Gostaria de agradecer a maravilhosa Maethril por me ajudar com a história e com meus errinhos de português. Você é demais! Aproveitem! Por enquanto o capítulo ainda é pate da introdução da história, mas o passo vai acelerando no próximo capítulo ;)
Traduções estão no final da fic.
EDIÇÃO: Este capítulo passou por uma grande modificação. Em parte por eu estar insatisfeita com a escrita e caracterização. A história continua, em sua essência, a mesma. Aproveitem :)
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Capítulo 2 - Encontro
Às vezes, Vampira não entendia como Kitty Pryde, uma das maiores adoradoras de rosa que já conhecera, conseguia acertar em suas sugestões de roupas para a gótica. Em muitos casos, suas escolhas passavam longe do estilo no qual Vampira se sentia confortável... estupidamente longe; mas uma vez ou outra, Kitty conseguia entender exatamente do que a colega precisava; tal como achar um par de meias sete oitavos na liquidação. Eram lindas: pretas, com rendas discretas nas bordas e que cobriam as pernas o suficiente para a mutante com pele "mortal" usá-las sem precisar se preocupar com qualquer tipo de toque acidental.
As meias, no entanto, foram as únicas coisas que Kitty conseguira acertar para Vampira naquele fatídico dia de compras no shopping. A garota obcecada por moda também convenceu a amiga a vestir saias de variados tons pastéis, além de vestidos rendados e regatas que expunham demais sua pele pálida e perigosa.
Depois de ser forçada a segurar outro cabide com mais um vestido sem graça enquanto caminhavam pela quarta loja de roupas do dia, Vampira perdeu o pouco da paciência que lhe restava. Colocou o cabide de volta em seu lugar, encarou a amiga nos olhos e a fez desistir, por ora, de suas tentativas incessantes de mudar seu estilo gótico.
"Tudo bem, podemos tentar semana que vem," Kitty respondeu, acostumada com o tom pouco amigável de Vampira. "Achei uma loja que tenho certeza de que você vai gostar, perto da lanchonete que fomos semana passada," virou-se para o outro lado, com sua atenção agora voltada para um par de calçados. "Mas ainda preciso achar alguma coisa para usar para o meu encontro com o Lance hoje. Então nem pense em fugir, viu?"
Vampira deu de ombros, considerando a opção de apenas ajudar alguém a escolher roupas coloridas demais melhor a ser forçada a vesti-las.
Saíram do shopping com poucas peças novas, mas com a meta de Kitty de encontrar algo novo para seu encontro com Lance alcançada: achou um par de saltos altos e um vestido rosa claro, modelo tubo, com alças finas e discretas, que até Vampira teve de admitir serem perfeitos para a ocasião que Kitty considerava de extrema importância. No caso, queria comemorar o período de dois meses de seu relacionamento com Avalanche no qual não tiveram nenhum tipo de desacordo que geralmente resultava em separação.
Ao chegarem à mansão, as duas garotas foram até o quarto que dividiam e guardaram suas compras. Em seguida, a gótica esperou Kitty se arrumar para levá-la até a Irmandade como havia (acidentalmente) prometido no começo da semana.
Era o que Vampira ganhava por deixar sua mente divagar em problemas que não contara a ninguém e apenas concordar com o que a amiga tagarela pedia, sem realmente prestar atenção no assunto da conversa.
Durante aquela interminável semana, se pegava "lembrando" de laboratórios sombrios e tubos de experimento mais do que gostaria de admitir.
Sua insônia também não ajudava. Noites passadas em claro apenas faziam-na tirar cochilos acidentais durante as aulas mais entediantes da escola e, uma vez ou outra, sonhar com o mesmo grito e dor intensa de uma distante lembrança que não lhe pertencia.
Ainda se pegava procurando por alguma cicatriz em seu couro cabeludo, antes de se lembrar de que não encontraria nada ali.
Estava cansada, e alguns de seus amigos já haviam notado (ainda que ela jogasse a culpa em trabalhos e testes surpresa), sendo uma das razões para sua colega de quarto tentar "animar" a gótica com uma saída para compras.
De qualquer maneira, Vampira viu a situação na qual se metera com Kitty como uma oportunidade para, depois de deixá-la na Irmandade, passar em sua loja de discos favorita no centro da cidade. Queria um momento para si mesma, o que parecia uma raridade naquela mansão cheia de adolescentes que procuravam por qualquer desculpa para sair em grupo todos os dias da semana.
Decidiu trocar de roupa: colocou calças e botas pretas com uma jaqueta de couro sobre um top verde escuro; depois penteou o cabelo mais do que o necessário, por falta do que fazer, e retocou a maquiagem. Ao ver que a hora ainda não passava, jogou-se na cama e pegou um de seus livros favoritos. Enquanto cantarolava uma música qualquer, procurou vagarosamente pela última página que havia lido semanas atrás.
Um pequeno retângulo de papel caiu dentre as folhas e interrompeu-a em sua cantoria, pousando silenciosamente sobre seu peito. Por alguns segundos, Vampira não entendeu o que poderia ser, até pegar o objeto com os dedos enluvados e deparar-se com o par de olhos da Dama de Copas.
Deixando o livro de lado, sua mente divagou para lembranças próprias, de meses atrás. Lembrou-se de sua visita ao estado da Louisiana, da multidão de pessoas fantasiadas e maquiadas, gritando e dançando.
Lembrou-se de bares que tocavam jazz enquanto serviam pratos típicos da região, alguns tão parecidos com os que ela comia em sua infância.
Lembrou-se dos pântanos e da luz do luar refletida contra as águas negras de um rio lodoso. E finalmente, lembrou-se da pessoa que lhe entregou a carta às margens do mesmo rio; a mesma carta que, a essa altura, deveria ser a única sobrevivente do baralho que viera.
Vampira se perguntou o que havia acontecido com o antigo dono do objeto. Irritou-se um pouco ao pensar que guardou a peça por tanto tempo, levando em conta que, depois de o dono ter conseguido o que queria, desapareceu, como muitos já fizeram na vida dela.
As palavras e até sentimentos que compartilhou com ele naquele dia ainda estavam frescos em sua memória, quase como para avisá-la de sua própria ingenuidade. Envergonhou-se por abrir-se tão facilmente com um ex-inimigo; por compartilhar tanto com alguém que nem ao menos apareceu para lutar contra o mutante que ameaçou a humanidade semanas depois, ou para simplesmente manter sua promessa... para provar que o que passaram em Nova Orleans não fora uma completa mentira.
Ela não esperava uma visita na qual sentariam lado a lado para colocar o assunto em dia; não chegaram a se tornar amigos, mas ela sabia que, se ele quisesse, faria sua presença notada por ela, como um lembrete de que se importava com a pessoa que ajudou a resgatar o "pai".
Por muito tempo depois de Nova Orleans, Vampira se perguntou se a conexão que criara com aquele homem fora tão real para ele quanto fora para ela.
"Você vai ficar bem, chérie. Tem gente tomando conta de você."
Talvez estivesse errada. Talvez estivesse interpretado errado aquelas palavras.
A promessa não significava nada e a carta era apenas um adeus, talvez um presente para deixá-los quites e lhe dar toda a sorte que precisava aos olhos dele.
Não estava funcionando.
Pensou, então, em finalmente jogar aquele pedaço de papel fora, querendo provar para si mesma que tudo estava no passado. Que não era importante.
Sentou na cama e estudou os desenhos roxos e complexos da parte de trás da carta. Virou-a, e encarou a Dama de Copas uma última vez. O olhar fixo e sereno dela a encarava de volta.
Foi quando Vampira ouviu o clac clac de saltos altos vindos do corredor. Sabia que, a qualquer segundo, sua colega de quarto poderia entrar, atravessando as paredes ao invés de usar a porta como qualquer pessoa normal.
Por reflexo, jogou a carta entre as páginas de seu livro e fechou-o a tempo, já que instantes depois, Kitty apareceu no quarto usando o vestido recém-comprado; seus cabelos castanhos e ondulados estavam soltos, cobrindo seus ombros magros e estreitos.
Quando terminou de passar a maquiagem (enquanto falava incessantemente com uma Vampira meio atenta), pegou uma blusa e puxou a amiga para a garagem.
No tempo em que levaram para chegar à Irmandade, o céu já estava completamente escuro. Uma brisa fria batia contra os rostos das duas garotas ao caminharem até a casa. Algumas das janelas do lugar estavam com as luzes acesas, outras falhavam, piscando uma vez ou outra graças ao perceptível descuido com a construção, um infeliz contraste com a sempre conservada mansão na qual as duas X-Men moravam.
Uma dentre as várias coisas que Vampira não sentia falta na Irmandade era o lugar em si. Estava sempre mudando para pior, com buracos e rachaduras novos a cada dia que se passava (mesmo quando Mística ainda segurava as rédeas do grupo); e sempre emanando um cheiro duvidoso de algum cômodo.
E se não fosse do cômodo, era provavelmente de Groxo, com sua rotina mensal de tomar banho, ou de Fred, quando decidia comer algo que o deixava com gases fortes. Vampira lembrou-se de um dia em que perguntara a Lance se tais "gases" eram algum tipo de mutação secundária de Fred, pois seriam úteis contra alguém como Wolverine. Avalanche teve de trocar de blusa depois de rir demais e acidentalmente derramar seu energético na roupa.
A risada de Lance fez Vampira lembrar-se dos poucos bons momentos que passou com o grupo de encrenqueiros (até mesmo com Fred, que parecia ter esquecido de sua briga com a gótica para salvar Jean)… e como tudo foi por água abaixo quando ela escolheu trocar de lado.
Ao se aproximarem da casa e baterem na porta – para a falta de surpresa das duas, a campainha não funcionava–, ouviram gritos de Groxo e a risada distante de Pietro. Em seguida, ouviram Lance reclamando de algo e parecendo não ter escutado o barulho da porta da frente.
Kitty rolou os olhos e suspirou, olhando para a amiga um pouco sem graça, como se fosse responsável pelo comportamento bagunceiro do namorado. Tentou olhar pelo vidro da porta, para ver se alguém se aproximava. Nada.
Vampira prendeu as chaves do carro no passante de sua calça enquanto esperava, depois cruzou os braços e batucou os dedos.
Outra brisa fria arrastou diversas folhas secas pelo chão da propriedade e as copas das árvores se contorceram conforme a direção do vento mudava. Ao bater contra suas costas, Vampira virou-se.
Olhando à sua volta, franziu a testa. Notou o Jeep de Lance estacionado a alguns metros das duas… e a moto ao lado.
Kitty bateu na porta de novo. Ninguém ouviu. Vampira então suspirou, afastou a amiga da entrada e bateu com mais força.
A voz de Lance ecoou de dentro da casa ao finalmente ouvi-las. Claramente frustrado, ele disse um palavrão. "Ela chegou. Groxo, fala logo, seu-" o chão tremeu; as duas ouviram algo de madeira quebrar do lado de dentro e o eventual grito agudo de Tolansky.
Segundos depois, Lance abriu a porta em um movimento brusco e desajeitado, apoiando-se no batente da porta para ganhar equilíbrio.
"Ah, oi, Vampira. Oi, Kitty!" a não ser por seu cabelo desgrenhado e gravata para fazer, Lance estava surpreendentemente elegante com suas calças e camisa sociais; suas botas de combate, porém, faziam um contraste com o resto da vestimenta formal. "Me desculpa, eu consegui consertar o carro, mas o Groxo não lembra onde enfiou as chaves do Jeep e–" ao finalmente reparar a aparência de sua namorada, ficou mudo.
"Tudo bem, as reservas estão marcadas para às oito e meia, então, temos um tempinho para achar," Kitty disse dando um beijo rápido na bochecha do namorado antes de passar por ele com seus poderes e entrar na casa. "Onde você– Oi, gente. Onde você ainda não olhou?" Ela examinou o penteado de Lance e mordeu o lábio. "E sem querer ser rude, mas você não terminou de arrumar o cabelo, não é?" ele fez que não, mas rolou os olhos tentando parecer ao menos irritado na frente dos amigos. Por sorte, os outros mutantes estavam distraídos demais para zombar do comportamento do casal.
"E aí, Kit-Kitty. Vampira," Groxo falou da cozinha com estranha normalidade, considerando a situação em que se encontrava: estirado no chão com um armário caído sobre seu corpo magro.
Pietro, por sua vez, estava sentado no balcão, comendo batatinhas enquanto se entretia com a cena. Pedaços do salgado escapavam de sua boca a cada riso exagerado e desnecessário.
"Sabe, eu acho que posso ter deixado as chaves no meu quarto," Groxo comentou e deu de ombros o máximo que pôde embaixo do móvel. No mesmo instante, Lance, Kitty e Vampira se entreolharam, os rostos dos três se contorcendo em repulsa ao imaginar o que havia mais no quarto de Groxo.
"Já volto, Vampira! Quando acharmos a chave você pode ir, prometo!" a mutante intangível falou puxando o namorado pelo pulso em direção às escadas.
"Ué? Eu já trouxe você até aqui, porque você precisa que eu espere?" Vampira cruzou os braços, secretamente aliviada por ao menos não ser chamada para entrar no quarto de Groxo.
"É que se a gente não achar a chave, vamos precisar da X-Van…" Kitty fez a melhor expressão de cachorrinho abandonado que pôde. "E das suas excepcionais capacidades de motorista."
O elogio forçado fez a gótica revirar os olhos, mas ela se rendeu às súplicas da amiga. Era o mínimo que poderia fazer considerando a disposição que Kitty tinha em ajudar quando a situação era inversa.
Vampira sempre pôde contar com Lince Negra em momentos parecidos.
Como quando passava do toque de recolher e precisava de cobertura para não notarem sua ausência, ou quando queria saber de um boato da mansão e a patricinha a deixava atualizada sobre tudo o que estava acontecendo... ou quando, nas raras ocasiões em que não conseguia segurar seus gritos, Vampira tinha um pesadelo.
Por mais diferentes que fossem, em personalidade, em estilo e até na forma de pensar, as duas conseguiram formar uma boa duplicidade. Uma nunca deixava a outra na mão.
"Você me deve uma, garota. Estou falando sério," Vampira respondeu.
Kitty deu um gritinho entusiasmado e voltou a subir as escadas enquanto puxava o namorado pelo braço. "Te devo mesmo, Vampira! Você é a melhor!"
"Tá, tá," a amiga rolou os olhos depois de o casal desaparecer no andar de cima.
"E usem proteção, pelamordeDeus!" Pietro de repente gritou da cozinha enquanto usava um marcador para rabiscar o rosto de Groxo.
Vampira encarou o filho de Magneto com o cenho franzido. Mais uma vez, agradeceu por não precisar vê-lo (e ouvi-lo) mais do que o necessário.
Caminhando discretamente até a sala para não despertar o interesse de Mercúrio em incomodá-la, Vampira pegou uma revista largada no chão da sala; depois, sentou-se em um dos sofás e cruzou os pés sobre o que restava da mesinha de centro.
Enquanto folheava as páginas da revista, olhou de soslaio para Fred Dukes, prostrado sobre o que um dia fora uma poltrona cara. Uma caixa de pizza estava largada sobre sua cabeça, cobrindo parte de seu rosto rechonchudo enquanto dormia pacificamente.
Ele deu um ronco longo e alto. A caixa caiu e Vampira mordeu os lábios para não rir do monóculo pintado em volta do olho direito do mutante; para completar a arte, uma figura obscena decorava sua bochecha esquerda.
O pobrezinho nem consegue tirar seu sono de beleza em paz, ela pensou enquanto procurava por algo interessante para ler na revista de automobilísticos. Por sorte, encontrou uma matéria especial sobre motocicletas.
Observando as imagens de cada modelo, suspirou, pensando no distante dia em que finalmente teria sua própria moto... e não precisaria mais pedir a de Piotr emprestada quando estivesse com vontade de dirigir um pouco (o que acontecera apenas duas vezes desde a chegada dele à mansão).
A simpatia do russo era um grande contraste com a indisposição de Logan, que se irritou quando Vampira lhe fez um pedido parecido. A garota já esperava ouvir um "não", mas Wolverine podia ser grosso além do necessário quando suas motocicletas estavam envolvidas.
Passados alguns minutos, Groxo deu outro grito agudo da cozinha, interrompendo o curto silêncio que pairou pela casa. Vampira ouviu murmúrios de uma conversa e torceu para que ninguém viesse para a sala; não querendo ter de se comunicar com o grupo que ainda a considerava uma "traidora".
Não teve muita sorte. Livre do armário, Groxo logo apareceu, pulando como o sapo que era até os assentos do cômodo. Em seguida, sentou-se no espaço vazio do sofá onde Vampira estava, próximo a Fred.
Ao invés de falar com ela, Tolansky deu uma risada estranhamente nervosa para si mesmo. Curiosa, Vampira o observou de soslaio: as mãos juntas e apoiadas sobre suas pernas, os dedos se mexiam para lá e pra cá em um ritmo frenético e nervoso. Seus olhos saltados encaravam Blob como que esperando ansiosamente pelo mutante com superforça acordar.
Vampira voltou sua atenção para a revista, mas manteve-se atenta ao que acontecia à sua volta. Groxo, então, falou, "E-Ei. Vai ficar aqui por mais quanto tempo?"
Por alguns milésimos de segundo, Vampira achou que o garoto estivesse falando com ela, mas antes que ela pudesse reagir, Pietro apareceu na sala em um borrão.
"Ah,nãopormuitotempo," o autointitulado líder da Irmandade exclamou, tão inquieto quanto Groxo, ainda que, no lugar de medo, sua voz estava carregada de raiva. "Meu pai não pode fazer o que quiser e esperar que eu não tenha nada a dizer. Você já ficou por tempo demais; tem até amanhã para ir embora."
Foi quando as suspeitas de Vampira de que havia mais alguém na casa foram confirmadas. E, se seguisse sua intuição, tinha uma ideia de quem poderia ser, considerando a moto que vira estacionada ao lado do Jeep de Lance e a estranha sensação de que estava sendo observada desde que estacionou a X-van na propriedade.
Ela abaixou a revista que segurava e olhou a sua volta, Pietro e Groxo tinham a atenção voltada para a entrada da sala; e nela, com um ombro apoiado contra o pilar da parede e os braços cruzados, estava Gambit.
Uma sacola de viagem com alças longas estava pendurada em seu outro ombro e, por uma pequena fresta do zíper aberto, ferramentas de metal refletiam a luz amarela da sala.
Ele largou a sacola no chão e novamente virou-se para os mutantes no cômodo, examinando-os.
Foi quando seus olhos vermelhos se encontraram com os de Vampira. Ele balançou a cabeça em um sutil comprimento, seu sorriso aumentando.
Ela, por sua vez, espremeu os lábios em uma linha fina, incerta de como deveria agir.
Por mais que a repentina volta do Cajun para Bayville tenha atiçado sua curiosidade, Vampira não quis se envolver no que quer que estivesse acontecendo entre ele e a Irmandade.
Ao menos não se o assunto não ameaçasse os X-Men.
Já havia decidido que o que experienciaram em Nova Orleans não se repetiria, e que a única conclusão que deveria tirar do ocorrido era o quão perigoso e imprevisível Gambit realmente era. Por mais que as intenções dele fossem boas, até mesmo nobres, ela agora estava ciente do que ele seria capaz de fazer para alcançar seus objetivos.
Poderiam não mais tratar um ao outro como inimigos, mas também não seriam próximos como amigos eram.
Para ela, tratá-lo com indiferença ainda era o caminho mais seguro a se seguir.
Ela balançou a cabeça em resposta, mas ficou em silêncio. Levantando a revista à frente do rosto, voltou a ler o artigo em completo silêncio. Ainda assim, achou melhor ficar preparada para qualquer coisa, até uma possível briga entre Gambit e a Irmandade.
"Relaxe, Pietro," o tom de voz dele era quase imparcial ao falar com o adolescente que tanto se assemelhava o pai. "Acredite em mim, não quero ficar aqui por mais tempo também," ele chutou uma lata vazia de energético jogada no chão para explicar a razão. Em seguida, sentou-se na poltrona à frente da de Vampira e apoiou a canela sobre o joelho. "Mas, por enquanto, estão presos comigo. Ordens de seu pai," por baixo da calmaria, suas últimas palavras escondiam um tom perigoso. Encarou o filho de seu superior com um sorriso que não saía de seu rosto, desafiando-o.
Pietro claramente não gostou da resposta. Rangeu os dentes, mas permaneceu em silêncio, não querendo ir contra a autoridade do pai se a razão não fosse boa o suficiente.
"Vamos ver por quanto tempo," ele disse antes de sumir.
Um silêncio desconfortante tomou conta da sala.
Encarando Gambit, Groxo forçou um sorriso amarelo. Levantou-se em um salto ao notar o movimento da mão do Acólito, que tirou um um maço de cartas do bolso de seu sobretudo.
"É… acho que eu vou indo… pra outro lugar. Longe daqui," dando outra risadinha nervosa, Tolansky saiu pulando do cômodo tão rápido quanto entrara.
O Acólito não deu sinais de tê-lo ouvido, apenas continuou embaralhando suas cartas.
"Bien," ele murmurou para Vampira que o encarou por sobre a revista. "Acho que somos só eu e você agora."
Sua resposta foi um sorrisinho falso. "Não conte muito com isso. É só você," e ela levantou a revista, tampando sua visão da dele.
Gambit deu de ombros, sem parecer se importar, e optou por jogar paciência na mesinha de centro.
Por um tempo, Vampira achou que não iriam mais trocar palavra alguma. Tentou, então, se distrair com a matéria da revista, ainda que seus pensamentos estivessem em outro lugar. Quando estava se acostumando com o silêncio novamente, sentiu uma mão batucar de leve suas botas e, em seguida, arrastá-las com cuidado para a borda da mesinha.
Ao abaixar a revista em surpresa, deparou-se com um sorriso travesso esculpido no rosto de Gambit.
"Quer alguma coisa?"
"No momento, mais espaço para jogar," ele gesticulou para suas cartas e voltou a distribuí-las em vários montes.
"A mesa da cozinha é melhor pra isso," Vampira observou, séria.
"E o chão é o melhor lugar para você colocar os pés, mas aqui estamos," ele retrucou, empurrando levemente os pés dela para mais perto da borda. Quando ele não tirou a mão do cano das suas botas, ela decidiu tirar as pernas de sobre o móvel.
"Se não me engano, essa casa tem, ao menos, quatro outras mesas vagas."
"Nossa, chère. Então é assim que vai tratar seu Cajun preferido, hein?" Fingiu estar ofendido. "Mas de qualquer jeito, você me pegou... As outras mesas, por acaso, não têm uma bela companhia por perto," e ele sorriu.
Vampira fingiu estar surpresa com o comentário, ignorando por completo o tom provocativo dele. Olhando para Fred ao seu lado, fingiu-se de ingênua. "Oh, desculpe. Se quiser, posso sair para dar a vocês dois mais privacidade."
Ao invés de irritá-lo, as palavras de Vampira apenas fizeram Gambit sorrir mais, deixando à mostra dentes brancos e quase perfeitos. "Acho que, nesse caso, não há razão para ter ciúmes de mim."
"Acredite, eu teria mais ciúmes dele do que de você," ela deu um sorriso falso ao apontar para Fred com um leve balançar da cabeça.
Foi a vez de Gambit fingir ingenuidade.
"Acho que ele iria gostar de saber disso, non?" pegando uma de suas cartas e apertando-a nas extremidades com os dedos, atirou-a, atingindo em cheio o rosto de Blob.
Sem ter tempo de reagir, Vampira apenas olhou para o mutante adormecido em um desconfortante silêncio. O adolescente grunhiu, coçou o rosto onde a carta o havia incomodado e mudou de posição no sofá. Não acordou, mas começou a roncar mais alto.
Gambit pegou outra de suas cartas e repetiu a ação. Ainda sem dizer nada, Vampira apertou os lábios. O segundo retângulo de papel grudou na bochecha de Dukes e ficou lá por um tempo antes de se soltar e cair no chão.
Quando nada mais aconteceu, ela olhou ameaçadoramente para o dono das cartas.
"Você deve estar muito entediado para fazer isso."
"Na verdade, eu ia aproveitar esse tempo para esticar as pernas e descansar um pouco, mas uma certa X-Man apareceu e a noite ficou bem mais interessante."
"Pena eu não poder dizer o mesmo."
"A noite é uma criança. Ainda há tempo para mudar isso, qu'en penses-tu?"
Vampira rolou os olhos, mas sorriu de leve. "Acho que você teria mais sorte com outras mulheres, em outro lugar."
"Elas não devem ser tão interessantes quanto a X-Man com quem estou conversando agora… que, a propósito, está um pouco longe do território dela. Alguma razão para isso?"
Vampira levantou uma sobrancelha. Não tinha dúvida alguma de que o homem sorrateiro a sua frente já sabia exatamente a causa de ela estar ali.
"Eu poderia perguntar a mesma coisa, não é? O que um Acólito está fazendo tão longe de seu covil?" Perguntou, ainda que o que realmente gostaria de saber era o que havia acontecido para vê-lo em Bayville.
Gambit deu de ombros. "Talvez seja o destino querendo nos juntar essa noite."
"Ou talvez Magneto esteja tramando alguma coisa e você não quer admitir por que já falaram demais."
Isso o fez se inclinar na direção dela, apoiando os cotovelos sobre os joelhos. "Esperta. E como você pretende descobrir se isso é verdade?"
"Posso chamar o Wolverine," ela escolheu uma resposta que não envolvesse seus poderes, querendo evitar uma indireta do Cajun. "Ele ia adorar acabar com os planos de Magneto dando uma surra em um Acólito," Vampira sorriu.
Gambit, então, coçou a barba, como se estivesse realmente considerando a opção. "Pode funcionar, mas sempre dizem que o melhor caminho para se conseguir algo de alguém é com um tratamento mais positivo," e ele a ofereceu um meio sorriso.
"Vou dizer isso a ele."
Gambit fez uma careta e negou com a cabeça. "Ele não é o meu tipo. Não iria funcionar, mas talvez uma certa X-Man consiga..."
Vampira rolou os olhos. "Prefiro ficar sem saber, então."
"Vai desistir assim, tão fácil?" Ele provocou.
"Talvez eu só não queira você na minha cabeça."
"Tarde demais para isso.
"Hm, não lembro de ter nenhuma dor de cabeça recentemente," ela retrucou, mesmo que a resposta estivesse longe da verdade. Não havia um dia sequer no qual Vampira não sentia ao menos uma leve dor, ainda que duvidasse que a causa fosse o Cajun.
Os dois se encararam em silêncio, um sorriso querendo escapar dos lábios dele.
Quando segundos mais se passaram sem que nenhum deles falasse, Vampira desviou seu olhar.
Gambit, então, voltou a embaralhar suas cartas em movimentos rápidos e mecânicos, sem realmente prestar atenção no que fazia.
"Mas falo sério, agora," Vampira pigarreou e finalmente mudou de página. "O que Magneto está tramando? Algo que seja razão para nos preocupar?"
Ele riu. "Você acha mesmo que eu contaria?"
"Tive que tentar," ela deu de ombros. "Mas vamos ficar a postos, de qualquer jeito."
"Deveriam," ele murmurou em um tom sério demais para o resto da conversa. Vampira levantou o rosto, esperando por uma explicação melhor. Por um bom tempo, ele a encarou sem qualquer traço de humor em suas feições, deixando-a cada vez mais alarmada e curiosa.
De repente, Gambit sorriu, como se tivesse feito uma piada que apenas ela não entenderia.
Isso deixou Vampira frustrada, sem compreender o tipo de jogo que o Acólito estava fazendo. "Às vezes, tenho pena do Magneto por contratar alguém que está entregando seus planos de bandeja para uma X-Man. Quem precisa de inimigos com um capanga assim."
"Engraçado essa X-Man achar que existe algum 'plano maligno' de Magneto para revelar."
"Não era sobre isso que estava conversando com Pietro até agora pouco? Vai me dizer que escolheu morar aqui por vontade própria?"
"Você diz isso como se fosse impossível... já morou aqui, não foi?"
Isso porque, por muito tempo, Vampira não teve para onde ir, a não ser para onde sua "tia" e "mãe" ordenavam.
Ela deu de ombros. "Não durou muito, como você deve ter percebido," aproveitou para chutar para longe uma embalagem de chocolate amassada no chão.
"Uma pena para o seu namorado ali, acho que ele deve sentir sua falta."
E pela terceira vez, Gambit atirou uma carta na direção de Fred.
"Você não vai parar, não é?" Vampira finalmente se irritou, ainda que conseguisse manter uma expressão calma e indiferente. Sentiu-se como uma aluna de volta no primário, lidando com colegas de classe bagunceiros demais até para ela.
Neste caso, queria apenas evitar um momento vergonhoso com Fred e o que quer que o Cajun fosse dizer para deixá-la sem graça.
Ao invés de respondê-la, Gambit arremessou mais uma carta. Em um plef baixo e agudo, o papel bateu contra a volumosa barriga do mutante, assustando-o. Ele se sentou no sofá com os olhos ainda fechados e virou o rosto desesperadamente para todos os lados.
"Não foi minha culpa!" Exclamou e desabou novamente sobre o móvel. A estrutura de madeira rangeu ao entortar-se com o peso do mutante. "Circo não..." ele murmurou entre grunhidos.
Sem mais paciência, Vampira inclinou-se para perto do Acólito, esperando por uma oportunidade para fazê-lo parar. Quando ele atirou outra carta, ela apanhou o objeto no ar em um movimento rápido e brusco.
Houve um silêncio durante o qual os dois se encararam. As sobrancelhas dele se levantaram de leve, mas seu rosto não deu qualquer outro sinal de estar impressionado.
Cansada da brincadeira que o Cajun estava fazendo, Vampira aproveitou o momento para levantar-se e pegar o baralho da mão dele. Ele não a impediu. Com o sorriso de sempre, Gambit examinou-a como se tentasse resolver um enigma complexo.
Se descobriu algo, não quis falar.
Guardando o monte de cartas no bolso da jaqueta, Vampira cruzou os braços.
"Certo," ele se levantou e lentamente aproximou-se dela. Olhando Vampira nos olhos, desafiou-a antes que ela pudesse se afastar. "Você tem minha total atenção. O que vamos fazer?"
"Nós? Absolutamente nada, mas você é um cara criativo, pode achar outra coisa para fazer sozinho," e Vampira caminhou para longe dele.
"Tem razão," ele admitiu, sentando-se novamente na poltrona e cruzando as pernas sobre a mesinha de centro. "Sabe, acabei de ver uma van estacionada lá fora. Admito que não é um dos meus modelos preferidos, mas fiquei curioso para saber o que ela pode fazer…"
Vampira virou-se de onde estava na entrada da sala. "Boa sorte tentando roubar ela," lembrou-se de Logan passando semanas trabalhando na proteção do automóvel, querendo impedir qualquer tentativa de furto.
Gambit deu de ombros. "Por que eu precisaria 'roubar' ela se eu tenho isso?" E, com o dedo indicador, começou a girar um molho de chaves.
Não foi difícil para ela saber de qual carro era, principalmente ao reconhecer o chaveiro decorado com um "X" metálico.
Ótimo, Logan vai me matar, Vampira pensou. Manteve a calma e torceu para que Kitty não aparecesse na sala tão cedo para testemunhar a vergonha que acabara de passar.
Decidiu mudar de estratégia e aproximou-se lentamente do Cajun com um sorriso maldoso.
"E eu encontrei uma moto muito interessante aqui perto," ela se sentou ao lado dele enquanto seu tom de voz ficava cada vez mais baixo. Ao sorrir, o olhar dele caiu sobre os lábios dela, escuros por conta do batom. "Seria triste se algo acontecesse com ela enquanto você sai dirigindo a X-Van por aí, não acha?"
Ele encarou Vampira com um sorriso maldoso, mas ela sabia que por dentro, o Cajun estava incomodado. Gambit parecia ter tanto cuidado com sua moto quanto Logan tinha com a dele; ameaçar danificá-las seria pior que ameaçar a vida do próprio dono.
"Touché, mas acho que você estaria mais encrencada do que eu, de qualquer jeito," levantando a mão que segurava o molho de chaves, Gambit impediu Vampira de apanhá-las no último segundo, como estava tentando fazer enquanto o distraía.
Ela não desistiu: conseguiu agarrar o pingente do chaveiro, tentou puxar o objeto para si, mas a argola de metal estava firmemente enroscada ao dedo dele.
Ele segurou o molho de chaves com mais força e envolveu sua mão nos dedos enluvados dela.
"Você vai ser o mais encrencado, acredite," Vampira ameaçou, tentando puxar o objeto mais uma vez, e falhou.
"Vou, é?" Ele riu e o calor de sua respiração acariciou o rosto dela.
Olhando-o nos olhos, Vampira finalmente percebeu o perigo no qual se metera. Estava próxima demais de alguém que não mostrava medo, que gostava de desafios e dos riscos que vinham junto.
"Sabe, podemos chegar a um acordo," ele comentou, examinando o verde dos olhos dela com grande interesse. Depois, mudou sua atenção para as poucas sardas em suas bochechas, quase cobertas pela base esbranquiçada de sua maquiagem.
Vampira, por sua vez, sentiu um cheiro sutil e familiar de colônia masculina. Ela impediu a si mesma de divagar em memórias que assimilava a ele. Não valia à pena.
"Um acordo? Com você?" Ela riu, não mostrando se sentir incomodada com a proximidade de ambos. Sabia que seria uma questão de tempo até o Cajun inventar uma razão para se afastar sem que parecesse tê-lo feito por medo. "Parece difícil de imaginar que você faria algo... justo."
"Às vezes eu jogo limpo," gabou-se, como se estivesse orgulhoso de sua conduta.
"Quando você sabe que vai ganhar, é fácil jogar limpo," ela apoiou sua outra mão próxima das pernas dele. Vampira estudou a cor vermelha e intensa dos olhos dele enquanto se inclinava para mais perto, copiando o que ele fizera antes.
"Quer que eu jogue sujo, então?" Ele murmurou e não teve vergonha de olhar para baixo e examinar a abertura da camiseta de Vampira.
"Eu só quero as chaves de volta," ela respondeu, pedindo a Deus para não ficar vermelha com a ação.
"E eu quero minhas cartas, chère," sem esforço aparente, Gambit voltou a encará-la nos olhos.
Ela sorriu e levantou-se bruscamente da poltrona para longe dele. Ele levantou uma sobrancelha.
"Ótimo. Pode ficar com a van," Vampira andou em direção à entrada da sala. "Aposto que essas chaves aqui ligam a moto que encontrei aqui perto," e ela mostrou o molho de chaves que havia pegado do bolso da frente do Cajun.
Houve uma pausa curta enquanto a expressão de Gambit se manteve neutra. Sorrindo depois de um tempo, ele levantou as mãos em derrota. "Você venceu," sacudiu as chaves da X-Van e olhou para as que Vampira tinha. "Troca?"
"Você primeiro," ela respondeu, desconfiada com a falta de reação dele.
Sem hesitar, ele jogou o molho na direção de Vampira, que o pegou sem dificuldades.
Antes de arremessar as que devia, Vampira estudou-as com mais atenção. Ao ouvir a voz distante de Lance no andar de cima, frustrado por ainda não achar o que procurava, ela espremeu os lábios. Não ficou surpresa ao descobrir o que havia de errado. Roubar algo de um ladrão profissional não seria tão fácil mesmo.
"Sabe, o mínimo que você pode fazer depois de deixar o Avalanche desesperado é devolver as chaves dele a tempo de eles conseguirem pegar a reserva."
O Acólito deu de ombros. "Se eu tivesse deixado as chaves onde achei, eles nunca teriam encontrado."
"O ladrão é um bom samaritano. Quem diria," Vampira zombou.
"Eu disse que jogava limpo," ele deu de ombros. "Mas ninguém escuta o Cajun aqui, até ser tarde demais."
Ela sorriu e enfiou a mão no bolso para devolver o baralho de cartas ao seu verdadeiro dono.
Quando não o encontrou, olhou para o mesmo Cajun, desconfiada.
Embaralhando as cartas que, em algum momento conseguiu recuperar, Gambit sorriu. "Merci."
"Jogando limpo ou sujo, tudo ainda é um jogo pra você, não é?"
Ele deu de ombros. "Não teria graça se não fosse."
"Para você talvez," Vampira acusou em um tom surpreendentemente calmo.
Por alguma razão, dentre todos os outros barulhos na casa, o que ela falou foi o que fez Fred finalmente acordar, assustando-se ao vê-la. A X-Men e Blob se encararam enquanto o garoto tentava entender o que sua inimiga fazia na casa da Irmandade. Para a sorte de Vampira, Dukes não pareceu querer arranjar uma briga, estava apenas curioso e até assustado.
Em seguida, ele viu que Gambit também estava na sala, mas não se mostrou chocado, como se já estivesse acostumado com a constante presença do Acólito.
"Por favor, não me diz que ela está aqui pra roubar os nossos poderes de novo," o garoto falou, seus dedos apertando os braços do assento.
"Como?" Gambit pareceu interessado no que acabara de ouvir.
Vampira achou melhor intervir.
"Ei, grandão, não se preocupa com isso, mas acho melhor você correr pro banheiro e limpar isso," ela gesticulou para a própria bochecha.
Confuso, Fred passou a mão em seu rosto, borrando o desenho obsceno; em seguida, olhou para seus dedos sujos de tinta.
Em questão de segundos, seu rosto ficou vermelho como um pimentão. "Pietro."
Ele saiu batendo os pés, ignorando os dois sulistas por completo.
Depois que Dukes subiu as escadas, Vampira virou-se para Gambit e sorriu falso, querendo colocar um ponto final na conversa.
Caminhou para a porta de entrada e girou as chaves de Lance.
"Sabe," Gambit disse, embaralhando as cartas. "Ainda podemos aproveitar a noite juntos, se quiser."
"Quando eu não tiver mais bom-senso, pode ter certeza que direi sim."
"Vou contar as horas."
"Com esse cavalheirismo todo, pode ter certeza que será até mais cedo," Vampira rolou os olhos. "Mas por enquanto é melhor procurar por alguma garota que não seja muito esperta."
"Novamente, não seriam tão interessantes quanto a que estou conversando agora."
Vampira riu e abriu a porta, uma brisa fria bateu contra seu rosto. "Continue tentando".
"Ei."
Ela se virou e encontrou um olhar que subitamente perdeu todo o bom humor de antes.
"Eu estava falando a verdade."
Ela ficou em silêncio por um tempo, até ter coragem de perguntar. "Sobre o quê?"
Gambit desviou seu olhar do dela e continuou a embaralhar suas cartas. "Só... fiquem a postos."
Foi o suficiente para deixá-la ainda mais confusa. Queria voltar para a sala e perguntar o que estava acontecendo de fato, mas tinha a impressão de que Gambit não iria esclarecer nenhuma de suas dúvidas tão facilmente.
Decidiu não perguntar, apenas concordou com a cabeça e foi embora. Fechou a porta com mais força do que tinha a intenção.
Caminhando lentamente para o carro de Lance, abraçou a si mesma, sentindo o frio da noite piorar cada vez mais.
Enfiou as chaves na ignição do Jeep e enviou uma mensagem para Kitty, avisando-a onde o objeto estava. Depois que entrou na X-Van e deu a partida, olhou uma última vez os arredores da Irmandade.
Por alguma razão, Vampira sentiu um calafrio percorrer a espinha, diferente do que havia sentido ao chegar na Irmandade…
Olhando a sua volta, percebeu o quão escuros eram os arredores da casa.
As árvores eram altas e próximas umas das outras, criando um breu que se estendia até o horizonte. As casas da vizinhança eram escassas e distantes entre si, seus moradores quase não apareciam naquele horário, deixando as calçadas e ruas quase desertas.
Suas mãos enluvadas apertaram o volante com força e ela olhou para a Irmandade uma última vez.
Em uma ação brusca e sem pensar, Vampira pegou seu celular de novo.
Ñ fica enrolando até tarde, o Logan ñ tá de bom humor esses dias, enviou para Kitty, sem realmente se preocupar se estivesse soando como uma parente chata.
Dirigindo para longe da Irmandade, Vampira desistiu de ir até a loja de discos. Voltou direto para a mansão.
A sensação de que havia algo errado persistiu pelo resto da noite e ela xingou Gambit antes de ir dormir.
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Tradução:
Bien: Bem
Cajuns: grupo étnico de descendência francesa, também chamados de Acadians, que vive em sua maioria no estado norte-americano de Louisiana.
Chère: Querida, cara.
Chérie: Querida (mais íntimo)
Qu'en penses-tu?: O que você acha?
Merci: Obrigado
