N/A: Apertem os cintos, gurias, vamos alçar vôo! Boa leitura!


Love Shuffle

Capítulo 19 – No More Secrets


S

Se a vida dava voltas, aquele era um dos momentos em que tudo se transforma em algo muito mais sério e maior do que ele esperava.

Toda sua vida tinha sido traçada a partir de momentos com decisões importantes como aquele.

Sasuke respirou fundo e olhou o relógio. Já era tarde. A dor de cabeça pela falta de sono não ia passar, mas a decisão estava tomada. Ele não esperaria nada mais, nem mais um mísero dia sem conseguir dormir.

Ficou sentado no bar, vendo Naruto rir do outro lado da rua, na frente do prédio, acompanhado por Sakura e Shikamaru. Eles tinham chegado num taxi juntos e agora estavam aguardando o Nara terminar de fumar um cigarro para subir.

Se ele esperasse mais dias, tudo poderia se derrubar, romper em pedaços mínimos, e ele nunca mais se recomporia. Ele não se importava em não se recompor, mas ele precisava falar tudo aquilo que estava preso em sua garganta.

Viu o Nara lançar o cigarro terminado no chão e rir de algo que Sakura estava falando. Ele não fazia ideia do que poderiam estar conversando e, sinceramente, não se interessava em saber.

Sasuke apenas precisava mais um segundo e uma coragem insana, para atravessar aquela rua, subir o elevador e bater na porta certa. Dizer tudo aquilo que mereciam saber.

Os outros subiram os degraus, desaparecendo dentro do prédio.

Quinze minutos mais tarde, Sasuke sentiu a tal coragem insana e o desejo intenso de falar a verdade depois de tanto tempo guardando-a.

E

Kakashi se recostou no sofá e olhou o telefone.

Não havia ligações ou mensagens.

Ele achou que seria divertido falar com Sakura, como fizeram no outro dia. Ela havia comentado por mensagens de tarde que estaria na casa de Ino e que se veriam e conversariam melhor amanhã.

Não queria fazer daquilo um hábito, mas a ideia era agradável e até mesmo reconfortante.

Discou o número da casa dela e esperou a ligação cair na caixa postal.

"Você ligou para Haruno Sakura, deixe um recado e depois retornarei."

- Ei, boa noite – ele falou, sentindo-se em seguida um boboca. Por que estava fazendo aquilo? – Eu não sei bem porque estou te ligando... Mas acho que é porque foi... hm... uma experiência agradável no outro dia...

Respirou fundo e olhou para o teto.

- Queria dizer que gostei muito de te ver hoje. Não sei como os alunos não perceberem... – riu-se – Você parecia bem, alegre até. Isso é um bom sinal, certo? Espero que você esteja se divertindo com teus amigos, vai te fazer bem.

Mexeu-se desconfortável no sofá, desejando não ter ligado.

Parecia um adolescente idiota.

- Você não precisa agradecer pelas mensagens, Sakura. Sou eu quem devo agradecer por você confiar em mim - respirou fundo e decidiu terminar a mensagem logo – Nos vemos amanhã certo? Boa noite.

Desligou o telefone, olhou ao redor e ligou a TV.

A TV ajudava a diminuir o silêncio do apartamento, diminuía a sensação de solidão que às vezes roçava suas noites, que espreitava cada vez que ele ficava em silêncio sem ter nada para fazer, depois de corrigir as atividades dos alunos e se certificar que os planos de aula para a semana seguinte já estavam prontos.

Sentiu o corpo ir relaxando aos poucos, com algum programa da History Chanel de fundo. Suavemente seus pensamentos vagaram.

Pakkun pulou no sofá e se encolheu junto dele, gerando um conforto que há muito tempo tinha se acostumado, a presença de seu fiel companheiro de quatro patas. Era uma grande pena que o pequenino não falasse. Ele seria a melhor das companhias se pudesse falar. Mas já parecia muito o fato de que ele sempre lhe escutava atentamente, com seus olhos esbugalhados pidões encarando-o como se o compreendesse.

Acariciou a cabeça do animal, reconfortando a ambos com a simples ação e planejou um passeio no parque para o dia seguinte. Uma volta longa e tranquila para que ambos estivessem em contato com as pessoas ao redor, a natureza...

Talvez eles pudessem passear pelo lago, Pakkun adorava o lago e ele também. Tinha algo de hipnotizante em observar as águas calmas do lago de Konoha enquanto Pakkun se dedicava a estraçalhar gravetos.

Sim, amanhã seria um bom dia. Foi o que pensou antes de adormecer contra o encosto do sofá.

Kakashi acordaria no meio da noite com frio e se moveria preguiçosamente para o quarto, com um Pakkun sonolento em seus calcanhares. Mas logo eles voltariam a pegar no sono, cada um em sua cama, num silêncio mais agradável que os silêncios solitários do cair da noite.

Ele estava acostumado com aquilo, com a solidão diária, com a ideia de que essa sempre seria sua vida e de que isso estava bem, ele não precisava muito mais do que a presença do amigo canino para seguir vivendo tranquilamente... Os jogos de futebol nas segundas com Genma... Os alunos durante a semana... As conversas com Kurenai sobre como Mirai estava crescendo e como ela ia no colégio.

Aquilo tudo bastava. Mesmo com o silêncio agonizante e solitário.

Pelo menos, por enquanto.

C

A conversa na casa de Ino tinha traçado rotas que Shikamaru não esperava. Eles tinham falado sobre a época do colégio, depois sobre a faculdade, sobre os relacionamentos...

O obrigara parar para refletir sobre ele e Temari como não fizera durantes as últimas semanas do jogo. O fato dela estar em Konoha o tempo todo, morando com ele, era agradável e constante, lhe dava uma estranha sensação de calmaria e estabilidade que não tivera até então no seu relacionamento.

Mas isso não duraria para sempre. Em mais uma ou duas semanas eles voltariam a antiga rotina, o que significava que ela estaria em Suna e ele em Konoha.

Temari nunca abriria mão de seu trabalho por ele, e ele nunca abriria mão de estar em Konoha, com seus amigos, com seus pais, com o ritmo que ele decidira levar em sua vida.

Tudo aquilo gerava um sentimento controverso em seu peito. As dores de cabeça voltariam, a sensação de estar num relacionamento a distância o atingiria em cheio outra vez, e eles discutiriam, brigariam, até chegar numa solução.

A solução era óbvia, mas até então ele não queria simplesmente admitir que ou abriria mão do que queria para sua vida, ou manteriam aquele relacionamento a distância que beirava uma sensação disfuncional, ou terminariam.

E, no fundo, ele sabia que embora ela fosse sua melhor amiga, eles acabariam escolhendo a última opção.

E aquela constatação doía no peito.

Doía, porque Temari era uma mulher incrível, como jamais conhecera, e dificilmente encontraria uma pessoa como ela.

Quando desceram no andar do apartamento e se separaram pelo hall desejando boa noite, Shikamaru se perguntou o que poderia fazer para que essas próximas semanas com ela fossem as mais divertidas e cheias de momentos incríveis o possível.

Entrou no apartamento, notando as luzes apagadas, a não ser por alguns abajures no canto da sala e a luz da varanda.

Shikamaru tinha esperado por uma recepção cheia de sensualidade, com alguma daquelas cenas que ele recordava vividamente do outro dia. Mas logo percebeu as duas figuras sentadas no sofazinho da varanda, bebendo vinho.

Ele andou devagar, sem fazer ruídos e observou por um momento como Temari contava algo interessante sobre a política em Suna e Neji a escutava atentamente, com um cigarro entre os dedos. Uma manta estava jogada sobre suas pernas e ele acreditou nunca ter visto o Hyuuga tão relaxado e casual em sua vida.

Seu semblante estava sereno, mas interessado, ele comentava algo as vezes, bebericava o vinho, fumava.

Shikamaru sentiu a relaxação do outro homem o envolver e ele bateu de leve na porta de vidro da varanda, chamando suas atenções e dando um pequeno susto em Temari, que parecia concentrada demais na conversa para se lembrar que ele logo chegaria.

- Ei – ele murmurou, abrindo a porta e entrando na varanda, ajeitando-se no espaço entre as costas de Temari e o apoio de braço.

- Bem vindo – ela disse baixo e lhe beijou de leve.

Os olhos de Shikamaru se guiaram até os claros de Neji e ele viu apenas tranquilidade. O que quer que fosse que os levara a se sentarem ali e simplesmente conversarem, tinha definitivamente apagado a chama de algumas horas atrás.

- Tudo bem?

Ela concordou de leve, o semblante dela parecia um pouco tenso, quase esgotado.

- Eu estou me sentindo meio cansada – ela assumiu – Te conto melhor amanhã, pode ser?

Uma onda de preocupação passou pelo corpo dele e Shikamaru rastreou o semblante dela por respostas.

- Você quer que eu vá embora? – Neji perguntou solicito.

- Não – falou breve e começou a se levantar – Cabemos os três na cama e podemos continuar a conversa no café da manhã, vai ser ótimo.

Temari estava séria. Não seu semblante, mas a maneira como seus ombros continuavam muito rígidos, ou como seus olhos pareciam tristes e ela evitava olhá-lo diretamente.

- Eu vou deitar, vocês continuem a conversa, amanhã será outro dia.

- Eu vou colocar você na cama então – falou Shikamaru, se levantando também – você se importa em aguardar um momento Neji?

- De maneira alguma.

Shikamaru seguiu a namorada até o quarto, a viu entrar no banheiro e lavar o rosto antes de tirar a roupa e jogá-la sobre o tampo de mármore.

- O que houve? – ele perguntou, envolvendo o quadril ela com seus braços, suavemente, enquanto ela pegava a escova de dentes, então Temari suspirou.

- Suna... Meus irmãos... – ela fechou os olhos e repousou a cabeça contra o ombro dele, sentindo os dedos acariciarem sua barriga.

- Algum problema?

- Estão ameaçando Gaara anonimamente. Me ligaram mais cedo – ela explicou – Talvez eu tenha que passar um dia ou dois lá essa semana, você se importa?

- Claro que não, parece algo sério.

- Não sabemos ao certo, mas já faz alguns dias e estão começando a se preocupar. Kankurou está enlouquecido, você sabe como ele fica.

- Sim – ele sorriu de leve, compadecido pela situação e beijou suavemente a curva de seu pescoço.

- Neji foi todo um gentleman – ela murmurou – Eu fiquei um pouco transtornada com a ligação e ele mudou do sexy-perigoso para o businessman-vouajudar, e depois se transformou num super fofo, me escutou, conversamos muito, eu não esperava isso, definitivamente – ela riu e ele cheirou seus cabelos.

- Você está apaixonada? – ele perguntou com a voz brincalhona, fazendo-a rir mais.

- Jamais – concluiu firme – Mas nós bebemos bastante, não deixe ele ir embora, pegar o carro não é uma boa ideia.

- Ok – ele beijou o pescoço dela mais uma vez, vendo os olhos cansados dela no espelho, aquela situação toda tinha drenado suas energias, era perceptível – Você vai ficar bem?

- Vou, não há muito que eu possa fazer de todos modos.

Ela colocou a pasta de dentes na escova e se virou de leve para ele, dando um selinho em seus lábios.

- Vai lá, não deixe Hyuuga Neji esperando.

Shikamaru riu, se Temari fosse embora de sua vida, ele sentiria um vazio estranho e ela faria uma falta imensa em seus dias.

R

Genma sorriu, vendo como Hinata dançava timidamente, com um vestido cinza chumbo justo, um pouco mais longo do que a maioria de mulheres vestiria para ir a uma balada. Segurava um copo de gintonic e sorria para ele, as maçãs do rosto coradas.

Ele tomava uma cerveja, apoiado na bancada do bar, observando-a atentamente. Algo novo surgia naquela mulher, algo diferente.

Desde que a buscara em sua casa estava com um brilho suave mas crescente ao seu redor. Como se algo estivesse mudando aos poucos.

Eles jantaram e decidiram entrar em uma das baladas da cidade para se divertirem.

Tinham conversado um pouco sobre os questionamentos dela e sua decisão em descobrir o que mais podia aflorar dentro de si, embora ainda não soubesse bem o que seria. Comentou sobre ter falado com seu primo e que isso tinha lhe dado forças para ir adiante e ser confiante.

Um rapaz se aproximou dela e Genma a viu corar fortemente quando ele lhe dirigiu a palavra, então a viu apontar para ele e se desculpar. O cara se desculpou e saiu de fininho, sem olhar para Genma, o que o fez rir.

A coisa interessante em mulheres mais jovens era ver que ainda eram muito meninas, embora se movessem em direção a algo espetacular, que elas ainda estavam por descobrir. Com Ino era o mesmo, com Sakura também...

Mas Sakura tinha algo diferente, algo que lhe fazia ser muito diferente de Ino ou Hinata, algo que lhe dava a sensação de que ela poderia lhe dar algo em troca, algo calmo e estável, se conseguisse ultrapassar sua relação com Sasuke.

Mesmo assim, a ideia de um relacionamento estável o fazia se sentir desconfortável.

Se lembrou da conversa com Kakashi, de falar que seria capaz de lutar por Sakura, lutar contra a ideia fixa de que apenas Sasuke a faria feliz.

Ele não tinha certeza porquê, mas a estabilidade não combinava nada com ele. A estabilidade lhe gerava ansiedade, a possibilidade de um felizes para sempre ou de formar uma família era assustadora demais. Ele não sabia sequer cuidar de si mesmo, como cuidaria de outra pessoa? Como a manteria feliz sem despedaçar seu coração na primeira esquina da tentação.

Não era feito para aquilo. Não tinha sido criado naquele formato ou para ser assim.

- Ei – Hinata o chamou e ele notou que não tinha percebido a aproximação.

- Se divertindo? – perguntou, ajeitando uma madeixa de cabelo negro que caía fora do coque improvisado dela.

- Sim, e você?

- Também.

- Mas você só fica aí observando, porque você não vem dançar?

Ele riu.

- Eu não danço.

Ela acompanhou a risada e bebeu um pouco mais do seu gintonic.

- Naruto me levava para sair muitas vezes no começo do nosso namoro, a gente se divertia muito e ele dançava até não poder mais. Quando eu me cansava ele sempre tinha energia para ficar mais tempo, então é estranho sair com alguém que fique parado num canto.

- Você quer ficar mais tempo?

Ele não costumava gostar de festas assim, não tinha mais idade para ir a uma balada e se divertir muito com isso. Mas ela parecia animada em provar aquela experiência e ele achou que isso poderia ser interessante.

- Onde mais poderíamos ir? – ela perguntou e ele sorriu.

Genma poderia levá-la para sua casa, poderia fazer inúmeras coisas com aquele corpo jovem e tentador. Poderia arrancar orgasmos trêmulos e gemidos deliciosos, mas nada daquilo era o que realmente gostaria de arrancar dela.

Ele queria que aquele brilho novo de seus olhos aumentasse e expandisse, ele gostaria de lhe mostrar como ela podia ser livre em sua integridade.

Não havia nada de sexual no desejo que ele albergava por ela. Havia algo quase paternal, fraterno. Como um instinto estranho de lhe fazer crescer.

- Acho que sei um lugar que eu poderia te levar.

- E onde seria isso?

- Meu estúdio.

Hinata levantou as sobrancelhas, curiosa e surpresa.

- De fotos?

- Sim.

- Wow! – ela riu, dando um gole longo em seu gintonic.

- Você me deixaria te fotografar?

A pergunta a calou por um momento. Seus ombros retesaram e ela sentiu uma sensação de admiração fluir por seu corpo.

- Seria uma honra.

Genma sorriu, uma felicidade estranha o envolvendo com a possibilidade de vê-la por detrás das lentes e capturar sua essência.

Ele encaixou seus dedos e a guiou para fora do estabelecimento, pegando seus casacos na chapelaria e esperando que trouxessem seu carro.

Aquilo seria divertido.

E

Shikamaru se sentou no pequeno sofá ao lado de Neji e este lhe estendeu a taça de vinho que Temari tinha deixado para trás.

- Obrigado por ter acalmado ela – falou baixo, dando um gole no vinho.

- Temari te contou?

- Sim.

- Trabalhar na política não é algo muito seguro, mas espero que tudo dê certo – Neji comentou, se acomodando no sofá de maneira relaxada e observando o céu.

- Vamos torcer...

O Nara observou o perfil do rosto de Neji e sentiu uma estranha gratidão por ele ter ficado. Não por si mesmo, mas por ela. Temari não costumava ligar para ele quando tinha problemas no trabalho, pelo contrário, ela normalmente era muito discreta e extremamente independente, ela não precisava nunca dele.

Mas dessa vez era diferente, era seu irmão, eram ameaças anônimas. Aquilo saía do âmbito puramente profissional e entrava em suas relações familiares. E se tinha algo que Temari prezava nesta vida, era o bem estar de seus irmãos.

- Bem, e agora, o que vamos fazer? – Shikamaru perguntou, tentando puxar Neji para longe daquele abismo soturno que se aproximava enquanto o Hyuuga observava perdido o céu.

- Não sei – Neji virou o rosto, apoiando-o no encosto do sofá e observou Shikamaru.

Hyuuga Neji era um homem realmente bonito, e a calmaria estranha em que se encontrava agora puxava Shikamaru para si, para as margens daquele mar estranhamente sereno.

- Por que você não me conta a verdade, Neji? – falou, vendo os ombros do outro ficarem surpreendentemente tensos de repente – Não faça isso – pediu, espelhando a postura do outro e postando uma mão suavemente no ombro tenso – Eu sei que falamos sobre jogar, sobre sermos jogadores, mas de repente eu não quero mais jogar. Jogos são mais fáceis para mim, mas nesse momento eu preferiria simplesmente te conhecer.

- Por quê?

Shikamaru não tinha uma resposta. Seus dedos passearam do ombro de Neji para seus cabelos longos que caíam como cascatas de nanquim, acariciou-os.

- Eu gosto de ler pessoas. Temari também. Mas você é muito difícil de ler, e eu me sinto cansado para tentar te decifrar agora.

Neji sorriu, os ombros relaxando aos poucos.

- O que você conseguiu ler de mim? – perguntou curioso, percebendo que Shikamaru soltava seus cabelos e apoiava a mão no espaço do sofá entre eles.

Um suspiro profundo tomou lugar e Shikamaru o observou com calma.

- Você, como Temari, tem essa coisa incrível, que me impressiona e me atrai, é uma força específica que eu costumo chamar de força da natureza.

- Me sinto lisonjeado – Neji comentou, interessado – que tipo de força da natureza é a minha?

Shikamaru soltou um riso pelo nariz, como se ele mesmo achasse ridículas aquelas comparações que fazia para entender as pessoas.

- Uma tempestade, ou um tsunami – contou – algo assim, feroz, destruidor, mas cheio de sentimentos intensos.

Neji levantou a cabeça e contemplou o outro homem.

- Shikamaru, você está dando em cima de mim? – perguntou com ar matreiro.

- Neste exato momento não – assumiu, sorrindo preguiçoso.

- Fale mais, eu estou gostando de te escutar falar sobre mim – o Hyuuga estimulou, sentindo algo cômodo se instalar em seu peito, como agradecimento.

Shikamaru se ajeitou melhor, esticando as pernas e olhando para o outro.

- É como algo incontrolável, talvez nem você mesmo possa domar. Uma força inata. Você mantém ela comprimida enquanto pode, mas de repente ela explode e nem você nem ninguém pode controlá-la.

Neji respirou fundo, sentindo as palavras lhe despirem como num passe de mágica, sob olhos atenciosos e precisos de Nara Shikamaru.

- Mas você detesta perder esse controle, por muito tempo você tentou domá-lo, escondê-lo, mas acho que ultimamente tem sido difícil demais.

De repente, se sentir despido daquele modo o incomodou. O Hyuuga acendeu um cigarro, num reflexo obvio de como aquelas palavras estavam lhe afetando. Ninguém nunca tinha o visto ou descrito de maneira tão crua e precisa. Era estranho perceber que havia alguém que poderia lê-lo daquele jeito tão claro.

- Eu tento te compreender, mas é como um quebra-cabeças, e há partes que não encaixam, pontas sem amarrar, há partes que eu desconheço, porque eu não sei quem você realmente é – ele suspirou.

Seu coração bateu mais forte com aquela confissão e Neji fugiu de seu olhar.

- Eu percebo que deve ser difícil para você manter essa armadura no lugar, que deve ser terrível se sentir exposto como você pode estar se sentindo agora – Shikamaru fechou os olhos, percebendo a tensão no ar. Neji podia se levantar e ir embora, ou ele podia ficar – Mas, a verdade é que, bem, eu adoraria saber quem você é.

Ele abriu os olhos e encarou o Hyuuga.

- Então, por que você não me deixa entrar? Por que você não me deixa descobrir?

As palavras soaram muito baixas na calada da noite.

A tensão se manteve no ar por um longo momento até que Neji afastou o cigarro dos lábios e o passou para Shikamaru.

- O que você está pedindo não é nada fácil – ele respondeu baixo – Quem sou eu? Acho que nem eu sei bem – ele riu desacreditado, havia conversado sobre aquilo com Hinata naquela mesma tarde e agora a pergunta o jogava contra a parede outra vez.

Shikamaru concordou.

- O que você não entende de mim? Quais partes faltam no seu quebra-cabeças? - a pergunta pairou sobre eles como suspense, e Neji lhe mostrava que estava solícito em poder colaborar com o que conseguisse abrir de si para o outro.

- Isso – o Nara respondeu, movendo a mão entre eles, indicando ambos.

- Isso, não sou só eu, sou eu e você – Neji rebateu rapidamente, esclarecendo algo que Shikamaru talvez não tivesse refletido.

Shikamaru se perguntou se a animosidade que sentiam no começo já era algum tipo de atração velada.

Ele não queria precisamente falar sobre o que estava acontecendo ali agora, embora seria interessante entender isso também.

Talvez se ele fosse mais explícito, Neji entenderia suas dúvidas.

- Eu quero entender a parte em que você me puxou para o seu colo e me fez gozar – sua voz saiu rouca e as palavras eram muito mais provocativas do que ele tinha esperado ser.

Postou o cigarro no cinzeiro e voltou a olhar para Neji.

- Shikamaru... – a voz soou perigosa e atrativa e escorreu pelo corpo do Nara como desejo sob os olhos deliciosamente atentos de Neji – Você está pedindo que eu explique minha atração por você, por homens num geral, ou você quer repetir a experiência?

O Nara riu, sentindo calor, seus olhos desceram pelo corpo relaxado do Hyuuga e ele duvidou de suas próprias intenções.

- Agora que você diz, talvez eu queira as três coisas – respondeu honestamente e Neji sorriu.

Mas logo depois do sorriso, veio um suspiro baixo e uma seriedade tipicamente Hyuuga.

- Você sabe o que o meu sobrenome significa e a carga que ele tem, assim que fica fácil imaginar porque eu mantenho essa... – ele pensou um segundo e prosseguiu – Força da natureza o mais controlada o possível.

A pausa que se seguiu foi mais do que suficiente para que Shikamaru constatasse que algumas de suas hipóteses estavam corretas.

- Preciso manter as aparências, sempre precisei, é isso que te ensinam quando você é criado para ser um herdeiro Hyuuga – Neji explicou, pensando em suas conversas com Hinata. Elas eram mais valiosas do que ele imaginara previamente.

Então sorriu, decidindo esclarecer mais dúvidas escondidas nos orbes escuros do Nara. A curiosidade do homem atuava como algum tipo de combustível, e a sensação de ter sua atenção por completo, de ser objeto de sua curiosidade, era simplesmente deliciosa.

- Eu obviamente me divirto muito com mulheres, principalmente as que são como Temari, mas eu devo admitir que as coisas ganham maiores proporções com homens.

Shikamaru assentiu, aquilo fazia bastante sentido, principalmente depois da noite que passaram juntos e como a voracidade nos olhos de Neji aumentava quando suas mãos e boca estavam sobre si. Ele se arrepiou e notou como o Hyuuga observara o tremor leve com satisfação.

- E você é um homem muito interessante... – explicou o Hyuuga – Se eu soubesse que sou a personificação da tempestade para você, bem, eu certamente teria me interessado antes – admitiu e o Nara riu.

- Você gostou dessa, não foi?

Neji se perguntou se falar sobre seu apreço por haikus e literatura seria apropriado, mas decidiu que não.

- Soa como poesia para os meus ouvidos – comentou simples, sorrindo sorrateiro e levantou a mão, acariciando o rosto de Shikamaru, tocando seus cabelos e os soltando do rabo de cavalo.

O Nara sentiu a estranha sensação de corar com o ato, vendo como Neji o olhava com intensidade. Não era a mesma intensidade que sentira no momento antes de sair mais cedo naquela tarde, era uma intensidade mais honesta, mais profunda e verdadeira, sem excessos.

Não havia apenas desejo carnal entre eles, havia algo mais, algo que florescia como se fosse novo e antigo ao mesmo tempo, como um encontro na clareira onde os lobos se reúnem baixo a luz branca e fria da lua cheia.

Os dedos de Neji escorreram por seu rosto e tocaram seus lábios de leve, para depois romper o toque.

- Este é o momento em que eu te puxo pro meu colo e te faço gozar? – Neji perguntou baixo, quente, sua voz soando lânguida e envolvente.

E Shikamaru se deixou envolver.

- É, esse é o momento – concordou, não esperando o primeiro movimento do outro e tomando a iniciativa de juntar seus lábios.

O beijo começou calmo, mas completamente diferente dos que trocaram na outra noite.

Ambos estavam ali de peito aberto para o que quer que viesse. Quando a intensidade aumentou e Neji o puxou mais para perto, Shikamaru se permitiu ir, guiado não apenas por atração, mas por uma curiosidade absurdamente sincera em descobrir o que era isso que eles estavam compartilhando.

Suas línguas dançaram com sofreguidão, suas mãos tateando roupas e corpos e cabelos, e o desejo inundou suas veias como lava ardente. E Shikamaru finalmente percebeu que Neji não era a única força da natureza naquela varanda, pois ele mesmo era uma correnteza firme que os levaria adiante sob a intensa tempestade.

T

A campainha tocou e Sakura olhou surpresa para a porta. Pegou o copo de água sobre o tampo da pia da cozinha e bebeu rápido antes de ir atender. Certamente Naruto tinha esquecido de lhe dizer alguma coisa sobre o que fariam amanhã...

Mas, ao abrir a porta, seus olhos encararam um rosto que ela tinha tentado a todo custo evitar nos últimos dias.

- Sasuke?

O nome escorregou de seus lábios, num tom confuso e surpreso.

De todas as reações que esperara ter ao ver Sasuke em sua porta, nenhuma se comparava com o que estava sentindo agora. Os olhos dele estavam muito sérios e as olheiras tão fundas e marcadas, que ela pensaria que ele estava gravemente doente, ou que algo muito sério tinha acontecido.

Seu coração não desesperou por ansiedade ou paixão, mas afundou dentro do peito com uma estranha apreensão. Algo ruim tinha acontecido.

- Eu não podia esperar mais – ele falou, resignado e olhou os olhos verde esmeralda o encararem exasperados.

- O que aconteceu? – perguntou preocupada.

- Posso entrar?

A voz saiu grave e honesta e Sakura não soube o que responder.

Não, ele não podia entrar, de outro modo ela não teria como se proteger de si mesma, de seu coração, dos sentimentos.

Mas ao mesmo tempo a vontade incrível de abraçá-lo e cuidá-lo e protegê-lo do que quer que fosse era tentadora.

- Eu não tenho certeza – ela murmurou, fechando as mãos com força, apertando as unhas contra a palma da mão.

- Eu prometo que não vou fazer nada.

- Você não precisa fazer nada para me desestabilizar, Sasuke, você sabe bem disso.

Ele sorriu, amargo, e olhou o chão. Obviamente ele sabia daquilo. Ele tinha se aproveitado tantas vezes da instabilidade dela para a fazer sofrer, para descontar nela tantas coisas que ela sequer entendia...

- Eu não vou ir embora – ele assumiu – Eu não vou aguentar lidar com isso mais um dia, eu não durmo há muito tempo.

Sasuke cruzou os braços e voltou a encará-la.

Sakura passou a mão pelos cabelos bagunçados, sentindo os fios cor de rosa contra a pele e concordou com a cabeça, sem se decidir.

- Eu não estou pronta para ficar sozinha com você, Sasuke, você disse que ia esperar eu me senti-

- Eu sei – a voz dele saiu agitada, quase agressiva e Sakura deu um pequeno passo atrás – Eu entendo, mas eu não posso mais, Sakura. Não posso.

Ele parecia transtornado agora, no fundo ela sentiu um receio estranho, como se ele pudesse lhe fazer algum mal. Mas ao longo de tantos anos sendo pisoteada por ele, Sasuke jamais encostara um mísero dedo nela, e Sakura estava certa de que não seria agora.

- Entra – ela convidou, por fim.

Andou até a cozinha.

- Você quer alguma coisa? – perguntou seca, tentando não sentir pena do estado em que Sasuke se encontrava.

- Água – ele respondeu, se sentando no sofá e esperando que ela voltasse.

As mãos de Sakura tremeram pegando os copos no armário, seu peito apertou e ela sentiu muito medo, muita ansiedade, era como se algo dentro de si estivesse muito próximo de uma explosão.

Sasuke estava sentado em sua sala, com um aspecto péssimo, e tudo o que ela podia pensar era que precisava ser forte. Precisava dizer não a qualquer tentativa de reconciliação. Ela não podia se permitir voltar para ele se arrastando, ou como um cãozinho obediente, ela tinha que se manter firme.

A vontade de desaparecer da face da Terra se misturava com o desejo absurdo de se jogar nos braços dele. Mas nenhuma dessas coisas poderia acontecer. Ela não podia permitir aquilo.

Colocou água para ele, e se serviu de um grande copo de sake, ela precisaria do estímulo alcoólico se quisesse lidar com ele. Deu um gole longo para acalmar os nervos.

Andou devagar até a sala, colocou os copos na mesinha de centro e sentou no outro sofá, se mantendo distante de Sasuke.

- Muito bem – ela começou, trêmula – Se você tentar qualquer coisa, se tentar me fazer voltar pra você eu juro que vou começar a gritar e o Naruto e o Shikamaru vão ouvir. Eu vou fazer um escândalo, eu juro.

Sasuke a olhou e um sorriso amargo se abriu em seus lábios, era quase maligno, mas ele apenas concordou com a cabeça, pegou o copo de água e ficou segurando-o entre as mãos.

- Eu não quero voltar com você, Sakura.

As palavras destilaram uma dor aguda no peito dela. Seus lábios tremerem com a sensação de ter sido estapeada. Se ele não queria voltar com ela, então...

- O que você está fazendo aqui, então? Eu espero que não seja para me contar das suas aventuras amorosas ou-

- Não. Eu vim aqui falar a verdade de uma vez por todas.

- A verdade? – ela sentiu a voz soar exasperada.

Que merda de verdade era aquela? Não fazia o menor sentido.

- Não está sendo fácil para mim, não se confunda – ele disse ríspido e devolveu o copo de água intocado para a mesa de centro.

- Certo – Sakura procurou se firmar mais no chão. Se preparar para qualquer coisa que viria a seguir.

Mal sabia ela que nenhuma das suas hipóteses mais patéticas eram um grão de areia se comparado com a bola de neve que surgiria.

- Então, você pode começar a me contar – ela estimulou, encarando o rosto abatido do Uchiha.

Sasuke se empertigou no sofá, uma expressão desgostosa nos lábios.

- Eu estou fazendo isso porque eu te devo algum tipo de explicação. Mas principalmente porque, se eu não resolver esses atritos com você, Naruto nunca mais vai falar comigo.

Sakura sentiu a raiva começar a nascer em seu peito. Então ele continuava não dando a mínima para ela, tudo continuava sendo sobre Naruto.

- Fala logo, Sasuke, você sabe que é melhor puxar o band-aid de uma vez só.

Ele concordou, sua expressão passando a ser de um desgosto quase dolorido. Como se ele odiasse a ideia de ter que falar para ela algo tão íntimo. Mas, naquele momento, ele sabia que aquilo era o mínimo que podia fazer.

- Eu admito que te fiz sofrer muito por puro prazer – falou, sério, sem olhá-la, seu olhar frio vagando pela sala, qualquer coisa parecia mais interessante que o rosto de Sakura, ele ainda sentia raiva e nojo e uma vontade incrível de machucá-la – No começo era apenas uma maneira de descontar em você toda a raiva que eu tinha guardado ao longo dos anos, mas fugiu das minhas mãos, você era muito mais frágil e manipulável do que eu tinha previsto no começo.

Sakura engoliu em seco, sentindo o gosto amargo escorrer pela boca e garganta, um nojo e uma raiva albergada por ele que ela ainda não tinha entrado em contato. Como ele poderia dizer aquelas coisas com tanta frieza?

- Eu te tratei da pior maneira possível, eu te odiei, eu achei que você tinha destruído todas as minhas chances de ser feliz – ele falou firme e a olhou com rancor.

- Que? – ela perguntou exasperada.

Ela tinha destruído as chances dele ser feliz? Quando na verdade era tudo ao contrário e ele a tinha estraçalhado em mínimos pedaços que ela nem sabia mais se conseguiria recolher todos e se reconstruir.

- É, deve parecer absurdo para você. Eu sei que devo ter feito o mesmo contigo... – ele pausou e suspirou.

Sakura firmou os olhos nele, esperando o que estava por vir, porque a exasperação ao ouvir aquelas palavras malucas ia fazê-la enlouquecer se aquilo não começasse a fazer algum sentido.

- Você deve estar ansiosa, mas eu não costumo falar de mim ou de como me sinto, você sabe disso. É... difícil.

Ela sabia bastante bem, ele era um cubo de gelo, sempre tinha sido, cercado por muralhas invisíveis que ele mesmo criara para se manter distante de tudo e todos.

- Eu nunca gostei de você – ele admitiu, piscando algumas vezes, vendo como os olhos dela começavam a se umedecer.

- Se você veio aqui para me dizer isso, você pode ir embora.

- Não, Sakura, eu vim aqui para te dizer porque eu fui incapaz de gostar de você – ele explicou exasperado e se levantou. Começando a andar de um lado para o outro – Você sempre estava no meio da gente. Tentando roubar aquilo de mais íntimo que eu tinha na vida, se enfiando entre eu e Naruto como se fosse tua missão nesta vida. Desde aquele momento eu te odiei, eu te odiei tanto por tentar me separar dele naquela época que eu não conseguia nem te olhar.

Uma lágrima dolorida escorreu pelo rosto dela. O que diabos estava acontecendo ali, ele tinha vindo fazer uma retrospectiva de quanto ele a maltratara ao longo dos anos?

- Hoje eu entendo que você não fez por mal, mas na época eu não entendia nada. Eu sequer me entendia.

Ele bufou, mas não a olhou. Sasuke era frio, mas ele não ia aguentar chegar até o fim se Sakura começasse a chorar, ele não ia ter forças para encarar aquelas lágrimas e soltar seu maior segredo, o mais dolorido de todos, para que ela ouvisse.

- Então ele começou a ficar com a Hinata, ele me estimulou a te dar uma chance e eu dei. Eu tentei, e você podia ser divertida as vezes, podia ser interessante, conversar sobre coisas inteligentes... – ele suspirou – Por um momento, poderia ter dado tudo certo. Mas eu não estava certo. Eu sempre estive todo errado.

Sakura franziu o cenho, sem entender bem aonde ele queria chegar. Onde ele estava errado?

- Você não est-

- Por favor, se eu não falar, eu não vou conseguir depois.

- Tá bem – a voz embargada dela o fez encará-la brevemente, vendo os olhos úmidos, mas ela ainda estava inteira e ele esperava que ela continuasse assim por mais um momento.

- Então ele se apaixonou por Hinata – Sasuke falou, as memórias tão vívidas que ele conseguia sentir contra a ponta dos dedos – Ele só falava nela, ele gostava tanto dela... E aquilo só me fazia me sentir péssimo, cada dia pior, com mais raiva, e lá estava você pendurada em mim como um bebê, me seguindo para todos os lados, implorando por atenção...

Ele parou de andar, engolindo o gosto ruim na boca, sentindo uma dor horrorosa no peito. Ele não deveria estar ali, ele sequer sabia se deveria estar contando tudo aquilo para ela.

- E eu passei a pensar que era tudo tua culpa – admitiu, sua voz saiu pequenina como se lhe desse vergonha assumir tal pensamento – Que se você não tivesse se enfiado entre nós durante todo aquele tempo, se não tivesse roubado o coração de Naruto por tanto tempo, que talvez ele teria percebido, ele teria me visto, mas agora ele estava apaixonado por Hinata e com certeza todas as chances dele realmente me ver eram nulas.

Sasuke parou, esperando qualquer tipo de reação vinda dela.

Mas Sakura apenas sentiu como se afogasse num maremoto de sentimentos e dúvidas. E o que Sasuke estava tentando dizer? Ela não tinha certeza... O que tinha Naruto e Hinata a ver com eles, com todos esses anos sendo pisoteada?

- Eu não entendo – ela sussurrou, um nó imenso na garganta dificultando a respiração. O peito fazendo movimentos dolorosos dentro de si, como se algo estivesse morrendo.

Sakura podia sentir as peças começarem a se encaixar, mas ela não queria entender, ela não queria adivinhar, ela estava tão confusa, ela não sabia por onde começar, ela tinha tantas dúvidas, mas uma dúvida específica e crescente começou a aparecer em sua mente e ela sentia que esta era a questão mais importante.

- Por que você queria que ele te visse, Sasuke?

A pergunta pairou agourenta sobre eles, Sakura sentiu os olhos arderem e o nó na garganta virar um pequeno soluço. A compreensão lhe atingiu antes mesmo da resposta dele. E as lágrimas que se seguiram eram uma mescla estranha de tantos sentimentos que ela não poderia enumerar.

Sasuke a encarou, vendo as lágrimas dela escorrerem pelo rosto, o semblante entristecido, tanto ou mais que o dele, e Sasuke sentiu muita dor e muito medo, porque ele nunca tinha dito aquilo para ninguém, ele nunca tinha dito aquilo em voz alta.

Seus olhos arderam, seus lábios tremeram, mas ele continuou tão firme quanto poderia estar naquela situação. Seu olhar desviou, tímido, absurdamente envergonhado e assustado, mas ele conseguiu firmar o olhar contra o dela mais uma vez, para resolver aquela dúvida.

- Porque eu amo ele.

Sua voz tremeu e quebrou, e Sasuke fechou os olhos, postando uma mão trêmula sobre seu rosto, numa tentativa de se esconder, de se proteger, de negar o que acabava de acontecer ali.

Todos seus segredos espalhados na mesa para que ela os visse.

Sakura sentiu o peito contrair e se deixou chorar, encolhida, observando como Sasuke começava a tremer, sem fazer nenhum ruído e sem derramar nenhuma lágrima, controlando o redemoinho que o assolava por dentro.

- Eu sinto muito – ele murmurou.

A compreensão a lavou de corpo e alma, pela primeira vez conseguindo ver as coisas do ponto de vista dele. E, de repente, ela podia entender seus atos, sua raiva, sua dor, nada daquilo desculpava nenhuma de suas ações, mas explicava os seus motivos.

- Você não é uma pessoa ruim, você é ótima até, mas eu nunca consegui ver isso, eu só via a menina que tinha roubado as minhas chances, que tinha me feito perder qualquer possibilidade, e eu te odiei tanto, quando na verdade eu estava me odiando por nunca ter dito nada ou agido. Eu-

Ele tombou a cabeça para frente, os fios lisos escondendo seus olhos, as mãos caindo nas laterais do corpo, vencido.

- Ele sabe? – Sakura perguntou baixo, começando a se recompor.

- Agora sim, eu acredito que sim.

Sakura concordou, pegando o copo de sake e virando tudo em goles rápidos e desesperados. Torceu para que o álcool entorpecesse seus sentidos, a dor aguda, o imenso soco na cara que tudo aquilo estava lhe dando.

Ela se levantou e andou até ele.

Sasuke a olhou. Todo quebrado em milhares de estilhaços e ela viu quem Sasuke era pela primeira vez. Era uma visão dolorida e forte, quase assustadora, mas de algum modo, começava a fazer algum sentido.

Ela levantou a mão e lhe deu um tapa forte na cara.

O rosto dele virou com a força do golpe, ficando avermelhado no segundo seguinte e o homem engoliu em seco.

- Isso é por ter me pisoteado por tanto tempo – Sakura falou firme. Mas ao vê-lo assim tão vulnerável, as cordas de seu coração amoleceram – Como você pôde aguentar tudo isso sozinho por tanto tempo? – perguntou indignada.

Sasuke deu de ombros, sem olhá-la e Sakura suspirou com pesar.

Que diabos estava acontecendo ali?

De repente ela não se sentia a menina vulnerável e ridícula, se arrastando pelo amor dele. De repente ela se sentia forte e revigorada, com a sensação tênue do tapa ainda quente na palma de sua mão. Com as decisões resolvidas por fim.

Ela não tinha motivos para correr atrás de Sasuke mais, ele não podia amá-la e agora ela entendia porque. Não era por ela, ou por não ser boa o suficiente...

O que ela faria agora?

Sasuke parecia tão destroçado que ela sentiu pena.

- Você quer um sake?

Ele a encarou surpreso. Tudo o que ele menos esperava dela era piedade. Mas um sake ajudaria a lidar com tudo aquilo.

- Escuta, Sakura – ele começou, dando um pequeno passo atrás – Eu sinto muito. Você não deveria ser gentil comigo agora só porque-

- Eu não estou sendo gentil – ela rebateu com certa raiva – Mas o mínimo que eu posso fazer por você depois de ser sincero e me dizer que é gay, é te oferecer um copo de sake.

Sasuke abriu e fechou a boca algumas vezes, mas acabou aceitando.

- Nós podemos brindar pela tua miséria e a minha libertação se isso te fizer se sentir melhor.

O homem riu amargo, e pela primeira vez desde que deitara os olhos nele naquela noite, ela também riu.

Ela estava livre. Pra sempre.

S


N/A: nhom nhom nhom! Review? hehehe espero que tenham gostado. muito obrigada por tds esses comentários maravilhosos. cara amiga anônima que tem deixado comentários sem assinar: sua linda, amo tuas mensagens!

Love, Tai.