N/A: Leitoras amadas, eu nem sei como explicar tudo o que aconteceu comigo nesse longo período entre o último capítulo e este daqui. Eu sei que demorei demais e não estou aqui para pedir desculpas, mas acho que vocês merecem uma pequena explicação: como algumas de vcs sabem, eu estava de férias fora do país, então voltei pro Brasil, jet lag quase me massacrou, e quando eu consegui escrever já era quase Carnaval, o cap tava quase pronto, faltava só mais 1 cena, e no Carnaval eu deixei meu laptop cair e ele quebrou e eu perdi TUDO o que estava no meu HD interno, ou seja TODO o cap, no meu backup não tinha o cap novo guardado, então eu voltei do Carnaval e esperei mais 1 semana até arrumarem o notebook e eu ter ele de volta. Daí começou faculdade, trabalho, voluntariado tudo junto. Depois de tanto tempo sem escrever eu tava me sentindo até distante do plot, dos personagens, de tudo, eu pensei seriamente em desistir, mas algo me dizia que eu não podia fazer isso com esse plot, com essa estória e com minhas queridas leitoras, então foi bem hard conseguir escrever de novo, refazer todo o capítulo, criar muitas cenas novas e mudar o rumo da fic pois achei algo que gostei mais. Por isso tudo, sinto muito. Demorou, mas chegou! Boa leitura!
Título do capítulo: Upside Down - De Ponta Cabeça
Love Shuffle
Capítulo 10 - Upside Down
NaruTema | GenSaku | NejiIno | ShikaHina
Naruto sentiu como todo seu corpo começava a amortecer, como se pequenas agulhas de acupuntura massageassem todos os pontos corretos para que corpo e mente sentissem aquela sensação maravilhosa de relaxamento.
Mas aquilo não tinha nada a ver com acupuntura e tudo a ver com álcool, afinal era a sexta ou sétima rodada de cerveja que ele tomava, e a mente já estava meio turva, os sentidos um pouco na contra mão e o corpo flutuando sem sair do chão.
Ele jogou a cabeça para trás, seus cabelos loiros se chacoalharam num movimento lânguido, a pele bronzeada esticando sobre os músculos do pescoço enquanto sua cabeça continuava pendendo. Então um ronronar incomodado nasceu no fundo de sua garganta e foi subindo pela coluna do pescoço fazendo com que o som brotasse por seus lábios entreabertos e saíssem num muxoxo indignado.
- Você vai ter que me dizer – Sasuke pressionou mais uma vez.
Naruto levantou a cabeça devagar, sentindo o mundo rodar um pouco ao seu redor e a cerveja subir até o topo mais alto da sua mente, mas então ele encontrou forças suficientes para continuar negando:
- Não, eu não tenho nada mesmo para te dizer.
- Tem sim – Sasuke rebateu, comendo uma azeitona – Hinata rejeitou teu pedido de casamento e na semana seguinte você já estava com Temari-san a tira colo, diga a verdade.
- Temari é minha amiga! – ele disse indignado e apertou os olhos azuis para focar melhor a visão no rosto pálido e bem desenhado do amigo.
Fazia tanto tempo que eles não saiam assim que, quando a ideia brotou em sua cabeça loira, ele nem pensou duas vezes antes de agarrar o celular e convidar o amigo para sair naquele sábado à noite.
Afinal, Temari certamente teria coisas para resolver com Shikamaru.
- Ino e Sakura também são tuas amigas e nem por isso você as leva para o quartel general para fazerem um tour.
- É diferente... – ele disse já aborrecido com Sasuke e mordeu uma azeitona.
- Eu percebi.
Quando Sasuke concordou em ir tomar uma cerveja, não passou pela cabeça de Naruto que talvez eles abordassem o tema. Até porque, Sasuke nunca fora realmente interessado em sua vida afetiva, mas parece que a presença continua de Temari no seu dia a dia não havia passado desapercebida.
Naruto bufou.
- Ela não conhecia o quartel – ele insistiu.
Sasuke ergueu uma sobrancelha e ofereceu um meio sorriso sacana.
- Ok, então você estava dando um passeio turístico por Konoha com ela – ele disse sarcástico e rodou o copo vazio nas mãos – Eu achei que o Nara já tinha feito isso há tempos...
- Argh! – ele bufou e escondeu o rosto nas mãos.
Toda a sensação agradável e flutuante do álcool estava se dissipando com toda aquela conversa chata. Parecia que lá estavam eles de novo brincando de Tom e Jerry. Mudar de tema parecia ser simplesmente impossível, ele não sabia o que fazer com Sasuke, ou onde se enfiar.
Passando as mãos no rosto com força para acordar um pouco mais das sensações embriagantes do álcool, ele encarou o amigo com um sorriso de trégua nos lábios, esperando realmente que Sasuke deixasse essa passar, pelo amor de deus.
- Você tá tendo um caso com ela? – Sasuke sugeriu num tom baixo, apoiando o rosto na mão e o cotovelo na mesa. Ele tinha uma expressão tão divertida e sádica que Naruto quis socar ele até que o moreno engolisse o maldito sorriso sacana que parecia grudado com super bonder em seus lábios e sem previsão de sair.
Naruto arregalou os olhos e encarou o amigo seriamente.
- Eu não vou te julgar, Naruto – o moreno comentou baixinho, chegando o rosto mais próximo do outro – Eu sei que a Hinata te deu um pé na bunda, mas eu não achei que você tivesse coragem de-
- Não é isso! – ele exclamou estupefato.
- Porque o Nara é teu amigo-
- Para com isso! – Naruto disse alto, chamando a atenção de olhares de outras mesas, seu rosto estava corado e sua respiração mais rápida.
Naruto se sentia extremamente irritado, Sasuke estava sendo um completo babaca, sugerindo que ele estava fazendo aquilo pelas costas de Shikamaru, insistindo uma e outra vez.
Mas do jeito que Sasuke passou uma mão bagunçando seus cabelos negros, o fazia parecer suspeitosamente bêbado e totalmente sem noção...
- Então me explique, e não minta, porque você mente muito mal, Naruto – a voz de Sasuke soou mole e sorrateira.
- Céus! Como você é irritante, eu até tinha me esquecido disso! – ele comentou, fazendo Sasuke revirar os olhos e contorcer os lábios fazendo sua típica cara de irritação, que lhe fazia parecer ter 13 anos de novo...
Naruto riu. Sua risada escalando pelas cordas vocais e arrastando Sasuke junto consigo, fazendo o moreno rir também. Dois bêbados babacas. E o loiro piscou para evitar as lágrimas das risadas escaparem, e decidiu que já era hora de ir para casa.
- Vamos embora – ele falou definitivo e Sasuke concordou com a cabeça, ambos levantando e pagando a conta no caixa.
Eles saíram do bar e o vento fresco da noite os envolveu. Estavam próximos do bairro onde Sasuke morava e sem que tivessem que conversar sobre aquilo, ambos começaram andar na direção da casa do moreno num acordo silencioso de que, naquela noite, Naruto dormiria na casa dos Uchiha.
Depois de dois minutos de silêncio Sasuke bufou e retomou a conversa.
- Por que você não me fala a verdade?
- Por que a verdade não é da tua conta!
O moreno encarou Naruto escandalizado, depois fechou a cara e começou a andar na frente num passo rápido.
- Sasuke!
- Como você é baixo, Naruto – ele resmungou, sem olhar para trás.
- Argh! – o loiro apressou o passo e se sentiu mal pelo outro.
Não é como se ele não quisesse contar para ele, mas Sasuke tinha sido tão maldoso com Sakura o longo dos últimos anos que a ideia de contar sobre Love Shuffle lhe fazia se questionar sobre como o moreno agiria, como lhe afetaria e se isso ia ricochetear em Sakura de algum modo.
- Eu achei que você tinha dito que iríamos retomar nossa amizade como era antigamente.
- Mas antigamente você não era um babaca com a Sakura-chan!
Sasuke parou, sentindo o corpo todo enrijecer e a raiva começar a se espalhar por todas suas células como veneno. Ele se virou de supetão e eles quase trombaram com o movimento repentino.
- O que isso tem a ver com Sakura? – ele perguntou indignado – Por que tudo acaba sendo sobre a Sakura? Como você continua fazendo isso, Naruto? – sua voz soou amarga e sua expressão irritada.
- Não fala assim, Sasuke – Naruto pediu, colocando as mãos nos bolsos e olhando para baixo.
- Você sempre acaba fazendo com que as coisas rodem ao redor da Sakura ou de como eu trato ela.
A cabeça de Naruto rodou com aquilo, as palavras do amigo o irritando profundamente, fazendo-o sentir aquele rancor que nascera e crescera ao longo dos últimos anos, da maneira como Sasuke tripudiou em cima dos sentimentos que ela tinha por ele e se aproveitou daquilo como um grande canalha.
- Por que dessa vez tem tudo a ver com a Sakura, aliás, tem tudo a ver com você e com o modo que você a fez sofrer continuamente-
- Do que você ta falando, Naruto? Você tá tão bêbado assim que-
- Não! Eu to falando sobre eu e Temari estarmos participando de um Love Shuffle na vã tentativa de fazer com que a Sakura pare de pensar em você o tempo todo e sofrer continuamente! – ele desabafou, sua voz soando alta na rua vazia e escura.
A expressão de Sasuke ficou séria e obscura e ele contorceu os lábios com nojo.
- Love Shuffle?
- Merda!
Naruto se deu conta do que acabara de falar e suspirou indignado, cansado, irritado. O loiro passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os, e decidiu ir embora, aquilo não ia dar em nada positivo de todos modos.
Ele deu as costas para Sasuke e começou a andar, mas os passos do outro ecoaram os seus e o moreno o seguiu.
- Vamos, desembucha! O que vocês estão inventando agora? Heim? – Sasuke pressionou, em seus calcanhares – Oh, grande Naruto, o defensor dos fracos e oprimidos, o salvador da pátria!
- Cala a boca, Sasuke! – ele gritou, dando a volta e encarando o amigo com raiva – Sabe quem colheu os pedacinhos quando você estilhaçou os sentimentos da Sakura uma e outra vez? Sabe quem a viu chorar por dias seguidos sem conseguir fazer nada para mudar isso? Sabe quem teve que buscar ela no meio da noite, bêbada demais para falar pro taxista onde ela morava? Sabe quem teve que escutar que seu melhor amigo tinha dito ou feito e destruído a autoestima já falha dela? – sua respiração estava ofegante e ele encarava firmemente o rosto surpreso de Sasuke – Fui eu, Sasuke – sua voz saiu dolorida e rancorosa – Fui eu que recolhi os pedaços e tentei colar eles, fui eu que ajudei uma e outra vez até que ela conseguisse se levantar!
- Como você é bonzinho, não é Naruto? Como você foi bom para ela, não é? Não é isso o que você sempre quis? Ser o porto seguro dela? O bom partido? Pronto, você conseguiu! – ele falou sentido, cuspindo as palavras como se cuspisse um gosto ruim da boca.
- Não Sasuke. Quem conseguiu alguma coisa aqui foi você – Naruto disse, lábios se contorcendo com raiva – Sabe porque a nossa amizade parou de dar certo? Porque você não parava de machucar uma das pessoas mais importantes na minha vida! Por que você só conseguia pensar em você mesmo, nesse seu desejo sádico de fazê-la sofrer. E, sabe o que? Eu cansei disso, de você sendo um bosta. Eu cansei de você ser o malvado da história, porque o Sasuke que eu conheço, o meu melhor amigo, ele não é essa pessoa na que você se transformou.
Naruto cuspiu no chão e começou a andar de volta para casa, mas antes que ele pudesse dar o quarto passo, uma mão firme o puxou, fazendo-o tropeçar nos próprios pés e quase cair. Mas com rapidez e treinamento o loiro se virou num movimento fluido e se soltou de Sasuke, empurrando o outro sem muito sucesso.
- Me solta! – ele rosnou.
O sangue lhes subiu à cabeça, correndo enlouquecido dentro das veias e fazendo barulho no fundo dos ouvidos. O coração bombeando forte e rápido. E os movimentos foram tão rápidos quanto as batidas do coração, embora não muito precisos.
Sasuke o agarrou pela jaqueta e nivelou seus olhares. Azul claro e negro contrastando como o céu da manhã e o negrume da noite. E eram tantos ressentimentos guardados ao longo dos anos que nenhum deles teve vontade de segurar aquele ódio por mais tempo ou de realmente libertá-lo como deveriam.
Era um impasse tênue.
Dois caminhos com finais completamente diferentes.
Naruto empurrou Sasuke para longe, mas a mão do moreno o segurava com firmeza pela jaqueta, determinado em não soltar, em não largar mão de qualquer argumento que lhe escapava ao loiro, fugindo de sua compreensão.
Mas Sasuke parecia honestamente perdido em ressentimento, parecia que haviam tantas coisas por serem ditas, mas nenhuma palavra saiu pelos lábios finos do moreno, apenas a respiração apressada.
Eles não tinham real intenção de se machucar, o que era ótimo, pois ambos eram policiais e de duas uma: sairiam bem machucados e nada disso seria bom para suas reputações. Então quando Naruto conseguiu se desvencilhar das mãos do Uchiha e dar um passo atrás, começando a dar meia volta para ir embora, Sasuke o agarrou outra vez pelo pulso e o puxou, girando o loiro com rapidez e o empurrando com força para o lado.
Eles cambalearam meio bêbados e meio atônitos. As costas de Naruto chocaram contra a parede com força forçando uma exclamação de dor pelos seus lábios e Sasuke apertou o antebraço contra seu pescoço imobilizando-o, enquanto a outra mão agarrava seu pulso com ferocidade.
- Para! – Sasuke comandou, sua respiração soando desesperada e Naruto respirando pela boca sem conseguir coordenar bem já que sua garganta estava apertando contra o braço do Uchiha – A nossa amizade nunca parou de dar certo – ele disse, a voz rouca e ébria, do jeito que Naruto lembrava de quando Sasuke se embebedava na adolescência – Ela se desgastou, sim – ele mexeu a cabeça de um lado para o outro e sua franja negra cobriu seus olhos por um momento.
Nenhum dos dois se moveu, ambos tentando lidar com os sentimentos rancorosos e o monte de insultos que tinham vontade de dizer.
- Mas não venha me dizer que ela se desgastou por minha causa, ou por causa da Sakura ou porque eu sou um filho da mãe – ele riu sarcástico e seus olhos encararam Naruto outra vez, feridos como o loiro nunca tinha visto antes – A nossa amizade... Ha... Era o mais precioso que eu tinha e definhou porque eu não soube te mostrar o quão importante ela era para mim.
A mão de Sasuke agarrou no colarinho da camiseta de Naruto e seu antebraço parou de pressionar contra sua garganta, mas ainda o manteve prensado contra a parede e o corpo magro, mas musculoso de Sasuke. Seus dedos apertaram mais contra o pulso de Naruto, sentindo a pulsação acelerada nas veias.
Sasuke de repente parecia um homem triste. E Naruto notou como seus olhos pareciam cansados e doloridos, como a linha de expressão na sua testa estava mais pronunciada do que antes, e de como aquela expressão na sua cara lhe fazia parecer só e miserável.
- Mas a culpa não foi só minha Naruto, isso é muito fácil dizer. Mas, ao mesmo tempo em que eu não consegui te mostrar o quanto você era importante pra mim, você também não soube ver- – voz dele embargou e estancou no fundo da garganta e ele sorriu entristecido, fazendo Naruto sentir uma dor agonizante no fundo do peito, como se pela primeira vez depois de muito tempo ele visse a Sasuke e como ele se sentia – Você não soube me ver. Às vezes você é tão cego que dói.
O moreno deixou a cabeça pender para frente, apoiando-a sobre o antebraço que separava seus corpos e Naruto suspirou. A dor era imensa, e era uma dor que ele desconhecia, ele não fazia ideia de como Sasuke se sentia, ele não entendia em que momento ele parara de ver o Uchiha, de realmente vê-lo e compreendê-lo. E a noção da imensa cegueira que em algum momento passara a ser parte da amizade deles estava fazendo com que inúmeras pequenas feridas se abrissem em seu peito e voltassem a sangrar.
Quanto ele perderia se ele perdesse a Sasuke? Ao seu melhor amigo? Àquele que um dia tinha sido o que ele considerara uma família e um lar?
Sasuke levantou o rosto, seus olhos brilhando avermelhados e Naruto se sentiu sufocar. De repente ele estava vendo coisas demais e sentindo coisas demais e aquilo machucava como quando alguém que nunca escutou escuta pela primeira vez. E são tantos barulhos, tantos sons, tantos ruídos, e é tanto, muito, é demasiado, é esmagador e opressivo, e aqueles olhos negros estavam dizendo tantas coisas ao mesmo tempo que Naruto não sabia como escutar todas elas.
O moreno respirou fundo, descendo a mão pelo peito de Naruto e parando-a sobre a boca do estômago. Se ele socasse agora ele pegaria Naruto desprevenido, mas um soco não seria suficiente. Para eles um murro nunca tinha sido suficiente, para eles um murro era sempre o começo de algo e Sasuke não sabia bem que algo ele pretendia começar ali, ou se ele pretendia começar algo, porque ele estava bêbado e ele tinha dito tanto que era já absurdo, parecia um pesadelo.
Ele estava tão cansado.
Ele deu um pequeno passo à frente, empurrando Naruto ainda mais contra a parede, seus rostos nivelados e seus olhos se encarando, as respirações pesadas e descompassadas soando alto demais e se misturando no pequeno espaço entre seus rostos.
E Naruto pensou que, talvez, eles estivessem bêbados demais. Foi nesse exato momento que os dedos de Sasuke agarraram a camiseta de algodão sobre o abdômen de Naruto e seus olhos pareceram escurecer ainda mais. Numa reação involuntária a uma possível agressão, o loiro sentiu todos os músculos do corpo contraírem.
- Me larga – ele pediu ou mandou, ele não tinha mais certeza, e Sasuke concedeu o pedido, dando um passo atrás e soltando seu pulso e sua camiseta num movimento brusco.
Seus olhos se encontraram ainda mais uma vez, mas nenhum dos dois disse nada, e a agressão nunca chegou. E tudo o que Naruto sentiu foi frio e solidão quando Sasuke começou a andar, atravessando a rua e andando em direção a sua casa a passos rápidos.
Naruto ainda ficou alguns momentos parado ali, tentando entender tudo aquilo, tentando entender o que diabos acabara de acontecer. Tentando lidar com o fato de que pela primeira vez em muito tempo ele tinha visto Sasuke, os seus sentimentos e suas dores.
E, antes de decidir ir para casa, ele se perguntou por quanto tempo aquela cegueira tinha feito com que eles se distanciassem, por quanto tempo ele tivera feito Sasuke se sentir sozinho e perdido. Naruto queria correr atrás dele e entender, e ver tudo aquilo que ele ainda não vira.
Mas talvez ele não quisesse ver. Um frio estranho correu seu corpo e ele tremeu contra a parede. Talvez ele não estivesse preparado para ver o que Sasuke precisava que ele visse.
Então o loiro passou as mãos pelo rosto, trêmulo, as palavras de Sasuke rodando em sua mente, uma atrás da outra, como uma montanha russa ou um carrossel, rápidas, bagunçadas, nauseantes. Ele precisava pensar, mas para pensar ele precisava ficar sóbrio, ele tinha que ir pra casa.
- Isso – resmungou para si mesmo, sozinho no meio da rua e tratou de se afastar da parede e começar a andar.
Ele precisava colocar a cabeça no lugar, amanhã ele pensaria no que tinha acontecido.
E foi isso que ele fez.
D
Hinata apertou o passo ao mesmo tempo em que o vento soprou mais forte contra seu rosto, fazendo suas bochechas arderem e seus olhos apertarem. Ainda não fazia frio, mas a manhã estava definitivamente fresca, e o vento não colaborava nada já que o sol se ocultava atrás de imensas nuvens acinzentadas.
Suas mãos seguravam a pequena cesta de vime, coberta com um pano bordado em cores claras e simples. Seus passos não eram firmes e tampouco era sua respiração; o único movimento firme de seu corpo eram as batidas apressadas do coração que socavam uma cadência desordenada dentro de seu peito.
Embora não tivesse certeza, Hinata tinha decidido que ir pessoalmente na casa de Neji e levar alguns cookies, era a melhor opção que tinha, já que ele continuava sem responder suas mensagens ou atender suas ligações. A ansiedade já estava a sufocando, afinal ela não conseguia se lembrar com certeza se algo que havia dito poderia tê-lo irritado. Mesmo sem ter todas as memórias intactas por causa do álcool, ela repassou cada uma das que lhe restavam e observou se alguma de suas frases poderia ter gerado um mal entendido, mas nada lhe soava mal a ponto de fazê-lo a ignorar tão definitivamente.
Ela sabia que deveria estar preparada para perder aquilo que mais lhe parecia um sonho: a amizade com Neji. Infelizmente eram tantos anos sendo inimigos, ou sendo simplesmente hostis um com o outro que lhe parecia um sonho que se acabaria mais cedo ou mais tarde. Parecia que nada mais começar, aquele sonho já estava esmorecendo. Dentro dela, todos seus músculos se contraíam com a infeliz ideia de perder seu primo de novo, de vê-lo se distanciar depois de ter tido a honra de observar quem ele realmente era, como sorria, como falava informalmente, como confiava que ela poderia aportar algo ao legado familiar...
Era duro, tão duro que Hinata ficou paralisada diante da porta dele. O vento frio soprava seus cabelos com força e zunia em seus ouvidos, mas tudo que ela conseguia fazer era focar o olhar na campainha e se perguntar se estava realmente fazendo o certo ao aparecer ali sem ter avisado.
Sem pensar muito mais, ela apertou a campainha e suspirou profundamente, sem conseguir controlar a ansiedade que escalava dentro de seu corpo e se assentava como uma sensação gélida na boca do estômago.
Aguardou silenciosamente por pouco mais de meio minuto, até que uma chave rodou na fechadura e a maçaneta girou rapidamente, abrindo a porta até que seus olhos se tocassem.
Neji estava com o celular preso entre o ombro e a orelha, fazendo com que seu rosto curvasse na direção do aparelho e seu ombro subisse para segurá-lo contra o rosto do homem. Seus cabelos estavam presos num coque e lhe davam um ar antigo e sobrenatural, como um samurai numa época distante.
Os olhos claros dele se fixaram nos dela por um momento e ele parou de falar, sua expressão séria encarando-a sem respostas.
Eles seguraram o olhar e foi como se o tempo parasse ao redor de Hinata. Neji a olhava seriamente e ela segurava a respiração sem saber o que exatamente estava por vir, sem saber qual seria a reação dele ou como ela deveria se desculpar, se é que tinha feito algo de errado. Tinha tantas dúvidas na cabeça, tantas perguntas, tantos medos que quando ele piscou, ouvindo o que a pessoa do outro lado da linha dizia, ela percebeu que já estava ficando sem ar.
Hinata respirou fundo e o viu abrir a porta um pouco mais e com uma mão lhe indicar que entrasse.
Assim que ela entrou, o homem fechou a porta atrás dela e indicou o sofá com o queixo, voltando a conversar com a pessoa no celular e andando até a cozinha.
- Lee, eu sei que hoje é domingo de manhã – ele falou, sua voz soando um pouco cansada e um pouco aflita – Mas você sempre consegue as coisas mais absurdas nos momentos mais inesperados.
Hinata se sentou e sorriu da tentativa de Neji em convencer Lee de algo que ela não fazia ideia o que era. Ela olhou o kotatsu, que também servia de mesinha de centro, e postou a cestinha com os cookies ali. Ela nunca tinha observado a casa com a luz do dia, então a jovem olhou ao redor, sentindo seu coração se acalmar aos poucos a medida que percebia que a movimentação do primo na cozinha era porque ele estava preparando chá.
- Por favor, faça isso por mim – ele pediu de novo, com a voz um pouco mais terna – É realmente importante e eu nunca te peço nada.
Ela o escutou abrir o armário e pegar a louça de porcelana.
- Não, ela não é minha namorada – ele respondeu sério – Não, Lee, eu não posso pedir para uma das minhas secretárias, isso daria a elas a ideia de que elas sabem da minha vida pessoal, elas compreenderiam tudo errado e ficariam perguntando coisas.
A chaleira apitou no fogão e ele desligou o fogo apressado, Hinata conseguia ouvir os passos dele no assoalho de madeira. Do que ele estava falando? Será que era sobre Ino? Será que ele tinha finalmente dado uma chance para a loira? Nossa, ela só conseguia imaginar como a amiga estaria feliz numa hora dessas.
- Sim, eu sei que você também vai perguntar coisas, mas você é meu melhor amigo – ele colocou a água quente no bule de porcelana e deixou o chá repousar – Ótimo! – ele exclamou animado – Vou te mandar o texto por Whatsapp. Obrigado, Lee.
Neji cortou a ligação, pegou a bandeja de chá e a levou para a sala. Seus passos soavam abafados no assoalho de madeira e seu corpo parecia, de repente, mais tenso do que quando falava com Lee no celular.
Hinata observou como alguns fios escapavam do coque que ele usava e de como sua roupa era informal. Ela não se lembrava de tê-lo visto com calça de moletom e camiseta desde quando eram adolescentes, então olhou para as próprias mãos e não quis transparecer a sensação de intimidade que aquilo lhe gerava, embora seu primo não tivesse retornado suas ligações e mensagens durante o último dia.
Ele começou a servir o chá e ela tirou o pano sobre a cesta de vime, expondo os cookies. Os olhos de Neji recaíram sobre os biscoitos redondos e bem forneados, sentindo o cheiro adocicado.
Nenhum dos dois sabia bem como começar a conversa e um fio tênue de medo percorreu o corpo de Hinata. Ainda assim, ela levantou o rosto e tentou fazer contato visual, mas Neji se dedicava a estender um guardanapo para ela e outro para si mesmo.
Foi quando o primo esticou o braço, colocando o guardanapo ao lado do pires dela, que Hinata viu na extensão de seu pescoço, masculino e anguloso, uma marca roxa.
Um chupão pequeno, mas escuro, marcado na pele clara e delicada ao lado da coluna de sua garganta.
Seu corpo esquentou e Hinata desviou o olhar, sentindo o rosto corar com rapidez. Ela detestava se sentir assim: vendo coisas íntimas que lhe geravam qualquer ideia quanto a sexualidade de seus parentes e amigos.
Mas dessa vez foi diferente. A curiosidade fez com que seu coração batesse mais rápido e ela olhou a marca mais uma vez, perguntando-se se aquilo era uma prova de que Ino tinha tirado a sorte grande como ela queria. Se fosse isso, Hinata estava contente, mas algo estranho lhe dizia que não, que Ino nunca teria coragem de marcar o Hyuuga de maneira tão descarada.
Seus olhos claros estavam focados no ponto roxo com curiosidade quando Neji a olhou e ela não conseguiu disfarçar o suficiente onde seu olhar recaia.
- Pare de olhar – ele murmurou, sua voz soando áspera e profunda, mas baixa – Já é desconfortável o suficiente saber que isso está aí.
- Desculpa – ela respondeu rápido e baixinho, culpando-se por ter começado a pequena visita surpresa sendo uma completa babaca.
Neji pegou sua taça de porcelana e a levou aos lábios, tomando um gole curto. Hinata ousou olhá-lo, tentando ler a expressão fechada que o primo lhe oferecia neste momento.
- Você não respondeu minhas mensagens... – comentou sem jeito, um fio de dor aparecendo em sua voz sem que ela pudesse contê-lo.
O homem suspirou baixo, olhando para a superfície do kotatsu.
Hinata pegou o chá e apertou as mãos contra a porcelana quente, sentindo como o calor quase machucava suas mãos, mas pelo menos a distraía da dor incômoda que nascia em seu peito e a sensação terrível que descia pelo seu estômago, fria e irritadiça.
- Eu sei – foi tudo o que disse, antes de tomar outro gole de chá e finalmente olhar a prima nos olhos. – Eu sinto muito.
Neji não era cego, ou burro, ele tinha lido na postura corporal dela o que Hinata estava sentindo no momento em que a encarara na porta de sua casa, os ombros encolhidos e a expressão levemente assustada, como uma menininha. Como ela fazia quando criança. Então seus traços clássicos passavam a se tornar em lembranças antigas de como ela fazia beicinho justo antes de começar a chorar.
Ele se sentiu um monstro.
Hinata não tinha nada a ver com seu passado, com seus segredos, com seus medos, inseguranças e dores. Dores que escorriam como sangue. Dores que escapavam da jaula onde ele as havia trancafiado.
Ela apenas era uma pessoa curiosa que escutara coisas demais e não soubera como lidar com elas. Hinata não o colocava em risco.
Seus próprios instintos sim.
Eles eram o grande vilão de tudo aquilo.
E as memórias...
As memórias era o punhal que dilacerava seu juízo e compostura e o faziam se sentir um moleque de 17 anos, besta e apaixonado. Aquele menino estúpido que ele nunca mais queria ser. Aquela pessoa infantil e ingênua...
- Neji?
O homem a encarou, sem deixar que a confusão transparecesse em sua expressão.
Não, Hinata não tinha nada a ver com aquilo.
- Você está bem? – ela perguntou preocupada.
Ele suspirou de novo, tomando mais um sorvo do chá, tentando engolir o gosto amargo no fundo da garganta.
- Você precisa entender, Hinata-sam-
- Hinata – ela disse firme, fazendo com que os olhos claros dele a encarassem surpresos.
Hinata não costumava interromper as pessoas, muito menos ele. Ela manteve o olhar firme, seus olhos idênticos numa luta silenciosa por equilíbrio, reconhecimento, testando limites, testando o terreno.
- Hinata – ele repetiu, cedendo-lhe isso – você precisa entender que eu, às vezes, vou ignorar tuas ligações.
Ela manteve os olhos atentos no rosto dele, procurando entender o que ele estava dizendo por detrás daquela frase.
- Por quê? – as palavras escaparam por seus lábios sem querer, fazendo-a mordê-los em seguida, jogando a atenção dos olhos de Neji para sua boca num impulso instintivo.
Houve um segundo onde nenhum dos dois soube bem o que estava acontecendo ali. Os olhos de Neji observaram atentamente como os dentes dela mordiam seu lábio inferior com força, numa expressão nervosa e envergonhada, enquanto os olhos dela se focaram outra vez na marca roxa no pescoço dele.
Quem teria encostado os lábios naquela pele? Quem teria percorrido os dentes na superfície delicada, irritando e instigando?
O coração dela deu um solavanco, ao mesmo tempo em que a mão dele ocultou a marca e ela se deu conta no que havia acabado de pensar.
- Porque eu tenho questões pessoas as quais atender – ele respondeu por fim, alcançando um cookie na cestinha – Pare de olhar, Hinata, é irritante.
Ela mordeu mais o lábio e ele a encarou de novo, seus olhos claros passando rapidamente pela boca rosada antes de olhá-la nos olhos.
- Até parece que você nunca viu um... – ele comentou, antes de morder o cookie.
Hinata entreabriu os lábios, surpresa e tímida, voltando a fechá-los como se fosse um peixe.
- Posso parar de esconder ou você vai ficar encarando? – ele perguntou, um tom de comando na voz que a fez sorrir de leve ao vê-lo sorrir meio de lado, achando graça de constrange-la.
- Eu vou tentar não olhar.
- Ficou impressionada? – ele pressionou e ela revirou os olhos, pegando um cookie.
- Eu só nunca tinha visto algo assim em você.
- Você quase não me via – respondeu, colocando o resto do biscoito na boca e mastigando devagar.
- É... – ela encarou o cookie entre seus dedos e suspirou, meio agradecida de estarem conversando e, ao mesmo tempo, querendo mais honestidade, mais do que aquela conversa simples e sem profundidade – Eu achei que tinha feito algo que o incomodasse – ela assumiu, tomando aquele primeiro passo em direção à honestidade, sentindo o coração bater mais rápido - Eu não quero te perder, Niisan. Não agora que eu tenho você por perto.
Os olhos dela buscaram os dele e Hinata reparou a expressão tensa no rosto dele, viu como seus traços iam se suavizando de leve, passando a uma expressão quase terna. Então Neji fechou os olhos de repente e suspirou.
- Por que você tem que ser assim? – ele perguntou, escondendo o rosto nas mãos.
- Assim como? – Hinata se sentiu gelar por dentro, o que tinha feito agora?
Então ela ouviu, primeiro baixinho, depois mais alto, e foi soando de leve do fundo da garganta dele até que ecoasse pela sala. Neji estava rindo. Seus ombros se moviam contidos, mas ele sorria e seus olhos enrugavam nos cantos. A expressão dele o fazia brilhar, como se o sol o iluminasse, como um foco de luz saído do nada. Seus traços ficavam suaves, seu sorriso era lindo e hipnotizante, e Hinata sentiu o coração aquecer, com seus lábios espelhando os deles num sorriso igualmente radiante.
Foi quando Hinata descobriu que Neji podia ser contagiante.
- Por que você tem que ser tão honesta? – o homem perguntou, secando o canto dos olhos nas costas das mãos, oferecendo-lhe um sorriso honesto que a fez corar sem saber por que – Você não vai me perder, mas vai ter que ser mais paciente comigo.
Ela fez que sim com a cabeça, mordendo o lábio de novo antes de começar a sorrir.
Seus olhos se focaram outra vez nos dele e Hinata pensou que ela conseguiria se forçar a acreditar que não o perderia.
Não dessa vez.
O
Correr não era algo que ela conseguia fazer sempre, mas era algo que ela gostava. O vento fresco batendo no rosto, o cheiro de terra e orvalho e plantas, a visão agradável do rio e as árvores. Ela gostava de observar as pessoas fazendo picnic, caminhando ou correndo, as crianças brincando de jogar bola nas margens do rio, os cachorros procurando galhos secos na grama e levando para seus donos.
Era algo relaxante que a fazia se sentir leve, vazia, calma.
A semana tinha sido muito mais intensa do que havia esperado. Em momento algum lhe passara pela cabeça que, realmente, aquele jogo a levaria a algum lugar. Mas Sakura tinha tentado aproveitar o máximo possível de seu tempo com Genma, tentando fingir que não se sentia mal com o fato dele se relacionar com Ino.
Sinceramente, ela precisava daquele boom em sua autoestima e Ino tinha dito que estava liberado, certo?
Certo o caramba.
Sakura tinha decidido que contaria tudo para a amiga e pediria desculpas. Embora nada disso lhe parecesse suficiente, ser honesta era melhor do que fingir que nada tinha acontecido.
Na noite passada, ela e Genma foram jantar fora, depois passearam pelas ruas cheias de gente nos bares e restaurantes, eles conversaram animadamente sobre as fotos que haviam tirado no outro dia e ele prometeu que lhe daria uma cópia assim que pudesse.
Depois eles seguiram para o prédio, mas Sakura não quis que eles fossem para seu apartamento, havia algo de muito íntimo em transar com Genma em sua própria cama e deixa-lo dormir ali. Era como se desse um espaço que ainda não estava preparada para dar para outra pessoa. Sasuke tinha sido o único homem que dormira naquela cama, o único que invadia seu sono e lhe destruía em pesadelos. Não era simples ultrapassar aquela barreira.
Então eles foram para o apartamento dele, tomaram uma ou duas taças de vinho, com as luzes apagadas e apenas os abajures dando um toque intimista com sua luz amarelada e tênue. Eles transaram no sofá com a sensação maravilhosa de que aquele homem realmente sabia como fazer uma mulher se esquecer do próprio nome.
Ela não podia negar o quão sedutor e irresistível Genma era. Ele tinha lábia, tesão e aquela aura masculina envolvente que a fazia perder a noção do perigo onde quer que fosse. Mas embora tudo aquilo a nocauteasse de prazer e desejo, quando ela deitava a cabeça no travesseiro, não era nele que ela pensava. Não, ela ainda pensava em como e onde estaria Sasuke, o que estaria fazendo, com quem estaria ou se estaria bem.
Embora seus delírios ridículos de um dia o conquistar tivessem esmorecido ao longo dos anos, ela ainda tinha aquela centelha de esperança de que talvez ele percebesse o quanto ela gostava dele.
- Babaca... – xingou-se, mantendo o ritmo da corrida.
Ela precisava criar vergonha na cara. Aquilo não ia mudar a não ser que ela mudasse. Sakura definitivamente precisava parar de pensar em Sasuke nas horas vagas.
Sakura aumentou o passo, sentindo o suor descer pelas costas e grudar na camiseta. Aquela sensação revigorante de gastar energia a fazendo lidar com todo aquele estresse.
Com certeza mudaria, e se esqueceria de vez dele, ela só precisava respeitar seu próprio tempo e suas próprias dificuldades, continuando a aproveitar o jogo e qualquer outra oportunidade que surgisse e a levasse para longe dele.
Talvez seria uma boa ideia se mudar de cidad-
- Ouch! – ela gritou, tropeçando em algo e quase caindo.
Se apoiou na árvore ao lado e respirou fundo, fazendo o susto se dissipar aos poucos. Olhou para trás e procurou no que havia tropeçado
– Pakkun!
O pequeno Pug estava sentado atrás dela com o rabo balançando e a língua pra fora.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou ela se agachando ao lado do cãozinho, lhe dando confiança suficiente para se mexer depois do grito que ela tinha dado e o animal se aproximou e começou a lamber suas canelas suadas – Ew, que nojo... Danadinho, você quase me derrubou – falou ainda meio sem fôlego.
Foi quando se deu conta de que, se Pakkun estava no parque, então Kakashi também estaria. Olhou ao redor e buscou os cabelos cinzentos do homem. De primeira ela não conseguiu vê-lo por perto, então se dedicou a fazer carinho no cão e falar com o animal baixinho, perguntando sobre onde estaria Kakashi.
- Né, Pakkun? Como Kakashi te deixou sozinho? – perguntou com pena.
Ao escutar o nome do dono, o animal se revirou entre as carícias dela e se pôs outra vez de pé, com os olhos atentos, a língua pendendo para fora da boca e suas orelhas levemente arqueadas. O Pug se virou mais para a esquerda, olhando para a parte do parque mais afastada do rio e começou a andar, suas patas curtas fazendo-o rebolar e andar de maneira desengonçada.
Sakura o seguiu, sem saber se encontrariam a Kakashi ou alguma comida que ele tinha farejado no ar. Não podia deixar o animal sozinho. Naquela altura, já nem se lembrava que pouco antes de tropeçar em Pakkun, ela havia cogitado a ideia de se mudar de Konoha para estar longe de Sasuke e talvez assim poder recomeçar sua vida.
Eles subiram uma parte mais íngreme que formava uma pequena montanha com grama esmeralda e chegando mais próximo Sakura avistou os cabelos cinzentos de seu ex professor, ele estava meio de costas meio de lado para ela e parecia estar conversando com alguém, mas Sakura ainda não conseguia ver quem era.
Foi quando se aproximaram realmente que a mulher se deu conta do que estava acontecendo ali.
Seu rosto começou a esquentar e corar, seu coração bateu muito mais rápido e forte no peito, ao mesmo tempo que prendeu a respiração e o estômago mergulhou para o fundo da barriga numa sensação desconfortável.
Ela odiava estar no lugar errado e na hora errada.
Kakashi apoiava uma mão na árvore ao seu lado, firmando-se no tronco, ao mesmo tempo em que sua outra mão estava embrenhada nos cabelos finos e castanhos de uma mulher magra e baixa.
Sakura olhou de novo para aquela cena, sentindo o corpo inteiro se paralisar e cada célula deixar de funcionar, seus neurônios gritavam para que ela sumisse dali, mas parecia que seu corpo não sabia mais como funcionar. Seus olhos estavam arregalados encarando a cena bizarra de ver Hatake Kakashi beijar sofregamente uma mulher no meio do parque central de Konoha.
Maldita hora em que achara Pakkun.
Por que diabos aquilo tinha que acontecer com ela? Justo agora que ele estava tentando vê-la como uma mulher madura, uma amiga, alguém em quem confiar. Pois agora ele com certeza pensaria que ela era uma pirralha curiosa que adorava bisbilhotar.
Mas quando conseguiu mexer seu pé e dar um passo atrás, a mulher que estava com Kakashi enlaçou uma mão no pescoço do homem e o apertou mais contra si. Sakura sentiu o rosto derreter de calor, mas ao mesmo tempo ela sentiu raiva. Quem aquela mulher achava que era? Daquele tamanho e tão atrevida? E justo com Kakashi sensei, que não se expunha nunca em locais públicos. Seus dedos estavam tremendo, mas naquela altura ela já não sabia se era de vergonha, raiva, nervoso, medo, inveja, ela não fazia ideia.
Ela estava hipnotizada pela maneira como Kakashi agarrava os cabelos da mulher e a beijava apaixonadamente, suas bocas misturadas como em um filme erótico e como o pescoço dele curvava, deixando-a ver as linhas firmes de seu maxilar. Era simplesmente incrível ver Kakashi como homem, como um homem que beija vorazmente sua amante, na sombra das árvores.
Sakura tentou dar outro passo para trás, se obrigando a fugir daquela cena íntima que obviamente ela não participava, como uma intrusa num momento íntimo. Pakkun latiu, correndo na direção de Kakashi e fazendo com que o casal se separasse lânguido e o homem se virasse atordoado na direção onde Sakura continuava paralisada e trêmula. Ela não sabia se seu rosto estava pálido ou corado, ela só sabia que aquela situação era ruim demais.
- Sakura! – ele exclamou surpreso, parecendo um pouco sem jeito, mas isso não o impediu de dar um pequeno sorriso amarelo e apertar os lábios em seguida.
Ela passou as mãos pelo cabelo.
- Desculpa interromper vocês, eu achei o Pakkun perto do rio e-
- Seu danado, tem que parar de ficar fugindo da minha vista – Kakashi comentou com o animal, que agora estava com as patinhas em sua perna, implorando por carinho.
- Bem eu vou indo – Sakura murmurou.
- Imagine – ele falou e deu um passo para o lado, deixando de cobrir a figura magra da mulher que estava beijando há poucos segundos.
Ela tinha uma estrutura corpórea pequena, devia ter 1,57 ou 1,58, mas não mais que isso. Ainda assim, seu corpo era bem torneado e suas medidas pareciam perfeitas para o seu tamanho, com curvas interessantes. Quando Sakura a encarou percebeu que ela era mais velha, talvez da idade de Kakashi, seu rosto era simples e maduro, com um sorriso calmo nos lábios. Seu cabelo Chanel caia delicado na altura do queixo e a camiseta pólo preta contrastava perfeitamente com seus brincos de pérola delicados.
- Oi – a mulher disse, com o sorriso calmo e agradável nos lábios.
- Oi – Sakura murmurou sem jeito, sentindo-se desajustada, estranha, infantil e grandalhona perto dela. E aquela mulher nem era uma mulher fatal como Temari, mas céus, fazia com que ela se sentisse uma menininha de colegial: com aquela expressão confiante e tranquila, mesmo numa situação dessas.
- Sakura-chan foi minha aluna no colégio há alguns anos, ela é médica no hospital de Konoha – ele falou orgulhoso, como quem fala de sua própria filha e a jovem quis morrer.
- Que horror, sensei, parece que você é um idoso falando assim – ela rebateu – Bem, foi um prazer conhecê-la, er... – ela encarou os dois, esperando que alguém lhe passasse a informação que faltava.
- Rin – a mulher disse com sua voz pacífica – Nohara Rin. E, por favor, não se incomode por mim, eu tenho que ir de todos modos. Foi um prazer, Sakura.
Ela sorriu de leve, seus cabelos castanhos balançando com o vento, obrigando-a a colocá-los atrás das orelhas antes de apertar gentilmente o antebraço de Kakashi e se afastar deles a passos curtos e calmos.
Parecia uma mulher muito contida, muito gentil e muito calma.
Sakura se sentiu uma brutamontes rebelde de cabelos cor de rosa.
- Desculpa – ela repetiu e Kakashi suspirou, balançando a mão no ar e andando até ela, com Pakkun em seus calcanhares.
- Nah – ele desconversou e observou as pessoas que andavam ou corriam nas margens do rio – O que você acha de tomarmos uma água de coco e conversarmos um pouco sobre tua semana com Genma?
Sakura riu.
- Essa é a tua maneira de tentar me fazer não perguntar quem exatamente é Nohara Rin?
- Sim, aliás, acho melhor você aceitar porque é a melhor proposta que eu tenho para o momento.
E então eles desceram até a pista de corrida na margem do rio e andaram até a barraquinha mais próxima, comprando suas bebidas e sentando num banco de madeira na beira da água.
Não demorou muito para que Pakkun se aconchegasse na grama e começasse a dormir, soltando alguns roncos baixinhos.
Sakura tirou o tênis e a meia e enfiou os dedos na grama também, sentindo a sensação refrescante na natureza, a brisa, o cheiro das plantas. Era a sensação gostosa de se perder num lugar pacífico, onde sua mente parecia se desacelerar, esquecer as coisas do dia a dia e viver o momento em paz.
Ela observou Pakkun e o acariciou com a sola do pé.
- O que você quer saber sobre a minha semana com Genma? – perguntou sem olhá-lo.
Kakashi encarou seu perfil, vendo como suas bochechas ainda estavam coradas pelo exercício físico e o suor fazia com que os fios de cabelo solto grudassem em sua nuca e nas laterais do rosto.
- Eu não sei se eu realmente quero saber – ele assumiu, vendo como ela colocava o canudinho entre os lábios e sugava a água de coco em pequenos goles.
Sakura suspirou. De repente, o fato de tê-lo visto com alguém fez com que a imagem que tinha de Kakashi se desconstruísse e reconstruísse logo em seguida, como se uma pessoa nova surgisse em sua mente, uma nova versão de Kakashi-sensei. Era tão estranho que ela sentia que estar quieta a fazia se sentir melhor.
- Hm – ela o olhou de canto, sua íris verde esmeralda brilhando com a luz do sol. Ele parecia inquieto ao seu lado, mexendo o coco entre as mãos, um dos pés inclinado como se ele fosse se levantar a qualquer momento – Então por que perguntou?
O homem deu de ombros e seus olhos escuros se focaram no rio. Ele também não sabia. Ele estava preocupado com ela, sim, mas dessa vez ele havia perguntado para poder se livrar das perguntas que ela poderiam lhe fazer. Afinal Rin...
- Foi divertido – ela respondeu, antes que ele dissesse algo. Se ele precisava de tempo e distração ela podia ajudar – Eu me deixei levar ao máximo – Sakura comentou, seus olhos recaindo sobre a água turva do rio, que se movia devagar, brilhando com os raios do sol, dando uma sensação escorregadia e preguiçosa – Tentei pensar só nisso, só em Genma – ela soltou um riso fraco – Não poso dizer que deu certo todos os dias.
Kakashi agora a observava, seus olhos atentos as expressões de seu rosto, aos movimentos de seus lábios e ao tom de suas palavras.
- Fazia anos que eu não transava tanto – ela disse e riu.
O homem se remexeu no banco e olhou para Pakkun deitado na grama, ele não queria saber daquela parte, mas ele tinha perguntado, ele estava se escondendo atrás das palavras dela, então teria que aguentar pacientemente.
- Sabe... – ela o olhou, fazendo com que o mesmo a imitasse – Acho que nunca, nenhum homem me tratou como Genma, como se eu realmente fosse uma mulher, como se eu realmente valesse a pena, como se ele me desejasse de verdade.
Ela sentiu o rosto corar e as mãos suarem, ao mesmo tempo em que observou o pomo de Adão dele subir e descer rapidamente e seu maxilar travar.
- Mas, no fim, por mais incrível que isso seja, eu preciso mais do que isso – ela riu – Isso já é tão mais do que Sasuke sempre me deu, mas...
Sua voz entalou no fundo da garganta, seu coração apertou e os olhos arderam. Não, Sasuke nunca tinha lhe dado nada parecido ao que Genma lhe dera: todo aquele desejo imenso por ela, a vontade de tocá-la o tempo todo, de tê-la entre seus braços, de se embrenhar entre as pernas dela e simplesmente deleitá-la. Era algo tão alheio à realidade que experimentara com Sasuke. Tão absurdamente diferente que no fundo ela estava se odiando.
- Ainda assim não é suficiente – murmurou, ao mesmo tempo em que uma lágrima escorreu pela sua bochecha – É tão mais, mas não o suficiente para me fazer apagar ele da minha mente.
Sua garganta comprimiu e ela fechou os olhos, suspirando com pesar. O peso de suas próprias palavras refletindo seus sentimentos, atuando como espelho para que ela visse seus sentimentos de maneira clara e exposta.
A verdade era essa: ainda que tivesse vivido nesta semana algo infinitamente maior do que tivera com Sasuke, a imagem dele, o que ele representava em sua vida, aquele amor obsessivo que sentia por ele continuava ali, pregado no seu peito com força. Queimado a ferro e fogo no seu coração, como se jamais fosse sair.
- E se eu não conseguir?
O medo vibrou por suas palavras e Kakashi passou um braço sobre os ombros dela. O medo reverberou dentro de seu peito e sua mente e foi lhe sufocando até que as lágrimas começassem a cair como uma torrente de dores guardadas. Aquele medo incrível e abismal, aquela sensação assustadora que a fazia suar frio e tremer.
E se ela não conseguisse nunca se esquecer dele?
E se jamais fosse capaz de dar aquele passo adiante?
E se nunca mais pudesse amar outra pessoa?
- Sakura – a voz de Kakashi a trouxe para a realidade, como uma âncora puxando-a de volta para terra firme – Respira fundo – ele comandou, sua mão segurando-a firme no ombro, mostrando para ela onde estava e com quem estava.
Então respirando fundo e devagar, repetidamente, o pavor começou a dissipar e sua respiração foi voltando ao normal. Ela secou o rosto na barra da camiseta de correr, engoliu o choro e tomou mais um gole da água de coco, ainda sentindo o peso agradável da mão de Kakashi em seu ombro, como porto seguro.
- As mudanças não acontecem do dia para a noite – ele murmurou, terminando de tomar seu coco e o deixando no chão antes de olhá-la nos olhos – Você tem direito de sentir medo, mas você também precisa ver os avanços, nem que sejam pequeninos.
- Quais avanços? – ela perguntou baixo, com a voz ainda embargada.
Kakashi suspirou antes de voltar a falar.
- Você tá se permitindo ter novas experiências – ele pontuou, virando-se para o rio e olhando as pessoas que caminhavam próximas deles – Você está transando como há tempos não fazia – ele falou, mantendo o rosto estoico e os olhos longe do dela. Sakura sorriu – Essas coisas são pequenas vitórias que você vai ter que contabilizar, pra ser consciente de que a soma de todas essas pequenas vitórias são um avanço.
Sakura o olhou, seus olhos avermelhados e úmidos, mas com um sorriso nos lábios.
- Sabe, sensei, você deveria conversar comigo mais vezes.
Ele riu, soltando o ombro dela e se empertigando no banco, seus ombros formando um ângulo reto.
- Obrigada.
Kakashi a olhou surpreso. Para ele, aquelas poucas palavras não eram nada, ficava difícil realmente entender o quão importante aquelas mesmas palavras poderiam ser para ela. Ele sorriu e balançou a cabeça, vendo-a terminar de beber sua água de coco e colocando-a no chão também.
- Depois do que eu falei você não vai nem me contar quem é Nohara Rin?
O homem revirou os olhos e encarou o rio mais uma vez, seus olhos anuviando como se uma chuva estivesse prestes a descer a sua frente, como se muitas coisas não devessem ser ditas.
- É uma história longa e antiga – ele respondeu, por fim.
- Ela é tua namorada? – Sakura insistiu, também olhando o rio e o movimento contínuo das águas.
- Não.
W
Ele se espreguiçou na cama e olhou o relógio, já eram quase as 16h e daqui a pouco teria que se arrumar para ir à casa de Genma, afinal hoje iniciariam mais uma rodada de Love Shuffle.
Embora suas opções fossem poucas a ideia de uma nova rodada o fazia sentir uma curiosidade vertiginosa sobre quem estaria com quem nesta semana. Em sua cabeça todas as possibilidades rodavam como se fossem cartas de baralho se interligando e gerando múltiplas possibilidades. Como um conjunto de sistemas, como números reais e suas correlações, como números primos.
Ele olhou pela janela, vendo entre as cortinas a luz do sol entrar sem aquecer muito. De manhã estava fresco, depois esquentou mais, mas não o suficiente para que o calor se estendesse até a tarde. Pelo jeito o outono seria mais frio do que o esperado esse ano. Não que ele se importasse.
Shikamaru gostava do frio. Da sensação maravilhosa de passar horas enfiado nas mantas. De fumar um cigarro com o frio irritando sua pele e o vento movendo seus cabelos. Ele adorava aquilo.
Ele se revirou na cama e observou a porta do banheiro, escutando Temari tomar banho.
Temari...
Havia sido estranho escutar da boca dela como tinha sido sua noite com o Hyuuga, mas ao mesmo tempo, era como se ele criasse uma espécie de distância emocional daquilo, como se se preparasse para o pior. E embora uma sensação aguda lhe havia apossado o peito e arranhado como um animal preso, ele sentira um deleite incrível em tem acesso ao que havia acontecido naquela noite. Era como estar, de algum modo, comandando algo que na verdade não comandava.
Era a falsa sensação de ter controle sobre eles.
Aquilo acalmava, mas instigava ao mesmo tempo. Como uma faca de dois gumes.
Ele fechou os olhos, sentindo os músculos do corpo se enrijecerem de leve com a lembrança das sensações que tivera no dia anterior, escutando os inúmeros relatos de Temari.
Seu coração acelerou alguns batimentos.
Eram tantas emoções ao mesmo tempo que nem ele fora capaz de nomear o rebuliço estranho dentro de seu peito. A agitação, a inveja, o ciúme, o ódio, o tesão, a curiosidade. Tudo se misturava como se estivesse num liquidificador e se transformava em algo quase indescritível.
Mas ele não se arrependia.
Se empurrou para fora da cama, ainda sentindo seu corpo mais rígido do que o normal e decidiu fazer um café antes de ir tomar banho.
A cafeteira apitou, começando a ferver água e a processar o Nespresso com barulhos irritados e altos. Ele precisava comprar uma nova. Acendeu um cigarro, observando a cafeteira e sentindo a fumaça inundar os pulmões.
DING DONG
A campainha tocou alta e ele encarou a porta surpreso. Ele duvidava muito que Naruto apareceria ali hoje, não depois do que acontecera com Temari e toda aquela cena dele tentando se desculpar no café, mas ainda assim, quem mais seria?
Andou devagar até lá, girou a chave na fechadura e abriu a porta.
Seus olhos se fixaram na figura a sua frente, suas sobrancelhas arquearam surpresas e ele esperou qualquer fala que lhe indicasse o que estava acontecendo ali.
Parado na frente dele estava um garoto de uns 14 anos, vestindo seu traje de artes marciais, o cabelo cortado no estilo cuia, e Shikamaru teve que se conter para não rir da óbvia imitação de Lee – o garoto era certamente aluno no Dojo. Nas mãos do menino um pequeno ramalhete de rosas amarelas estava sendo firmemente apertado.
- Er, oi? – Shikamaru disse, soltando a fumaça do cigarro para o teto e vendo o garoto tremer.
- Sabaku no Temari mora aqui? – perguntou trêmulo.
- Sim, é minha namorada – ele respondeu direto.
- Er... as flores, eu vim entregar para ela – ele explicou, ficando furiosamente vermelho.
- Certo, pode deixar comigo, ela tá no banho.
- Ok, obrigado – ele estendeu o ramalhete e se virou para fugir imediatamente, mas antes que pudesse dar dois passos ele parou e virou de volta para Shikamaru antes que este fechasse a porta - Ah, diga para ela que a cor das flores não tem nenhum significado – acrescentou apressado antes de sair correndo para o elevador.
Shikamaru riu da cena, achando graça. Fechou a porta, encarando as flores. Era obvio de quem eram aquelas flores, seu coração bateu agitado e irritado, mas a curiosidade cresceu quando ele percebeu um bilhete amarrado ao papel de embrulho.
Ele apagou o cigarro, pegou o café e andou até o quarto. O chuveiro já estava desligado.
- Temari?
A porta se abriu e ela apareceu, usando um vestido azul marinho longo, mas dessa vez sem tanto decote. Algo na conversa que tiveram ontem fizera com que ela se inibisse um pouco. Como se percebesse ter cruzado uma linha tênue que antes não percebia. A toalha branca estava amarrada na cabeça, secando os cachos cor de areia e ela o olhou curiosa, encarando as flores.
- O que é isso?
- Chegou para você – ele falou, começando a sorrir, porque sinceramente aquilo era simplesmente hilário.
Que situação absurda e estranha. Ela o encarou compartindo da surpresa e sensação de non-sense, e pegou o ramalhete que Shikamaru lhe estendia.
Eram rosas amarelas, seis delas, devidamente organizadas e bem postas no arranjo. Do papel colorido que as envolvia, pendia um envelope pequeno e simples, branco. Ela o abriu e retirou o bilhete de dentro, olhando primeiro para Shikamaru antes de começar a ler.
Havia uma cumplicidade estranha naquele olhar, naquele momento de tensão fina que se estendia como um fio fino prestes a romper, mas os olhos escuros dele estavam tranquilos e, ainda que seus ombros estivessem tensos, ele segurava a xícara de café com cuidado, como se estivesse se preparando para algo.
- Eu-
- Tá tudo bem – ele reforçou, sentindo o segundo de incerteza e insegurança que a apossou. Então ela sorriu e voltou a ser mais ela mesma, com sua curiosidade e seu empoderamento de si mesma.
Ele não queria que a situação passada lhe fizesse mudar, não, por favor, não. Pois a mulher que ele gostava era aquela segura de si, determinada, que faria o que quisesse e que não se deixaria manipular pelas normas e pessoas ao seu redor. Ele não queria atar as asas daquela mulher. Ele não queria em momento algum que ela perdesse sua liberdade porque ele estava ferido. Shikamaru queria que ela agisse como sempre agira e que a partir disso eles pudessem conversar e resolver as coisas.
Mas ela parecia mais abalada do que ele estimara.
Os olhos dela correram ariscos e atentos pelo papel e um sorriso besta lhe possuiu os lábios, fazendo com que uma risada desacreditada soasse do fundo de sua garganta e ecoasse pelo quarto.
- Shikamaru... – ela riu mais e o olhou desacreditada – Eu... Eu não esperava algo assim do Hyuuga – ela admitiu, passando o bilhete para Shikamaru.
Ela riu um pouco mais, tirando a toalha dos cabelos e observando as reações do namorado.
Ele leu rapidamente a única frase escrita. Então ele achou que era uma piada. Uma piada absurda que não fazia ideia de onde vinha, pois nunca em toda sua vida ele poderia ter imaginado que Hyuuga Neji escreveria algo assim.
"Só para quebrar o gelo, dessa vez sem brutalidade. H.N."
Seus lábios se abriram incrédulos. E então ele entendeu: Hyuuga estava, a seu modo, se desculpando e preparando o terreno para quando se vissem hoje mais tarde. E além de bom estrategista, o Hyuuga parecia ter senso de humor.
Shikamaru sorriu para Temari e balançou a cabeça.
- Eu estou começando a achar que eu nunca conheci o verdadeiro Hyuuga Neji – ele comentou, pensando que não tinha como ser a mesma pessoa: quem Neji pretendia ser e quem ele realmente era.
Ele balançou a cabeça, sentindo a curiosidade escorrer nas veias e decidiu ir tomar um banho e se arrumar para irem para a casa de Genma. De repente, ele queria poder olhar nos olhos do Hyuuga hoje e ver algo mais do que aquela superfície gélida e inquebrantável.
Shikamaru se olhou no espelho e afastou o cabelo do rosto. Ele queria que aquele gelo derretesse e que, o que quer que estivesse submerso, imergisse cristalino bem diante de seus olhos.
N
N/A: Como prometido: Kakashi e Sakura! Meldelz Tai, o que a Rin está fazendo viva? Pois é gente, nem me perguntem ;) O QUE ACHARAM DO CAPÍTULO? Espero que essas 20 páginas sejam minha redenção :P
Muito obrigada pelo apoio, vocês não fazem ideia do que significa para mim cada um de seus comentários e favorites! (OS ANÔNIMOS TBM, VCS SÃO BEM VINDOS!)
Pessoal, eu achei que seria genial ter mais contato com vocês, para ir falando sobre as futuras atualizações, sobre as cenas que estou escrevendo, sobre o que vocês gostariam que acontecesse e para conhecer vocês melhor. Então eu abri um perfil no Facebook só para fics, dicas de escrita, indicações de leitura e futuros originais. Assim eu tenho um canal mais direto com quem quiser conversar, trocar ideias, dicas de escrita/leitura e também para me conhecerem mais. Tomara que vocês gostem da ideia, me procurem lá no Face, eu vou estar ansiosa esperando vocês me adicionarem: Tai Bécquer.
Love, Tai.
