Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 17

Cidade de Las Noches, Espanha, três semanas atrás.

O tenente Izuru Kira acompanhava atento ao confronto entre a capitã Soifon contra um homem que aparentava ter o triplo da altura dela. Ele havia sido orientado via rádio para que tentasse alcançar a edificação mais ao norte da área, porém se deteve ao avistar a capitã e resolveu seguir em seu auxílio.

Naquele momento, ele acompanhava a luta por uma vidraça quebrada. Soifon atraía o adversário para uma alta estrutura metálica e ele rapidamente se moveu na mesma direção. Concentrados na luta, nenhum dos dois percebeu a aproximação de Izuru, assim ele estava realmente bem posicionado quando percebeu com assombro que a capitã se lançara da estrutura sem uma corda ou gancho que pudesse lhe servir de amparo. Mais que depressa ele entendeu que deveria ser ele seu amparo.

– Peguei!

Agarrada em pleno ar, Soifon soltou um pequeno gemido quando seu corpo miúdo se chocou contra o corpo esbelto de seu colega policial.

– Kira! - ela exclamou aliviada, ciente de que aquele golpe de sorte a livrara de uma provável morte.

Baragan observou aos dois por alguns instantes e então comentou:

– Agora outra formiga chegou... Será possível que esses infelizes brotam da terra?

Izuru desceu a capitã ao chão e os dois fitaram o bandido, que ainda falava:

– Não importa. Mesmo um exército não é páreo pra mim.

– Ele é um babaca, só que não está se gabando - comentou Soifon. – Nem o veneno da minha Suzumebachi deu conta de derrubar esse desgraçado!

– Mas deve ter um jeito de derrubá-lo e nós vamos ter que descobrir.

Soifon gostou do otimismo do colega, porém acabou dizendo com certo desdém:

– Pois sou toda ouvidos: Qual é o plano?


Àquela altura do embate o capitão recém integrado à polícia australiana, Zaraki Kenpachi, já sabia que seu oponente se chamava Nnoitra Gilga, não porque ele houvesse sequer passado os olhos na pilha de dossiês que deveria ter lido, mas porque o próprio havia se apresentado. Sob os olhares atentos de Ichigo e Renji, os dois lutadores trocavam golpes violentos já há algum tempo e nenhum deles dava sinais de exaustão.

Zaraki se espantava que seus socos não causassem nem mesmo um hematoma no oponente e Nnoitra também estava espantado com o fato de um homem comum suportar seus golpes, visto que era a primeira vez que ele se deparava com algo do tipo, ao menos depois de ter sido submetido à experiência que o transformara em um supersoldado.

– Pelo jeito finalmente apareceu alguém para acabar com meu tédio... Alguém que vou levar mais que um minuto para matar.

– Já estamos um tempão nessa briga e você vem bancar o convencido só agora?

– Ha! Tá insinuando que meus murros não tão te arrebentando, velho?

– E eu pareço arrebentado pra você, caolho?

– O sujo falando do mal lavado... - Nnoitra devolveu de pronto.

– Acha mesmo? - retrucou ainda Zaraki e, erguendo o próprio tapa-olho, mostrou que o que se ocultava ali embaixo era um olho perfeitamente saudável.

Nnoitra exibiu estranheza e sem conseguir conter a curiosidade, questionou:

– Pra quê o tapa-olho então, seu sem noção?

– Pra deixar minha mira um pouco pior. Sem isso um tiro só basta e daí nem me divirto.

– Deixa de se gabar!

Ensandecido, Nnoitra avançou feroz contra o policial e passou a golpear com redobrada brutalidade, ainda assim Zaraki não recuou um passo sequer, mostrando-se um adversário à altura e em resposta ao acesso de fúria do soldado, ele passou a provocá-lo:

– Isso, caolho! Ataque com tudo! Ataque com tudo que tem!

Mais adiante, Ichigo comentou com Renji:

– Fala sério... O magrelo quase arrebentou com a gente, mas o tiozão da cicatriz tá aguentando o tranco!

– Kenpachi é duro na queda, até hoje não conheci ninguém mais forte. Foi uma sorte ter sido ele a encontrar a gente. A missão é prender o desgraçado do Aizen, mas para Kenpachi isso aqui é só farra. Tudo que conta pra ele é poder lutar. Luta é o vício dele e um vício pior que cocaína.

Ichigo ficou abismado, mas Renji logo mudou de assunto.

– Por algum motivo, o capitão Kyoraku não está mais respondendo minhas mensagens.

– E por que isso é um problema? Ele não deve estar lutando com algum desses caras também?

– Deve sim, mas estou meio às cegas agora e não sei para que lado ir. Pelo tempo que estamos aqui já devíamos ter uma cobertura melhor da área e alguma ideia do posicionamento dos inimigos.

De repente, Ichigo teve um estalo e perguntou:

– Renji, você não tem como entrar em contato com a Rukia com esse seu rádio?

– Já tentei várias vezes e nada. Também tentei contato com ela pelo celular, mas é como se o celular dela estivesse fora de área.

Ichigo lançou um olhar angustiado ao policial e diante da evidente preocupação dele, Renji achou melhor guardar para si o pensamento de que aquele não era um bom sinal.

– Mais cedo ou mais tarde o capitão Kyoraku vai ter que dar algum retorno, então teremos que sair daqui. Você consegue andar?

Ichigo fez que sim com a cabeça e questionou:

– Mas é certo a gente deixar seu antigo chefe sozinho com esse esquisitão aí?

– O esquisitão é que tá ferrado, não o contrário.

– Mas o sujeito não cai com nada!

– Eu já te falei, garoto: ainda tá pra nascer alguém que seja capaz de ganhar do capitão Kenpachi em uma luta mano a mano. Se o cara estivesse atirando com uma arma diferente, poderia até ter alguma vantagem, mas com uma arma branca e socos, ele não tem chance.

– Se você tá dizendo...

Praticamente em sincronismo com a desconfiança do universitário, um golpe cruzado de Nnoitra conseguiu transpassar a postura defensiva de Zaraki.

– Isso foi só o começo, velhote!

– Nada disso, isso foi apenas sorte, seu magricela.

Indignado, Nnoitra atacou novamente, mas Zaraki se esquivou e revidou com um chute tão forte que derrubou o soldado.

– Você é durão, mas tem que aprender a manter o foco na luta. Fica nervoso por bobagem...

– Já cansei da sua voz! - berrou Nnoitra e em um instante estava novamente de pé. – Vou arrancar tua cabeça agora!

Girando a cimitarra no ar, Nnoitra avançou com um riso sádico contra Zaraki que, nada intimidado, esperava pelo ataque com um riso idêntico.


Acomodado em uma poltrona de alto espaldar, Sousuke Aizen tinha o olhar pousado em um mosaico de monitores, os quais exibiam diversos setores do vasto descampado arenoso.

Introspectivo e ligeiramente insatisfeito, ele computava mentalmente o desempenho de seus soldados. Ylfort, Grimmjow e Zomari haviam sido eliminados. Kaname Tousen, seu imediato e alguém que costumava ser rápido e implacável, também não havia dado cabo do oponente que enfrentava, o renomado oficial Komamura. A luta de Nnoitra ainda estava indefinida, mas o fato era que nenhum subalterno de Genryuusai havia tombado até o momento, mesmo a raquítica neta de Ginrei Kuchiki ainda respirava.

– Eu posso ter feito deles máquinas de guerra, mas a maioria ainda se deixa levar pelas emoções. Os dez são excessivamente convencidos e arrogantes. Querem brincar com as vítimas ao invés de liquidá-las com um só tiro. Estratégia também não é o forte deles, não percebem uma armadilha antes que estejam enredados nela. O estágio Arrankar da droga eleva fantasticamente a força física e a resistência, mas apenas com a fórmula final, o Hougyoku, eu serei capaz de controlar a mente das cobaias e anular a personalidade delas por completo.

Subitamente, a imagem em uma das telas captou a atenção de Sousuke.

– Hum, que interessante... - disse e, apertando um botão, ele liberou o canal de áudio de um dos monitores que registrava o confronto de sua soldado de número três, Tier Halibel, contra o capitão Gin Ichimaru.

Endireitando melhor o corpo na poltrona, Sousuke passou a acompanhar esse combate.


– Aizen-sama nos alertou que você era um dos atiradores mais perigosos do velho Yamamoto, mas se até agora você não me mostrou do que é capaz, devo entender que o fato de eu ser mulher está prejudicando sua mira, Ichimaru Gin.

Afastado cerca de seis metros da oponente, Gin estava com a arma apontada para a voluptuosa loira de olhos verdes, mas então se endireitou e um largo riso passou adornar seu semblante enigmático.

– Sou ótimo no tiro, sim, mas confesso que atirar em mulheres nunca foi meu forte. Mas não é por isso que estou errando de propósito meus disparos, mocinha.

– Então por quê?

– Se eu contar perde a graça... Você tem que adivinhar sozinha.

Halibel manteve a expressão muito séria, ocultando a curiosidade em seu íntimo.

Antes que Aizen se apossasse de sua vida, Tier Halibel era uma empresária bem sucedida e muito competitiva, que não sabia lidar com fracassos e que vivia às raias de um feminismo doentio. Sempre fora perfeccionista e não tolerava nada menos que a nota máxima em qualquer teste ao qual fosse submetida. Ela compreendia que Aizen tinha os meios para se tornar o maior terrorista do mundo, presenciara-o praticar terríveis atrocidades, mas nada disso a abalava moralmente. O que sobressaía a seus olhos era que Aizen vinha concretizando as declaradas ambições com indiscutível êxito e ela o admirava por isso. Admirava-o a tal ponto de querer o respeito dele. Queria chegar ao topo do rank dos Espadas, tornando-se a mais forte daquela força de elite e matar aquele policial de olhar enigmático seria o primeiro passo em direção a essa audaciosa meta.

Ainda por cerca de dez minutos os dois trocaram alguns golpes corporais e uns poucos tiros. Então Gin repentinamente decidiu sair do campo de visão da soldado.

– Vai começar a se esconder agora? Pela lógica, ou você está tentando avaliar minha força, ou tentando ganhar tempo. Para que ou para quem, eu não faço ideia, mas vou te avisar: vai se arrepender por não ter levado esse combate a sério desde o início.

Gin voltou a aparecer e estava com os braços estendidos ao alto e o revólver de antes guardado no coldre axilar, como quem estivesse se rendendo.

– Ganhar tempo? Uau! Não é que você conseguiu adivinhar mesmo... - disse em um tom provocativo e cantado, abaixando os braços e relaxando a postura, diante do olhar evidentemente intrigado de Halibel. – Me diz uma coisa: Vocês ainda são humanos ou o Aizen-sama implantou ships de computador em seus cérebros e transformou vocês em robôs assassinos?

Halibel franziu o cenho, sem entender porque ele falava naquele tom irreverente e despreocupado, aquilo não fazia o menor sentido. Num movimento brusco, ela engatilhou o revólver e apontou para o policial, porém hesitou em atirar, ainda que poucos metros os separassem e ela pudesse acertá-lo até de olhos fechados, sua concentração ficou afetada pelo estranho comportamento do sujeito.

– Deve estar se perguntando por que guardei minha arma, não está? - alfinetou ele.

Claro que ela estava, mas irritada com a voz dele, desistiu de querer entender aquele enigma e só pensou em puxar o gatilho, mas aconteceu de seu corpo não obedecer ao comando. Aturdida, ela tentou com mais afinco e rapidamente se deu conta de que não conseguia mover um único músculo.

– Eu guardei essa arma aqui porque já acertei você com a minha Shinsoou, só que a Shinsoou demora a fazer efeito.

Em seu esconderijo confinado, Sousuke Aizen se endireitou na poltrona, observando o monitor ainda mais atento ao ouvir aquilo. Então ele viu Gin caminhando vagarosamente na direção de Halibel e ao perceber que ela permanecia na mesma posição, sem atirar ou se mover, Sousuke compreendeu o que se passava.

– Uma arma paralisante? Não acredito... - ele falou para o monitor. – Eu preciso ver isso com meus próprios olhos.

Instantes depois, Aizen deixava o ambiente confinado.


O homem diante de si finalmente parara de rir, mas Rukia limitava-se a encará-lo em busca de alguma explicação, até que não mais aguentando, ela questionou:

– Por que, Kaien-dono?

– Eu que pergunto: Por que essa cara espantada? É tão absurdo assim que eu queira matar você? Você, Kuchiki, que não foi capaz de me salvar. Você que não conseguiu impedir que eu matasse minha própria esposa! De que valeram tantas horas de treino se no momento em que mais precisei de você, ficou bem claro que você continuava sendo uma patricinha imprestável? Ao invés de me salvar você atirou em mim!

Atormentada, Rukia virou o rosto de lado, mas logo tombou de joelhos no chão, com as mãos dos lados da cabeça, uma cascata de lágrimas lavando sua face, remexendo a cabeça em negação, ela balbuciava:

– Não tinha outro jeito, eu não tive escolha...

Um denso silêncio pairou no ambiente até que Aroniero voltasse a falar.

– Sim, eu sei, era o seu dever. Mas mesmo assim, isso não muda o fato: foi você. Outros oficiais poderiam ter me parado, mas quem fez isso foi você.

Rukia arfava e soluçava em seu choro sentido.

– Mas estou vendo que está arrependida. Me diga, Kuchiki, você quer se redimir? Quer acertar as coisas entre a gente?

Ela ergueu o rosto, exibindo uma expressão aturdida e os olhos arregalados.

– E se eu disser que tem um jeito... - instigou ele.

– Qual? - ela quis saber de imediato.

Aroniero retesou a postura e em um tom muito sério anunciou:

– A cabeça do capitão-comandante. Traz a cabeça dele pra mim, Kuchiki. Vai ser fácil... Ele nunca irá suspeitar de uma baixinha como você. Com certeza você consegue pegá-lo desprevenido.

Rukia pestanejou sem acreditar no que ouvia e um nó apertou sua garganta. A postura, o jeito de falar, os trejeitos... Cada um daqueles detalhes atestava que aquele homem a sua frente era seu antigo oficial superior, Kaien Shiba. Mas Kaien Shiba não poderia estar dizendo aquelas coisas horríveis. Não poderia.

– Isso não é uma brincadeira, é? Você não está zombando de mim como sempre fazia?

– Claro que não.

– Então se eu trouxer a cabeça do capitão Yamamoto você vai me perdoar?

– Vou sim. Uma vida por outra. É um preço justo, não é?

A seriedade no tom da voz dele era aterrorizante. A mesma voz que a inspirara e a motivara em tantos momentos, a voz de um homem que nascera e fora criado para ser um arauto da justiça, um oficial de ficha impecável, um bom homem que estava agora totalmente desfigurado e modificado pela loucura de uma droga infernal.

Empertigando-se, Rukia se colocou em pé. O outro a acompanhou com os olhos.

– Fisicamente claro que você é o mesmo o Kaien-dono que me acolheu, que me ensinou tudo que sei, mas depois de ouvir essa sua proposta eu não tenho mais dúvidas de que aquilo que fazia você ser a pessoa que eu conhecia e admirava foi arrancado de você! - bradou ela.

– Até parece... Eu já te expliquei que ainda sou o mesmo.

– Não é não! O Kaien-dono que eu conheci respeitava a vida acima de tudo, acima de qualquer ressentimento. Entre tirar a vida de alguém, por pior que esse alguém fosse, ou entregar a dele, ele não hesitaria em se entregar.

– Então está dizendo que vai levantar a arma contra mim de novo? Contra mim, Kuchiki?

Rukia manteve uma postura séria. Seu autocontrole havia retornado, ela era senhora de si novamente e iria encarar aquele confronto de frente.

– Você não passa de uma carcaça sem alma e eu não caio mais na sua lábia.

– Uma carcaça sem alma? Será mesmo?

– Eu melhor do que ninguém sei que você não tem mais uma alma, porque, naquele dia, com seu último fiapo de sanidade, você me obrigou a receber a sua alma! Quando ainda era o nosso Kaien-dono, você me implorou para que eu o matasse e disse que preferia morrer a continuar causando aquelas mortes! - vociferou ela.

Aroniero retrucou tão alto quanto:

– Ah, e você seguiu bem a risca meu último desejo, não foi? Atirou uma, duas, três vezes! Atirou bem aqui no meu peito. Lembra de todo aquele sangue escorrendo pela minha farda? Tenho certeza que se lembra!

Rukia pestanejou, sua repentina obstinação ficou abalada por um instante, mas então ela revidou em outro brado:

– Claro que lembro! Só que tinha que ter sido eu, sim! Eu tive que atirar em você porque éramos da mesma equipe! E foi você mesmo que me ensinou que quando alguém que faz parte de uma equipe fica diante da morte, esse alguém precisa dar um jeito de não morrer sozinho. Porque quando alguém morre sozinho, a memória de quem ele foi fica perdida pra sempre. Se essa casca desalmada que você é hoje conseguir ver as memórias do verdadeiro Kaien-dono vai saber que estou dizendo a verdade!

Aroniero encarou a policial em silêncio, as antigas convicções reverberando em sua consciência trancafiada, mas ele não se comoveu com nada daquilo.

– Não morrer sozinho... Mas que bobagem - zombou ele. – O que realmente importa é não morrer nunca! E pode ter certeza, Kuchiki, que agora eu, Aroniero Arurueri, sou imortal!

Rukia não teve tempo de se esquivar, pois em um movimento rápido, Aroniero sacou uma arma de calibre alongado e atirou contra ela, atingindo-a no abdômen.

A bala pontiaguda era feita de um material tão endurecido que perfurou as duas camadas do traje à prova de balas que ela usava. O corpo de Rukia foi transpassado e o calor do projétil fritou sua pele e ferveu suas entranhas. Ela voltou a cair de joelhos e Aroniero se aproximou com um riso sádico. Rukia pensou que aqueles eram seus últimos instantes de vida, então seu pensamento voou para Ichigo. Pensou no quanto ele ficaria revoltado e inconformado, pois ele lhe suplicara para que ela não tomasse parte naquela missão. Rogou então aos céus para que ele compreendesse que ela não se arrependia da decisão e que a perdoasse por isso.

– Fique tranquila, sua inútil, eu mesmo vou cortar a cabeça daquele velho! Sim, vou degolá-lo bem devagar...

A provocação teria congelado as veias de Rukia se o fogo da dor não estivesse correndo por elas. Trêmula, ela desabou sentada no chão, repousando sobre uma poça de sangue. Aroniero se agachou rente ao chão, de modo que seus olhares ficassem quase na mesma altura, deleitando-se com o sofrimento dela, sorvendo o odor da morte eminente como quem sorve um apetitoso aroma.

– É uma pena que você não poderá ouvir os gritos do nosso idolatrado líder... E eu vou fazê-lo gritar, Kuchiki, gritar muito...

O estômago de Rukia embrulhava a despeito do hálito fresco dele, ela ansiou pelo abraço da morte, ansiou para que aquele tormento terminasse, sem entender como ainda estava viva com um rombo daquela proporção na barriga, mas, de repente, algo dentro dela se revoltou. Reconhecia que havia perdido a luta, mas mesmo assim ela se esforçou para esticar a mão direita até que seus dedos ficassem estendidos na direção de seu carrasco.

– O que foi? O que você quer? Hã?

Rukia entreabriu os lábios, mas as palavras não vieram.

Aroniero fitava os graúdos olhos azuis, que se tornavam opacos, e permaneceu parado, olhando-a com frieza, os dedos dela a menos de dois centímetros de seu rosto. E no exato instante em que ia zombar dela, ele viu os dedos pequenos se fecharem em uma manobra que ele conhecia muito bem e, antes que ele tivesse tempo de reagir, o silvo de um tiro abafado por um silenciador cruzou o ar.

Fitando o cano de um revólver branco Aroniero se deu conta de que havia sido atingido na cabeça. E ele ainda reconheceu a arma de sua ruína, a arma que ele próprio havia aconselhado aquela jovenzinha espevitada a comprar, que ele mesmo incentivara que ela desse um nome, pois era adepto da crença de que objetos nomeados adquiriam alma e tornavam-se mais poderosos e eficazes. Sode no Mai fora o nome escolhido, ele se recordava. E o último pensamento que ecoou em sua mente corrompida, antes que ele tombasse inerte e derrotado, foi o da advertência de Aizen com relação à potencialidade de um disparo como este do qual acabara de ser alvo.

Na sequência, Rukia tombou para trás, os braços estendidos no chão ensanguentado. Apesar da dor tenebrosa no abdômen, ela se sentia em paz. Convicta de que agora sim a honra da família Shiba havia sido lavada e que por isso ela poderia manter a cabeça erguida em seu próprio julgamento no outro mundo.


Tóquio, Japão, dias atuais.

Kisuke contemplava o rosto inanimado de Yoruichi, olhos fechados, expressão serena. Ela chegara ali tão radiante quanto o sol daquela linda manhã. Tão cheia de expectativas, esperando vislumbrar a melhora de seus amigos, ludibriada pelas mentiras dele.

Assim que ela adentrou o casarão, cerca de meia hora atrás, ele a conduziu até a sala de estar e pediu que ela se acomodasse enquanto ele ia buscar um pouco de chá, mas, à porta do cômodo e de costas a ela, ele deu início ao transe hipnótico com uma expressão em latim:

Accessum corporis.

Assim, quando Kisuke se voltou a ela, não havia mais vivacidade naqueles lindos olhos castanhos e pela segunda vez em pouco mais de um mês, ele tinha a líder dos Shihouin sob seu controle.

Essa técnica de hipnose era tão impetuosamente potente que ele poderia realizar uma cesariana sem anestesia ou amputar um membro da pessoa hipnotizada que ela não sentiria dor alguma - e Kisuke sabia disso porque ele mesmo já fizera ambas as coisas em pessoas que havia hipnotizado. No entender de Kisuke, a mente do hipnotizado era despachada a outro plano e o corpo se tornava um simples autômato, tão dependente das instruções do controlador que se ações como piscar ou respirar não fossem executadas pelo corpo independente da vontade, o hipnotizado não teria autonomia nem mesmo para isso sem a devida ordem.

Kisuke estudara a hipnose por anos a fio, pois imaginava que poderia curar esquizofrênicos com ela, por meio de um mero comando. Mas com o passar dos anos, ele constatou que a mente humana era muito mais complexa do que ele ingenuamente supunha e a hipnose não podia rivalizar com a loucura. A hipnose minimizava a capacidade mental ao passo que a loucura gerava efeitos diferentes e totalmente aleatórios.

– Me acompanhe - ordenou ele.

Yoruichi simplesmente o seguiu pelo extenso corredor até o laboratório.

– Atrás desse biombo há um traje hospitalar e uma touca. Você vai tirar suas roupas, inclusive as sandálias, e vestir esses trajes. Depois, irá se deitar naquele leito e fechar seus olhos.

Enquanto Yoruichi executava cada uma daquelas ordens, Kisuke tentou distrair a mente atribulada, fazendo uma última vistoria nos instrumentos cirúrgicos que seriam usados no procedimento. Obviamente, o conjunto de bisturis, tesoura e pinças havia sido meticulosamente esterilizado e se achava em uma bandeja de alumínio em um carrinho elevado ao lado do leito. Um pouco depois, ele tratou de se paramentar também, munindo-se de um traje hospitalar, luvas, touca e máscara.

Com a garganta seca e um aperto no peito, ele acompanhou com os olhos enquanto Yoruichi se estirava no leito e, instantes depois de ela ter fechado os olhos, ele se aproximou da cabeceira do leito, e era assim que ele estava naquele momento, contemplando a expressão serenamente passiva dela. Ele havia ordenado que ela fechasse os olhos, não porque fosse necessário, mas apenas por não suportar o olhar supostamente reprovador dela sobre si. Apesar do procedimento dessa vez ser muito mais invasivo do que o da inseminação, ele não iria anestesiá-la. A hipnose driblava por completo a dor, além disso, a recuperação das atividades motoras depois de uma anestesia demandaria muito tempo e ele não tinha mais que quatro horas para acabar com tudo aquilo.

Além dos comatosos Vaizards, não havia ninguém além dele no casarão. Tessai não quis compactar com o temerário plano mais do que já o fizera. Claro que ele não estava ressentido com Tessai, não tinha esse direito. E essa enérgica atitude do grandão o fazia se perguntar agora se de fato não havia cometido um erro.

– Claro que foi um erro - ele admitiu sem precisar refletir –, mas é tarde demais para voltar atrás e há muito em jogo. Uma única vida será sacrificada hoje, mas outras oito serão salvas em função disso.

Esse raciocínio metódico o impulsionou a seguir em frente, então ele monitorou os sinais vitais de Yoruichi, comparando os dados com os que haviam sido coletados dias atrás, quando ele a submetera a inseminação artificial. Após uma breve análise, ele constatou que ela perdera peso.

– Pelo visto essa iria ser uma a gestação difícil, se fosse levada até o fim...

Ele se angustiou, a firme determinação começando a fraquejar. Ligou então o equipamento de ultrassom e precisou de vários segundos para ter coragem de encarar o pequenino feto. Instantes depois, seu olhar estava vidrado nos contornos claros que se moviam na tela escura.

– O que? - sua mente se recusava a aceitar o que os olhos miravam. – Dois embriões? Mas como isso foi acontecer? Apesar de todos os cuidados que eu tomei, a Natureza teve que me pregar essa peça? - ele abaixou a fronte e apertou a têmpora. – Gêmeos! Isso não é justo!

Atormentado, ele desligou o aparelho. Seu respirar ficou mais agitado e sua mente buscou desesperadamente por alternativas. Tentou extrapolar o futuro e imaginar como tudo poderia ser conciliado. Se ele despertasse Yoruichi agora e lhe contasse toda a verdade, ela entenderia? Eles poderiam criar duas crianças mesmo não sendo um casal? Ela o perdoaria? Após alguns minutos de reflexão ele chegou à conclusão de que a única maneira de impedir que Yoruichi saísse de sua vida para nunca mais voltar era que ele levasse aquele abominável segredo consigo para sepultura. Ele traíra a confiança dela, violara seu corpo e estava para submetê-la a um aborto duplo. Ele fora advertido, mas insistiu que tudo aquilo era necessário, que era a única saída, pois agora que arcasse com as consequências e aceitasse que não havia saída para ele também.

Conformando-se com sua sina, o corpo dele passou a ter uma movimentação similar a de um robô, então ele tomou fôlego e fez o que se propusera a fazer.

Terminado o procedimento, Kisuke encostou a testa na testa de Yoruichi. A secura em sua garganta agora chegava a doer. Queria chorar, não se lembrava de já ter sentido esse anseio tão forte em qualquer outro momento na vida. A clarividente certeza de que sua teoria estava correta, de que em poucos dias Shinji, Hyouri e os outros voltariam ao normal, curados e restaurados era seu único alento.

Passado alguns minutos, ele acondicionou os preciosos fluidos hormonais em frascos de ensaio especialmente adquiridos para essa finalidade, guardando-os em câmaras de temperatura abaixo de zero. Arrumou o local, deixando tudo impecavelmente limpo, e enquanto fazia isso tentava manter a mente longe da ideia de que agora ele era um assassino.

Com um andar arrastado, ele foi até o biombo em busca das vestes de Yoruichi. Dentre as peças, uma em particular chamou sua atenção, uma echarpe de seda. Remexeu a peça na mão e então percebeu um discreto bordado, um desenho estilizado de uma flor de Sakura. Algo naquele desenho o deixou intrigado, não se lembrava do emblema dos Shihoun ter uma flor, mas logo pensou que não podia continuar perdendo tempo, então amontoou os trajes no braço e, em seguida, saiu do laboratório, se encaminhando para um dos quartos.

Lá, ele deixou as roupas de Yoruichi sobre um futon e preparou um banho. De volta ao laboratório, pediu que ela se sentasse e abrisse os olhos. Ele havia sido cuidadoso, mas naturalmente havia resquícios do procedimento no corpo dela. Ele a livrou da touca hospitalar e prendeu os cabelos dela no alto da cabeça.

– Há um quarto logo em frente. A banheira já está cheia. Você vai se banhar e depois se vestir, suas roupas já estão lá, sobre o futon. Arrume seu cabelo do jeito que estava antes de eu mexer nele e então volte para sala de estar e me espere lá.

Assim que ela deixou o laboratório, Kisuke seguiu para o próprio quarto, onde ficou aguardando, estirado no futon, fitando o teto. Tentava manter a mente vazia, mas era difícil, um turbilhão de ideias e cenas desfilava em sua mente em uma velocidade nauseante. De repente, ele se ergueu em um ímpeto e correu ao banheiro, acometido por uma forte ânsia de vômito, mas conseguiu controlar a respiração em tempo e conter o refluxo no último instante.

Pouco depois de se recompor e lavar o rosto, ele escutou passadas no corredor e soube que Yoruichi estava se encaminhando para a sala de estar. Checou o cronometro do relógio de pulso e soube que precisava se apressar, o tempo calculado para a operação estava perto de se esgotar. Chegando à sala, ele encontrou Yoruichi em pé no centro do ambiente, estática como uma boneca. Aproximou-se e tomou-lhe uma das mãos, conduzindo-a até o sofá.

– Sente-se.

Ele ficou de frente para ela, sentado sobre a mesa de centro, então começou a recitar uma instrução mais longa.

– Você vai esquecer tudo que de fato aconteceu nas últimas quatro horas. E vai ter registrado na memória o seguinte: Nós tomamos chá e conversamos nessa sala por cerca de meia hora. Depois disso, seguimos para o laboratório e pelo resto da tarde eu estive lhe relatando a situação dos nossos amigos. Expliquei que Hyouri foi a primeira a receber a nova droga que desenvolvi e que ela já começa a dar indícios de melhora. E eu estava para começar a te explicar como consegui curá-los quando meu celular tocou. Eu atendi, era Tessai e ele disse que precisava de mim para uma negociação, então agora você vai me acompanhar até o laboratório e assim que eu desligar meu celular, você voltará a si.

Kisuke então conduziu Yoruichi até o local, posicionando-a ao lado da câmara que abrigava a pequena Hyouri. Ele se afastou alguns passos e então pegou o celular e fingiu que falava com o amigo Tessai.

– Claro, Tessai, eu entendo... Estou a caminho...

Assim que ele desligou o celular, Yoruichi pestanejou e então a vivacidade voltou aos seus olhos.

– Eu lamento muito, Yoruichi-san, mas vamos ter que deixar essa explicação para depois... - disse Kisuke e ainda que a frase tenha sido bem conveniente, a voz dele estava longe da normalidade.

Sem ter como se dar conta disso, Yoruichi sorriu compreensiva, mas repentinamente ela perdeu o equilíbrio e desabou sobre as próprias pernas como em um desmaio. Kisuke se aproximou depressa, amparando-a.

– Yoruichi-san, o que foi?

– Ai, eu senti uma tontura agora...

Kisuke ficou apreensivo, tentando entender o que poderia ter dado errado. O poder da hipnose deveria anular qualquer efeito colateral do procedimento.

– Talvez a senhorita esteja naqueles dias do mês...

Yoruichi o encarou por um instante com uma expressão confusa, perdida, e entreabriu os lábios como quem ia dizer algo, mas continuou quieta, então refletiu um pouco e pensou se aquele seria um bom momento para ela contar a Kisuke que estava esperando um filho de Byakuya. Mais que depressa, ela se convenceu de que não tinha coragem e, aproveitando a especulação dele, ela se justificou, dizendo:

– Sim, é isso mesmo! Você acertou... Não estou nos melhores dias do mês.

Kisuke estava abalado demais para se atentar a impossibilidade daquela confirmação, então tratou de ajudá-la a se levantar.

– Cara, eu senti um calafrio de morte agora que você nem imagina! - ela falou em seu tom escrachado, um subterfúgio para disfarçar o próprio embaraço. – E foi assim de repente... Mas pode me soltar, Kisuke, já passou. Não vamos deixar o Tessai esperando. Você me acompanha até a porta então?

Kisuke engoliu em seco e disse:

– Claro...

No hall de entrada, quando estava para partir, Yoruichi de repente se voltou a ele e então o abraçou amigavelmente.

– Você é um gênio, Kisuke! Eu sabia que você ia conseguir. Nunca duvidei disso.

Se Kisuke Urahara não fosse dono de um descomunal autocontrole, ele teria gritado naquele momento. Atormentado, ele odiou Sousuke Aizen e odiou a si mesmo com todas as forças. Dali em diante, ele não atinou para mais nada. E quando Yoruichi por fim se foi, risonha e contente, ele ficou parado como uma estátua na porta de entrada do casarão até o crepúsculo se transformar em noite e ele avistar a silhueta alta de Tessai retornando à propriedade.

CONTINUA...


Foram nada menos do que 1 ano e 5 meses desde a última atualização. Eu juro que tentei postar um capítulo no começo deste ano, mas, infelizmente, não foi possível. Mesmo nas férias, este capítulo demorou mais do que eu esperava para sair. Bom, vocês já sabem que o motivo dos atrasos é a faculdade, que graças aos céus, está na reta final agora.

Falando deste capítulo, ele não é um dos maiores em número de palavras, mas vocês devem ter notado que fatos muito importantes aconteceram aqui, principalmente nessa cena final. Se alguém ficou com dúvidas em relação aos embriões (ou qualquer outra parte) é só me mandar uma mensagem que eu esclareço.

Espero que tenham gostado, não sei quando vou conseguir atualizar de novo, mas talvez antes da virada do mês tenhamos novidades por aqui.

Agradeço de coração quem ainda estiver acompanhando e deixou um agradecimento especial para minha querida amiga Kyou-san que começou a acompanhar a fic no Nyah. Muito obrigada pessoal e até a próxima!

Amanda Catarina

16-07-2018.