N/A: Vocês são umas queridas, muito obrigada pelos comentários! Nem demorou tanto assim, né? Boa leitura!


Love Shuffle

Capítulo 18 – Stop Thinking


S

Sakura saiu do consultório e respirou fundo. Grande parte de sua primeira sessão com o psicólogo tinha sigo ela chorando e contando sobre sua relação com Sasuke. Em muitos momentos o homem apenas a escutou e fez um comentário ou outro que a levasse a refletir um pouco mais sobre o tipo de relacionamento que eles tiveram ao longo dos anos.

Ninguém precisava dizer que era patológico ou abusivo, o próprio psicólogo não disse nada, era obvio e ele fez um bom trabalho em parafrasear algumas frases dela para que fixasse cada vez mais que a responsabilidade naquilo tudo sempre estivera presente ao não conseguir sair daquele ciclo vicioso, e que estava nas mãos dela fechar aquela porta e dizer adeus.

Ao mesmo tempo, ela ainda não se sentia suficientemente forte para falar com Sasuke e escutar o que quer que fosse que ele precisava lhe dizer. Ela tinha medo de cair nas mesmas armadilhas de sempre, e ter que voltar a engatinhar daquele ponto em diante.

Ela ainda precisava de alguns dias para resolver o que aconteceria dali em diante. Como se posicionaria e como se manteria firme em sua decisão de parar com aquilo tudo.

Pegou o celular da bolsa, desativando o modo avião e checando a mensagem de Ino sobre irem para o apartamento hoje de noite para pintar o quarto de hóspedes. Respondeu rapidamente confirmando sua presença e então abriu o chat com Sasuke.

A última mensagem era de mais de um mês atrás. Ela respirou fundo e digitou uma mensagem rápida.

"Entrarei em contato com você assim que der. Me dê um tempo."

Observou a confirmação de envio e chegada ao celular do outro e aguardou um pouco, apreensiva, mas não houve luzes azuis avisando que ele lera, então ela voltou a guardar o aparelho e saiu andando pela rua.

O consultório era próximo ao antigo colégio onde estudara com seus amigos. Uma sensação gostosa de nostalgia roçou no peito e ela andou as três quadras ansiosa por olhar os portões e jardim de entrada.

Era quase hora da saída, então ela buscou pelas janelas da escola por algum rosto conhecido: Kakashi-sensei, Kurenai-sensei, Oroshimaru-sensei...

Ela pensou rapidamente em Asuma-sensei e sentiu um vazio estranho no peito. Ela se lembrava bem de quando o acidente nas montanhas aconteceu, quando ele ficou desaparecido por quase dois dias e quando encontraram o corpo dele na trilha, vítima de um rolamento de neve e terra.

Kakashi havia ficado extremamente estranho nas semanas que se seguiram, Shikamaru, Ino e Choji chegaram a faltar alguns dias, afinal ele era seu tutor, e os rapazes tiveram muita dificuldade em lidar com sua perda. Tinha sido a primeira perda próxima de si, ela mesma tinha visitado aquele canto escuro da percepção de que a vida é algo frágil e incontrolável.

Tão incontrolável quanto o coração...

Seus olhos esbarraram com um perfil conhecido em uma das janelas. Kakashi estava apoiado em sua mesa em uma das salas de aula, observando os alunos atentamente, enquanto estes faziam alguma prova ou tarefa, muito compenetrados. Ela sorriu e pescou o celular na bolsa.

Aquilo ia ser divertido.

Escreveu rápido uma mensagem para ele.

"Ei sensei, olhe pela janela!"

Ela enviou e observou o homem, ele descruzou os braços e tateou os bolsos da calça cargo, pegando o celular que devia ter vibrado, já que os alunos seguiam atentos às suas atividades.

Kakashi mexeu no aparelho e sorriu, alçando o rosto para a direita e encarando a janela.

Seus olhos se encontraram e ele sorriu mais, os cantos dos olhos apertando em uma expressão contente.

Sakura deu um tchauzinho com a mão e sorriu de volta. Movendo-se rápida para escrever mais uma mensagem:

"Você quer ir almoçar?"

Levantou o olhar e o viu ler rapidamente e digitar algo.

"Tenho reunião de professores antes de sair. Que tal amanhã?"

Ela sentiu uma pena estranha no peito.

Depois das mensagens trocadas pela caixa postal ela se sentia estranhamente próxima dele, como se a amizade tivesse ganhado um novo nível que ela ainda estava se acostumando, algo que gerava uma curiosidade e ansiedade intensa em desbravar.

"^^ Amanhã então! Às 13h?"

Seus olhos esmeralda se fixaram de novo no homem. Ele observou os alunos com seriedade antes de voltar sua atenção para a tela, depois virar-se de frente para a janela e acenar afirmativamente.

Sakura sorriu contente e fez uma mímica barata avisando que ligaria depois, o que o fez esconder o sorriso com a mão para evitar que os alunos percebessem. Ela escreveu e apagou a mensagem seguinte pelo menos duas vezes, mas na terceira vez ela enviou.

"Obrigada pelas mensagens de voz. Até amanhã! :*"

Kakashi tirou a mão do rosto e leu a frase. Quando seus olhos se encontraram de novo, havia uma profundidade intensa em suas írises, uma mistura entre cumplicidade, dor e seriedade.

O homem apenas piscou demoradamente, como se dissesse que entendia o agradecimento, e sorriu entristecido, antes de voltar a atenção para os alunos mais uma vez e se 'desconectar' da conversa que estavam tendo.

Sakura percebeu a deixa e seguiu seu caminho até o ponto de ônibus mais próximo.

Seu celular vibrou outra vez assim que se sentou no ônibus e ela sorriu, mas o sorriso não viveu nem poucos segundos assim que viu a resposta de Sasuke na tela.

"OK."

Ok? Por que diabos ele tinha que ser tão monossilábico? Bem, que se danasse, ela não ia gastar mais tempo pensando sobre aquele idiota mesmo, ele não merecia os pensamentos del-

"Vou estar esperando. Você precisa entender algumas coisas."

Ela mordeu a língua de leve, sentindo uma curiosidade obscena arranhar no fundo no peito. O que diabos Sasuke queria que ela entendesse?

Sakura pensou em responder, em falar para ele desembuchar tudo logo e a deixar em paz. Mas isso não ajudaria em nada, ela precisava encará-lo e terminar logo aquilo de uma vez por todas.

- Você que precisa entender algumas coisas... – ela resmungou irritada e desligou a tela, devolvendo o celular para a bolsa, alçando a vista pela janela e perdendo longos minutos num debate interno com a figura de Sasuke.

Nenhuma das linhas de imaginação acabava bem. Ela sempre saía chorando, se sentindo um lixo, ou então acabava o desculpando e voltando atrás dele como um cachorrinho.

Precisaria treinar imagens dela fechando aquela porta e andando em direção a sua própria estabilidade. Até conseguir falar com ele cara a cara.

Sakura precisava acreditar que podia fazer aquilo, então teria uma nova saída mental e também real.

T

Neji observou Hinata andar de um lado para o outro sobre o tapete de seu escritório. A saia lápis vinho lhe sentava bem demais, ornando com a camisa creme de seda e os brincos delicados de rubi. Ela tinha se arrumado de um modo tão diferente hoje, usando roupas que realçavam mais suas curvas e uma maquiagem simples, mas atraente, que ele se perguntou se algo havia acontecido ontem. Se a enxaqueca tinha algo a ver com Genma.

- Você está diferente – ele comentou, bebericando o café, sentado em uma das poltronas e ela volteou, olhando-o levemente surpresa.

- Você acha?

O coque de cabelo realçava os brincos, o caimento da camisa, expondo o início de suas clavículas e tentando os olhos.

- Você está muito bonita.

- O-obrigada – seus olhos claros baixaram até o tapete e ficaram presos nos detalhes do mesmo durante um longo segundo antes te voltar a olhá-lo com firmeza, embora a amabilidade de sempre estivesse ali, espreitando – Você já teve a sensação de que não sabe bem quem é? De que vive um papel que nunca teve coragem de romper?

Aquilo o pegou desprevenido e ele cruzou as pernas, apoiando melhor as costas no encosto do sofá. Uma mistura de baque e tentativa de compostura.

Se ele já tinha sentido aquilo? Há! Ele quis rir, mas o gosto amargo no fundo da boca era forte demais, então ele apenas ajeitou a lapela do terno e correu os olhos pela sala.

Não valia a pena mentir, muito menos agora que estavam tentando criar um vínculo de amizade mais profundo e verdadeiro.

- Somos Hyuuga, Hinata, é obvio que eu já passei por isso.

Ela sorriu entristecida, cruzando as mãos no peito, apoiando os peep-toes vinho contra a textura delicada do tapete.

- Eu tenho sentido isso demais ultimamente... Como se precisasse trocar a pele, como as cobras fazem.

- Você não é uma cobra – ele pontuou, se mantendo tão distante quanto possível dos sentimentos dela, pois eles esbarravam próximos demais à feridas abertas.

- Eu sei... Apenas acho que nunca me dei a chance de tentar ser eu mesma.

- Ninguém te deu essa chance.

Era um fato. A nenhum dos dois lhe foi dada a chance de ser quem quiser que eles fossem. Não. Eles eram Hyuugas, e isso era o bastante. E ser você mesmo dentro daquela família não era simples, não era possível, não era fácil. Era perigoso e arriscava demais.

- Às vezes eu queria jogar tudo pro alto e fazer tudo o que me viesse pela cabeça – ela murmurou, com um pequeno sorriso sonhador que fez metade do coração de Neji desabar num solavanco.

- O que você faria? – perguntou curioso.

- Não sei – os olhos dela brilharam, mas havia amargura na voz – Eu acho que me imporia mais, iniciaria algum projeto na empresa só para mulheres, tentaria mudar meu estilo de roupa, talvez eu viajaria sem data de volta...

- Eu também... – ele disse num impulso, quase se arrependendo, mas o olhar curioso dela, cheio de vida, lhe fez se sentir um pouco mais tranquilo e ele deixou um sorriso minúsculo percorrer seus lábios.

- Você também viajaria?

- Não – assumiu – Eu também queria fazer tudo o que viesse a minha mente – explicou-se e ela concordou com a cabeça.

- E o que você faria?

Sairia do armário. Foi a ideia instantânea que perpassou sua cabeça e ele mordeu a língua. Neji não era necessariamente gay, pelo menos ele não se via assim, mas obviamente sua atração ia mais nessa direção... Embora algumas mulheres como Temari ou Tenten fizessem suas noites muito interessantes... Nenhuma delas conseguia evocar aquilo que Itachi, ou mesmo Shikamaru na outra noite, conseguira.

Como uma tempestade no meio da seca.

Céus.

- Eu certamente me mudaria do Condomínio familiar, não daria ouvidos para o que teu pai ou nossos avós pensariam de mim e das minhas ações... Do meu estilo de vida...

- Estilo de vida? Eu gostaria de descobrir qual é o meu estilo de vida – ela suspirou – Eu me sinto tão perdida... Quem é Hyuuga Hinata? Quem sou eu? Essas dúvidas ficam girando ao meu redor e eu não sei o que fazer com elas.

- Não acredito que as pessoas saibam completamente quem são, Hinata – Neji sentiu o peso de suas próprias palavras – Nós podemos tatear essas ideias, nós podemos identificar o que queremos.

- Quem você acha que eu sou?

Ele riu.

- Além de ser uma ótima Hyuuga? – perguntou com desdém.

Ambos eram. Miniaturas de seus pais, caricaturas do desenho que os mais velhos previram para eles.

Neji se levantou. Eles eram uma geração derrubada desde o início, desde o engatinhar: podadas, reprimidas, modeladas ao reflexo de seus antepassados.

Mas eles podiam se levantar, juntos. O pensamento aqueceu de repente seu peito. Eles podiam ser fortes juntos, eles podiam mudar o futuro, e a estranha ideia de não estar sozinho naquela árdua empreitada o fez se sentir tão seguro e forte, que seu coração bateu mais rápido, tomado por uma emoção clandestina e ele a olhou sério.

- Sinceramente, Hinata, eu acho que você pode ser quem você quiser.

Sua voz soou como se fosse de outra pessoa, alguém muito decidido a transmitir aquela mensagem não apenas para ela, mas também para si mesmo.

- E eu sempre vou apoiar você, seja como for – concluiu, apoiando a mão no ombro magro e frágil dela, sentindo-a tremer de leve com o tato e com aquelas palavras – Nós não estamos sozinhos nessa guerra enquanto estivermos lado a lado.

Os olhos dela marejaram e um sorriso trêmulo roçou seus lábios.

- Você também, nii-san – ela tocou o cotovelo dele, segurando-o numa espécie de reafirmação – Você pode ser você mesmo comigo, e nós construiremos um espaço para viver no meio desse mundo de regras e obrigações.

- Um abrigo – ele contribuiu, a sensação estranha de encontrar em Hinata um abrigo, um espaço de liberdade, tomando dimensões profundas em seu peito.

- Sim, um abrigo – ela concordou e eles ficaram em silêncio por um tempo.

Neji pensou que gostaria de conversar um dia com Hinata sobre Itachi, sobre as coisas que ela devia ter escutado por aí. Mas por enquanto ele se sentia incerto demais para falar sobre aquilo. Eles precisavam cimentar mais as bases desse abrigo se quisessem viver ali, reclusos da ditadura Hyuuga.

- Você está melhor? – ele perguntou suavemente, soltando seu ombro e voltando a se distanciar e deixar a xícara de café sobre a mesinha do canto.

- Estou me descobrindo.

E ele sorriu, ele também estava num estranho processo de descobrimento, começando do fato de se deixar perceber o que mais poderia acontecer entre ele, Temari e Shikamaru.

Hinata permaneceu no escritório por mais meia hora, comentando sobre algumas novas decisões sobre a festa da empresa, depois saiu com uma despedida simples e um pequeno sorriso no rosto.

Vê-la florescer fazia algo dentro dele querer florescer também, desabrochar, se lançar nesse mar de inseguranças que o cercava tão proximamente.

Checou o celular e visualizou as mensagens de Temari.

Eles não tinham se falado ontem, ele tinha evitado qualquer contato. Neji ainda não sabia bem como proceder ou o que significava terem passado aquela noite juntos daquele modo.

Ela o havia chamado para ir até a casa de Shikamaru hoje de novo. Seu corpo gritava para ele aceitar a proposta, para não ser nem parecer um maldito adolescente envergonhado ou confuso.

Mas era exatamente assim que ele se sentia. Não sabia como olhar na cara do outro homem depois de tudo aquilo... A tensão sexual crescia exponencialmente dentro de si só de pensar. Mas Shikamaru...

Por que ele não simplesmente ia, e descobria com os outros dois quais eram as novas regras do jogo?

"Chego às 20h."

Digitou e enviou a mensagem sem pensar duas vezes. Se pensasse mais iria desistir.

Pigarreou sozinho, se reafirmando no meio do escritório vazio e ajeitou suas coisas para ir para casa se arrumar.

Ele seria ele mesmo esta noite, e se tudo desse errado, ele sempre teria sua armadura à qual voltar. Por enquanto aquele era seu abrigo, até que pudesse construir um novo.

O

Shikamaru tinha passado horas, infinitas e malditas horas, refletindo sobre o que tinha acontecido. Repassando tudo o que conseguira perceber de Neji no outro dia, tentando entender, encaixar as peças e decifrar o enigma. Não fazia falta dizer que ele tinha desembocado em uma rua sem saída, uma e outra vez, sem respostas, sem constatações, sem resultados finais concretos.

Isso o frustrava de um jeito absurdo. A irritação era maior que ele mesmo e, pela segunda vez na semana, tinha decidido se deixar levar e entender na prática o que diabos era tudo aquilo.

O que era aquele brilho latente no fundo dos olhos claros do Hyuuga, o que era aquela sensação estranha de tocar com a ponta dos dedos algo muito íntimo e secreto, o que era a crescente impressão de se conectar com alguém a partir de algo que ele desconhecia.

Ele não se sentia unicamente atraído pelo Hyuuga. Depois da experiência que tivera com o homem isso era obvio, fosse fisicamente, fosse intelectualmente. Ele se sentia intrigado, curioso, como um detetive cego no meio de uma investigação. Ele precisava de mais provas, mais dados, mais certezas.

O homem se olhou no espelho e reparou que tinha se arrumado mais do que normalmente. Seu cabelo estava devidamente preso no rabo de cavalo, a calça cargo cinza chumbo era nova, uma dessas que ele nunca tinha estreado por pura preguiça, a camiseta de manga-longa branca ressaltava sua cor de pele, dando-lhe um ar mais bronzeado, com uma gola em V interessante.

Ele estava bem, muito melhor do que normalmente, já que a camiseta abraçava seu corpo de um jeito delicado e quase sensual.

Há, sensual...

Shikamaru balançou a cabeça e se encarou de novo. Estava ficando cada vez mais ridícula aquela ansiedade besta no peito.

- Você vai demorar muito? – ele perguntou, olhando para o chuveiro.

- Se você sair daqui e me deixar em paz lavando o meu cabelo eu vou sair mais rápido – Temari resmungou exasperada por acabar de entrar no chuveiro.

Ele colocou um pouco de perfume sem que ela visse, Shikamaru não queria ficar ouvindo as piadinhas de Temari pelo resto da noite e olhou o relógio.

- Já são as oito, não enrole – ele resmungou de volta antes de sair e fechar a porta do banheiro.

Andou até a sala, pegou um cigarro, acendeu com calma e foi buscar uma cerveja na cozinha.

Seu coração estava batendo muito rápido e seu corpo parecia tenso. Ele estava sendo ridículo, apenas não sabia como fazer aquilo parar.

Quando a campainha tocou, cinco minutos depois, ele respirou fundo antes de levantar do sofá e ir abrir a porta.

Foi um segundo de instabilidade até que seus olhos recaíram sobre a figura de Neji e, de repente, ele não estava dando a mínima para o fato de que não entendia bem o outro homem.

- Ei – murmurou, abrindo mais a porta – Entra.

O Hyuuga demorou um pouco a dar o primeiro passo, mas entrou e levantou uma garrafa de vinho.

- Não quis vir de mãos abanando.

- Obrigado – Shikamaru falou displicente e pegou a garrafa – Ponho na geladeira ou deixo fora?

- Pode pôr um pouco sim.

O Nara se afastou, deixando Neji se ajeitando na sala, andando até a porta da varanda e observando o movimento na rua.

- Temari tá terminando de tomar banho, você quer beber alguma coisa? Tem cerveja ou eu posso abrir o vinho-

- Cerveja tá bom – Neji disse rápido e depois olhou de volta para fora.

Uma estranha eletricidade percorria seu corpo e ele estava inseguro de como se mover ali. Como um estranho num ambiente cômodo demais para seus moradores.

Shikamaru se aproximou, trazendo duas latinhas.

- As longnecks acabaram, espero que você não se importe – falou, passando a bebida para o outro – Você quer um copo?

Neji respirou fundo, percebendo o excesso de cuidados do outro e decidindo tentar destruir aquela barreira absurda que ambos estavam criando entre si.

- Shikamaru – falou sério – Tá tudo bem, eu bebo na latinha e você não precisa-

- Te tratar assim – o Nara completou a frase, um alívio estranho correndo seu corpo, ainda bem que Neji tinha aberto aquela ranhura na situação toda, senão ele ia ficar preso na sua própria paranoia – É, eu sei, eu só achei que- Não. – ele respirou fundo e ficou sério também, tirando um novo cigarro do maço – Eu não sabia como lidar com isso, é novo para mim, você e essa situação e, eu costumo pensar demais.

Neji sorriu. Um sorriso estranhamente sincero e acolhedor, de um jeito meio de lado, meio concordando.

- Precisamos de novas regras? – ele propôs, o sorriso anda bailando nos lábios de uma maneira não honesta que Shikamaru riu, balançando a cabeça.

- Não sei – assumiu – Precisamos?

Neji deu de ombros, ele não queria parecer desesperado, interessado, nem nada do gênero.

- Você é quem sabe.

- Quais são as peças no tabuleiro? – Shikamaru perguntou se refugiando nos esquemas mentais que melhor lhe convinham, ver a si mesmo e aos outros dois como peças fazia tudo mais informal, tudo mais fácil de aceitar e compreender.

Ofereceu um cigarro para Neji que prontamente aceitou, seus dedos esbarrando por mais tempo do que seria necessário, enquanto formulava uma resposta para aquilo.

- Pelo que eu vejo, – Neji comentou – São três.

Era um tiro no escuro para o Hyuuga, ele poderia acertar o que Shikamaru aceitaria ou poderia estar completamente errado. Mas o clima amigável que eles construíram naqueles poucos momentos de honestidade facilitaram o passo.

- Certo, somos três – Shikamaru repetiu, se apoiando ao lado de Neji com os ombros encostados.

O cheiro amadeirado do perfume de Shikamaru fez algo enrijecer no peito de Neji, excitação e masculinidade, algo que o fazia se sentir um predador, algo perigoso demais para deixar solto.

Quando ele poderia ser ele mesmo, além de seus esquemas e armaduras? Quando ele se libertaria daquela clausura? Quando ele agiria com um homem do mesmo modo que ele agia com as mulheres?

- Shikamaru... – sua voz soou grave e os olhos castanhos do outro o encararam com intensidade, notando como o ar de repente mudava ao redor deles – Nós não somos peças, somos jogadores – a proximidade de repente se transformou em uma massa muito perigosa, condensada, e Shikamaru entreabriu os lábios, deixando a fumaça do cigarro sair sorrateira – A pergunta é, o que estamos jogando aqui?

O Nara encarou os lábios finos do Hyuuga, lendo as palavras que ele dizia. Era tão embriagante que ele quis se embebedar daquela onda quente que o tomava.

Os ombros de Neji se enrijeceram, como numa caçada, como quando ele se permitia ser o predador e seus dentes rasparam com certa força contra o lábio inferior, sentindo o olhar do outro preso na sua boca.

Então ele se deixou levar, hipnotizado pela sensação deliciosa de ser quem ele realmente era.

- Que tipo de jogador somos? – a pergunta fez os olhos de Shikamaru subirem por seu rosto até os orbes claros e Neji deixou a lata de cerveja descansar no móvel ao seu lado, virando-se completamente para o outro homem – Desses que observam passivamente... ou desses que mexem as peças no tabuleiro ao seu bel prazer?

A tensão das palavras aumentou. Shikamaru não fazia ideia de como Neji podia passar do tímido para o levemente relaxado e então se transformar num grande sedutor. Mas ele gostava daquilo, daquele Hyuuga firme e quente, sedutor até o último fio de cabelo. Arisco como um animal selvagem prestes a dar o bote.

Shikamaru não se sentia desconfortável com o flerte, ao contrário, era como se cordas tensas de seu corpo passassem a ser mais suaves e móveis.

O Nara sorriu de lado e seus olhos voltaram para os lábios do Hyuuga.

Se era assim, ele também sabia jogar. E ele jogava bem.

- Eu espero que você não se importe por eu ser um jogador ativo.

Neji sorriu, seus olhos brilharam quentes, num ardor crescente e a proximidade passou a ser sufocante, quase estática.

Me teste, ele quis dizer, mas o polegar de Shikamaru roçou seus lábios, calando qualquer resposta. Sua mão traçou uma linha até os fios longos e soltos dos cabelos de Neji, agarrando-os com firmeza em seguida, forçando o rosto de Neji um pouco para trás. As respirações se confundiram, levemente afobadas, seus narizes se tocaram com suavidade e os lábios de Shikamaru quase se encostaram aos seus.

- Uma pena eu não poder ficar para jogar hoje... – Shikamaru sussurrou, os lábios roçando aos de Neji tão de leve que parecia ilusão, num desejo calado que dizia muito mais do que as palavras.

- Não? – Neji suspirou, abrindo a boca e sentindo a respiração de Shikamaru contra seus lábios.

- Hoje não... – Shikamaru falou, seus narizes se esbarrando, uma sensação quente e gelatinosa dançando por seus corpos.

- Hn... – Neji se permitiu ficar com os olhos fechados por um segundo mais antes de os abrir.

Os orbes claros encararam, por fim, os do homem à sua frente. E havia um tesão tão grande refletido ali, que Neji podia muito bem forçá-lo a ficar se quisesse. Mas ele detestava forçar jogadas fora de tempo.

- Eu preciso ir – Shikamaru murmurou, soltando os cabelos de Neji com relutância e dando um passo atrás.

As cinzas de cigarro haviam caído no chão e os cigarros jaziam terminados entre seus dedos, mas nenhum deles pareceu se importar.

O barulho de uma porta se abrindo lhes alertou a vinda de Temari, vestida num vestido turquesa que ressaltava a cor de seus olhos, e ambos sorriram com sua chegada.

- Vejo que vocês começaram a festa sem mim – ela falou, levantando uma sobrancelha.

- Eu já vou indo, já atrasei o suficiente – Shikamaru falou, tomando um longo gole de cerveja e depois olhou para Neji rapidamente, antes de se voltar para a namorada – Por que você não convence o Neji a passar a noite? Assim quando eu voltar do jantar ainda podemos continuar a festa – ele propôs, sua voz soando levemente rouca e indecente.

- Então a noite vai ser longa! – Temari celebrou e roubou a cerveja da mão do Nara.

- Porquê não? – Neji cogitou, olhando os lábios de Shikamaru e depois para Temari, com intensidade.

Ele estava extremamente a favor de intensidades nesta noite.

Muitas intensidades.

P


N/A: muahahahaha eu escrevi a última cena umas três vezes, mudando as interações, acrescentando coisas e depois desistindo delas. vamos deixar todo mundo cozinhando a fogo lento. Mil beijos, espero que tenham gostado, não se esqueçam de comentar ;)

Love, Tai. (para facebook: Tai Bécquer)