N/A: Demorou, mas chegou!
Love Shuffle
Capítulo 12 - Heartache
Ela passou a mão pelos cabelos desleixadamente e suspirou. Tinha uma sensação estranha no ar, sufocante.
Enfiou os pés dentro dos sapatos e observou o assoalho claro.
Não era todo dia que aquela sensação aparecia, mas ultimamente era recorrente: assim que seus olhos se abriam de manhã cedinho, ela sabia que algo estava prestes a acontecer.
Ino ajeitou os fios platinados, colocando-os em um coque apertado para disfarçar quão desajeitados eles estavam hoje. Parecia que os cabelos tinham combinado com a sensação incômoda para a fazerem se sentir assim:
- Desajustada...
Fazia anos que ela não se sentia desse modo.
Ao longo de toda sua adolescência e parte de sua juventude ela lutara contra aquela estranha e desoladora sensação de desajuste. Ela fizera um esforço absurdo para ser a garota dos sonhos. E conseguira.
Durante muito tempo todos os garotos queriam ficar com ela, os caras da faculdade também. As amigas do colégio queriam ser como ela, e na faculdade as mulheres se sentiam tão encurraladas com a maneira de ser de Ino que a viam como competidora. Tinham sido quatro anos difíceis, mas cheios de namorados bonitos, populares e importantes.
Mas ninguém ficava por muito tempo.
A sensação de desajuste era comum a muitas as mulheres, ela tinha lido isso numa revista qualquer certa vez. Todas mulheres querem encontrar seu lugar no mundo, e elas acreditam que esse lugar virá com beleza, status e uma falsa perfeição.
Yamanaka Ino era definitivamente uma dessas mulheres.
Ela tinha os cabelos tão lindos e lisos como os das mulheres de comercial de shampoo. Um rosto bonito e olhos claros que com uma maquiagem simples a faziam parecer uma boneca. Seu corpo não tinha curvas voluptuosas, mas ela fazia exercícios para se manter tonificada e magra. Suas roupas eram lindas, assim como seus sapatos e bolsas.
Mas, ainda assim, Ino às vezes se sentia tão desajustada.
Sua mãe sempre lhe dissera que meninas decentes não brincam de bola, meninas bonitas não sujam as mãos de terra. Moças de família se dão o respeito e arranjam namorados que valham a pena.
Mas quem valia a pena?
Genma era uma pessoa admirável. Ele a tinha feito se sentir bem, mesmo que armasse alguns barracos quando ficava ciumenta. Ele era gentil quando necessário, ele não se importava com as preferências que ela tinha na cama. Mas ele não a fazia se sentir segura.
Segurança era algo que ela desconhecia.
Ele jamais a quisera como namorada, ou pensara em a apresentar aos amigos...
Ino estava sempre com a expectativa de que não podia errar, senão cairia da corda bamba.
Ela se olhou no espelho, observando a camisa azul clara sem nenhum amassadinho. A cor realmente realçava seus olhos, como Sakura tinha dito. Ela colocou os brincos com calma e começou a se maquiar.
Ainda estava se acostumando com a casa nova, com a falta de móveis, mas mesmo assim preferia ir levando as coisas aos poucos, organizando como gostava de ver as coisas, deixando tudo com a cara dela. Estava tentando deixar o apartamento de um jeito confortável e caseiro.
O pequeno armário continha algumas roupas, a cama Queen size com box tinha chegado no sábado à tarde. As coisas começavam a tomar lugar embora a sala e os dois outros quartos estavam vazios.
Ino olhou-se de novo no espelho e suspirou.
Estava linda.
Linda e desajustada.
- Céus...
Olhou para o celular, notando que não havia nenhuma mensagem ou ligação perdida.
De que adiantava estar aparentemente perfeita quando tudo estava desabando por dentro? Ela sabia que estava perdendo Genma. Não para Sakura ou Hinata ou Temari. Ino estava perdendo Genma porque ele não gostava dela o suficiente para dar qualquer passo à frente.
Saiu do banheiro e começou a preparar sua bolsa.
Sua mente estava nublada.
Ela se sentia tão desconfortável sob sua própria pele, como se seu corpo não fosse um templo, como se naquele momento seu corpo fosse estranho, alheio.
Algo arranhou no fundo da garganta e se acumulou rapidamente. Uma sensação cheia de agonia, presa no fundo da goela como uma bola. A sensação se espalhou pelo corpo e ela pressionou os lábios numa linha reta, rígida, aparentemente perfeita.
Até que seus lábios começaram a tremer, fora de seu controle e, uma trás outra, as lágrimas desceram por seu rosto como linhas úmidas marcadas sobre a maquiagem a prova d'água.
A dor no fundo da garganta desceu, como se ela tivesse engolido aquilo e agora a dor se concentrava bem no centro do peito. Pressionando, como um soco. Ela precisou se sentar na beira da cama para tentar se acalmar.
Ino enviou uma mensagem para a secretária avisando que se atrasaria. A sensação estranha de desajuste, virou uma tristeza imensa, uma sensação de não ser capaz de ser ela mesma sem ter medo disso. E tudo espiralou tão rápido que ela conseguia sentir a própria voz repetindo aquilo em sua cabeça.
Desajustada. Falsa. Medrosa.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
Não ia engolir o choro. Ela ia sentir aquilo, aprender com aquilo e entender o que estava acontecendo ali. Eram tantas dúvidas...
O que queria para si?
Quem queria para si?
Quem ela realmente era?
Do que ela gostava?
O que ela precisava?
Ino tirou os sapatos e pousou os pés no chão por um segundo, sentindo o assoalho firme. Respirou fundo outra vez. Sentindo a dor diminuir no peito, mas não era suficiente...
Pegou o celular outra vez e, sem pensar duas vezes, ela cortou os laços que lhe faziam perder o sono ultimamente.
Sofrer por amor, definitivamente, não era sua praia.
"Genma, estamos oficialmente separados. Conversamos depois. Bjs, Ino."
Ela respirou fundo uma terceira vez.
Sabia bem que nada bom viria de um amor que não era recíproco. Ela não era como Sakura, ela sabia muito bem o momento de cortar o mal pela raiz. Sempre soubera. E Genma não era algo mau em sua vida, ele era apenas um degrau a mais para sua libertação.
Ino se levantou, tirou a calça e a largou no assoalho claro, andou até o armário, pegou uma outra calça e voltou para o banheiro.
Soltou o coque e seus cabelos caíram como cascatas bagunçadas por seus ombros, misturando loiro platino e azul claro.
Eles não estavam desajustados, eles estavam livres.
Ino encarou seu reflexo no espelho e sorriu.
A liberdade combinava com ela, as lágrimas não.
H
Genma encarava o celular um pouco atônito. Ele nunca tinha imaginado que ela faria aquilo tão rápido; pôr um ponto final no relacionamento deles da noite pro dia.
De repente, uma irritação incômoda escalou por suas vértebras, fria e traiçoeira e ele sentiu raiva.
Em partes, era mais fácil se ela parasse de gostar dele, mas Genma sempre acreditara que seria ele quem daria o passo final com Ino. Ele se sentou no sofá e leu a mensagem outra vez.
Fria, simples, sem rodeios.
Ontem, quando ele a fez ficar até que todos fossem embora, quando ele lhe pediu que ela tomasse uma xícara mais de chá para que pudessem conversar. Quando ele olhou dentro daqueles olhos azuis cristalinos, de maneira alguma ele vislumbrou esse desfecho repentino. Ao contrário, Genma acreditou que a verdade faria com que Ino se sentisse mais próxima dele.
O homem olhou para as mãos, largando o celular, e tentou se lembrar de todas as palavras que haviam dito ali naquela sala há menos de nove horas atrás...
Ino tinha dito com todas as letras que o amava. Ela tinha demandado dele uma resposta verdadeira. E, frente aquela situação ele não quis mentir, Genma disse que gostava muito dela, que ela era especial, mas que infelizmente ele ainda não a amava.
- Ei, bom dia – a voz suave de Sakura o chamou de volta para a Terra e ele tentou sorrir, mas apenas saiu um sorriso amarelo e falso. – O que houve? – ela perguntou preocupada – Você tá bem?
Ela estava usando o robe lilás de Ino, cheirando ao shampoo de Ino e o sabonete dele. Seus cabelos cor de rosa estavam já secos e ele conseguia ver a raiz de um centímetro com o tom real dos cabelos dela.
Castanho claríssimo. Ele riu e recostou a cabeça na parede, suspirando.
- Eu levei um pé na bunda.
- Como assim? – ela se sentou na poltrona, agarrando a almofada e olhando-o com toda sua atenção.
Aqueles olhos verdes dela o estavam deixando louco.
- Ino terminou comigo.
Os lábios de Sakura se entreabriram com espanto e ela olhou para o chão.
- Eu deveria falar com ela-
- Não, ela me perguntou sobre meus sentimentos ontem e eu disse que não a amava – ele falou firme, encarando o teto. Ele não queria olhar para Sakura nesse momento, era como se ela pudesse ver o que acontecia por detrás de sua postura, de sua face, de seus olhos.
- Uau... – ela murmurou e fez que sim com a cabeça – A Ino sempre soube o momento de cortar e correr. Desde quando era muito nova, quando Sasuke era um babaca com ela também, mesmo sabendo sobre os sentimentos dela... Ino sempre sabia que quando começava a machucar ela já não devia permanecer. Eu queria ser como ela...
Genma se levantou, se sentindo um pouco tonto. Será que era aquilo então, ela estava se sentindo machucada, então ela tinha decidido que não valia mais a pena? Por que, se era isso, ele realmente estava descobrindo uma parte de Ino que ele desconhecia.
- E você, Genma?
A voz de Sakura o chamou de volta para a Terra outra vez e ele a olhou nos olhos com serenidade. Ela podia ver o que quisesse, ele não precisava bancar ser forte e másculo ali.
- Eu estou com raiva – ele respondeu, sorrindo em seguida e dando uns tapinhas no ombro dela – Você quer tomar café?
- Não vai dar tempo – Sakura fez uma careta e também se levantou, postando as mãos nos ombros dele, afastando os fios de cabelo grudados em seu pescoço – Eu sinto muito, Genma, se você precisar conversar é só me ligar.
Ele fez que sim com a cabeça e segurou o rosto dela entre as mãos. Sakura estava ganhando um espaço curioso em sua vida. Fosse desesperada no meio da noite, nua na sua cama ou oferecendo-lhe consolo de manhã.
- Obrigado – ele murmurou e tocou seus lábios de leve, sentindo-se sério demais, consciente demais de seus atos e da presença dela e da separação com Ino – Você vem hoje de noite?
- Vou tentar – Sakura sorriu prestativa, pousou uma mão sobre a dele, tirando-a de seu rosto e a apertou com força – Seja forte – ela murmurou – Posso te trazer o roupão de noite?
- Claro. Bom trabalho, Sakura – ele a observou andar até a porta e então balançou a cabeça – Eu não estou triste – falou, como se precisasse que ela entendesse que não estar com Ino não era o que lhe incomodava – Eu sou homem, então estou com o orgulho ferido, é apenas besteira.
Ela sorriu, abrindo a porta e colocou uma madeixa de cabelo rosa atrás da orelha.
- Não menospreze o peso dos teus sentimentos, Genma. Homens também choram.
E
Naruto assinou mais um documento e pegou o seguinte para ler. Ele odiava os dias de papelada, porque isso significava que estaria preso dentro daquele escritório durante todo o dia. Se havia algo que ele realmente detestava era ficar ali dentro sabendo que as ruas o esperavam.
Bem, ele também detestava aquela sensação horrível no seu peito.
Não deveria ter insistido com Hinata, menos ainda ali, na cozinha do Genma. Era óbvio que ela ia reagir daquele jeito, ela sempre reagia daquele jeito.
Hinata era uma mulher incrível, ela era carinhosa, educada, inteligente... Mas tudo o que passasse um pouco do que era prudente ou não a fazia dar vários passos para trás.
Eles nunca tiveram uma fase em que ela estivesse completamente desinibida, ou que ela iniciasse a situação, ou em que ele a visse com vontade de ir além do que eles sempre faziam.
Talvez o jogo fizesse bem a ela, talvez se Hinata fosse exposta a outros homens, se ela realmente se deixasse levar, quando ela voltasse para Naruto ela não seria a mesma.
Mas ele gostaria disso?
Mais de uma vez Naruto a empurrara contra a parede ou a mesa e a puxara de leve pelos cabelos e a fizera gemer e implorar, mas jamais ele a vira querer aquilo até que ele a empurrasse do abismo.
Às vezes ele desejava alguém que quisesse se jogar daquele abismo com ele sem ter que espera-lo, alguém que pulasse e o trouxesse consigo. Não alguém como Temari, porque Temari era intensa demais e perigosa demais, mas alguém que se sentisse a vontade com ele a ponto de se deixar levar, que quisesse de vez em quando pegar as rédeas do jogo e empurrar Naruto precipício abaixo sem sequer avisá-lo.
Ontem, quando ele beijara e apertara Hinata contra si, ele queria que ela o beijasse com desejo, com tesão, com a mesma desesperação que ele tinha de beijá-la. Mas algo em si o fazia pensar que com ele Hinata jamais se soltaria, porque talvez ela sentisse o mesmo que ele: havia uma maneira específica de ser, e essa maneira estava condicionada a pessoa com quem lidamos.
Assim como ele não conseguia ser agressivo ou predador com ela, talvez Hinata não conseguia ser firme e sexual com ele. Talvez eles estivessem naquela fase do relacionamento em que as coisas estancaram e é assim que sempre vai ser, é assim que eles vão ter filhos, e cria-los e o relacionamento nunca mais seria apenas sobre eles.
Naruto suspirou e voltou a ler o documento, pensando que era melhor pensar no trabalho do que pensar em Hinata, pelo menos por enquanto.
A
- Eu ouvi dizer que você e Rin...
Genma bebeu um gole de cerveja e olhou para Kakashi, deixando a frase nadar solta na mente do amigo. Pareceu dar certo, porque o homem ficou visivelmente tenso, seus ombros retraindo e seu maxilar travando.
Kakashi apoiou as mãos sobre a mesa e encarou o amigo apoiado contra a poltrona.
- Eu achei que Sakura não falaria sobre isso.
- Que descuido, heim? – Genma pressionou, vendo Kakashi organizar os petiscos num prato grande.
- A ideia certamente não era de que alguém apareceria naquela parte do parque.
- Mas apareceu... – Genma prosseguiu e Kakashi bufou.
- Sim. Bem na hora errada. Olha, eu não sei quanto ela te falou, mas não foi nada demais, ok? – ele resmungou, ficando impaciente – Eu sou velho o suficiente para cuidar dos meus próprios problemas.
- Kakashi, - ele chamou, levemente sacana – Sakura não me disse nada. Ela apenas perguntou se eu conhecia Nohara Rin, eu só juntei as pontas.
O sensei ficou quieto, encarando o amigo.
A sensação de ser um idiota lhe atingiu em cheio, como um caminhão. Como não percebera que Genma estava jogando verde? Ele respirou fundo e balançou a cabeça.
- Certo. – seus olhos vagaram a sala com calma, atentos, esperando pelo próximo passo do amigo. E esse movimento certamente viria antes do que ele gostaria.
Kakashi sabia que estava errado. Que não deveria estar fazendo o que estava fazendo, mas era algo que ele não tinha mais controle...
- O que você pensa que está fazendo, Kakashi? – Genma perguntou sério, sua voz soando mais alta do que ambos gostariam.
- Eu sei-
- A Rin? – Genma perguntou exasperado, seu rosto de contorcendo numa careta de preocupação – Eu nem sabia que ela estava em Konoha! O que tem de errado com você?
- Para – ele pediu, a voz firme embora sua cabeça estivesse zunindo como se tivesse tomado algum tipo de droga. Kakashi passou as mãos no rosto e umedeceu os lábios – Ela veio visitar os pais.
- Ela veio sozinha?
- Não.
- O que? – Genma colocou a garrafa sobre a mesa de jantar, fazendo o vidro bater contra o tampo da mesa num som brusco que ecoou pela sala – Você é besta?
- Genma-
- Ela é CASADA! Rin é uma mulher casada, com dois filhos, o que você pensa que está fazendo?
- Eu não sou a pessoa casada – Kakashi retrucou, sentindo as mãos suarem frio e o coração bater muito rápido. Era a mesma sensação de ser adolescente e ser pego fazendo algo de errado.
A diferença era que ele não era um adolescente, ele não tinha desculpas como falta de maturidade ou hormônios para fazer as pessoas engolirem. Ele era um homem de 38 anos, crescido e vivido, ele não tinha desculpa nenhuma para fingir que estava tudo bem.
- Você está sendo imprudente – Genma falou baixo – Não me venha com essa de que você não é o casado da história.
- Ela me ligou-
- Você terminou com ela. Ela continuou com a vida dela, então porque você está fazendo isso?
- Eu tive meus motivos...
- Eu não disse ao contrário, eu apenas acho que estragar o casamento dela à uma altura dessas não vai ajudar em nada!
- E o que você sabe sobre isso?
Eles se encararam.
Genma o conhecia tão bem, que sequer lhe ofereceu uma resposta. Kakashi era fácil de ler depois de tantos anos de amizade. Ele era orgulhoso e turrão e não gostava de assumir seus próprios erros e deslizes. Nem adiantava tentar fazer ele assumir aquilo.
- Cabeça dura – resmungou – Como ela está?
- Bem – Kakashi pegou a garrafa de Genma e deu um longo gole na cerveja – Não mudou nada nos últimos anos.
- Você é um besta.
Kakashi o fuzilou com os olhos.
- Você fala que eu sou o sacana, ficando com Ino, Sakura, mas você é quem está correndo atrás de uma mulher casada.
- Ela não é apenas uma mulher casada para mim.
As palavras soaram amargas e o sabor delas na boca de Kakashi era exatamente aquele.
- Pena que você assumiu isso tarde demais, Kakashi.
Um silêncio longo e dolorido escorregou entre eles. Kakashi encarou a garrafa, depois as próprias mãos e o tampo da mesa com o prato de petiscos. Seus olhos buscaram uma distração para a verdade dura e ardida que escorria por dentro de si como veneno.
Genma estava certo. Kakashi tinha percebido tarde demais o quanto Rin realmente importava para ele. Embora na época tudo fosse difícil demais de entender, aquela compreensão tinha chegado com anos de atraso. Agora Rin tinha continuado com sua vida, se mudado de cidade, se formado, se casado com outro cara, construído uma família.
E aqui estava ele. Tomando uma cerveja com seu amigo mulherengo, mantendo as tradições de toda a vida, sem ter dado nenhum passo na sua vida afetiva. Sempre fugindo de coisas sérias demais, que sentissem demais, que fossem difíceis demais de se desenrolar e escapar na primeira necessidade.
- Kakashi – Genma chamou com pesar – Eu sinto muito por vocês dois. Mas não se machuque mais, ok?
O Shiranui saiu da sala e entrou no banheiro para aproveitar e tomar um banho já que faltavam quarenta minutos para o jogo. Dando espaço suficiente para que o sensei conseguisse colocar a cabeça e os sentimentos no lugar.
- Merda...
R
Sakura chegou com dois pacotes de batata na mão e Genma riu.
- O que é isso?
- Não deu tempo de passar no mercado, então comprei na loja de conveniência do hospital mesmo – ela lhe entregou os pacotes e sorriu – minha contribuição para o jogo de hoje.
- Entra logo, já tá quase começando – ele segurou seu ombro por um segundo a mais do que era necessário e ela sorriu. Genma parecia muito melhor que hoje de manhã.
- Yo Sakura-chan – Kakashi saludou, sentado na poltrona com uma cerveja na mão e ela sorriu animada – que bom que você aceitou a ideia de pertencer ao clube do futebol – ele disse com um sorriso estranho.
- Eu era do clube de ciências, mas assistia a todos os jogos no colégio!
- Eu me lembro disso. Como você está?
- Bem – ela sentou no sofá e tirou os tênis, ficando de pernas de índio – estou com um paciente instável, então vou ficar alerta, talvez tenha que voltar pro hospital.
- Imagino que nada de cerveja para você hoje, certo? – perguntou Genma, botando a cabeça para fora da cozinha.
- Por hoje, nada de álcool – ela mostrou a língua e ele revirou os olhos.
- Refrigerante para a criança então.
Sakura jogou uma almofada na direção dele, mas errou feio.
Kakashi observou a interação deles, admirando-se da evolução que aquilo tinha tomado. Se no começo Sakura ainda parecia acuada e forçada a tentar algo com Genma, agora eles riam, brincavam, se olhavam e se tocavam casualmente.
Era estranho, ele não gostava de estar no mesmo cômodo que aqueles dois, principalmente porque ele ficava tentando evitar a ideia de que eles realmente estavam juntos. A ideia de que Sakura e Genma se relacionavam a nível afetivo sexual era incômoda.
Ele havia se acostumado com Genma e Ino, afinal de contas Ino tinha investido bastante até que Genma começasse a sair com ela. Kakashi tinha tido tempo suficiente para se preparar psicologicamente, afinal, Ino também não tinha um vínculo com ele tão forte quanto Sakura-chan.
Sakura aceitou o copo de refrigerante e o pacote de batata e lhe ofereceu um pouco. Kakashi notava como o humor dela e seus olhos pareciam contentes. Ela estava mais calma, mas alegre, e aquilo talvez fosse suficiente para que ele engolisse as sensações estranhas em seu peito e assumisse que tá bem, Sakura estaria enrolada com seu melhor amigo daqui em diante.
- Alguma novidade, sensei?
- Nah – ele sorriu amarelo, sentindo-se incômodo – está tudo na mesma.
- Você chegou faz tempo?
Kakashi a encarou, tentando não transparecer as sensações ainda borbulhantes que sentia depois da discussão com Genma mais cedo. Ele preferia que ela não percebesse nada.
- Não – mentiu – na verdade eu cheguei um pouco antes que você – ele encarou a TV, vendo a propaganda – E você, Genma, alguma novidade?
- Eu estou solteiro!
Genma sentou ao lado de Sakura, esticou as pernas sobre a mesinha de centro e passou um braço pelos ombros de Sakura, fazendo-a lhe dar um soco no ombro.
- Como assim? – Kakashi quase engasgou com sua cerveja.
- Ino me dispensou.
- Meu deus – ele murmurou e olhou para Sakura – ela se apaixonou por alguém do jogo?
Ela riu da expressão preocupada e curiosa dele.
- Não, ela só sentiu que estava sofrendo por alguém que não retribuía seus sentimentos – Sakura falou com pesar e encarou a TV.
Genma revirou os olhos no mesmo momento em que o jogo começou. Ele não estava nem um pouco disposto a falar como o fato dele não retribuir os sentimentos de Ino fizeram com que ela o largasse da noite para o dia.
O Shiranui apertou os dedos no ombro de Sakura e ela sorriu encarando a televisão. Não que agora que ele estava solteiro as coisas mudarian muito, Ino certamente ainda continuava apaixonada por ele, mas ainda assim...
Genma estirou as pernas e deixou uma delas cair sobre o joelho de Sakura, repousando ali, buscando conforto no toque que estava começando a ser familiar demais para o gosto dele.
Kakashi observou o movimento pelo canto do olho e suspirou baixinho. Ele esperava de todo coração que Genma não fizesse nenhum dano à Sakura. Ela precisava de alguém que a amasse, ou pelo menos alguém que a respeitasse.
O jogo transcorreu tranquilo na primeira metade, sem gols, sem sobressaltos, apenas uma ou outra tentativa de gol, mas nada que os fizesse sentir o coração agitado como na semana passada. Kakashi não conseguiu prestar suficiente atenção para saber realmente o que estava acontecendo no jogo. Sua mente estava em outro canto, vagando entre o passado e o presente como uma sensação agourenta.
Se fossem duas semanas atrás, Kakashi jamais imaginaria estar naquela sensação: Genma e Sakura flertando indiscretamente, com pequenos toques e risadinhas babacas... mas aquela parte ele ainda conseguia entender, reinventar...
A ligação de Rin o deixara instável. Ouvir a voz dela depois de tanto tempo, escutar as palavras dela, sentir o coração bater desesperado. Nada daquilo podia ser reinventado, ele apenas podia aceitar e assumir que, embora estivesse errado, aqueles momentos juntos tinham valido a pena de toda a dor de cabeça que teriam se fossem descobertos.
Love Never Felt So Good do Michael Jackson começou a tocar e Kakashi viu Sakura atender o telefone depressa, indo para a varanda.
- Você tá legal? – Genma perguntou, ainda encarando a TV.
- Eu não sabia que você e Ino tinham se separado.
- Não mude de assunto, Kakashi – ele retrucou ainda encarando o jogo, mas o sensei se negou a responder.
Ambos ficaram fingindo ver o jogo por mais um minuto até que Genma pousou sua cerveja na mesa de centro e encarou o amigo.
- Quer ver uma coisa bonita? – ele perguntou com um sorriso honesto no rosto.
Kakashi concordou com um aceno e seguiu o amigo até um dos quartos do apartamento, era um quarto escuro onde Genma revelava as fotos manualmente. Ele sabia que o amigo tinha um espaço melhor para isso no seu estúdio, mas sempre soube que algumas fotos ele gostava de revelar em casa, como aquela foto dos dois com Asuma antes de sua morte...
Genma acendeu uma luz suave e mostrou para Kakashi algumas fotos sobre uma das mesas: todas eram de Sakura.
- Genma?
A voz da mulher soou da sala e eles saíram para o corredor.
- Meu paciente piorou, vou precisar voltar pro hospital.
- Como você vai para lá? – Genma perguntou.
- Vou pegar um taxi.
- Não, eu te levo, Sakura, eu já estava pensando em ir pra casa mesmo – Kakashi falou, agradecido por ter um motivo para ir embora.
- Ótimo! Eu vou me trocar e volto pra cá então.
- OK.
Sakura desapareceu pela porta e eles voltaram para o estúdio improvisado.
Kakashi olhou para as fotos outra vez. Não havia nenhuma foto obscena, embora em uma delas, Sakura vestia um roupão lilás que caía pelos seus ombros, os cabelos estavam presos num coque frouxo e o ângulo a focava por trás, deixando sua nuca exposta à câmara. Talvez ela nem soubesse da existência daquela foto.
Ele foi olhando as fotos, uma mais bonita que a outra. Não que Sakura fosse uma mulher muito bonita ou muito atraente, mas ela era fotogênica e Genma era um ótimo fotógrafo, capturando relances que a maioria das pessoas jamais notaria.
- Por que você está me mostrando isso? – perguntou, tomando uma foto em que ela estava sorrindo, usando uma blusa preta, com o sol se pondo no fundo da imagem, banhando Konoha em tons de rosa e laranja, numa vista incrível da cidade se preparando para anoitecer.
As cores faziam o cabelo dela tomar novas tonalidades, assim como seu rosto parecia iluminado de laranja e seus olhos pareciam mais vívidos.
- Por que você precisa saber – Genma comentou, olhando algumas das fotos – que eu não estou brincando com os sentimentos dela. Sakura é uma mulher cativante, ela não tem nada demais, mas ao mesmo tempo ela tem o suficiente para prender a minha atenção.
Kakashi o encarou por um segundo, depois voltou a vasculhar as fotos e ver novos nuances de Sakura que ele não conhecia, ou que conhecia bem demais.
- Ela me faz pensar em algumas coisas que eu não pensava antes, como a dor de não ser amado, a dificuldade de deixar alguém partir da sua vida. Para mim sempre foi muito claro que Ino e todas as outras eram algo passageiro, mas Sakura tem algo que me faz querer fazê-la ficar, Kakashi.
Genma olhou o amigo e balançou a cabeça, levemente confuso com seus próprios sentimentos, com sua própria confissão, então suspirou e acariciou a foto que tinha em mãos com o dedão, suavemente.
- Eu quero ver essa mulher acordar do meu lado mais vezes, até ter certeza se eu preciso que ela fique, ou se é apenas um capricho.
- O que você quer dizer com isso, Genma?
O fotógrafo soltou um riso frouxo pelo nariz.
- Quero dizer que eu vou investir nela, Kakashi, e eu queria que você soubesse disso.
Seus olhares se mantiveram firmes, impassíveis. Genma estava decidido e Kakashi não fazia a mínima ideia de como ele se sentia naquele momento.
- Voltei! – Sakura gritou da sala e Genma deixou o quarto sorrindo.
Kakashi encarou a mesa com as fotos, encarando cada uma das facetas que Sakura deixava transparecer ali e se sentiu incômodo.
Por quê?
O homem pegou a foto em que Sakura sorria e Konoha estava iluminada pelo pôr do sol e guardou dentro do bolso de seu colete. Ele não deveria fazer aquilo, ele nem sabia porque estava roubando uma foto dela, mas ele não deveria fazer muitas coisas e nem sabia de tantas outras, que uma vez mais não seria um problema.
T
- Aliás, Sakura, você me ligou ontem? – Kakashi perguntou, parando num sinal vermelho e olhando-a por um breve momento.
A mulher abriu a boca e fechou em seguida, olhando para a rua iluminada pelos faróis e postes de luz. Então o olhou de novo e concordou com um sorriso murcho.
- Tava tudo bem? – ele estranhou – Eu retornei a ligação, mas você não atendeu.
O carro voltou a se mover, e Kakashi manteve os olhos fixos na rua, virando a esquerda e entrando na avenida que os levaria até o hospital.
- Sim, é que eu precisava me distrair um pouco e acabei te ligando, desculpe se eu atrapalhei.
- Não atrapalhou, eu estava no treino, só vi mais tarde.
- Com Gai-sensei?
- Sim, a gente treina nos domingos – ele disse com um sorriso e ela suspirou. – Por que você precisava se distrair, Sakura?
Ela riu baixinho, ele não ia deixar mesmo aquilo passar, não é?
- O Sasuke estava me ligando e eu não queria atender, ou ficar sozinha com a possibilidade de atender...
- Você deveria ter insistido e me ligado de novo – ele repreendeu.
- Eu... – ela soltou um risinho nervoso e ele parou em outro semáforo – Eu achei que você estaria com a tua namorada...
Kakashi apertou o volante entre os dedos, sentindo o material contra as palmas das mãos e travou o maxilar. As sensações percorreram seu peito com rapidez, sem que ele conseguisse identificar cada uma delas.
- Rin não é minha namorada – disse firme.
- Não? – ela o encarou e Kakashi manteve o olhar com firmeza.
- Não, Sakura, eu não tenho absolutamente nada com Rin – ele prosseguiu, querendo acreditar completamente naquelas palavras – O que você viu foi apenas um deslize que não deveria ter acontecido.
Ela mordeu o lábio e concordou, sentindo-se de repente um pouco nervosa ao escutar Kakashi falar sobre sua vida amorosa.
- Então o que você fez para se distrair? – ele perguntou, voltando a guiar quando o sinal ficou verde.
- Bem... – ela corou furiosamente e olhou pela janela, evitando olhar para Kakashi – Naruto não estava em casa, então... Bem, Genma atendeu a porta e me deixou passar a noite lá...
Ela se encolheu no banco, escutando apenas suas respirações, sentindo o rosto muito quente. Sakura se perguntou porque estava falando aquilo? Ela podia ter omitido alguns fatos...
Kakashi estacionou na frente do hospital e se virou para ela.
- Da próxima vez, você liga para mim até eu atender.
Sakura sorriu para ele.
- Eu vou ligar – ela disse com um sorriso simples – Obrigada, Kakashi.
Quando ela fechou a porta, nenhum dos dois soube se ela tinha agradecido a carona ou o fato dele insistir para ela lhe ligar mais vezes da próxima vez. Mas de qualquer jeito, eles estavam bem com aquilo.
- De nada – ele murmurou no silêncio do carro, vendo-a correr para a porta do hospital, seus cabelos cor de rosa brilhando com a luz clara da lua.
N/A: e os dados estão rolando. Eu só tenho uma coisa a dizer: Genma, pare de roubar meu coração! S2 :3
Muito orbigada por todos os reviews, as mensagens privadas, os favoritos e follows, e tbm as interações pelo facebook! vocês fazem meu coração se encher de alegria e me dão garras para continuar lutando e escrevendo essa fic. MUITO OBRIGADA POR TANTO CARINHO! :***
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