Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 20

Cidade de Las Noches, Espanha, quatro semanas atrás.

No banco de trás do jipe, bem ao lado da maca onde Rukia estava imobilizada e à base de sedativos, Ichigo fitava a extensão sem fim de solo arenoso, e se perguntava se ainda faltava muito para chegarem a um hospital. Mesmo que a médica ali com eles, Retsu Unohana, tivesse garantido que os sinais vitais de Rukia mantinham-se estáveis, ele não se sentiria tranquilo até estarem fora daquele campo de guerra.

Seguiam todos quietos e certa aflição pairava no ar, quando o carro simplesmente perdeu seu movimento em um forte tranco, como se uma força invisível o segurasse.

– O que foi isso? - exclamou a médica.

No sé! No entiendo! - disse o soldado Ramirez, afundando o pé no acelerador.

O jipe era aberto dos lados e não tinha vidros, apenas uma cobertura de arames e lona.

– Tem alguma coisa segurando a gente! - Ichigo alardeou.

– Mas como assim? - rebateu Retsu.

Disposto a descobrir o que se passava, o soldado desengatou o carro e desceu apressado.

Ichigo teve um mau pressentimento, preocupado com a possibilidade de ser um dos estranhos inimigos. Instantes depois, ele escutou um tiro, então seus olhos arregalados acompanhavam o corpo do espanhol tombar inerte, com um buraco de bala no peito. E, ao se dar conta disso, a médica gritou horrorizada.

Na mesma hora, um forte instinto fez Ichigo reagir muito depressa. Em questão de segundos, ele puxou a arma que estava dentro da mochila - aquela que tinha o nome de Zangetsu -, e saltou do jipe com essa arma engatilhada.

– Isso é inútil.

Ichigo reconheceu a voz antes de localizar a posição exata do atirador. Era a voz grave e arrastada daquele rapaz de cabelos escuros e olhos verdes, Ulquiorra. Já tinha esquecido dele, mas ao vê-lo ali, lembrou que Grimmjow não o matara, apenas o tirara temporariamente de combate.

– Você não devia ter desperdiçado sua chance de fugir... - continuou Ulquiorra. – Morrer agora e tão perto de alcançar um lugar seguro será muito mais frustrante.

Tendo aprendido a lição de que contra aqueles adversários era matar ou morrer, sem qualquer hesitação, Ichigo atirou. No entanto, diferente do que acontecera com o criminoso de cabelos azuis, Ulquiorra não foi abatido pelo tiro de Zangetsu. A bala o acertou no peito, mas ao invés de transpassá-lo, escorreu ao chão como se tivesse colidido com uma rocha.

– Interessante... Foi com essa arma que você matou o Grimmjow?

Ichigo ficou tão desconcertado que não disse nada. Os dois se encaravam e assim não perceberam quando a médica se moveu furtivamente.

Foi então que Retsu golpeou o pescoço do criminoso com uma seringa. Apesar de grossa, a agulha se entortou inteira contra pele impenetrável de Ulquiorra. E com isso a médica acabou se ferindo com a agulha entortada, e desabou no chão com a mão vazando sangue.

– Mulher ridícula! Por acaso não viu que mesmo um tiro não me feriu? O que achou que iria conseguir com isso?

Aproveitando-se da momentânea distração, Ichigo cobriu a distância que o separava do adversário e mirou a cabeça dele. Mas antes que ele pudesse atirar, Ulquiorra sumiu de sua vista. Ichigo olhou ao redor, procurando-o em desespero, mas, repentinamente foi golpeado e caiu de costas no chão.

– Muito lento... Posso acabar com você em um piscar de olhos. A diferença entre a minha força e a sua é tão grande quanto a distância entre o céu e a terra.

Mesmo derrubado, Ichigo rebateu com impertinência:

– Isso é você que dizendo...

– Duvida?

Em mais um impressionante esforço, Ichigo voltou a se levantar.

– É, duvido! Nunca fugi de uma briga e não é agora que isso vai acontecer!

– Eu não entendo porque você continua tentando evitar o inevitável. Você não é páreo pra mim.

– Em uma luta pra valer ninguém pensa nessas coisas! Se a vida de alguém importante pra gente está em perigo, não importa de que jeito, a gente tem que lutar e vencer! - exclamou cheio de convicção.

Ulquiorra refletiu um pouco e, após alguns instantes só observando o estudante, ele disse:

– Quanta coragem... Você teria dado uma boa cobaia. Mas seu tempo de ser qualquer coisa já passou. Irei tirar sua vida agora.

– Ha! Só porque você diz isso com essa cara séria acha que me assusta? Pois pode saber que eu não vou ficar de braços cruzados esperando você me matar! De jeito nenhum! Já tomei a decisão no meu coração de fazer o que for preciso pra ganhar de você!

O adversário estreitou os olhos e deu alguns passos adiante.

– O que é coração? Por que vocês, pessoas que levam as vidas sem preocupações, gostam tanto de falar desse tal de coração?

Ichigo se surpreendeu com a pergunta inusitada.

– Que papo é esse? Você não está aí seguindo as ordens de um terrorista desalmado porque acredita na utopia dele? Não é o seu coração que te faz agir assim?

Ulquiorra pestanejou aparentemente confuso, e depois respondeu:

– Não. Minha subordinação a Sousuke Aizen se deve ao fato de que não sou forte o bastante para matá-lo. Nada tem a ver com essa coisa de coração.

O estudante lançou ao adversário um ar de declarada descrença.

– Na boa, se você não viu problema em matar gente inocente só porque alguém mais forte que você te mandou, isso deixa claro de que tipo é o seu coração.

– De que tipo?

O tom exigente e de aparente dúvida deixou Ichigo tão perdido que ele demorou um pouco a retrucar.

– Escuta, cara, eu não tenho vocação pra psicólogo! Meu problema com você é você estar no meu caminho! - ele voltou a engatilhar Zangetsu. – E quero saber se vai continuar?

– Vou. Não vou deixar você passar daqui. Nem você, nem a sua namorada ferida, e nem essa mulher.

– Ah, é? Vamos ver então! - rebateu irado e atirou, mas foi desperdício de munição.

Ulquiorra desapareceu e logo reapareceu a um palmo de distância dele, e o acertou com um soco no estômago. Ichigo foi derrubado de novo, mas ainda tentou contra-atacar com um chute. Péssima ideia, pois Ulquiorra revidou, chutando-o sem piedade diversas vezes. Apesar da compleição esguia, cada golpe dele era extremamente forte.

Diante do violento espancamento, Retsu Unohana conseguiu enfim sair do estado de choque e correu na direção do jipe. A situação crítica a fez se lembrar de que devia haver um rádio no veículo e ela poderia usá-lo para pedir ajuda.

Mas atento a tudo, Ulquiorra deu uma breve trégua para Ichigo, e movendo-se tão rápido quanto um morcego em pleno voo, ele apareceu na frente da médica, que paralisou de susto. E ele teria atirado no peito dela, se Ichigo não tivesse conseguido arremessar um objeto qualquer contra ele. Claro que não causou danos, mas serviu para ele errar o tiro.

Olhando para o estudante por sobre o ombro, Ulquiorra disse:

– Já sei que está ansioso pra morrer. Mas, acalme-se, isso não vai demorar.

Na sequência, Ulquiorra prendeu a médica com um material fibroso similar a uma rede. Em questão de segundos, todo o dorso de Retsu foi coberto pelo material e ela ficou presa à lataria do jipe.

– Agora pare de atrapalhar, mulher.

Quando Ulquiorra voltou a olhar na direção de Ichigo, se espantou por encontrá-lo novamente de pé.

– Seu espírito de luta é mesmo impressionante... - ele comentou, e então avançou contra o estudante e acertou um chute absurdamente forte no tórax dele.

Ichigo cambaleou, sentindo a visão embaçar. O corpo tão surrado pareceu enfim entrar em colapso, então ele tombou inerte no chão.

– Ei, garoto! - gritou Retsu. – Não morra ainda! Não desista! Lute!

Naquele momento, a audição de Ichigo ficou estranhamente aguçada, pois ele passou a escutar o apelo da médica tão alto como se ela falasse em um megafone.

– Mulher, não vê o estado deplorável que ele está? Como ainda deposita sua fé nele?

– Porque eu sei que isso não vai terminar assim! - insistiu Retsu.

– Vai sim - Ulquiorra rebateu em sua extrema frieza.

Ichigo percebeu que por sorte estava estirado perto de onde Zangetsu havia caído. Era sua última chance, só devia restar uma bala. Assim, em outro esforço impensável, ele alcançou a arma, ergueu metade do corpo e disparou.

A rapidez do movimento pegou Ulquiorra desprevenido - ele precisava estar concentrado para endurecer sua pele modificada. Assim, o tiro o acertou na junção entre braço e antebraço, e instantes depois, esse membro caiu amputado. Ele foi invadido por uma dor poderosa, mesmo nos seus dias de cobaia não se lembrava de ter experimentado algo parecido, levou a mão ao ferimento e logo essa se encheu do líquido espesso.

– Para uma pessoa comum você consegue se mover misteriosamente rápido. Mas mesmo esse ferimento não irá me matar. E eu imagino que essa era sua última bala...

Ichigo ofegava sem ar. As palavras do adversário voltaram à sua mente para atormentá-lo, tão perto e tão longe da salvação. E a lembrança do corpo do soldado morto o fez pensar que teria o mesmo fim.

Apesar da dor desconfortável, Ulquiorra se aproximou de Ichigo, e logo o imobilizava no chão, apoiando um dos pés na cabeça dele.

– Vou atirar nas suas pernas para garantir que fique parado. Mas não vou te matar ainda, primeiro você tem que me ver arrancando a cabeça da sua garota...

Ao ouvir aquilo, Ichigo estremeceu de ódio, e começou a se debater furiosamente, mas ainda assim não conseguia se livrar.

– Patético! Ainda não entendeu a diferença entre as nossas forças?

Mesmo estando febril de dor, Ichigo sentiu outra vez a visão enegrecer e como se algo se arrebentasse dentro dele. Então, ele rolou de lado, se levantou em um ímpeto e acertou uma batelada de socos em Ulquiorra, que embora tenha conseguido se esquivar minimamente acabou sendo atingido por vários. Depois, berrando como uma besta-fera de olhos medonhos, Ichigo conseguiu rasgar com as unhas tanto o quimono branco como a pele do adversário.

A médica ficou estarrecida diante daquilo, reparando na tatuagem de um número quatro no peito retalhado do bandido.

Na sequência, movendo-se com a rapidez de um predador, Ichigo tomou pra si a arma que Ulquiorra mantinha na cintura e atirou nele a menos de um passo de distância.

Ulquiorra foi perfurado no abdômen e chegou a recuar com o impacto.

– Não achei que você fosse o tipo de gente que atacaria assim... - Ulquiorra pontuou. – Mas cumpriu sua palavra, não foi? Seu objetivo não era vencer uma luta, era proteger alguém.

Surdo para aquelas conclusões, Ichigo encostou o cano do revolver roubado na garganta do adversário.

– Não! Já chega! Não atira mais! - gritou a médica, com um olhar cheio de horror.

Aquela voz feminina acabou por afugentar a entidade caótica que havia possuído Ichigo, lhe concedendo uma força sobre-humana, então ele voltou a si. Aparentemente desorientado, ele logo abaixou o revólver.

Com o que lhe restava de forças, Ulquiorra se dirigiu à médica:

– Por que você interferiu? Qual seria o problema se ele tivesse atirado em mim? Quem é derrotado não merece compaixão.

– Todo mundo merece compaixão. Violência nunca é a resposta.

Mal Retsu terminou de dizer isso e percebeu que a amarra que a prendia caiu por terra. E assim que se viu livre, ela se aproximou depressa dos dois jovens.

Ichigo se agachou exausto e apoiou o peso do corpo no joelho bom.

– Tudo bem com você, garoto? - perguntou ela, tocando no ombro dele.

– Já tive dias melhores...

Mas então ele e a médica se viraram ao escutarem o baque de Ulquiorra tombando para trás.

Impelida por sua vocação, Retsu foi até o derrotado e se ajoelhou junto a ele.

– O estado dele é grave, mas acho que consigo estabilizá-lo... - disse ela, olhando na direção de Ichigo, mas quando ela fez que ia se levantar, na intenção de ir buscar a maleta de primeiros socorros no jipe, Ulquiorra segurou-a pelo pulso.

– Meu corpo está sendo desintegrado de dentro pra fora, por causa do efeito da minha arma. Não me resta muito tempo. Uma pena... Justo agora que a sua compaixão me fez entender alguma coisa desse tal de coração...

Ichigo se sentiu angustiado. Era a segunda morte que ele presenciava naquele dia, e tanto Grimmjow como Ulquiorra o acusaram de ter uma vida boa e sem preocupações. De fato, ele nunca antes tinha imaginado que pudessem existir pessoas que eram forçadas a viver vidas tão desprovidas de significado.

Porém, esse breve instante de reflexão foi interrompido quando Retsu se ergueu, fitando o corpo estirado do criminoso quando este começou a se esfarelar até virar um amontoado de pó negro que se misturou à areia do deserto.


Renji corria com rumo certo, mas seu pensamento ainda estava naquele galpão escuro, mais precisamente no cadáver que por lá ficara, o cadáver de Kaien Shiba.

Cerca de meia-hora atrás, quando Renji fazia sua vistoria dentro do galpão, ele encontrou o corpo de Kaien e quase morreu de susto. Assim como Rukia, ele conhecia o ex-policial e não conseguia entender como o corpo dele poderia estar ali. A princípio, Renji teve a certeza de se tratar de um sósia, mas então lembrou de uma vez que ele e Kaien se viram metidos em um tiroteio, e que para evitar que Renji levasse um tiro, Kaien tinha se cortado em uma cerca de arame farpado e ficado com uma cicatriz horrível na perna. Um tanto trêmulo, Renji inspecionou o cadáver em busca dessa cicatriz e a encontrou.

A constatação revirou seu estômago, e ele tentou imaginar o que Rukia não teria passado ali. Ela que tinha Kaien como um herói, ela que foi a principal responsável pela captura e suposta morte dele. Em um rápido raciocínio, Renji deduziu que Kaien nunca chegara ao Hospital Madison, ele certamente foi levado pelos homens de Aizen e vítima de experimentos. O próprio descontrole que Kaien apresentava durante a captura era uma forte evidência disso. Durante a atual investigação, Renji tinha lido coisas parecidas na longa lista de atos hediondos praticados por Aizen.

Revoltado, ele precisou de algum tempo para se recompor do baque, e então entrou em contato com o major Juushirou Ukitake para relatar o caso. Anos atrás, Juushirou tinha sido o oficial superior e um grande amigo de Kaien. Naturalmente, o major também levantou a possibilidade de um sósia, mas Renji garantiu que não havia engano. E, ao fim do relato, ele enviou ao major as coordenadas exatas da localização do corpo.

Ainda bastante abalado, Renji nem reparou nas duas pessoas que corriam em sua direção, por isso ele chegou a se assustar quando foi chamado por uma voz conhecida.

– Abarai-san!

Ele parou no lugar e se voltou para trás, avistando o tenente Izuru Kira e a capitã Soifon.

Yo! - disse ele e seguiu ao encontro dos dois. – Mas o que aconteceu, capitã? - ele questionou, mirando a tipoia na qual Soifon sustentava o braço machucado.

– Sem chance de explicar agora. Acabamos de receber um chamado urgente do Ikkaku. Ele e Yumichika estão com problemas!

– Mas eu estava seguindo para ir ajudar o capitão Kyouraku. Parece que ele finalmente encontrou o desgraçado do Aizen!

– Como nos separamos então? - Izuru se intrometeu na conversa. – Quem vai atrás do Aizen e quem ajuda o Ikkaku?

Renji pensou um pouco, e perguntou:

– Como estão os suprimentos de vocês? Munição, remédios?

– Estou zerada! - respondeu a capitã.

– Eu não gastei tanto... - disse Izuru. – Tenho um bom estoque de tudo ainda.

– Eu também tinha gastado minha parte, mas recebi um reforço com o exército espanhol agora pouco.

Ao ouvir aquilo, o tenente decidiu por eles.

– Então me deixa seguir para ajudar o capitão Kyouraku, e você, Abarai, vai com a capitã Soifon ajudar aqueles dois. Vocês já foram colegas de equipe, não é?

Renji assentiu e tratou de acatar logo a sugestão. Pensava em propor exatamente o mesmo, mas sabia que se fosse ele a sugerir aquilo, do jeito que Soifon era reservada em relação ao recente relacionamento deles, ela poderia ficar muito mais irritada do que contente.

Algum tempo depois de Izuru ter se separado deles, Renji pediu a Soifon:

– Ei, me conta o que aconteceu com você. Não me deixa nessa ansiedade. Já é horrível eu não ter estado lá pra te ajudar...

– Ah, deixa de drama! Eu sei me cuidar sozinha!

Renji se encolheu com o coice, mas já estava se acostumando com aquele jeito rude dela.

Arrependida, Soifon amenizou o tom e disse:

– Che! A quem estou querendo enganar? A situação foi bem complicada... Quase perdi o braço e penei muito pra conseguir dar um fim naquele velho, o líder dos Arrankar.

– O velhote grandalhão?

– É, ele mesmo... Que pesadelo! Nunca na vida encontrei alguém que não morreu com o veneno da Suzumebachi. Se o Kira não tivesse aparecido, acho que eu não estaria aqui pra contar a história...

– Mas que perigo... - ele falou sem esconder a preocupação. – Esses miseráveis não estão de brincadeira! E acabei de descobrir uma coisa que me deixou sem chão, mas nem vou encher sua cabeça com isso agora. O que vale a pena eu te contar é que a Rukia quase morreu! E acredita que aquele sem noção do Ichigo apareceu aqui do nada?

– Como assim o Ichigo está aqui? E que diabos aconteceu com a Kuchiki?

– Longa história...

– Pois pode começar a falar! - ela exigiu de imediato.

Assim enquanto corriam, Renji contou a Soifon tudo pelo que tinha passado desde que eles se separaram à caça dos homens de Aizen.


Vendo o perigo em que Gin Ichimaru e o capitão-comandante estavam, Shunsui Kyouraku soube que não adiantava ser discreto, então, para atrair a atenção do líder dos criminosos, ele saiu correndo e atirando à vontade.

– Mas que falta de classe - disse Aizen, a saraivada de tiros comuns em nada o afetou. – Isso não é típico de você, capitão Kyouraku.

– Are, are! Mas por que eu deveria levar isso em consideração, vindo de um cara que está apontando uma arma para um homem caído e outro desmaiado?

Sousuke suspirou e, ignorando-o completamente a pergunta, voltou a apontar para Gin e atirou. Mas, pela segunda vez em um mesmo dia, o capitão Ichimaru foi salvo de modo inesperado. Para assombro do criminoso, Shunsui usou seu quimono rosado como escudo e aquilo realmente deteve a bala.

Encarando o policial com um olhar intrigado, o criminoso indagou:

– Como é possível?

– Você achou que estaríamos tão despreparados para lidar com as suas invenções?

– Eu realmente achava, mas vejo que cometi um erro. Meus informantes me disseram que Urahara está foragido no Japão, mas pelo visto ele arranjou um jeito de ajudar vocês.

– Urahara? - Shunsui repetiu com surpresa, e então fez uma negativa. – Não, não foi Kisuke Urahara quem nos forneceu esses materiais tão interessantes.

– Então quem foi?

– Não que eu me sinta na obrigação de responder suas perguntas, mas não vejo problema em dizer que tivemos a cooperação de Mayuri Kurotsuchi.

– Ah, eu devia ter imaginado. No campo científico esse homem não fica atrás de Urahara.

– E então, Sousuke, o que vai ser? Vai se entregar ou eu vou ter que te matar?

– Você me matar? Pois eu vou querer ver como você espera conseguir essa façanha...


Quartel militar de Karakura, Japão, dias atuais.

Enquanto Shinji Hirako e os demais companheiros adentravam o avião, um oficial do exército japonês expunha para Kisuke e Tessai que por concessão do capitão Genryuusai Yamamoto, a despeito das acusações contra eles, ambos poderiam fazer a viagem livres de escolta e sem algemas.

A aeronave na qual seguiriam era um modelo novo, com fuselagem verde oliva e que acomodava não mais que vinte passageiros, tanto que as poltronas eram bem espaçadas e dispunham de infraestrutura para o uso de notebooks e outros periféricos. Seriam mais de sete horas de voo até a Austrália, por isso houve todo um cuidado da parte dos militares de se prover boas refeições e algum entretenimento para que o grupo não ficasse tão entediado.

Depois de mais de uma hora de intenso falatório, do qual quase não participou, Kisuke se afastou um pouco dos colegas. Ele se dirigiu aos assentos mais para o fundo e ficou ali solitário por algum tempo.

Kisuke mantinha os olhos fechados, mas não dormia, e foi então que ele sentiu a aproximação de alguém, e assim que abriu os olhos, se deparou com um copo diante de si.

– Uma delícia o capuccino daquela máquina! Experimente! - incentivou Tessai.

– Ah, obrigado... - ele agradeceu e aceitou a bebida quente por mera educação.

Tessai logo ocupou o assento mais próximo e ao lado dele, e disse:

– Pelas minhas contas, vamos chegar em Brisbane de madrugada. Mas, mesmo assim, já avisaram que eu e você seguiremos do aeroporto direto para o Departamento de Polícia.

– Eu já imaginava e não vejo nisso um problema. Com sorte poderei ver o capitão Yamamoto. E eu quero muito ter uma conversa com ele.

– Hum, entendo...

Kisuke ainda estava muito abatido, mas sentia-se um pouco melhor depois de ter contado a Tessai sobre sua última conversa com Yoruichi. Mesmo depois de saber de toda a história e tendo motivos para recriminá-lo, Tessai não agiu assim. Ele não disfarçou a decepção e recordou que o alertara dos riscos, mas não passou disso.

Como Tessai continuou quieto, Kisuke voltou a refletir e a imagem de Yoruichi o xingando de monstro mantinha-se vívida em sua memória como um vídeo travado em um loop infinito.

– No fim, você estava certo em relação a Yoruichi-dono e o Byakuya-dono... - comentou Tessai.

– Estava sim, mas de nada adiantou, se escolhi não levar isso em consideração. É isso que torna tudo mais difícil. Não me conformo... A hipnose, o procedimento, nada daquilo precisava ter sido feito.

– Sinceramente, eu não queria estar na sua pele. E só posso mesmo imaginar o tanto que deve estar se sentindo arrependido agora.

– Sim, arrependido demais. Yoruichi e Byakuya... Por que não escutei minha intuição? Naquela altura, nós ainda não tínhamos segredos. Então por que ela não me contou nada?

– Quem é que sabe? - rebateu Tessai e depois voltou a ficar quieto.

– Não lembro se já comentei com você... - começou Kisuke. – Mas, um tempão atrás, quando a Kukkako soube que eu e Yoruichi estávamos namorando, ela ficou chocada e disse assim meio na brincadeira, que eu só podia ter feito algum tipo de pacto macabro pra ter conseguido conquistar a Yoruichi. Porque na cabeça dela já era certo que a Yoruichi não demoraria a casar com um Kuchiki, porque as famílias deles eram muito unidas. Mas tenho pra mim que nem a Kukkako imaginava que o Kuchiki em questão seria justo esse!

– Não, você nunca me falou nada disso. E não fique chateado de saber que eu, por ter trabalhado algum tempo para os Shihouin, via a coisa do mesmo jeito que a Kukkako-san... Só que agora fiquei curioso: Você fez mesmo o tal do pacto?

– Claro que não, Tessai! Isso não existe. Essa coisa de pacto são apenas invencionices humanas. O que existe mesmo é gente como eu... Gente sem respeito algum pela vida.

– Deixe de se recriminar tanto...

Como quem não tivesse escutado, Kisuke continuou com a lamentação.

– O meu pai sempre foi contra as minhas pesquisas, e eu vivi todo esse tempo afastado e ressentido com ele. Mas agora e depois do que aconteceu, finalmente entendi que ele estava certo.

– Olha pra eles, Kisuke. São nossos amigos também. Não está feliz por eles estarem curados?

– Claro que estou! Mas essa cura teve um custo absolutamente desnecessário, Tessai. Por algum impulso inexplicável eu fiz o que fiz certo de que Yoruichi iria entender, iria me perdoar, crente que ela concordaria que a vidinha que seria sacrificada era insignificante.

– Impulso inexplicável? Tem certeza que isso não tem um pé no sobrenatural? Ou no macabro?

– Ah, para... Você só está querendo me assustar!

– Não é isso. Estou te provocando, para você tentar encarar a coisa por outra perspectiva. A vida nesse nosso mundo não se resume a leis físicas e fórmulas químicas, Kisuke, tem muito mais...

Alguns minutos se passaram, então Kisuke se levantou e Tessai percebeu que ele seguia à cabine de evacuação. Reparou também que ele nem sequer provara o capuccino e já fazia horas desde a última vez que ele tinha se alimentado.

– Ei, Kisuke, se continuar de barriga vazia e a cabeça cheia dessas inquietações, vai acabar desmoronando na frente do capitão-comandante.

Kisuke sorriu de leve.

– Ainda temos muitas horas de viagem. Depois que eu dormir um pouco, estarei com fome quando acordar.

– Quero só ver...


Distrito de Seireitei, Austrália, três dias atrás.

Quando Yoruichi e Byakuya chegaram à mansão Kuchiki já era noite, mas mesmo assim foi o próprio Ginrei Kuchiki quem veio recebê-los.

Yoruichi já estava minimamente recuperada do trauma, mas no momento em que ela encarou o velho senhor, voltou a ficar abalada. Então em um ímpeto apressado, ela se posicionou bem à frente dele, se curvou como uma serva, e disse de um só fôlego:

– Minhas emprestáveis desculpas, Ginrei-dono!

Estando com a face voltada para o chão, ela não pôde ver os olhares desconcertados que Byakuya e o avô trocaram. E ela permaneceu curvada, até que Ginrei se aproximou, puxou-lhe o corpo para cima e depois para um inesperado abraço.

– Este velho irresponsável é quem lhes deve desculpas. E implora vosso perdão! Fui um tolo de expor vocês dois a perigos e riscos desnecessários. Deixei meus próprios interesses falarem mais alto e vocês que sofreram as consequências das minhas escolhas erradas.

Sem esperar por aquilo, Yoruichi ficou estática por alguns instantes, mas logo se agarrou com força a Girei e não conseguiu mais segurar o choro.

– Eu me arrependo tanto, Oji-sama! Byakuya tentou abrir meus olhos, mas eu agi pela minha cabeça!

– Não se culpe assim, Shihouin-kun. É claro que o que aconteceu foi lamentável, mas, por favor, não chore desse jeito. Venha, vamos entrar. Imagino que a viagem foi cansativa, vocês precisam descansar um pouco.

Os três passaram ao salão principal, e lá os recém-chegados se depararam com uma boa refeição à espera: chá, pães e doces. Yoruichi reparou que Byakuya separou para si um pedaço de pão, mas ela mesma apenas se serviu de chá.

Um pouco depois, os três estavam devidamente acomodados, e ainda que Ginrei tivesse insistido que ela e Byakuya se recolhessem, eram tantas as coisas a relatar que aquela reunião se estendeu por horas. As tratativas mais críticas relativas aos clãs deveriam ser o foco, mas pormenores sobre as mutações, a repercussão de algumas notícias nos jornais e o aborto forçado do qual ela fora vítima entremeavam a conversa.

E Youruichi tinha apenas iniciado um novo assunto, quando Ginrei ergueu a mão, pedindo que ela parasse de falar, e então ele disse em sua voz serena, porém exigente:

– Muito bem, já chega por hoje. Amanhã é outro dia. Vocês dois estão bem e apesar dos pesares cumpriram sua missão. Todo o resto pode esperar. Agora vão dormir!

Yoruichi nem teve como contestar e, assim que se levantou, ela se curvou respeitosamente outra vez. Logo depois, Byakuya a conduzia ao andar de cima da mansão.

Os dois caminhavam em passadas vagarosas. Tão aérea e distraída, ela não se deu conta da direção que seguiam até que Byakuya abriu a porta de um quarto.

– Me espera aqui - pediu ele. – Eu vou arranjar uma roupa mais leve pra você.

Um tanto desorientada, Yoruichi assentiu e adentrou o quarto. Uma vez lá dentro, ela deu uma boa olhada ao redor. Ela já tinha estado naquele cômodo muitas vezes e reparou que a decoração pouco havia mudado ao longo dos anos. Aquele era o quarto de Byakuya ali na mansão e, naturalmente, estar ali encheu a mente dela de recordações e das antigas neuras.


Um pouco depois, quando retornou a seu quarto, Byakuya encontrou Yoruichi cabisbaixa.

– O que foi?

Com uma expressão cheia de angústia, ela o encarou por um tempo, e então disse:

– Eu acho melhor eu dormir naquele quarto que fiquei da última vez. Pode ser?

– Claro, mas por que não fica aqui comigo? Eu já disse que não estou bravo com você...

– Eu sei, e nem é por isso. Eu só não acho certo eu dormir aqui. E também sinto que as coisas entre a gente estão meio atropeladas... Entende?

Byakuya entendia, mas não se importava. Porém, ele raciocinou um pouco no que ela havia falado e logo deduziu que estar naquele quarto devia ser bastante perturbador a ela, levando em conta os eventos passados e recentes.

– Entendo... - ele respondeu por fim, um tanto seco como era seu costume, e estendeu a muda de roupas que tinha separado a ela.

– Que bom! Amanhã conversamos.

– Com certeza...

Aproximando-se, ela deu um beijo no rosto dele e em seguida se foi.

Um pouco depois, devido ao extremo cansaço, Byakuya resolveu tomar um banho. Mas longe disso fazê-lo se sentir mais tranquilo, só serviu para afugentar seu sono. Então ele ficou estirado na cama, fitando o teto. As horas foram passando, a madrugada chegou e o sono não vinha.

Pensou que já estaria dormindo há tempos se Yoruichi estivesse ali, e se ele pudesse encostar a testa nas costas dela, do mesmo jeito que costumava fazer anos atrás, quando era adolescente e ela fugia da mansão Shihouin e vinha buscar refúgio justamente ali naquele quarto. Sentia-se muito frustrado, mas realmente entendia aquele pudor da parte dela.

A maneira como ela tinha se curvado para seu avô, quando chegaram, tivera muito significado. Seu avô era a pessoa que Yoruichi mais respeitava no mundo. E a simples ideia de decepcioná-lo, ou de trazer desonra a ele, devia ser insuportável a ela. Além disso, ela tinha razão em dizer que, a despeito das intimidades que eles tinham trocado ao longo daquela tenebrosa missão, as coisas entre eles estavam de fato atropeladas.

Recentemente, seu avô lhe passara a liderança do clã Kuchiki, e Yoruichi já era a atual líder dos Shihouin há alguns anos. A partir do momento que ele apresentasse sua proposta formal de casamento haveria dois cenários possíveis: Ou os clãs iriam se fundir em um clã maior, ou Yoruichi deixaria os Shihouin e viria fazer parte dos Kuchiki. Evidentemente, as pressões no sentido de que ela deixasse o atual clã seriam muito maiores.

Apertando os dedos nos olhos, Byakuya virou de lado na cama, e tentou desligar a mente dessas questões complicadas. Cogitava se não seria bom tomar um calmante, mas foi então que ele sentiu um peso extra no colchão.

– Não consigo dormir...

Byakuya soube que era Yoruichi até antes dela dizer aquilo. E ele só não ficou surpreso com o tanto que ela tinha sido sorrateira ao entrar porque já passara por aquilo diversas vezes. O cansaço por certo comprometera seus sentidos, assim ele não captou a diferença de claridade que a entrada dela ali devia ter causado e muito menos o ranger da porta. Nos dias do passado, ela costumava entrar pela janela, mas ela estando hoje dentro da casa, a invasão deve ter sido ainda mais simples.

Sem perder mais tempo, Byakuya se virou a ela, que também estava deitada de lado. Instantes depois, Yoruichi encostou a testa no peito dele. Desfrutando da paz que aquela simples proximidade lhe trouxe, ele fechou os olhos e suspirou.

– Eu já tinha superado isso... - ela reclamou em um fio de voz.

– Superado o que? - ele indagou em um tom igualmente baixo.

– O medo da Morte...

Ele pensou bastante antes de voltar a falar.

– Ah, sim. Nós dois superamos isso. Superamos juntos. Só que aconteceu de novo...

– Por que a Morte faz isso com a gente, Byakuya?

– Esse tipo de pergunta quase nunca tem resposta.

Yoruichi ficou quieta, mas seu respirar ainda estava agitado.

– Você devia ter ficado aqui... - pontuou ele. – Já estaria dormindo agora. E eu também.

– Não é certo eu estar aqui. Não fica bem! Mas não consegui dormir de jeito nenhum.

– Mas vai conseguir agora que voltou pra mim.

Ele fez questão de deixar a voz mais audível ao dizer àquilo para que ela entendesse de uma vez por todas a dependência profunda que tinham um pelo outro. Assim, em mais alguns minutos, Yoruichi finalmente relaxou e pegou no sono. Sentindo-se bem mais calmo, Byakuya inclinou o rosto para em seguida depositar um beijo nos cabelos dela.

– Dessa vez também vamos superar...

Depois de dizer isso, ele não demorou a encontrar o próprio sono.

No dia seguinte, quando Byakuya acordou, bem disposto e revigorado, Yoruichi já não estava mais ali com ele. Mas claro que ele tinha plena consciência de que a presença dela lá durante a noite não tinha sido uma alucinação.

CONTINUA...


Um pouco mais de oito meses sem atualizações, mas estamos de volta! Sim, essa fanfic ainda continua! E acho que vale dizer que, no próximo capítulo (independente do número de palavras que será necessário), os confrontos entre o odioso Aizen e nossos queridos policiais chegarão ao fim, e com isso os dois tempos da história irão se alinhar.

Então é isso aí! Comentários são sempre muito bem vindos! E desde já agradeço a quem ainda estiver acompanhando. Grande abraço e até a próxima!

Amanda Catarina

21-05-2020.