Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.

Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 19

Cidade de Las Noches, Espanha, quatro semanas atrás.

O capitão Shunsui Kyouraku encarava fixamente o adversário a sua frente, e mesmo quando o celular vibrou mais uma vez no bolso de sua jaqueta, ele não atendeu a chamada, mantendo toda sua atenção no confronto.

O oponente do policial era um homem de porte esbelto e não muito alto, de olhos claros e cabelos castanhos, na altura dos ombros. Embora ele não tenha se apresentado, Shunsui sabia que o nome dele era Stark.

Repentinamente, o bandido quebrou o prolongado silêncio, ao dizer:

– Cansei disso... Policial, será que você poderia fazer o favor de me matar?

– Are, are... Mas para onde foi todo aquele seu espírito de luta?

– Pra começo de conversa, eu nunca quis estar aqui. Eu vinha obedecendo as ordens de Aizen porque era o único jeito de saber algo sobre a minha filha. Mas no momento que você atirou com suas duas armas, e eu consegui me esquivar dos dois disparos, eu entendi que Lilinet está morta.

– O que uma coisa tem a ver com a outra?

– Sei que não faz sentido pra você, mas o que me fez conseguir isso só pode ter sido o meu próprio DNA presente no sangue dela. Por isso a última dose que me injetaram da droga não me causou nada dos efeitos colaterais que costuma causar. Nada de náuseas, nenhuma dor... Aizen me deixou ainda mais forte sacrificando minha Lilinet. Então antes que eu encontre o cadáver dela arruinado por aí, prefiro ir para o inferno, pelo menos assim posso guardar a lembrança de seu rostinho de anjo.

Após um instante de ponderação, Shunsui rebateu:

– Escute, se Aizen tem mantido reféns, nós vamos libertá-los. E se você está se rendendo, largue a arma. Prometo que irei apenas te prender.

– A cadeia sairia barato para um assassino como eu. Meu objetivo era achar Lilinet, mas, apesar disso, eu deixei um rastro de corpos atrás de mim. Pessoas aleatórias, que não tinham nada a ver com os meus problemas. Enquanto eu acreditava que Lilinet estava viva, era fácil não pensar nesses fantasmas, mas agora que entendi que ela se foi... No fim, não passo de um assassino que é covarde demais para tirar a própria vida. Não era esse o tipo de pai que eu queria ter sido.

A frieza quase inumana na voz daquele homem deixou Shunsui revoltado, ainda que sua fisionomia permanecesse serena, então ele retrucou:

– Não sei, mas penso que se passar o resto da vida trancafiado em uma cela, remoendo tudo isso, você terá uma punição melhor do que uma passagem sem escalas para o inferno.

Stark suspirou fundo.

– Ah, com certeza, por isso te pedi o favor de acabar comigo. Mas é querer demais, não é?

Foi a vez de Shunsui suspirar pesadamente.

– Não é meu estilo atirar em alguém parado como um alvo, mas vamos dizer que estou benevolente hoje.

Stark assentiu e depois ficou cabisbaixo, mas, ao invés de atirar, o policial fez outra pergunta.

– Antes, quero que me responda uma coisa: Por que vocês têm essas tatuagens? Esse Número 1 na sua mão, o que significa?

Com um ar surpreso, o bandido ergueu a cabeça, e respondeu:

– Esse é o meu ranking entre os dez Espadas. Em condições normais, eu, Stark dos Lobos, sou o mais forte. Mas, se acontecer de a missão complicar muito, outro cara fica com o meu posto.

– Outro cara? Então vocês são onze?

– Não. Ele é um dos dez, só que ele pode mudar de nível e quando isso acontece, ele me supera. Mas, enfim, não preciso explicar. Se o que ouvi é verdade, vocês estão levando a melhor, então é certeza que esse cara vai ter que dar um jeito nisso.

Depois dessa enigmática explicação, Stark voltou a ficar cabisbaixo e não falou mais.

Shunsui ficou intrigado, mas soube que não adiantava continuar questionando, a postura resignada daquele bandido transparecia sua rendição e derrota. Um longo silêncio se estendeu e quando o assassino ergueu momentaneamente o olhar, Shunsui disparou. Um único tiro, certeiro, que liquidou aquela vida infeliz num piscar de olhos.


Mesmo depois que o corpo do ensandecido Kaien Shiba ficou imóvel, Rukia continuou estirada no chão, agonizando. Ela sabia que se não conseguisse ao menos estancar o sangue que escorria por seu abdômen, não teria chances de sobrevivência. Parte de si queria apenas ceder a escuridão, ao frio, escapar da dor, mas, bem no fundo, seu instinto insistia que ela não podia morrer se estava cheia de aparatos médicos ao alcance das mãos. Alguém logo daria por sua falta, tudo que precisava fazer era deter a hemorragia.

Lentamente e com muita dificuldade, ela virou de bruços, seus dedos moles e sem força mal conseguiam soltar o velcro dos bolsos do traje militar, mas, suando e arfando sem ar, ela persistiu na tarefa. Sentia que a qualquer instante perderia a consciência, pois a febre tornava a sala, quente e abafada, fria como um frigorífico, seus sentidos falhavam, mas, mesmo assim, ela conseguiu estender faixas adesivas sobre o buraco da bala.

Trêmula, Rukia alcançou o celular no bolso da calça. Torcia para que alguém estivesse perto o bastante para ajudá-la, mas quando conseguiu abrir os olhos e fitar a tela - que naquele claustro brilhava como um pequeno sol -, ela se deu conta de que o aparelho estava sem sinal, tão morto quanto ela estaria em alguns minutos. Angustiou-se quando a solução para essa nova complicação lhe veio à mente em um segundo, e logo se perguntava como conseguiria ter forças para se levantar e sair dali naquele estado.

Permaneceu tombada no chão por uma eternidade e então fez a única coisa que ainda podia: se rastejou. Obstinada, Rukia se arrastou, com as costas no chão, passou pelo cadáver de Kaien e os supostos cinco metros do galpão pareciam ter se transformado em uma extensão de anos-luz. Quando enfim chegou à porta, ela não pôde fazer nada apenas ali estirada no chão como um trapo. Ofegando exausta, disse a si mesma que ou se levantava, ou teria se esforçado à toa.

Outra vez, foi uma inimaginável obstinação que a colocou de pé. Essa condição durou apenas alguns segundos, mas bastou para que seu corpo pequeno se chocasse contra a porta fechada e sua mão esbarrasse na trave de abertura, assim, no que ela desabou inerte, a porta se abriu miraculosamente.

Rukia ficou então com o corpo quase inteiramente caído para fora do galpão, mas o celular escapou-lhe por entre os dedos. Ela não conseguia abrir os olhos para saber o quão longe o aparelho teria caído, mas sentiu que ele começou a vibrar incessantemente. De imediato, ela deduziu que eram avisos de ligações perdidas e que para retonar qualquer uma dessas chamadas, ela só precisava tocar na tela.

Um mero toque e alguém saberia de seu paradeiro, um mero toque, mas Rukia havia chegado ao seu limite. Os olhos se fecharam, o corpo voltou a ficar imóvel, o tórax comprimido contra o chão arenoso, respirar era difícil e a areia arranhava seu rosto. Aflita, sentia os músculos do braço estendidos ao máximo até que sua consciência foi engolida por uma escuridão pior do que aquela de antes dentro do galpão.


Renji parou bruscamente, puxou o celular e depressa o encostou ao ouvido.

– Rukia! Aonde você tá? Rukia!

Ichigo encarava o oficial com os olhos saltados na órbita.

– Rukia! Rukia!

– O que acontece? - desesperou-se o universitário.

– Ela não responde! Oe! Quem está aí? Oe! Rukia, é você?

Em um ímpeto, Ichigo arrancou o celular das mãos de Renji.

– Me dá essa droga aqui! Eu vou rastrear a ligação!

Se não compartilhasse daquele desespero afobado, Renji teria acertado um soco na orelha do rapaz.

– Esses aparelhos são da inteligência militar, o uso dele não é tão simples quanto você pensa, garoto! Anda, me devolve!

Ichigo hesitou por um instante, então Renji tomou o aparelho dele em um gesto brusco. Logo em seguida, o policial iniciava um aplicativo de rastreamento. Uma grade quadricular surgiu na tela, sobre um fundo escuro e, em pouco tempo, um ponteiro amarelado pulsava na tela.

Para Ichigo toda essa ação demorou séculos, então ele questionou em um berro:

– Caralho! O que fazendo?

– Cala essa boca! - rebateu o oficial e ainda ficou por um tempo concentrado na tela.

Ichigo estava prestes a voar no pescoço de Renji, mas então ele disse:

– Achei! Ela não está muito longe daqui! Vamos logo!

Ichigo gastou um segundo para agradecer aos céus pela notícia e isso bastou para que quase perdesse Renji de vista. Apressadamente, ele seguiu o policial, no entanto, por mais que ele se esforçasse, a perna machucada acabou fazendo com que ficasse para trás.


Enquanto corria, Renji tentava adivinhar o motivo que fizera Rukia ligar para ele, mas não dizer nada. Estaria ferida? Fora feita refém? Ele seguia de encontro a uma emboscada? Quando ele avistou uma edificação construída de blocos de concreto, ele começou a ter uma ideia do que devia ter barrado o sinal do celular dela.

Ichigo ainda estava uns trezentos metros atrás. Se aquilo fosse de fato uma emboscada, talvez ele precisasse da ajuda do rapaz, mas não teve paciência para esperá-lo, e aumentou o ritmo da corrida. Assim, em menos de um minuto, ele teve uma visão completa do local e logo avistou um corpo caído. Correu ainda mais desenfreado.

– Não! Não! Não! - implorava ele. – Rukia!

Inconformado, Renji se atirou ao chão, os olhos presos na tela manchada de sangue do celular e na mão dela, estendida e toda suja.

– Não, Deus... Isso não pode ter acontecido!

Renji se gabava de um extremo autocontrole, mas aquela situação foi demais para ele. Seus olhos lacrimejavam, enquanto dezenas de momentos desfilavam em sua memória. Ele escutava as vozes tão sérias de Byakuya e do velho Ginrei, pedindo a ele que cuidasse de Rukia. Recordou do quanto ela estava animada e confiante a poucas horas, antes do avião pousar naquele país. Repassou em um flash seu namoro, e teimava que ela não podia ter morrido ali. Em um ímpeto inconformado, ele se inclinou na direção dela e teria virado o corpo pequeno de qualquer jeito, se não tivesse escutado Ichigo gritar histericamente:

– Não mexe nela!

Renji estancou no lugar e permaneceu imóvel, com as mãos no ar.

– Não mexe nela! Ela pode estar com alguma fratura! - advertiu o rapaz. – Deixa comigo! Meu pai é médico, eu já fiz atendimentos com ele antes, sei como fazer isso!

Renji nem ousou contestar e, em questão de instantes, Ichigo já estava agachado no chão e buscando pela pulsação de Rukia.

– Tem pulso! Ela viva! - ele exclamou aliviado, soltando o ar como quem estivesse segurando a respiração por muito tempo.

Thank you, God... - Renji murmurou consigo.

Ichigo deu uma rápida inspecionada no corpo caído, observando a postura de Rukia e, não percebendo nenhum dos ossos em ângulo anormal, ele virou o corpo pequeno com todo cuidado. Na mesma hora, Rukia gemeu baixo e, em seguida, Ichigo comentou:

– Ela levou um tiro, mas fez um curativo... Garota esperta! Rukia, está me ouvindo? - questionou ele, mas ela não reagiu, então ele ergueu a cabeça ao policial. – Renji, o que você ainda tem de remédios aí?

– Pouca coisa. Gastei quase tudo com você. Mas dá uma olhada no traje dela.

– Tá! - rebateu, mas logo reclamou: – Cara, tem milhares de bolsos aqui! Me ajuda!

Okay!

Enquanto os dois separavam os aparatos de primeiros socorros, Rukia balbuciou:

Ni-san...?

– Não, Rukia, seu irmão não está aqui - foi Renji quem respondeu. – Somos apenas eu e o Ichigo.

– Ichigo? - ela repetiu sem acreditar e se esforçou para abrir os olhos. – Ichigo, mas por quê?

– Rukia, não é hora pra sermão! Isso aqui é sério, legal? Fica quieta e me deixa trabalhar! Porque se eu não fizer isso direito, você morre!

Surpreso e abismado, Renji ficou apenas observando enquanto Ichigo extraía uma bala do corpo de sua parceira de equipe. E quando deu por si, agradecia a Deus por aquele jovem inconsequente estar ali. Não precisava ser um médico para perceber que a vida de Rukia estava por um fio. Se estivesse sozinho, provavelmente tudo que Renji poderia fazer seria presenciar os últimos instantes da vida dela. Ele tinha treinamento em primeiros socorros, mas não a ponto de conseguir realizar uma intervenção como aquela.

Os minutos passaram aflitivos, Ichigo fechava a profunda sutura com pelo menos uns dez pontos, então Renji sentiu o celular vibrar novamente.

– Oficial Abarai na escuta.

"Abarai, aqui fala o capitão Kyouraku, reporte sua situação."

– Sim capitão! Abatemos três dos inimigos. Estou nesse momento com a tenente Kuchiki Rukia, ela foi gravemente ferida. Um... Aliado me ajudou com os primeiros socorros, mas precisamos de um resgate para ela o quanto antes.

"Um aliado? Como assim?"

– O nome dele é Kurosaki Ichigo, um civil. Ele é o namorado dela. Só não me peça para explicar como ele chegou aqui.

"Não vou pedir, pelo menos não agora, mas tratamos disso depois. Eu também liguei para avisá-lo que Juushirou nos conseguiu um reforço tático. Além disso, a doutora Retsu Unohana chegou aqui agora pouco. Eu vou pedir então que ela siga até aí para tratar da tenente Kuchiki."

– Ah, isso que é uma boa notícia! E quantos deles nós já pegamos, capitão Kyouraku?

"Se vocês abateram três, dos dez, ainda restam dois. Mas isso sem contar Aizen e Kaname que ainda não foram localizados. Melhor dizendo, ninguém reportou nada sobre eles até agora. Estou rastreando a posição do capitão-comandante e pretendo seguir em auxílio dele. Assim que Unohana chegar aí, se você ainda estiver em condições de atirar, junte-se a nós."

– Sim senhor!

Ichigo olhava na direção de Renji com um ar interrogativo, mas então Rukia começou a falar:

– Kaien-dono, Kaien-dono... - repetia ela, esticando uma mão na direção da edificação.

– O que foi, Rukia? O que você quer? - perguntou Ichigo, sem nada entender.

– Renji, Kaien-dono, Kaien-dono... - insistia ela em uma voz aflita.

Renji se aproximou e segurou carinhosamente a mão dela.

– Ei? O que te fez lembrar dele agora? - perguntou, olhando-a com um ar confuso também. – Não se preocupa. Você não vai morrer...

– Quem é esse Kaien? - Ichigo perguntou um tanto desconfiado.

– Era o chefe dela, um cara muito gente boa. Ele morreu três anos atrás, de um jeito bem... Traumático, principalmente pra ela. Mas deixa que ela mesma te conta isso uma outra hora. Deve ser a dor que está fazendo ela delirar e se lembrar dessas coisas.

Ichigo assentiu um pouco mais compreensivo.

Minutos depois, Renji escutou o som de um motor de carro. Avistou então um jipe que em pouco tempo chegava ao local. O condutor era um rapaz com uniforme do exército, se era da milícia espanhola ou da australiana ele não conseguiu identificar, mas pela lógica devia ser da força armada espanhola. No banco do carona, ele reconheceu a médica Retsu Unohana.

– Soldado Ramirez se apresentando! Imagino que o senhor seja o oficial Abarai? - disse e bateu contingência.

Renji correspondeu ao gesto e assentiu.

– Venho em ação de cooperação com a força de segurança australiana, atendendo ao pedido do major Juushirou Ukitake. Trago munição, armas e medicamentos.

– Agradeço pelo auxílio, soldado Ramirez, que chegou em ótima hora.

– Boa tarde, oficial Abarai - saudou a médica.

– Boa tarde, doutora Unohana. Não imagina o quanto estou feliz que esteja aqui.

Assentindo, a médica se abaixou ao lado de Ichigo, que olhava para a jovem Kuchiki como um guardião.

– Fez um bom trabalho, rapaz... - elogiou ela, tocando no ombro dele e observando a sutura.

Ichigo enrubesceu.

– Agora, você me ajuda a colocar ela na maca? Precisamos levá-la a um hospital.

– Claro!

Em questão de minutos, Ichigo ajudou Retsu a acomodar Rukia e imobilizá-la em uma maca, uma máscara respiratória também foi colocada sobre a boca dela.

Renji reparou que Rukia continuava balançando os dedos na direção da construção. Foi então que a implicação óbvia de que o autor do disparo só podia estar lá dentro lhe ocorreu. Com um ar pensativo, ele engatilhou uma nova arma e pretendia entrar no local, quando Ichigo falou:

– Renji, você não vem com a gente?

– Não. Preciso continuar com a investigação e ajudar o capitão Kyouraku.

Okay então! Já estamos indo!

Renji assentiu. Vendo o jipe se afastar, Renji se sentiu aliviado, convicto de que, mesmo com a ajuda de Ichigo, no fim ele havia honrado a promessa que fizera aos Kuchiki. O que Renji não podia imaginar é que antes que aquele jipe chegasse a seu destino, um último contratempo ainda surgiria.

Cauteloso, ele adentrou a edificação. A luz que entrava pela porta não bastou para que ele enxergasse direito, então ele acionou a lanterna acoplada à arma. O facho de luz iluminou a face da pessoa. De início, a tatuagem de Número 9 na testa do sujeito foi o foco de sua atenção, mas quando ele enfim fitou mais atentamente aquele rosto, e reconheceu a fisionomia, ele ficou tão aturdido e assustado que derrubou a arma.


Sousuke Aizen mantinha um olhar fixo no líder dos policiais australianos, mas então ele começou a falar:

– A bala da minha arma não era comum. Não faz sentido que você tenha conseguido rebatê-la, a não ser que esse material da sua bengala seja algum novo aparato do exército.

– Não acha que tem coisas mais importantes para se preocupar agora? - retrucou Genryuusai e, em um girar rápido de mão, ele engatilhou o rifle e atirou.

Atravessando um braço na frente do corpo, Sousuke rebateu o tiro como quem espanta um mosquito.

Caído ao chão, Gin não conseguia acreditar no que via.

– A composição química desse material tem muito mais importância pra mim do que a vida de vocês dois. Diga-me, Yamamoto, quem construiu esse aparato? Seu filho Urahara?

Espantado com o comentário, Gin chegou a entreabrir os lábios, mas teve o bom senso de permanecer calado.

– Assim que eu te prender, isso não fará qualquer diferença.

– Me prender... - Sousuke repetiu em tom de deboche.

Genryuusai então voltou a atirar. As balas de largo calibre rasgavam as roupas do terrorista, mas não causavam dano algum a seu corpo. Ele exibia um discreto riso e a expressão de pavor no tombado Ichimaru o divertia. Então ele começou a andar na direção do veterano.

Apesar da cena sem precedentes diante de si, Genryuusai permanecia focado e continuou atirando até esgotar a munição do rifle.

– Sinceramente, eu esperava mais de você, Yamamoto... - Aizen caçoou e, a menos de três passos de distância, ele sacou a arma e atirou.

Sem conseguir reagir, sem ter forças para se levantar, Gin chegou a balbuciar uma negativa e abaixou a cabeça, sem querer ver o momento que seu capitão-comandante tombaria morto. Mas, ao invés de um corpo em queda, o que se ouviu foi outro tiro. Então, Gin ergueu o rosto a tempo de ver Aizen cambalear e dar um passo para trás.

– Seu velho maldito! O que foi isso? Com o que você me acertou?

Gin também não conseguia entender. Aizen encarava o veterano e havia um buraco no lado esquerdo do peito dele, o tecido da roupa exibia um círculo em chamas.

– Isso não faz sentido! - Sousuke berrou, encarando Genryuusai como quem quisesse uma explicação, mas o que recebeu foi um inesperado soco cruzado de esquerda.

Abismado, Gin viu o corpo de Aizen ser lançado para trás com a força do golpe.

– Meu tiro acertou você. Você devia estar morto! - Sousuke gritou em fúria.

– Você apenas acha que me acertou, garoto! - rebateu o veterano.

Os olhos vulpinos de Gin captaram um hematoma no rosto do criminoso. Ele não entendia como Genryuusai havia conseguido aquela proeza. Minutos atrás, Gin havia tentado socar Sousuke e tudo que conseguira fora arrebentar os nós dos dedos e não causar qualquer dano. Por mais vigoroso que o capitão-comandante fosse fisicamente aquilo não fazia sentido.

– Urahara tem que ter parte nisso! Não tem como um velho como você ser páreo pra mim!

Aproveitando-se do momento de inconformismo do bandido, Genryussai tratou de acertar-lhe outro tiro. Dessa vez, o alvo fora a garganta do adversário. Se o veterano tivesse acertado, teria colocado fim ao combate, mas Sousuke conseguiu rebater esse tiro também. Assim como o disparo anterior, esse último incendiou o tecido branco da roupa e a bala ficou parcialmente encravada na pele do braço do criminoso.

– Nem mesmo a minha arma tem poder pra me perfurar! O que tem de diferente nessa sua? - Sousuke exigia saber.

Gin pensou consigo se aquela arma que estava conseguindo ferir Aizen não seria a mítica Ryuujin Jakka, a semiautomática que o capitão-comandante usava nos tempos que atuava em campo.

Genryuusai se aproximou do bandido, que estava meio curvado, com um joelho apoiado no chão. Então ele puxou impetuosamente Sousuke pelos cabelos.

– Quem você pensa que é? - berrou o veterano. – Por que eu deveria responder as perguntas de um bandido como você? Você que desgraçou a vida de tanta gente? Só o que você merece saber é que vou acabar com a sua raça, seu desgraçado!

Gin ficou espantado com a fúria do capitão-comandante, jamais vira ele se portar daquele jeito, era como estar diante de um deus da guerra encarnado. No Departamento de Segurança de Seireitei, Genryuusai Yamamoto sempre teve a fama de ser uma lenda viva e agora Gin entendia o porquê.

Deixando clara sua intenção de querer colocar um fim na vida daquele bandido, Genryuusai socou e golpeou Sousuke repetidas e repetidas vezes.

Apesar da violência e da surpreendente potência dos ataques que sofria, e dos quais não conseguia se esquivar, Sousuke começou a esbravejar:

– Velho desgraçado! Vai pagar por isso! Você não vai me vencer!

Num ímpeto inesperado, Sousuke reagiu. Ele então agarrou o pulso de Genryuusai e o girou com inacreditável força. Em questão de instantes, o criminoso se colocou de pé e chutou o velho policial no abdômen, fazendo-o se dobrar e tombar de joelhos no chão.

– Não precisa falar, miserável! Posso descobrir o segredo desses seus truques sozinho.

Gin remexia a cabeça em negação. O capitão-comandante fora atingido em cheio e tossia engasgado. Aizen uniu as mãos e desceu um golpe na nuca do veterano que o fez se estatelar no chão.

– Você merece a fama que tem. Conseguiu me ferir, ainda está vivo depois de eu atirar em você, mas acabou!

Sousuke sacou novamente a arma e estava para atirar, quando sentiu um forte aperto no tornozelo. Não foi a dor, mas a surpresa que o manteve estático por alguns instantes, tempo mais que suficiente para Genryuusai usar um último aparato.

O veterano ativou uma espécie de granada, que emitiu um clarão e, instantes depois, o corpo de Aizen se transformou em uma pira humana.

Gin observava boquiaberto o corpo de Aizen arder em chamas.

– Eu vou te matar, seu velho maldito!

O bandido gritava, mas, por mais insano que fosse, ele não parecia gritar de dor e sim de ódio.

Sem pensar duas vezes, Gin conseguiu se aproximar do veterano e, em um último esforço homérico, ele tratou de puxar o corpo dele para longe daquele pesadelo flamejante.

Aizen parou de gritar e então arrancou de si o que restava do arruinado quimono branco, e logo usava o trapo para extinguir o fogo sobre o corpo.

Gin estremeceu ao ver que o homem a sua frente que devia estar no mínimo desfigurado mantinha um aspecto perfeitamente reconhecível.

– Nem fogo derruba esse cara! Ele só pode ser um demônio! - exclamou assustado como uma criança.

Menos de cinquenta passos os separavam e Gin estava dominado pelo medo. O capitão-comandante parecia ter perdido a consciência com o golpe na nunca, e foi então que Aizen começou a caminhar na direção deles.


Aeroporto Internacional de Tóquio, dias atuais.

A saída de Yoruichi e Byakuya do país coincidiu com a chegada de uma seleção estrangeira de futebol que faria um amistoso contra a seleção japonesa no próximo final de semana, por isso o aeroporto estava cheio de jornalistas e repórteres. Assim, eles foram flagrados juntos, mas nenhum dos dois se importou com o fato.

Aconteceu então de uma jornalista um pouco mais ousada, abordá-los de repente, mas Byakuya exclamou seco:

– Saia do caminho!

Ele falara em inglês e fora tão agressivo que afugentou a moça.

Em passadas rápidas, os dois seguiram por um corredor abarrotado de pessoas, mas Byakuya caminhava com rumo certo, na direção dos portões de embarque. Ele tinha o celular na mão e aguardava por uma mensagem de seu avô, que lhe diria o número do portão para o qual deveriam se encaminhar. Porém, antes que essa informação chegasse, um homem com uniforme azul marinho, ao que tudo indicava um uniforme da Força Aérea Japonesa, veio na direção deles e lhes disse em um japonês extremamente formal:

– Boa tarde, Kuchiki-sama e Shihouin-sama, eu sou o capitão Hayo Amamya - disse e se curvou, saudando os dois.

– Muito boa tarde, capitão Amamya - respondeu Byakuya, curvando-se também, e sendo acompanhado no gesto por Yoruichi.

– O honorável Ginrei Kuchiki entrou em contato comigo agora pouco, e me colocou a par de vossas necessidades. Por favor, me acompanhem até o Portão 17.

– Sim, capitão, e agradecemos muito por sua prontidão e apoio.

Cerca de cinco minutos depois, Byakuya e Yoruichi caminhavam por uma das pistas de aterrisagem, seguindo em direção a um avião particular.

– Boa tarde, Kuchiki-san, eu sou o comissário Yuri Miashiro - apresentou-se um homem também de uniforme azul e se curvou em saudação.

– Boa tarde, Miashiro-san - Byakuya respondeu.

Outra vez, Yourichi apenas retribuiu a saudação e não disse nada.

– Apenas confirmando, Kuchiki-san, faremos um voo direto para Brisbane? É isso mesmo?

– Exatamente.

– Certo! O clima está muito bom, então o tempo estimado da viagem é de sete horas.

– Ficaremos gratos se essa sua previsão se concretizar, comissário Miashiro - disse Byakuya.

Yuri assentiu e deu passagem aos dois. Yoruichi embarcou primeiro e Byakuya seguiu logo atrás dela. Antes de adentrar a aeronave, Byakuya deu uma última olhada no Aeroporto de Tóquio, e logo depois o comissário fechou e selou a porta. Dez minutos depois, o avião levantava voo.

Acomodados no luxuoso compartimento dos passageiros - o qual não dispunha de mais que seis espaçosas poltronas estofadas -, Byakuya observava Yoruichi com o rosto virado de lado, olhando pela pequena janela da aeronave. Ela quase não falara desde que se despediram de Mariko, estava alerta a tudo, mas visivelmente abatida.

Tanta tristeza no semblante dela não chegava a ser algo novo a Byakuya, mas a outra única ocasião que ele a vira daquele jeito foi quando ficaram órfãos. Pensar nisso o fez se perguntar que terrível pecado eles poderiam ter cometido contra os céus para serem tão constantemente visitados pela morte.

Meneando a cabeça para afastar esse pensamento herético da mente, ele disse a si mesmo que as duas fatalidades das quais foram vítimas não tinham qualquer relação. Inquieto, ele se levantou e foi preparar um drink para si. Precisava de algum alívio para toda aquela tensão.

– Eu sei que você está bravo comigo... - Yoruichi falou de repente.

Byakuya voltou à poltrona de frente para a dela, tomou um bom gole do whisky, e rebateu na típica aspereza:

– Não estou bravo com você.

Como quem não tivesse escutado, ela continuou falando, com um ar distante:

– Podíamos ter ido embora muito antes, no mesmo dia que soubemos da gravidez...

– O que passou, passou, Yoruichi. Não fique se atormentando desse jeito.

Ela se levantou em um ímpeto, cerrou os punhos, e ele achou que ela fosse gritar. Não chegou a tanto, mas ela exclamou em um tom realmente exaltado:

– Acontece que não tem como eu não me atormentar! Eu queria um filho mais que tudo, Byakuya! Quando eu soube que estava grávida, eu tinha que ter pensado só no nosso bebê! Você me alertou e pediu tantas vezes pra eu não ir mais naquele lugar... Por que eu não te escutei?

Byakuya suspirou fundo, claro que ele concordava com a linha de raciocínio dela, mas sabia que não adiantaria colocar isso em palavras. Então ele também se levantou, jogou fora o resto do whisky, e falou:

– Vou ficar na cabine de comando.

– Legal... Você diz que não bravo, mas não quer nem me escutar!

– Não é hora pra conversa. Você está precisando de espaço...

– Sem essa!

– Acredite, nada do que eu diga agora vai fazer você se sentir melhor.

Ela bufou irritada e abaixou a cabeça.

– Tá, já entendi! É o seu cavalheirismo que te impede de jogar na minha cara que a culpa foi minha.

Furioso, Byakuya deu dois passos em direção à cabine de controle, mas então, veloz como um predador, ele voltou para perto dela. Com o sangue borbulhando nas veias e em um gesto rude, ele a agarrou pela nuca e com o rosto a centímetros do dela, afirmou em um tom frio e arrastado:

– A culpa não foi sua. Só existe um culpado nessa história e é melhor você parar de me fazer pensar nisso porque eu ainda não desisti de matar aquele desgraçado do Urahara!

Os dois se encaravam, os olhos cinzentos fixos nos olhos dourados, mas então Byakuya se deu conta de que estava agindo sob o efeito da forte bebida. Soltou Yoruichi devagar, e depois escapou para cabine de controle.

O comissário Miashiro demonstrou surpresa com a entrada dele ali, mas Byakuya logo se justificou dizendo que também era piloto e que não iria atrapalhá-lo.

Apesar do estranhamento, o comissário assentiu com um gesto e então Byakuya se acomodou no assento vazio ao lado dele. Passados alguns minutos, Byakuya direcionou o olhar aos monitores das câmeras que exibiam o compartimento dos passageiros, então viu que Yoruichi havia voltado a se sentar na poltrona de antes, mas estava com a cabeça apoiada nos joelhos flexionados. Pelo tremor do corpo dela, Byakuya soube que ela estava chorando.

Inconformado, ele cerrou os punhos, o ódio por Kisuke Urahara o asfixiava, mas se esforçou para diluir esse corrosivo rancor. Perder a cabeça e ceder à violência não iria ajudá-los em nada. Embora ele quisesse simplesmente voltar para junto de Yoruichi, pedir desculpas, abraçá-la, alisar os cabelos dela, de algum modo, ele soube que ainda não era o momento.

Yoruichi precisava digerir a própria mágoa sozinha, precisava chorar, porque uma vez que sua descontrolada histeria havia passado, ela não se permitiria mais chorar na frente dele, sobretudo agora que ela se culpava pelo ocorrido. Por hora, ele precisava deixá-la dar vazão aquele choro. Eles teriam uma viagem longa pela frente, mais tarde, ele estaria em condições de consolá-la direito. E mais tarde, talvez, ele já tivesse conseguido dar um jeito no anseio de chorar que também sentia.


Distante do aeroporto internacional, no mausoléu que servira de cenário para milagres e profanações, Tessai vigiava Kisuke, que estava estirado em um dos leitos do laboratório improvisado, e dormindo sob o efeito de sedativos. Foi então que a jovem enfermeira Ururu chegou ao local, com o aparelho telefônico na mão.

– Tessai-san, uma ligação do major Ukitake Juushiro... - disse ela.

– Juushirou? - repetiu o grandalhão com surpresa e recebeu o aparelho. – Boa tarde, major Ukitake. Em que posso ajudá-lo?

"Tsukabishi Tessai, eu acabo de conseguir fretar um avião para vocês, e uma escolta irá acompanhá-los até a base militar de Tóquio. Fiz todo o possível, mas o capitão-comandante Yamamoto quer Urahara-san sob custódia até que tudo esteja devidamente esclarecido."

– Eu entendo, major Ukitake.

"A menina que atendeu me disse que Urahara-san sofreu um acidente. Me diga: ele ainda não recobrou a consciência?"

– Ainda não, major, mas ele logo estará bem.

"Fico feliz em saber disso. E estamos todos ansiosos por rever Hirako e os outros."

– Eles estão todos bem.

"Imagino que esteja preocupado, Tsukabishi, mas eu asseguro que é apenas burocracia. Já está mais do que provado que Urahara não foi o responsável pelo experimento, então ele será absolvido das acusações."

– Mas e quanto às acusações de sequestro e de fuga do país?

"Confie em mim, Tessai. Tudo vai acabar bem."

– Quanto a isso eu tenho minhas dúvidas, major, mas é claro que eu confio no senhor.

Depois de encerrada a ligação, Tessai não pôde deixar de pensar que as coisas não seriam tão simples quanto o major devia estar imaginando. Ginrei Kuchiki havia sido um dos principais aliados naquela empreitada e, agora graças às escolhas ruins de Kisuke, era bem provável que eles perderiam o apoio desse senhor tão influente.

– Pois é, Kisuke... Amanhã nós estaremos a caminho de casa. Completamos o que viemos fazer aqui, mas eu tenho a sensação de que ainda estamos muito encrencados.

CONTINUA...


Sim, essa história ainda continua! Faltou um pouco menos de três meses para que batesse um ano sem atualizações, mas aqui estamos! ^_^' Para alguns leitores eu já adiantei que o motivo de tanta demora, diferente das outras vezes, não foi em função de estudos ou do trabalho, mas porque, desde o começo desse ano, eu tenho migrado minhas histórias para a rede social Wattpad. Eu venho postando uma história original lá, na expectativa e esperança de uma futura publicação em forma de livro. Então é esse esforço que tem consumido todo meu tempo livre, e que travou as atualizações por aqui. Mas eu insisto que, mesmo demorando, eu não vou mesmo desistir de concluir essa fanfic!

Agora, falando um pouco do capítulo... Que sufoco Renji e Ichigo passaram, hein? E quem vocês acham que irá salvar Yamamoto e Gin do monstruoso Aizen? Se puderem me responder nos comentários, ficarei muito contente.

Então é isso aí, espero que tenham gostado! Pra terminar, agradeço a todos que já estiveram por aqui, e também a quem chegaou ao longo deste ano, e a todos que ainda estiverem com ânimo de seguir acompanhando. Muito obrigada, um grande abraço e até o próximo capítulo!

Amanda Catarina.

14-09-2019.