Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.
Vítimas do Dever
Por Amanda Catarina
Capítulo 16
Tóquio, Japão, dias atuais.
Yoruichi abriu os olhos lentamente assim que Byakuya endireitou a postura, depois de ter-lhe dado um beijo na bochecha.
– Sente-se melhor? - perguntou ele, sentado ali na cama ao seu lado.
– Bem melhor... - ela confirmou e em seguida comentou: – Parece que eu comemorei cedo demais que eu não ia ter esses malditos enjoos.
Byakuya não disse nada e ficou apenas olhando para ela, com a expressão imperturbável que lhe era tão típica.
– Conseguiu falar com o capitão-comandante? - ela perguntou um tanto encabulada com aquele olhar tão atencioso dele em si.
– Não e nem foi necessário. Ojii-sama já conversou com ele e explicou porque nós ainda não voltamos ao trabalho.
– Fico pensando se quando voltarmos para casa, não vamos precisar de um curso de reciclagem para reaprendermos a ser policiais... - queixou-se ela.
– Agora falta pouco. O Kanda Matsuri é nosso último compromisso aqui.
– Assim espero...
Byakuya se inclinou novamente, dessa vez para selar de leve os lábios dela.
– Não fique se esforçando à toa. Farei o possível para voltar o quanto antes, mas se as dores piorarem, me manda uma mensagem que despacho uma enfermeira pra cá.
– Seu exagerado! Isso não vai ser necessário... É sério, já estou melhor! Tanto que estou querendo ir com você. Isso mesmo, se me der dez minutos eu me arrumo rapidinho e vamos juntos.
– Seus dez minutos sempre acabam virando trinta. E eu acabei de dizer que você não tem que exigir tanto de si mesma. Não se preocupe, vou resolver isso no melhor estilo Kuchiki.
– Sei... Com a sutileza de um carrasco.
Byakuya não negou, apenas sorriu discreto e depois se levantou. Ele foi até o closet, abriu uma das portas na qual havia um espelho e diante da imagem refletida, ajeitou melhor os cabelos e repassou o nó da gravata.
Yoruichi ficou o observando, ela apreciava aquele jeito vaidoso dele e não pôde deixar de reparar no quanto ele estava atraente com um conjunto social cinza grafite.
Depois de ter checado os papéis em uma pasta executiva, Byakuya se voltou a ela e disse:
– Não fique o dia inteiro nesse computador.
– Ih, para de ficar me dando ordens e vai logo de uma vez!
Ele apenas a encarou com sua expressão inexpressiva, mas antes de deixar o quarto tornou a intimar autoritário:
– Trate de repousar.
Instantes depois, Yoruichi se sentou na cama e, nada obediente, puxou para si o notebook que estava ali ao lado.
– Ai, céus... Que vontade de vomitar... Ninguém merece... Por que a parte difícil dos trabalhos sempre fica para as mulheres? Os homens que deviam carregar os bebês!
Quando o notebook iniciou Yoruichi percebeu a notificação de uma chamada de vídeo.
– Da Kukkako? O que será que ela quer?
Yoruichi não retornou a chamada de imediato, esperou algum tempo para ter certeza de que Byakuya já teria deixado a casa. Então quando a imagem da amiga ficou nítida na tela do notebook ela falou:
– Hey, você me ligou?
"Hi! Há quanto tempo! Liguei sim. Imaginei que ninguém iria suspeitar de duas amigas conversando pela Web. Certo?"
– Ah, mesmo que alguém suspeitasse, agora que pegamos o desgraçado do Aizen acabou o sigilo.
"Entendi. Então... Eu queria saber do pessoal, mas tive receio de ligar para o Kisuke."
– Vocês dois não têm se falado por esses dias?
"Não. A última vez que falei com ele foi naquele dia que ele fugiu aí para o Japão."
– Tanto tempo assim? Então ele deve estar com saudades de você.
"Bobagem..."
– Não é bobagem, Kukkako. Ele gosta muito de você, sabia?
"Gosta nada! A minha desgraça é saber que ele nunca superou você."
– Nada a ver... Eu sei muito bem de quem ele gosta e não é de mim - ela enfatizou o final da sentença.
"Que papo estranho... Mas já chega de falar do Kisuke, tá legal? Não ouviu? É dos nossos amigos que eu quero saber!"
Yoruichi suspirou fundo antes de voltar a falar.
– Pois a situação deles é bem desanimadora... Hiyori, Shinji e Kensei não têm mais rostos, apenas máscaras horríveis no lugar.
"Máscaras? Como assim?"
– É um tipo de máscara feita de ossos e músculos. Ela irrompe da pele e recobre o rosto inteiro. Eu acho que tenho umas fotos impressas aqui... Achei... Dá uma olhada.
"Meu Deus do céu! Que monstruosidade! Como uma coisa assim foi acontecer, Yoruichi?"
– Pelo o que o Kisuke explica esse é o efeito colateral da droga que o Aizen injetou neles. Essa deve ter sido a primeira versão dos experimentos. Você já soube dos detalhes, não soube?
"Sim, a Soifon me inteirou de tudo sobre o Aizen, mas em relação a eles ela não sabe de nada também. Mas então a condição deles é crítica assim e o Kisuke acha que ainda tem volta?"
– Claro! Mas como ele vai conseguir isso eu não faço ideia... Não sei se vai ser com cirurgias, mas o tempo todo ele fala que precisa fabricar uma vacina. Enfim, você sabe como ele é... Não dá pra gente como a gente acompanhar.
"Isso é verdade."
Um silêncio solene se prolongou entre as duas.
"Yoruichi, você tá legal? Tô sentindo você um pouco esquisita."
A investigadora deu um riso estreito.
– Não dá pra ficar legal com tudo isso, Kukkako. Quero acreditar no Kisuke, mas não tem como não pensar que a situação esteja fora de controle.
Após outra prolongada pausa, Kukkako retomou:
"Entendi... Mas então me conta: Como está sendo passar todos esses dias com o Byakuya? Vocês devem estar brigando feito loucos! Como nos velhos tempos, hein?" - alfinetou e deu uma risada escrachada.
Yoruichi mordeu o lábio inferior.
– Até que não... Afinal de contas, isso aqui não deixa de ser um trabalho e Byakuya é o próprio profissionalismo em pessoa.
Surpresa com a resposta, Kukkako meneou a cabeça.
"O que? Não me diga que estão se entendendo bem?"
Yoruichi não respondeu.
"Ei! Qual é? O que você está escondendo de mim, hein?"
– Fala sério... Parece que você tem um radar para detectar as coisas, mulher. Nunca consigo esconder nada de você! Mas quer saber? Acho que estou precisando conversar com alguém sobre as coisas malucas que tem acontecido por aqui...
"Pois então fala de uma vez!"
– É que eu... - a investigadora hesitou e acabou se calando outra vez.
"Desembucha, Shihouin!"
– Tá bom... O que acontece é que eu meio que estou noiva do Byakuya.
"Você o que?" - a outra rebateu em um grito.
– Ah, você ouviu...
"Você? Noiva do Byakuya? Do Kuchiki Byakuya?... É sério isso, Yoruichi?"
– Eu disse que eram coisas malucas...
"Meu Deus, o Kisuke vai ficar arrasado... Ele já sabe?"
– Não falei nada com ele. E mesmo que tivesse falado, ele não iria ficar arrasado coisa nenhuma! Será que é tão difícil assim entender que eu terminei com ele naquela época antes que ele terminasse comigo.
"Até hoje eu não entendo porque você insiste que ele teria terminado com você."
– Teria sim, era só uma questão de tempo. Mas deixa o passado pra lá, Kukkako. Estou com o Byakuya agora e até que enfim o Kisuke é uma página virada na minha vida.
"Está tentando me convencer ou a si mesma?"
Yoruichi pestanejou antes de rebater.
– Pois para sua informação eu fui apaixonada pelo Byakuya antes de gostar do Kisuke, mas sempre foi tabu para mim uma mulher mais velha se relacionar com um cara mais novo. Só que, na viagem pra cá, Byakuya partiu pra cima de mim de um jeito que eu... Não tive como resistir.
Kukkako permaneceu em silêncio, processando aquelas revelações.
– Embora não pareça, eu e Byakuya sempre fomos muito ligados. Crescemos juntos e mesmo em meio às brigas nunca conseguimos ficar longe um do outro.
"Okay, levando em conta o passado de vocês não fica assim tão absurdo. Eu me lembro daquela época dos churrascos nos clubes, naquele tempo minha família não estava na merda que está hoje, então sempre éramos convidados. Vocês dois faziam aquelas danças típicas do Japão, era meio engraçado, mas muito bacana também."
Yoruichi sorriu com a lembrança.
– O tempo passa tão depressa... Mas que papo é esse de que as coisas não vão bem pra sua família?
"Não vão mesmo, oras. Meu pai ainda não superou a morte do meu irmão e isso está nos arruinando."
– Entendo... Mas a morte do Kaien foi mesmo traumática.
"Pois é... Depois que Kaien se foi, o cabeça oca do Ganju não quis mais saber da academia de polícia e só com muita luta eu consegui matriculá-lo na escola de aviação e é disso que estamos vivendo hoje em dia. O aeroporto foi tudo que nos restou.
– Então já passou da hora de você assumir os negócios da família, Kukkako. E sabe que pode contar comigo no que precisar, porque se tem uma família com a qual os Shihouin sempre estarão em débito são os Shiba.
"Eu sei disso, mas meu pai é um homem das antigas e é difícil lidar com ele. Ele esconde as finanças de mim e diz para eu não me preocupar. Na cabeça dele as mulheres nasceram para serem sustentadas."
– Que situação...
"Pois é, mas você está fugindo do assunto... Por que vocês estão sendo tão precipitados assim? Casamento não é muito drástico?"
Yoruichi endireitou a postura e desviou o rosto para o lado.
– Tem que ser assim porque eu...
"Você o que, raios? O que ainda falta contar?"
– Porque eu estou grávida.
Quando Yoruichi voltou a olhar para tela, deparou-se com uma expressão abismada na face da amiga.
Arredores da cidade de Las Noches, Espanha, três semanas atrás.
Em uma região árida e acidentada mais para a periferia de Las Noches, Genryuusai e Sousuke se encaravam, cada qual ladeado pelos membros de suas respectivas equipes. Os policiais se apresentavam uniformizados com botinas e fardas de cor preta à moda dos militares - trajes apinhados de proteções, bolsos, amarras, munidos de diversificados armamentos e itens de primeiros socorros. Enquanto os soldados de Aizen exibiam trajes excentricamente peculiares constituídos basicamente de túnicas ou blusões, e calças largas do tipo hakama, tudo emtecidos finos e na cor branca.
De ambos os lados, os níveis da hierarquia tornavam-se notórios em pequenos adereços: Aizen usava uma fita vermelha ao redor da cintura e Genryuusai vestia um longo casaco por cima da farda e se apoiava em uma robusta bengala. Aquele que era o braço direito de Aizen, Kaname Tousen, também se distinguia exibindo um cachecol alaranjado caído sobre a veste, que lembrava uma batina de padre. Enquanto Shunsui Kyouraku, o imediato de Genryuusai, exibia por cima da farda negra um espalhafatoso quimono cor de rosa e estampado.
– Estou impressionado com a rapidez que você burlou a burocracia internacional, respondendo tão prontamente ao meu convite, comandante Yamamoto.
– E eu estou me lixando para isso, rapaz.
Sousuke sorriu e depois apontou para o sol a pino no céu.
– Antes do anoitecer você finalmente conhecerá o sabor de uma derrota, comandante.
– Veremos...
Então Aizen fez um gesto e, no instante seguinte, seus dez soldados saíram correndo em direções aleatórias. Apenas Kaname permaneceu ao lado de Aizen, como quem quisesse se certificar de que a artimanha havia surtido o efeito esperado nos policiais.
– Atrás deles! - ordenou o capitão-comandante e instantes depois apenas ele próprio e o líder dos fora da lei continuavam no local.
Aizen ainda encarava Genryuusai em uma postura atrevidamente altiva, então, o veterano girou a bengala na mão, efetuou uma rápida manobra e eis que o cano de um rifle ficou visível. No entanto, Aizen não pareceu surpreendido.
– Você me faz lembrar os pistoleiros dos filmes de faroeste e sua rapidez é algo que não deve ser menosprezada.
Sem dar resposta, Genryuusai simplesmente atirou.
A bala de largo calibre produziu um rastro de fumaça, voando veloz com rumo certo. No entanto, esse projétil jamais atingiu seu alvo, e apenas passou pelo local onde até poucos instantes Sousuke estivera e prosseguiu em uma trajetória retilínea até que a gravidade fizesse seu inexorável dever de trazê-la ao chão. Isso porque, momentos antes de o veterano atirar, Sousuke acionara um dispositivo que fez um alçapão se abrir momentaneamente sob seus pés e com isso ele escapou do disparo.
Genryuusai se aproximou e examinou a área, deslizando os dedos pela fresta quase imperceptível do alçapão selado e coberto de areia. Então, ainda abaixado, ele olhou ao redor.
– Parece que esse lugar não é apenas um espaço baldio, também é a sua base... - ele disse e em seguida se ergueu. – Tanta autoconfiança ainda vai te custar caro, Aizen.
Quando Rukia viu que entre os soldados de Aizen havia um mascarado, fixou sua atenção nele e assim que escutou a ordem do capitão-comandante, ela não pensou duas vezes e saiu correndo atrás do sujeito. Ficou tão focada na perseguição que só se deu conta que já não estava em espaço aberto quando a escuridão a envolveu, mas isso não durou muito. Fracas luminárias ganharam vida ao seu redor e então ela pôde enxergar novamente o mascarado.
– Você não vai escapar de mim, seu miserável... - ameaçou ela, apontando sua arma.
– Não era de você que eu estava tentando escapar, era daquele sol terrível... - a voz do bandido soara robótica, certamente distorcida por algum dispositivo acoplado na máscara. – Aqui é bem melhor e agora posso te mostrar meu rosto.
O criminoso removeu lentamente a máscara e quando Rukia avistou a face do sujeito, ela empalideceu de susto ao reconhecer a pessoa.
– Há quanto tempo, Kuchiki... Quatro anos se passam e você não cresceu um centímetro sequer! Vai ser uma nanica para sempre, hein!
A voz, a estatura elevada, os cabelos escuros e curtos, os arrebatadores olhos verdes, cada mínimo detalhe que ela guardava tão bem na memória estavam ali. Não podia ser um sósia, nem mesmo um gêmeo. Não fazia sentido, mas tinha que ser ele.
– Kaien-dono? - disse ela, com o coração disparado no peito, mas após alguns instantes de uma estupefata contemplação, ela balançou a cabeça em uma negativa nervosa. – Não, não pode ser! Onde estão os projetores? Isso tem que ser um truque!
O homem gargalhou alto.
– Projetores? Reconheço que você tem imaginação, Kuchiki.
Esforçando-se para controlar a tremedeira que a assaltou, Rukia exclamou cheia de raiva:
– Quem é você, seu demônio? Shiba Kaien está morto! Eu estive no funeral dele! Que brincadeira de mau gosto é essa?
– Mas é cada uma... Você não devia estar feliz em me ver, ao invés de estar aí berrando comigo, Kuchiki?
– Mas isso não pode ser verdade... - ela pestanejou. – Kaien-dono... É você mesmo? Como o senhor poderia estar vivo?
– Veja bem, baixinha... Voltar da morte é coisa que só acontece no cinema ou nos mangás. O que aconteceu comigo foi bem mais simples: eu não cheguei a morrer!
Desconcertada, Rukia retesou a postura.
– O seu tiro me pegou de jeito, é verdade, mas você deve se lembrar que já estava cheio de médicos no prédio. Eles me levaram ainda com vida para o Madison. Só que quando cheguei à UTI, Szayel já estava lá e ele me carregou para o laboratório do Aizen, deixando corpo falso no lugar. O sujeito tinha um físico parecido com o meu e com alguns retoques ficou mesmo com a minha cara! Além de mim, Aizen também queria ter sequestrado o capitão Ukitake, por causa da saúde complicada dele. Ele queria avaliar o que as drogas causariam em uma pessoa doente. Só que, naquela semana, o capitão estava afastado e era eu quem estava cobrindo ele.
– Espera... Você disse Szayel? Szayel Aporro Granz?
– O próprio! Tá informada, hein, Kuchiki!
– Sei disso porque quando esse cara foi morto, o capitão Ukitake me mandou investigar a cena do crime.
– Ah, entendi. Estou vendo que superou muito bem o trauma da minha morte e continua na ativa. Muito bem, Kuchiki!
Rukia enrubesceu, mas não teve tempo de dizer nada, pois o homem retomou seu relato.
– Szayel era um dos cientistas de Aizen e um dos responsáveis pelos experimentos. Ele era a Octava Espada. E agora que ele morreu, o irmão dele, Ylfordt Granz, ficou com esse posto.
– Octava Espada? - ela repetiu. – O que significa?
– Isso é espanhol e significa Eighth Sword. Quer dizer que no ranque dos dez soldados de elite de Aizen, Szayel ocupava a posição de número oito. Quanto menor o número, mais forte é o soldado.
Rukia encarava o homem muito atenta às informações.
– Sabe, Kuchiki, eu ainda me lembro do pavor no seu olhar e da dor que senti quando a sua bala perfurou meu corpo. Foi difícil para você contar para os meus irmãos que você tinha me matado? Você que na época não passava de uma sargento, detonando um tenente condecorado como eu.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Rukia.
– Eu não tive escolha... O senhor tinha ficado louco! Você mesmo me pediu para fazer aquilo... Mas eu não queria ter atirado! - exclamou atormentada.
– É verdade, é verdade... Aquela toxina me deixou muito doido e fora de controle. Matei várias pessoas antes de você me parar, sabia? Claro que você fez a coisa certa. Não estou chateado!
Rukia precisou de alguns instantes para se recompor, então depois de enxugar os olhos, ela perguntou:
– Então desde aquela época Aizen já fazia esses experimentos?
– Claro que sim! Eu devo ter sido a primeira das cobaias dele.
– Aquele desgraçado... - ela praguejou de punhos cerrados.
– Não fique tão cheia de ódio assim, Kuchiki. Aizen é um crápula com toda certeza, mas foram as experiências dele que me colocaram de volta à ativa e hoje estou muito mais forte! Ele até me deu um novo nome, sabia? Agora eu sou Aroniero Aruluere, a Nona Espada - disse e ergueu a franja do cabelo para exibir uma pequena tatuagem negra do número nove no alto da testa.
Rukia pestanejou e se sentiu perdida.
– Eu sabia que a máscara iria te atrair. Você sempre detestou os mascarados! Aqui nesse lugar estamos fora da vigilância de Aizen e poderemos bolar um plano para pegá-lo desprevenido. Vai ser épico, né, baixinha? Como nos velhos tempos...
– Então o senhor vai nos ajudar a prender esse bastardo, Kaien-dono?
Aroniero assentiu com veemência.
– Mas é claro, Kuchiki! Todo esse tempo eu tenho esperado por uma oportunidade como essa!
Rukia abriu um sorriso enorme e a emoção quase a fez chorar de novo, mas de alegria.
– Vem cá? - chamou Aroniero. – Vem dar um abraço no seu chefinho e comprovar que estou mesmo vivo.
Como uma criança atraída por seu super-herói favorito, Rukia caminhou depressa na direção do sujeito, mas assim que ela ficou a poucos passos de seu suposto oficial superior, em um rápido reflexo ela se esquivou de um golpe que poderia ter perfurado sua garganta e que assim cortou apenas seu rosto.
– Ho... Você andou treinando.
– Kaien-dono! O que significa isso?
Uma risada descontrolada e escandalosa foi a resposta do homem e diante daquilo Rukia soube que estava protagonizando novamente seu pior pesadelo.
Renji sentiu um calafrio de morte e interrompeu sua caminhada pelo largo corredor que seguia. Então, ele se voltou para trás.
– Não gostei dessa história da gente se separar... - ele falava sozinho, mas então alguém respondeu ao seu comentário.
– E tem toda razão em se preocupar com seus camaradas, policial, porque não vai demorar muito para que todos eles estejam mortos.
Dentro de alguns instantes o dono da voz apareceu ali, surgindo de uma abertura camuflada em um dos lados da parede. Renji reparou que se tratava de um rapaz loiro, alto e muito esguio. Sem dar resposta à provocação, ele sacou sua arma, apontou para o rapaz e disparou. Em resposta, o oponente cruzou os braços na frente do corpo, defendendo-se assim do tiro.
– Depois de todo aquele espetáculo televisivo que Aizen nos fez encenar, você ainda vem atirar em mim com uma arma comum e esperava obter algum resultado?
Renji engoliu em seco. Não foi nada animador comprovar em campo que os homens de Aizen eram de fato imunes a tiros. Enquanto ele meditava em como daria cabo daquele adversário, seus olhos não foram capazes de acompanhar a movimentação do sujeito, que num instante estava à sua frente. Ainda mais rápido foi o disparo que se ouviu.
O estouro do tiro reverberou no corredor extenso e se Renji não estivesse usando um colete à prova de balas, reforçado com uma camada de proteção extra, estaria morto. Ele foi arrastado para trás com a força do impacto e bateu as costas contra a parede, derrubando a própria arma. Depois, enxergou apenas o vulto do loiro se preparando para um segundo disparo. Reagiu então muito depressa e deu um chute no flanco do adversário.
O contra-ataque repentino conseguiu pegar o bandido de surpresa, porém não bastou para derrubá-lo, tudo que ele fez foi dar um salto para o lado, pressionando a região atingida.
– Você vai querer brigar no mano a mano comigo, policial? Pois vai perder feio!
– Perder de um magricela como você? Nem em mil anos!
O loiro deu um riso em provocação e depois meteu a arma na cintura. Na sequência, ele tomou impulso para tentar acertar uma voadora contra o policial, mas Renji alcançou depressa um item oculto em seu uniforme. Instantes depois, outro estampido seco ecoava pelo corredor. A voadora do bandido se desmanchou em pleno ar quando ele foi atingido por um tiro na testa e caiu de cara no chão.
– Ainda bem que não me desfiz de você, Zabimaru - Renji falou, olhando para uma pistola semiautomática em sua mão.
Inclemente e seguindo à risca a recomendação de seu oficial superior, Renji se aproximou do corpo tombado e disparou uma segunda vez na cabeça do bandido. Em geral, Renji não era tão temerário, mas as atrocidades que vira aqueles homens cometerem - em especial contra crianças -, inflamaram seu senso de justiça e ele se convenceu de que não deveria ter misericórdia de inimigos tão desalmados.
Alguns instantes depois, Renji virou o corpo com o pé e com isso a veste do sujeito se desalinhou, deixando à mostra uma tatuagem negra do número oito pouco abaixo do pescoço. Abaixando-se rente ao chão, ele puxou para si a arma do bandido e a examinou. Na coronha do revólver estava gravado o que parecia ser um nome: Ylfordt Granz.
– Granz... É o mesmo sobrenome do médico que foi assassinado.
Em seguida, Renji tirou fotos do corpo abatido, com destaque para a tatuagem, e as encaminhou para o capitão Kyouraku.
Antes de escolher uma edificação pela qual iniciar sua busca, Ichigo gastou alguns instantes apenas observando a área. Do avião, tudo parecia tão pequeno e amontoado, mas ali embaixo a realidade era bem diferente. Os focos de incêndio haviam sido controlados, mas muita fumaça ainda estava no ar e aquilo irritava a garganta e os olhos dele.
Seguindo a recomendação de Ganju, Ichigo mantinha a pistola automática empunhada e caminhava com toda a rapidez que a perna machucada lhe permitia. Graças aos conhecimentos de medicina de seu pai e alguns remédios manipulados pelo próprio, ele já conseguia andar sem as muletas, mas ainda mancava um pouco. Por inusitado que fosse ele não estaria ali, não fosse pela ajuda de seu pai. Suas vestes eram discretas: blusão escuro, jeans, um gorro, nas costas, carregava uma mochila e os pés estavam guarnecidos por um tênis de corrida. Mas tudo aquilo não passava de um vestuário improvisado que pouco contribuiria para sua proteção.
Tão sorrateiro quanto possível ele adentrou um dos prédios e após alguns poucos minutos seguindo por um corredor deparou-se com um ginásio. O local estava cheio de aparelhos de ginástica e de musculação e isso o distraiu, assim ele foi atingido de surpresa por um golpe extremamente violento que certamente lhe quebrou algum osso. Ele berrou de dor, simplesmente não conseguiu se conter, e desabou no chão, arfando.
– O que está fazendo tão longe de casa, garoto?
Endireitando-se da melhor forma que pôde, Ichigo encarou seu agressor. Era um rosto conhecido. O rosto do rapaz não muito alto, de olhos verdes e cabelos escuros, o mesmo rapaz que impedira o tal Grimmjow Jaegerjaquez de matar tanto ele como Rukia em Brisbane. Ele fez um esforço para se lembrar do nome dele, mas não conseguiu.
– Não me diga que veio para salvar sua garota de novo? Se for, saiba que dessa vez foi viagem perdida. Há essa hora ela já deve estar morta.
O tom de voz frio e arrastado do sujeito deixou Ichigo nauseado, mas ainda sim ele soprou entre dentes:
– Mentira.
– Como você não sairá vivo daqui, não terá chance de comprovar por si mesmo, mas talvez vocês se encontrem no outro mundo.
A dor aguda deixava Ichigo tão zonzo que ele teve a impressão de que um revólver simplesmente apareceu na mão daquele rapaz mais baixo que ele. Piscou duas vezes e constatou que não estava alucinando, o bandido estava mesmo apontando uma arma para ele.
Ficou tão estarrecido que paralisou no lugar. Ele se lembrava que também tinha uma arma na mão, além daquela que carregava na mochila, mas sua determinação foi demolida quando a certeza de que não havia mais tempo para qualquer reação cruzou seu entendimento. Então, ele pestanejou sem querer acreditar que aquele seria seu fim - seu estúpido e inútil fim -, e ele sequer veria Rukia uma última vez. Então, ele escutou o estalar do gatilho e só pôde esperar pelo disparo, mas o som que se ouviu foi outro e completamente diferente. Uma das prateleiras de halteres simplesmente veio ao chão, causando um ruidoso estrondo.
O rapaz dos olhos verdes se voltou velozmente para trás em tempo de se esquivar de um soco que se tivesse sido bem sucedido o teria derrubado.
– Grimmjow? O que pensa que está fazendo? - indagou o dos olhos verdes.
Abismado e boquiaberto, Ichigo observou quando o bandido de cabelos azuis aplicou uma voadora no suposto comparsa.
– Acha mesmo que pode comigo, Sexta Espada? - indagou o dos olhos verdes que de modo inacreditável havia bloqueado o golpe com apenas um braço.
– Você se acha invencível, né, Ulquiorra? Mas eu realmente duvido que você seja tão forte assim... - blefou o dos cabelos azuis, prevendo que o outro avançaria para um ataque direto com a afronta. E ele estava certo.
O dos olhos verdes avançou muito veloz, mas então Grimmjow acionou o botão de um pequeno controle remoto dentro do bolso de sua hakama e eis que uma larga vala se abriu sob os pés do rapaz de cabelos escuros, engolindo-o por completo.
– Hã? - exclamou Ichigo.
Movendo-se depressa, depois de ter fechado a vala, Grimmjow arrastou a estante derrubada para cima da abertura trancada e disse:
– Nada contra você, Ulquiorra! Mas você acabou ficando entre mim e minha presa, e esse é o tipo de coisa que predadores como eu não toleram.
– Mas que merda é essa? - berrou Ichigo. – Vocês não estão do mesmo lado?
– Che! Cala essa boca! E não precisa ficar tão animado porque o que acontece aqui é que a sua sentença de morte só está mudando de assinatura.
Soifon passara a maior parte da viagem de mais de vinte horas da Austrália até a Espanha estudando os dados acerca dos soldados de Aizen, por isso ela sabia que o oponente que enfrentava naquele momento ocupava um posto de destaque, Baraggan Louisenbaim. Ele havia sido o chefe do submundo da cidade de Las Noches antes que Aizen usurpasse seu reinado. Tratava-se de um homem corpulento e bem alto, o rosto era de um idoso, mas o corpo era musculoso como o de um urso. O cabelo e o espesso bigode, inteiramente brancos, davam-lhe uma expressão carregada de austeridade.
– Contra uma formiga tão pequena fica até difícil mirar. Vai ser mais fácil acabar com você, menininha, com minhas próprias mãos.
A capitã não perdeu tempo respondendo a provocação. Até o momento suas habilidades acrobáticas vinham sendo sua vantagem, mas ela estava ciente de que um deslize seria fatal. Com a mal lograda experiência em Brisbane ela aprendera que devia evitar um confronto corporal e já constatara também que sua arma convencional era inútil, assim usar a desleal Suzumebachi parecia ser a única saída.
Naquele momento, os dois estavam no terraço de um prédio, a uma meia distância. Com a visão periférica, Soifon percebeu a estrutura de uma enorme caixa d'água. Pensou então que se conseguisse atrair o inimigo para àquela estrutura, provavelmente conseguiria atirar contra ele duas vezes consecutivas com mais facilidade, devido ao estreitamento do espaço. Disposta a colocar esse plano em prática, Soifon saiu correndo de lado e, para seu contentamento, Baraggan não esperou nada para vir atrás dela.
Um discretíssimo sorriso curvava os lábios da capitã enquanto ela escalava as barras de aço da estrutura, valendo-se da rapidez que a tornara tão renomada nos tempos da academia militar. Baraggan também era incrivelmente rápido, sobretudo levando-se em conta sua compleição, mas, sendo tão grandalhão ele ficou com a mobilidade comprometida em meio às barras de ferro que compunham a alta estrutura. Assim, em dois tempos, Soifon se viu em uma posição favorável e mais elevada, então ela pôde sacar seu revólver dourado. Mirou o peito do oponente e disparou duas vezes, com um intervalo de tempo incrivelmente curto entre um disparo e outro.
Baraggan a encarava fixamente nos olhos quando o primeiro disparo perfurou-lhe o peito, e como ele não se moveu um milímetro a segunda bala entrou praticamente pelo mesmo buraco.
– Peguei você, urso! - ela vibrou sozinha, aguardando o grandalhão tombar morto.
Porém, os segundos já quase inteiravam um minuto e o bandido continuava de pé e a encará-la com aquela expressão austera como se nada houvesse acontecido. Soifon prendeu o fôlego, a ideia de que o oponente pudesse ser imune ao veneno de Suzumebachi definitivamente não cabia em sua mente, então ela tentou se convencer que o efeito poderia demorar mais do que o normal para aparecer, mas de modo algum falhar.
– Certamente essa não é uma arma comum, para ter conseguido perfurar minha pele modificada - disse Baraggan.
A voz do homem soara mansa e tranquila, o que só aumentou a incredulidade da capitã. Um largo filete de sangue escorria pela veste branca do bandido, então ele pressionou o ferimento e deixou que uma borra do líquido vermelho se acumulasse na palma de sua mão. Logo em seguida, ele esticou o braço para uma das traves de ferro da estrutura e fechou a mão suja de sangue ali. Confusa e apreensiva, Soifon acompanhava tudo aquilo com os olhos vidrados. Então num repente a trave apertada pelo bandido se partiu e quando ele endireitou a postura, a peça começou a se deteriorar como se tivesse sido mergulhada em ácido.
– Mas que bizarrice é essa? - ela acabou exclamando alto.
– Eu vou te dizer, pequena formiga. Imagino que sua arma deve conter algum tipo de veneno, mas o meu sangue é muito mais letal que esse seu brinquedinho. Com apenas algumas gotas eu posso reduzir uma pessoa a ossos. Eu pensava em te esmagar com meus punhos, mas agora que você me fez sangrar devo avisá-la que sua morte será bem mais dolorosa.
Desconcertada, Soifon suava frio e claro que Baraggan se aproveitou daquilo para se aproximar dela em questão de instantes. Petrificada, ela só enxergou aquela mão tingida de sangue vindo em direção ao seu rosto e, encurralada como estava, reagiu instintivamente lançando-se para trás, perdendo por completo o contato com a estrutura. O único problema era que a distância que a separava do chão de concreto já estava muito além do recomendado para um salto.
Ichigo estava em seu limite. Ele já chegara àquele país fora de forma, tinha pelo menos uma costela quebrada e seu adversário seguia o espancando sem clemência.
– Vai ficar só se defendendo, hein? Vamos, ataque! Sei que pode fazer melhor do que isso!
Saltitando como um pugilista, Grimmjow tomou impulso e partiu para cima do universitário, mas, ainda que um tanto desajeitado, Ichigo conseguiu se defender com um soco cruzado.
– Ho! Assim é melhor! Se não estivesse com essa perna machucada, até que essa estaria sendo uma boa luta. Quase me arrependo de ter atirado em você!
Sem camuflar sua empolgação, Grimmjow se moveu depressa e acertou um chute feroz na perna machucada de Ichigo.
Alucinado de dor, Ichigo caiu estatelado no chão. Os remédios manipulados por seu pai há muito haviam perdido o efeito e na conturbada situação em que estava ele não encontrava uma brecha para se injetar outra dose do preparo miraculoso. Ainda caído, ele arfava quando Grimmjow o ergueu pelos cabelos, fazendo soltar gritos agonizantes.
– Não adianta berrar! Ou fica de pé ou vai morrer agora mesmo!
Ichigo tentava firmar as pernas e assim escapar da tortura, mas não conseguia superar a dor que lhe queimava os músculos. Um desespero inelutável começava a engolfá-lo. Amaldiçoava o destino por tê-lo poupado de uma morte humilhante apenas para encontrar seu fim logo em seguida e de um modo mais humilhante ainda. Ele grunhia, tentando se soltar, até que Grimmjow se cansou daquilo e o golpeou com o joelho, fazendo-o tombar pesadamente no chão. Ele ficou com os olhos fechados e ofegando, jamais apanhara tanto na vida.
– Isso é tudo? Tsc! Mas que decepção... Você é tão fraco que nem sequer merece um tiro.
Grimmjow contemplou a agonia do universitário por alguns instantes então ergueu o pé com o intento de partir o pescoço dele, mas, instantes antes do impacto, ele teve o pé agarrado pelo rapaz. O bandido franziu o cenho, pois seus olhos sobre-humanos captaram que a manobra havia sido anormalmente rápida para uma pessoa comum, na verdade, fora rápida até mesmo para um soldado treinado.
Ichigo não entendeu como intuiu o perigo daquele ataque e sentiu como se seu corpo se movesse sozinho, controlado por outra vontade. Quando Grimmjow afastou o pé e recuou um passo, ainda estirado no chão, Ichigo o encarou, mas de repente sua visão ficou embaçada. Remexeu a cabeça sentindo que um véu negro parecia ter caído sobre seus olhos.
Grimmjow ficou parado por algum tempo como quem farejasse algo diferente no ar. Nesse ínterim, Ichigo percebeu com assombro que a dor generalizada que sentia pelo corpo inteiro havia sumido da mesma forma que a luz elétrica desaparece quando um interruptor é desligado. Inexplicavelmente, ele conseguiu erguer o corpo do chão. Reagindo depressa, Grimmjow tentou chutar-lhe a cabeça, mas ele conseguiu bloquear o ataque.
A surpreendente defesa fez Grimmjow estreitar os olhos e comentar:
– Vejam só... Estava escondendo um às na manga. Muito bom!
Ichigo se esforçou para ficar de pé e nem foi tão difícil. A perna machucada doeu, mas agora era uma dor suportável. Ele não estava plenamente estendido quando precisou se defender de um enxame de socos vindos de Grimmjow. De início, os golpes vazavam sua defesa, mas aos poucos ele começou a acompanhar o ritmo do bandido.
Grimmjow começou a rir em meio aos socos incessantes.
– Dos babacas que chegaram aqui, eu sabia que iria me divertir muito mais caçando você!
Os dois continuaram trocando golpes, alternando ataques e esquivas. Grimmjow não parava com as risadas e aquilo deixou Ichigo intrigado. O bandido exibia uma arma na cintura, no entanto persistia no combate corporal.
– Eu não entendo... Se Aizen não passa de um mau caráter, por que você o segue? Um lutador como você não precisaria ser um criminoso, poderia se dar muito bem no esporte...
Grimmjow gargalhou tresloucado.
– Que esporte porra nenhuma! Essa babaquice é pra filhinhos de papai nascidos em países ricos como você! No inferno de onde eu vim quem não sabe lutar é devorado pela fome, pelas drogas ou explorado por todos os tipos de traficantes!
Horrorizado, Ichigo abaixou a guarda e só não levou um soco direto no rosto porque conseguiu se esquivar no último instante.
– Por que eu sigo Aizen? - retomou Grimmjow, intercalando a fala com um murro. – Você deve ter apenas ouvido falar da reputação dele se acha que segui-lo ou não, é uma questão de escolha. Alguém com um poder como o dele não tem seguidores, tem escravos! Sim, porque essa é a lei do mais forte. Quem tem poder domina, quem não tem, é dominado. Simples assim!
Depois de dizer aquilo, Grimmjow passou a atacar ainda com mais selvageria. Mas como quem estivesse se adaptando a situação, Ichigo começava a acompanhar melhor os movimentos do adversário. Porém, depois de Ichigo acertar um vigoroso soco, Grimmjow lhe lançou um riso sádico e assim como havia acontecido com o rapaz dos olhos verdes, algo simplesmente surgiu nas mãos de Grimmjow e depois receber dois golpes cruzados, Ichigo recuou para trás, pois algo afiado lhe cortara o tórax.
– Mas que diabos? - ele reclamou e passou a mão pelo peito, sentindo o moletom rasgado e sangue empapando o grosso tecido.
Encarando mais atentamente o adversário, Ichigo avistou luvas com garras nas mãos dele.
– Tudo isso foi bem divertido, garoto! Mas, como dizem por aí, tudo que é bom acaba rápido!
Demorando a reagir, Ichigo foi pego de surpresa e um potente chute o derrubou longe. Grimmjow se aproximou rápido e pisou no peito dele, então enfim sacou seu revólver e mirou a cabeça do universitário. Ichigo prendeu o fôlego, outra vez encurralado, mas eis que percebeu com a visão periférica que sua mochila estava caída ali perto, tão perto que tudo que ele precisava fazer era esticar o braço.
– Quer dizer suas últimas palavras? - o bandido indagou provocativo.
Ichigo viu naquilo uma chance de prender a atenção dele.
– Foi mal, meu chapa... Mas eu... - dizia ele, mas falar era um suplício devido à força com que o outro pisava em seu tórax.
– Você o que? - impacientou-se Grimmjow.
– Eu não posso morrer aqui...
Esforçando-se além de seus limites, Ichigo torceu o tornozelo de Grimmjow e conseguiu escapar de lado. Recompondo-se quase na mesma hora, o bandido escarneceu:
– Que patético! Fique parado que lhe meto uma bala na cabeça e você acorda no outro mundo. Agora, se continuar fazendo gracinhas, vou ser obrigado a descarregar esse tambor inteiro em você e te transformar numa peneira.
Finalmente, Ichigo conseguiu achar a antiga pistola na mochila, depois se voltou para Grimmjow e, outra vez como quem estivesse sendo controlado por outra vontade, ele engatilhou e atirou com uma rapidez impressionante.
O disparo foi certeiro e acertou Grimmjow no abdômen, transpassando-o ali e o derrubando.
Ichigo ficou sentado no chão, com a pistola nomeada de Zangetsu na mão e observando o corpo caído em uma poça de sangue. Um pouco depois, suas dores voltaram ainda mais terríveis, cobrando juros exorbitantes. Mas a despeito da dor, agora que ele sabia que tipo de inimigo os policiais enfrentavam o que tomou todo seu pensamento foi tentar imaginar o que Rukia não poderia estar passando.
– Preciso ficar de pé... - ele dizia a si mesmo. – Vamos! Mexa-se! Mexa-se! Mexa-se...
Mas o corpo dele não se mexia um milímetro sequer. Zangetsu escorregou de sua mão, sua cabeça tombou para o lado e se alguém não tivesse aparecido ali para ampará-lo ele teria desabado inconsciente no chão.
– Puta que pariu, Kurosaki! O que você tá fazendo aqui, seu idiota?
Ichigo não conseguiu focalizar a pessoa, mas a voz ele reconheceu sem dificuldades, era a de Renji.
– Rukia... Eu tenho que encontrar a Rukia... - ele balbuciava.
– Cala essa boca! - vociferou o policial enquanto procurava nos bolsos de seu traje militar um remédio que pudesse manter o rapaz no mundo dos vivos.
Alguns minutos se passaram e, depois de medicado, Ichigo começava a se restabelecer. Renji se afastou dele para dar uma inspecionada no cadáver do bandido. Tanto pelo confronto em Brisbane como pelas investigações, Renji reconheceu o sujeito e como ele estivesse caído de lado, gastou alguns instantes fitando a tatuagem negra com o número seis que ele tinha na parte posterior das costas.
Pensando em qual seria o significado daqueles números, Renji voltou para perto de Ichigo e logo tentava entrar em contato com o capitão Kyouraku para avisá-lo sobre o rapaz. Assim, ele estava de costas para o local onde Grimmjow havia tombado, por isso não viu quando o suposto cadáver começou a se mexer. Ao perceber aquilo, Ichigo mal podia acreditar no que via, então aconteceu de Grimmjow sacar rapidamente a arma e atirar.
– Cuidado! - Ichigo berrou e se esticou inteiro para dar uma rasteira em Renji, que havia sido o alvo do disparo.
O tatuado não chegou a cair, mas se desequilibrou o suficiente para que a bala resvalasse em seu ombro ao invés de ter acertado sua cabeça e graças à guarnição bem reforçada do traje militar ele saiu totalmente ileso.
– Quem te disse que nossa luta terminou! - esbravejou Grimmjow, apontando para Ichigo.
– Mas como você pode estar vivo com um buraco desses na barriga? - desacreditou o universitário.
– Pelo simples fato de que não tem como eu perder para alguém como você, imbecil - ele rebateu alto, mas era perceptível o esforço que fazia para conseguir falar. – Levanta daí, seu miserável... Nossa luta ainda não acabou... Eu vou arrebentar você... - ele dizia em uma voz arrastada, mas possesso de ira, até que foi inesperadamente silenciado ao ser atingido por uma arma arremessada por alguém.
Espantados, Renj e Ichigo desviaram seus olhares para o lado e se depararam com sujeito exorbitantemente alto que chegara ao local sorrateiro e silencioso como um fantasma.
O dos cabelos azuis agonizava com os olhos arregalados, pois uma cimitarra de lâmina negra estava agora fincada em sua carne. Instantes depois, o autor do violento arremesso, a certa distância, puxou com força a lâmina, por uma corrente presa à empunhadura da arma, e assim o dos cabelos azuis teve o lado esquerdo do corpo cortado desde o ombro até a cintura.
– Morra de uma vez, seu infeliz! Quem vai detonar esses dois babacas serei eu!
Renji e Ichigo encaravam o recém-chegado com extremo assombro. Os cabelos dele eram longos e escuros, a pele muito branca e ele usava um tapa-olho do lado esquerdo. Quando ele arrancou impetuosamente a cimitarra do suposto aliado, o perfurado tombou no chão, provavelmente vítima de uma morte instantânea.
Saindo do estado de assombro, Renji sacou depressa Zabimaru e a apontou para o gigante, porém, assim como havia acontecido em sua luta anterior, o bandido se moveu muito mais depressa do que seus olhos conseguiam acompanhar e num instante ele estava diante de si.
Um chute picado do alto para baixo jogou Renji para longe de Ichigo. Renji tentou se restabelecer, mas antes mesmo que conseguisse se levantar, recebeu um chute direto no flanco. Movendo-se depressa, o bandido também acertou um chute em Ichigo, que berrou desesperado, atingido novamente na costela quebrada.
– Mas será possível que entre esses tiras só tem fracotes? - queixou-se o bandido.
Tendo conseguido se levantar, Renji tentou afastar o gigante do debilitado Ichigo, mas sem muito êxito, estava claro que a força daquele adversário era muito superior se comparada a do loiro com a tatuagem do número oito. Então, Renji começou a ser esmurrado frenética e furiosamente.
Ichigo não conseguia fazer nada além de ver o policial apanhar e Renji não conseguia contra-atacar, a situação era verdadeiramente crítica quando mais alguém chegou ao local.
– Ei, cara! Por que não se mete com alguém do seu tamanho?
O dos cabelos compridos olhou por sobre o ombro e Renji suspirou de alívio ao reconhecer a voz daquela pessoa.
– Capitão Kenpachi! - exclamou ele e não conseguindo mais se manter totalmente de pé, apoiou um dos joelhos no chão.
– Que vergonha, Abarai... Quando você estava na minha divisão não era molenga desse jeito!
O dos cabelos escuros girou nos calcanhares e observou o recém-chegado.
– Ho! E não é que você é quase do meu tamanho mesmo... Mas será que sabe lutar ou só latir como um cachorro velho?
– Na primeira porrada que levar de mim, você vai saber...
Enquanto os dois se estranhavam, mais que depressa Renji voltou a se erguer e se afastou de lado. Ainda que ele tivesse levado muitos socos, também havia conseguido bloquear vários, por isso ainda detinha algum vigor. Aproveitou então que o bandido perdera por completo o interesse em si para arrastar Ichigo dali. O jovem suava frio e parecia estar à beira de perder a consciência de novo. Depois que eles estavam minimamente abrigados, atrás dos escombros de uma arruinada construção, Ichigo questionou numa voz ofegante:
– Quem é o da cicatriz?
– O nome dele é Zaraki Kenpachi, ele já foi meu chefe e é uma verdadeira máquina de guerra. Reza a lenda que ele já deu cabo de gangues inteiras sozinho.
Curioso, Ichigo esticou-se para poder dar uma olhada no tal Zaraki. Ele tinha uma fina cicatriz decorando toda a extensão do lado esquerdo do rosto e era realmente muito alto. Os cabelos eram lisos e escuros, ultrapassando os ombros e o corpo rijo e musculoso, porém muito bem balanceado também.
– A expressão dele me parece meio insana, mas se está do nosso lado, melhor.
– Você fala como se fosse um de nós. Já esqueceu que você nem devia estar aqui?
Os dois se encararam, então Ichigo acabou abaixando a cabeça, sem nem tentar argumentar.
Renji não perdeu a chance de repreendê-lo, pois sentia que o rapaz precisava sim de um choque de realidade. Entendia que ele devia estar preocupado com Rukia, que queria ajudar de alguma forma, mas ainda estava inconformado com a falta de sensatez dele. Mas, ciente de que aquele não era o momento e nem o lugar para sermões, sem dizer mais nada, Renji voltou sua atenção para à luta mais adiante.
Zaraki e o gigante estavam se digladiando furiosamente. Observando seu antigo capitão lutar e depois de ter sentido na pele a força bruta daquele gigante, Renji agradeceu aos céus por terem sido encontrados justamente por Zaraki, pois ele não conseguia pensar em outro alguém que pudesse ter alguma chance de encarar aquele sujeito.
CONTINUA...
Céus... Foram dois meses sem atualizar! Isso definitivamente não estava nos meus planos. Ao longo das férias, eu pensava que conseguiria postar mais capítulos. O motivo da demora foi que embora essa história seja uma fanfic em universo alternativo, eu procuro me manter fiel à série original tanto quanto possível, por isso eu precisei reler muitos capítulos do mangá para poder elaborar esse capítulo. Além disso, cheguei a escrever mais de uma versão que acabou sendo descartada e só quando me convenci de que não tinha como fazer todos os duelos em um único capítulo que o texto começou a ganhar forma.
Ah, só um comentário quanto à cronologia aqui, as cenas que se passam no Japão seriam o tempo presente da história e esses duelos estão acontecendo em um tempo passado.
Bom, espero que tenham gostado! No próximo capítulo, a pancadaria continua. E logo saberemos quem irá levar a melhor Aizen ou Yamamoto!
Agradeço a todos que tem acompanhado (a despeito da falta de periodicidade das postagens).
Um grande abraço e até a próxima!
Amanda Catarina
25-02-2017
