Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Capítulo 15

– Está feito.

– Imaginei... E ela? Está bem?

– Claro que sim! Graças à minha hipnose, ela não sentiu e nem teve consciência alguma durante todo o procedimento. E claro que eu fui o mais cuidadoso possível, Tessai. Jamais faria algo que pudesse comprometer a saúde dela.

– Fisicamente ela pode estar bem, mas quando souber que foi usada como uma simples hospedeira, eu duvido muito que ficará bem.

– Daqui uma meia hora eu irei tirá-la do transe hipnótico. Precisaremos agir com naturalidade e distraí-la para que ela não tenha tempo de refletir no modo como esse dia passou. Nas únicas duas vezes que usei essa técnica com ela, quando contei o que tinha feito, ela confirmou que não se lembrava de nada, mas que de algum modo sentia que o tempo havia passado diferente, não conseguia discernir se tinha sido mais rápido ou mais devagar, mas sentia a diferença.

– Yoruichi-dono é muito observadora.

– Exatamente e é difícil hipnotizar com perfeição pessoas assim.

– Francamente, Kisuke, você foi longe demais dessa vez. E eu duvido que você não irá se arrepender disso algum dia.

– Até hoje, Tessai, eu sempre preferi me arrepender de algo que fiz ao invés de me arrepender de algo que deixei de fazer. Além disso, estou certo que por mais temerária que tenha sido essa medida, isso irá funcionar.

Tessai estreitou os olhos negros na expressão confiante do amigo e depois voltou a se concentrar na chaleira sobre o fogão, que começou a apitar ruidosamente naquele momento. Desligando o fogo, o grandalhão cuidou de coar o chá.

– É quase inacreditável como as circunstâncias convergiram para esse seu propósito insano. No plano original, a essa altura, era para a Yoruichi-dono ter voltado para a Austrália há vários dias, mas por causa dos assuntos do clã Shihouin, ela precisou ficar aqui por mais tempo. Se ela tivesse ido embora, você teria sido obrigado a encontrar outra mulher para carregar esse feto. Mas ela continuou vindo até aqui e você continuou alimentando a ideia de que tinha que ser ela a pessoa e aqui estamos. Será que agora que a coisa está feita você consegue me explicar porque tinha que ser ela?

– Não consigo, Tessai. Eu apenas sentia e ainda sinto que precisava ser assim.

– Mas isso não faz o menor sentido!

– Eu sei, mas vai funcionar, você vai ver.

– É bom que funcione mesmo.

Kisuke suspirou e repetiu:

– Vai funcionar.

Sem esconder seu descontentamento, Tessai perguntou:

– E agora? Qual o próximo passo?

– Agora eu preciso que esse feto madure por pelo menos duas semanas. Como ela mesma falou que terá que participar do Kanda Matsuri e isso será só no final do mês, então eu vou ter tempo de sobra.

– Daí, passado esse tempo, você vai fazer com que ela venha até aqui de novo, vai usar a hipnose de novo e vai destruir o feto?

– Passado esse tempo, eu vou colher os hormônios e remover o feto.

Tessai balançou a cabeça em negativa.

– Kisuke, você já parou para pensar que se você tivesse falado com a Yoruichi-dono, se tivesse jogado limpo com ela, ela poderia querer manter esse feto?

– Manter o feto? Mas que absurdo, Tessai! Uma gravidez para ela nessa situação seria no mínimo inconveniente.

– Por quê? Você gosta dela, vocês já foram um casal... Se você me dissesse que escolheu esse caminho como uma forma de reatar com ela, pelo menos isso seria uma justificativa.

– Não, Tessai. Manter o feto nunca foi minha intenção, foi por isso que eu usei a hipnose.

– Mas você vai ter mesmo coragem de destruir esse embrião? Ele é filho de vocês!

– Claro que não, Tessai! Um filho é um ser gerado por um casal e um ato de amor. Esse feto é uma ferramenta. Uma pequena centelha que daqui alguns dias irá se apagar, mas graças a isso eu vou conseguir produzir um antídoto que irá fazer nossos amigos voltarem ao normal.

– Pois você devia ter encontrado outra maneira.

– Ora, seja justo, Tessai! Você viu que eu tentei de tudo! - exclamou exaltado. – Se eu conhecesse uma forma de induzir a mesma produção de hormônios sem que o feto fosse necessário, claro que eu teria feito isso. Raios! Inúmeras crianças não chegam a nascer e a Terra continua girando apesar disso. Não entendo porque todo esse sentimentalismo!

– E eu não entendo aonde foi parar seu respeito pela vida. Ou será que estudar de mais te fez esquecer que há tanta vida nesse embrião como um dia houve em mim e em você?

– Você está tentando despertar meu lado emocional, mas não perca seu tempo.

– É, já deu pra perceber que é perda de tempo mesmo - rebateu o grandão e depois ficou encarando o loiro com uma expressão reprovadora.

Kisuke então soltou um curto suspiro, pegou uma das canecas com o chá e logo deixou o local.


Cidade de Spring Hill, Austrália, três semanas atrás.

– Você só pode estar louco, Kurosaki! Como acha que vamos conseguir tirar você desse hospital e ainda te colocar em um voo para outro continente?

– Eu só preciso que vocês me tirem daqui, Ishida! E tem que ser hoje! O voo é por minha conta! Meu pai tem um amigo que depois que se aposentou na aeronáutica abriu uma companhia de táxi aéreo e esse sujeito deve uns favores para o meu pai.

– Companhia de táxi aéreo uma ova! - ralhou Tatsuki. – Quando muito aquele velho bebum tem um monomotor caindo aos pedaços! Você nunca vai chegar à Espanha se depender do velho Shiba, Ichigo! Nunca!

– E por acaso você tem alguma ideia melhor, Tatsuki?

– Tenho sim! Que tal você se contentar em viajar só na maionese e ficar bem quieto aí no seu canto, seu sem noção?

Ichigo chegou a rosnar para a amiga de infância com fúria no olhar.

– Kurosaki-kun, por favor, não fique assim tão nervoso. A Tatsuki-chan pode estar certa...

– Não vem com essa você também, Inoue! - cortou o ruivo. – De que lado você está?

Orihime se angustiou, mas antes que ela desse uma resposta, Sado se manifestou:

– Supondo que a gente consiga que você seja liberado hoje, Ichigo, como você poderia ajudar a tenente Kuchiki com a perna machucada desse jeito?

– Minha perna não está quebrada, Chad. E a ferida já está cicatrizando! Sei que consigo andar com as muletas. E outra: para deter aqueles caras, eu não preciso andar perfeitamente, só preciso de uma arma carregada.

– Ah, claro! - zombou Uryuu. – Agora você quer sair do país sem um visto de viagem, em um monomotor e ainda carregando uma arma ilegal! Quer saber, Kurosaki? Eu vou chamar a enfermeira, porque você está precisando de um sedativo, isso sim!

– Eu pensei que podia contar com vocês, mas se vão ficar aí me dando sermão podem caçar o rumo de casa! Porque nem que eu tenha que me arrastar daqui até a Espanha, não vou desistir de ir atrás da Rukia! - vociferou ele.

Sado se aproximou e fitou o hospitalizado nos olhos por alguns instantes.

– Ichigo, para que isso dê certo, a primeira coisa que você precisa fazer é parar com esse berreiro. Não faz sentido bolar um plano que até os faxineiros do hospital estão ouvindo.

Ichigo silenciou e sustentou o olhar penetrante do amigo.

– Chad, meu chapa, eu sabia que podia contar com você!


Cidade de Las Noches, Espanha.

Após ter deixado seus subordinados esperando por mais tempo do que seria necessário, Sousuke Aizen adentrou o salão no qual seus soldados estavam reunidos ao redor de uma ampla mesa oval. O cego Kaname Tousen, braço direito de Aizen, ocupava o lugar à direita do líder e o idoso Baraggan, o da esquerda. Do lado de Kaname estavam Halibel, a única mulher do grupo, seguida de Ulquiorra, Stark, Nnoitra e Aaroniero. Do lado de Baraggan estavam o grandalhão Yammy seguido de Yylfordt, Zommari e Grimmjow.

Aquelas dez pessoas eram os mais fortes soldados de Sousuke, que os identificava como "Os Espadas". Halibel era loira e tinha a pele bronzeada. Ulquiorra, um moreno miúdo e franzino. Nnoitra também tinha cabelos escuros e era extremamente alto e muito magro. Stark tinha porte esguio, olhos e cabelos castanhos e usava cavanhaque. Aaroniero mantinha o rosto oculto sob uma exótica máscara. Yylfordt era loiro de cabelos longos e tão esguio como Stark. Zommari era negro, alto e musculoso. E Grimmjow, com seus chamativos cabelos pintados de azul claro, tinha um porte atlético e musculatura bem delineada.

– Lamento tê-los feito esperar... - foi a saudação sarcástica com que Sousuke brindou seus subalternos.

– Quase uma hora sem comida, ou breja, nem mesmo um chá... Quem iria achar ruim? - reclamou o grandalhão Yammy.

– Que descuido, Kaname. Dá próxima vez, por favor, mande servir chá.

Kaname manteve sua expressão impassível e nada disse em resposta.

– Diga-me, Yylfordt, já se familiarizou com seu novo grupo desde que herdou o posto do seu falecido irmão Szayel?

– Sim, Aizen-sama! E espero atender vossas expectativas melhor do que meu irmão o fez!

– É de grande importância para o seu futuro que assim seja, visto que seu irmão só me trouxe desgosto.

O loiro engoliu em seco e suportou os olhares zombeteiros dos colegas ao redor.

– E quanto a você, Halibel? Sente-se feliz com seu novo posto? Nos apontamentos de Kaname, você tem tido pontuações bem melhores que as de Neliel...

– Neliel nunca mais foi a mesma depois que o Quinto Espada a espancou covardemente. Tanto que ela está desaparecida e provavelmente morta.

– Quando acabarmos aqui, Terceira Espada, posso te mostrar o quão covarde fui com ela e quem sabe esse seu posto não fica vago outra vez!

Sousuke fez um gesto e logo Nnoitra se calou.

– Pois muito bem, chega de delongas... Imagino que estejam ansiosos pelo que tenho a dizer, ainda que o velho Baraggan já deva ter lhes adiantado do que se trata a operação, por isso, minhas ordens serão muito sucintas.

O líder fez uma longa pausa de modo a atiçar ainda mais a curiosidade dos subordinados.

– Sobreviver é a única regra. Tudo com que poderão contar são suas armas e suas capacidades físicas sobre-humanas. Estarão sendo observados por seus futuros empregadores. Melhor dizendo seus futuros donos. Podem ter alguma satisfação em saber que aqueles que se destacarem, seja pelo número de mortes alcançado ou pelo simples fato de não morrerem, serão disputados em leilões pelos maiores grupos terroristas do oriente e do ocidente. Se nenhum sobreviver, terei que arranjar outro meio de pagar minhas contas... Mas eu não apostaria em um resultado tão negativo, pois tenho confiança, não em vocês é claro, mas na toxina que criei e que os fez serem os soldados imbatíveis que são hoje.

– Simples e direto - comentou o homem de cavanhaque.

– Seria bom se o local da treta pudesse ser limpo antes das lutas - disse Grimmjow. – Nada pior do que brigar num lugar cheio de crianças e otários que se acham valentões.

– Você é um Espada, Grimmjow, e tem sob seu comando uma quantidade razoável de soldados Numeros, todos devidamente munidos com as melhores armas do mercado negro. Libere-os e eles limparão Las Noches pra você, transformando essa cidade num deserto repleto de almas penadas. Não pense duas vezes se isso lhe fará mais eficiente contra quem realmente importa.

– Com todo respeito, Aizen-sama... - manifestou-se o franzino Ulquiorra. – Eu gostaria de entender o que os soldados de Genryuusai têm de tão especial assim? Não são apenas policiais comuns? Mesmo fisicamente eles não podem ser páreo para nós.

– O que eles têm de especial, Ulquiorra, é o mesmo que vocês têm: um líder. Podem ser apenas policiais comuns, mas sob o comando daquele velho, eu garanto que eles se mostrarão adversários à altura de vocês. E ainda que eu esteja completamente enganado, não me incomodo de ter as cabeças daquelas pessoas como troféus.

Após outra longa pausa, Sousuke continuou:

– Além disso, não se superestimem. Um tiro na cabeça ainda é capaz de matar a maioria de vocês. E se tem uma coisa que Genryuusai pode se gabar com relação aos soldados dele, além da exagerada devoção que lhe dedicam, é que até os mais novatos são realmente bons atiradores.

– Mesmo assim eles não terão a menor chance! - gabou-se Nnoitra.

– Assim espero, Quinto Espada. Assim espero... Porque eu realmente não poderia ter pensado em uma forma melhor de divulgar meus experimentos do que com a ruína e a desmoralização de uma lenda viva como Genryuusai.

– Com um pouco de sorte, o senhor em pessoa poderá dar cabo da vida desse homem, Aizen-sama - incentivou Tousen Kaname.

– Devo admitir que essa ideia soa-me bastante agradável, Kaname. Bastante agradável mesmo.


Espaço aéreo europeu, nos arredores da Espanha.

Depois de ter deixado o pequeno cubículo do banheiro do avião, Shunsui Kyouhaku se dirigia a seu assento, mas antes de se acomodar ele deu uma boa olhada em sua equipe formada pelos oficiais Soifon, Gin, Rukia, Renji, Komamura, Iba, Zaraki, Ikkaku e Yumichika.

Renji e Rukia eram os mais jovens da equipe, seguidos de Ikkaku e Yumichika. Ikkaku tinha a cabeça completamente raspada, à moda dos monges tibetanos e Yumichika era bastante andrógino com os cabelos escuros cortados em um chanel curto. Komamura, Iba e Zaraki eram veteranos e os três tinham porte robusto e eram altos. Komamura tinha os cabelos já bastante grisalhos, porém uma expressão mais jovial que a de Zaraki que exibia uma vasta cabeleira negra e comprida, mas tinha o rosto marcado por profundas linhas de expressão. Iba era mais novo que os dois, tinha cabelos escuros e usava um topete antiquado. Kyouhaku conhecia bem as aptidões de cada um deles e estava confiante que fariam um bom trabalho.

– Que pistola tão diferente é essa, capitã Soifon? - questionou Rukia, observando atentamente um revólver dourado de cano alongado e estranhamente fino.

– Lembra um ferrão de abelha, não lembra? Por isso eu a chamo de Suzumebachi. Uma arma extremamente covarde por ser uma arma química. Suas balas são envenenadas. Um disparo paralisa o alvo, dois disparos é fatal.

– A senhora está dizendo que quem leva dois tiros dessa arma, morre?

– Exatamente. O veneno dela se espalha pelo sangue e um segundo tiro leva o organismo a um colapso generalizado. Sinceramente, espero não ter que usar isso. Mas os relatos que o capitão Kyouhaku nos repassou são alarmantes. Os homens de Aizen têm matado indiscriminadamente crianças, mulheres, velhos, ninguém é poupado. Contra bandidos assim - ela fitou a própria arma - uma monstruosidade como a Suzumebachi torna-se quase justificada.

– Não fique com essa cara tão chocada, Rukia-chan. Estamos a caminho de uma batalha de verdade. Não será nada bonito.

– Não me chame assim, capitão Ichimaru! E não me trate como criança!

– Longe de mim, tenente Kuchiki. Por que eu faria isso? - provocou Gin.

Rukia cerrou os punhos, mas antes que ela soltasse um impropério, o andrógino Yumichika tomou a palavra:

– O senhor vai me desculpar, capitão Ichimaru, mas há controvérsias quanto a uma autêntica batalha não ser algo bonito de se presenciar.

– Ah, sim... Eu sempre esqueço o quanto você, Yumichika, e seu colega Ikkaku, fiéis acólitos da nossa máquina mortífera, Zaraki Kenpachi, adoram um tiroteio.

Yumichika deu um riso em sinal de concordância. Instantes depois, Renji trocou um olhar com Rukia e disse:

– Eu só espero que você esteja preparada para atirar para matar, Rukia.

– Você me dizendo isso, Renji? Pois fique sabendo que eu sempre estou preparada. E pelo que me consta quem se afastou das caçadas e engavetou a arma foi você.

A troca de olhares entre Renji e Rukia não passou despercebida por Soifon, mas ela logo conseguiu diluir o ciúme em relação ao companheirismo daqueles dois, pois era notório que a preocupação que um demonstrava pelo outro era a mesma de dois irmãos.

– Pois pode estar tranquila que minha mira continua tão certeira como nos velhos tempos, Rukia! - assegurou Renji.

– Isso deve ser verdade... - Ikkaku se intrometeu na conversa –, porque quando você era do nosso departamento, Abarai, você não desperdiçava um tiro!

– E é só por isso que ele está aqui, Madarame - intrometeu-se também Kyouhaku.

Todos voltaram seus olhares ao oficial em comando.

– Caso ainda não tenham deduzido pela leitura dos relatórios que não param de chegar, tudo indica que os lacaios de Aizen são autênticos... Mutantes. Sabem? Como esses personagens dos filmes nos cinemas hoje em dia. Tenho aqui uma boa evidência disso. Nessas fotos vemos esse grandão sendo baleado mais de uma vez e, horas mais tarde, o mesmo sujeito está no foco dos novos conflitos, como se nada de mais tivesse acontecido. Ou eles estão usando alguma malha muito fina sob as roupas ou a própria pele deles foi geneticamente modificada.

– Esse é o mesmo patife que quase quebrou minha perna! - exclamou Soifon.

– Mas, capitão, uma mutação genética na pele? - questionou o comedido Komamura. – Isso é mesmo possível? Digo, em pessoas adultas?

– Me diga, meu caro capitão Komamura, o que não é possível desde que a humanidade passou a controlar o fogo?

Komamura apenas gesticulou em sinal de rendição, então o líder continuou:

– É certo que Aizen mantinha laboratórios clandestinos nos quais levava a cabo todo tipo de experiências com cobaias humanas. E todos sabem que os oito membros da nossa equipe de narcóticos foram vítimas de uma experiência desumana e que eles sofreram mutações antes de suas mortes.

– A morte dos nossos colegas foi confirmada? - questionou Iba.

– De acordo com a doutora Unohana, no estágio que a contaminação estava antes de eles serem sequestrados por Urahara Kisuke é improvável que eles ainda estejam vivos.

– Então nossa retaliação será por eles também - comentou Rukia.

– Se isso servir de incentivo, vocês podem considerar que sim.

– Ainda não ficou provado que foi Urahara quem os levou, capitão Kyouhaku - alfinetou Gin.

– Não tem como ter sido outra pessoa, Ichimaru - Kyouhaku rebateu entredentes, sem camuflar seu desagrado. – Mas por hora isso não está em discussão.

Após alguns instantes de silêncio, Kyouhaku continuou:

– Antes que desembarquemos, o que não vai demorar muito agora, eu quero que tenham em mente que não aceitarei ações isoladas e fora do planejado. Ainda que fiquemos dispersos, essa equipe trabalhará como um único organismo. Fui claro?

– Sim senhor! - todos clamaram juntos.

– Tenente Kuchiki, capitão Kenpachi estarei de olho em vocês.

Rukia assentiu, sem conseguir esconder o rubor nas bochechas, e Zaraki, irreverente, deu de ombros.

– Apenas me arranje uns marmanjos para eu estourar os miolos que tudo ficará dentro do seu meticuloso planejamento, Shunsui.

– Ao que tudo indica oponentes para você saciar sua sede de sangue não irão faltar, Kenpachi.

Voltando-se aos demais, Kyouhaku anunciou:

– Pois muito bem vocês conhecem o risco e sabem que estarão lutando por uma causa justa. Se perderem suas vidas, terá sido cumprindo o juramento que fizeram ao se tornarem agentes da lei. É nossa responsabilidade livrar esse país de Aizen e de seus mutantes. Viemos até aqui para arrastar todos eles de volta para nossa terra, algemados ou em caixões. E, para mim pelo menos, a segunda opção goza de preferência.


Em um hotel de beira de estrada, cerca de vinte quilômetros da castigada cidade de Las Noches, Genryuusai fazia uma precária refeição, enquanto aguardava pelo retorno dos oficiais Shuhei e Izuru, os quais se encaminharam ao aeroporto internacional para encontrar os outros membros da força tarefa australiana. Foi então que a tela do notebook logo a seu lado sinalizou uma chamada e ele logo atendeu.

"Bom dia, capitão-comandante. Aceite minhas desculpas pela demora em retornar sua chamada. As coisas por aqui ficaram bem tumultuadas nas últimas horas."

– Não há do que se desculpar, Juushirou. Eu imagino que não deve estar sendo fácil para você tomar conta desse departamento sozinho.

"Isso é verdade... Mas ainda que eu reconheça que estou sendo mais útil aqui, claro que eu preferiria estar aí com o senhor nesse momento."

– Eu sei. Diga-me, Juushirou, você continua procurando por Urahara Kisuke?

"Sim, capitão-comandante. Tenho estado à procura dele, mas é como se ele tivesse desaparecido da face da terra."

– Não me admira que alguém com a sua experiência esteja tendo dificuldades para encontrá-lo... Mas saiba que a pessoa que tem acobertado o paradeiro de Urahara entrou em contato comigo e quando eu lhe disser de quem se trata, as peças desse seu quebra-cabeças irão se encaixar.

Juushirou aguardou pela informação em reverente silêncio.

– Kuchiki Ginrei.

O veterano captou a surpresa na expressão do leal subordinado.

"Ah, com certeza isso explica muita coisa."

– Exatamente. Ginrei, o neto dele e a oficial Shihouin os três têm trabalhado em conjunto para acobertar Urahara.

"Da Shihouin eu cheguei a suspeitar, mas o Byakuya é uma surpresa. Os dois trabalhando juntos? Não, não tinha como eu imaginar isso. Eles conseguiram me enganar direitinho."

– Não se martirize. Ginrei é o homem mais dissimulado e mais astuto que já conheci, mas o que realmente importa é que ele me garantiu que aquelas pessoas ainda estão vivas. Disse que Urahara conseguiu estabilizar a condição delas e que tem trabalhado em busca de uma cura.

"Puxa vida... E será que isso é mesmo possível? A doutora Retsu foi categórica em afirmar que os dias deles estavam contados, tanto que Shunsui já os considera mortos. E ele quer a cabeça de Urahara porque acredita que ele está fazendo experiências com os cadáveres."

– Esse também era o meu medo, mas Ginrei me convenceu que eles estão vivos com vídeos e imagens que duvido muito serem forjados, porém ele me pediu que eu mantivesse tudo isso em sigilo.

"Entendo... Mas então essa é uma boa notícia, não?"

– Ainda não estou certo.

"Então o que o senhor quer que eu faça em relação a Urahara, capitão-comandante?"

– Embora eu mesmo não consiga acreditar que Urahara seja capaz de curá-los, Ginrei não é o tipo de pessoa que faz apostas erradas. Ele me pediu que deixasse Urahara trabalhar em paz por mais algum tempo, então em consideração a ele é isso que nós iremos fazer. Depois que Aizen for detido, decidiremos a sorte de Urahara.

"Sim senhor!"


Tóquio, Japão, dias atuais.

Yoruichi permaneceu dentro da limusine mesmo depois do motorista ter aberto a porta para ela, então o rapaz se inclinou para dentro do veículo e perguntou:

– Algum problema, Shihouin-sama?

– Não... - respondeu ela e então se moveu.

Conforme caminhava vagarosamente em direção ao salão principal da mansão que lhe servia de morada nas últimas semanas, por mais de uma vez, Yoruichi observou o pequeno relógio de pulso, inexplicavelmente intrigada com a posição dos ponteiros. Ela sentia que algo não estava certo, mas não compreendia o porquê disso.

Assim que ela adentrou o salão de estar, Byakuya veio a seu encontro.

– Você demorou...

– Como assim demorei? Ainda não são nem sete horas...

– Mas você disse que não iria demorar hoje.

– Eu disse? Então acabei me distraindo por lá e perdi a noção do tempo.

Byakuya se aproximou e a mediu de alto a baixo.

– Tudo bem com você?

A morena fez que sim com a cabeça.

– Mas está um pouco pálida... - ele pousou uma mão no rosto dela. – Por acaso teve outro mal estar?

Yoruichi saiu de lado e veio se sentar em uma das largas poltronas ali.

– Claro que não. Não senti enjoo, nem vomitei, nem quis comer nada bizarro... Quantas vezes vou ter que dizer que o que me fez passar mal naquela festa foi o camarão, e não o bebê?

Byakuya se sentou na poltrona ao lado da que ela estava.

– Isso eu já entendi, mas sabia que, apesar da sua alergia a camarão, é bem possível que a gravidez também tenha contribuído para que você ficasse tão debilitada como ficou naquele dia? Porque eu estive lendo sobre o assunto e soube que as mulheres passam por mudanças muito drásticas quando estão grávidas.

– Você? Lendo sobre gestações?

Byakuya assentiu e rebateu:

– O que tem de mais?

– Ah, desculpa se eu não consigo me acostumar com o fato de estar esperando um bebê com a mesma rapidez que você! - exclamou exaltada. – Vai ver é porque minha vida resolveu dar giros de 180 graus a cada cinco minutos e isso é meio estranho pra mim!

– Que exagero...

– Exagero? Exagero nenhum! Não faz muito tempo, Byakuya, que nós dois brigávamos até pelo mesmo pedaço de bolo e agora estamos dormindo juntos e você fez um filho em mim!

Byakuya soltou uma risada bem humorada.

– Não fiz nada sozinho. E na noite que isso provavelmente aconteceu você deve estar lembrada que eu...

Em um movimento rápido, Yoruichi tampou a boca dele antes que ele concluísse a frase.

– Eu sei que a culpa foi minha não precisa jogar na minha cara, tá legal?

Byakuya afastou só um pouco a mão dela dos lábios para em seguida virar o dorso da mão delicada para si e depositar um beijo ali.

– Não fique tão nervosa e tente se poupar de tanta exaltação. Não é nenhum fim do mundo que esteja grávida. Mesmo porque até onde eu sei você sempre quis ter um filho.

– Sempre quis, mas não sem planejamento e em um momento tão maluco quanto esse que estamos vivendo. Porque você bem sabe que agora nós vamos ter que estar casados antes que... - Byakuya interrompeu o discurso dela.

– Antes que sua barriga comece a aparecer, é claro. Mas não se preocupe, meu avô já está cuidando de tudo.

– Ah, claro que está. Como não imaginei isso antes?

Aborrecida, Yoruichi se endireitou na poltrona e cruzou os braços.

– Mas tirando o fato de que você ainda não conseguiu se acostumar com a ideia, está tudo bem mesmo? - ele insistiu.

– Sim, eu estou ótima! Nas baboseiras que você leu não dizia nada sobre gravidez não ser doença?

Percebendo que não adiantava pressioná-la, Byakuya resolveu se calar, então Yoruichi voltou a olhar com insistência para os ponteiros do relógio.

– Hoje o dia foi meio esquisito... - ela acabou falando em voz alta, mas queria ter deixado a frase apenas no pensamento.

– Esquisito? Como assim esquisito? - o timbre de Byakuya perdeu o tom descontraído que até então tinha.

Os dois se olharam e Yoruichi não soube como se explicar.

– O que aquele sujeito tem feito naquele lugar? - questionou ele. – Nossos colegas ainda estão vivos ou será que já se transformaram em monstros?

– Ih, não começa com essa sua implicância!

– Vá! Você fica fora o dia inteiro, chega aqui pálida feito papel, dizendo que o dia foi esquisito e não quer que eu me preocupe? Quantas vezes eu vou precisar pedir que você pare de ir até aquele lugar? Aquele mausoléu não pode ser saudável para você e muito menos para o nosso bebê!

Yoruichi suspirou cansada.

– Não há risco de contaminação, Byakuya. Pelo menos não enquanto eles estiverem nas câmaras. E claro que eu seria a última pessoa nesse mundo a arriscar a vida desse bebê. Apenas esqueça o que eu disse, tá legal?

Byakuya bufou.

– Se tem uma coisa que eu já percebi, Yoruichi, é que sugerir que você faça coisas sensatas é pura perda de tempo. Mas não tem problema, nossa estada aqui não se prolonga por mais que duas semanas agora. Se nesse meio tempo esse seu amigo ainda não tiver encontrado uma cura, você terá que acompanhar o desenrolar da coisa pela Web.

– Estou ciente. E quer saber? Mesmo eu não vejo a hora de voltar pra casa.

– Pois é muito bom saber disso.

Yoruichi recostou a cabeça no encosto da poltrona e o silêncio pairou entre eles por algum tempo.

– Vi agora pouco que você me copiou naquele e-mail que o oji-san mandou, mas eu não entendi nada. O que acontece agora?

– Nada grave, na verdade ainda são as mesmas picuinhas que nos obrigaram a ficar aqui todo esse tempo. Oji-sama estava explicando que à medida que os boatos sobre nosso casamento aumentam as ações tanto do meu clã quanto as do seu flutuam em alta e em queda anarquicamente.

– Mas isso faz sentido. Os acionistas não sabem quais empreendimentos serão fundidos ou quais serão descontinuados. Incerteza gera flutuação, nada de sobrenatural. E aposto que isso deve estar ocorrendo mais no ramo da tecnologia, onde nossa concorrência sempre foi mais acirrada, nos outros as ações devem estar indo bem, estou certa?

Byakuya se voltou a ela e assentiu com um ar surpreso.

– O que foi? - ela questionou.

– É bom ver que seu desinteresse pelos negócios é só uma impressão equivocada de minha parte.

– Você sempre me toma por uma irresponsável, não é? Programas sociais importantes dependem dos meus milhões, não posso me dar ao luxo de ser negligente. Mas se você tem a impressão que eu acho tudo isso um porre, está absolutamente certo.

Os dois silenciaram por alguns longos instantes.

– Quer que eu te leve para o quarto? Você parece exausta...

– Estou mesmo, mas não estou tão mal que não consiga andar. Se quiser me fazer uma gentileza, peça para a Keiko me preparar um suco de abacaxi bem gelado - tendo dito isso, Yoruichi se inclinou para dar um beijo no rosto dele e depois se levantou.

Enquanto ela se encaminhava para o quarto que os dois vinham compartilhando, Byakuya cuidou de providenciar o requisitado.


Arredores da cidade de Las Noches, Espanha, três semanas atrás.

A bordo de um monomotor, ao lado do piloto e único tripulante além dele mesmo na aeronave, Ichigo tentava controlar a opressiva ansiedade que o afligia. A distância tão longa que se encontrava de seu país, as tantas ilegalidades que cometera nos últimos dias, nada disso o inquietava, o que corroia sua alma era não saber se Rukia estava a salvo.

– Hey, Ganju, você tem certeza que estamos no lugar certo? Isso aqui mais parece um deserto! Eu preferia mil vezes ter vindo com o seu pai!

– Meu pai não atacando mais nada seu desbocado sem respeito! Ele tá com catarata nos dois olhos! Bem que o seu pai me avisou que eu ia precisar ter paciência com você, garoto. E claro que esse é o lugar certo! E aquela confusão ali na frente deve te convencer disso.

Olhando na direção que o piloto apontava, Ichigo pôde vislumbrar grossas colunas de fumaça produzidas por diversos focos de incêndios.

– Mas o que diabos está acontecendo lá?

– Parece uma guerra. Não era isso que você esperava?

– Não nessa proporção!

tá pensando que esse tal de Aizen brinca em serviço? O cabra é bicho ruim mesmo! Ah, eu já estava esquecendo... Seu pai me pediu pra te entregar isso... - disse o piloto e apontou uma caixa de papelão.

– O que tem aí?

– Abra e veja, seu folgado!

Rolando os olhos, Ichigo abriu a caixa e se deparou com uma pistola de calibre médio cuja coronha era trabalhada, sendo metade em preto e metade em branco.

– Fala sério... Por que ele quer que eu use isso? Esse revólver deve ter uns duzentos anos! Não preciso dessa coisa, eu já tenho uma arma!

– Uma arma que você mal consegue destravar. Essa pistola se chama Zangetsu. E se o seu pai acha que você vai precisar dela, é melhor você confiar nele.

– Zangetsu? - Ichigo pegou a pistola na mão e ficou observando-a por alguns instantes. – Pra que dar um nome para uma arma? Aquele maluco tem cada ideia...

Ganju ficou encarando Ichigo que ao perceber acabou desviando o olhar e logo meteu a pistola dentro da mochila.

– Coloque o cinto e sente-se direito. Vamos pousar.

– OK! - rebateu o jovem e para si mesmo acrescentou em um tom mais baixo: – Aguenta firme, Rukia. Eu chegando!

CONTINUA...


O quebra-pau será no próximo capítulo! E o confronto Aizen x Genryuusai também! Não percam! Quem está revoltado com o Kisuke levanta a mão!

Bom, dessa vez eu avisei que iria demorar... Lamento informar que as atualizações da fic continuarão a serem esparsas enquanto eu estiver cursando a faculdade.

Desejo boas festas a todos e eu espero que tenham gostado! Comentários serão muito bem vindos!

Grande abraço e até a próxima!

Amanda Catarina

26-12-2016.