N/A: Gente, sei que muitos de vocês, assim como eu, acompanham a fic da Dame En Rouge, "Forbiden Paradise", tem gente que chegou na Love Shuffle por indicação dela. Pois é, TENHO NOVIDADES! A Dame, lindona, me avisou que vai postar o cap final em breve! xD Então ela tá pedindo para todo mundo dar uma relida para aproveitarem melhor o último capítulo! Acho que vale muito a pena, né? *-* | Link: s/9196167/1/Forbidden-Paradise

Desculpem a demora para postar, mas foi uma escrita intensa, eu espero que vocês gostem e aproveitem muito a leitura!


Love Shuffle

Capítulo 14 – I See You


GenHina | ShikaIno | NaruSaku | NejiTema


I

- Oi – ele falou, tentando sorrir, em vão.

- O-oi – Hinata murmurou, mordendo de leve o lábio e mexendo na ponta dos cabelos.

- Desculpa ter pedido pra vir tão cedo – Naruto se sentia um cubo de gelo na barriga, mas só de olhar para ela o cubo de gelo ia derretendo, embora a sensação não fosse menos desagradável.

Ele abriu mais a porta e a convidou para entrar.

- Não tem problema, v-você sabe que eu acordo cedo – ela comentou, retirando os sapatos e deixando ao lado da porta.

- Eu podia ter ido te buscar – ele insistiu, entregando-lhe o par de pantufas cor de rosa.

Naruto ergueu o rosto, passando a mãos por seus cabelos loiros, fazendo-os caírem atrapalhados sobre sua testa.

- Naruto-kun – ela soltou a bolsa sobre o sofá e sorriu de leve para ele, apreensiva – O que houve?

Os olhos claros dela se fixaram nos dele.

Naruto vestia uma camiseta branca simples e uma calça jeans surrada. Ele nunca mudaria e ela adorava o fato de saber aquilo. Hinata sorriu e seu olhar suavizou, notando cada mínimo detalhe do rosto dele, de seus cabelos da cor do sol, tudo nele era cálido, e ela não fazia a mínima ideia de por que ainda não conseguia se decidir.

- Precisamos conversar – ele falou.

As olheiras sob seus olhos preocuparam-na um pouco, mas ele se virou e andou até a cozinha, antes que ela pudesse dizer algo.

- Eu imaginei que você quisesse conversar... – Hinata falou, olhando as costas dele, vendo como seus ombros se retraíam ao ouvir a voz dela e suas palavras – Eu... E-eu sinto muito pelo que aconteceu!

Seus olhos encararam o chão, assim que sua cabeça se curvou numa vênia educada e envergonhada.

O loiro se virou e a viu parada no meio da sala, fazendo uma reverência, pedindo desculpas. Seu vestido de malha azul claro lhe dava um ar etéreo e quase infantil, caindo solto por seu corpo até pouco abaixo dos joelhos.

Ela era como um anjo. Com seus cabelos soltos e levemente ondulados nas pontas, negros como a noite e brilhantes.

Ele a amava tanto. Era um sentimento tão forte e claro para si.

Ele a queria. Era um desejo singelo e bonito, embora às vezes ficasse opaco e tímido.

Uzumaki Naruto não era um homem tímido. Aquele homem tímido não era ele, era um borrão de si que se adaptara às necessidades dela.

Mas não era ele.

O loiro deu quatro passos longos e cobriu a distância entre eles, segurando os ombros de Hinata com firmeza, antes de fazê-la levantar o rosto e o olhar. Seus dedos escalaram pelo pescoço pálido dela, sentindo os batimentos acelerados, vendo as bochechas corarem vigorosamente com a proximidade.

Suas respirações se misturaram e os dedos dele se agarraram aos cabelos dela, puxando devagar, movendo o rosto dela ainda para mais próximo do seu.

Há quanto tempo ele não fazia com Hinata o que bem quisesse? Há quanto tempo ele não a possuía com aquele frenesi desesperado da paixão?

Há quanto tempo eles tinham passado a ser aquele casal monótono que só sabia fazer amor com a luz apagada?

Ela suspirou, abrindo os lábios de leve, sentindo os dedos dele acariciarem seu couro cabeludo antes de puxarem um pouco mais, angulando seus lábios.

Hinata fechou os olhos no segundo em que seus lábios se tocaram.

O cheiro dela o envolveu e ele a abraçou com força, sentindo as mãos dela tocarem seu rosto com carinho, hesitação...

Naruto apertou seus lábios contra os dela, buscando uma resposta. Ele estava buscando qualquer sinal ao qual pudesse se agarrar, qualquer coisa que o fizesse desistir da sua ideia, que o prendesse fortemente à ela.

Qualquer resposta que os fizesse retroceder ao ponto anterior, àquele ponto em que a pedira em casamento e ela o olhara com um ar de surpresa. Qualquer coisa que lhe fizesse mudar aquele segundo anterior ao não.

Sentiu uma onda de raiva e ansiedade se apoderar de seu peito e aprofundou o beijo, suas línguas se tocaram e ele não esperou o segundo necessário como faria normalmente, ele simplesmente se deixou levar pelos sentimentos que tinha por ela.

Seus dedos se agarraram aos cabelos dela com mais força, com uma possessividade que ele não costumava demonstrar. Ele a segurou firme contra si, sentindo o corpo pequeno dela apertado contra seu peito, sugando com força o lábio inferior dela, mordiscando a ponta de sua língua com atrevimento, descendo uma mão por suas costas.

Ele precisava se agarrar àquilo, ele precisava del-

- Naruto – ela ofegou, afastando-se rapidamente em busca de ar e pousando uma mão contra os lábios e fechando os olhos. O loiro piscou, boquiaberto, as fichas demorando muito para cair – E-eu-

Ele não tinha mais nada ao que se agarrar.

Naruto apenas tinha seus sentimentos, sentimentos estes que não pareciam ser recíprocos no mesmo nível e intensidade.

Não havia qualquer coisa a qual ele podia se pendurar e estancar ali, repleto dela, de seu cheiro, de seu corpo, de seus cabelos. Havia apenas seus olhos claros fechados para ele, e aquele ar frágil e dúbio.

Hinata não estava ali para ser sua âncora.

Ela não estava mais naquele relacionamento como ele queria que ela estivesse.

O loiro soltou suas mãos do corpo dela e deu um passo atrás, o coração batendo tão forte que podia escutar no fundo dos ouvidos. Seus dedos tremeram de leve quando ele os passou pelos cabelos claros, afastando a franja dos olhos.

Uma dor estranha se espalhou em seu peito, em seu corpo, percorreu suas extremidades como um vento frio. Então ele entendeu que não podia mais esperar por algo ao que se agarrar.

Mesmo que ele quisesse, aquele algo já tinha desaparecido, ele apenas não sabia desde quando as coisas eram assim.

Ele devia ser muito cego para não ter notado antes.

- Eu sinto muito – ela murmurou, abrindo os olhos de leve e levantando o rosto até encará-lo – Eu não...

Naruto deu meia volta e andou de novo para a cozinha, encarando a chaleira que estava prestes a apitar.

Ele tinha planejado tomar um chá com ela, conversar, ver se resolviam as coisas ou decidiam algo juntos. Mas antes disso ele precisava de um sinal, um mínimo sinal que o fizesse se agarrar à esperança de que ele ainda a tinha.

Mas agora não fazia o mínimo sentido se sentar para conversar.

Ele desejou não tê-la chamado.

Hinata ficou parada no meio da sala como uma estátua, sem reação, sem noção alguma do que fazer, do que dizer.

Bem, ele sabia o que dizer.

Naruto desligou o fogão e voltou para a sala, ficando a bons três passos dela, longe o suficiente para se sentir capaz de fazer aquilo sem recaídas.

- Isso não está dando certo... – ele comentou, vendo os olhos dela se abrirem surpresos e então parecerem tristes no segundo seguinte.

Hinata apertou uma mão contra a outra e seus lábios formaram uma linha, ela não tinha coragem para olhar em seus olhos, então ela encarou o tapete felpudo que compraram juntos no inverno do ano passado.

Naruto tinha brincado sobre eles estrearem o tapete, mas ela se recusou duas vezes seguidas em fazê-lo bem ali, no meio da sala. Ela se sentia extremamente envergonhada com ele, como se ele esperasse exatamente isso dela: que ela continuasse sendo a menina tímida e mimada que conhecera.

Mas talvez ele queria o extremo oposto. Um oposto interessante e até estimulante, mas que ela achava difícil demais de colocar em ação com ele.

Estavam num beco sem saída, presos em suas próprias armadilhas e esquemas. Nenhum passo fora, nenhum passo dentro, apenas andavam sobre uma linha pontilhada.

- Eu acho melhor a gente parar por aqui – Naruto sentenciou, enfiando as mãos nos bolsos, observando como ela respirava profundamente e apertava os lábios.

Aquilo era um ponto final.

Ela fechou os olhos por um segundo, depois levantou o queixo e seus olhos se encontraram. Hinata nunca achou que esse momento chegaria, mas ela tinha cavado o próprio buraco, não era assim?

Suas escolhas, ações, suas dúvidas... Tudo aquilo a tinha levado a este momento. A culpa de tudo aquilo era dela, ou pelo menos era assim que ela sentia e nada no mundo a faria pensar diferente.

Não naquele instante.

- Ok – murmurou, sabendo que o que quer mais que dissesse a faria chorar, a faria se sentir ridícula por ter gastado um amor como o dele pelo simples fato de não ter certeza de mais nada.

Agora ela não tinha esperança mais. Ela o tinha perdido por ter jogado com seu amor e suas dúvidas.

Naruto estalou a língua baixinho e olhou o chão, ele parecia arrasado, mas ao mesmo tempo não parecia que voltaria atrás.

Mas ela queria que ele voltasse atrás?

Ela teria coragem de terminar tudo sem esse empurrãozinho?

Ela merecia tê-lo de volta?

Uma dor aguda a atingiu no peito e ela sentiu os lábios tremerem. Nenhum dos dois disse nada, então ela suspirou, aguentando as lágrimas e olhou ao redor, meio perdida.

A mulher andou até o sofá e pegou sua bolsa. Olhando brevemente para o porta-retratos na mesinha do telefone, com uma foto deles abraçados numa noite de natal.

Há tantos anos...

O chão pareceu desaparecer e ela sentiu que não aguentaria mais as lágrimas, então se virou com urgência, andou até a porta e começou a colocar os sapatos, sentindo o olhar triste dele em suas costas.

- Eu vou indo – murmurou, sem querer mostrar quão a beira das lágrimas ela estava.

- Hinata... – ele chamou, vendo-a parar com a mão na maçaneta – Eu também sinto muito.

Ela fez que sim com a cabeça, mas não virou para trás, apenas abriu a porta e a fechou atrás de si antes que qualquer um dos dois desabasse na frente do outro.

Naruto abriu a boca e puxou o ar com força, a dor se espraiando por todos os lados, aguda, firme, desesperadora. Ele andou até a porta e virou a chave, encostando a testa contra a madeira fria e sentindo as lágrimas começarem a se acumular em seus olhos, o corpo sacudindo numa onda de soluços tristes e doloridos.

- Merda...

Hinata se amparou na porta e escutou a chave girando, trancando cada um para um lado. Ela suspirou, sentindo as lágrimas escorrerem livremente por seu rosto, com os lábios abertos num suspiro ainda surpreso. A dor era ruim, era péssima, mas a dor também era encorajadora.

Ela ficou ali alguns minutos, escutando os soluços de Naruto do outro lado da porta, que embora soassem baixinho, a faziam sentir que ainda estavam conectados, por um fio.

Mas aquele fio não lhes fazia nem um pouco bem.

Secou o rosto com as costas das mãos e suspirou baixinho. Depois empurrou as costas contra a porta e tomou impulso para dar o primeiro passo.

Rompendo um fio invisível ao cruzar o corredor até o elevador.

Depois daquilo, nada seria como antes.

S

- Você precisava ter dito aquilo?

Ele arqueou as sobrancelhas e a encarou.

- Agora eu só vou ficar pensando em como você sabe absolutamente tudo que acontece entre o Hyuuga e a Temari. Como você aguenta isso?

- Isso o quê? – Shikamaru perguntou, divertido, levando a casquinha de sorvete de menta até os lábios – O fato de não ser dono dela?

- O fato de não ligar se ela transa ou não com outro cara.

- Eu não disse que não ligo.

Ela o observou lamber o sorvete e piscar sacana. Claro que ele ligava, mas Shikamaru era tão esquisito, que até quando eram adolescentes ele tinha aquele negócio estranho de não ligar muito para a pessoa que estava com ele.

Todas as meninas desistiam depois do primeiro mês, e ele parecia não ligar para nada daquilo.

Mas talvez ligasse.

Era difícil entender como a cabeça de Shikamaru funcionava, diga-se lá o coração...

- Certo. Então você liga.

Ele deu de ombros.

- Por que a gente sempre toma sorvete quando está frio? – o homem perguntou, desviando do assunto e dando a deixa que Ino precisava para entender que ele não falaria mais nada sobre aquilo.

- Por que sim.

Ele revirou os olhos e sorriu para ela.

Ino parecia bem, embora ele soubesse que no fundo parte dela ainda estava se reconstruindo aos poucos. Ele apostaria que Ino ainda chorava de noite antes de dormir, e um pouquinho mais no banho. Mas, ainda assim, ela era forte.

E ele estaria ali para o que ela precisasse, mesmo se fosse um sorvete no meio de uma tarde fria de outono.

A loira bufou e o olhou seriamente.

- Você não vai conseguir desviar do assunto – ela avisou.

- Ino...

- Você já se perguntou o porquê de fazer isso? – Ino questionou.

Shikamaru recostou na cadeira, deixando mais espaço entre eles. Um muro invisível.

- Tá tentando se afastar dela? – a mulher continuou – Ou vendo se isso te ajuda para depois doer menos quando terminarem?

O Nara baixou o olhar ao sorvete e voltou a comer o doce, como se não a estivesse escutando.

- Para com isso, Shika! – ela insistiu – Você sempre se fecha...

Eles ficaram em silêncio por um tempo, enquanto ela tomava seu sorvete emburrada, encarando o movimento da sorveteria e as pessoas que iam e vinham. Ino sempre soube que Shikamaru nunca se abriria realmente para ela, desde adolescentes; ele era muito reservado e foram poucas as vezes que realmente falaram sobre sentimentos.

Como no terceiro colegial, quando o professor deles morreu.

Eram temas que eles tentavam não trazer à tona, principalmente agora que Chouji estava longe. Porque Chouji sempre era aquele que amenizava o ambiente, acalmava os ânimos e tinha palavras reconfortantes.

Ino se perguntava algumas vezes por que, de todos eles, justo Chouji tinha ido embora de Konoha. Afinal, ele sempre fora apegado à família e tinha planos de continuar com a linha de restaurantes dos pais.

Ela deveria ter ido embora, aquela cidade não lhe oferecia muito mais do que a fama de seu pai e um trabalho estável e bem remunerado. Ela deveria ter ido para longe, como muitas vezes planejara com Sakura, ir embora, desaparecer, voltar só quando estivesse morrendo de saudades e não aguentasse mais.

Talvez ainda havia tempo para isso...

- Quando eu tiver uma resposta eu te aviso.

Ino ergueu os olhos confusa.

O rosto de Shikamaru estava congelado numa expressão pensativa e distante.

- Resposta?

- De por que eu quero saber de tudo o que o Hyuuga e Temari fazem.

Os lábios dela se entreabriram e a mulher sorriu suavemente, observando o amigo.

Ela não tinha certeza se havia tempo para se mudar para fora de Konoha e desbravar o mundo, mas talvez houvesse tempo para que Shikamaru começasse a se abrir...

- Quais são os planos para hoje? – ele perguntou, desviando outra vez do assunto, mas dessa vez Ino não se importou.

- Bar?

- Tá bem – ele olhou o relógio – Eu preciso ir pra casa terminar umas pesquisas de mercado, mas às 20h tô livre.

- Feito. Eu tive treinamento com a equipe de fisio, então vou para casa arrumar algumas coisas – ela terminou de tomar o sorvete e o viu comendo seu próprio sorvete com calma – Amanhã vou receber as tintas, o Naruto ficou de estar lá comigo, mas só vamos começar a pintar mesmo na sexta.

Shikamaru tomou um gole da garrafinha de água e começou a morder a casquinha do sorvete.

- Eu ainda não tenho certeza sobre amanhã, mas devo dar um pulo lá. A Sakura vai?

Ino fez que sim e limpou os cantos da boca.

- Ela tem plantão hoje, então não vai poder ir com a gente no bar.

O celular de Shikamaru começou a tocar e ele olhou o relógio mais uma vez.

- Você pode pagar o meu sorvete? – ele perguntou encarando a tela iluminada com uma foto de Temari – Eu pago a cerveja hoje de noite.

- Ok! – ela sorriu contente e pegou a comanda dele sobre a mesa.

- Vou indo, te vejo às 20h

O homem se levantou, atendendo o celular e andando rápido para a saída.

E

Naruto estava sentado no vestiário do quartel, olhando fixamente para a porta metálica do armário, perdido em pensamentos. Suas costas ainda estavam úmidas do banho. As gotas escorriam dos cabelos e desciam pela sua pele até o cós da calça, deixando o jeans mais escuro ali.

Sua cabeça pesava como nunca, parecia que ia explodir a qualquer momento. Ele não ia trabalhar hoje, mas depois da conversa com Hinata, qualquer coisa que ele tentasse fazer era desinteressante ou entediante demais.

Ele não conseguia tirá-la da cabeça. Então depois de almoçar num restaurante de ramen, ele decidiu terminar de organizar algumas atividades do projeto social, resolver uma papelada e malhar.

Naruto tinha feito tanta força que, enquanto tomava banho, teve que se apoiar contra a parede de azulejos, sentindo os músculos das pernas descoordenados e bambos. Mas tinha lhe feito um bem imenso, tirar Hinata dos pensamentos por um momento e escapar para seus músculos e articulações.

Depois de tanto exercício, ele se sentia melhor, mas a ideia fixa de que as coisas nunca voltariam a ser como eram antes, de que sempre haveria aquela cicatriz incômoda no meio do caminho, sempre lhes impediria de voltar atrás, de reconstruir tudo, de pensar que eles seriam perfeitos juntos.

Talvez a vida estivesse lhe dando uma lição, a de que ninguém e nenhum relacionamento é perfeito...

A porta do vestiário se abriu e dois novatos da academia de polícia entraram o cumprimentando cordialmente. Logo depois deles, Sasuke também entrou.

Naruto fechou a cara.

Para ser sincero ele tinha evitado pensar no amigo desde o dia que saíram para beber. Ainda não tinha certeza qual era sua opinião sobre o que diabos estava acontecendo com Sasuke, ou o que ele estava tentando dizer...

Na verdade, ele simplesmente preferia não pensar naquilo.

- Eh, Naruto! – um dos novatos se aproximou – Como vai o projeto com as crianças de rua?

- Ah – ele coçou a nuca, pego desprevenido, e deu de ombros – Tá andando, semana que vem vamos fazer mais atividades no centro e ver se organizamos um jogo de futebol com eles, eles adoram essas coisas! – seus olhos brilharam.

Havia uma faísca que se acendia toda vez que pensava naquelas crianças, na possibilidade de ajudá-las. Havia sido essa mesma faísca que o distraíra durante a tarde com os papéis necessários para conseguir uma quadra de futebol ou um campinho para jogarem.

- Tô dentro, então! – o rapaz respondeu, sorridente – Me faz um bem incrível participar, é meio estranho, não acha?

- Eu sinto o mesmo – o loiro sorriu mais – É como se a vida valesse mais a pena...

- Naruto, - a voz de Sasuke o fez virar o rosto rapidamente para a esquerda com um estalo.

O moreno estava parado na frente dos armários, com os braços cruzados.

- Eu também gostaria de participar do jogo e das outras atividades – sua voz soou extremamente profissional, mas havia uma certa cautela entre eles.

O loiro fez que sim com a cabeça e começou a secar os cabelos com a toalha azul marinho.

- Pensei que seria interessante organizar algumas barracas de comida, e alguma atividade para as meninas também, para as que não queiram jogar...

Naruto encarou Sasuke outra vez. O Uchiha normalmente não se envolvia nas atividades que Naruto organizava, muito menos dava ideias. O que diabos ele queria agora?

Sasuke desviou o olhar e começou a pegar seus pertences no armário.

Os demais começaram a entrar nas duchas, deixando os dois veteranos a sós.

Desde quando Sasuke se importava com os projetos sociais que Naruto coordenava? Desde quando ele queria se envolver?

Por que ele queria se envolver? Naruto encarou Sasuke, vendo-o pegar shampoo e sabonete.

Ele não ia dizer nada?

Em um momento ele jogava na cara de Naruto que ele não o via, e agora ele simplesmente fingia que nada estava acontecendo?

Naruto se levantou.

O que estava acontecendo ali?

- Qual é a tua? – Naruto perguntou, olhando irritado para Sasuke.

O moreno suspirou e balançou a cabeça, lhe ignorando.

- Você nunca quis participar-

- Bem, agora eu quero, ok? – Sasuke disse, batendo a porta do armário – Se isso te incomoda, então problema teu.

- Quê? – Naruto largou a toalha no chão e sentiu o sangue ferver em suas veias.

Ele estava com raiva.

Muita raiva.

Nada ia como planejado, nada ia como era esperado, ninguém reagia da maneira que devia: nem ele, nem Hinata e muito menos Sasuke.

Aquilo estava começando a lhe irritar de tal modo que Naruto sentiu os punhos se fecharem com força sem que ele sequer os comandasse. Os músculos do antebraço repuxaram e lhe geraram uma sensação de força e agitação.

- Eu disse que estou pouco me fodendo para o que te incomoda. Eu quero participar, e vou.

Sasuke o olhava com um ar desafiador. O mesmo ar que lhes fizera rolar no chão em meio a brigas pubescentes ao longo do colégio. O mesmo olhar que o fizera socar vezes sem fim aquele sorriso convencido. O mesmo olhar que ganhara marcas roxas na adolescência.

O loiro soltou o ar devagar, tentando controlar o instinto de socar aquele rosto metido uma e outra vez, numa busca cega por respostas que talvez ele pudesse encontrar sozinho.

Mas se ele encontrasse as respostas sozinho, seria impossível negar e voltar atrás.

- Olha, eu não sei que bicho te mordeu, mas não adianta ficar com raiva de mim – Sasuke falou baixo, o ar desafiador virando apenas um ar cansado – Você deve ter teus problemas, e eu até me importaria por eles se você não estivesse me tratando deste jeito.

- De que jeito?

- Como se você me odiasse.

A resposta soou como um soco no estômago e Naruto sugou o ar com dificuldade, abrindo as mãos. De repente, ele não sabia o que fazer com elas, então apertou os dedos contra a calça jeans para as manter ocupadas.

Um rastro de culpa passou por sua mente e logo se instalou na barriga, descendo como gotas amargas dentro de si. Seus olhos vagaram pelo chão de ladrilho.

A nossa amizade... Ha... Era o mais precioso que eu tinha e definhou porque eu não soube te mostrar o quão importante ela era para mim.

A voz de Sasuke voltou em sua mente como uma memória agridoce. Com conteúdos daquela noite que ele se negava lembrar e reviver com medo de entender coisas demais...

Coisas que ele não queria ver.

Ao mesmo tempo em que eu não consegui te mostrar o quanto você era importante pra mim, você também não soube ver-

- Ver o quê? – as palavras escaparam de seus lábios e Sasuke o olhou em alerta e ele lançou um olhar apreensivo por cima dos ombros para garantir que ninguém estava próximo deles.

- Do que você está falando, Naruto? – perguntou baixo e rápido, buscando se certificar de que ouvira bem.

- Dessa vez, o que eu deveria estar vendo nos teus atos que não estou?

Os olhos azuis de Naruto fixaram-se nos negros do Uchiha e eles estavam tão completamente cheios de dor, que Sasuke prendeu a respiração.

- Com Hinata foi a mesma coisa – ele murmurou, parecendo perdido e olhando por cima do ombro do amigo, enquanto o som alto dos chuveiros surgia e abafava suas vozes – Eu não vi que ela não gostava mais de mim, não previ nada, até que era tarde demais e obvio demais para consertar...

- Naruto...

O loiro o encarou outra vez, seus olhos estavam úmidos e ele parecia estranhamente frágil, no meio daquele turbilhão de reações. Naruto ia do raivoso ao triste em um segundo e Sasuke não conseguia acompanhar o que estava realmente acontecendo com ele.

- Você era meu melhor amigo – Naruto sussurrou, sua voz embargada.

Você não soube me ver. Às vezes você é tão cego que dói.

- E eu não vi o que precisava ver...

O moreno soltou o ar trêmulo, enfiou os pertences de volta no armário e se aproximou mais de Naruto. Seu semblante era sério e preocupado, mas o loiro não conseguia ler atrás de suas expressões tão bem quanto fazia lendo o significado de suas brigas.

- O que aconteceu, Naruto?

A mão de Sasuke pousou sobre o ombro nu e apertou firme. Embora Naruto não conseguisse ver além de algumas coisas, Sasuke era perspicaz pelos dois.

- Eu terminei com a Hinata hoje de manhã.

Uma lágrima escorreu pelo rosto do rapaz, solitária e pousou na comissura de seus lábios.

- Eu sinto muito – Sasuke disse calmamente depois de um segundo – Talvez seja bom você terminar de se arrumar e ir descansar.

- Você está fazendo isso porque sabe que é importante para mim, não é? – Naruto o olhou, seus rostos estavam na mesma altura.

- Sim, eu sei que os programas sociais te fazem feliz, que você se identifica com essas crianças – o moreno encolheu os ombros e sorriu entristecido.

- O que eu não vejo, Sasuke? – Naruto perguntou, levemente perdido, fazendo mais algumas lágrimas escorrerem e percorrerem o mesmo caminho, morrendo em seus lábios.

O moreno soltou seu ombro, levemente incomodado, e sua mão hesitou um segundo antes de segurar o queixo de Naruto.

O loiro sugou o ar com força e permaneceu imóvel, sentindo os dedos de Sasuke firmes em sua pele. De repente, ele desejou não ter perguntado algo que ele ainda não se sentia capaz de processar no momento.

Naruto desejou que a resposta nunca viesse, mas Sasuke umedeceu os lábios com a ponta da língua e fincou os dentes de leve na carne delicada do lábio inferior, chamando a atenção do loiro.

Sentiu o dedão de Sasuke tocar sua bochecha, úmida pelo choro, num movimento circular e terno, e então capturou a lágrima que molhava o canto da boca de Naruto. A digital roçou firme contra o canto de seus lábios em alguns movimentos repetidos, secando as lágrimas totalmente.

Os dedos de Sasuke soltaram seu queixo e ele tocou de leve o ombro exposto mais uma vez, antes de olhar o amigo no fundo de seus olhos azuis com um sorriso cansado.

- Você já viu.

A resposta rolou dos lábios de Sasuke com certa cautela e nocauteou o ar para fora dos pulmões de Naruto como uma pancada forte, limpa e rápida.

Como um raio cortando o céu escuro. Elétrico, pulsante, mas veloz e definitivo.

E Naruto finalmente se deixou ver.

Ele via Sasuke pela primeira vez, como se antes ele houvesse usado uma lente de contato opaca. Como se tudo antes não passasse de uma visão distorcida do que sua cognição conseguia lidar e vislumbrar.

Mas agora... Ah... Agora haviam tantas outras cores e pinceladas. Agora tudo fazia tão mais sentido.

Agora Sasuke estava exatamente diante de seus olhos.

De repente tudo em Sasuke pareceu tão compreensível... que quando Naruto inalou com força o ar de volta para os pulmões, como um náufrago, ele sentiu o cheiro típico de Sasuke se transformar num cheiro novo.

- Você já me viu, Naruto - o homem repetiu, apertando de leve o ombro do loiro antes de lhe dar as costas.

Ele viu.

E

Sakara olhou para o celular com um ar arrependido.

E se as ligações de Sasuke não fossem apenas mais uma de suas peças? E se ele realmente estivesse tentando lhe dizer algo?

Ele iria atrás dela se fosse realmente importante, certo?

Sim, ele podia ser um grande babaca, mas ele também era o homem perspicaz e inteligente de sempre.

Ela encarou a tela refletindo o nome de Sasuke, que piscava em silêncio alertando sobre a chamada perdida.

A mulher desligou o celular e o jogou para dentro da gaveta de sua mesa do consultório, desligando sua mente da possibilidade de voltar a ligar.

Seus olhos se encheram de uma camada fina de dureza e ela andou até a porta, abrindo-a em seguida, pegando o formulário no escaninho e chamando o próximo paciente.

A consulta foi difícil. Embora ela mantivesse toda sua atenção focada na mulher à sua frente, escutando suas queixas e sintomas, algo dentro dela revirava com ansiedade e tédio.

Era como uma adicta sem sua dose necessária de alguma substância.

A ideia de Sasuke como uma droga a fez se remexer na cadeira e prestar real atenção na paciente, desta vez imergindo nos sintomas com profundidade e interesse.

Depois de uma breve exploração e anamnese, passou os medicamentos e alguns exames, despedindo-se dela com certo pesar.

Sakura odiava quando sua vida pessoal se interpunha em sua vida profissional. Mas era algo que ela não conseguia necessariamente controlar.

Andou até a pia e lavou o rosto com calma, secando-o lentamente em seguida.

Olhou o relógio e reparou que o tempo tinha passado mais lento do que imaginado, já eram as 20h, ela precisava enfrentar mais dez horas de plantão antes de ir para casa.

Voltou à porta e checou o escaninho, notando que ainda estava vazio. Pelo jeito não tinha muitos pacientes esta noite. Mas não tinha certeza se isso era sorte ou azar.

Sua cabeça precisava de distração agora.

Andou pelo corredor até a recepção e iniciou uma conversa com uma das recepcionistas, pelo jeito só a área pediátrica estava cheia. A recepcionista lhe aconselhou dar uma pausa para a janta, mas Sakura ainda não tinha fome.

Voltou para o consultório, pensando que a melhor ideia de todas seria pedir que Genma viesse resgatá-la daquele estado de ansiedade e tédio.

Céus! Ela podia depender de Genma pelo resto da vida.

Melhor não.

Ino...

Não, melhor não.

Sakura se sentou à mesa e pensou em suas possibilidades. Tinha falado com Neji durante a tarde e pedido uma indicação de livro, mas ele tinha lhe comentado sobre sair com Temari já que na noite passada a única diversão que ele tivera fora beber cerveja e jogar shoji com Shikamaru até às 2h da madrugada.

Ela tinha rido. Não conseguia imaginar Neji e Shikamaru jogando shoji na sala de estar do Nara, enfumaçada pelo cigarro, enquanto Temari resolvia problemas políticos de Suna no escritório adjacente.

Era muito estranho.

Mas de alguma maneira, Neji parecera extremamente relaxado enquanto relatava a cena, como se fosse algo tão fora de sua rotina que lhe gerara um prazer indolente e bem-vindo.

Talvez Ino.

Mas Ino e Shikamaru à esta hora deveriam estar chegando no bar. Ela realmente não queria estragar a noite deles, muito menos sabendo que Ino estava contente com a proximidade que estava tendo com o amigo nos últimos dias...

Naruto estava fora de questão depois da breve conversa que tiveram de manhã no elevador sobre ele e Hinata terem terminado.

- Bem, no fim das contas eu vou ligar para você, Kakashi-sensei – ela murmurou, pegando o gancho do telefone fixo e digitando o telefone – Como prometido...

A ligação soou quatro vezes.

Cinco.

E então caiu na caixa postal.

Da próxima vez, você liga para mim até eu atender.

Sakura sorriu com a lembrança da voz dele, desligou e discou redial.

Como da vez anterior, o homem não atendeu ao celular.

Ela suspirou, sentindo uma sensação estranha de descontentamento jorrar sobre si e desligou mais uma vez.

- Merda.

De algum modo, ela tinha a estranha esperança de que Kakashi estaria ali na hora que ela ligasse. Era ridículo e infantil, afinal, Kakashi tinha sua própria vida e seus afazeres e seus entretenimentos e Rin...

A ideia de que Kakashi estivesse com aquela mulher de novo lhe fez se sentir ridícula. Nada contra a ideia deles felizes juntos, era apenas... Chato ver pessoas que sempre estavam solteiras como Kakashi, encontrando alguém...

E ela ali, paralisada na vida por um amor do passado não correspondido.

- Argh! – Ela bufou com raiva e passou a mão no telefone outra vez.

Desta vez, precisou pensar com afinco para se lembrar dos números, e digitou o número fixo.

A linha pegou e chamou seis vezes antes de cair na caixa postal-

- Você ligou para Hatake Kakashi – disse a voz masculina e levemente rouca no fone do telefone, bem contra seu ouvido, como se ele estivesse ali – Neste momento estou ocupado, mas deixe um recado, eu posso me lembrar de escutá-lo mais tarde – falou com um riso implícito em sua voz que a fez sorrir.

O bip soou e ela prendeu a respiração por um segundo.

- Er... Oi, Kakashi-sensei. – ela se sentiu uma estúpida, babaca, idiota, agora não tinha volta atrás e todo seu corpo se sentiu gelatinoso e depois extremamente tenso, antes dela continuar – Aqui é a Sakura. Eu tentei te ligar algumas vezes, mas parece que você está ocupado... Eu sempre ligo em péssimos momentos – ela praguejou baixinho, porque tinha que ser tão ruim com aquilo?

Sentiu o rosto pegando fogo e suspirou para controlar a voz e a respiração.

- Eu sou péssima deixando recados, mas acho que vou falar até o bip me cortar de novo...

Ela revirou os olhos e se sentou melhor na cadeira, começando a conversar com uma ideia de Kakashi, como se ele estivesse do outro lado da linha escutando atentamente tudo o que ela dizia.

A sensação foi crescendo dentro de seu peito e, em seguida, ela começou a se sentir mais relaxada e aberta para aquela conversa.

Sakura precisava desabafar para alguém, então que fosse para a caixa postal de Kakashi...

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- Eu sou péssima deixando recados, mas acho que vou falar até o bip me cortar de novo...

Kakashi passou a toalha pelos cabelos, secando os fios encharcados e sorriu com o fio de voz inseguro de Sakura, ele quase podia vê-la revirando os olhos e se ajustando na cadeira, decidindo começar a falar.

Ele ajustou o cós da calça do pijama de algodão na cintura e se sentou no sofá para escutar o recado.

- Então, eu estou aqui no hospital entediada... Mmm, Sasuke ligou de novo e eu desliguei meu celular... Eu devo ser uma pessoa insuportável, porque eu só falo sobre ele... Mas... Hn- Ino me ajudou a escolher um psicólogo e as sessões começam semana que vem... Parece que ele é bom. E já trabalhou com "Mulheres que amam demais" – ela pausou e Kakashi recostou no sofá com pesar, encarando o teto em silêncio – Esse nome é péssimo, até parece algo bom, quem ia ter a estúpida ideia de pôr um nome bonito para algo tão estúpido?

Ela parecia estar com raiva e ele reparou na rachadura fina que ia se desenhando contra a tintura branca do teto.

- Enfim... Hn... Pois é, isso significa que eu... assumo que estou numa relação disfuncional... Se podemos chamar de relação algo que é unilateral...

A voz dela ficou evidentemente embargada e Kakashi se remexeu no sofá, sentando-se mais na ponta e encaixando os cotovelos sobre os joelhos, apoiando o rosto sobre as mãos. Sua toalha ficou largada num canto do sofá, umedecendo o tecido grosso.

O fio de voz que veio depois disso o fez contrair o rosto numa expressão preocupada.

- Eu assumo que preciso de ajuda. – ela murmurou, sua voz soou tão dolorida que ele pode vê-la encolhida em sua cadeira do consultório.

Houve um breve silêncio e Kakashi imaginou que ela estava tentando não demonstrar que estava chorando. Uma sensação angustiada se afundou em seu peito e ele suspirou com pesar.

- Bem, Genma já não é uma opção... Eu não poderia fazer isso com a Ino e acho que ele também não parece ser o tipo "funcional" que eu estou precisando para melhorar minha vida – ela comentou, as palavras rolando rapidamente na sala de estar de Kakashi, inundando-o na sensação de estar frente a frente com Sakura, enquanto ela depositava nele sua confiança.

O homem encarou o aparelho, esperando por mais informações.

- E, os caras da minha idade parecem ser todos... tão nada a ver comigo... Não que eu seja lá alguém excepcional, na verdade eu sou todo o contrário disso. Eu sou mesmo uma babaca, há – ela pareceu rir, sem graça, da própria ofensa que desferia contra si mesma.

Ele balançou a cabeça, negando aquilo. Sakura não era uma babaca, ela só precisava acertar alguns pontos e então tudo melhoraria...

- Eu pensei que talvez você pudesse me apresentar para algum amigo maduro e sexy – ela riu, dessa vez a risada soou verdadeira e ele mesmo sentiu o sorriso se formar em seus lábios, ao mesmo tempo que uma sensação de possessividade se enrolou em seu abdômen como uma cobra.

Ele não ia apresentar nenhum de seus amigos, nem que ela lhe pagasse!

- Pois é... Alguém legal, que goste de passear no parque e ver jogos de futebol, tomar cerveja e sair para dançar de vez em quando? Ah- Ninguém muito romântico, acho que os queridos demais me parecem um pouco sem graça – ela riu de novo, levemente embaraçada – Meu deus, aqui estou eu falando com a sua caixa postal, falando um monte de coisas que eu nunca falaria na tua cara...

Kakashi riu, sua voz ecoou no ambiente como complemento para o segundo de silêncio que se seguiu antes que ela prosseguisse.

- Acho que isso daqui é meio terapêutico, eu até me sinto um pouco melhor agora. Acho que vou falar com a tua caixa postal mais vezes.

A porta do quarto se abriu e Kakashi levantou o olhar, vendo Rin ajeitar os cabelos atrás das orelhas.

- Então é isso, parece que o bip tá me dando tempo demais e eu não sei mais o que dizer. Vou ficar esperando pela tua indicação de 'homem do ano', ok? Obrigada por me escutar, sensei, e desculpa pelo desabafo... Boa noi-

"Você chegou ao fim da mensagem, se deseja ouvir outra vez disque-"

Kakashi desligou o telefone e observou Rin. Ela estava apoiada no canto do sofá, olhando o aparelho com interesse.

- Ela parece uma menina legal – a mulher comentou, passando as mãos sobre a camisa polo branca, tirando rugas inexistentes do tecido.

- Ela é – ele murmurou e se levantou, tirando a toalha de cima do sofá e indo estendê-la na porta do banheiro.

- É a de cabelo rosa?

- Uhum.

Era estranho falar sobre Sakura com Rin, ele não queria falar dela. Lhe dava uma sensação estranha de que Rin a estava avaliando, e tudo o que Sakura menos precisava neste momento eram mais julgamentos.

Ela já era seu próprio carrasco.

- Vocês são amigos? – a mulher perguntou, levantando-se e andando até ele.

Ambos pararam no meio da sala e Kakashi a observou com atenção.

- Sim – disse simples, sem se questionar se eram professor-aluna ou amigos mesmo, isso já não importava mais. Sakura precisava que ele a escutasse, então ele a escutaria.

- Hn... – ela sorriu devagar, olhando os lábios sérios dele e levantou uma sobrancelha – Hoje foi bom – Rin comentou, postando as mãos nos ombros dele e massageando os músculos tensos – O que você vai fazer na sexta?

Kakashi suspirou.

Essa noite não tinha sido boa, tinha sido excelente.

Mas nem tudo que é excelente é certo.

- A gente precisa parar – Kakashi decretou, levando os dedos às têmporas e apertando levemente, para tentar dissipar a dor de cabeça que ia nascendo ali de leve, mas para ficar.

- Não faça isso, Kakashi.

- Rin-

- Não – ela disse firme, pegando o rosto do homem em suas mãos e aproximando seus lábios, até que suas palavras encostassem na boca dele ao serem ditas – Você não tem sequer argumentos para falar que isso hoje não foi bom.

Ele sorriu contra os lábios dela. Seu corpo reagia a Rin como nunca. Seu instinto era o de enlaçar sua cintura e prensá-la contra a parede, distribuir beijos molhados por todo seu pescoço, macular aquela camiseta plácida com seus dedos, e marcar a pele dela com seus dentes.

Mas sua cabeça se mantinha firme.

- Você sabe bem que eu não tenho argumentos para isso, mas eu tenho argumentos de porquê isso não pode se repetir – ele falou contra a boca dela e deu um passo atrás.

- Kakashi... – ela pareceu chateada e então seus olhos vagaram para o chão, num misto de indignação e culpa.

- Eu não sou ninguém para dizer isso, mas eu acho melhor você voltar para a sua família. Aproveitar seu tempo aqui com tuas amigas e parentes-

- Para.

E ele parou.

O rosto dela estava corado.

- Eu só tenho uma família porque você não quis ser minha família.

Kakashi suspirou.

Aquela frase tinha ficado pendurada sobre eles flutuando como um fantasma, durante todos esses dias. Rin o culpava, ele mesmo se culpava, mas o que estava feito estava feito, e a realidade era aquela.

- Eu sei disso. Eu sei que o fim do nosso relacionamento foi minha responsabilidade, mas o teu marido e os teus filhos são sua responsabilidade agora. Eu não quero me sentir culpado por isso também.

Rin o encarou ofendida.

O homem se afastou mais e coçou o pescoço, percebendo que agora, mais do que nunca, a situação estava indo por água abaixo.

- É isso o que você pensa de mim? – ela questionou, sua voz controlada e rígida.

- O que eu penso de você Rin, é que você é uma mulher maravilhosa, que eu errei quando te deixei, mas eu não tenho como mudar o passado. Eu acho que você deve ser uma ótima mãe, porque sempre gostou de crianças e que deve ter um marido legal, senão você não estaria com ele. Mas eu não quero ser a pessoa que vai destruir isso, porque você é importante para mim.

Ela riu, o som soou abafado pelo seu nariz e ela parecia incrédula.

- Então você transa comigo como se não houvesse amanhã e depois me diz que não podemos fazer mais isso?

Céus.

- Sim, é isso mesmo que eu falei. Quando você chegou em Konoha e me ligou, eu fiquei três dias adiando todos os nossos encontros exatamente por isso.

Rin tinha uma expressão ferida, sua boca estava aberta e um vinco dolorido cortava entre suas sobrancelhas.

- Eu gosto de você, eu queria ficar com você – ele assumiu, passando as mãos pelos cabelos, meio raivoso, meio desolado. Términos sempre eram tão dramáticos, ele odiava aquilo – Mas, você tem uma família. E eu não quero que você minta para eles e diga que está na casa das tuas amigas colocando o papo em dia quando, na verdade, você está comigo, na minha casa, na minha cama.

- Céus – ela murmurou entristecida. Então passou as mãos sobre o rosto e respirou fundo – Você está certo...

Parecia que, pela primeira vez, ela tinha encarado aquela situação do mesmo modo que ele. Kakashi não queria destruir o casamento dela, ele não queria ser seu amante.

A verdade estava muito clara para eles. Aquilo não passava de uma espécie de passatempo que só geraria mais problemas.

Ela suspirou e passou as mãos no rosto outra vez. Precisaria de um bom tempo para digerir tudo aquilo.

- Kakashi eu te-

- Eu sei! – exclamou, com medo de que se ela terminasse aquela frase ele não ia conseguir manter seu posicionamento. Seus braços a trouxeram para si e a abraçaram com força – E eu também.

Kakashi beijou seus cabelos e apertou seu corpo contra o dele, com carinho e dor ao mesmo tempo, sem que a quisesse deixar ir e tampouco a quisesse deixar ficar por mais tempo.

Seus lábios se encontraram em meio ao abraço apertado e ele saboreou aquele beijo, sabendo que seria o último.

Rin se afastou devagar, depositando um último beijo suave em seus lábios e apertou as costas das mãos contra a boca, evitando o choro.

A mulher respirou fundo e sorriu de leve, sentindo os olhos úmidos.

- Foi bom te ver outra vez – ela murmurou, a voz levemente embargada.

Kakashi acariciou seu rosto e sorriu entristecido. Ele queria poder guardar essa imagem dela pra sempre numa foto. O dia em que a maturidade deles falou mais alto que a paixão.

Eles ficaram em silêncio um longo momento, se olhando, memorizando em suas cabeças as expressões, os traços, as cores... Então Rin andou até a mesa e pegou sua bolsa, a chave do carro e o celular.

O relógio marcava quase às dez horas. Era hora mesmo de ir para casa.

Kakashi a acompanhou até a porta e antes de abrir depositou mais um beijo firme nos lábios dela.

- Eu não vou te convidar para voltar sempre que quiser – ele resmungou e Rin riu.

- Menos mal, senão eu ia querer voltar.

Ela sorriu e ele abriu a porta.

- Tchau, Rin.

- Tchau, Kakashi.

A dor o inundou quando as costas dela se viraram para si e ela desapareceu de seu campo de visão. Era uma dor firme, uma dor gloriosa, de quem teve um anjo à altura das mãos e o deixou escapar.

Deixou escapar para evitar que o anjo caísse, perdesse as asas e abandonasse o reino dos céus.

O pensamento o fez rir dolorido e ele fechou a porta, evitando prolongar a sensação de perda.

Ele precisava de uma cerveja.

O

Já passavam das 23h quando Shikamaru tomou a sexta cerveja e encarou Ino por de trás de suas pálpebras lânguidas.

Temari tinha avisado que era melhor ele dormir na casa da Yamanaka, ou voltar depois das duas. Hnh, ele tinha dito que tudo bem, mas na verdade sua cabeça não conseguia parar de girar ao redor do fato de que Temari e Neji deveriam estar transando em sua própria cama.

Céus...

Ele sorriu sacana e tomou o último gole para disfarçar.

Tinha pensado sobre a pergunta de Ino, sobre qual motivo o fazia querer saber de tudo que acontecia entre o Hyuuga e Temari, mas não se aprofundou muito no tema. A verdade estava superficial e próxima demais, bem ali sob a epiderme, trepidando todo seu corpo com um arrepio quente e elétrico.

Eram as forças da natureza lhe atraindo como partes opostas de um imã. Como um tufão que o engolia até seu interior escuro e turbulento, como a areia movediça que o tragava quanto mais ele se mexia.

Inquieto, firme, contagioso.

Sua mente não silenciava à custa de nada e a curiosidade o esperava em cada esquina do labirinto enredado de sua cabeça. Preso àquelas ideias como se estivesse preso num pensamento compulsivo, obsessivo. Preso a pulsões que nem seu inconsciente compreendia.

- A verdade é que o fato de Temari ter laçado o Neji desse jeito realmente me irrita, eu estava muito mais agradada com a ideia dele ser gay.

- Como? – Shikamaru sentiu a atenção o puxar de volta para a conversa e o canalizar para a informação preciosa que Ino lhe dava.

- Ouvi dizer que o Hyuuga e Itachi tiveram um caso alguns anos atrás.

- De onde você tirou isso? – ele testou a ideia em sua cabeça outra vez.

- Você sabe como as enfermeiras gostam de fofocar, não sabe?

Ela sorriu matreira e ele sorriu de volta.

Neste momento ele adorava enfermeiras.

- Eu não imaginava isso... – Shikamaru comentou, vendo Ino dar de ombros.

- Quando ele não caiu nos meus encantos, foi uma ideia muito convincente e agradável.

- Eu imagino.

Sua mente processou a informação com rapidez. E, de repente, as pequenas pistas de quem realmente era Hyuuga Neji começavam a ser desvendadas. Como um quebra-cabeças complexo que ia se unindo e se mostrando, parte por parte, desenhando uma imagem magnífica e obscura.

Ele estava encarando o abismo e dessa vez o abismo estava olhando de volta com intensidade. As camadas se desfaziam uma a uma e mostravam um núcleo tão borbulhante quanto o interior da Terra.

A força natural daquele evento fazia com que Shikamaru sentisse faíscas de excitação se espalharem pelos dedos das mãos, como chacra, como energia pulsante e uma sensação absurda de controle.

A explosão da natureza parecia tão próxima que ele a sentia no céu da boca, no fundo da garganta, na ponta da língua, misturando-se com o gosto de cerveja e o sabor da descoberta.

Sim, aquilo fazia um sentido absurdo se ele pensasse nos orbes turvos de Neji ao vê-lo beijar Temari na noite passada. Se ele relembrasse o sorriso de lado e a sobrancelha arqueada antes de aceitar jogar Shogi.

Era um ritual de animais selvagens mostrando os dentes, antes de mostrar o pescoço em reconhecimento e confiança.

Era o segundo que precede a queda. E ele via a beirada do precipício sob seus pés.

Hoje, sinceramente, era um dia de sorte para Nara Shikamaru.

Ou, pelo menos, foi o que ele pensou antes de pegar o primeiro taxi para casa depois de pagarem a conta alguns minutos mais tarde.

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N.A.: E lá vamos nós. Hehe #BraceYourselves

Esse capítulo foi difícil de escrever, pois ele é um conector necessário para todo o resto da trama e o desenvolvimento de alguns casais que eu vou começar a explorar no próximo capítulo. To tão empolgada! :) Quero muito saber quais são as expectativas para os próximos capítulos!

Eu espero que vocês tenham gostado!

Love, Tai.

Facebook: Tai Bécquer – meninas, obrigada pelo apoio online e pela paciência! Suas gatas! :***