N/A: esse capítulo é dedicado a duas pessoas que sempre me apoiaram muito, uma delas sequer lê essa fic, mas ambas precisam saber que a cena que elas vão saber ser dedicada à elas, é uma cena que um dia estará num original que vem sendo plantado e regado dentro do meu peito por muito tempo. Jay e Dessa, nossos meninos estão muito vivos no meu coração.
Love Shuffle
Capítulo 20 – I Love You
Embora as primeiras sensações tenham sido de libertação e firmeza, de compreensão fria e profunda, a noite transcorreu com um silêncio amargo e esquisito. Como se fosse o momento inicial depois da perda de alguém realmente importante; a descoberta de que, durante todo esse tempo, ela sequer soubera quem Sasuke realmente era.
Sakura acordou diversas vezes, num misto de embriaguez e tristeza, numa mescla absurda de sentimentos incompreensíveis.
Por que ela era tão fraca sempre? Por que ela nunca aprendia? Por que ela não conseguia simplesmente desligar as ideias incongruentes de perda?
Ela se detestou das quatro às seis da manhã, antes de adormecer com a solidão carregada no peito e o medo do futuro a chamando no escuro das primeiras horas do dia.
Se algum dia ela pudesse mudar, ser uma fortaleza, ser independente emocionalmente... bem, ela não sabia. Mas o fato de sobreviver a mais uma noite já era suficiente para fazê-la ter esperanças.
Quando Sasuke foi embora, depois de tomar meio copo de sake com sensação estranha que os rodeava, ele murmurou mais uma vez que sentia muito e que não esperava seu perdão, mas que ela merecia entender porque ele nunca fora capaz de amá-la.
Sakura chorou quando ele repetiu aquela frase clichê dos filmes e livros que ela tanto odiava: o problema nunca foi você, Sakura, sempre fui eu.
Era como se ele pudesse se apoiar naquilo e fazer com que ela não se sentisse culpada por todos aqueles anos de rejeição, de frustração, de se sentir usada e abusada por ser fraca e dependente...
Mas naquele sábado de menhã, quando ela finalmente acordou às 9h47, embora seu coração latejasse, como se estivesse profundamente ferido, ela percebeu que não podia fazer nada... Já não estava mais em suas mãos.
Aquele relacionamento nunca esteve em suas mãos, tudo o que podia fazer era se recompor e seguir adiante.
Y
"Naruto, como vc está?"
O loiro se sentou na poltrona perto da varanda e leu a mensagem no celular, bebericando da caneca de café e se perguntando em que momento ele começara a receber mensagens preocupadas de Ino.
Suspirou pesado e enviou uma mensagem sucinta comentando que estava bem.
Mas ela não respondeu.
Sua cabeça rodava com diversas dúvidas e um medo estranho de acabar se afastando de todos.
A parte mais difícil de se mostrar frágil e triste para Ino, era ter que lidar com o fato dela conhecer uma faceta dele que poucas vezes surgia: aquele seu lado que tinha muitas dúvidas, muitos medos e bastante tristeza.
A manhã acabou se arrastando mais cinzenta do que a previsão do tempo tinha dito. Ele tomou banho devagar, deixando o calor da água lhe envolver como um abraço. Esquentando suas extremidades e peito, que sentiam frio com todos os pensamentos tempestuosos.
Depois saiu para andar pelo bairro, conversou com os meninos que jogavam bola na quadrinha do parque, até fez alguns gols numa competição de pênaltis.
Comprou dois bentô na loja de conveniências há alguns quarteirões. Ele estava tentando levar a vida como sempre levara, com certa leveza e muita interação. Conhecia o nome e a história de quase todos os meninos que ali jogavam, sabia sobre a gravidez da esposa do vendedor da loja, sabia quando o bebê era previsto chegar.
Naruto era aquele tipo de pessoa: ele se importava por todos, ele não pensava duas vezes antes de ajudar ou intervir para resolver alguma situação. Por isso ele tinha decidido entrar para a academia de polícia, por isso ele era guarda municipal. Assim ele podia ficar próximo dos meninos que passavam mais tempo na rua que em suas casas, com as meninas que fugiam vira e mexe de situações violentas dentro de casa, na escola ou mesmo na rua.
Ele gostava de achar soluções para os mais diversos problemas.
Ajudava todo mundo, mas ultimamente seus problemas pareciam tão grandiosos e fora de controle que ele não fazia ideia por onde deveria começar, pelo menos conscientemente.
Mas seus pés lhe levaram silenciosos para onde ele deveria dar o primeiro passo. E, inconscientemente, ele percebeu que andara por vinte minutos sem rumo, mas já estava no bairro residencial onde passara grande parte de sua adolescência.
Naruto riu, desacreditado, aturdido e ansioso. Passou a mão pelos cabelos bagunçados e secou uma fina camada de suor na testa com a camiseta de manga longa. Encarou a entrada do bairro, vendo as construções que há muito tempo tinham sido vítimas de um grande incêndio. Incêndio este que deixara Sasuke órfão ainda criança.
Sacudiu a cabeça e pensou em voltar para casa, não fazia o menor sentido ir até lá, menos ainda quando não sabia o que dizer ou como processar tudo aquilo que ele ainda estava tentando entender e acreditar sobre o melhor amigo.
Deu alguns passos atrás, mas seu coração falou mais alto: Naruto era bom solucionando problemas, ele ia dar um jeito.
Sem se perguntar mais nada, Naruto andou pelas ruas tão conhecidas e caminhou até a antiga casa dos Uchiha, onde Sasuke e Itachi ainda viviam.
Ele podia estar muito enganado, mas seguir seu coração sempre o ajudara a lidar com as adversidades que encontrara ao longo da vida. Mesmo com o fato de seu coração não ter acertado muito com Hinata nos últimos tempos.
Bateu na porta incerto e aguardou por um longo e assustador minuto até que alguém abrisse. Seu peito socava desesperado no peito, sua mão suava segurando a sacola de plástico com os bentô e sua cabeça começava a doer. Mas quando o rosto conhecido de Itachi apareceu atrás da porta, Naruto respirou fundo e forçou um sorriso.
- Naruto! – exclamou o homem com um breve sorriso – Que surpresa agradável.
- Oi... quanto tempo... – ele coçou a nuca e se mexeu incômodo – O Sasuke está?
- Claro, entre, ele está no quarto, ainda não levantou.
Suas energias pareceram esvanecer.
- Ah, não quero atrapalhar então.
Parecia que o destino estava lhe dando uma segunda chance para repensar a ideia de falar com Sasuke.
- Imagine, você nunca atrapalha – Itachi postou uma mão em seu ombro e sorriu prestativo, dando espaço para Naruto entrar – É uma boa coisa você vir, ele tem passado alguns dias difíceis, dá pra reparar pela cara dele, não está dormindo bem. Conversar vai ser bom pra ele.
A expressão séria que perpassou no rosto de Itachi, fez Naruto perceber que ele certamente não era o único preso à uma serie imensa de medos e incertezas.
- Certo.
Naruto entrou e foi rapidamente envolvido pelo aroma de incensos. Foi a gota d'água.
Aquele cheiro específico significava muitas coisas. Trazia recordações agridoces de anos e anos frequentando aquela casa. Os incensos eram acendidos diariamente em memória aos pais falecidos e o espaço para os incensos de Naruto para seus próprios pais sempre estivera ali: disponível para quando ele precisasse.
Aquela amizade era preciosa demais para terminar daquele jeito. Ele se negava a admitir que poderia perder Sasuke, fosse pelo motivo que fosse.
Naruto olhou ao redor e viu como tudo estava em plena ordem, seus olhos encararam o altar com as fotos da família, onde os incensos queimavam silenciosamente.
- Você pode acender alguns se quiser.
A oferta o aconchegou de novo àquela atmosfera antiga, lhe afastando dos medos e da ansiedade. Ele andou devagar até lá, pegou dois incensos – para seu pai e sua mãe – os acendeu com o isqueiro sobre a mesinha e colocou no lugar reservado para ele, apenas para ele.
Aquela era sua segunda casa e aquelas pessoas eram sua segunda família.
Juntou as mãos, fechou os olhos, e pediu para as almas de seus pais por discernimento, pediu que eles o ajudassem a não perder sua segunda família. Pensou em Sasuke e pediu para que acalmassem também seu coração, pois certamente nenhum dos dois estavam em paz nesse momento.
Bateu as palmas das mãos lentamente, duas vezes e abriu os olhos, sentindo-os arder levemente.
Ele deveria fazer isso mais vezes, ele deveria acender seus próprios incensos em casa.
Itachi apareceu no corredor e o observou.
- Você quer que eu guarde isso? – ofereceu encarando a sacola pendurada em seu braço.
- Ah, sim – lembrou-se dos bentô e sorriu sem jeito – Fique à vontade para comer se quiser, obrigada por me receber.
- Eu vou sair para almoçar daqui a pouco – disse, pegando a sacola e observando Naruto com atenção – Não precisa agradecer, Naruto, você é sempre bem-vindo nesta casa.
E, de repente, Naruto soube que estava fazendo a coisa certa. Quando Itachi desapareceu para a cozinha, o loiro respirou fundo, olhando a foto de família, um Itachi pré-adolescente e um Sasuke pequenino o olhavam de volta, acompanhados por seus pais.
Então ele subiu as escadas.
O quarto estava escuro, as cortinas bloqueavam a luz do dia e Sasuke estava enroscado nas cobertas, tapado até quase a ponta do nariz.
Naruto sorriu, sentindo o peito doer e o coração acelerar demais. Ele não deveria estar num quarto escuro com Sasuke, deveria?
O que o outro pensaria dele? O que aquilo significava?
Tirou os tênis, sem fazer muito barulho e encostou a porta e esperou seus olhos se acostumarem com a escuridão, esperou seu peito parar de batucar apressado, esperou a respiração voltar ao normal. Então andou até a cama de casal baixa, onde passara muitas noites insones conversando com o melhor amigo.
Naruto se sentou na beirada da cama e fechou os olhos. Ele queria chorar só de olhar para aquele quarto, por reviver aquelas lembranças.
Sasuke suspirou e se mexeu na cama e Naruto segurou a respiração ansioso.
- Itachi? – a voz áspera de Sasuke soou sonolenta e distante – Dê o fora.
- Sou eu – Naruto murmurou, sem saber o que mais poderia dizer.
Houve um movimento brusco.
Sasuke se sentou rapidamente, Naruto se virou melhor para encarar o amigo e eles ficaram em completo silêncio por um longo momento.
- ... O que você está fazendo aqui? – a pergunta soou desolada e Naruto sentiu o coração apertar.
Quanto Sasuke estava sofrendo? Por quanto tempo?
- Naruto... – Sasuke pressionou e havia certa raiva em sua voz, urgência em saber o que ele estava fazendo ali.
- Eu... Não sei – admitiu, enroscando os dedos na coberta quente ainda do corpo de Sasuke.
O moreno olhou ao redor e passou as mãos pelo rosto, depois tentou ajeitar os cabelos com os dedos, desajeitado, ansioso.
- Acende a luz, por favor – pediu, mas Naruto negou com a cabeça.
- Não – sua voz soou cansada.
Ele não conseguiria olhar para o outro sem nenhuma barreira de proteção.
- Mas-
- Sasuke-
- Eu vou ao banheir-
- Não – Naruto repetiu, firme, segurando Sasuke pelo pulso antes que ele pudesse se levantar.
Sasuke pareceu assustado, seu olhar se fixou na mão do loiro, seu rosto de repente se transformou numa máscara de tristeza e medo que Naruto não sabia como lidar. Ultimamente ele não sabia como lidar com muitas coisas.
- Eu não sei bem o que dizer, nem o que fazer... Mas eu não quero mais me preocupar em perder você. Eu não sei como você está se sentindo ou o que você espera de mim, muito menos se posso de alguma maneira corresponder às suas expectativas... Mas...
Os olhos negros de Sasuke o encararam surpresos, assustados, quase coagidos, mas Naruto firmou os dedos em seu pulso e deixou a cabeça pender sob aquele olhar. Ele ia despedaçar se perdesse essa amizade.
- A gente já perdeu tanta gente que... Eu não consigo imaginar perder você. Eu não posso permitir que isso aconteça.
As lágrimas escorreram silenciosas por seu rosto e os soluços vieram baixos, uma tristeza incrível escorrendo para fora dele.
Sasuke o observou em silêncio, o coração acelerado e a cabeça girando.
- Eu achei que você nunca mais fosse olhar na minha cara – o moreno admitiu, levantando a mão e secando o rosto de Naruto – Você fugiu de mim todos esses dias e eu pensei... – sua voz embargou, sua mão caiu de novo sobre o colchão, mas ele não tinha forças para lutar contra as emoções, tinha sido uma noite péssima, uma semana horrível, cheia de incertezas – Eu realmente pensei que você me odiasse.
Nenhuma lágrima escorreu por seu rosto, mas o tom de sua voz, o modo como ele postou uma mão sobre os dedos de Naruto contra sua pele, a maneira como ele lhe olhava quase envergonhado, fez o loiro compreender que sua dor era intensa, profunda e muito antiga.
- Eu nunca seria capaz de te odiar – Naruto falou, as lágrimas descendo com rapidez por suas bochechas.
A expressão de choro fazendo com que ele parecesse um menininho perdido.
- Você é meu melhor amigo, Sasuke, como eu poderia te odiar? – perguntou igualmente desolado.
Sasuke soluçou seco e puxou seu braço com força, tombando o corpo de Naruto contra si, abraçando-o com força, sentindo o rosto úmido do amigo pressionar contra seu ombro enquanto chorava.
E os braços de Naruto o envolveram com tamanho desespero, com tamanho medo e ao mesmo tempo carinho que Sasuke achou que se morresse agora, tudo teria valido a pena.
- Naruto... – sua voz falhou e seus dedos tremeram, acariciando as madeixas loiras. Sasuke apoiou a testa no pescoço quente de Naruto, fechou os olhos, sentiu o corpo inteiro tremer de leve com o aroma específico do amigo, e ondas de medo se dissiparam aos poucos – Obrigado por não me abandonar – murmurou, e as mãos de Naruto se agarraram contra o tecido do pijama, segurando-o com firmeza – eu te amo.
O
Temari já tinha tomado três xícaras de café preto quando Shikamaru apareceu na porta da cozinha, o cabelo desgrenhado e o olhar ainda sonolento.
- Como você está?
Ela o olhou com carinho. Sabia que Shikamaru se preocuparia com ela, mesmo que ela não gostasse muito daquilo. Era seu modo de demonstrar que os problemas dela também eram dele.
- Indo...
Desde muito cedo ela tivera que ser forte, como uma fortaleza protegida de tempestades e desastres naturais, um forte onde ela pudesse proteger aqueles que amava.
Tinha perdido a mãe muito cedo, e numa família de políticos há pouco espaço para fraquezas e sentimentalismos. Ela ajudara a criar os irmãos. Ela os protegera de tudo o que pudera por anos, ela tinha sido forte. Com um pai ausente sempre ocupado com reuniões, campanhas e gestões de políticas públicas, não era fácil aprender a ser vulnerável.
Fraqueza e vulnerabilidade apenas a expunham a muitos riscos, riscos que ela não podia se permitir. Foi assim que cresceu e assim que ajudou os irmãos a serem os homens que eram hoje em dia. Mas a simples ideia de um deles estar sob ameaças era suficiente para esmorecer as paredes grossas de sua fortaleza, principalmente quando não estava lá e não podia fazer nada.
- Você decidiu o que vai fazer?
Ele se serviu de café, deu um beijo suave nos lábios dela e se apoiou contra a pia.
- Comprei um voo para Suna, vou amanhã antes do almoço.
- Certo. Você quer que eu vá junto?
Ele sabia que parte daquela pergunta a faria pensar que ele a considerava fraca, mas Shikamaru se preocupava por ela, exatamente porque gostava dela.
- Não precisa – respondeu simples e cruzou as pernas.
Quando o tema era a política de Suna e a família dela, Temari costumava o deixar afastado. Era sua maneira de o manter distante de uma série de problemas e sigilos.
Shikamaru concordou com um aceno breve e passou as mãos pelos cabelos, aquela distância que ela mantinha entre sua família e ele, entre aquilo que a demonstrava mais frágil e ele, era algo que sempre lhe incomodara, mas ele conseguia entender.
Temari era como um cavalo que nunca tinha sido amansado, um animal livre e empoderado que não precisava de ninguém para seguir seu rumo e traçar seus próprios caminhos.
- Eu não quis ofender eu apenas-
- Eu sei, Shikamaru. E eu fico grata pela tua preocupação, apenas não estou acostumada com isso. Você sabe disso.
Ele sabia, sabia bem demais.
- Tem planos para hoje? – ele perguntou, mudando a direção da conversa antes que ela ficasse espinhosa demais. Shikamaru detestava quando precisava pisar em ovos com ela.
- Pensei que podíamos sair hoje de noite.
- Onde?
- The Catch? – ela sugeriu.
- Você sabe que eu odeio festas...
- Sim, mas Ino, Hinata, Sakura e Genma já confirmaram, assim que imagino que iremos todos.
Ela se levantou e andou até ele. Seu rosto de expressões arredias parecia cansado. Shikamaru soltou a caneca sobre a pia e segurou os quadris dela.
- Eu preciso da distração.
Shikamaru riu.
- Como você é chantagista...
Ela riu também. Temari era boa naquilo.
- Você sabia que eu não diria não com um argumento desses.
- Agora temos que convencer o belo adormecido...
Shikamaru balançou a cabeça e a puxou para si, beijando de leve seus lábios e a abraçando em seguida. Temari escondeu o rosto na curva de seu pescoço e inalou o aroma de sua pele, masculino e conhecido. Então decidiu traçar um caminho mais seguro para si mesma naquela conversa.
- Você cansou muito ele, foi? – perguntou com uma voz sacana.
O homem fechou os olhos num reflexo, apertando-a mais contra si.
Sim, ele definitivamente poderia dizer que havia cansado Neji com uma estúpida competição sobre quem conseguia-
- O que vocês fizeram ontem, danadinho?
Ele riu. Uma estranha vergonha tomando conta de seu corpo, certamente se ela pudesse ver seu rosto, ele estaria estranhamente corado.
- Preliminares...? – sugeriu ele rindo.
- Oh!
Temari se afastou e fez uma cara safada que o fez rir mais e olhar o chão constrangido.
- Você tem se saído um curioso de mão cheia.
- Quem disse que é curiosidade? – rebateu, olhando-a de esgoela.
- Shikamaru, você vai precisar falar mais sobre isso...
O homem pegou a caneca de novo, afastando as imagens mentais.
- Como foi? – ela perguntou curiosa.
- Temari – sua voz repreendeu-a, o que a fez sorrir mais interessada.
- Fala logo.
- Não.
- O que exatamente vocês fizeram?
- Eu não vou falar sobre isso.
- Você disse que estava tudo bem desde que eu contasse tudo o que Neji fazia comigo, pois bem, você vai ter que começar a falar.
- Eu disse que não vou-
- Ele não quer assumir que perdeu uma aposta com a milagrosa ajuda de dedos muito experientes em técnicas de do-in chinesa.
Temari deixou o queixo cair e Shikamaru encarou o homem parado na porta da cozinha com um ar extremamente orgulhoso de si mesmo. Neji era o demônio.
- Meu Deus! – ela exclamou, antes de desatar a gargalhar, encarando um Shikamaru corado e aparentemente emburrado – Neji, você precisa me ensinar isso!
Neji sorriu. Seus cabelos caiam em cascata sobre o peito nu, onde alguns chupões faziam uma linha extremamente reta até seu quadril, quatro espécimes maravilhosamente arroxeadas. Ela se perguntou se haveria mais debaixo da calça do pijama...
O homem tinha passado pela mesma sensação desesperada do outro dia ao despertar no quarto de Shikamaru e Temari, como se tivesse feito algo horrível, monstruoso. Mas depois de uma série de exercícios de respiração para controlar um possível ataque de pânico, ele conseguiu levantar, lavar o rosto e ajeitar os cabelos.
- Vejo que Shikamaru usou teu corpo como canvas também... – ela apontou para os chupões e sorriu maliciosa – Ele é bastante eficiente com a boca quando quer...
Ela estava pescando num mar repleto de peixes, percebeu quando Shikamaru engasgou com o café e Neji riu.
- Não tenho reclamações – respondeu simples, e lançou um olhar interessado para o Nara, levantando uma sobrancelha perfeita.
- Ótimo, acho que vou alimentar vocês, assim posso receber uma sessão de do-in irrestrita também. O que acham?
Shikamaru riu, afundando o rosto em uma das mãos e Neji se aproximou mais dela com um andar perigoso e arisco.
- Você não precisa me alimentar para receber do-in, mas vai precisar de bastante fôlego... – a voz dele caiu notavelmente e Temari lhe envolveu o pescoço com seus braços.
- Fôlego eu tenho de sobra – ela respondeu, começando a beijar o pescoço dele.
O Hyuuga encarou Shikamaru sobre o ombro de Temari, seu olhar era sério e o Nara apenas acenou de leve, enquanto bebia café.
Neji sabia ler um comportamento quando queria. Ele sabia que Temari precisava da distração e que os olhos de Shikamaru transbordavam de preocupação, pelas resistências que ela insistia em manter.
O Nara se aproximou e beijou de leve o ombro de Temari, fechando os olhos com pesar.
- O que vocês acham de um do-in no banho? – propôs carinhoso e sentiu um dos braços de Neji envolver a lateral de seu corpo também, apertando seus corpos ao redor dela como uma muralha protetora.
Os dedos do Hyuuga alcançaram um ponto peculiarmente tenso na base do crâneo de Temari e pressionaram, fazendo a energia retida drenar como uma pequena turbina, liberando algumas sensações, rompendo algumas barreiras. Conectando-a com tudo aquilo que ela não queria se conectar.
- Entre a cabeça e o coração, há muitos pontos de conexão – ele murmurou, sentindo-a esmorecer um pouco entre eles.
Temari suspirou e apoiou a testa no peito do Hyuuga. Por um segundo, ela sentiu que sua fortaleza estava ruindo, então fechou os olhos com força. Nem sempre se distrair é tudo que alguém precisa, às vezes só precisamos que alguém aperte todos os botões errados, nos exponha e nos faça aceitar que nem tudo está em nossas mãos.
Shikamaru encostou os lábios contra a orelha dela, sentindo como seu corpo tremia de levezinho e emanava um calor específico que ele tanto adorava.
- Eu te amo – sussurrou, antes que ela deixasse um par de lágrimas solitárias escorrerem por seu rosto, no breve e único momento de fraqueza que se permitiria ter.
O medo de perder seu irmão escorreu junto com aquelas lágrimas, e ela sentiu os corpos deles servirem como proteção para seu momento de vulnerabilidade. E, silenciosamente, ela os agradeceu.
- Agora deixe-nos cuidar de você – Neji falou baixinho, movendo seus corpos devagar, em sintonia com os movimentos mínimos de seus dedos na nuca dela e das energias que aquele ponto tenso lhes gerava.
Juntos eles eram mais fortes, e aquela conexão fez algo no peito de Neji queimar ao encontrar o olhar agradecido e atencioso de Shikamaru encarando os seus.
U
Eles estavam comendo em silêncio. Mas era um silêncio agradável e bem-vindo. A tensão inicial tinha se dissipado, assim como o medo e a insegurança. Sasuke tinha pedido um tempo antes de falarem mais sobre aquilo e Naruto achou que fazia sentido.
Por enquanto eles comeriam, matariam tempo juntos, mas haveria aquele espaço em branco que aos poucos seria completado, peça por peça, como um quebra-cabeças.
Seu celular vibrou e ele o pescou no bolso detrás da calça.
Era uma mensagem de Ino:
"Vamos todos no The Catch hoje! xDD" 14:22
"Você precisa vir, vai ser divertido! #party" 14:22
"Onde você está? Quer sair para tomar café mais tarde?" 14:23
- Tá tudo bem? – Sasuke perguntou, comendo seu arroz com calma. Ele parecia achar difícil olhar Naruto nos olhos como costumava fazer, mas ele estava tentando. Parte de si ainda estava absurdamente envergonhada por ter dito a verdade a Naruto.
- O pessoal vai na The Catch hoje...
- Hm.
- Você quer ir? – Naruto sentiu o peito acelerar ao proferir as palavras, ele não queria que houvesse nenhum mal entendido entre eles.
- Não posso.
Naruto encarou Sasuke com pesar.
- Ne, Sasuke, eu... Eu não quero que as coisas fiquem estranhas. Mas, se você quiser colocar alguns limites na nossa amizade para não... sabe... ter nenhum desentendimento ou confusão, eu entendo.
Sasuke sorriu de leve e concordou com a cabeça, sem olhá-lo.
- Eu não posso porque combinei de tomar algumas cervejas com Kakashi-sensei.
- Sério? – Naruto admirou-se – Mah, faz tempo que eu não faço algo assim com o Kakashi-sensei... – ele quase fez biquinho, mas Sasuke o olhou estranho, então ele engoliu a vontade e simplesmente bebericou sua água.
- Podemos combinar outro dia, hoje preciso conversar com Kakashi.
- Wow, parece sério.
Quando Sasuke não respondeu, Naruto continuou comendo silenciosamente. Ele se perguntou se aquela sensação estranha e incômoda iria, em algum momento, dissipar, e então eles voltariam a ser o que eram antes.
Mas o que eram antes?
Para ele tudo sempre tinha sido muito simples e familiar, mas como todos aqueles anos teria sido para Sasuke? Como ele aguentara? Naruto certamente teria ficado louco, com toda a aproximação, a amizade, as horas sem fim de companhia, aguentando Naruto falar sobre uma ou outra garota, e depois sobre Hinata.
Céus, deve ter sido um fiasco. Naruto torceu para que eles não voltassem a ser assim, ele torceu para que aprendesse a manter uma distância segura que protegesse Sasuke minimamente. Ele não queria gerar mais nenhum sofrimento.
Sasuke perguntou se ele queria um pouco de chá e foi para a cozinha preparar.
Quão difícil deve ser levar uma vida assim, escondendo seus sentimentos das pessoas que são mais especiais para si? Naruto certamente não conseguiria viver assim, sua maneira de ser era muito expansiva para manter um segredo daqueles trancado a sete chaves.
Quando o amigo voltou com a bandeja de chá e se sentou ao seu lado no sofá, ele percebeu que sua expressão estava séria demais.
- Obrigado – disse, pegando o chá e sentindo uma bolha estranha envolver seu coração – Obrigado por termos resolvido as coisas – acrescentou – Eu-
- Não quero falar sobre isso agora, Naruto.
- Certo. Desculpe, eu-
- A Sakura sabe – Sasuke disse, cortando a linha de pensamentos do loiro e não dando espaço para que ele seguisse.
- Ela... sabe?
- Eu falei para ela ontem. Ela não merecia nada do que eu lhe fiz e era justo ela pelo menos entender meu lado.
- Ok.
Naruto afundou no sofá e sua cabeça tombou para trás. Agora ele não conseguia sequer pensar em como ela deveria estar.
- Quando você decidiu falar com ela?
- Há alguns dias atrás – o moreno apoiou os cotovelos sobre os joelhos e segurou a taça de chá com cuidado – Kakashi sensei me ligou e disse que eu precisava para de fazer o que quer que fosse que eu estava fazendo com Sakura, ele disse que tínhamos passado uma linha invisível e que ela não ia aguentar aquilo por mais tempo.
- Ele disse isso? – Naruto ergueu a cabeça e observou o amigo.
- Parecia bastante preocupado. Para falar a verdade eu nunca imaginei que ele fosse se envolver nisso, mas acho que ele deve ter conversado com ela e percebido que Sakura não estava nada bem.
- Ela procurou um psicólogo – Naruto murmurou com pesar – Ela disse que precisava virar a página.
- Agora ela pode fechar o livro – Sasuke falou resoluto.
Naruto se perguntou se Sasuke poderia também fechar o livro. Mas a dúvida lhe gerou uma dor aguda no peito e ele precisou fechar os olhos e suspirar.
- Você foi muito valente.
- Ela me deu um tapa – Sasuke falou, e então riu, como se a lembrança fosse engraçada – Eu espero que ela fique bem.
- Ela tem muitos amigos, Sasuke, ela vai ficar bem – Naruto tomou um gole de chá e devolveu a xícara para a mesinha de centro, ajeitando-se no sofá ao lado do outro com seriedade.
- É.
- Mas e você, Sasuke, você vai ficar bem?
A pergunta pegou o moreno desprevenido e ele virou o rosto com rapidez para encarar Naruto com surpresa.
Eles se olharam por um longo e demorado minuto, até que Sasuke sorriu com pesar e virou o rosto para evitar contato.
- Só o tempo dirá...
A dor no peito de Naruto de espalhou pelo corpo todo e ele sentiu pena. Sasuke era uma pessoa solitária, e devia ser terrível ter se apaixonado por seu melhor amigo quando este não podia devolver o sentimento à altura. Mas ainda assim, Naruto era seu amigo.
- Você tem a mim – o loiro falou baixinho e apoiou a mão no joelho do outro – eu não vou te deixar sozinho.
Sasuke deixou uma gargalhada amarga escapar pelos seus lábios e jogou uma almofada na cara de Naruto. Como nos velhos tempos.
- Não seja sentimental, baka!
O moreno passou as mãos pelos cabelos, um pouco abrumado por tantos sentimentos, mas a mão de Naruto continuou segurando firme em seu joelho, mesmo que o loiro tenha jogado a almofada de volta para ele.
A risada virou de repente um soluço solitário no fundo de sua garganta e Sasuke agarrou a mão de Naruto com força.
Ele não estava só. Não estava.
- Obrigado – murmurou, antes de se levantar e andar para o banheiro rapidamente, deixando um Naruto preocupado para trás.
Eles teriam um longo caminho até que as arestas todas fossem devidamente aparadas. Mas Naruto não pensava largar a mão de Sasuke tão cedo. Afinal, amigos são para isso, para andar juntos mesmo quando o caminho é árido e doloroso.
N/A: Tai, mas cadê kakasaku? Ué, eles estão ali ó, no cap 21 ;)
Espero que vocês tenham curtido. Sinto muito a demora, mas fiquem ligadas no meu Face, eu to colocando atualizações por lá (Tainara Bécquer). Vou ficar aguardando para saber o que vocês acharam do capítulo. Um beijãaaao!
Love, Tai
