosamente. Virando o rosto, mirou a linha do horizonte e avistou uma extensa faixa escura se formando ali.

– Mas que droga! - ele praguejou e saiu à procura de Yoruichi, mas não a encontrou no compartimento inferior.

Subiu as escadas apressado e a procurou por todos os cômodos, mas sem sucesso. Só restava o convés e foi lá que finalmente a encontrou. Ela estava sentada em uma espreguiçadeira, com os olhos fixos na tela de um notebook apoiado sobre suas pernas, e totalmente alheia ao clima revolto ao seu redor.

Byakuya se aproximou depressa.

– Você precisa entrar agora - ele intimou e tomou o notebook dela.

– Ei! Me devolve isso! - ela reclamou indignada.

– Temos que entrar! Vem vindo chuva!

– Chuva? - ela repetiu.

Elevando os olhos ao céu e avistando os cinzentos e colossais nimbos logo acima de suas cabeças, Yoruichi empalideceu.

– Vamos! - chamou o mais novo e foi prontamente seguido por ela.

Byakuya deu espaço para que Yoruichi entrasse primeiro, depois entrou e largou o notebook sobre um balcão. Em seguida, ele trancou a porta, buscou um colete salva-vidas e ajudou Yoruichi a vesti-lo. Apenas nesse ínterim, lá fora, o céu se tornou escuro e o dia claro virou noite. Enquanto vestia um colete também, Byakuya reparou na expressão amedrontada de Yoruichi.

– Não precisa ter medo. Estaremos a salvo aqui dentro.

Ela o encarou como quem não está convencida.

– Vai ficar tudo bem... - ele garantiu. – Vamos para a cabine de comando.

– Mas e as câmaras? - ela exclamou preocupada. – Não. Eu preciso ficar lá embaixo!

Yoruichi já ia escapando, mas Byakuya a segurou pelo braço.

– Negativo. É muito arriscado. Aquelas câmaras estão bem presas, mas se o balanço da água for mais forte e alguma delas se soltar estar lá em baixo pode ser fatal. Para nós dois, o mais seguro será ficar na cabine de comando. Entendeu?

Com um ar assustado, Yoruichi assentiu. Aliviado por ela não ter discutido, Byakuya olhou ao redor e depois disse:

– Me escute. Antes de subirmos para a cabine, precisamos dar um jeito aqui. Todos os móveis tem algum tipo de compartimento de confinamento. Precisamos fechar esses compartimentos para evitar que as coisas caiam e se quebrem, senão isso aqui vai virar um caos. Não sei se vai dar tempo de ajeitar tudo estando só em dois e antes que o temporal comece, mas precisamos tentar. Ok?

Ela assentiu e perguntou:

– Por onde eu começo?

– Você cuida desse salão. Eu fico com a cozinha. Dos quartos eu vou só trancar as portas. Assim que terminar, vai direto pra cabine de comando e me espera lá. Certo?

– Certo!

Antes do término da arrumação deles a tempestade desabou furiosamente dos céus.

Depois de trancar a única porta da qual tinha a chave, Yoruichi correu à cabine de comando. Byakuya demorou para chegar lá e a encontrou com o olhar fixo na vidraça de inspeção, pela qual nada se via além das rajadas de chuva, por cima de um fundo cinzento.

– Vai ficar tudo bem... - ele voltou a garantir e rapidamente ocupou sua poltrona junto à mesa de controle e logo checava os alertas e instruções que pululavam a tela. – Sente-se - mandou ele, apontando para a poltrona de co-piloto.

Yoruichi obedeceu relutante.

– Eu até tentei, mas não consegui entender nada desses controles.

– Não se preocupe, o computador faz o trabalho pesado. Tudo que eu preciso fazer é traçar o curso, informando a direção e se vamos seguir a favor ou contra o vento.

– E o que vai ser?

– O recomendado é ficar a favor, a não ser que o mar fique muito agitado mesmo.

– Não me diga que tem como ficar mais agitado do que já está!

– Pior que tem. E vamos torcer para que as ondas não fiquem altas demais.

– Por quê? O que acontece se elas ficarem?

– Você logo vai descobrir...

Para desespero da acuada investigadora as ondas se agigantaram e o sofisticado iate logo estava a surfar em montanhas de água de quase seis metros de altura. Rajadas de vento chicoteavam as laterais e as janelas do iate, a trepidação lá dentro era incessante e intensa e o barulho do vento incrivelmente alto.

Com as unhas fincadas nos apoios da poltrona de co-piloto, Yoruichi buscava recordar das técnicas aprendidas na academia de polícia para não se deixar vencer pelas náuseas, mas era difícil porque quando o iate despencava da crista de uma onda enorme e despencava para a próxima, ela experimentava o mesmo que estar em queda em uma montanha russa. Ela vivia um autêntico pesadelo e começava a se conformar com a ideia de que iria atravessar para o Mundo dos Mortos de uma das formas que mais temia.

Somado a todo esse desespero e desconforto, vez por outra, Yoruichi ainda escutava coisas se quebrando e se angustiava pensando se as câmaras estariam intactas. Ela se perguntava como o mais novo conseguia se manter tão calmo e centrado em meio aquela crise quando um forte solavanco a fez gritar estridentemente.

– Batemos? - ela perguntou.

– Isso não, mas alguma coisa aconteceu... - disse Byakuya e diversas imagens monocromáticas preencheram sua ampla tela, imagens das várias câmeras espalhadas pela embarcação. – Inferno! - ele praguejou e socou o display.

– O que foi? - desesperou-se Yoruichi.

– Alguma coisa se enganchou na turbina!

– E agora?

– Preciso ir até lá... - disse ele e se ergueu da poltrona.

– O que? Como assim ir lá? Lá aonde?

– Vou ter que mergulhar. Francamente, não sei onde eu estava com a cabeça quando concordei em entrar nesse barco sem um ajudante pelo menos!

Yoruichi estava em estado de choque enquanto Byakuya lhe puxava da poltrona também.

– Você disse que vai mergulhar?

– Disse! E tem que ser rápido! Se a turbina quebrar, o plano já era, porque vamos ter que chamar um resgate.

– Mas, Byakuya, você não pode mergulhar nesse temporal! - ela gritou histérica. – Você vai se afogar! Vai morrer! Eu não vou deixar você fazer isso!

Ele a apertou pelos ombros.

– Calma! Eu sei o que estou fazendo. OK? Agora, fique calma.

– Byakuya, não... - ela implorava. – Não faz isso! Por favor! Não faz isso!

– Yoru, me escuta... A situação é grave e não temos tempo a perder. Eu preciso da sua ajuda e tem que ser agora! Eu vou me prender com um cabo de aço. Não tem perigo. Tenho todas as ferramentas aqui. Se você me ajudar, vamos fazer isso em cinco minutos. Entendeu?

Yoruichi se viu obrigada a assentir, mas não conseguiu conter algumas lágrimas de angústia.

Ancorar o iate, preparar o cilindro do oxigênio, vestir a roupa de mergulho, ajustar a bobinadeira do cabo de aço, instruir Yoruichi em como operar os mecanismos, tudo isso com o navio balançando horrores, tomou muito mais tempo do que Byakuya calculara.

Até o último instante, Yoruichi tentou fazer o mais novo desistir daquela ideia suicida, mas ele se manteve focado e irredutível. Ele teria quinze minutos para desobstruir a turbina antes que Yoruichi acionasse a retração do cabo de aço. Caso o tempo não fosse o bastante, teriam que repetir a operação.

Quando enfim Byakuya se lançou ao mar as ondas não estavam mais tão altas. Ele mergulhara a estibordo do iate, mas as águas estavam tão agitadas que ele foi arrastado para bombordo. Assim, ele precisou submergir alguns metros para só então conseguir se direcionar até a popa, na secção onde a turbina ficava alojada. Chegando lá, ele se empenhou arduamente em livrar a turbina de um pedaço de corda que ali se enroscara e ficou tão compenetrado nessa tarefa que não percebeu quando o cabo de aço, que seria sua garantia de retorno ao iate se tornou seu infortúnio.

A forte correnteza fizera o cabo se desenrolar muito além do necessário e a ponto dele ficar estendido por baixo do casco do iate e ainda se enroscar em uma reentrância da estrutura a bombordo. Assim que se livrou da corda, Byakuya olhou no cronômetro e se animou ao constatar que havia concluído a tarefa com uma boa folga. Então ele pendurou de lado no cinturão o grande alicate que usara e já ia se afastando quando percebeu o cabo de aço enlaçando o casco do iate como uma alça.

Pela primeira vez, desde que a tempestade começara, Byakuya sentiu o coração disparar de apreensão diante da ameaça de um naufrágio. Olhou outra vez no cronômetro, em menos de quatro minutos Yoruichi iria acionar o recolhimento do cabo e naquela situação isso seria catastrófico; esticado como estava, o cabo poderia rasgar o casco tal qual um serrote.

Nadou depressa para bombordo, ciente de que precisava resolver o problema em menos de quatro minutos. Tentou com todas as forças soltar o cabo com as mãos, mas foi inútil. Sua mente objetiva sinalizou o que teria que fazer, mas ele se angustiou. Não tinha certeza se conseguiria resistir à correnteza só com a força dos braços, mas não podia arriscar perder o iate. Olhou o cronômetro, o tempo estava perto do fim e então ciente de que não lhe restava alternativa, ele usou o alicate para cortar o cabo.

Sentiu um misto de alívio e apreensão enquanto observava o cabo boiando na água. E tarde demais a ideia de se atar à ponta cortada lhe cruzou o pensamento e justamente quando tentou agarrá-la, ela lhe escapou. Lá em cima, Yoruichi acabara de acionar o recolhimento do cabo.

Nadou depressa, passou por baixo do casco, pensando que havia uma longa extensão para ser enrolada e que daria tempo de ao menos se segurar no cabo, porém, chegando ao outro lado, tudo que avistou foi seu rastro deixado na água e logo ele se deu conta de que todo aquele excesso ficara boiando ali com ele. Praguejou em pensamento e compreendeu que havia executado muito mal o corte.

Por um instante não soube o que fazer. Agarrou o cabo com ódio e foi então que a ponta cortada o fez se lembrar de Yoruichi e pensar no quanto ela se assustaria quando visse a outra ponta. Sem refletir muito, ele se impulsionou para cima, pensando que de algum jeito precisava avisá-la que estava vivo. Mas, assim que ele emergiu, descobriu que o mar estava muito mais agitado agora e, tal qual ele temera, começou a ser arrastado pela correnteza.

Em meio à confusão de águas, Byakuya conseguiu avistar Yoruichi e teve a certeza de que ela o percebera também. Reagindo por instinto, ele fez a única coisa que ainda podia para escapar da violência das águas: ele submergiu novamente.


A bordo do iate, depois de ter acionado a retração do cabo de aço, Yoruichi estava aflita demais para perceber que o cabo estendido estava se enrolando muito depressa. E quando a ponta cortada por Byakuya emergiu do mar e quase a acertou no rosto, ela gritou pelo susto e por apreender de imediato a implicação daquilo.

– Byakuya!

Ela se pendurou na grade de segurança, gritando pelo nome dele e estava à beira de um colapso quando conseguiu avistá-lo. Sentiu-se aliviada, mas logo percebeu que ele não estava conseguindo vencer a correnteza e que a cada instante se distanciava mais do iate.

– Não...

Desesperada e sem saber o que fazer, ela estava com os olhos vidrados quando percebeu Byakuya afundando na água. Seu primeiro pensamento foi que ele tinha se afogado, mas logo pensou que aquilo não fazia o menor sentido; ele estava com o respirador e nadava como um peixe. Refletiu um pouco e então deu meia volta e saiu correndo rumo à cabine de controle.

Arfando, Yoruichi se sentou na cadeira de capitão e pousou as duas mãos no display de controle. Telas se sobrepuseram e ela buscou as câmeras entre os aplicativos. A busca demorou uma eternidade para seu coração descompassado no peito, mas enfim ela capturou uma imagem que lhe permitiu soltar um suspiro de alívio: Byakuya estava se segurando à corrente da âncora.

– Tá, entendi... Lá em baixo a correnteza não é tão forte. Mas ele deve ter descido bastante. E por quanto tempo vai conseguir ficar lá? Quanto tempo o cilindro de ar dura? Ai meu Deus!

Nauseada com o balanço do iate e pela preocupação com o mais novo, ela tentava raciocinar.

– Não deve ser muito. Meia hora? Uma hora? Eu não sei! E também essa chuva não tá com cara que vai passar tão cedo. Eu preciso fazer alguma coisa! - concluiu em aflição.

Controlando a respiração, Yoruichi fechou os olhos e buscou se acalmar. Aos poucos começou a delinear um plano em sua mente e então se levantou num repente. Às pressas vestiu uma roupa de mergulho, pegou um cilindro de oxigênio e então correu de volta ao convés.

Quando Byakuya lhe explicar os comandos da bobinadeira, ela reparara no sistema de acionamento da máquina e que seu mecanismo e configuração lhes eram familiares, mas estava tão nervosa na hora que não refletira muito a respeito, mas agora teria que rever aquilo com cuidado, pois seu plano dependia disso.

A ideia dela era se prender ao cabo de aço, mergulhar, nadar até Byakuya e prendê-lo ao cabo também, de modo que eles dois fossem içados pela bobinadeira. Mas para que isso desse certo, ela precisava configurar a máquina para operar em modo temporizado e automático. O ajuste não era nada sobrenatural para ela que tinha um bom domínio em circuitos eletrônicos, o problema eram as condições ingratas em que ela se encontrava. A visibilidade era baixíssima, rajadas de água e vento lhe açoitavam o corpo e o rosto, o display da máquina era pequeno e as telas de opções intermináveis.

Ela já estava começando a se desesperar quando enfim conseguiu ajustar a configuração. Feito isso, vestiu o cinturão e depois engatou a ele o aparato do cabo de aço. Prendeu no cinturão também um gancho extra, ajeitou o cilindro de oxigênio nas costas e por fim deu partida no temporizador.

Cambaleando por causa do vento, Yoruichi se aproximou da grade de proteção, e depois de deixar a caixa de controle manual da bobinadeira pendurada ali, ela se preparou para o mergulho. Com as mãos apoiadas na grade, ela precisou de todo seu autocontrole para dominar o pânico. Então inspirou fundo e tentando não pensar na insignificância de sua vida frente à batalha dos elementos, ela se atirou ao mar em fúria.

Tão logo submergiu nas águas frias e revoltas, Yoruichi agradeceu aos céus por ter dado ouvidos a Ginrei, que lhe aconselhara a aprender a nadar justamente por ela sentir tanto medo de morrer afogada. Gastou alguns instantes se acostumando com água e logo nadava à procura de Byakuya.

Em pouco tempo, ela estava junto dele, que pareceu não acreditar no que via. Ele demorou a entender o que ela tinha em mente e ficou inerte enquanto ela atava o gancho extra no cinturão dele. E ele ainda não tinha chegado a qualquer conclusão, quando Yoruichi o puxou pelo braço e instantes depois ambos começaram a ser puxados. Ainda que sem entender como, Byakuya se segurou nela e para seu espanto, eles foram arrastados pela água e logo estavam sendo içados do mar.

Já fora da água, Yoruichi se livrou da máscara respiratória para poder gritar:

– Fica preparado para se segurar na grade!

E depois de vencidos os quase nove metros de altura da borda livre do iate e antes que eles se chocassem contra a grade ou fossem atirados e arrastados pelo convés, Yoruichi agarrou a caixa de controle manual e deteve a retração do cabo.

– Como diabos você fez isso? - abismou-se Byakuya.

Instantes depois e praticamente ao mesmo tempo os dois pularam para o convés. A chuva e o vento continuavam incessantes, mas mesmo assim Byakuya insistiu que precisavam limpar a área. Eles gastaram alguns minutos para conduzir a bobinadeira de volta ao alçapão do convés e só então puderam se refugiar no interior do iate.

Já dentro do salão principal, Yoruichi se sentou no chão, com as costas apoiadas na porta trancada, ofegando e tremendo.

Elevando a voz acima do zunido do vento, Byakuya gritou com ela:

– Não era pra você ter mergulhado! Eu tinha ar para pelo menos duas horas ainda!

– E que garantia eu tinha que daqui duas horas esse aguaceiro irá acabar? - ela berrou de volta.

Arrependido por tê-la repreendido, ele se abaixou no chão junto a ela e pousou a mão em sua face.

– Me desculpe. Mas é que eu ainda não acredito no que você fez... Você está bem?

– É claro que não! - gritou exaltada.

Diante do estado tão fragilizado dela, ele sentiu o coração apertado.

– Você disse que o cabo não ia soltar... - ela comentou abatida.

– E não soltou. Eu que precisei cortá-lo.

Yoruichi o encarou como quem não está entendendo e então não conseguiu mais segurar o choro.

– Calma... Está tudo bem.

Depois de balançar a cabeça numa negativa nervosa, Yoruichi puxou o mais novo para um abraço possessivo.

– Eu não posso te perder, Byakuya. Não você. Você não... - ela declarou, encostando a testa na dele e apertando o rosto dele entre as mãos.

Byakuya ficou surpreso, mas não pouco contente em ouvir aquilo.

– E não vai... - disse ele. – Logo tudo isso vai acabar.

De um modo inesperado e sem aviso, Yoruichi o beijou na boca. Novamente, Byakuya se surpreendeu com a iniciativa dela, mas não demorou a corresponder. Abraçaram-se e beijaram-se atribulada e apaixonadamente.

Ao término do beijo, eles ficaram abraçados por alguns instantes e então Yoruichi se desvencilhou, enxugou os olhos e perguntou:

– Por que você teve que cortar o cabo?

– Eu explico depois. É perigoso continuarmos ancorados. Uma onda muito alta pode virar o navio. Venha... - ele se levantou e estendeu as mãos para ela. – Vamos voltar para a cabine de comando.

Em pouco tempo, eles estavam de volta à suas poltronas, mas agora com os coletes salva-vidas por cima das roupas de mergulho e envoltos em cobertores.

Enquanto Byakuya analisava o efeito de sua ação corretiva, Yoruichi se manteve quieta, com a cabeça escorada na poltrona, exausta tanto física quanto mentalmente. E ela teria perdido os sentidos se um estrondoso raio não tivesse rasgado os céus naquela hora. E depois vieram outros.

– Pelo jeito o pacote é completo... - comentou Byakuya.

Yoruichi ergueu o corpo e olhou na direção dele, porém como ele não disse mais nada, ela direcionou seu olhar adiante a tempo de ver um relâmpago iluminando as brumas ao redor e por um instante ela pôde vislumbrar um turbulento redemoinho.

– Tem um furacão se formando aqui? - indagou ela.

Byakuya inspirou forte antes de dizer:

– É o que parece... Mas agora estamos em condições de escapar dele.

Yoruichi ficou ainda mais pálida do que já estava.

– Se você não tivesse ido atrás de mim, nenhum de nós teria a menor chance de sobreviver a isso.

Digitando uma sequência de comandos, Byakuya traçou um curso agora contra o vento, recolheu a âncora e, dando potência total aos motores e à turbina, fez com que o iate voltasse a navegar. No momento exato, eles puderam se afastar dos braços do redemoinho, mas o mau tempo ainda os acompanharia por muitas horas.


Ao fim daquela tarde, no Hospital Madison, Isshin Kurosaki estava em pé e de braços cruzados, na parte inferior do leito no qual estava acomodado seu filho recém-operado. Ali no quarto estavam suas duas filhas e a policial Kuchiki Rukia.

– Yuzu, Karin, a tenente Kuchiki está com cara de quem quer conversar a sós com o seu irmão. Vamos esperar lá fora.

– Não! Isso não é necessário, senhor Kurosaki! - retrucou a policial. – Na verdade, sou eu quem deve sair.

– Nada disso, mocinha. Fique aqui e tente colocar um pouco de juízo na cabeça desse sem noção.

Karin obedeceu ao pai sem contestar, porém Yuzu se demorou para se distanciar do irmão.

– Fique bom logo, oni-chan! - disse ela com ar choroso.

– Vou ficar, Yuzu. Não se preocupa.

Angustiada, Rukia ficou apenas observando enquanto os Kurosaki deixavam o quarto.

– Eu ainda não consigo acreditar no que você fez, Ichigo.

– Não adianta vim com sermão agora, Rukia. Eu sei que depois do que aconteceu fica difícil acreditar, mas em geral eu não sou tão irresponsável assim, tá legal? Mas dessa vez foi um lance totalmente diferente. Eu tive uma premonição ou qualquer coisa do tipo, sei lá, só sei que de algum jeito eu tive a certeza de que se não fosse atrás de você, eu nunca mais iria te ver.

Angustiada, Rukia alcançou a mão dele, apertou-a carinhosamente entre as dela e depois depositou um beijo no dorso daquela mão.

– Premonição... Você acredita nesse tipo de coisa?

– Até hoje não acreditava, mas agora já não sei de mais nada...

– Eu te devo minha vida.

Permaneceram quietos por alguns instantes, então ela pousou a mão dele sobre o leito e depois disse:

– Eu sempre serei grata a você por isso, mas sinto vontade de torcer seu pescoço quando penso no tanto que você se arriscou. Se alguma coisa tivesse acontecido com você, Ichigo, eu jamais iria me perdoar.

– E se alguma coisa acontecesse com você, Rukia? Você não imagina como eu iria ficar? Estamos no mesmo barco.

– Mas eu sou uma policial. O risco faz parte da minha profissão. Você é só um estudante e não tem experiência com esse tipo de coisa.

– Não tenho ainda.

– Como assim?

– Eu me decidi: vou entrar para a academia de polícia.

– Para a academia? Ah, fala sério...

– Eu estou falando! Das duas uma, Rukia: ou eu passo a trabalhar com você ou você vai ter que largar esse emprego.

– Deixa de conversa! - vociferou ela, mas logo se arrependeu da explosão. – Ichigo, vamos deixar pra discutir isso depois, agora você precisa descansar - disse e deu um selinho na boca dele.

– Goste você ou não, eu estou decidido e não vou voltar atrás.

Rukia não disse mais nada. Sentia-se frustrada demais para discutir e, além disso, a convicção no olhar dele fez com que ela se lembrasse de si mesma anos atrás quando anunciara ao avô que queria ser uma policial. Em se tratando de Ichigo, ela quis acreditar que ele só estava perturbado pelo ocorrido, mas algo em seu íntimo lhe dizia que era inútil pensar assim.


Yoruichi abriu os olhos devagar e não conseguiu identificar de pronto aonde estava. Reconheceu a decoração do iate e ao que parecia estava em um quarto, mas, por um instante, chegou a acreditar que estivesse em terra firme de tão branda que era a oscilação do Sakura Hime agora se comparado ao que ela tinha experimentado nas últimas horas. Notou então que estava estirada de atravessado em uma cama, ainda com a roupa de mergulho, mas sem o colete salva-vidas.

– Byakuya? - ela chamou e ergueu um pouco o corpo, apoiando-se nos cotovelos.

Olhando pela pequena janela ao lado, percebeu que já era noite. Sentou-se na beira da cama, pensando em ir procurar pelo mais novo, mas então escutou a voz dele logo atrás de si.

– Você acabou acordando...

Ela virou o corpo em direção à voz dele para flagra-lo com um short curto, sem camisa e uma toalha atravessada no pescoço.

– O que aconteceu? - ela perguntou e não conseguiu não enrubescer por ele estar quase sem roupas.

– Depois de doze horas finalmente estamos livres daquela maldita tempestade.

– Foram doze horas?

Byakuya assentiu.

– E as câmaras?

– Intactas.

– Graças a Deus. E nós saímos muito da rota?

– Um pouco, mas foi até menos do que eu esperava. Não se preocupe, teremos como recuperar isso amanhã, se o tempo estiver bom.

– E você acha que vai estar?

– É provável. Pelo menos é o que diz a previsão.

Yoruichi se levantou de súbito, mas na mesma hora sentiu uma forte tontura e apertou a têmpora. Atento, Byakuya a amparou, abraçando-a pela cintura e aproveitando para colar seus corpos.

– Está fraca. Precisa comer.

– Não antes de um banho.

– Era o que eu tinha em mente... - ele comentou, roçando os lábios nos dela e depois pousou a mão no zíper do traje de mergulho.

Yoruichi tirou a mão dele de lá e disse:

– Pode deixar que eu faço isso sozinha.

– Tem certeza?

A resposta dela foi se desvencilhar dele e depois seguir em um passo arrastado para o quarto que vinha ocupando. Byakuya não foi atrás. Acompanhou-a com os olhos, encostado no batente da porta, com um discreto riso nos lábios.

As últimas doze horas haviam sido difíceis, mas também lhe trouxeram revelações preciosas acerca dos sentimentos de Yoruichi em relação a ele. Ela expressara em palavras o quanto ele era importante para ela, além de ter superado os próprios limites para salvá-lo. E aquela tinha sido a segunda vez que Yoruichi lhe salvava a vida.

– Ficaremos juntos - ele murmurou consigo. – Agora é só uma questão de tempo.

Qualquer dúvida que Byakuya ainda pudesse ter em relação a uma futura união com Yoruichi agora se dissipava. Ele jurou a si mesmo que não mediria esforços para conquistá-la e estava absolutamente convencido de que se tornarem um casal era o destino deles.

CONTINUA...


VOCABULÁRIO NÁUTICO:

Barômetro: instrumento destinado à medição da pressão atmosférica. Existem vários tipos e em navegação o barômetro de mercúrio é o mais comum, no qual a pressão atmosférica é equilibrada pela pressão de uma coluna de mercúrio.

Proa: a parte da frente de uma embarcação.

Bombordo: o lado esquerdo da embarcação, considerando-se a proa como a sua frente.

Estibordo: o lado direito da embarcação.

Popa: a parte de trás de uma embarcação.

Borda livre: a altura da embarcação que fica acima do nível da água.

NOTAS:

Irmãos Kuchiki cara a cara com a morte! Que tenso...

Se depois dessa viagem, Yoruichi requisitar terapia intensiva acho que teremos que dar razão a ela.

Quem gostou da aparição dos Arrankar levanta a mão! O momento Rukia e Grimmjow ficou bem parecido com a série, né? Mas foi essa a minha intenção.

Influências ficcionais: Livros "Vinte mil léguas submarinas" (1870) e "Os Northfleet no Olho do Furacão" (2012).

Não sei quantos vão aparecer para ler esse capítulo, mas espero sinceramente que alguém apareça. Foram quase 120 dias nos quais eu não deixei de pensar nessa fic um só dia e mesmo assim nunca conseguia um tempinho para escrever. Comentários serão muito bem vindos.

Quero deixar um agradecimento muito especial para minha querida amiga Dani-JJ que recomendou a fic no Nyah! e comentou todos os nove capítulos postados! Muito obrigada, JJ! E me perdoe pela demora.

Aos demais leitores que ainda estejam acompanhando, comentando ou não, muito obrigada também!

Espero que tenham gostado!

Um grande abraço e até a próxima!

Amanda Catarina

05-11-2015.