Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 12

A operação para o translado das câmaras do porto de Tóquio para o esconderijo de Urahara estava em andamento. Tudo havia sido meticulosamente planejado e as ações transcorriam perfeitamente bem. O transporte seguiria em duas etapas: um caminhão, com quatro das câmaras, seguiria primeiro e outro, com as outras quatro, seria despachado cerca de meia hora depois. Mas não era isso que perturbava Byakuya naquele momento.

Yoruichi acabara de lhe perguntar se ele seguiria com ela até o esconderijo do cientista e ele não sabia o que responder. Não queria ver Kisuke Urahara, mas também não queria que ela fosse sozinha até o local.

– A primeira das festividades dos nossos clãs começa dentro de três horas - começou ele. – Nossos sósias foram orientados para nos substituir caso não cheguemos a tempo, mas eu acho que, ao menos nesse primeiro evento, seria importante que nós mesmos estivéssemos lá.

– E estaremos - Yoruichi garantiu. – Não vou demorar tanto tempo assim para ir e voltar.

– O que lhe dá tanta certeza? Essa equipe que está cuidando do transporte é a melhor que o dinheiro pode pagar. E seria muito prudente que eu e você estivéssemos longe nessa etapa.

– Não é que eu esteja duvidando da competência dessas pessoas, Byakuya, mas depois de todo o sufoco que passamos para trazê-los até aqui eu não posso simplesmente deixá-los a cargo de um serviço de entregas, por melhor que seja. Preciso saber se eles estão realmente vivos, entende?

O policial suspirou contrariado.

– Tudo bem... Faça como achar melhor. Eu ficarei esperando por você neste hotel - ele entregou uma folha com um endereço para ela. – Não é o mesmo hotel no qual acontecerá o evento, mas é bem próximo. Te espero lá até às 16h.

– Combinado!

Byakuya sentiu uma fisgada no peito ao vê-la se afastando, mas em nada isso ficou visível em seu semblante inexpressivo. Antes de partir, Yoruichi ainda veio lhe dar um beijo no rosto e assegurou novamente que voltaria a tempo. Tudo que ele pôde fazer foi torcer para que ela estivesse dizendo a verdade.


A satisfação que invadiu Kisuke Urahara quando o enorme caminhão estacionou em frente ao casarão fora a maior de sua vida. E ao ver Yoruichi saltando da cabine do veículo sua emoção tornou-se ainda maior.

– Você conseguiu! - ele exclamou assim que ela se aproximou.

– Consegui! Mas não foi nada fácil!

Ele a encarou fixamente, sorrindo encantado. Ela estava tentadoramente linda: mais bronzeada, usando uma blusinha clara de alças finas, uma mini-saia jeans, sandálias e os cabelos presos por uma fita branca. Tendo-a diante de si, depois de tantos dias aguardando por sua chegada, fez Kisuke perder a compostura e ele simplesmente passou os braços ao redor do corpo dela e a abraçou.

Pega de surpresa, Yoruichi ficou estática e encarou o amigo com visível assombro.

– Kisuke... O outro caminhão chega daqui a pouco... Precisamos acomodar a carga desse o mais rápido possível.

Kisuke se desvencilhou dela na mesma hora, muito vermelho, sem acreditar no que acabara de fazer.

– Ah, sim! Me desculpe...

Ela sorriu a ele, sem graça, e felizmente para os dois, Tessai chegou ali naquele momento.

– Seja muito bem vinda, Yoruichi-dono! É bom vê-la a salvo!

– Também é bom ver você, Tessai... Sugiram alguns imprevistos, por isso o atraso.

– Ah, você comentou nas mensagens sobre uma tempestade... - interpôs Kisuke.

– Tempestade seguida de um tornado. Foi horrível! Francamente, espero nunca mais ter que viajar em um iate.

Kisuke a encarou com um ar assustado.

– Você disse tornado?

Ela fez que sim com a cabeça.

– Lamento muito que tenha passado por algo tão assustador.

Yoruichi o encarou, tentando não se sentir afetada por aquele jeito tão gentil que ele tinha de falar e do qual ela tanto gostava.

– Já passou! E se você puder... - ela fez uma pausa, escolhendo as palavras - consertar tudo, terá valido a pena.

– Eu irei consertar tudo!

Ela assentiu e então Tessai se intrometeu na conversa novamente.

– Eu sugiro que vocês dois entrem, enquanto eu ajudo os homens com o descarregamento.

– Nós podemos te ajudar com isso, Tessai - disse a investigadora.

– Por favor, não se incomode, Yoruichi-dono. Kisuke irá acompanhá-la e lhe servir um pouco do chá que eu preparei. Né? Kisuke?

Compreendendo a armação do amigo, Kisuke assentiu e depois deu passagem para que a investigadora seguisse adiante e foi exatamente o que ela fez.


Na cidadezinha espanhola de Las Noches, Sousuke Aizen acabava de ler o relatório enviado por seu subordinado Tousen Kaname.

– Não tivemos baixas, mas nenhum dos homens de Kyouhaku foi abatido também. E o simples fato da base em Brisbane ter sido localizada é uma evidência do quanto fomos descuidados.

Um homem idoso, porém bastante robusto, sentado em uma larga poltrona, próxima à mesa que seu líder ocupava, fez um gesto em concordância.

– Conseguiram rastrear Genryuusai?

– Ainda não, senhor... - respondeu o idoso com um ar impassível.

– Mas aquela velha raposa não demora a deduzir nossa localização, pode ser que até já esteja aqui na Espanha. Percebe, Baraggan? Vivemos uma situação extrema. E todos sabem que situações extremas exigem medidas extremas.

– O que o senhor tem em mente?

– Eu esperava receber algum dado relevante do falecido Szayel, no sentido de podermos aperfeiçoar o soro para seu estágio final, o Hougyoku, mas infelizmente essa minha expectativa não se concretizou. No entanto, a versão atual do soro, Arrankar, tem apresentado resultados satisfatórios. De acordo com o que li em seus relatórios, todas as cobaias se saíram muito bem nos treinos.

– Sim, muito bem. O único problema da versão Arrankar é que ela reduz o tempo de vida da cobaia em uma taxa drástica. Comparativamente, é como se um dia equivalesse a um mês para eles, tamanho é o aumento da atividade cerebral.

– Um efeito colateral esperado... Estrelas que brilham muito intensamente morrem rápido.

Baraggan apenas assentiu.

– Estive pensando... - começou Sousuke - com os homens de Kyorahaku investigando nossas atividades em Brisbane e Genryuusai tão perto esse pode ser um bom momento para que as cobaias tenham um exercício em campo. O que me diz, Baraggan?

Um sorriso raso se desenhou sob o bigode do idoso.

– Que isso seria bem interessante.

– Pois muito bem, Kaname e os outros devem chegar a qualquer momento. Quando todos estiverem aqui, reúna os dez Espadas no salão principal para que possamos planejar uma festinha de boas vindas para Genryuusai.

– Sim senhor.


Assim que Yoruichi adentrou o casarão, ela se deparou com um ambiente tipicamente nipônico: assoalho de madeira, luminárias japonesas e divisórias separando os ambientes. Logo avistou uma mesa redonda e baixa na qual descansavam um jarro e um conjunto de copos quadrados. Kisuke se dirigia para lá, mas então ela perguntou:

– Onde as câmaras irão ficar?

– Ah, você quer ver o laboratório?

Ela assentiu energicamente.

– É por aqui - ele apontou uma direção. – Venha, eu vou te mostrar.

Logo os dois caminhavam por um corredor estreito, então fizeram uma curva para a esquerda e assim que chegaram ao dito laboratório, Yoruichi ficou boquiaberta. Tratava-se de um espaço enorme, atulhado de máquinas, ferramentas, computadores, estantes e prateleiras repletas de tubos de ensaios e mais uma vasta gama de instrumentos. O contraste com o restante da casa era tão grande que ela sentiu como se tivesse atravessado um portal para um mundo futurista.

– Uau! Você e o Tessai montaram tudo isso em apenas uma semana? Incrível!

Kisuke sorriu enquanto ela olhava ao redor em um misto de espanto e admiração, quando escutou vozes no corredor e logo Tessai e outros dois homens chegavam ali, carregando uma das câmaras, encerrada dentro de um engradado de madeira.

– Vamos dar espaço para eles... - disse Kisuke e então ele conduziu a investigadora para aquela sala de antes.

Pouco depois, Kisuke e Yoruichi estavam acomodados na mesa baixa, sentados frente a frente. Beberam o chá e Kisuke acabara de pedir a ela detalhes sobre a viagem, mas Yoruichi não conseguiu nem começar um relato, pois Tessai apareceu ali e exclamou em tom de urgência:

– Kisuke, não consegui fazer a reativação. Preciso de ajuda! - ele disse e não esperou pela resposta, correndo de volta para o laboratório.

– Eu já vou! - rebateu o loiro e logo se levantou.

– Kisuke, espera! - exclamou Yoruichi, fazendo com isso que ele voltasse a se sentar.

– O que?

– Eu vou deixar vocês dois trabalharem. Preciso comparecer a uma cerimônia e o tempo já está ficando curto.

– Mas não poderia esperar só mais um pouco? Eu estou precisando muito conversar com você sobre uma coisa...

– Sobre o que?

Lá do laboratório Tessai gritou o nome do cientista.

– Espere aqui só um minuto que eu já volto! Não deve ser nada sério!

Yoruichi assentiu, angustiada, e ficou esperando ali, tentando decifrar as enigmáticas palavras do amigo, mas depois que pensou no que Tessai havia dito e ao recordar da fúria da tempestade, ela passou a se perguntar se aquilo não teria danificado as câmaras e por isso não estava sendo possível reativá-las.

Vários minutos se passaram, então quando Kisuke voltou à sala, Yoruichi disparou afoita:

– Eles estão bem?

– Ainda não tem como saber.

– Como assim não? As câmaras quebraram?

– Claro que não - ele respondeu brando. – Mas eu vou ter que retirar todo aquele líquido para colher algumas amostras, encher de novo... - ele dizia, mas ela o interrompeu.

– Não dá pra fazer isso agora? Ao menos em uma delas e ver se está tudo bem?

Percebendo o abalo dela, ele se sentou e tomou-lhe as mãos.

– Está preocupada, não é?

– Claro que estou! O navio quase virou naquele inferno! Eu não sei se aquilo não ferrou tudo. Se as câmaras ainda estão funcionando direito. E você viu como o rosto da Hiyori ficou?

– Vi sim... Por favor, acalme-se. Agora que os homens da transportadora já foram embora, eu posso trabalhar livremente.

Yoruichi assentiu e depois que Kisuke conseguiu fazê-la se acalmar um pouco, eles seguiram de volta ao laboratório. Ela acompanhou todo o trabalho dele na reativação de uma das câmaras, angustiada de aflição.

– Tudo pronto! Vou tirar o líquido agora... - avisou ele.

Yoruichi se aproximou e ficou ao lado da câmara na qual a pequena Hyori estava confinada. A mutação dela estava em um estágio tão avançado que seu rosto parecia recoberto por uma máscara. Yoruichi acompanhara esse processo desde o início e era o que lhe fazia passar tantas horas examinando as câmaras no Sakura Hime.

Kisuke acionou um controle que fez o líquido dentro da câmara começar a escorrer por uma calha lateral.

Vaizard... - disse ele.

– O que? - indagou Youruichi.

– É assim que eu chamo esse estágio da mutação deles, Vaizard. Hiyori foi a primeira a ser contaminada, por isso já tem o rosto completamente tomado, mas Hirako está caminhando para o mesmo.

Yoruichi assentiu com pesar e logo voltou a olhar para a garota deformada e desacordada, duvidando que ela ainda estivesse realmente viva apesar dos bipes que sinalizavam o constante batimento cardíaco. Na sua expectativa mais funesta, Yoruichi imaginava que quando eles estivessem fora das câmaras e os aparelhos fossem todos desligados, nenhum deles iria resistir.

– Kisuke, você já tem alguma ideia de como irá curá-los?

– Confesso que tudo que tenho são algumas teorias que ainda precisam ser validadas.

– Então se as câmaras estão boas, não seria melhor deixá-los aí?

– Como eu disse antes, preciso coletar tecidos desse estágio, mas o líquido vai contaminar as amostras. Mas não se preocupe: eles ficarão fora dela por pouco tempo. Eu sequer irei tirá-los do coma induzido.

– Entendi...

Então o líquido todo escorreu e Kisuke abriu a câmara, deslizando a tampa transparente para baixo. Yoruichi ficou observando Hiyori atentamente, tentando perceber qualquer sinal de vida nela, então sua aflição teve fim quando o peito da jovem subiu e desceu no compasso de uma respiração ruidosa, monstruosamente ruidosa, aliás, mas uma respiração.

– Ela está viva... Obrigada, Deus! – a investigadora exclamou rouca e as lágrimas vieram sem controle, mas ela não se importou.

Kisuke apertou-lhe o ombro em um gesto de encorajamento.

– Sim ainda há a vida e esperança para eles.

Yoruichi assentiu e enxugou os olhos, então acabou olhando no relógio de pulso e percebeu que as três horas que tinha de prazo para chegar ao evento estavam perto do fim.

– Ai, não... Kisuke, eu preciso ir! Byakuya está me esperando lá no hotel.

– Byakuya?

Ela não percebeu a nota de estranhamento no tom do loiro.

– Sim, seremos os homenageados. Sabe, aquela coisa toda dos nossos clãs?

– Sei...

– Vai ser a primeira das festividades e tanto eu como ele temos que estar presentes... Você pode assumir daqui, não é?

– Claro.

– E você me manda uma mensagem depois que examinar todos eles?

– Mando sim.

– Ótimo. Então agora eu tenho que ir!

– Espera, Yoruichi... Você não pode mesmo ficar mais um pouco?

– O que tem pra falar comigo é muito urgente? Porque agora ficou complicado.

– Na verdade, é sim, mas se está tão atrasada eu não quero lhe causar mais problemas. Você volta pra cá depois do evento?

– Eu acho difícil. Essas festas são demoradas e terei que falar com tanta gente.

– Entendo...

– Mas devo conseguir voltar aqui amanhã.

– Então conversaremos amanhã.

– Mas me mantenha informada sobre o estado deles, por favor!

O loiro assentiu.

– Tessai pode te levar até esse hotel.

– Não é necessário, eu pego um táxi.

Então ela saiu apressada, sem ter ideia do quanto Kisuke ficara desolado.


Já munido de um traje cerimonial completo, Byakuya terminava de ajeitar seu kenseikan nos cabelos e já estava conformado de que teria que participar do evento sem Yoruichi, quando seu celular tocou e era ela.

"Oi, sou eu. Estou aqui na recepção. Ainda dá tempo? Você reservou um quarto pra mim?"

– Sim, ainda dá tempo, se você se aprontar rápido. Se está na recepção, diga que é a senhora Masami e que seu marido está no quarto 903. Eu já deixei avisado que você chegaria a qualquer momento.

"Senhora Masami, 903... OK!"

Em menos de dois minutos ele ouviu uma batida na porta e assim que abriu passagem, Yoruichi entrou como um tiro.

– Deu tudo certo! Não arredei o pé de lá até o Kisuke reativar as câmaras e valeu a pena! Vi a Hiyori voltar do coma e respirar sem os aparelhos. Bom, a situação não é das melhores, a mutação está horrível, mas acho que o Kisuke vai conseguir dar um jeito. Pelo menos agora eu estou um pouco mais tranquila.

– Fico feliz em saber disso... - ele falou mecanicamente.

– Ai, eu tinha esquecido desse detalhe que o traje é quimono tradicional - ela comentou, fitando o riquíssimo quimono estendido na cama de casal. – um calor infernal lá fora, eu vou cozinhar dentro disso!

Byakuya apenas a encarou por alguns instantes e então disse:

– Você tem dez minutos para estar pronta.

– Não posso usar um pretinho básico, não?

– Dez minutos e com esse traje.

Yoruichi bufou e, depois de soltar os cabelos da fita que os amarrava, se dirigiu ao banheiro.

– Dez minutos eu vou gastar só pra tomar banho...

Enquanto Yoruichi se aprontava, Byakuya ficou contemplando a vista pela janela. Estava introspectivo como de costume, imaginando como tornaria público seu relacionamento com a líder dos Shihouin e se perguntava se aquele evento era o melhor momento para fazer isso.

Foi então que ele olhou por sobre o ombro e viu que Yoruichi já estava vestida com o quimono branco que se usa por baixo do traje principal e agora começava a vestir o quimono estampado. Estreitou o olhar e depois se aproximou, posicionando-se logo atrás dela, então aspirou-lhe o pescoço, deliciando-se com a fragrância perfumada da pele recém banhada e disse:

– Deixa eu te ajudar.

– Se for me ajudar a vestir e não o contrário, tudo bem.

– Se não estivéssemos tão atrasados, eu iria adorar despi-la... - ele sorriu de leve e pegou o obbi estendido sobre a cama.

Juntos terminaram a colocação dos trajes, trocando olhares e discretos sorrisos.

– De muito bom gosto esses trajes, tanto o meu quanto o seu... Seu avô pensa em tudo, hein?

Byakuya assentiu e depois perguntou:

– O que falta?

Yoruichi virou nos calcanhares, calçou os chinelos de madeira e procurou por uma escova de cabelos.

– Um penteado.

– Não dá tempo!

– Claro que dá. Minha mãe me ensinou um muito prático. Eu não posso ir de cabelo solto, Byakuya! Com um quimono desses, seria uma gafe tenebrosa.

Byakuya não escondeu a impaciência, mas, felizmente, Yoruichi não se demorou muito e quando ele viu o resultado - um coque preso por um bonito kanzashi -, aprovou o arranjo.

Depois disso, eles deixaram o quarto apressados e em menos de cinco minutos estavam em um táxi, rumo ao Ryumeikan Tokyo Hotel, onde o evento aconteceria.


Tessai já chamara por Kisuke por mais de uma vez, mas o cientista estava tão encerrado nos próprios pensamentos que foi preciso dar um apertão em seu ombro para ganhar a atenção dele.

– Kisuke!

– Ah, me desculpe, Tessai.

– Aposto que estava pensando na Yoruichi-dono...

– Tessai, você acha que ela me contaria se estivesse tendo um caso com o Byakuya?

– Eu acho que não. Mas quem sou eu para achar alguma coisa num assunto desses?

– Do modo como ela falou, tudo me leva a crer que é isso sim.

– E se for? O que você vai fazer?

Kisuke encarou o grandalhão.

– Eu... Eu não sei. Desde que ela saiu, não consigo pensar em outra coisa, mas eu nem mesmo sei onde vai ser esse tal evento?

– Vai ser no Ryumeikan Tokyo Hotel, saiu nos jornais.

– Você tem acompanhado, é?

Tessai deu de ombros e depois de alguns instantes comentou:

– Hotéis em dia de evento desse tipo ficam muito cheios. Não é difícil burlar a segurança, se passar por um vigia ou um garçom.

Kisuke estreitou o olhar, compreendendo a insinuação do amigo, que chegou a lhe soar bastante oportuna, mas então tocou na tela do tablet que tinha consigo e essa voltou a exibir diversos gráficos e fórmulas intricadas.

– Essas coisas do coração podem esperar, há muito a se fazer por aqui.

Com a expressão serena de sempre, Tessai assentiu em concordância.


Yoruichi estava nervosa, ela já havia participado de inúmeras festas daquele tipo, mas naquele dia em especial, sentia-se insegura e com receio de cometer algum deslize. Todo o estresse pelo qual vinha passando nas últimas semanas e aquele envolvimento com Byakuya também contribuíam para esse seu estado abalado.

– Espera, Byakuya! Se nós entrarmos lá assim, juntos, vamos parecer um casal!

– E qual o problema?

– Como assim qual o problema? Não é assim que deve ser! Você sabe disso tão bem quanto eu. Isso iria repercutir na mídia e virar o maior bafafá. Nossos clãs não estão preparados para algo tão inesperado assim. E eu também não estou!

– Que diferença faz? Mais cedo ou mais tarde todos irão saber.

– Mas não precisa ser tão cedo, né?

– Pois eu pensava sim em já tornar público o nosso relacionamento.

– Um relacionamento que começou há um dia! Fala sério, Byakuya. Por que você tem que ser sempre tão precoce? Tira isso da cabeça... Vamos fazer assim: entra lá você primeiro e mantenha a fama de pontualidade dos Kuchiki, da qual você tanto gosta de se gabar, que eu vou entrar daqui uns vinte minutos.

Ele rolou os olhos e reclamou contrariado:

– Você anda tão cheia de exigências... Tudo bem, farei como está pedindo, mas não pense que vou me manter afastado de você o evento inteiro.

– Isso também não. Eu não quero ficar sozinha com esse povo mais do que o necessário. Principalmente porque quando eu fico muito nervosa, meu japonês trava e desembesto a falar inglês sem nem perceber.

Byakuya sorriu de leve e depois disse:

– Entre em vinte minutos, nenhum minuto a mais.

– Agora você vai querer controlar até os minutos do meu atraso?

– Pode ter certeza que vou.


Horas mais tarde, na Austrália, Rukia dormia sentada no pequeno sofá de dois lugares no quarto em que Ichigo estava internado. Ela estava tendo um sono inquieto e então começou a grunhir como quem estivesse amedrontada.

Ichigo acordou e ao perceber o sofrimento dela, ficou angustiado, mas mal conseguia se mover, era como se sua perna tivesse sido substituída por um bloco de chumbo. Foi então que se lembrou do celular e ligou no número de Rukia. O outro aparelho estava bem ao lado dela no sofá, por isso quando a batida instrumental de um j-pop irrompeu pelo quarto, Rukia despertou quase no mesmo instante.

– Deu certo!

– Ichigo... Puxa, eu acabei dormindo aqui sentada.

– Claro que dormiu, deve estar super cansada, trabalhando o dia inteiro e ainda vindo aqui ficar comigo. Não precisava se incomodar.

– Não é incômodo...

Sorriram um ao outro.

– Te acordei porque parecia que você estava tendo um sonho ruim.

– Ai, eu estava mesmo.

– Vem cá... - chamou ele.

Rukia atendeu ao apelo e tão logo ela entrou no raio de alcance de Ichigo, ele lhe agarrou o pulso e a puxou para junto de si ali no leito. As bocas se colaram em um beijo apaixonado.

– Lembra que dá última vez que demos um cato, a gente estava quase chegando na parte boa e a porcaria do seu celular tocou?

Rukia deu um riso em resposta.

– Você me prometeu que a gente ia continuar aquilo da onde tinha parado.

– Deixa de ser pervertido moleque! Olha o seu estado!

– Minha perna zuada, mas pode ter certeza que o resto funcionando muito bem.

– Ichigo, nós não vamos ter nossa primeira transa em um quarto de hospital! Pode esquecer!

– Ah, por que não?

– Porque não, seu sem noção!

– Eu não ligo que você não esteja usando uma lingerie super sexy. Não tenho nada contra essa sua calcinha com estampa de coelhinho.

Rukia riu.

– Quando foi que você viu minha calcinha, hein?

de saia, ué, deu pra ver uma hora aí...

A policial deu uma mordiscada no lábio dele.

– Você não perde uma oportunidade de olhar pra minha bunda, não é? Só tem cara de mocinho comportado, seu safado!

Ichigo passou o braço pela cintura dela e Rukia se escorou no corpo dele e deitou a cabeça em seu ombro. Ficaram quietos por alguns instantes.

– Ichigo, tem noção? Eu podia estar morta agora. Nós dois podíamos. Aquele cara quase me deu um tiro na cabeça... Quando eu lembro daquilo...

– Não tem nada que ficar lembrando daquilo, Rukia.

– Mas não dá pra esquecer assim. Eu até queria, mas não dá...

Continuaram abraçados e poucos instantes depois Ichigo, vencido pela medicação, acabou caindo no sono. Rukia deu um beijo na testa e outro no rosto dele e permaneceu ali no leito por algum tempo ainda, antes de voltar para o pequeno sofá, onde passaria o resto daquela noite.


Yoruichi sentia-se exausta, apesar da sensação de dever cumprido, fora uma tarde e um começo de noite extenuantes. Mariko Kuchiki, prima de Ginrei Kuchiki, os acompanhava na limusine rumo à morada na qual os dois ficariam hospedados.

Quando eles chegaram à propriedade, Yoruichi ficou impressionada com a exuberância do lugar. A arquitetura era no mais belo estilo nipônico clássico, com telhados em tijolos vermelhos, pilastras ornamentadas, estatuetas de dragões e samurais. No centro do jardim vistoso havia uma ponte em arco, cruzando um extenso lago, lar de muitas carpas e outros peixes exóticos.

Os dois seguiam lado e lado e a idosa Mariko, mais à frente, mostrava o caminho. Cruzaram um comprido corredor até alcançarem à casa principal. Pouco depois, achavam-se em uma ampla sala de estar que mesclava mobiliário moderno e nipônico antigo em uma bela harmonia. Eles se acomodaram em poltronas baixas, dispostas lado a lado, e Mariko ficou em um sofá menor bem a frente deles.

– Há pratos congelados no refrigerador, caso sintam fome, e claro, bebidas, petiscos, confeitos. O turno da criadagem inicia às seis da manhã, mas os empregados só virão quando, e se, forem requisitados. Temos um terminal conectado com o departamento de inteligência de Seireitei, computadores, um salão de jogos. Ginrei-san também me pediu que lhes entregassem seus celulares, os que estavam com seus sósias - disse ela e depois depositou os aparelhos na mesinha de centro. – O evento de amanhã será em Osaka. A limusine estará disponível por volta das dez da manhã.

– E a senhora irá nos acompanhar nesse evento, Mariko-dono? - perguntou a investigadora.

– Irei sim, Yoruichi-dono - a idosa respondeu na típica expressão inexpressiva dos Kuchiki e depois se colocou de pé. – Agora, se me dão licença, eu devo ir.

– A senhora já vai se recolher, onee-sama?

– Sim, Byakuya-san. Mas qualquer coisa de que necessitarem, podem entrar em contato comigo pelo celular.

Byakuya e Yoruichi estranharam o comentário, sobretudo quando perceberam a idosa se dirigindo à passagem que dava para o longo corredor.

– Aonde a senhora está indo, onee-sama?

– Para minha casa, naturalmente.

– Mas não é aqui que a senhora mora? - adiantou-se Yoruichi.

A idosa lançou um estreito sorriso à investigadora.

– Não, minha menina Shihouin. Essa aqui é a casa que reservamos para vocês, nossos hóspedes.

– Ah, sim... Então logo outras pessoas estarão chegando.

Mariko meneou a cabeça, parecia surpresa com a dedução e, depois de fazer uma negativa com a cabeça, ela disse:

– Não, não virá mais ninguém.

Yoruichi não era o tipo de pessoa que se surpreendia fácil, mas ultimamente as extravagâncias dos Kuchiki vinham conseguindo deixá-la desnorteada.

– Tenham um bom descanso.

Byakuya e Yoruichi ficaram apenas observando pela enorme vidraça do cômodo, a mulher entrando na limusine e logo em seguida deixando a propriedade.

– Uma casa desse tamanho só pra duas pessoas? - Yoruichi falou para Byakuya.

Ele deu de ombros e depois refletiu por alguns instantes dando-se conta do que acontecia, então sorriu discreto.

– Vou ter que concordar que esse foi um grande desperdício... Principalmente porque eu e você não vamos precisar de mais que uma cama.

Yoruichi desviou o olhar e sorriu de leve, sem jeito, pouco acostumada com aquelas insinuações do mais novo.

– Dormir tão cedo? Imagine... Sua onee-sama falou que tem um salão de jogos aqui... Por que não vamos lá dar uma olhada nisso?

Byakuya se colocou de pé, ficou diante dela e então lhe estendeu as mãos.

– Amanhã talvez, agora temos um assunto pendente para resolver e que requer um quarto.

– Nós temos? - ela rebateu, aceitando o gesto, mas tentando disfarçar o constrangimento.

– Sim, temos.

Seguiram dali, percorrendo os cômodos da soberba mansão de mãos dadas e Byakuya ficou satisfeito por encontrar logo o que procurava. Os dois adentraram então um quarto espaçoso, no qual se via um leito largo e baixo no centro do ambiente. Um local muito sofisticado, com pouca mobilha, a exceção de um frigobar.

– Perfeito... - ele comentou.

Yoruichi soltou a mão da dele e deu uma olhada ao redor. Notou uma porta deslizante, foi até lá, movimentou-a e então disse:

– Olha só, tem um jardim aqui... E até um laguinho.

Byakuya não se surpreendeu, a planta da casa lembrava muito a da mansão de seu avô em Brisbane. Naquele momento, o que despertou a atenção dele foram os puxadores do que parecia ser um extenso armário. Aproximou-se e, movimentando as portas, uma para cada lado, então ele se deparou com um imenso closet. Entrou ali e percebeu que tudo de que poderiam precisar estava ao alcance das mãos: roupas, cobertores, travesseiros, itens de higiene, medicamentos e quando percebeu uma embalagem de preservativos separada de lado, teve a confirmação definitiva de que todo aquele arranjo tinha sido arquitetado por seu avô.

Sorriu discreto e depois de guardar a tal embalagem no bolso interno da hakama, ele foi ver o que Yoruichi estava fazendo. Ela tinha se sentado no chão, com as costas apoiadas no batente daquela porta deslizante que dava para o jardim e olhava a imagem tremeluzente da lua refletida na água do laguinho.

Ainda com o mesmo discreto sorriso nos lábios, Byakuya se aproximou e se sentou ali junto dela. Quando ela virou o rosto para ele, ele esticou a mão em direção ao alto da cabeça dela e puxou aquele kanzashi, ansioso para desmanchar aquele penteado. Yoruichi achou graça naquilo e remexeu a cabeça para que os fios lisos se soltassem totalmente, então quando voltou a encarar o mais novo, ele avançou para beijá-la.

Yoruichi correspondeu o beijo intenso e não se esquivou quando Byakuya passou a deslizar as mãos por seu corpo sem qualquer pudor. Estava ciente do que se sucederia e embora não estivesse totalmente certa se deveria se entregar, também não se sentia capaz de resistir.

Interrompendo bruscamente as carícias e os beijos, Byakuya se ergueu dali com ela nos braços, o que para Yoruichi foi uma autêntica exibição de força física da parte dele e, comprovando ainda mais isso, ele a carregou no colo até o leito baixo.

Pouco depois, ela estava estirada no colchão macio e ele deitado por cima dela. Antes que ela tivesse tempo de dizer qualquer coisa, Byakuya colou a boca na dela em outro beijo voraz. E aquilo era apenas o começo... Yoruichi sabia que sua abstinência sexual de vários anos estava para ter seu fim naquela noite e com o último homem que ela poderia ter imaginado.

CONTINUA...


Mais de sete meses sem atualizar! Acharam que eu tinha abandonado a fic, né? Nada disso! Mas infelizmente está muito difícil arranjar tempo para escrever. Sim, a cena aí em cima vai continuar no próximo capítulo, que já está escrito e será postado em breve (é sério).

Gostaria de agradecer a todos que ainda estiverem acompanhando e de um modo especial a Hinalle e Ray Shimizu. Ray-chan sempre me cobra, me incentiva e tem paciência comigo! Muito obrigada, meninas!

No mais, espero que tenham gostado da retomada! Grande abraço e até breve!

17-07-2016.

Amanda Catarina