Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.
Vítimas do Dever
Por Amanda Catarina
Capítulo 14
Ainda não era dia, mas Byakuya acabou acordando... Yoruichi estava dormindo, encolhida junto ao corpo dele.
– Dormindo assim até parece que é uma gatinha mansa... Né, Bakeneko?
Reparou então que ela estava vestida com o haori, que ele antes usara, e nada além. Ficou escorregando os dedos nos cabelos dela e desfrutando da quietude do momento. Foi então que se deu conta de que há anos Yoruichi tinha essa mania de querer vestir suas camisas, seus ternos, seus quimonos, de querer dividir o mesmo cobertor com ele... Além da ocorrência de agora, se recordou de outra recente, cerca de dois meses atrás, quando toda aquela situação havia começado. No dia que a impediu de ir a Sunshine Coast, ele a confinara em seu quarto e naquela ocasião, ela vestiu seu roupão de banho. Sorriu e se perguntou se aquilo seria inconsciente ou proposital.
Deixando a questão de lado, ajeitou-a cuidadosamente na cama, pois não queria acordá-la ainda. Olhou ao redor em busca de um cobertor, mas não encontrou nenhum por perto, então percebeu que estavam deitados sobre seus trajes cerimoniais e que os lençóis finos do leito largo e baixo ainda estavam em seus devidos lugares.
"Pelo visto fiquei um pouco afoito demais ontem..." - ele pensou consigo.
Suspirou e se levantou, abriu uma das gavetas do closet e encontrou uma bermuda, vestiu-a e depois procurou por um cobertor. Logo cobria Yoruichi e se sentou ao lado dela. Ficou observando-a dormir, relembrando alguns momentos daquela noite tão intensa.
Já aceitara o fato de que há dias se sentia ansioso por se deitar com ela, mas ainda assim havia se portado com uma volúpia que não julgava ser capaz. Não sentia vergonha disso, mas estava um pouco intrigado. Conheciam-se há anos, cresceram juntos, mas ter uma relação com Yoruichi - mesmo uma mera relação sexual -, era algo que nunca passara por sua cabeça.
Ainda a admirava, então se inclinou e depositou um beijo no rosto dela, depois se endireitou e pensava em ir buscar algo para comer, mas então os quimonos amarrotados na cama capturaram sua atenção. Voltou a olhar para Yoruichi, podia enxergá-la melhor agora que já se habituara à baixa luminosidade no quarto. Os olhos percorreram a silhueta sob o tecido fino, então ele vidrou o olhar e de repente foi transportado no tempo.
Ele tinha onze anos e estava em passeio na grande fazenda que servia de colônia de férias para os Kuchiki e Shihouin, no interior de Brisbane. Era um dia chuvoso, ele discutira com o avô por alguma bobagem e fugiu correndo a esmo pelos vastos hectares da fazenda. Foi pego pela chuva, caiu, se machucou e sentiu uma dor insuportável. Ficou derrubado no chão por tanto tempo que perdeu a noção das horas até que escutou a voz dela.
"Moleque arteiro! Eu sabia que ia acabar se machucando. Engole isso. É remédio."
"Minha perna tá doendo... Tá doendo muito. Deve tá quebrada!"
"Não, não tá quebrada. A dor já vai passar e logo o seu avô vai encontrar a gente."
"Tá doendo, Yoru..."
"Já vai passar."
Perturbado, Byakuya balançou a cabeça em negativa.
– Não! Isso não aconteceu de verdade. Foi só um sonho.
Mesmo contra a vontade, ele se recordou do cheiro da chuva, do corpo de Yoruichi exposto pelo tecido branco molhado - o corpo de uma adolescente de dezesseis anos, plenamente amadurecido. Lembrou-se de se agarrar a ela, de choramingar em seu peito, de adormecer sendo abraçado e quando acordou já não sentia dor alguma e estavam deitados no chão, lado a lado, refugiados junto à carcaça de um velho trator, as roupas sujas e ela só com o hadajuban, porque as outras peças do quimono cerimonial dela lhes serviam de forro para a terra molhada e de atadura para a perna machucada dele. E quando acordou, ele ficou observando-a dormir exatamente do mesmo jeito que estava fazendo agora.
Byakuya chegou a empalidecer, ciente de que acabara de destravar o cadeado de um baú no qual ele havia encerrado uma recordação proibida. Lembrou-se de como se sentiu, de como se inclinou por cima dela e da necessidade urgente de colar a boca na dela. E ele fez exatamente isso, mas ela acordou assustada e gritou com ele e, aos berros, o fez prometer que ele nunca mais faria aquilo, que era errado, que ele era só um garotinho e ela era uma adulta e repetiu isso dezenas de vezes.
Ainda mais perturbado, ele se colocou de pé e inspirou fundo.
– Não foi um sonho, mas eu repeti tantas vezes pra mim mesmo que tinha sido que acabei acreditando...
Ele deu a volta no leito e se sentou, recostando o corpo no alto espaldar. Então tudo fez sentido em sua mente: seu ciúme irracional de Kisuke Urahara, sua satisfação com o término do relacionamento deles, a rapidez com que cedeu àquela paixão.
– Eu sempre achei que tinha me casado com o meu primeiro amor, mas você foi meu primeiro amor... - ele falou num tom baixo.
Fechou os olhos e ficou por vários instantes como que anestesiado com a descoberta e logo teve outro insight.
"Isso é errado! Você é só um garotinho e eu sou uma adulta. Sou uma adulta, entendeu? Não posso ficar com você."
Abriu os olhos e virou o rosto na direção de Yoruichi, atônito.
– E você também me amava!
Remexeu a cabeça em negativa, inconformado.
– Céus... Então era mesmo o nosso destino. Se você não tivesse ido embora...
Angustiou-se e as frustrações do passado retornaram. A revolta por ela ter partido, o rancor por não escrever, por não mandar notícias, por simplesmente sumir de sua vida como se todos os anos que tinham passado juntos não tivessem significado nada. Mas ele logo tratou de afastar esses ressentimentos, pois agora entendia que Yoruichi realmente não tivera escolha.
Manteve-se quieto, ainda muito reflexivo e então analisou tudo que transcorrera desde a partida dela sob a nova perspectiva. Uma dezena de acontecimentos passaram velozes por sua mente até que um evento entrou em foco. Ele visitava o campus da Universidade de Queensland, no qual Yoruichi ainda estudava e no qual em breve ele ingressaria. Se ele não tivesse chegado tão cedo do horário marcado com o reitor, não teria flagrado Yoruichi e Kisuke juntos, se beijando.
Com essa lembrança vívida na memória, Byakuya aceitou o fato de que a relação de Yoruichi com Kisuke havia sido a verdadeira razão de ele ter se casado com Hisana, apenas alguns meses depois de ele ter presenciado aquela cena. Angustiado, deitou e ficou de costas para Yoruichi. Queria deter aquela torrente de lembranças e simplesmente voltar a dormir, mas não conseguiu.
"Eu soube que vai se casar! Você é mesmo muito precoce, hein... Byakuya-bo? Mas enfim... você e a Hisana formam um casal bonito... Estou feliz por vocês!"
"Mentira!" - ele exclamou em pensamento. "Você não estava feliz! Se também me amava, como poderia estar feliz de me ver com outra? Foi por isso que você chorou no dia do meu casamento. Nunca me esqueço de você secando os olhos. Tantas vezes me perguntei que motivo você tinha para chorar e agora eu entendo!".
"E você? Quando vai se casar com aquele seu namorado esquisito?"
"Ele não é esquisito! Ah, sei lá... Talvez depois que a gente terminar a faculdade...".
Ainda de costas para Yoruichi, Byakuya pensou em Hisana, permitindo que a verdade fluísse por sua consciência livremente.
"Não foi por amar Hisana que eu fiquei tão fora de mim com a morte dela. Ela era minha contenção. Eu precisava dela na minha vida pra não pensar em você. Para não enlouquecer com a ideia de que mais cedo ou mais tarde você seria a mulher do Urahara. Eu precisava dela pra manter minha cabeça no lugar."
"Para! Pelo amor de Deus, Byakuya, não se joga! Sai daí, por favor... Não faz isso!"
Ele sentiu a cabeça girar e recordou o aperto dos braços dela ao redor de seus ombros.
"Vem... Por favor... Vem comigo, não se joga...".
Virou-se novamente na cama e voltou a olhar para Yoruichi, mas então fechou os olhos e estava de volta ao Sakura Hime, logo depois de Yoruichi resgatá-lo da fúria do mar.
"Eu não posso te perder, Byakuya. Não você. Você não!"
Abriu os olhos e, num ímpeto, agarrou-a e tomou-lhe os lábios com desespero apaixonado.
– Hã? - Yoruichi acordou assustada. – Calma, assim não respiro...
– Me beija... - ele exigiu.
Os olhos dourados se abriram e o encararam cheios de confusão.
– Me beija!
Ela atendeu ao apelo e ele avançou sedento, seu coração estava disparado no peito e o corpo todo trêmulo. Passados alguns instantes, ele separou as bocas, beijou-a no rosto, no pescoço. Precisava amá-la mais uma vez e se convencer de que circunstância alguma iria separá-los agora. Agarrou-a com força, mas logo percebeu que ela lutava para se manter desperta e que parte de sua consciência ainda devia continuar no mundo dos sonhos. Então a excitação arrefeceu e ele encontrou forças para ajeitá-la no colchão macio novamente e ela resmungou:
– Fecha a janela... Tá ventando...
– Já vou fechar, mas primeiro você tem que dizer que me ama.
– Amo você...
– E sempre me amou?
– Sim...
Byakuya suspirou forte e depois não disse mais nada. Pouco depois, Yoruichi voltou a dormir. Ainda que ele tenha demorado a adormecer também, sentia uma profunda paz de espírito. Compreendeu que, dali em diante, não precisaria mais manter seus sentimentos confinados. Era frustrante pensar que precisou esperar nada menos que vinte anos para poder estar com a mulher que realmente amava, mas levando em conta o quanto sua união com Yoruichi já estivera nas raias do impossível, a realidade de estarem juntos agora podia ser considerada uma dádiva.
Horas atrás em um hotel na Espanha, Genryuusai lia atentamente as legendas automaticamente geradas em inglês do noticiário local.
"Uma onda de assassinatos e assaltos assola o bairro do Hueco Mundo, nos subúrbios do distrito de Las Noches. A polícia local tem tido muito trabalho para capturar os marginais de uma gangue que se autodenomina 'Os Espadas'."
– Aquele miserável... Despachou os lacaios para espalhar violência nessa cidadezinha, achando que com isso conseguiria me atrair. Não precisava de tanto, patife...
– O que devemos fazer, capitão-comandante? - questionou Shuuhei Hisagi.
– Você vai entrar em contato com Kyouraku e dizer que quero nossos melhores atiradores aqui o mais rápido possível.
– O mais rápido possível não será antes de 72 horas, capitão-comandante - alertou Izuru Kira.
– Não seja tão precipitado, Kira - advertiu Shuuhei. – Se conseguirmos uma liberação de verba do departamento de defesa de Brisbane, poderemos fretar um jatinho e melhorar significativamente esse tempo.
– Estejam certos que eu conseguirei a verba - afirmou o veterano. – Portanto, tratem de se concentrar nas convocações.
– Sim senhor! - os dois responderam em uníssono.
Enquanto os dois oficiais trabalhavam atribuladamente, Genryuusai manteve a atenção na tela da TV, que, naquele momento, exibia um homem alto e muito magro dando uma risada debochada, zombando da polícia e fugindo em uma moto.
– Hisagi, avise Kyouraku que eu quero o capitão Kenpachi aqui também.
– Zaraki Kenpachi, senhor? - indagou Izuru. – Mas ele ainda está suspenso!
– Pois então estou revogando a suspensão dele a partir de agora.
Izuru demonstrou espanto, mas assentiu com um gesto firme de cabeça.
– Se é uma guerrilha que Sousuke Aizen está procurando é isso que ele vai ter.
Por volta das nove da manhã, Yoruichi enfim acordou, porém, ela demorou a assimilar onde estava e ficou observando com estranhamento o quarto tão amplo e de decoração nipônica.
– O que foi? - a voz grave de Byakuya a assustou.
– Ai, não! Nós perdemos a hora? - indagou aflita.
– Não, ainda é bem cedo... - ele respondeu calmo.
Yoruichi suspirou de alívio e voltou a fechar os olhos, mas no curto espaço de tempo em que os teve abertos, pôde reparar que Byakuya estava estirado ali ao seu lado com nada além de um short.
"Pelo menos ele não tá pelado!" - ela pensou consigo, então abriu os olhos e olhou para si mesma, constatando que um simples haori era tudo que lhe resguardava o corpo. Sentiu-se angustiada, por mais que tentasse agir com naturalidade, ainda era difícil. Por tantos anos repudiara seus sentimentos por Byakuya que não poderia se sentir liberta para amá-lo da noite para o dia.
– Eu tenho que voltar lá no casarão e ver como o pessoal está...
Movendo-se como um felino, Byakuya se debruçou sobre ela e disse:
– Negativo. Já esqueceu que vamos viajar para Osaka hoje?
Yoruichi o encarou e retesou a musculatura, ao sentir as pernas torneadas dele se encaixando entre as dela e os braços dele pressionando de leve os lados de sua cintura.
– Mas você disse que ainda é cedo... - ela tentou argumentar, lutando para não ceder à aura dominadora dele.
– Não tão cedo assim. Talvez tenhamos tempo para um... - ele pousou a boca no queixo dela de um jeito provocante - ...breve exercício, mas não muito mais que isso.
Sentindo-se em febre, Yoruichi virou o rosto de lado. Byakuya começou então a beijar-lhe o pescoço estendido e logo escorregava os lábios por seu busto e colo. Ela arfou e foi impossível não se excitar.
– Por que você tem que ser tão bom nisso, hein? - ela reclamou, acariciando os cabelos dele. – Por que você tem que ser tão irritantemente bom em tudo que faz?
Byakuya interrompeu os beijos na mesma hora e a encarou com um riso de canto.
– Você me dizendo isso? Desse jeito vou acabar ficando convencido...
– Você é um convencido! Sempre foi. Vai para! Já chega disso. Sai de cima de mim!
Ele demorou um pouco, mas atendeu o apelo, porém sem desfazer o riso provocativo.
– Eu não fazia ideia do quanto você é tarado!
– Bom de cama você quis dizer?
– Para... - ela deu um tapinha no braço dele. – Chega desse papo...
– Muito bem, então vamos tratar das nossas obrigações. Devo chamar os criados?
– Não precisa... - ela respondeu, se desvencilhando dele e logo estava de pé ao lado do leito, apertando o haori no corpo.
– Então você vai preparar meu desjejum? - Byakuya questionou bem humorado.
– Claro... - Yoruichi retrucou irônica. – Bolacha com leite! Uma delícia não acha?
– Na verdade, eu gostaria de algo mais elaborado... Uma omelete com cebola e bacon, suco de laranja espremido na hora, onigiri...
– OK, pode chamar os criados! Até parece que eu vou cozinhar pra você, Byakuya. Se liga!
Yoruichi entrou no banheiro e bateu a porta com força, depois se escorou ali. Sabia que devia estar com um sorriso bobo nos lábios, mas pelo menos ali seu parceiro não estava vendo.
Depois de alguns poucos instantes observando a lâmina sob um avançadíssimo microscópio eletrônico, Kisuke se afastou do aparelho e apertou a têmpora. Inspirou fundo e então simplesmente não conseguiu se conter: agarrou o becker mais próximo e o atirou contra a parede.
– Inferno! - praguejou em um tom que para alguém contido como ele fora um autêntico brado.
Tessai entrou no laboratório e ficou a encará-lo com um ar interrogativo.
– A mutação é rápida demais! Nada que eu tento dá certo... - Kisuke disse em justificativa ao próprio acesso.
– Mas até agora você só dispunha de dados teóricos, não tem nem um dia que está tendo a chance de trabalhar efetivamente no problema.
– Mesmo assim já era pra eu ter algum norte. E pra piorar minha concentração não está ajudando... Onde ela está, Tessai? Ela disse que voltaria aqui hoje!
– Ainda é muito cedo.
Kisuke cerrou os punhos.
– Tem algo acontecendo. Eu posso sentir!
– Kisuke... Por que você não vai dar uma volta por aí? Já são quase duas semanas que você só fica trancado nesse lugar. Vista um chapéu e aqueles seus chinelos de madeira e pode ter certeza que ninguém vai te reconhecer nesse fim de mundo chamado Karakura.
– Não tenho tempo pra ficar passeando por aí. Eu preciso reverter essa maldita mutação!
Pegando uma vassoura e uma pá, Tessai se encarregou de recolher os cacos do becker quebrado.
– Desse jeito você não vai conseguir coisa alguma, quanto mais algo tão complicado assim.
Dando-se por vencido, Kisuke acabou acatando o conselho do amigo, pois ele realmente estava precisando de um pouco de ar fresco.
Horas mais tarde em Brisbane, a capitã Soifon e o oficial Renji Abarai chegavam ao Hospital Madison, no qual Ichigo Kurosaki estava internado. O motivo da visita não era apenas ver o jovem universitário, mas sim inteirar a tenente Rukia das novas sobre o caso Aizen. Após terem deixado a chamativa Suzuki de Renji no estacionamento do hospital, os dois caminhavam rumo à recepção.
– Tá pra nascer alguém mais azarada que eu! Justo no dia que eu resolvo passar a noite no seu apartamento, Kyouraku inventa de ligar atrás de mim... - reclamava a capitã.
– Está arrependida de ter passado a noite comigo?
– Claro que não!
– Então por que tá tão brava?
– Não estou brava com você, seu energúmeno! Estou brava com o Kyouraku. Ele podia ter esperado eu chegar na sede, ao invés de ter ligado no meu celular sete horas da manhã! E você ainda teve que atender! É inacreditável que tanta coisa tenha dado errado naqueles cinco minutos que eu estava tomando banho!
– Eu não fiz por mal, Soifon, pensei que fosse o meu. Também com tanto single para escolher você teve que pegar o mesmo que eu?
– Eu posso perfeitamente te devolver o comentário - rebateu Soifon e depois prosseguiu reclamando, ranzinza. – E não podíamos ter passado em uma loja para eu comprar um traje mais formal?
– No way! Tempo é algo de que não dispomos no momento. Além disso, não tem nada de errado com a sua roupa.
– Ah, você acha mesmo que a Kuchiki não vai estranhar de me ver vestida desse jeito? Como uma... Uma adolescente!
– Por que você age como se fosse uma velha de oitenta anos? Me diz: qual o problema em parecer jovem sendo que é tão jovem?
– Não tão jovem assim, meu caro...
– Como não? Você não é nem cinco anos mais velha que eu!
– Eu sou seis anos e duzentos dias mais velha que você, Abarai.
– Credo... Só falta dizer que sabe meu signo e o ascendente também.
– Isso não, mas sei o dia e o horário do seu nascimento, então posso descobrir isso com um desses aplicativos de horóscopo.
– Bloody Hell... Tem horas que você me assusta, sabia?
Soifon sorriu a ele de um modo enigmático e pouco depois os dois chegaram à recepção.
– Quarto 323, por favor... - Renji disse a uma das duas recepcionistas no balcão de atendimento do hospital, entregando seu distintivo junto com um documento de identificação.
Prontamente, uma das recepcionistas lançou um sorriso descaradamente insinuante a ele e em seguida entregou um crachá.
– Aqui está, oficial Abarai!
– Muito obrigado. Ah, precisamos de dois, senhorita! - ele falou de pronto.
– Não é necessário, oficial. Criança acompanhada de adulto não precisa de crachá.
Pisando duro, Soifon se aproximou do balcão, bateu o próprio distintivo ali, encarou a jovem de um modo tão feroz que fez o sorriso descarado dela murchar na mesma hora e falou num tom trovejante:
– Pra sua informação, garota, eu sou a chefe dele!
Assustada, a jovem assentiu e rapidamente estendeu outro crachá.
– Aqui está, senhora!
Renji até sentiu pena da atendente, mas não ousou dizer nada. Pouco depois, ele e Soifon estavam à porta do quarto 323. Ele bateu na porta e logo Rukia apareceu ali para recebê-los.
– Renji! Capitã Soifon! Que surpresa!
– Yo! - disse Ichigo, sentado no leito no centro do quarto.
– Bom dia, Kuchiki - saudou a capitã. – E bom dia pra você também, Kurosaki.
– Estou vendo que já tirou o gesso, capitã... - comentou Rukia.
– Sim, mas pra começo de conversa, aquele gesso foi um completo despropósito. O sem noção do médico que me atendeu devia ser um novato.
– A que devemos a honra de tão ilustres autoridades da lei assim tão cedo? - questionou Ichigo, sem disfarçar seu sarcasmo.
– Viemos por causa da tenente Kuchiki, é claro... - rebateu Renji igualmente sarcástico.
– Viemos lhe ver também, garoto inconsequente, mas o oficial Abarai está certo: temos um assunto importante para tratar com a tenente Kuchiki.
– Então será que podemos tratar disso lá fora, capitã? Ou talvez lá na lanchonete...
– Oe, Rukia! Eu também quero saber do que se trata!
– Nada do que a capitã tenha para dizer é da sua conta, Ichigo!
– Dá outra vez também não era, mas eu acabei descobrindo mesmo assim! Então não percam tempo tentando me deixar de fora disso!
– Ichigo, nós já conversamos ontem... - Rukia disse em tom de ameaça. – Você não tem treinamento e nem é um policial.
– Não sou ainda.
– Não é e nem vai ser antes que esse caso esteja solucionado, então vê se fica na sua!
– Sem chance, Rukia. Aposto que tem a ver com aqueles caras, não é? E aquele delinquente de cabelos pintados de azul. Descobriram onde eles estão escondidos?
– Esse inconsequente não vai desistir, capitã, mesmo que a gente não converse aqui ele vai xeretar até descobrir tudo... - disse Renji.
– É isso aí, tatuado!
– Tá com inveja das minhas tatuagens, é seu pivete?
– Eu não! Cê tem uma puta cara de bandido, sabia?
– Ichigo, controla esse linguajar! - esbravejou Rukia.
Renji continuou rindo em provocação para Ichigo, mas Soifon cortou a algazarra, anunciando em seu tom sério:
– A mando do capitão-comandante, o capitão Kyouraku deve despachar uma força-tarefa para a Espanha para conter uma gangue de arruaceiros. E você está entre os convocados, Kuchiki.
– Eu?! Eu estou sendo convocada para trabalhar junto com o capitão-comandante?
Depois que Soifon assentiu, Rukia se sentou no sofá, sem fôlego.
Ichigo vidrou os olhos e ficou mais pálido do que já estava.
– Espanha? - indagou ele. – Mas por que tão longe?
– Porque é lá que o chefe da quadrilha está foragido e foi para lá que aqueles caras fugiram - respondeu Renji.
Rukia inspirou forte e então perguntou em voz séria:
– Quando partimos, capitã?
– Hoje.
Não muito distante da casa que lhe servia de abrigo, Kisuke achava-se sentado na beira de uma grande fonte ornamental. Tinha um pacote de pipocas na mão e a mente tão distante quanto a Terra da Lua.
Foi então que uma mulher mais ou menos próxima de onde ele estava lhe chamou a atenção. Era miúda, tinha os cabelos cortados rente ao pescoço e usava um vestido azul claro. Não a conhecia e nem era o caso dela se parecer com alguém familiar, pois não foi a fisionomia dela que despertou a atenção dele, mas sim o ventre avantajado de uma gravidez. Ele teve um estalo e numa fração de segundo uma dezena de possibilidades se descortinaram em sua mente engenhosa. Pôs-se de pé em um pulo, apertando o pacote de pipoca entre os dedos e voltou para o laboratório praticamente correndo.
– Tessai! Eu tive uma ideia! Dessa vez, tenho certeza que vai funcionar... Tudo que eu preciso é de uma mulher grávida.
– Você precisa do que?
– De uma grávida! Quer dizer dos hormônios que são produzidos durante a gravidez. Precisa ser bem no começo, logo nas primeiras semanas da gestação... Justamente nessa mudança de estado, quando o corpo produz um monte de hormônios que só aparecem nessa hora... OK, OK, isso não importa agora. Mas vai dar certo!
– Mas como vamos conseguir isso? Será que ainda temos dinheiro suficiente para contratar uma barriga de aluguel? Por que do feto você não vai precisar, certo?
– Não... Mas sabe em quem eu pensei? Na Yoruichi-san...
– Justo nela? Mas por quê?
– Porque ela... - o loiro demorou a concluir a frase, então Tessai entrecortou:
– Mas a Yoruichi-dono não é estéril?
– Não é porque uma mulher tem dificuldades para engravidar que ela é estéril, Tessai. O caso da Yoruichi-san deve ser só uma questão de tratamento. Eu tenho certeza que consigo inseminá-la artificialmente.
– E com o sêmen de quem?
– Meu, é claro.
– Pra que isso, Kisuke? Eu não duvido que a coisa dos hormônios possa dar resultado, mas não entendi por que tem que ser a Yoruichi-dono a carregar esse feto.
– Porque ela é a pessoa certa, Tessai! Ela já está totalmente envolvida nisso e quer tanto quanto nós salvar os nossos amigos.
O grandalhão balançou a cabeça em negativa.
– Kisuke, você está dizendo que pretende fecundar um óvulo da Yoruichi-dono com o seu sêmen? É isso mesmo?
– É isso sim, mas será só por alguns dias. Depois que eu tiver os hormônios, vou remover tudo.
– Ou seja, você vai pegar esse embriãozinho e destruir como se fosse nada? E depois ainda diz que é o Aizen que gosta de brincar de deus?
– Não me compare com aquele lunático! O que acontece é que agora, com oito vidas em jogo, eu não posso me dar ao luxo de ser tão moralista.
– Você melhor do que ninguém sabe que a Yoruichi-dono é totalmente contra o aborto. Ela nunca aceitará uma vida como moeda de troca, por mais prematura que seja.
Kisuke encarou o amigo com uma expressão indecifrável.
– Não há tempo para outras tentativas, Tessai. Eu estou decidido.
– Então não conte comigo para levar a cabo um absurdo desses.
– Pois muito bem. Farei tudo sozinho e quer saber? Nem mesmo ela vai ficar sabendo. Quando ela vier aqui, usarei a hipnose e farei o procedimento. Depois de uns quinze dias, ela volta, eu tiro tudo e tenho certeza que depois que todos estiverem curados ninguém dará a menor importância para isso.
– Só fica pior... Agora quer fazer tudo isso sem o consentimento dela?
– Foi você mesmo que disse que ela nunca iria concordar.
Tessai suspirou forte.
– Escute a si mesmo! Não pode estar falando sério... Isso seria uma falta de respeito para dizer o mínimo. Uma traição à confiança que Yoruichi-dono tem por você.
– Nada disso, Tessai! Yoruichi é uma mulher muito prática. Sei que eu conseguiria convencê-la se eu tivesse um pouco mais de tempo, mas do jeito que a coisa vai... - disse e apontou as oito câmaras – eles são a prioridade. Eu me entendo com ela depois.
– Kisuke, se oferecermos um bom dinheiro, qualquer jovenzinha de dezoito anos vai topar.
– Eu não quero envolver mais ninguém nisso! Mais ninguém!
Tessai teria continuado com a discussão, mas naquele momento o celular de Kisuke tocou.
– Ô, Yoruichi-san... Ligou em boa hora...
"Tudo bem, Kisuke? Como estão as coisas aí? Progressos?"
– Na verdade ainda não, mas acho que tive uma ideia... Quando você poderá vir até aqui vê-los?
"Não sei... Estou em Osaka agora e só devo estar de volta a Tóquio amanhã. São mais compromissos do que eu imaginava."
– Entendo... A senhorita parece até uma artista!
"Não exagera. Me diz: as máscaras continuam crescendo?"
– Infelizmente sim, mas como eu disse tive uma ideia para um antídoto e estou bastante esperançoso agora.
"Que bom! Eu vou tentar voltar aí depois de amanhã. Pode ser?
– Claro, estarei a sua espera.
Depois que a ligação foi encerrada, Kisuke ficou com um olhar parado. Uma estranha motivação havia se instalado nele. Pensava que se ele e Yoruichi se tornassem agentes tão diretos da cura de seus amigos, talvez isso pudesse aproximá-los novamente. Assim, mesmo diante de todas as alternativas muito sensatas sugeridas por Tessai ele se decidiu que levaria seu plano a cabo.
CONTINUA...
Sim, sim, a coisa vai ficar complicada (pra todo mundo)!
Agradeço a todos que continuam acompanhando essa fic e de modo especial àqueles que têm mandado comentários: 8579, mary11, Hinalle e Sereia Lu. Espero que tenham gostado! O próximo pode demorar um pouquinho, mas eu nunca vou desistir dessa fanfic que gosto tanto de escrever!
Grande abraço a todos e tudo de bom!
Amanda Catarina
02-10-2016.
