Disclaimer: BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.


Vítimas do Dever

Por Amanda Catarina

Capítulo 22

Cidade de Las Noches, Espanha, quatro semanas atrás.

Zaraki Kenpachi não se lembrava qual tinha sido a última vez que precisara usar toda sua força para conter um golpe direto. Os primeiros minutos de sua luta contra o gigante Yammy Liargo já deixavam claro que não se tratava de um adversário qualquer. Sorriu com a expectativa de que aquele cara lhe proporcionaria a luta que tanto desejava.

– Não que importe, mas me pergunto como o Aizen conseguiu transformar você nessa montanha de músculos?

– Está falando do meu poder?

– Na verdade, eu queria saber se você lutou contra ele, ou se foi de outro jeito.

– Você não tem tanto tempo assim de vida pra eu te contar como foi, magrelo de tapa-olho!

– Ah, não tenho?

– Não! - gritou o bandido e avançou veloz, desferindo vários socos.

Zaraki não conseguiu se defender de todos aqueles ataques. E o choque de cada pancada ao invés de preocupá-lo o deixava mais eufórico. Estava só aguardando pelo momento de sacar o antiquado 38 e fritar os miolos daquele bandido. Mas, de repente, ele teve um estalo, ao se lembrar que estava sem munição. O tiro que ceifara a vida de Nnoitra, o número Cinco, tinha sido sua última bala. Essa breve distração permitiu que o adversário o atingisse com uma pancada na nuca, e por pouco ele não se chocou contra o chão arenoso. Aguentou o tranco e começou a se erguer, com um sorriso sádico brotando no canto da boca.

– Até que para um inseto, você sabe se defender, magrelo! Não preciso de mais do que um soco para derrubar qualquer pessoa, mas você já levou uns quinze!

– Impressionante você saber contar até um número tão alto.

– O quê, seu bastardo?! Está me chamando de burro? Por que tanta confiança, hein? - gritou, atingindo socos mais potentes. – achando que pode ganhar essa luta? Você é louco?

– Louco? Talvez eu seja... - e dando um passo curto para trás, Zaraki se esquivou e contra-atacou na sequência, acertando um soco no queixo de Yammy, deixando-o desorientado.

– Maldito!

Enquanto o adversário, possesso de raiva, reclamava do ataque recebido, Zaraki precisou ser realista e admitir que se não fosse o anestésico que tinha ingerido - uma toxina ilegal, que ele adquiria no submundo das drogas, e que obliterava quase completamente a sensação de dor - ele já teria perdido a consciência.

Não entendo como é possível, mas parece que esse cara está ficando maior a cada minuto. Só que isso tem que ter um limite. Preciso aguentar até que ele chegue no limite e comece a voltar ao tamanho normal.

A luta contra Nnoitra deixara Zaraki com um ferimento sério no pescoço, mas ele sabia que não tinha chegado ao próprio limite ainda. Podia não ter lido os dossiês sobre aqueles adversários, mas os cinco colegas derrubados ali eram a evidência de que estava enfrentando um monstro. Não poderia se dar ao luxo de ser displicente. Vencer exigiria não apenas sua mítica resiliência física como um mínimo de estratégia.

– O que foi, magrelo? Já tá pedindo arrego?

– Eu pedindo arrego? Mais fácil encontrar um piolho na galáxia do que eu fazer uma coisa dessas!

– Cansei dessa sua conversa complicada! Vou arrancar sua cabeça!

E Yammy surrou Zaraki com tudo que tinha. Socos, chutes, encontrões, cabeçadas. Por vezes, Zaraki cambaleava, fechava os olhos, apoiava-se em um dos joelhos. E quando o mundo ficava tingido de vermelho, ele esfregava o braço nos olhos para limpar o sangue que brotava dos ferimentos.

O espancamento durou alguns minutos, até que Yammy se deteve, intrigado. O bandido não demonstrava qualquer sinal de fadiga, apesar do ritmo intenso dos ataques. No entanto, embora o policial tivesse parado de falar e apenas mantivesse a postura defensiva, ele continuava de pé, e na mente simplória de Yammy aquilo não tinha lógica.

– Por que você não cai? Eu te arrebentando e mesmo assim você continua em pé! Você não é humano?

Zaraki endireitou a postura e respondeu:

– Quem é que sabe? Mas se ainda estou de pé, deve ser porque você não é forte o bastante pra me derrubar.

– Que!? Você tem coragem de dizer que eu não sou forte? Eu, Yammy Liargo, o Espada Número Zero! Chegou sua hora de morrer, magrelo!

O policial acompanhou em câmera lenta as duas mãos do gigante crescendo em direção à sua cabeça, e sorriu diante da brecha que tanto esperava.

Zaraki Kenpachi era um atirador formidável, de mira certeira e rapidez no saque da arma comparável aos cowboys dos filmes de faroeste. No entanto, quando ele saía à caça de gangues de rua, não raro acabava ficando sem munição, antes que os oponentes estivessem rendidos. Com o passar dos anos, ele aprendeu que precisava de uma alternativa para situações assim, algo que não fosse simplesmente recarregar o revólver. Já que, no frenesi de uma luta em espaço aberto, baixar a guarda podia ser um deslize fatal. Por isso que, além do revolver, Zaraki costumava manter uma desgastada katana, habilmente camuflada na lateral da farda. E anos de experiência tornaram as aptidões dele com essa arma branca tão boas, ou até melhores, do que as que ele demonstrava empunhando armas de fogo.

Yammy só enxergou um lampejo reluzente e, no instante seguinte, sua mão direita caía amputada. E a esquerda só não teve o mesmo fim, porque ele conseguiu se esquivar no último segundo.

– Que dor! Seu miserável! Onde você arrumou essa espada?

– Você não tem tanto tempo de vida assim pra eu te contar.

Yammy remexeu a cabeça em negação e logo deu um salto para trás.

– Você é irritante demais!

Zaraki estreitou o olhar, seu instinto de luta ficou mais aguçado.

Aconteceu então de o bandido injetar qualquer coisa no próprio pescoço. Depois lançou a seringa longe e o tempo da queda do objeto descartado até o chão bastou para que Yammy aparecesse na frente de Zaraki e o acertasse com um chute, que fez o policial voar longe.

Atordoado e estirado no chão, Zaraki precisou de vários instantes para voltar a si.

– Ai, essa doeu...

Ele mal tinha ficado de pé e Yammy já estava ali com ele. Tomou um cruzado de esquerda, um soco no flanco, segurou nem soube como um chute, tudo isso enquanto tentava se recuperar da forte tontura.

– Vou te esmagar! Vai ser sua punição por ter provocado minha ira, e irritado a Fera da Fúria! - esbravejava Yammy, tresloucado de ódio.

Mas aqueles ataques violentos acabaram por acordar um instinto indomável em Zaraki também.

– Cala essa boca! - ele gritou ao gigante, e na sequência revidou. – Até parece que vou perder para um monte de bosta como você!

– Vou te matar! - urrou Yammy.

Igualmente possesso, Zaraki agarrou o adversário pela trança dos cabelos.

– Não vai! Você não tem poder pra isso! Sua força é tão falsa como a de um valentão! Esse tamanho todo não faz de você um lutador!

Entre cada brado, Zaraki socava o bandido, e Yammy não conseguia reagir ou se esquivar.

– Você só chegou tão longe porque nunca encontrou um lutador de verdade!

– Isso é impossível... Eu sou o mais forte! Aizen, você falou que eu era o mais forte!

Zaraki arrancou o tapa-olho e segurou embaixo do queixo de Yammy, obrigando-o a encará-lo.

– Se o infeliz do Aizen te disse isso, ele mentiu. No mundo das lutas, qualquer um sabe que o lutador mais forte é aquele que carrega o título de Kenpachi. E quer saber, miserável? É com o 11º Kenpachi que você lutando agora! Quando acordar no outro mundo, vai ter que dizer que foi morto por Zarakki Kenpachi.

Novamente, Yammy enxergou um lampejo de luz, porém, dessa vez, esse brilho foi a última coisa que ele viu em vida. A cabeça decapitada dele rolou então para junto do corpo caído e recoberto de cortes.

Tsc! - Zaraki exprimiu e precisou se sentar no chão, a katana suja de sangue acabou lhe escorregando pelos dedos. – O miserável me fez berrar tanto que até me deu dor de cabeça...

Não muito distante, a capitã Soifon era uma das cinco pessoas próximas que encarava o colega veterano em um misto de terror e alívio.


Paralisado pelo choque, o tenente Shuuhei Hisagi não teve como reagir. E se não fosse pelo capitão Saijin Komamura, ele estaria morto agora.

Komanura se fez de escudo para o jovem tenente, levando ele o tiro disparado por Kaname Tousen, ganhando um ferimento abaixo da axila esquerda, e do qual começou a escorrer sangue. A bala passou de raspão, porém, mesmo assim, danificou consideravelmente o traje militar.

Inconsolável, Hisagi desabou sobre os joelhos, ainda sem conseguir acreditar no que tinha acontecido, enquanto Komamura ficou encarando Tousen.

Passado algum tempo, o capitão enfim se manifestou:

– Você atirando contra uma pessoa, Tousen... Nem em um pesadelo eu achava que veria uma coisa dessas... - comentou ele. – Quando foi que você perdeu o respeito pela vida e fechou os olhos pra humanidade desse jeito?

– Se você nem imagina quando foi, Komamura, não perderei tempo falando, mesmo porque não faz mais diferença. Quem se opõe à Nova Ordem que Sousuke Aizen irá criar tem que ser eliminado!

Ao ouvir aquilo, só restou a Komamura sacar a arma. Porém, não a que ele estava habituado a utilizar, aquela era diferente, e assim como as armas de outros de seus aliados policiais, também tratava-se de uma relíquia bélica, que vinha sendo passada de geração à geração em sua família, e que, por conta disso, recebera um nome, Kokujou Tengen Myou.

– Eu vou abrir os seus olhos, Tousen! - exclamou o capitão.

Passados poucos instantes, o bandido rebateu em tom de deboche:

– Posso sentir o cheiro e a temperatura do metal dessa arma que está apontando contra mim. Sinto também a aura agressiva na sua postura. Você pretende abrir meus olhos ou fechá-los de uma vez por todas, Komamura?

Sem dar resposta, o policial atirou, atingindo o abdômen de Kaname, fazendo uma roda de sangue surgir ali.

– Miserável! - praguejou o bandido, dando alguns passos para trás. – Eu não devia ter subestimado você, Komamura... - disse levemente cabisbaixo, então num gesto rápido, ele puxou uma seringa de dentro do traje. – Essa luta já estaria terminada, se eu tivesse usado isso antes.

Komamura e Hisagi apenas observavam enquanto Tousen injetava o conteúdo da seringa no próprio peito. Instantes depois, o bandido deixou a seringa vazia cair e se apoiou em um dos joelhos. A expressão dele ficou repuxada em uma careta, ele começou a arfar e a se contorcer.

Aquela figura agonizante fez Hisagi se lembrar dele próprio nos nefastos dias quando era um dependente químico.

Mas, após alguns grunhidos e de um respirar ofegante, Tousen, que tinha as mãos sobre os olhos, repentinamente as afastou e endireitou a postura, então ele fitou Komamura diretamente.

– Consigo enxergar... - declarou ele. – Consigo enxergar! Finalmente, eu consigo enxergar! O Hougyoku é tão poderoso que foi capaz de curar um cego de nascença. Maravilhoso!

Estarrecidos, Komamura e Hisagi continuavam encarando o bandido.

– Então isso é o céu? - falava Tousen mais sozinho do que com os policiais. E, após fitar o ferimento que seu disparo tinha deixado em Komamura, ele ajuntou: – E essa é a cor do sangue? E esse é o mundo?

Ainda sem desgrudar a visão do ex-amigo, Komamura sentiu a própria determinação momentaneamente abalada. Então se perguntou se, de fato, a esposa de Kaname não poderia mesmo ter sido salva pelos experimentos de Sousuke Aizen. Essa dúvida o impediu de reagir antes que Tousen se voltasse a ele, e dissesse:

– E esse é você, Komamura? - após alguns instantes contemplando o robusto policial, Kaname ajuntou: – Você é mais feio do que eu imaginava...

– Quer dizer que agora eu sou feio, Tousen?

– O que foi? Não gostou de ouvir algo assim vindo de mim?

– Não é esse o problema! O problema foi você ter vendido sua alma ao diabo em pessoa! Porque mesmo que seus olhos estejam curados, agora você não é mais capaz de enxergar o coração das pessoas como conseguia antes. Você perdeu toda sua empatia...

– Ah, é? Então mesmo agora que não sou mais cego, ainda não sou capaz de enxergar o que você, um soldado da lei, enxerga? É isso, seu miserável?

– É isso mesmo! Você desceu até o nível de se tornar uma cobaia para os experimentos desumanos do Aizen. Corrompeu sua alma e esqueceu a razão pela qual largou a polícia e virou um médico! Não é verdade que você esqueceu o seu ideal, Tousen?

– E como eu poderia? Você tem razão, traí amigos e matei gente inocente, e agora você diz que corrompi minha alma. Mas eu ter aceitado aquilo que fizeram com a Midori, me conformado, isso não teria sido uma corrupção ainda pior?

Um tanto surpreendido com a declaração feita de forma exaltada, Komamura encarou o outrora amigo e então insistiu na questão de antes:

– Por que você virou um médico, Tousen?

– Por vingança! - o bandido exclamou num brado.

Komamura engoliu em seco. Era tão óbvio, mas ele não queria aceitar aquilo.

– Então aquela história de que você virou médico para evitar que outras pessoas tivessem o mesmo fim da Midori, e que você queria fazer desse mundo um lugar melhor, nada daquilo era verdade? No fundo, você só estava disposto a ir até as últimas consequências por vingança.

– Sim! Isso mesmo!

– Tousen, eu não queria ter que lutar contra você, mas se você deixou de enxergar o valor da vida, eu terei que lutar em nome da justiça.

– Da justiça? Seu miserável... Como se atreve?

O policial sustentou o olhar furioso do bandido.

– Quer falar de justiça? Pois eu te digo que a Midori sonhava com um mundo pacífico e sem preconceitos... Mas ela não conseguiu realizar nada! Ela acreditava que havia justiça na vida, acreditava que esse mundo era bom. Mas só acreditar na bondade não basta para alcançar a paz. A única forma de alcançar isso é com poder! E eu quis poder, Komamura! Um poder capaz de fazer a justiça se dobrar de acordo com a minha verdade! Porque desse jeito eu serei capaz de eliminar o mal!

Quanto mais ele falava, mas Komamura se entristecia.

– Isso tudo é tão trágico, Tousen... - disse o policial e abaixou a arma.

– O que foi, Komamura? Perdeu a vontade de me matar? O que você enxerga melhor do que eu com seus olhos de embaixador da lei? Você não acha que foi injusto o que aconteceu com a Midori? Então o que teria sido justo? Eu perdoar os médicos que deram as costas pra ela? Isso teria sido justo? Será que não entende que numa situação dessas, não querer vingar a morte de alguém importante é pura perversidade? O que você achou que eu ia fazer quando me tornei um médico, hein?

– Eu achei que você queria lutar pela paz do mesmo jeito que a Midori lutou enquanto viveu! Mas se foi tudo por vingança, a gente não tem as mesmas convicções, e eu tenho o dever de prender você. Não queria ter que fazer isso, mas pelo menos, com essa luta, pude saber das suas verdadeiras motivações. E, apesar de tudo de ruim que você fez, eu te perdoo.

Tousen estremeceu de ódio.

– Você me perdoa? Ha! Mas você se acha tão superior, não é? E quando foi que eu pedi o seu perdão? Pode ter certeza que vou te matar agora mesmo!

Tousen avançou contra o capitão em velocidade sobre-humana.

– Acabou, Komamura... Vá para o outro mundo sabendo que não é possível ver a justiça com os olhos e muito menos descrevê-la com palavras... - disse categórico e atirou.

O capitão tombou no chão, exibindo um buraco de bala bem no meio da barriga.

– Tetsuzaemon, Hisagi, me desculpem. E me desculpe você também, Tousen. Porque eu não consegui tirar sua vida...

Tousen apontava a arma, disposto a atirar agora na cabeça de Komamura, que fechou os olhos, rendido.

Ele ouviu então o estrondo de um tiro, mas não sentiu a dor. E, depois de um instante, foi o corpo de Kaname que tombou sobre os joelhos. Komamura então se deparou com Hisagi, segurando uma arma que também era uma relíquia identificada por um nome, Kazeshini.

– Você não é mesmo o doutor Tousen que eu conheci. Quando não enxergava, o senhor teria percebido minha aproximação, e nunca teria sido pego por um ataque simples como esse.

Um silêncio triste ecoou pelo deserto.

O jovem tenente Hisagi, permaneceu imerso no inconformismo até ver o capitão Komamura simplesmente se levantar.

Diante da expressão confusa do mais jovem, Komamura comentou:

– O traje milagrosamente aguentou. A bala dele não me atingiu.

Assentindo, Hisagi endireitou a postura, ao mesmo tempo em que o corpo baleado de Tousen tombou no chão.

Os dois policiais trocaram um olhar de inconformismo e após alguns instantes, Komamura tomou a iniciativa de se aproximar do derrotado. Abaixando-se, ele estendeu o corpo de Tousen no chão, e assim pôde ver que o tiro disparado por Hisagi havia transpassado o pescoço dele.

– Foi um tiro pra matar... - o jovem tenente falou, sem esconder a angústia na voz.

– Eu sei... Você agiu bem. Conseguiu ter a coragem que me faltou.

– Mas eu não queria nada disso! - rebateu atormentado. – Ele... Está mesmo morto?

– Ainda tem pulso, mas deve ser um efeito temporário da droga que ele se injetou...

– Mas e se a gente estancar o sangue, será que ele sobrevive?

Komamura fitou o tenente por alguns instantes, sentia-se igualmente arrasado, e então disse:

– Podemos tentar...

O capitão logo passou a estender uma bandagem sobre a ferida do derrotado. Era inútil ele sabia, era evidente se tratar de um ferimento fatal, mas, mesmo assim, continuou a fazer pressão até que o sangue parasse de escorrer.

– Ei, capitão Komamura... Talvez ele só tenha falado aqueles absurdos e agido daquele jeito radical porque estava sob o efeito da droga! Se ele não receber mais nenhuma dose, pode ser que volte a ser ele mesmo! - declarou, tentando manter a esperança.

– É verdade...

Passado mais alguns minutos, os policiais viram os olhos opacos de Kaname se abrirem.

– Komamura? Hisagi? - disse ele.

A expressão de Kaname era de incerteza e havia uma nota diferente na voz dele, algo que sugeria arrependimento.

Ainda que muito surpreso, o capitão se adiantou em responder:

– Evite falar, Tousen. Você só deve estar conseguindo respirar ainda por causa da droga...

– É, não precisa dizer nada agora, doutor Tousen! Que bom que ainda está vivo! - exclamou Shuuhei. – Nós vamos te levar a um hospital! Você vai se recuperar!

– É tarde demais pra mim, Hisagi...

A constatação do fato abateu o jovem tenente, mas não foi uma surpresa para o experiente capitão.

– Parece que você voltou a ser você mesmo, Tousen... - disse Komamura. – Não vou pedir que não guarde rancor de mim, mas, me deixa te dizer só mais uma coisa... Se sobreviver a isso, deixa de jogar sua vida fora por vingança. Porque do mesmo jeito que você sofreu com a morte da Midori, eu também vou ficar com um buraco no coração se você morrer.

Kaname chorou comovido ao ouvir aquilo.

– Obrigado, Komamura.

Hisagi também deixou as lágrimas rolarem.

– Apesar de tudo, estou feliz porque ainda consigo enxergar e ver vocês dois...

Mas aconteceu então que repentinamente o chão começou a tremer e, em questão de segundos, uma estrutura translúcida como vidro emergiu da areia, e imediatamente os dois policiais avistaram ninguém menos do que o líder dos bandidos, e também quatro de seus aliados.

Komamura perdeu o fôlego ao avistar o capitão-comandante Genryuusai Yamamoto tombado, estirado inconsciente no chão, ao lado do capitão Gin Ichimaru, este também inconsciente, ambos talvez mortos - o que explicaria o olhar aterrorizado com que o tenente Izuku Kira encarava os dois. Com o atônito tenente posicionado ao seu lado direito, o capitão Shunsui Kyouraku apontava uma arma para Sousuke Aizen.

– Você é mesmo cheio dos truques - disse Kyouraku para Aizen, certamente se referindo à imensa estrutura que agora os rodeava.

– Você não tem nem ideia... - Aizen rebateu, com seu sorriso cínico.

Hisagi e Komamura olhavam incrédulos para a estrutura, a cerca de cem metros de onde estavam, foi então que Sousuke pareceu notá-los.

– Mas o que temos aqui? - disse Aizen, desviando a atenção de Kyouraku.

O líder dos Espadas gastou alguns instantes fitando os policiais logo mais adiante. Ele sabia muito bem da relação daqueles três, e ao notar que seu imediato tinha uma bandagem no pescoço, rapidamente deduziu o que teria acontecido.

– Entendo... Então você foi derrotado, Kaname.

A visão apurada de Komamura o permitiu perceber que Aizen dissera alguma coisa, olhando na direção em que eles estavam, mas não foi possível escutar àquela distância, mesmo porque ele desviou rápido o rosto ao ouvir um estouro.

Na sequência, tanto Komamura como Hisagi ficaram estarrecidos de susto.

– Doutor Tousen! - gritou Hisagi, diante da visão de um buraco do tamanho de uma bola de basquete no tórax de Kaname.

– Mas de onde... ? - Komamura se perguntou, olhando os arredores à procura de algum atirador.

Entretanto, voltando a olhar para o amigo covardemente abatido, observando os jorros de sangue transbordando do buraco, o capitão Komamura entendeu o que tinha acontecido.

– Aizen! - gritou a plenos pulmões e, sem pensar duas vezes, se lançou em uma veloz corrida em direção ao bandido, engatilhando a arma, possesso de ódio. – Você vai pagar por isso!

– Onde estávamos? - disse Aizen, voltando-se outra vez para Kyouraku, instantes antes de um descontrolado Komamura se chocar contra a estrutura translúcida, porém sem conseguir atravessá-la. – Ah, sim... Eu ia matar todos vocês.


Cidade de Brisbane, Austrália, dias atuais.

O retorno de Byakuya Kuchikii ao cargo de capitão da Sexta Divisão do Departamento de Segurança do Distrito de Seireitei, depois de quase dois meses de afastamento, foi mais tranquilo do que ele esperava. Aquela era uma das vantagens de se ter subordinados tão competentes e disciplinados.

A parte da manhã transcorreu sem surpresas, mas, depois do almoço, ele resolveu deixar seu escritório para ir à procura do colega Zaraki Kenpachi. Porém, quando passava pela Segunda Divisão, Byakuya se deparou com Soifon, que era a capitã responsável ali. Soifon deixava o próprio escritório no momento em que se encontraram. Assim que o viu, ela dilatou os olhos de surpresa, e num gesto rápido, fechou a porta da própria sala.

Byakuya estranhou aquela reação. Parecia que a colega estava tentando esconder algo dele. Porém, antes que ele pensasse a respeito, e antes mesmo que os dois tivessem se cumprimentado, Renji Abarai saiu de dentro da sala da capitã, e disse a ela:

– Soifon, eu acho que a minha carteira ficou na sua bolsa...

Byakuya estranhou a abordagem informal, a falta de um honorífico apropriado, e também o rubor que instantaneamente surgiu na face de Soifon.

– Capitão Kuchiki! - Renji exclamou visivelmente chocado. – Não sabia que já tinha voltado ao trabalho. Satisfação em revê-lo!

– Digo o mesmo, oficial Abarai. Retornei hoje. Boa tarde, capitã Soifon.

– Boa tarde, capitão Kuchiki - respondeu Soifon e o rubor ainda estava no rosto dela.

Byakuya reparava no quanto os dois pareciam desconcertados, mas desviou a atenção quando Renji se dirigiu a ele em um tom carregado de preocupação, e perguntou:

– Ei, capitão Kuchiki... Como a Rukia está? Sabe quando ela volta da licença?

Sem deixar de reparar no quanto Soifon retesou a postura ao ouvir aquilo, ele respondeu:

– Você nunca precisou de mim para saber notícias da minha irmã, Renji.

O tatuado ficou sem jeito, e num gesto nada discreto, Soifon virou o rosto a ele, com um olhar cortante.

– Ah, sim... - ele concordou sem graça. – Mas é que as coisas estão um pouco mudadas agora que ela está com o Ichigo...

– 13h15 - entrecortou Soifon com voz dura. – Você não disse que tinha uma reunião agora, Abarai?

– Tenho! - o tatuado rebateu afoito, e foi saindo de lado. – Até outra hora, capitão Kuchiki!

Byakuya era mestre em deduções, mas aqueles dois estavam sendo tão óbvios e pouco discretos que a mudança no relacionamento deles estava clara para qualquer um que prestasse um mínimo de atenção.

Depois que Renji se foi, num caminhar apressado, Soifon suspirou e entreabriu os lábios para dizer qualquer coisa, mas Byakuya foi mais rápido que ela.

– Mesmo sendo um golpe pra minha alto-estima, digo que você está melhor com ele do que teria ficado comigo.

Soifon encarou o capitão, espantada, mas acabou que não conseguiu evitar e deu risada.

– Vou entender com isso que você pensa o mesmo... - disse o capitão, após o breve surto de riso dela.

– Com certeza! E quer saber? Eu só tentei aquele lance com você porque a Yoruichi-san tinha colocado na cabeça que aquilo era uma boa ideia!

– Eu já imaginava... - ele rebateu, sem demonstrar surpresa.

– E falando na Yoruichi-san... Conversei com ela hoje cedo, e ela me contou que vocês estão juntos! Pelo visto a estada de vocês no Japão foi agitada.

– Você não faz ideia... Mas me diz uma coisa: Vocês duas conversaram normalmente?

Soifon precisou de alguns segundos para captar a entrelinha da pergunta.

– Ah, não mesmo! - ela respondeu então. – Yoruichi-san ficou retraída demais enquanto falava comigo. Tanto que cheguei a pensar que ela fosse me dizer que tinha cometido um crime! Ela mal me olhava nos olhos.

Byakuya demonstrou preocupação, então Soifon rapidamente ajuntou:

– Mas já voltamos ao normal! E ela pareceu ficar mais calma depois que contei sobre eu e o Abarai. Ainda mais quando brinquei dizendo que sou tão parecida com ela que também quis pegar um novinho!

Surpreso com o comentário bem humorado, ainda mais por ter partido de uma pessoa em geral tão séria, Byakuya meneou a cabeça de lado, com uma insinuação de sorriso.

– Eu só fiquei surpresa quando ela comentou que vocês já pensam em casamento...

– Ah, sim... Sei que parece precipitado, mas tem a questão dos nossos clãs. Precisamos anunciar logo quem vai adotar o sobrenome de quem. Se ela vai passar a ter o sobrenome Kuchiki, ou se eu ficarei com o sobrenome Shihouin. Mas essa não é uma decisão fácil, ao menos não para nós dois, já que somos os líderes atuais.

Soifon não escondia o interesse no assunto, tanto que o encarava agora com aparente confusão.

– Mas espera... Vai ser um casamento pra valer, ou é um casamento de conveniência?

Byakuya ficou pensativo.

– De conveniência? Isso anda fora de moda até no nosso meio... O que te fez pensar assim?

Soifon ficou um tanto sem jeito, mas logo respondeu:

– Ah, é que... Eu posso estar enganada, mas a Yoruichi-san não me pareceu tão feliz quanto se espera de alguém que acabou de entrar em um novo relacionamento. Sem falar que vocês dois nunca tiveram um bom convívio!

O comentário, extremamente perspicaz, fez Byakuya soltar um discreto suspiro, e pensar que Soifon era mesmo muito observadora.

– Mesmo pra você pode ser novidade, mas minha relação com a Yoruichi começou quando éramos adolescentes. É verdade que nos últimos anos certas coisas nos distanciaram, mas isso mudou. E, respondendo sua pergunta... Não, não vai ser um casamento de conveniência, é pra valer. E quanto ao motivo de ela parecer triste, tem sim uma razão, mas é um assunto delicado. Dê mais algum tempo a ela... Sei que ela irá te contar tudo uma hora ou outra.

– Hum, entendi...

Os dois colegas ficaram em silêncio por um tempo, até que Soifon retomou:

– Sinceramente, estou feliz por vocês dois. Pois prefiro mil vezes ver a Yoruichi-san com você do que com aquele desleixado do Urahara!

A expressão serena que Byakuya até então exibia desapareceu. Depois de escutar aquele sobrenome tudo que ele falasse dali em diante estaria embrulhado com um ódio corrosivo. Meneou a cabeça em concordância, e buscando dar outro rumo à conversa, ele perguntou:

– Capitã Soifon, estou procurando o capitão Kenpachi. Sabe se ele está de serviço hoje?

– Está sim. Mas talvez não tenha voltado do almoço ainda. Vi que ele saiu com o Madarame e com o Ayasegawa, e quando os três se juntam costumam demorar.

– Mas esse Kenpachi não leva nada muito a sério...

– Na parte administrativa, não mesmo, mas é bom ter aquele bakemono do lado dos mocinhos... Eu talvez não tivesse voltado viva da missão na Espanha, se não fosse por ele.

Byakuya não escondeu a surpresa.

– Como assim?

– Você não deve ter tido tempo de ler os relatórios sobre os confrontos com os mutantes do Aizen, mas quando ler, você vai entender.

– Eu já li sim alguns desses relatórios. Estou inclusive atrás do Kenpachi porque achei o relatório dele péssimo! Poucos detalhes e sem muita coerência. Queria entender direito como ele conseguiu matar o tal do Número Zero.

Soifon riu de leve.

– Como eu disse... A parte da papelada não é o forte do Kenpachi. Mas o que exatamente você quer entender? Eu estava lá quando ele derrotou esse cara, talvez eu possa ajudar.

– Como assim você estava lá?

– Claro que eu estava! Por isso disse que devo minha vida a ele.

– Sua presença no local deveria constar no relatório. Mas enfim... Se eu não estiver tomando muito do seu tempo, capitã, poderia me contar como foi isso?

Soifon assentiu e logo passou ao relato. Ela foi bastante concisa, mas mesmo assim conseguiu preencher as lacunas que Byakuya julgava estarem presentes no mencionado relatório.


Ichigo Kurosaki estava na mansão dos Kuchiki. Mas especificamente no quarto de Rukia, escutando com muita atenção as instruções que a médica Retsu Unohana lhe passava quanto aos cuidados que ele deveria tomar, caso precisasse ser novamente ele a pessoa a trocar os curativos no abdômen de Rukia.

– Entendi, Unohana-san! - ele falou ao término das orientações. – Pode deixar comigo!

– Mas, Unohana-san... - chamou Rukia. – Eu já estou bem melhor! Será que a senhora não poderia me dar um atestado, me liberando para voltar ao trabalho? É sério, eu pirando de ficar aqui nessa casa!

– Ainda não é o momento ideal, Kuchiki-san... Mas vou conversar com o seu avô. Se ele não tiver objeções, você vai poder voltar a trabalhar na semana que vem.

– Sério? - ela retrucou empolgada.

A médica assentiu.

Ichigo sorriu diante da expressão contente da namorada, e não escondia a própria alegria com a notícia. Estava complicado ter um momento mais romântico com Rukia ali naquele lugar, principalmente depois que o estressado do irmão dela tinha voltado do Japão.

– Muito bem então. Boa tarde, Kuchiki-san e Kurosaki-kun.

Ichigo se apressou em ir abrir a porta do quarto para a médica, e quando o fez, deu de cara justamente com o irmão de Rukia.

– Nii-san! Yoruichi-san! - exclamou a baixinha, muito contente.

Pelo menos, o irmão irritante chegava ali acompanhado da namorada dessa vez. Ichigo ainda não tinha conversado muito com aquela mulher, Yoruichi Shihouin, mas ficara sabendo que ela pertencia à casta nobre de Seireitei. Porém, ao contrário do que se podia imaginar, Yoruichi parecia ser bem simpática, além de ser uma pessoa de quem Rukia gostava bastante, e isso tinha muito peso pra ele. O que era difícil de entender era como uma mulher tão ilustre e bonita foi querer namorar com o azedo do seu futuro cunhado.

– Yo, Rukia-chan! - saudou Yoruichi, acenando a ela. – Ah, Unohana-san, que sorte ainda encontrar você por aqui!

– Boa tarde, Shihouin-san. E boa tarde pra você também, Kuchiki-san - disse a médica se curvando em saudação.

Depois de corresponder ao gesto, Yoruichi falou:

– Imagino o quanto sua agenda deve ser lotada, mas eu queria muito marcar uma consulta com você, Unohana-san.

– Verei o que posso fazer por você, Shihouin-san... Vou pedir que a minha secretária, a Isane, entre em contato com você.

– Ah, muito obrigada!

– Por nada, agora eu preciso mesmo ir! A residência do meu próximo paciente é longe daqui.

– À vontade, doutora... - disse Byakuya, fazendo uma mesura polida.

Ver aqueles três conversando, com toda aquela exagerada formalidade nipônica e gestos comedidos, fez Ichigo sentir que estava dentro de uma novela de época, daquelas que o pai dele adorava assistir. Mas bastou que a médica se retirasse e ele fechasse a porta, para que Byakuya perdesse a postura de nobre e passasse a encará-lo com a cara amarrada que parecia dizer "Quero dar um tiro em você pelo simples fato de você existir".

– O que ainda está fazendo aqui, Kurosaki Ichigo? - ele perguntou antipático.

Uma veia saltou na testa do universitário. Aquele cara tinha um jeito tão jocoso de pronunciar o nome dele que o deixava extremamente irritado.

– Como assim? - rebateu tentando disfarçar a vontade de colocá-lo pra fora na base da porrada. – Eu acabei de chegar! Não vai me dizer que achando que passei o dia inteiro aqui! Eu estudo, sabia?

Enquanto os dois se estranhavam, Yoruichi foi se sentar ao lado de Rukia na cama.

– Ah, então você estuda? - rebateu Byakuya. – Que alívio saber disso!

– Nii-san, por favor, para de implicar com ele... Por mais que você ache que o Ichigo seja um imaturo, folgado, boca-dura, sem modos... - dizia ela, mas Ichigo interrompeu o discurso.

– Valeu aí pelo currículo detalhado!

– Cala a boca, mal agradecido! - vociferou ela. – Não deu pra perceber que eu te defendendo?

– Imagina então se estivesse me atacando! - ele rebateu na mesma altura, porém ela o ignorou.

– Como eu dizia, Nii-san... Apesar disso tudo, esse meu namorado tem ajudado sim na minha recuperação! Sem falar que eu nem estaria aqui se não fosse por ele.

Byakuya bufou, visivelmente contrariado. E Ichigo adorou ver a cara de bunda que ele fez ao ouvir aquela verdade incontestável. Rukia vivia babando ovo praquele chato, mas também sabia alfinetar quando era preciso.

– Até onde sei... - o mais velho retomou, sem querer reconhecer a derrota. – Yamada Hanatarou mora aqui justamente pra cuidar dos doentes.

Rukia não demorou no contra-ataque.

– O Hanatarou mora aqui pra cuidar do vovô!

Ichigo não perdeu a deixa e ajuntou:

Oe, Byakuya? Será que é tão difícil assim pra você aceitar que eu não sou o irresponsável que você tanto queria que eu fosse! Hein?

O outro estreitou os olhos, mas foi Rukia quem se adiantou na resposta, e numa voz cheia de indignação.

– Ichigo! Não fala desse jeito desrespeitoso com o meu irmão, seu boca-dura abusado!

Ichigo rolou os olhos. Jamais iria se acostumar com aquelas frescuras deles de não chamar as pessoas pelo nome.

– Não grita assim... - Yoruichi pediu, tocando de leve no ombro dela. – Vai acabar estourando os pontos de novo.

– Não precisa se preocupar comigo, Yoruichi-san. O corte já está bem cicatrizado, logo vou estar livre dos pontos. Inclusive, a Unohana-san acabou de falar que, na semana que vem, já posso voltar ao trabalho!

– Ah, que maravilha!

Rukia continuou contando as novas para Yoruichi, enquanto Ichigo continuava trocando farpas com Byakuya.

– Pode até ser que você não seja um completo irresponsável, mas quanto a ter boas maneiras, já vi que é causa perdida.

Ichigo não se acovardou diante da expressão agressiva do mais velho. E só depois de um demorado bate-boca que ele percebeu que a simpática Yoruichi já nem estava mais no quarto, e que Rukia estava agora de olhos fechados, curtindo um som com fones-de-ouvido.


Depois de ter deixado o quarto de Rukia, sorrateiramente tal qual uma gata, Yoruichi chegava à varanda na ala dos fundos da mansão Kuchiki, onde ficou pensativa e com uma expressão ausente, contemplando a tarde abafada dar lugar à uma noite fresca.

Foi então que alguém se aproximou dela e disse:

– Imagino que ficou sabendo da reconciliação entre Genryuusai Yamamoto e Kisuke Urahara.

Era Ginrei e ele logo se acomodava em um zabuton, bem ao lado de onde ela estava. Yoruichi reparou que o tom do comentário tinha sido muito comedido, certamente Ginrei quis garantir que Byakuya não iria escutar aquela conversa.

– Sim, eu soube... O Ukitake me contou tudo hoje à tarde.

– Entendo... E você já sabia desse vínculo sanguíneo entre os dois?

– Eu desconfiava, mas nunca questionei o Kisuke sobre isso. Esperava que ele fosse me contar toda a história algum dia. Mas, pelo visto, dizer verdades não é o forte dele...

– Percebo que a sua mágoa com ele ainda é grande.

– Hunf! - bufou ela. – Pode apostar que será eterna!

– Não fale assim, Yoruichi-san. Alimentar rancor só fará mal a você mesma.

– Acontece que ainda não consigo me libertar disso, Ginrei-dono!

– Entendo... - disse o idoso e, depois de um tempo, comentou: – Desde o início da missão, eu nunca estive cara-a-cara com o Urahara. Eu e ele não conversamos nem mesmo por telefone. Mas passei horas conversando com o pai dele hoje. E Genryuusai me garantiu que Urahara está arrependido, e que ele gostaria de ter a oportunidade de pedir perdão a você.

– Pois ele está querendo demais! Se eu encontrar o Kisuke hoje, juro que sou capaz de perder a cabeça e fazer uma besteira. Bem do tipo da que ele fez comigo, do tipo que não tem volta!

– Não precisa ser hoje. Apenas considere isso daqui algum tempo...

– Não é o senhor quem costuma me dizer que devemos viver um dia de cada vez?

– É verdade, mas estou insistindo nisso porque sinto que essa situação mal resolvida está prejudicando você. É como um assunto pendente, que eu acho que você devia tentar resolver antes de se casar com o Byakuya.

– O senhor acha que aceitei casar com o Byakuya só para cortar de vez meus vínculos com o Kisuke?

– Não, eu não acho isso. Eu sempre soube que você e o Byakuya se amavam. Teria sido muito melhor se vocês nunca tivessem se envolvido com outras pessoas. Nunca me perdoei por não ter conseguido ajudar vocês nesse sentido antes, quando eram jovens. E foi por isso que, nessa missão, fiz de tudo para que vocês dois se reaproximassem.

Yoruichi encarou o idoso com muito assombro.

– Mas, vamos deixar o passado quieto por enquanto. O ponto importante agora é que assim como o Byakuya chegou a se casar com outra mulher, você também teve um envolvimento sério com o Urahara...

Após alguns instantes refletindo, Yoruichi falou:

– Não vou ser hipócrita de esconder que antes da droga dessa missão, eu ainda amava sim o Kisuke! Mesmo sabendo que ele não me correspondia do mesmo jeito... Mas depois de ele ter ferrado comigo, aquilo que ainda restava do meu sentimento por ele foi destruído.

– Mas, Shihouin-san, não é drástico demais sair do amor para o extremo oposto?

– Acredite... Se eu estivesse no extremo oposto, já teria matado ele. Daqui pra frente, que ele siga com a vida dele, que eu vou dar um jeito de seguir com a minha.

– Mas e se ele só estiver pedindo por uma chance de se explicar... Nem mesmo isso você pode dar a ele?

– Não sei, Ginrei. Não sei mesmo...

Os dois silenciaram.

Passado um bom tempo, Ginrei enfim se levantou e a deixou sozinha ali.

Yoruichi já se sentia incomodada com a ventania que começou a soprar, mas então teve o corpo envolvido por um abraço.

– Te procurei pela casa toda e era aqui que você estava... Você tinha que ver a cara daquele desclassificado quando ele percebeu que você tinha sumido do quarto. Deve ter parecido um truque de mágica pra ele.

– Que exagero... Vocês dois estavam tão ocupados rosnando um pro outro, que eu poderia ter saído de lá arrebentando a janela que vocês não teriam nem notado.

– Rosnando? Que exagero...

– Vamos entrar? - chamou ela. – Está esfriando.

Yoruichi tentou afastar os braços que a circundavam, mas acabou tendo o corpo empurrado contra uma das enormes pilastras de madeira que sustentavam o telhado do local e, em instantes, os lábios de Byakuya estavam sobre os dela. Ela se encolheu com o ímpeto apaixonado do ataque, e estando com a mente em turbilhão por causa da conversa com Ginrei, simplesmente não conseguiu corresponder.

Não demorou e Byakuya deu fim ao beijo, e questionou:

– O que foi? Aconteceu alguma coisa?

– Não, nada... - respondeu e virou a cabeça de lado, fugindo do olhar perscrutador dele. – A gente vai dormir aqui ou no seu apartamento?

– Olha pra mim...

Yoruichi não obedeceu, então ele virou-lhe o rosto e, assim que os olhos deles se encontraram, ela não conseguiu se conter e começou a chorar.

– O que acontece é que eu ainda não consegui superar o trauma, Byakuya! Sinto como se o fantasma do bebê estivesse me assombrando...

– O fantasma do bebê? Do nosso bebê?

– É... Eu sei que é besteira, mas não consigo não pensar nisso!

– Yoru... Por que o fantasma de uma criança que nem conseguiu vir ao mundo estaria assombrando você?

– Porque ela não chegou a nascer por minha culpa! - exclamou nervosa e em uma voz mais contida ajuntou: – Porque eu não soube como protegê-la...

Byakuya enxugou as lágrimas dela e depois lhe acariciou a bochecha.

– Pensei numa coisa agora... - disse ele. – E se formos ao Templo rezar pela alma daquela criança? Será que assim você não vai se sentir melhor?

Ela o encarou com surpresa e logo sentia-se invadida por um certo ânimo.

– Sim... Eu acho que essa é uma boa ideia!

Byakuya a puxou para um abraço e os dois ficaram assim por algum tempo.

– Vai ficar tudo bem... - disse ele.

Yoruichi estreitou ainda mais o enlace. Tudo que ela queria era acreditar naquelas palavras consoladoras, mas, naquele momento, uma terrível angústia e um profundo pesar continuavam enraizados na alma dela.

CONTINUA...


Notas do Capítulo:

Foram mais de seis meses desde a última atualização, e espero sinceramente que ainda pareça alguém para ler essa fanfic.

No próximo capítulo, ou Kyouhaku prende o Aizen de uma vez, ou o patife foge para algum outro Universo Alternativo. Imagino que esse será um confronto que vai exigir muito dos meus neurônios, mas, realmente, gostaria de conseguir escrever logo esse desfecho...

Na luta do Zaraki contra o Yammy, o Byakuya só pôde ter uma "participação" indireta, mais uma das grandes diferenças entre a fic e a série. E para quem quiser lembrar como foi a luta do Komamura e do Hisagi contra o Tousen, é só assistir os episódios 290 e 291 do anime.

Bom, o capítulo já estava muito grande para ter uma cena com o Kisuke, mas, não se preocupem que ele estará de volta no próximo, OK? E aí? Vocês acham que a Yoru vai conseguir perdoá-lo? Ou pelo menos vai aceitar ter uma conversa com ele? Me contem nos comentários.

Tivemos um momento ByaSoi aqui! Algum fã do ship acompanhando? E gostaram do momento IchiRuki? Fazia um tempão que não tinha nada dos dois, né? Eu sempre me divirto com o Ichigo!

Gente, não vou desistir de terminar essa fanfic algum dia! Então é isso aí, grande abraço e até a próxima!

Amanda Catarina

08-04-2020.