N/A: Finalmente o capítulo saiu. Ontem sentei e escrevi as 4 cenas que faltavam de uma só vez. Sinto muito pela demora, mas fim de ano é assim mesmo, com trabalho, provas e viagem de férias (minhas viagens são sempre a via crucis até me assentar no destino final). Mas agora que essa turbulência toda passou e eu já me desintoxiquei da vida real e mergulhei de cabeça nas férias, os capítulos devem vir com mais rapidez. Como vocês devem notar, esse capítulo está mais curto que a média. Eu costumo tentar escrever pelo menos 5k, mas decidi que para uma atualização mais constante, eu vou deixar de lado a quantidade e me concentrar no conteúdo e qualidade dos capítulos. Eu espero de coração que vocês gostem! Boa leitura! Aliás, feliz natal atrasado para todas! Beijos ;)


Love Shuffle

Capítulo 17 – Liquid Pain


L

Ela encarou o mar com intensidade. Viu como a água recuava rapidamente, formando uma onda gigante há quase um quilômetro de distância de seus pés, que afundavam na areia molhada e fofa. Afundavam como se ela estivesse sendo engolida por areias movediças.

A onda cresceu frente aos seus olhos e a sensação de impotência foi se fazendo cada vez mais presente e aguda. Quando a onda rolou em sua direção, seu coração disparou, mas seu corpo foi incapaz de recuar, de se mexer, de responder aos seus comandos.

Hinata sentiu o pânico lhe dominar e o peso da vida cair sobre si a medida que a onda se aproximava. A sensação de impotência lhe dominou e, naquele momento, ela jurou que morreria, entre a água e a areia, como tantas outras pessoas vulneráveis à força da natureza.

A onda a engoliu com rapidez, ela engoliu água, sem conseguir respirar, tragou água pelo nariz e boca e sentiu o pulmão se encher de líquido, buscando desesperadamente por uma lufada de ar.

Seu corpo retesou e ela despertou tossindo e sugando o ar com pressa, assustada.

O quarto do hotel se configurou ao seu redor e ela respirou afobada até que a realidade lhe atingisse em cheio, inundando-a de um alívio profundo.

Sua cabeça latejou e ela piscou com força, lembrando-se aos poucos da noite anterior, um terror absurdo lhe possuiu e seu corpo se sentiu congelar.

Meu deus, o que tinha feito?

Genma entrou pela porta do quarto estranhado e a observou em silêncio. Hinata puxou os lençóis contra o corpo.

Ele cruzou os braços no peito e a encarou preocupado.

- Você tá bem?

Ela fez que sim, olhando ao seu redor atordoada, perdida, um desespero crescente tomando conta de si, enquanto a racionalidade não retornava completamente.

- Nós...?

Ele riu e passou as mãos pelos cabelos.

- Não – ele disse suavemente e andou até o pé da cama, calmo – Eu gosto muito de mulheres, e você é uma mulher linda, mas alcoolizadas e vulneráveis não fazem meu tipo.

Ela suspirou aliviada pela segunda vez naquela manhã e viu que ainda vestia a mesma roupa da noite anterior.

Graças à Deus...

- Muito obrigada – ela murmurou, envergonhada – eu sinto muito-

- Você não precisa sentir nada – Genma se sentou na beirada da cama, de costas para ela e suspirou – Mas acho que você disse algumas coisas muito sérias ontem, coisas que não deve se esquecer ou deixar passar batido.

Ela encarou as próprias mãos, as unhas bem feitas, o solitário no dedo anelar direito, o tremor leve de seus dedos.

- Eu nunca tinha escutado alguém dizer que nunca tinha governado sua própria vida, nem que sentia que os estilhaços de sua vida estavam espalhados por todas as partes... – ele respirou fundo e se virou, encarando-a em cheio e fazendo a mulher lhe olhar de volta – Eu não tinha reparado quão danificada estava a tua vida, nem quanta ajuda você precisava, mas acho que precisamos fazer algo a respeito.

- Fazer algo? – ela piscou, sentindo-se frágil e dolorida por todas as partes, mas principalmente em sua cabeça e em seu coração – Fazer o quê?

- Não sei bem, eu não sou psicólogo, Hinata... Mas você precisa tomar as rédeas da tua vida.

Hinata concordou com um aceno. Ela sabia daquilo, mas ela não sabia o que devia fazer, nem por onde começar.

- Como? – sussurrou a pergunta, trêmula.

- Quem é Hyuuga Hinata? – ele perguntou firme e ela prendeu o ar – Quem é você?

Genma se levantou e enfiou as mãos nos bolsos.

- Você precisa decidir quem você é, e precisa se empoderar disso.

- Me empoderar?

- Quem se esconde debaixo dessa pele de cordeiro, quem é o lobo que espreita por detrás dos teus olhos, quem quer sair mas não tem forças para quebrar essa armadura de boneca de porcelana?

Os olhos dela se arregalaram.

Quem era ela? Quem ela não deixava sair? Isso era tão estranho e absurdo e ao mesmo tempo tão real. Quantas vezes tinha evitado falar, evitado se posicionar, evitado decidir seu próprio destino?

- Quem sou eu? – ela se perguntou baixinho.

- Você vai ter que descobrir, depois nós podemos pensar no que fazer, qual estratégia seguir...

Seus olhos lacrimejaram com um medo aterrador, uma ideia estranha de que precisava descobrir sua identidade debaixo de anos de treinamento e submissão.

Ele deu as costas, dando-lhe privacidade e espaço.

- Você me liga, quando estiver preparada – decretou, antes de sair do quarto e abandoná-la em seu próprio silêncio e reflexão.

Hinata se encolheu sob as cobertas e encarou a parede. Será que ela era forte o suficiente para se encontrar dentro de si mesma, de se diferenciar entre opressão, ordens e expectativas externas e quem ela realmente almejava ser, livre e plena?

As palavras citadas por Temari no café da manhã que tiveram no hospital surgiram em sua mente como uma lâmina afiada e escorreu como líquido em seu corpo:

"Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância."

E de que substância Hyuuga Hinata era feita?

I

Sakura sentiu um tremor febril tomar conta de seu corpo, fazendo-a respirar com rapidez numa busca insaciável por ar. Aninhou-se baixo da água quente que descia do chuveiro, a sensação era quase suficiente para que ela conseguisse respirar melhor.

Mas as dúvidas, a ansiedade e o medo, esses não a deixariam em paz tão cedo, ela sabia disso. Ela conhecia todos os caminhos que o labirinto de sua mente costumavam fazer, e todos eles caiam no mesmo lugar, caiam em Sasuke, em sua voz, em seu corpo, nas voltas tortuosas que ele dava em sua vida, transformando tudo numa completa bagunça desesperada que ela não tinha fôlego para aguentar.

Não agora.

Encostou a testa contra o azulejo frio e respirou fundo, tentando conter um possível ataque de ansiedade, tentando evitar aquele tsunami de sentimentos e culpabilidades.

Se eles realmente precisavam conversar sobre algo importante, eles o fariam quando ela se sentisse bem.

Mas naquele momento tudo o que ela mais precisava era descansar. Era absorver todos aqueles sentimentos, absorver tudo aquilo que compartira com Kakashi por mensagens telefônicas, numa espécie de brincadeira infantil que se sentia muito mais dolorosa e madura do que ela a princípio planejara.

Carregar as dores dele junto das suas, como se compartissem dos mesmos sentimentos, era aterrador ao mesmo tempo em que era um alívio. Como um suspiro dolorido, necessário e profundo.

Sakura precisava de tempo, mais do que nada. Precisava espaço para que as coisas se organizassem no labirinto de sua mente novamente, antes de dar um primeiro passo e se aventurar por um dos caminhos que precisaria tomar.

Foi com isso em mente que se deixou dormir naquela manhã, buscando alivio e segurança. Buscando uma saída.

Q

Neji achou que algo mudaria, que todos notariam, que seria impossível sobreviver àquele dia de trabalho. Mas quando chegou um pouco atrasado, vestindo roupas que obviamente não eram suas, sua secretária apenas sorriu educada e não disse nada.

Ele pode se trocar em paz e repassar mil vezes algum tipo de mantra budista que tirasse de sua mente a ideia fixa do corpo de Shikamaru contra o seu.

Não funcionava completamente, mas ajudava a mente a mudar de foco com mais agilidade. Até tinha tentado recitar mentalmente Basho, Sei Shonagon e outros clássicos. Mas muitas das palavras o lançavam de novo à cova dos leões, onde seu peito apertava e o coração disparava desesperado com as sensações quase físicas da presença do outro.

Como um sonho lúcido, como um puxão apertado que o levava outra vez à fonte de todos os seus medos.

Assim o dia transcorreu, numa névoa misturada entre sonho e realidade que o faziam demorar a responder ou engolir um pouco mais do chá com remédio para dor de cabeça.

Às vezes a culpa o cegava, ele sentia um calor frio, como se adoecesse com o simples lampejo de erros malditos. Nada que ele realmente pudesse evitar depois de haver pecado tão profusamente, mas algo que poderia ter sido evitado se a carne não fosse fraca.

Seu tio estava extremamente contente com o trabalho de Hinata, embora a jovem tivesse avisado que não poderia comparecer hoje devido à uma forte enxaqueca.

Neji se perguntara que tipo de enxaqueca era a de Hinata, se realmente a dor lhe tomava a cabeça e as entranhas, ou se a dor lhe possuía o coração; ou até mesmo a boca do estômago – como ele mesmo sentiu ao longo daquela manhã: como um soco bem dado, um nó atado, um caminho sem saída.

O remédio aliviou seus sentidos ao longo da tarde, mas nada foi suficiente para aquietar a estranha determinação de seus pensamentos em voltarem uma e outra vez para cenas mais firmes em sua memória, ou para o aperto suave da mão de Shikamaru contra seu ombro quando o acompanhou até a porta do apartamento e lhe desejou um bom dia.

As interações dessa manhã tinham sido praticamente inocentes, suaves, simples, sem segundas intenções à primeira vista...

Uma pergunta gentil, brechas para que ele pudesse escapar sorrateiro, uma roupa dobrada sobre a cama, um sorriso confidente ao lhe estender o primeiro cigarro da manhã, um roçar de mãos puramente acidental, os dedos de Shikamaru apoiados em seu ombro enquanto lhe abria a porta...

O que fazia tudo pior, tudo mais doloroso, tudo mais profundo do que ele gostaria que fosse. Ou talvez ele estivesse vendo demais em coisas sem importância, de novo.

Se aquelas pequenas demonstrações mudas fossem de Temari, ele as tomaria como uma delicadeza feminina mandatória. Mas vindas de Shikamaru, elas lhe geravam uma ternura saudosa que arranhava as cordas do coração como há muito não sentia, vibrando sem sentido em seu peito sem que ele pudesse contê-las.

Neji se perguntava se poderia sobreviver àqueles detalhes suaves da vida outra vez. E a insistente petulância de um "e se..." o fazia segurar a respiração e sentir o corpo arder uma e outra vez, como lava líquida, prestes a entrar em combustão.

U

- Nós precisamos conversar sobre ontem?

Shikamaru levantou os olhos da planilha de bolsas de valores de todo o mundo que se abarrotavam na tela do computador e encarou Temari apoiada no batente da porta.

Ela parecia tranquila, mas um brilho curioso e típico dançava por de trás de toda a tranquilidade que ela tentava emitir.

- Não sei, precisamos? – ele retornou a pergunta.

Temari sorriu de lado e cruzou os braços. Eles tinham aquele jogo obvio de devolver as perguntas, de devolver as suspeitas, de devolver as armadilhas...

- Não precisamos, mas podemos.

Ela entrou no escritório e se sentou na poltrona sob a janela, encarando-o com atenção, a curiosidade agora estampada em sua face.

- Podemos – ele concordou, lançando um último olhar para o computador antes de girar a cadeira para próximo dela – Diga lá. – ele abriu a brecha para a namorada e ela sorriu agradecida.

- Aquilo foi... Intenso. – ela havia demorado horas até se decidir que às 16h já dava para atrapalhar o trabalho de Shikamaru sem parecer muito interessada.

O homem se remexeu na cadeira e riu baixo, com uma coisa estranha agarrada no peito, como uma dificuldade em explicar o que exatamente tinha acontecido ontem.

- Você se sentiu em algum momento ofendida? Se você-

- Não, – ela balançou a cabeça, se afundando mais na poltrona em seguida – De jeito algum. Na verdade eu fiquei curiosa... – ela assumiu, cruzando as pernas – Nós nunca conversamos sobre isso antes, mas se você tiver interesse, então um trio me parece uma ideia adorável, se estamos falando sobre Neji, claro.

Shikamaru sorriu ao vê-la desse modo, confortável com tudo aquilo.

- Na verdade eu duvido que algo mais aconteça, Temari.

- Como assim, você não viu o modo como ele te olhou? Eu cheguei a sentir um misto estranho de inveja e ciúmes – admitiu, os olhos brilhando com intensidade. Aquela mulher estava definitivamente fora da caixinha.

Shikamaru suspirou, sem querer lembrar de nenhum olhar vindo de Neji, pois eles o atordoavam, lhe causavam um arrepio frio na base da coluna e uma sensação gelatinosa nos joelhos. Algo estranho e incontrolável que ele não estava disposto a se deixar sentir naquele momento.

- Eu vi. Mas também o vi hoje de manhã, e Neji não me pareceu nada interessado em repetir a loucura de ontem, talvez estejamos nos metendo em algo que sequer seja tão bem vindo.

- Sim... Eu reparei no café da manhã. Ele não estava só rígido como o normal, ele estava quase tímido... Como se nós-

- O tivéssemos visto por debaixo da armadura.

- Exato.

- Vamos dar tempo para ele, ok? – Shikamaru determinou e ela concordou com a cabeça.

- Se ele vier por mais, ou apenas por mim, nós respeitaremos a escolha dele – ela propôs, se levantando e ele concordou com a ideia.

Tudo o que Neji precisava pelo visto era de espaço e tempo, para rever tudo aquilo e reorganizar as peças no tabuleiro.

- Mas saiba que eu nunca vou me esquecer daquilo – ela assumiu rindo – foi a coisa mais sensacional que eu já vi nessa vida!

- Temari...

- É verdade, aquela intensidade... a sofreguidão... Parecia um livro!

- Menos.

- Ok, eu vou tentar... Aliás, vou sair para comprar algumas coisas, você precisa de algo?

- Nah.

- Lubrificante?

- Temari! – ele recriminou, vendo-a escorada no batente da porta rindo marota.

- É brincadeira... Mas... – de repente o olhar dela ficou visivelmente mais sério – E se ele vier por você?

A pergunta dela pairou no ar como fumaça e Shikamaru sentiu a imensa necessidade de fumar um cigarro.

- Não seja ridícula – ele murmurou com uma voz estranha até para ele, soturna e arrastada – Me traga um maço de cigarro.

- Tá bem – ela concordou, se afastando do batente – Mas se ele voltar por você, então considere isso um passe livre, fica nas tuas mãos decidir ir em frente ou dar um passo atrás.

Com isso ela piscou um olho e saiu do escritório.

Fica nas tuas mãos decidir ir em frente ou dar um passo atrás.

Nas minhas mãos.

Shikamaru não soube o que fazer com o pensamento, então voltou a mergulhar no trabalho para evitar pensar. Quando Shikamaru começava a pensar ele não conseguia parar até que todas as pontas estivessem amarradas.

E, estranhamente, Hyuuga Neji era um quebra-cabeças complexo demais, com muitas pontas, e o núcleo daquele enigma parecia mais denso do que ele previra. Denso demais para poucas horas de reflexão.

Hyuuga Neji era um mundo, e Shikamaru ainda não tinha certeza se queria adentrar aquele mundo e desbravá-lo com as próprias mãos.

I

- Você tem certeza de que está bem? – Ino perguntou preocupada, vendo as olheiras de Naruto e achando o rapaz muito quieto.

- Sim – disse simples, carregando a lata de tinta para um dos quartos – E Shikamaru?

- Ele disse que algo tinha surgido e que precisava de um tempo para pensar – ela comentou, seguindo o loiro com algumas fotos de decoração nas mãos – Ah, e Sakura estava muito cansada pelo plantão, então não deve vir.

O loiro colocou as latas no chão e encarou a parede em branco. Ter algo para se ocupar durante o fim de semana seria ótimo, faria com que sua cabeça parasse de percorrer os caminhos escorregadios que tinha decidido seguir nas últimas 24h.

A ideia de pensar em Hinata ou em Sasuke lhe gerava uma dor de cabeça profunda que ele não sabia como desviar, nem os analgésicos estavam fazendo efeito mais. Nem trabalho ou musculação. Nada era suficiente para afastar a dor e os pensamentos.

Sasuke sequer tinha aparecido no trabalho, ou tinha ficado bem longe de sua vista.

Hinata não tinha dado sinais de vida e tudo o que ele mais precisava nesse momento era manter a distância.

Quão mais distante melhor.

- O que houve, Naruto?

O peso do mundo sobre seus ombros resvalaria se ele falasse? Se dissesse em voz alta o que o atormentava? Aquilo diminuiria se pudesse compartilhar a dor e as dúvidas com Ino?

- Você quer conversar?

Ele queria?

Naruto fechou os olhos, as mãos pousadas na cintura e deixou a cabeça tombar para frente, vencido.

- Eu terminei com a Hinata – murmurou.

- Oh.

- É...

Ino ficou em silêncio, respeitando sua dor, esperando caso ele quisesse continuar. O que foi efetivo, já que o loiro levantou a cabeça e voltou a encarar a parede, antes de continuar falando.

- Você alguma vez sentiu que todos os teus planos nunca poderiam ter dado certo?

A pergunta foi certeira, raspando perto demais do coração e ela sentiu as mãos tremerem.

- Sim – respondeu simples, sua própria voz tremendo de leve, quase imperceptível.

A resposta era rápida pra uma pergunta que ela mesma já tinha feito uma e outra vez.

Às vezes a vida parecia querer que você se despedaçasse até perceber que nada seria como você tinha previsto, como tinha planejado... E aquilo é o que fazia da vida uma imensa montanha russa misturada com casa dos horrores.

- Eu sempre achei que tudo seria simples, que eu já tinha passado por coisas ruins demais... Mas ultimamente parece que a vida está querendo me demonstrar que tudo pode ficar pior... Que sempre podemos sofrer mais.

Ino se calou diante daquilo. Ela nunca tinha sofrido muito na vida, não como Naruto... Nunca tinha perdido ninguém. Nunca tinha sido rejeitada ao pedir alguém em casamento. Mas ela entendia o sofrimento, ela entendia por onde pairavam as águas escuras desse rio bravo que era a vida.

- Tenho me sentido tão fora de mim, como se eu fosse outra pessoa, como se não controlasse meus sentimentos e reações.

Naruto suspirou pesado e deu a volta. Seus olhos azuis estavam marejados e repletos de uma dor tão aguda que quando as lágrimas vieram, era como se fosse dor líquida e Ino se moveu depressa para envolvê-lo num abraço forte.

Seus dedos acariciaram os cabelos espetados e suaves, sua outra mão apertando firme as costas do rapaz, num desejo honesto de levar sua dor embora, de tirá-la com as mãos para que ele pudesse descansar, por fim.

Os soluços nasceram do fundo do peito dele e escalaram por sua garganta sem que ele pudesse controlar, soluçando como uma criança, com o rosto escondido na curva do pescoço dela e o corpo tremendo com o choro.

Era bom se sentir acolhido, era uma dádiva ter a Ino ali, lhe apoiando, sem deixar que as paredes desabassem sobre ele e o soterrassem. Ele se sentiu seguro entre os braços dela, com a segurança de que se as paredes desabassem, ela o tiraria de debaixo dos escombros e o puxaria para fora da destruição.

- Eu sinto muito, Naruto – ela murmurou, beijando seus cabelos, sentindo a dor dele a envolver e os olhos arderem.

Ver a Naruto daquele modo era terrível, não era a tristeza caricata que vira quanto Hinata o rejeitou, não, era de cortar o coração como se ele por fim entendesse o ponto final daquele capítulo de sua vida.

Era tão doloroso que ela o deixou se agarrar no tecido de sua blusa e chorar por tanto tempo que ela perdeu a noção de que horas eram.

- Eu acho- ele soluçou, trêmulo, sua voz embargada e as palavras soando abafadas contra a blusa dela, aquecendo seu ombro úmido de lágrimas – Acho que perdi a Sasuke também... Acho que não tem volta atrás... – as palavras se misturaram no choro e ela se sentiu confusa.

Por que a amizade com Sasuke estava perdida, ou como isso se encaixava naquele momento, ela não fazia ideia, mas agora ele tremia mais, e ela entendeu que a possibilidade da perda de Sasuke o aterrorizava tanto ou mais do que o término com Hinata.

- N-não sei como lidar com iss-o... E-eu não tenho como dar a ele o que ele precisa e- o soluço o fez tremer e ela achou que ambos desabariam ao chão a qualquer momento – Eu não quero perder o meu melhor amigo, eu simplesmente não consigo imaginar a vida sem ele... Não a-assim!

- Naruto, o Sasuke não deixaria de ser teu amigo por nada no mundo – ela murmurou, ninando-o contra seu corpo, sentindo os braços quase cansados do abraço.

- V-você não entenderia – ele resmungou, apoiando a testa no ombro dela e respirando fundo – E-eu não sei c-como resolver isso... Eu me sinto t-tão cansado...

Ela apertou os ombros dele, finalmente se afastando ao se certificar de que ele não desabaria ali no meio do quarto vazio que futuramente seria um escritório.

Seus olhos claros encontraram os dele e ela o encarou firme.

- Às vezes as coisas parecem ser mais aterradoras do que imaginamos, Naruto – Ino comentou, seus dedos apertando de leve – E às vezes, nós só precisamos desconectar e descansar para ver as coisas com mais claridade.

Ele concordou com a cabeça, secando o rosto nas mangas longas da camiseta, como uma criança. Seu rosto estava vermelho, seus olhos e lábios inchados pelo choro, os cílios úmidos, os cabelos bagunçados.

- Você vai dormir aqui hoje – ela sentenciou, roubando-lhe uma expressão surpresa pela firmeza de sua decisão – Você não precisa enfrentar isso sozinho. Saiba que você nunca está sozinho, não enquanto eu estiver viva.

Os lábios dele tremeram e ele fechou os olhos tentando conter as lágrimas de gratidão que agora faziam seu queixo tremer pela ternura que o inundava com o olhar cálido dela.

- Agora nós vamos te colocar na cama, tomar algo para dor de cabeça, e decidir que remédio é melhor para dor de coração: brigadeiro ou pizza. Amanhã você pode voltar a pensar nisso tudo, mas hoje você vai descansar.

Ele concordou com a cabeça e se deixou guiar pelo apartamento, sentar-se na cama, tirando os sapatos e ser colocado na cama como uma criança, enrolado nas mantas.

Ino sorriu quando o viu tomar o chá com analgésico, depois de comer um pedaço grande de pizza, agradecendo com uma voz tão pequenina que ela quase não reconheceu.

E ela deixou as lágrimas escorrerem silenciosas quando ele adormeceu no lado direito da cama, ao seu lado, encolhido como se fosse uma criança. Ela se perguntou quando é que as pessoas deixavam de sofrer e passavam a serem felizes, e se demoraria muito até que algum deles encontrassem um pouco de paz.

No meio da noite, quando Naruto acordou para ir ao banheiro, um pouco atordoado e sem saber onde estava, a mão de Ino segurando a sua funcionou como uma âncora real o suficiente para que o pânico e a ansiedade não o atingissem em cheio.

Quando ele se deitou de novo, arrastou o corpo para perto do dela até que seus ombros se tocassem, e aquele pouco de calor humano que eles compartilhavam foi suficiente para o ninar de volta ao sono.

D


N/A: Esse cap, como o anterior, é mais uma construção do terreno que vamos precisar para o melhor desenvolver das coisas. Saiu mais dolorido do que eu imaginava, mas eu gostei muito! Espero que você também, me contem o que vcs acharam, ok?

Love, Tai.