EDIÇÃO (Novembro 2019): Esse capítulo passou por algumas pequenas modificações.
Traduções estão nas notas finais do capítulo.
Espero que gostem :)
Capítulo 3 - Inimigo
A tensão na sala podia ser cortada com uma faca. Vampira tentou aliviar seu nervosismo rasgando um papel qualquer que encontrou na sacola de compras ao seu lado. Arrependeu-se ao perceber que era a nota fiscal da roupa que Kitty a convenceu a comprar. Algo no canto de sua mente lhe dizia que havia feito aquilo de propósito, que queria manter aquela roupa extravagante que a amiga chamou de vestido, mesmo que nunca fosse usá-lo por expor tanta pele…
Ela culpou a colega de quarto por convencê-la a gastar tanto dinheiro em um dia de compras que chamou de "inesquecível" e que claramente acabou com toda e qualquer má energia impregnando a aura de Vampira - a gótica às vezes se preocupava com o que a amiga podia estar lendo em revistas.
A mesma amiga agora estava sentada do seu lado raspando um pouco do esmalte com as unhas e olhando para o chão com a expressão mais preocupada que já vira. Todos na sala de estudo estavam.
Depois de voltarem das compras, Vampira e Kitty foram convocadas para a sala juntamente com outros X-Men veteranos para um aviso do Professor. A informação não seria em si preocupante, não fosse a sensação extremamente transtornada do telepata ao lhes mandar o aviso psíquico, como se mal conseguisse esconder seu receio.
E aparentemente não foram as únicas a "sentirem" tal receio; ao chegarem na sala, o silêncio era desconfortante. Piotr e Kurt esperavam com impaciência. Bobby era o único que se mostrava despreocupado, produzindo miniaturas de gelo com as mãos e fazendo-as desaparecer num piscar de olhos. Scott e Jean eram, ao contrário de Bobby, os mais receosos; a expressão do líder era séria, sem tirar o olhar do chão; Jean o segurava por um dos braços cruzados, tentando confortá-lo.
"Ei. Vocês sabem por que o Professor nos chamou aqui?" Kitty perguntou aos dois.
Jean olhou para ela, consternada. "Eu não sei," murmurou enquanto acariciava o braço do namorado com o polegar. "Mas ele parecia… mais sério do que o normal, não acham?"
"Me encontrei com o Logan agora pouco," Scott disse ainda sem tirar o olhar do chão, sua mandíbula parecia tensionar mais a cada segundo. "Ele não parecia feliz."
"Essa é a cara dele mesmo," Vampira comentou para aliviar a tensão, ao mesmo tempo que desviou o olhar do casal ao notar que estava encarando a mão de Jean sobre o braço de Scott por tempo demais… Por alguma razão, isso a incomodou e Vampira cruzou os braços em desconforto. Podia jurar que, por alguns segundos, viu o mundo em vermelho e sentiu alguém lhe dando um beijo na bochecha. No meio de tudo, a voz de Logan ecoou em sua mente, "Já era tempo."
Vampira chacoalhou a cabeça de leve para não notarem seu desconforto.
Hora conveniente, pensou, reconhecendo as lembranças e pensamentos intrusos como sendo de Scott.
Ela mordeu o lábio, ignorando a sensação incômoda no peito.
Isso já era passado.
Xavier finalmente chegou à sala, acompanhado de Fera, que carregava uma série de pastas amarelas em sua mão azul, Ororo e finalmente Logan; o último estava com a mesma inquietação das últimas semanas, ainda que pior. A cada minuto, parecia ranger os dentes com mais força e as juntas de seus dedos estavam brancas sobre seus braços cruzados.
Piotr e Kurt aproximaram-se de Kitty e Vampira. O mutante azul rapidamente murmurou perto da irmã adotiva. "Não estou gostando nem um pouco da cara do Logan."
Ela deu de ombros, tentando esconder sua preocupação com indiferença. "Ororo e Fera parecem calmos o suficiente… às vezes é só frescura do Logan," deduziu e olhou para Piotr para confirmação; ele sempre parecia pressentir quando uma situação mostrava-se séria ou não.
O gigante russo, porém, manteve uma expressão neutra, até olhar para Vampira e dar de ombros. Estava tão confuso quanto os outros.
Ela soprou uma mecha para fora do rosto em derrota.
"Queridos alunos," ao falar, a expressão de Xavier parecia tão pensativa quanto a do russo; seus dedos estavam entrelaçados na frente do rosto como sempre fazia quando prosseguia com cautela. "O que vou dizer agora, peço que sejam discretos e principalmente calmos como fomos todos treinados para ser. Ainda assim, compreendo que isso pode causar certo transtorno...
"Há algum tempo, recebemos informações preocupantes sobre uma nova ameaça," isso já foi o suficiente para inquietar a todos na sala. Não bastasse o preconceito e movimentos anti-mutantes que precisavam aturar diariamente, um perigo desconhecido agora estava próximo. Os novos cochichos foram rapidamente interrompidos pelo grunhido irritado de Logan. "Porém, antes de tomarmos decisões precipitadas, escolhemos investigá-las para termos certeza de sua veracidade e para não alarmá-los desnecessariamente. Infelizmente, elas são todas bastante reais."
Xavier olhou para Fera, que colocou as pastas amarelas sobre a mesa de centro. Antes que todos pudessem se aglomerar em volta do móvel, Hank apertou um botão no controle que segurava. O maior quadro da sala deslizou para o lado, dando lugar a uma tela de televisão.
A primeira imagem a aparecer era uma cópia digital do conteúdo jogado na mesa. Nela, uma reportagem de jornal descrevia, em poucas palavras, o incêndio de um orfanato no subúrbio de Nova York em 1951: uma das informações era a contagem e nomes de mortos e desaparecidos.
As imagens mudaram para outras matérias de jornais: mais incêndios, acidentes e mortes em diversas cidades pelo globo. Em seguida, foram mostradas fotos de rostos, constantemente acompanhadas por palavras como "corpo não encontrado".
"Há anos, em meus trabalhos antes de criar os X-Men, me deparei com informações sigilosas contendo uma compilação de desaparecimentos que, se olhados em primeira instância, não possuíam qualquer… semelhança entre si. Porém, conforme investiguei mais a fundo, percebi que suas naturezas poderiam possuir algo em comum."
"Todos eram mutantes, não é?" Kitty foi quem ousou perguntar após um longo silêncio.
"Sim, Kitty… Porém, por falta de evidências mais concretas e situações que julguei mais urgentes a serem resolvidas naquela época, decidi não tirar conclusões precipitadas e mantive a investigação em segundo plano, ainda mais quando descobri que alguns destes desaparecimentos datavam mais de um século atrás e aconteciam em variadas partes do mundo.
"Recentemente, porém, recebemos as informações necessárias para finalmente ligar os desaparecimentos e saber que... corremos um grande risco."
Ninguém ousou falar por um bom tempo.
"Como você conseguiu essas informações, Professor?" Jean disse, mexendo nas páginas de umas das pastas amarelas. Ela cobriu a boca com a mão ao ver a foto antiga de um corpo carbonizado, logo ao lado de um retrato do rosto barbado de uma mulher de circo. Ela fechou a pasta, mas Scott tomou-a de sua mão para continuar lendo.
"As informações sobre os desaparecimentos adquiri em meus trabalhos em organizações que infelizmente… não posso dar muitos detalhes, espero que entendam."
Vampira esperou que Bobby fizesse alguma observação humorada sobre como Xavier deixou implícito que provavelmente roubou as informações dessas "organizações", mas até ele parecia estar digerindo tudo o que foi explanado com grande atenção.
Ela não o culpava, estava tão nervosa quanto qualquer um naquela sala.
"Então, o senhor está dizendo que esses 'acidentes' aconteceram como uma forma de acobertar sequestros de mutantes?" Scott indagou enquanto continuava a folhear as páginas da pasta. Os traços de seu rosto distorceram-se em repulsa ao ver um conteúdo provavelmente perturbador.
Vampira arriscou-se e pegou outra pasta na mesa... e logo se arrependeu ao ver imagens mais explícitas do que as mostradas na tela. Ela finalmente entendeu o porquê de não chamarem os X-Men mais novos para a reunião, ainda que Bobby também pudesse ter sido poupado, pois ficava mais pálido a cada segundo.
Rostos e mais rostos que ela não conhecia ocupavam as páginas. Nomes de pessoas, que para ela não significavam nada até agora, eram sempre acompanhados por "morto no acidente" ou "não encontrado".
Professores, militares, donas de casa, mecânicos, atores, desenhistas… até crianças faziam parte da lista.
Sentiu seu estômago revirar.
"Quem… quem fez tudo isso? Alguma... corporação?" Vampira ouviu a si mesma falando com uma voz enfraquecida.
"Nem as organizações das quais adquiri os documentos pareciam saber, Vampira. Suspeitava-se que fosse um grupo, sim, considerando a data do sequestro mais antigo. Não tem como uma única pessoa ser capaz de realizar tudo isso," Xavier respondeu. "Mas graças ao auxílio de um conhecido, podemos ter novas pistas para achar a verdade de uma vez por todas."
"Conhecido?" Kitty disse levantando uma sobrancelha.
"Sim," Xavier pausou para ponderar suas próximas palavras. "Em momentos como este, podemos formar novos aliados, pessoas com as quais podemos ter novos começos e que podem nos ajudar a assegurar nosso futuro, não importando o que aconteceu no passado," Vampira não deixou de notar Logan revirando os olhos quando o Professor mencionou a palavra "aliados".
"E é por isso que gostaria de lhes introduzir formalmente alguém cuja ajuda nos será necessária neste novo momento de dificuldade," ele olhou para onde havia entrado minutos atrás e todos seguiram seu olhar.
Quando Gambit entrou na sala, segurando uma pasta vermelha e vestido com o uniforme e sobretudo de sempre, um silêncio tomou conta da sala.
Scott foi o primeiro a reagir, levantando-se do sofá e largando a pasta no chão. Sua mão moveu-se instintivamente para seus óculos. Kurt e Jean seguiram sua ação, preparando-se para lutar rapidamente; o resto manteve-se surpreso, porém imóvel ao notarem a atitude calma do Professor e a imparcialidade de Logan.
Piotr colocou uma mão sobre os ombros do mutante azul, silenciosamente pedindo-o para se acalmar.
"O que ele está fazendo aqui?" Scott disse entre dentes.
Gambit apenas revirou os olhos, mas pareceu achar a pose do líder um tanto cômica, pois sorriu. "Acho que você não ouviu muito bem. Eu claramente sou o aliado que veio ajudar, binoclard."
Scott grunhiu.
"Gambit, por favor," Xavier falou sem traço algum de humor. "Scott, entendo que esteja surpreso, mas Gambit está aqui hoje como um aliado," Logan continuou a grunhir em seu canto da sala. "Se não fosse pelas informações que ele coletou, não teríamos ideia do perigo no qual nos encontramos agora."
Isso apaziguou Scott o suficiente para tirar a mão de seus óculos, mas não o suficiente para diminuir sua desconfiança. "Professor, com todo o respeito, eu realmente não entendo o porquê de o senhor confiar em alguém como ele. Ele já trabalhou para o Magneto e nunca fez algo sequer que provasse sua lealdade a nós. Na verdade, ele até fez o contrário quando sequestrou a Vampira."
Pelo comentário, Vampira desejou poder esganar Ciclopes com o olhar, odiando ser arrastada para os holofotes e ser lembrada da infeliz ocasião.
"Tecnicamente eu ainda trabalho pro Magneto," Gambit comentou sentando-se no braço de um dos sofás como se já morasse na casa.
Scott olhou ainda mais indignado para o homem na cadeira de rodas, esperando por uma boa explicação antes de tirar seus óculos na direção do Acólito.
"Por favor, acalmem-se. Magneto e os X-Men estão em momento de trégua. Foi Gambit que deparou-se com informações desconcertantes sobre o verdadeiro paradeiro das pessoas que foram antes julgadas como mortas," Xavier olhou para o Cajun e este jogou uma pasta vermelha que se abriu ao cair na mesa, dentro dela incontáveis formulários continham informações de diversos "experimentos": desde a data de nascimento da pessoa até seus "poderes extraordinários" ou características anormais. Vampira sentiu um nó na garganta ao notar que muitos também possuíam uma data de óbito. "E o que ele encontrou foi uma série de documentos e fotos descrevendo operações, cirurgias e… experimentos em milhares de pessoas."
Fera relutantemente apertou outro botão do controle e as imagens mudaram para fotos novas, mostrando laboratórios mal iluminados, fileiras de celas, corpos entubados presos em macas e closes em rostos com olhos fechados.
"Como Scott disse, os acidentes foram apenas uma forma de acobertar sequestros de pessoas, que agora podemos confirmar serem mutantes. Infelizmente, isso nos prova que, quem quer que sejam os responsáveis, ainda estão à solta e, ao lermos os novos dados adquiridos, temos razões para acreditar que os mutantes de Nova York serão o próximo alvo de um ataque em massa."
"Invadi um dos únicos laboratório que tive conhecimento há algum tempo," Gambit falou apoiando a canela sobre o joelho e cruzando os braços. "Não encontrei nenhuma das 'cobaias', muito menos o pessoal por trás disso, demorei para conseguir decodificar as informações que coletei, o nível de segurança é tão bom quanto qualquer outro que já vi. Quando tentei voltar lá, o laboratório simplesmente sumiu, virou cinzas, mas quem quer que esteja no encalço de vocês fez vista grossa em absolutamente tudo. Rotinas, escola, família, relacionamentos, hobbies… Tudo," sua voz à primeira instância era calma, mas mostrou-se apenas uma forma de atenuar a seriedade da situação. "Assim que descobri o que estavam fazendo, achei melhor avisar."
"E devemos acreditar que você fez tudo isso de graça," Scott falou com ironia, as pontas de seus dedos ficando brancas como o papel que segurava. Neste, estava a foto de Alex Summers, rodeada de informações pessoais que nem mesmo Scott poderia saber. "O que você espera? Uma medalha pela sua generosidade?"
"S'il te plaît, o que é isso? Um jardim de infância? Pode ficar com a medalha, se isso te fizer sentir um líder competente."
Vampira espremeu os lábios e arregalou os olhos, copiando a reação de boa parte dos integrantes da sala. Piotr apenas suspirou de seu canto da sala, como se estivesse acostumado com o tipo de comportamento por parte do Cajun. Bobby, porém, esqueceu o medo por alguns segundos para fazer a expressão de surpresa mais cômica de todas, sua boca abriu-se em um "o" perfeito. Ele com certeza iria falar do ocorrido para o resto dos X-Men.
Jean teve que segurar o braço do namorado antecipando qualquer tentativa deste de partir para cima do Cajun. Gambit permaneceu na mesma posição.
"Chega," dessa vez foi Tempestade quem falou, mostrando-se mais do que cansada da discussão entre os dois jovens. Vampira não deixou de notar o olhar agradecido que Xavier dera a Ororo.
Scott, então, sentou de volta no sofá em silêncio, mas ainda furioso.
"Até descobrirmos mais sobre o que nos aguarda, devemos agir. Nos preparar para qualquer ataque e também procurar por novas informações a partir das pistas que temos," Hank começou, empurrando seus óculos para mais perto de seus olhos.
Nisso, todos concordaram e Gambit continuou, "Magneto já sabe da situação e ofereceu qualquer ajuda que precisarem. Passei na Irmandade para melhorar a segurança de lá e manter os jumeaux Maximoff atentos. Melhorar aquela casa foi um desafio... então a de vocês não vai demorar muito. É só falar quando posso começar o trabalho."
Scott quase se levantou novamente, mas Jean, Ororo e até Vampira o encararam com os olhares mais ameaçadores que já vira na vida. Ele se limitou a mudar de posição no sofá.
"Professor, não me diga que...?"
"Sim. Com o consentimento de vocês, Gambit estará nos ajudando nos próximos meses, melhorando a segurança da mansão."
"Como assim 'melhorando'?" foi a vez de Kitty de se queixar, provavelmente sentindo-se ofendida já que era ela quem ajudava Logan com a programação de parte do mesmo sistema.
"Sem ofensa, petite," Gambit disse materializando um baralho de cartas de algum bolso escondido de seu sobretudo. "Mas o sistema precisa de upgrades urgentes." Kitty fez um biquinho com os lábios e cruzou os braços, emburrada como uma criança. "Ainda assim, tiro meu chapéu para você, ouvi dizer que foi a responsável pelos sensores de movimento na Sala do Perigo. Incroyable," e o biquinho de Kitty deu lugar a um sorriso orgulhoso e bochechas coradas.
"Opa, opa," Kurt levantou-se do sofá. "Ele vai mexer na nossa segurança? Professor, sinto muito, mas..." Kurt, então, encarou Gambit sem hesitar. Nunca esqueceria o que havia acontecido com sua irmã, há meses atrás. "Não acha que isso é um risco? Ele até admitiu ainda estar trabalhando pro Magneto."
Scott concordou com um balançar da cabeça, feliz em finalmente ter alguém apoiando-o contra o Acólito. Vampira se perguntou quando iriam perceber que, se Logan não os defendeu até agora, era por que a situação mostrava-se mais séria do que parecia… e a ajuda de Gambit era indispensável.
"Esta situação, Kurt, é nova e delicada para ambos os X-Men e Magneto. Em situações normais, Magnus não se prontificaria a oferecer ajuda, mas esta é uma ameaça que coloca em risco todos os mutantes. É um momento para nos unirmos, ajudarmos uns aos outros ou então podemos estar nos expondo a um risco desnecessário, até mesmo Magneto compreende isso. Lembre-se de Apocalipse e o que aconteceu quando decidimos não trabalhar juntos para detê-lo."
Vampira então lembrou-se do sonho vago, mas tenebroso que tivera semanas atrás, com sombras sinistras e gritos de dor.
E Kurt ficou em silêncio.
"Sei que esta se mostra uma decisão difícil, mas confio em vocês, meus alunos, para compreenderem e aceitarem a ajuda que nos foi oferecida," a voz de Xavier era austera, mas todos perceberam a pequena súplica escondida por trás de suas palavras.
Piotr foi quem quebrou o longo silêncio enquanto todos tomavam a decisão.
"Eu confio no Gambit. Sei que estou na mansão há pouco tempo, mas acredito nele," o russo olhou para o antigo colega Acólito e este sorriu de leve em resposta.
Kitty o seguiu. "Eu confio no Pete, então acho que podemos dar uma chance pro Gambit," anunciou entusiasmada. Depois, virou-se para o homem de olhos vermelhos. "Obrigada por oferecer ajuda."
"Só estou fazendo o que me pediram, petite. Nada de mais," Gambit ainda assim piscou para ela enquanto continuava a embaralhar suas cartas. Ela sorriu.
Kurt e Bobby concordaram a seguir; depois Jean. Passados alguns segundos, um Scott inquieto e vencido ao lado dela finalmente concordou balançando a cabeça.
Vampira sabia que isso seria apenas o começo de um longo período de constante dor de cabeça. Já não bastava a complicação que era o temperamento de Logan (cujo mau-humor das últimas semanas finalmente se mostrou explicado), agora teria que lidar com a irritação do líder. Passados alguns silenciosos segundos, Vampira notou que todos estavam a observando, provavelmente esperando pela resposta que selaria o acordo de uma vez por todas. Ela sentiu suas bochechas corarem pela distração; ainda mais quando se deparou com aqueles olhos vermelhos a observando.
Ela deu de ombros, concordou com a cabeça, e Xavier finalmente conseguiu respirar.
"Obrigado, meus X-Men," falou e virou-se para o sulista. "Senhor… Gambit, você está livre para entrar na Mansão nos períodos da manhã e tarde, porém peço que faça sua presença sempre notada pelos alunos," isso fez o Acólito concordar com a cabeça de uma forma suspeita. "Está bem-vindo para usar um dos quartos da Mansão se preciso, mas novamente pedimos que nos avise com antecedência se for passar a noite. Deve compreender o suficiente das regras para saber o que pode e o que não pode fazer."
"Sem dúvidas, professor," e ele apertou a mão do telepata ao se levantar.
Vampira lembrou-se das regras impostas a Jean e Scott, que estavam mais próximos de completarem vinte e um anos... e se perguntou qual seria a primeira que o Cajun quebraria: nada de fumar ou beber perto dos menores ou em áreas de circulação comum da casa, nada de guardar bebidas alcoólicas na cozinha, nada de passeios "românticos" pelo dormitório do sexo oposto, nada de trazer estranhos para a mansão sem aviso prévio, obedecer ao toque de recolher para dar bom exemplo aos menores e ao menos avisar para um dos X-Men mais velhos onde está indo quando não for passar a noite no Instituto.
Quando ela acidentalmente encontrou o olhar convencido do Cajun pelo canto do olho e ele piscou para ela na maior tranquilidade, ela soube… provavelmente a maioria das opções.
–
Depois da "tortura" que Logan forçou quase todos os alunos a sofrerem, a maioria não conseguiu passar da sala de estar sem antes se jogar em algum móvel próximo para descansar.
Vampira atirou-se na poltrona, ao lado de seu irmão, enquanto outros alunos escolhiam até mesmo o chão para se esparramar e descansar.
Depois do aviso sobre a nova ameaça para os veteranos, seguido do segundo comunicado para os alunos mais novos (com conteúdo censurado o suficiente para não assustá-los), Logan decidiu aumentar o nível de dificuldade para todos os alunos da mansão. Nem mesmo Jaime foi poupado das impossíveis cobranças do instrutor.
Ainda assim, as reclamações não eram tantas como antes e o ar de insegurança era sempre presente, mesmo que ninguém quisesse realmente mencioná-lo.
Havia um grupo misterioso atrás de cada um deles, e precisavam se preparar, querendo ou não.
Hoje, a missão proposta foi escapar de uma instalação sem o uso de poderes; algo não tão explorado nos treinamentos anteriores e que levou todos ao limite.
"Não sinto meus pés..." Sam reclamou, deitado no chão com as canelas apoiados no assento de um dos sofás. O garoto foi um dos únicos que conseguiu escapar da instalação sem ser atingido por uma bala de paintball. Em compensação, foi obrigado a carregar Jaime, atingido minutos depois da missão começar.
"Eu não sinto nada, cara, nem reclama," Kurt retrucou. O mutante azul, por sua vezes, foi obrigado a escalar árvores durante o treino inteiro para reconhecimento de território.
Por dez minutos todos ficaram em um silêncio interrompido apenas por ocasionais grunhidos de dor dos recrutas, até que Homem de Gelo finalmente decidiu se levantar.
"Eu não sei vocês, mas estou morrendo de fome…" anunciou e todos os X-Men mais novos o seguiram para a cozinha, deixando Piotr, Kitty, Kurt, Vampira, Jean e Scott na sala.
A conversa dos recrutas aumentava cada vez mais na cozinha à medida que iam recuperando suas energias com lanches pouco saudáveis. Depois de sentir o cheiro de hambúrgueres na chapa, Vampira decidiu seguir o conselho de Bobby e pegar alguma coisa para comer.
"Schwesterherz! Traz um hambúrguer pra mim, bitte?" ela ouviu seu irmão gritar da sala em um falso desespero.
"Você pode se teletransportar em menos de um segundo para a cozinha, Kurt."
"Mas até isso dói…"
Ela rolou os olhos em resposta.
Quando entrou no caos que era a cozinha e aproximou-se de uma das dispensas procurando por alguma coisa para comer (e pelos benditos pães de hambúrguer), foi capaz de ouvir os cochichos das garotas enquanto arrumavam a mesa.
"...a moto era dele mesmo."
"Eu não consegui ver ele direito quando o Professor chamou a gente para a reunião, será que ele é mesmo confiável?"
"De que importa, Amara? Ele é o maior gato!"
"Tabitha! Fala baixo!" Jubilee sussurrou indignada.
"O que? É verdade, ninguém aqui quer admitir, mas eu falo a verdade."
"Hm, não sei... não vi nada de especial nele," Rahne comentou duvidosa.
"Você não olhou de perto, menina, o cara- Ai! Jubs, porque você fez isso?"
A cozinha ficou em silêncio e Vampira levantou o rosto da porta do armário para saber a causa.
Uma das coisas que os residentes ainda precisavam se acostumar era com a mais nova presença na mansão. O Cajun com singulares olhos vermelhos não apareceu depois da "reunião", mas todos esperavam deparar-se com ele caminhando pelos corredores da casa uma hora ou outra.
E lá estava ele, entrando na cozinha como se não estivesse rodeado de, por ora, antigos inimigos, sem se importar com os olhares voltados na sua direção.
"Bonjour," foi a única coisa que disse indo até a dispensa próxima de Vampira para fazer seu próprio café.
"Bonjour!" Tabitha copiou com um fervor exagerado e suas três amigas fingiram que não a conheciam.
O resto dos X-Men voltaram a fazer suas tarefas, mas parte da atenção ainda estava voltada ao Acólito na cozinha fazendo algo tão trivial como despejar água na cafeteira.
Vampira pegou uma caixa de chá de camomila e virou-se para o lado oposto do Cajun.
"Então, Gambit," Tabitha continuou apoiando-se na mesma dispensa que o Acólito. "Você tem algum outro nome ou vamos ter que te chamar assim pelo resto do tempo em que ficar aqui?"
Ele sorriu para ela enquanto se aproximava da mesa. "Na verdade, eu gosto desse nome, petite. Mas aposto que você deve ter um nome ainda mais interessante do que... Boom Boom, oui?"
"Oui, monsieurrr... sou Tabitha," ela estendeu sua mão em direção ao sulista e ele entendeu o que era esperado. Deu de ombros, pegou a mão dela e beijou-a rapidamente, com um sorriso no rosto. Por mais desnecessária que a ação parecesse, Tabitha mostrou-se mais entusiasmada. "E essas tímidas do meu lado são Rahne, Amara e Jubileu."
" Ça va?" ele repetiu a ação com todas as três, que concordaram, e sentou na única cadeira vaga da mesa, como se já as conhecesse há tempos.
Tabitha e suas amigas não demoraram para rodeá-lo de perguntas, que ele respondeu com interesse e sempre com um sorriso no rosto.
"E… quantos anos você tem?"
"Bem menos que Wolverine."
"Você liga quando te chamam de mercenário?"
"Nem um pouco. Me chame do que quiser, petite, não ligo."
"Você é pago para roubar, então? O que você geralmente rouba?"
"Qualquer coisa, com o preço certo."
"Você nasceu mesmo em Nova Orleans?"
"Nascido e criado."
"Mas por que você veio pra cá?"
"Para trazer a alegria do sul ao norte, é claro!"
"Você está gostando daqui?"
"Agora que estou na companhia de pessoas encantadoras como vocês, é claro," isso rendeu risadas alegres, mas tímidas das jovens X-Men.
"Nova Orleans deve ser incrível!"
"O melhor lugar no mundo, petite. Um dia levo vocês lá."
Vampira revirou os olhos enquanto colocava água em sua caneca e preparava dois hambúrgueres.
Cuidado, garotas, ele pode levar vocês pra lá sem nem perceberem.
Quando seu café ficou pronto, Gambit levantou-se, segurando uma xícara que Rahne alegremente lhe ofereceu e finalmente encontrou o olhar de Vampira.
Ele a observou por um bom tempo, como se esperasse por algo no qual ela não tinha ideia do que era. "Perdeu alguma coisa?"
E ela teve um déjà vu da primeira vez que se conheceram, quando ele a encarou com um olhar zombador, deixando-a sem palavras e incapaz de responder... e em seguida quase explodiu sua mão fora com um "inofensivo" rei de copas.
Ele inclinou o rosto como da primeira vez e aproximou-se mais, forçando-a a olhar para cima para encará-lo. Percebeu que ele estava ainda mais alto desde a última vez que o vira... também sentiu aquele cheiro familiar de colônia masculina, dessa vez, misturado com outro cheiro familiar de creme de barbear.
A cerâmica em sua mão esquentou sem explicação e Vampira saiu de seu transe para olhar para sua xícara. Foi quando finalmente notou os dedos do Cajun roçando a base do objeto, esquentando a água de fora para dentro com seus poderes.
"O açúcar está atrás de você, chère," e ele moveu a mão para a cintura dela... para desencostá-la da frente do balcão; seus dedos, porém, permaneceram enroscados em seu cinto amarelo por um bom tempo.
Antes que ela pudesse tirá-los de lá, ele se afastou.
Ao beber seu café em um gole, Gambit despediu-se das meninas, deu uma piscadela para Vampira e foi embora para algum lugar desconhecido da mansão.
Todos ficaram em absoluto silêncio enquanto os meninos encaravam a entrada da cozinha com olhos arregalados e a curiosidade acionada.
"Rahne, depois dessa cara que você fez, posso apostar que você viu mais de uma coisa especi–"
"TABITHA!" a mutante exclamou, ficando tão vermelha quanto seu cabelo.
No exato momento, um ruído estridente deu lugar a uma fumaça de enxofre que surgiu no meio da cozinha e se expandiu pelo lugar. Um Kurt confuso olhou a sua volta, tentando compreender o que aconteceu para todos estarem tão silenciosos. Os alunos desviaram seu olhar, voltando a fazer suas tarefas como se nada tivesse acontecido. Rahne, Tabitha, Jubileu e Amara começaram a cochichar entre si enquanto pegavam pratos na dispensa.
"Perdi alguma coisa?" Kurt perguntou para a irmã.
"Nada de importante, Brüderchen," Vampira empurrou um prato com hambúrguer contra a barriga do mutante azul, que o segurou ainda sem entender nada.
Traduções do francês:
Binoclard: Quatro-olhos
Bonjour: Bom dia/Boa tarde
Ça va?: Tudo bem?, Como vai?
Jumeaux Maximoff: Gêmeos Maximoff
Incroyable: Incrível
Petite: Pequena
S'il te plaît: Por favor
Traduções do alemão:
Bitte: Por favor
Brüderchen: irmão, "maninho".
Schwesterherz: irmã, "maninha"
