Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.
Vítimas do Dever
Por Amanda Catarina
Capítulo 18
Ichigo ficou aterrorizado diante da cena do homem da cicatriz tendo a lateral do corpo brutalmente atingida pela cimitarra do bandido.
Tão perturbado quanto o universitário, Renji gritou:
– Capitão Zaraki!
O traje militar do capitão só não foi completamente perfurado pela lâmina afiada por causa de seu revestimento duplo. Entretanto, apesar da potência do ataque sofrido, Kenpachi mantinha a cabeça erguida e a postura retesada, e fitava o oponente, sem demonstrar temor.
Nnoitra exibia um riso sádico, convicto de que só precisava aumentar um pouco mais a pressão para partir o corpo daquele policial irritante ao meio. No entanto, Kenpachi se moveu com inesperada rapidez, acertando um soco cruzado no rosto do bandido, que o arremessou para o lado e o fez soltar o cabo da cimitarra, a qual permaneceu enganchada no traje do policial.
Arrancando a lâmina de si, Kenpachi se aproximou do bandido derrubado e falou:
– Sua técnica de luta é muito boa, mas você é indisciplinado demais. Até parece um animal desesperado fugindo de um incêndio na floresta.
Estirado no chão, Nnoitra murmurou:
– Indisciplinado? Hunf! Aquela infeliz vivia me dizendo isso...
O policial chegou a franzir o cenho, mas, sem fazer questão de entender o lamuriar do bandido, engatilhou a arma e apontou na direção da garganta dele, mas então foi a vez do criminoso se mover com rapidez inesperada. Kenpachi o perdeu de vista, mas ainda assim conseguiu bloquear um chute alto e, na sequência, vieram outros golpes.
– Hahahaha... Você ainda consegue lutar? Mas que sorte a minha! - deleitava-se o policial, atacando e se esquivando no mesmo compasso alucinado que o bandido socava e atacava.
O confronto se estendeu por algum tempo ainda, Renji e Ichigo não conseguiam desviar os olhos da luta, policial e bandido pareciam dois insanos, mas, enfim, Nnoitra conseguiu acertar um tiro em Kenpachi, que pegou de raspão no pescoço e por questão de centímetros ele não teve uma das veias jugulares atingida.
– Ho... Outro desses pode acabar me matando...
Nnoitra percebeu que Kenpachi iria atirar, mas ainda assim se lançou contra ele, confiante na resistência de sua compleição modificada. Assim, esse ataque insensato e suicida o fez ser alvo de um tiro certeiro. Graças aos sentidos amplificados pela droga desenvolvida por Aizen, Nnoitra foi capaz de acompanhar a trajetória da bala como se em câmera lenta. Podia vê-la voando em direção ao seu peito, mas não podia fazer nada para evitá-la. Soube então que aquele seria o seu fim.
Nesse breve lapso temporal, Nnoitra pensou que apesar das diversas represálias que ouvira de sua ex-colega de equipe, Nelliel Tu Oderschvank - a quem ele havia assassinado pelo simples motivo de não suportar a ideia de que ela fosse mais forte que ele -, ele não se arrependia do modo desregrado que vivera aqueles últimos anos. Os poderes que Aizen lhe dera permitiram que ele saciasse seu vício por lutas e sede de sangue. Lutar era o que o motivava e ele ansiava ser morto exatamente daquela forma: com um único tiro, certeiro e implacável, que aniquilasse sua alma antes que seu corpo tombasse no chão.
Renji e Ichigo mal acreditavam no que tinham acabado de presenciar. Kenpachi estava em clara desvantagem, parecia a ponto de ser derrotado e, de repente, virava a luta daquele modo surpreendente.
– Eu não disse? Para o capitão Zaraki isso é diversão... - Renji comentou e antes que Ichigo se pronunciasse, ele correu em auxílio de seu antigo oficial superior. – Tudo bem, capitão?
– Achou que eu fosse perder, Abarai? - rebateu o veterano, apertando o ferimento no pescoço.
– Nem por um momento... Mas esse sujeito era durão!
– Nisso eu tenho que concordar.
Renji se aproximou do cadáver.
– Aquele outro... - começou ele, apontando brevemente para o bandido de cabelos pintados de azul, abatido antes. – Tinha uma tatuagem do número 6 nas costas.
– E esse aí tem uma do número 5 na língua... - adiantou-se Zaraki.
Com um ar interrogativo, Renji examinou o cadáver de Nnoitra e constatou o fato.
– O que será que esses números significam? - questionou ele.
Kenpachi deu de ombros. Mancando, Ichigo se aproximou dos dois policiais.
– Quem é o garoto? - Kenpachi perguntou para Renji.
– O namorado da Rukia.
– Rukia? A baixinha? Mas ela não era a sua garota? - o veterano rebateu em genuína confusão.
Ichigo nem tentou disfarçar o ciúme o que fez Renji rir discreto da situação.
– O senhor tá bem desatualizado. Já tem séculos que não estou mais com ela.
Querendo dar fim ao assunto, Ichigo comentou:
– Renji, você falou algo sobre entrar em contato com o líder de vocês...
– Ah, sim... Capitão Zaraki, estou tentando contatar o comandante Kyouraku, mas até agora nada.
– Contatar o Shunsui pra quê? Pra ele cortar meu barato? Me tirem dessa! Por mim, vocês podem fazer o que acharem melhor. Eu vou atrás de outra luta e torço que o próximo infeliz esteja no meu nível... - e sem dar mais satisfações, Kenpachi saiu caminhando a esmo.
Apesar da apreensão com o ferimento do veterano, que ainda escorria sangue, Renji não tentou dissuadi-lo, pois sabia que seria inútil, então se voltou para Ichigo e perguntou:
– Como está a perna?
– Ainda dói, mas dá pra andar.
– Então vamos tentar encontrar aquela sem noção da Rukia.
Ichigo detestava o modo como Renji falava da pequena, mas concordou.
Soifon arfava de cansaço, tentando novamente se camuflar entre as ferragens da estrutura da caixa d'água. Ela podia escutar a ladainha do bandido logo abaixo que insistia em dizer para ela parar de fugir. Izuru Kira não estava em parte alguma. Os dois haviam se separado.
– Aquele seu amigo evaporou como fumaça... Como se sente sendo deixada para trás? Esse é o tipo de coisa que pessoas insignificantes como você merecem.
– Acontece que estou acostumada a trabalhar sozinha desde os tempos da academia.
– Então a ideia de ser morta e não ter ninguém para presenciar não te chateia?
– E quem disse que ela será morta?
Baraggan se voltou na direção da voz masculina. Izuru apareceu junto do corpulento bandido e o golpeou com uma tábua de madeira, porém o resultado teria sido o mesmo se ele tivesse usado um travesseiro de plumas. A arma improvisada se despedaçou ao atingir a pele inumanamente endurecida do bandido. Baraggan riu da tentativa frustrada daquele policial franzino e até se esqueceu de sua oponente original. Soifon aguardava por essa brecha.
Sorrateiramente, a capitã enfim conseguiu se aproximar do bandido o suficiente para colocar em prática o plano antes traçado. Baraggan ainda debochava do loiro, quando sentiu algo metálico ser pressionado em suas costas.
– Acha mesmo que eu não escutei a sua aproximação, Formiguinha? Ainda não entendeu que não faz diferença me atacar de frente ou pelas costas?
O bandido acertou um chute em Izuru, fazendo-o se dobrar sobre o corpo, e em seguida voltou-se na direção da capitã. Ele exibia um ar régio e altivo, mas repentinamente sentiu um repuxar na pele que fez sua expressão desdenhosa se enevoar.
– Sua Moleca, está tentando me infectar com o veneno da sua arma outra vez? Se isso não deu certo antes, por que daria agora?
Apesar do tom jocoso era perceptível que o bandido começava a ter dificuldades para falar.
– Nenhum veneno é mais poderoso que o meu sangue! - bradou ele.
Erguendo-se com certo esforço, Izuru comentou em um tom impertinente:
– Nós também percebemos isso... Então misturamos o seu sangue com o veneno da Suzumebachi.
Subitamente, o bandido se calou e, quase ao mesmo tempo, Soifon soltou um grito agonizante e histérico.
– Capitã! - Izuru exclamou, correndo depressa até ela, e logo ele estava alarmado de ver que a mão esquerda da capitã entrava em um processo acelerado de decomposição.
– Kira, você tem que cortar minha mão! Antes que essa coisa detone meu braço todo!
– Mas capitã...
– Rápido!
Baraggan começou a rir ensandecido.
– Não vai adiantar nada! Você já está morta, Pequena Formiga!
Desesperada, Soifon puxou uma faca de um dos bolsos do traje e estava para se automutilar, quando Izuru foi mais rápido que ela e usou um spray que expeliu uma espuma azulada que rapidamente endureceu, recobrindo por completo a mão infectada dela.
– Isso deve conter o efeito! - justificou-se ele.
– Mas por que o desgraçado continua vivo? - angustiou-se ela.
– Seus imbecis! Acharam mesmo que eu iria ser morto pelo meu próprio veneno?!
Izuru se encheu de apreensão. Exatamente como a capitão previra, mesmo com as luvas, o simples contato com o pedaço de ferro que havia sido contaminado com o sangue do bandido acabou por infectar a capitã. Usar a habilidade do inimigo contra ele mesmo era o plano deles, mas, para seu infortúnio, a estratégia parecia ter falhado e o bandido permanecia de pé.
– Kira! Ainda tô sentindo a coisa me detonando! Você precisa cortar minha mão agora!
– Tem que ter outro jeito, capitã!
– Não tem! Anda logo!
– Quietos! Essa foi uma afronta imperdoável! Imperdoável! Não terei piedade!
Baraggan deu um passo na direção dos policiais, mas instantes depois estancou no lugar. Então Izuru e Soifon observaram, estarrecidos, um rombo do tamanho de um pneu simplesmente aparecer no tórax do bandido.
– Isso não faz sentido! - negava Baraggan. – Nenhum veneno é mais poderoso que o meu!
Em questão de instantes, a pele do bandido foi dissolvida, deixando o esqueleto aparente, mas logo os ossos começaram a esfarelar e o sangue letal evaporou em uma nuvem rubra. Reagindo depressa, Izuru jogou a capitã no ombro e saiu correndo para o mais longe que pôde.
Quando enfim estavam fora do alcance do ar contaminado, ele questionou:
– Mesmo agora que o cara morreu o efeito não parou, capitã?
– Não sei...
– Então vamos tirar essa resina de você e descobrir.
– Cuidado! Não encosta nessa coisa sem as luvas. Deve ter alguma embalagem para recolher materiais contaminados na mochila.
– Ah, bem lembrado! Tem sim!
– Ótimo. E temos máscaras respiratórias também, não temos?
Izuru assentiu, ajuntando rapidamente todos esses itens. Em pouco tempo, o emplasto contaminado estava contido e lacrado em um pacote com revestimento térmico.
– Consegue mexer sua mão, capitã?
– Ainda não. Está dormente, mas parece que vai voltar ao normal... Pela primeira vez na vida estou feliz que alguém não tenha seguido uma ordem minha.
– Ainda bem que deu certo, mas foi por pouco, hein?
– Nem me fale... Esses mutantes não estão de brincadeira.
– Não estão mesmo. O oficial Abarai me mandou uma mensagem não tem muito tempo. Ele não está longe daqui. Eu penso que seja prudente nós nos juntarmos a ele.
Soifon amenizou a expressão ao ouvir a notícia e logo assentiu.
Gin se aproximou da adversária que acabara de imobilizar e antes de dizer qualquer coisa ele aproveitou para desarmá-la. A capitã Soifon não era a única a possuir uma arma química. O veneno de sua pistola, Shinsoou, em pequenas doses, causava uma prolongada paralisia e, em doses maiores, podia ser tão mortífero quanto o veneno de Suzumebachi, ainda que não tão imediato.
– Tenho algumas perguntas, mocinha...
– E por que acha que irei respondê-las?
– Os bandidos costumam fazer isso quando estão com uma arma encostada na cabeça...
O corpo de Hallibel estava paralisado do pescoço para baixo, mas ela ainda podia falar e seu olhar permanecia intenso e hostil.
– Você é bem durona, hein! Acha que não tenho coragem de atirar?
– Acho que não. Conheço bem o seu tipo... Caras certinhos querendo se passar por vilões.
– Puxa vida... - ele rebateu em seu costumeiro tom irreverente e cantado. – Isso normalmente funciona. Parece que esse tal de Aizen-sama treinou bem todos vocês.
Gin deu alguns passos de lado e guardou o revólver.
– E agora? Como vou conseguir te convencer a me dizer onde Aizen se escondeu e que tipo de experiência é essa que ele... - dizia o policial, mas emudeceu ao ouvir o estrondo de um tiro.
Com os olhos vidrados, Gin observou o corpo da loira tombar sem vida e logo mais atrás Sousuke Aizen vinha andando em lentas passadas. Ele carregava um revólver prateado na mão e do cano da arma ainda saía um resquício de fumaça.
– Não seria mais simples perguntar essas coisas diretamente para mim, capitão Ichimaru?
Gin tinha fama de ser um homem frio como uma cobra, mas mesmo ele não conseguiu se manter impassível vendo aquele homem descartar a própria subordinada como quem se livra de um traje velho. A perplexidade ficou estampada em sua face e ele precisou de algum tempo até voltar a vestir a máscara da cobra e comentar:
– Que crueldade... - a melodia em seu tom não saiu tão irreverente quanto ele queria.
– Não foi nada pessoal. Apenas já reuni dados suficientes quanto ao desempenho desses soldados em campo.
Gin fitava fixamente o bandido, tentando desvendar sua expressão enigmática.
– Quem diria que o bondoso professor Sousuke Aizen fosse na verdade um homem tão malvado? Tenho a impressão que arruinei alguns de seus negócios em Seireitei, mas nem em sonho eu teria imaginado que o senhor era a mente por trás daquela sujeira toda.
– É verdade... Ah, Ichimaru, eu tinha grandes planos pra você. Mas como é difícil conseguir um aliado entre os incorruptíveis policiais de Seireitei. E quando eu finalmente descobri algo que poderia ter feito você passar para o meu lado, já não valia mais o esforço.
– Mas como assim, Aizen-sama? Que serventia um mero policial como eu poderia ter para alguém como senhor?
– Eu tinha algumas ideias... Seja como for, imagino que esteja curioso para saber como transformei a pior escória humana que pude encontrar em supersoldados, mas antes disso tenho algo ainda mais interessante para compartilhar com você, capitão Ichimaru.
– Ah, é mesmo?
– É mesmo... Fique sabendo que eu detenho uma informação que você procura há anos. Algo tão crucial pra você que o motivou a se tornar um policial, que inclusive fez você ser o mais jovem cadete a ingressar no Departamento de Segurança de Seireitei. Há anos você caça um homem sem rosto. Um homem que feriu a pessoa mais importante da sua vida.
Gin franziu o cenho, mas permaneceu apenas encarando o bandido.
– Não finja que não está interessado. Foi uma ironia do destino eu só ter descoberto isso apenas recentemente. Na verdade, o mérito é de Kaname.
– Desculpe, mas não estou entendendo... - o policial ficou apreensivo, mas buscava camuflar isso, mantendo o tom irreverente e zombeteiro.
Sousuke sorriu de leve.
– Esse mundo parece ser tão grande e mesmo assim é incrível como alguns destinos acabam se entrelaçando. Eu soube que você e sua noiva se conhecem desde pequenos. Vocês cresceram juntos na periferia de Rukongai, não foi?
– Minha origem humilde nunca foi segredo. Mas confesso que sempre achei curioso que um homem bem nascido como o senhor se interessasse tanto pelos pobretões de Rukongai.
– Homem bem nascido? Diz isso por causa do meu sobrenome? Família Aizen... Não, nem de longe era uma casa que pudesse rivalizar com os Kuchiki ou os Yamamoto. Minha família tinha algumas posses, é verdade, mas o dinheiro que herdei dos meus antiquados pais não era o bastante para bancar meus experimentos. Quando você devia ser só um menino, eu costumava perambular pelas ruas de terra de Rukongai e foi nessas minhas andanças que eu acabei avistando bem por acaso aquela garotinha de cabelos ruivos e dotes tão avantajados para a idade. Ah, se eu tivesse percebido antes que aquela menina é a mulher com quem você está para a se casar...
Ao ouvir aquilo a expressão do policial se transfigurou por completo.
– Que história é essa, seu miserável? - a irreverência deu lugar a uma crua rispidez.
– Entenda, Ichimaru, eu precisava de dinheiro para as minhas pesquisas, de muito dinheiro. E em todos os tempos a maneira mais rápida de enriquecer sempre foi se aproveitando dos impulsos desenfreados dos homens. É tão fácil encontrar um homem rico disposto a pagar muito bem por uma virgem.
Gin meneou a cabeça em negativa e falou secamente:
– Mentira.
– Não é mentira. E quando me lembro daquele dia, fico tentando imaginar como deve ter sido difícil pra você encontrar sua namoradinha naquele estado, suja, machucada, estirada na estradinha de terra, provavelmente chorando... Ah, me desculpe se eu não estiver sendo muito exato no relato, já tem tantos anos, e eu só dei uma relanceada pelo retrovisor do carro, enquanto levava meu satisfeito cliente para longe daquela favela.
O policial começou a tremer como se em uma nevasca e o criminoso continuou:
– Você deve ter se sentido um inútil, não? E totalmente impotente... E tem razão. Já que não estava lá para protegê-la, para salvá-la. E nem foi capaz de impedir o estupro.
– Chega dessa conversa... Você não sabe de nada! Rangiku tentou roubar a carteira de algum bacana e levou uns tapas do cara! Foi só isso que aconteceu!
– De que adianta se enganar desse jeito? Você sabe muito bem o que de fato aconteceu naquele dia. E ainda que tivesse dúvidas, quando você e ela tiveram sua primeira vez, é claro que você percebeu que ela não era mais virgem.
Gin começou a fincar as unhas nas palmas da mão com tanta força que estava a ponto de rasgar a pele.
– E por que você estaria caçando até hoje esse fantasma com a obstinação de um predador se o objetivo não fosse se vingar? Tanto que se eu lhe disser o nome desse homem, posso apostar que você daria as costas para sua missão aqui e voltaria para a Austrália hoje mesmo, e não descansaria até retalhar o infeliz.
Abaixando a cabeça, Gin ficou quieto por algum tempo, processando todas aquelas terríveis revelações, então ergueu o rosto e exclamou:
– O infeliz nunca teria chegado até ela senão fosse por você! Você foi o causador de tudo!
Sousuke sorriu antes de lançar um olhar provocativo ao policial.
– Como eu disse: esse mundo não é tão grande quanto parece.
Transtornado de ódio, Gin avançou contra Sousuke para um combate físico, mas para seu assombro e inconformismo, o criminoso parecia ter uma camada de aço revestindo a pele, de modo que os poucos golpes que conseguiam vazar sua surpreendente defesa, praticamente não surtiam efeito.
– O que foi? Não achava que eu também tivesse as mesmas habilidades que os meus soldados?
Gin não deu resposta, mas compreendeu de imediato a implicação daquilo, então pensou que sua única chance seria usar o segundo e último tiro de Shinsoou, o tiro com a dose aumentada do veneno. A pistola ficava oculta em uma pequena repartição do traje em suas costas. O bandido estava apenas a alguns passos a sua frente, ele sabia que precisava ser rápido e ganhar algum espaço para sacar a pistola e atirar.
Mas antes que Gin agisse, Sousuke simplesmente apareceu ao seu lado e agarrou-lhe o braço direito e o apertou com uma força descomunal. Gin escutou o estalo de seu próprio osso sendo partido e ainda que tenha sido a pior dor que jamais sentira na vida, ele não deu ao bandido a satisfação de ouvi-lo gritar. Porém, cambaleou para trás e fechou um dos olhos, tentando alucinadamente não ceder à dor.
Sousuke deu um riso sádico e então o soltou, fitando-o com desprezo.
– É assim que se acaba com um policial, impedindo-o de atirar.
Gin estava a ponto de desmaiar, mas arranjou forças para uma última reação desesperada. Com a mão esquerda ele alcançou Shinsoou e atirou com impensada rapidez e perícia, acertando Sousuke em cheio, e no meio do peito.
– Seu miserável! Você é canhoto! - Sousuke esbravejou cheio de fúria.
Gin pôde enxergar um filete de luz solar atravessando o buraco que ele havia aberto no peito do criminoso.
– Não, sou ambidestro... - ele se esforçou muito para responder.
O criminoso ainda conseguiu abaixar a cabeça, mas logo estava paralisado.
Gin arfava de dor, mas sentia-se feliz por ter sido ele a acabar com aquele homem odioso. Assim que o miserável tombasse, ele chamaria por ajuda.
No entanto, ao invés de cair, Sousuke endireitou a postura inacreditavelmente e, ainda que um fio escuro de sangue escorresse pelo buraco da bala, ele voltou a falar naquele tom irritantemente sereno.
– Agora entendo... A bala da sua arma é revestida com veneno. Provavelmente de alguma serpente muito perigosa, coisa fácil de encontrar na nossa terra natal. Isso explica a paralisia de Halibel e a forte reação que ainda estou sentindo. Uma arma bem engenhosa... devo admitir.
Incrédulo e trêmulo de dor, Gin balbuciou:
– Mas que espécie de demônio é você?
– Típico do ser humano não distinguir a ciência das fábulas... Por mais que você não compreenda, veneno não pode me matar. Nada que a Polícia atualmente detém pode me ferir. Venho fazendo aperfeiçoamentos no meu corpo há anos. Você viu o que meus soldados podem resistir. Como eu poderia controlá-los, se não fosse mais forte que eles?
O policial vidrou os olhos e imediatamente pensou que não podia morrer antes de repassar aquelas informações para seus companheiros de equipe.
– Enfim, já perdi tempo demais aqui. É hora de acabar com você.
Gin pôde apenas observar enquanto Aizen engatilhava a arma. A derrota e o fracasso doíam tanto quanto a grave fratura em seu braço. Então ele pensou em Rangiku e no que ela havia sofrido e se sentiu ainda mais destroçado, assim, nem sequer escutou o estrondo do tiro. Porém, antes que sua cabeça fosse atravessada pela bala, um objeto que ele foi incapaz de identificar fez o projétil ricochetear para o alto.
– Eu assumo daqui, Ichimaru.
– Capitão-comandante?! - abismou-se o policial.
Inegável surpresa ficou estampada no semblante de Sousuke Aizen, enquanto Genryuusai Yamamoto se posicionava bem à frente de seu subalterno.
Genryuusai usara a guarnição sintética de seu rifle - a qual imitava uma bengala de madeira -, para desviar a bala. O violento impacto fez essa guarnição rachar e cair partida ao chão, deixando o rifle totalmente exposto.
Os dois líderes se encararam intensamente e então Sousuke comentou:
– Definitivamente, você sabe como fazer uma grande entrada, Yamamoto.
Tóquio, Japão, dias atuais.
Byakuya sentia-se inexplicavelmente inquieto, passara a tarde lutando contra a vontade de ligar para Yoruichi e exigir que ela voltasse para aquela casa, mas ele bem sabia que nada no mundo teria conseguido mantê-la ali depois do telefonema de Urahara.
Em momento algum, ele desejou que o "gênio incompreendido" falhasse, mas com o estado dos enfermos se agravando dia após dia, ele custava a acreditar que aquela situação teria volta. Por isso sua surpresa foi tão grande quando Yoruichi anunciou com um enorme sorriso que Kisuke havia encontrado a cura. Ele tentou transparecer alegria, mas seu semblante não evoluiu da incredulidade. Ela insistiu muito para que ele fosse com ela até o casarão, mas a ideia de vê-la destilando elogios para aquele homem era mais do que ele podia suportar.
Mas agora inteiravam mais de quatro horas que Yoruichi estava fora e ele começava a se impacientar com aquela estranha demora. Muito irritado, ele se convenceu que aquilo havia passado dos limites. Levantou-se num ímpeto, pegou as chaves do carro, mas assim que passou pela soleira da porta, deu de frente com ela. Por pouco não trombaram.
– Sua Bakeneko! - praguejou ele.
– Ah, desculpa, eu não quis te assustar!
– Como consegue andar sem fazer barulho desse jeito?
Ela sorriu travessa.
– Você sabe como, Byakuya-Bo. Eu te ensinei a andar assim, com passadas leves como as de um gatinho...
Ele a fuzilou com o olhar e ela bem sabia o porquê daquilo.
– Ih, nem vem, foi você que começou... Me chamando daquele jeito. Andava tão cavaleiro e do nada vem com essa de Bakeneko de novo...
Byakuya não conseguiu se manter sério e acabou rindo de leve e depois perguntou:
– Como foi lá?
– Bom, ainda não deu pra ver muita diferença, mas o antídoto funcionou! Está dissolvendo as máscaras bem devagar, mas está. Kisuke me garantiu que agora sim eles vão voltar ao normal!
– Que bom. Fico feliz em saber disso.
– É, estou vendo o quanto...
Ignorando a descrença na voz dela, ele questionou:
– Por que demorou tanto?
– Sinceramente, eu nem vi a hora passar... Kisuke ficou me explicando umas coisas, mas eu não entendi muito bem como ele produziu esse antídoto. Só sei que deu certo!
Byakuya enlaçou a cintura dela com um braço e depois tomou-lhe uma das mãos.
– Como sua mão está fria... Está se sentindo bem?
Desviando olhar, ela comentou em um tom mais contido:
– Na verdade, eu tive um pequeno mal estar... Quase desmaiei, mas passou logo.
Byakuya a encarou com um ar de reprovação.
– Por que não me chamou?
– Eu já disse que foi momentâneo... E eu não quis te preocupar.
– Melhor irmos ao médico.
Rapidamente, Yoruichi passou os braços ao redor do pescoço dele e falou:
– Não, por favor... Não tô nem um pouco a fim de encarar hospital agora. Na verdade, eu estou morrendo de fome. Vai, me leva em algum lugar legal pra comer.
Apesar da expressão nada amistosa, ele acabou concordando.
Dali em diante a noite transcorreu tranquila, as inquietações do dia deram lugar aos planos futuros. Yoruichi não contestou quando Byakuya sugeriu que voltassem para Austrália no mais tardar no fim daquela semana, pois ele só conseguia pensar que logo estariam formalizando sua união e aguardando pela chegada da criança que em breve nasceria.
Kisuke mal tinha conseguido pregar os olhos durante a noite, por isso antes do raiar do dia, ele já estava no laboratório monitorando os sinais vitais de seus comatosos enfermos. Tudo estava assombrosamente silencioso quando ele ouviu um baque surdo, como uma pancada.
Olhou ao redor com o coração disparado no peito e então percebeu que o ruído vinha da câmara na qual estava confinada a pequena Hiyori. Apressadamente, ele acionou um comando que esvaziou o líquido e, em poucos instantes, a tampa da câmara se abriu. Quase ao mesmo tempo, a jovem policial se ergueu e uma golfada de líquido amarelado inrrompeu de sua boca.
– Mas que porra de lugar é esse?
Kisuke ficou desconcertado. A voz dela ainda soara distorcida e monstruosa, mas havia familiaridade naquele tom, e era evidente que ela não estava mais fora de si, como um animal irracional.
– Kisuke? - ela exclamou espantada, assim que o percebeu a encará-la. – Que merda você fez comigo?
Antes que ele se explicasse, Tessai chegou ali atribulado e esbaforido.
– O que aconteceu com a câmara da senhorita Hiyori?
E o susto do grandalhão de ver a baixinha desperta foi tamanho que o fez emudecer.
– Tsukabishi Tessai! - exclamou a loirinha, ainda mais confusa.
– Eu acho que todos eles vão despertar do coma a qualquer momento, Tessai. É melhor tirarmos eles das câmaras.
Os minutos que se seguiram foram tumultuados, mas, em cerca de uma hora tudo estava controlado. Kensei e Hiyori foram os mais agitados e difíceis de lidar, devido ao estágio avançado de suas mutações, mas os outros reagiram bem após receberem alguma explicação sobre sua condição. À tarde, Kisuke tentou extrair a máscara do rosto de Hiyori, mas sem sucesso.
– Acho que isso vai dissolver por si só... - observou Tessai.
– Parece que sim.
Os dois silenciaram por alguns instantes.
– Eu coloquei um anúncio no jornal, requisitando enfermeiros... - disse Tessai.
– Foi uma boa ideia. Com certeza iremos precisar de ajuda.
– Hoje mesmo, na parte da tarde, irei entrevistar algumas pessoas.
Kisuke assentiu e acrescentou:
– Vou esperar mais alguns dias para avisar Yoruichi-san que eles finalmente recobraram a razão.
– E você pensa em contar toda a verdade a ela?
– Não sei se consigo, Tessai.
– Sinceramente, eu acho que você devia dar um jeito de conseguir.
Kisuke escapou do amigo para ir se refugiar em um dos salões vazios da casa. Recostado à porta do cômodo, ele suspirou forte, sentindo-se terrivelmente oprimido.
Passados três dias desde a notícia da cura, Byakuya enfim concordara em acompanhar Yoruichi no que ele esperava ser a última estada dela no refúgio que servia de abrigo para Kisuke Urahara. Ela estava distraída, quando percebeu que ele estacionava o carro cerca de uma quadra antes do destino.
– O que foi? Por que você parou aqui?
– Não quero ver Urahara.
– Mas e o pessoal, Byakuya? Você não quer vê-los?
– Não sou tão próximo assim deles quanto você... Eu vou ficar por perto. E você me manda uma mensagem quando quiser que eu venha te buscar.
Yoruichi bufou irritada e retrucou:
– Você acha certo ficar contrariando assim uma mulher grávida?
– Não é certo, mas vou pensar em algo para me redimir.
– Escuta aqui: você vai ter que parar com essa sua implicância com o Kisuke. Porque mesmo depois que eu casar com você, vou continuar sendo amiga dele!
– Não se pode ter tudo...
Fingindo não ter escutado o comentário, ela continuou com o raciocínio:
– Se você fosse lá comigo, podíamos inclusive abrir o jogo sobre a gente, sobre o bebê...
– Esqueça.
– Are! Você é mais teimoso que uma mula! - ela exclamou furiosa e então saiu do carro, batendo a porta com força.
Apesar da raiva, enquanto caminhava rumo ao casarão, Yoruichi pensou que falar com Kisuke sobre seu atual relacionamento não seria assim tão simples e menos ainda sobre a gravidez, então não demorou para a fúria se dissipar e a expressão dela voltou a ficar leve. Cerca de cinco minutos depois, ela tocava a campainha do casarão e logo Tessai apareceu para recebê-la.
– Yoruichi-dono, seja muito bem vinda!
– Boa tarde, Tessai! Me diz: Eles estão mesmo voltando ao normal?
Tessai assentiu na costumeira placidez e deu passagem a ela e, assim que ela adentrou o local, deparou-se com Kisuke, que se curvou em saudação.
– Boa tarde, Yoruichi-san.
Ela sorriu amistosa e exigiu de imediato:
– Me leva até eles agora!
Assentindo com um raso sorriso, Kisuke a conduziu até o laboratório.
Lá chegando, a visão de seus oito amigos despertos comoveu tanto Yoruichi que ela não conseguiu conter algumas lágrimas.
– E aí, cambada?! Finalmente voltaram ao Mundo dos Vivos!
O loiro, Shinji, foi primeiro a se manifestar, exclamando contente:
– Shihouin-sama! Isso sim que é uma boa surpresa!
Aproximando-se e fazendo uma respeitosa mesura, o corpulento Hachigen se dirigiu à investigadora dizendo:
– Urahara-san nos contou tudo que fez por nós, Yoruichi-dono. Essa será uma dívida eterna que teremos com a casa dos Shihouin.
– Sem essa, Hachi! Não me devem nada. Minha recompensa é ver todos vocês bem!
Fazendo um gesto para que o amigo grandalhão se afastasse, o loiro e esbelto, Rose, também se aproximou da investigadora, curvou-se graciosamente diante dela e, tomando-lhe a mão, ele indagou:
– Me permite, Mademoiselle?
Compreendendo que ele desejava beijar sua mão, Yoruichi achou aquilo engraçadíssimo, mas assentiu.
– Você parece um lorde do século passado, Rose!
– Ele parece um idiota, isso sim! - atacou Hiyori.
Como ninguém mais se espantava com os acessos malcriados da loirinha, passados alguns instantes, com um ar distante, o atlético Kensei ganhou a atenção de todos ao comentar:
– Quem teria suspeitado daquele professorzinho com cara de sonso do Aizen?
Yoruichi rebateu na mesma hora:
– E como alguém iria suspeitar dele, Kensei, se ele se apresentou a nós como um pacifista e filantropo em busca de voluntários que o ajudassem a melhorar a condição dos pobres e sem teto de Rukongai?
Em declarada revolta, o grandalhão Tessai acrescentou:
– E ao invés de ajudar aqueles coitados, ele fazia experiências desumanas com eles!
Shinji assentiu e disse:
– O miserável tem uma fala mansa e um talento para enfeitiçar as pessoas que não é brincadeira. Nosso camarada, Abarai, e aquela mocinha, a Hinamori, chegaram a participar de um dos falsos programas assistenciais dele. Mas eu bem que desconfiava dele!
– Desconfiava coisa nenhuma, seu Cabeça de Ovo! - Hiyori atacou novamente.
– Desconfiava sim! Mas de que adiantou? Se eu também caí na conversa fiada dele? Fiz várias doações para as instituições de faz de conta dele e por pouco não me endividei!
– Você é muito burro, Shinji! - Hiyori rebateu.
– Quando o assunto é burrice, você não tem moral pra falar de mim, sua Nanica Sem Peitos!
Ignorando à constante briguinha daqueles dois, Kensei fez mais um comentário:
– Outro que suspeitava do Aizen era o capitão Ichimaru.
Aproximando-se e se sentando ao lado dele, a exótica de cabelos verdes, Mashiro, interpôs em seu peculiar tom infantilizado:
– Ah, fala sério, Kensei! Quem iria acreditar no capitão Ichimaru? Ele é tão sinistro e põe mais medo que o próprio Aizen!
– Quer uma prova melhor que essa de que a perversidade não olha a aparência e sim a alma, Mashiro? - comentou Yoruichi. – E o Ichimaru estava mesmo na pista certa, o problema foi que Aizen soube como se camuflar na alta sociedade de Seireitei.
– Você fala de um jeito tão clássico, Shihouin-san... - rebateu Mashiro.
– E você só fala asneiras! - disparou Hiyori.
– Dá um tempo, Sarugaki! - Kensei urrou, afugentando a loirinha encrenqueira.
Emocionada por Kensei ter se manifestado em sua defesa, Mashiro se dirigiu à Hiyori, na mesma voz infantilizada, e disse:
– Se você foi a primeira a receber o antídoto, já não era pra essa sua animalidade ter melhorado, Hiyori-chan?
– A animalidade dessa aí não tem nada a ver com a mutação, minha adorável Mashiro... - assegurou Shinji.
Possessa de raiva e ciúme, Hiyori correu atrás de Shinji, que fugiu, lançando provocações e gestos obscenos a ela.
Alheia àquela bagunça, a jovem de traços asiáticos, Liza, comentou muito seriamente:
– Shihouin-san, eu soube que Aizen foi levado para um presídio de segurança máxima.
Voltando-se a ela, Yoruichi assentiu e acrescentou:
– Sim, o lugar fica em uma ilha do Pacífico. Kurotsuchi Mayuri foi nomeado chefe da equipe especial de contenção.
Ao ouvir aquilo, o moreno de cabelo crespo, Love, endireitou-se na banqueta em que estava sentado e comentou:
– Então agora esse miserável vai ter o que merece... Um louco sendo vigiado por outro.
Kisuke enfim se manifestou.
– Kurotsuchi Mayuri costuma causar uma má impressão nas pessoas por causa de sua aparência excêntrica, mas ele é um profissional formidável. Já tive o privilégio de trabalhar com ele e posso dizer que ele é um autêntico cientista, enquanto Sousuke Aizen não passa de um mau caráter de mente deturpada!
O desprezo na voz de Kisuke foi algo que todos captaram, pois era muito raro ele demonstrar reprovação por qualquer pessoa tão abertamente, tanto que houve um prolongado silêncio após essa declaração dele.
Na sequência, os relatos e esclarecimentos prosseguiram e com isso um bom tempo se passou. Em meio às conversas, Yoruichi também questionou a respeito de dois jovens desconhecidos que estavam no local, ambos com jalecos brancos. Um rapaz de cabelos pintados de vermelho e uma moça de cabelos longos e escuros. O jovem se chamava Jinta e a garota, Ururu, eram estudantes de enfermagem e tinham sido contratados por Tessai para ajudar na reabilitação dos enfermos. Yoruichi simpatizou muito com os dois.
E ela estava muito descontraída e contente, quando Kisuke a chamou de canto e falou num sussurro:
– Eu poderia conversar com você um minuto?
Yoruichi assentiu, percebendo a expressão pesada dele. Pouco depois, os dois entravam em uma sala vazia e ela estranhou quando Kisuke selou por completo as portas de correr.
– Algum problema? - ela não conteve a curiosidade.
Kisuke fez que não com a cabeça, porém demorou a falar.
– Hey, Kisuke! O que acontece? E que cara de enterro é essa?
Resignado, ele a encarou fixamente até que enfim deu início ao assunto:
– Lembra que no dia que eu tentei te explicar como eu consegui curá-los, eu precisei sair e acabou que não falei direito como fiz isso.
– Lembro sim! Na verdade, eu queria mesmo entender como você conseguiu esse milagre!
– Milagre? - ele repetiu em tom arrastado.
Kisuke andou pela sala, evitando encará-la.
– Eu não sei se você sabe, Yoruichi-san, mas quando as mulheres ficam grávidas, o corpo delas muda drasticamente e alguns hormônios diferentes são produzidos. Hormônios que só aparecem nessa circunstância da gravidez.
Yoruichi deu um pequeno sobressalto, surpresa com o assunto.
– Bem, eu acho que já li algo a respeito... Mas o que isso tem a ver?
– Foram esses hormônios que me ajudaram a curar nossos amigos.
– Sério? Uau! Que coisa incrível! Mas espera... Como você conseguiu esses hormônios? Ai, não! Não me diga que invadiu algum hospital e roubou isso?
Kisuke deu um riso amargo.
– Antes tivesse sido...
A cada instante, a investigadora ficava mais intrigada.
– Yoruichi, eu não sei como explicar o que eu preciso te explicar. Não sei como você vai reagir... Mas depois de pensar bastante entendi que não posso continuar mentindo pra você. Eu usei a hipnose em você e te usei como cobaia.
Ela arregalou os olhos.
– Você usou hipnose em mim? - ela repetiu, a indignação estava nítida em sua fisionomia, mas ela ainda parecia digerir a ideia. – Seu cretino... Eu até imagino quando foi isso, minha intuição não falha mesmo... - dizia ela, mas, de repente, teve um insight. – Espera... Você disse que me usou de cobaia? Mas como você sabia que eu estava grávida?
Kisuke pestanejou e a encarou com estranheza.
– Porque fui eu que inseminei você.
Yoruichi perdeu o ar, tanto que demorou a voltar a falar.
– Você fez o que?
– Por favor, não fique assim tão perturbada! Eu inseminei você, é verdade, mas já extraí tudo!
– O que? - então ela gritou.
– Eu sei que foi errado. Eu sei que devia ter falado com você, mas...
Yoruichi sentiu o chão sumir sob seus pés, então remexeu a cabeça em uma negativa nervosa e depois levou à mão ao ventre.
– Já não há mais nenhum embrião, eu te asseguro!
Ela continuava remexendo a cabeça em desesperada negação.
– Não, Kisuke, você não fez isso... Você não pode ter feito uma coisa dessas comigo!
– Me perdoe, Yoruichi...
Ele se aproximou e quis tocá-la, mas ela o repeliu furiosamente.
– Seu monstro! Monstro!
Kisuke sentiu a alma se estilhaçar em pedaços.
– Byakuya estava certo sobre você!
Então ela saiu correndo e em pouco tempo estava fora da casa e no meio da rua. E Yoruichi correu sem rumo, até ter cabeça para se lembrar do celular e chamar pelo parceiro.
Byakuya caminhava tranquilo por um shopping, tentando distrair a mente, quando uma vitrine chamou sua atenção. Instantes depois, ele adentrava uma loja de roupas para crianças e duas vendedoras quase se fritaram com os olhos para atendê-lo.
– Eu gostei de um modelo na vitrine... - ele comentou casualmente.
As duas jovens ainda se encararam até que uma delas cedeu.
Cerca de dez minutos depois, ele deixava a loja com uma pequena sacola, dentro da qual estava uma roupinha para recém-nascidos em uma cor neutra. Entediado, ele pensava em tomar um chá, quando sentiu o celular vibrar no bolso. Atendeu a chamada e antes que dissesse qualquer coisa, escutou Yoruichi exclamar:
"Vem me buscar!"
– O que foi? O que aconteceu?
"Rastreia meu celular. Eu nem sei onde vim parar. Por favor, vem logo!"
– Estou indo!
Byakuya não precisou de mais que dez minutos para encontrá-la, mas mesmo isso pareceu uma eternidade a ele. Assim que o avistou, Yoruichi se agarrou a ele e começou a chorar de uma forma que ele jamais vira antes, que sequer julgava que ela fosse capaz.
– Yoru... - disse ele, tentando afastá-la de si, mas ela o apertava com muita força. – Yoru, calma. Você precisa me dizer o que aconteceu.
– Quero ir embora! Me leva embora daqui!
Percebendo que era inútil tentar descobrir algo naquele momento, ele a conduziu pelo braço e ao invés de retornar ao carro, entrou em um táxi com ela. Apesar da aflição que o corroía, ele não fez questionamentos durante o trajeto, apenas a manteve abraçada a si. Quando chegaram à mansão, ele teria esquecido a sacolinha no carro, se o motorista do táxi não o avisasse a tempo.
Mal pisaram no hall de entrada e Byakuya avistou a ambulância que chamara, estacionando em frente ao portão da mansão. Sua prima de terceiro grau saiu apressada de encontro a eles, aflita de preocupação. Ele tentava não pensar que tinha algo a ver com o bebê, mas no íntimo sabia que qualquer outra coisa não teria deixado Yoruichi transtornada daquele jeito.
Enquanto os médicos adentravam a propriedade, Byakuya conduziu Yoruichi até o quarto. Ela mantinha-se quieta, em aparente estado de choque, então ele a estirou no leito no centro do quarto, e logo Mariko estava secando o rosto molhado dela de lágrimas e suor. E assim que um jovem médico acompanhado de duas enfermeiras chegou ao local, Byakuya escutou sem escutar a balburdia que se armou ao redor deles.
A confirmação veio rápido: Yoruichi havia perdido o bebê.
Byakuya se sentiu desolado, mas buscou se convencer de que aquela era uma possibilidade até relativamente alta na primeira gestação de uma mulher, mas também era muito normal do ser humano achar que aquele tipo de coisa só acontecia com os outros. De todo modo, ele se sentiu grato por ter sido tão no começo e teve esperança que Yoruichi logo se recuperaria.
Antes de partir, o médico avisou que havia aplicado nela um leve sedativo e recomendou que a deixassem descansar. Byakuya ainda permaneceu no quarto algum tempo, enquanto Mariko despachava os profissionais, mas, assim que Yoruichi adormeceu, ele também deixou o quarto e quis ele mesmo dar a triste notícia ao avô.
Mesmo o inabalável Ginrei não conseguiu camuflar a profunda tristeza e decepção. Byakuya bem sabia o quanto seu avô ansiava por um bisneto, mas, naturalmente, Ginrei não deixou de aconselhá-lo e convencê-lo de que ele precisava ser forte naquela hora e um baluarte no qual Yoruichi pudesse encontrar amparo. Seguindo à risca as orientações do avô, antes de voltar para junto de Yoruichi, ele lavou bem o rosto, para camuflar o próprio abatimento.
Voltando ao quarto, Byakuya encontrou Yoruichi desperta, com o olhar fixo ao teto. Assim que o percebeu, ela se ergueu em um ímpeto e então ele finalmente entendeu o porquê daquela reação tão descontrolada dela.
– Eu não perdi o bebê, Byakuya. Foi o Kisuke. Foi ele que destruiu o nosso filho!
Depois que Yoruichi saiu correndo, Kisuke se refugiou em um quartinho nos fundos do casarão, onde se sentou no chão e deu vazão a um choro abundante, ainda que silencioso. Ele podia escutar o alarido das vozes lá dentro da casa. Aquela algazarra deveria alegrá-lo, mas, naquele momento, ele só queria desaparecer. Entretanto, antes que a ideia de suicídio se enraizasse em sua mente outra inquietação se agigantou em seu pensar.
"Como você sabia que eu estava grávida?"
Essa pergunta ficou ecoando em sua cabeça. Havia algo ali que ele precisava entender.
"Byakuya estava certo sobre você!"
De repente, Kisuke levantou a cabeça tombada de lado e num lampejo um desenho piscou em sua memória. Trêmulo, ele puxou o celular do bolso e digitou duas palavras em uma busca por imagens: Insígnia Kuchiki. Quando ele viu na tela do aparelho o mesmo desenho que dias atrás o intrigara, bordado na echarpe que Yoruichi usava, em um átimo, seu ágil raciocínio efetuou todas as conexões.
"Dois fetos? Mas como isso foi acontecer?"
"Como você sabia que eu estava grávida?"
"Até a mídia tem conspirado para mostrar esses dois juntos!"
"Byakuya estava certo sobre você!"
– Aquele outro feto já estava lá... - um desespero atroz engolfou sua alma. – Deus! O que eu fiz?
Uma terrível vertigem o acometeu. Transtornado, ele começou a bater a cabeça contra a parede, repetidas e repetidas vezes. Tentava alucinadamente perder a consciência para que o arrependimento não o enlouquecesse e ele teria sim rachado o próprio crânio se Jinta não tivesse aparecido ali e berrado por ajuda.
– Você tem que estar fora de si! - vociferou Byakuya. – Isso não faz nenhum sentido!
– Vê se entende de uma vez! - Yoruichi rebateu tão alto quanto ele. – Essa hipnose faz a pessoa virar um... Um fantoche!
– Isso não existe!
– Existe! E não foi ninguém que me contou, Byakuya! Eu mesma vi! Eu vi com meus próprios olhos Kisuke amputando a perna de um cara, serrando o osso sem anestesia e o sujeito nem piscou! Se o controlador decidir que quer cortar o hipnotizado da cabeça aos pés, ele corta e o infeliz não sente nada. Nada! E ele fez essa monstruosidade comigo! Ele arrancou nosso bebê de mim e eu não vi e nem senti nada! - ela gritou desesperada.
– Não acredito! Não acredito em nada disso! É loucura! Esse maldito está tentando te enlouquecer e me enlouquecer junto!
Desolada, Yoruichi se sentou na beira do leito e abaixou a cabeça para esconder o choro que voltou a inundar seus olhos já bastante inchados.
Byakuya andou pelo quarto, absolutamente cego de ódio. Então ele se encaminhou ao closet, abriu todas as portas e derrubou uma série de caixas no chão em busca de algo. Yoruichi permanecia cabisbaixa, chorando inconsolável.
Encontrando finalmente a velha sacola que procurava, Byakuya tirou um revólver antigo de lá. Sem paciência de vestir o coldre axilar, ele meteu a arma no cós da calça e estava decidido: iria descarregar o tambor daquela arma na cabeça de Kisuke Urahara.
Ele já estava à porta do quarto, quando escutou Yoruichi dizer:
– Eu só quero ir embora daqui...
Sem saber se ela tinha dito mesmo aquilo ou se estava ouvindo um eco do passado, ele parou no lugar. Instantes depois, ele voltava para junto dela e a puxava para os braços.
– Tudo bem... Nós vamos. Vamos hoje mesmo. Eu vou falar com o vovô.
Yoruichi o agarrou com força e aquilo o ajudou a dissipar a fúria. Era certo que ele não se importaria de ter a morte de Urahara manchando sua ficha criminal, mas ao menos por hora, Yoruichi precisava ser sua prioridade, ele não podia perdê-la para a loucura, assim o melhor a se fazer era realmente voltarem ao único lugar que ambos reconheciam como um lar: a mansão Kuchiki.
CONTINUA...
Acharam que eu tinha abandonado a fic, é? Nada mais justo depois de quase 6 meses sem atualização. Eu queria muito ter postado esse capítulo antes, mas não rolou. Seja como for, espero que tenham gostado, pois esse foi o clímax da história. Estamos chegando à reta final, mais ainda vem muitos confrontos por aí e muito drama, é claro.
Com relação às diferenças das lutas em relação à série original, não estava na cara que eu ia fazer meu velhinho favorito salvar meu personagem favorito? A morte do Gin foi uma das coisas que eu mais detestei na série.
Por fim, aproveito o espaço para deixar o recado de que (finalmente) concluí a faculdade e, com um pouco de sorte, agora esse projeto deve voltar a um ritmo normal de postagens.
Como sempre, comentários serão muito bem vindos! E agradeço a todos que mandaram comentários no capítulo anterior. Muito obrigada!
Grande abraço e até a próxima!
Amanda Catarina
11-12-2018.
