EDIÇÃO (Janeiro 2020): Esse capítulo passou por algumas pequenas modificações. Traduções estão no final do capítulo. Aproveitem :)
Capítulo 5
Sem qualquer possibilidade de sair para aproveitarem uma sexta-feira pós-aula em Bayville, os recrutas do Instituto Xavier entraram em relativo desespero, obrigados a procurar por algo para fazer dentro da mansão. Sugestões e mais sugestões, porém, foram descartadas sem que ninguém chegasse a um consenso definitivo do que fazer.
A tarde após o usual treinamento passou ainda mais lentamente enquanto esperavam por algo acontecer, até que admitiram a derrota e se limitaram a ficar esperando por algo na sala de estar; algumas meninas brincavam com o cabelo, outras mascavam chiclete, estourando a bolha em um "plop" barulhento. Os meninos se limitaram a observar o teto, deitados preguiçosamente nos sofás, quase cochilando.
Foi neste momento que Bobby teve a ideia de procurar por algo no porão da casa com Sam e Ray em seu encalço. Ao chegar na sala com um sorriso radiante em seu rosto, a maioria dos adolescentes o observou com curiosidade, ansiosos com o que poderia tê-lo deixado tão entusiasmado.
Suas expectativas, porém, se desfizeram ao notarem a pilha de jogos de tabuleiro que o mutante colocou sobre a mesinha de centro.
"Ah, qual é, galera?" seus ombros caíram consideravelmente, mas ele não desistiu. "Não tem mais nada pra gente fazer."
"Nuh-huh," Jubileu grunhiu de irritação de onde estava na poltrona. Ela olhou as caixas como se fossem as coisas mais esquisitas que já vira na vida. "Isso é coisa de criança, Bobby."
"Eu sei," ele revirou os olhos enquanto se sentava no sofá ao lado de Sam. "Mas a gente não tem mais nada pra fazer. E é muito mais interessante do que ficar olhando pro teto o fim de semana inteiro. Especialmente," ele levantou uma caixa em particular para que todos pudessem ver. "Esse daqui."
Ao olhar para o nome, Jubileu, que até o momento estava deitada no pequeno espaço da poltrona, sentou-se, indignada. "Esse é o pior de todos! Nem pensar que eu–"
"Eu jogo se o Gambit jogar!" Tabitha a interrompeu, repentinamente entusiasmada com a proposta. "E eu quero estar na rodada dele."
Amara olhou para a amiga, deixando sua lixa de unha de lado. "Mas a gente… digo," ela corou um pouco e se corrigiu. "Ele não aparece já faz um tempo, Tabitha."
"Ué, a gente pode procurar ele de novo. O Logan tá fora com a Ororo, com certeza nós temos mais chance de–"
"Esquece o cara," Bobby rolou os olhos enquanto tirava o conteúdo da caixa e preparava o jogo. "Desde quando a gente precisa dele pra nos divertir, hein? Vamos lá, meninas, vai ser legal." Ele aproximou-se de Jubileu e juntou as mãos em sinal de desespero.
"Eca, cai fora!" Ela ignorou seu olhar, mas corou. "Prefiro continuar a olhar pro teto."
Houve silêncio por alguns minutos e Bobby se deu por vencido enquanto voltava a guardar o jogo em sua respectiva caixa.
"E se a gente deixar as coisas mais interessantes, então?" ele comentou de repente, enquanto esfregava as mãos na frente do rosto.
Todos o observavam com curiosidade e ele sorriu, aproveitando a atenção. "O ganhador de cada rodada não vai precisar fazer as tarefas por um mês. Os perdedores vão fazer as dele," todos ficaram em completo silêncio, encarando-o como se estivessem processando suas palavras. Em segundos, levantaram-se para formarem seus grupos para o jogo.
Não demorou muito para que a diversão atraísse olhares curiosos, as risadas e o som alto do rádio que Tabitha ligara foram o suficiente para que, pouco a pouco, a sala se enchesse de outros participantes e observadores.
Quando Kurt e Kitty se juntaram à brincadeira, potes com salgados e copos com refrigerante foram surgindo sobre a mesa de centro.
Jean e Scott apareceram a seguir, ouvindo a música alta com certa preocupação. O casal se sentou no sofá, alegando querer apenas observar a diversão dos alunos enquanto comiam alguns aperitivos. Bobby comentou que os dois provavelmente estavam agindo como vigias, com medo de que a festa inofensiva, de alguma forma, causasse um novo Defcon 4.
Scott apenas riu enquanto enfiava um salgadinho na boca. "Conhecendo vocês, isso não está longe de acontecer," seu mau humor dos últimos dias surpreendentemente amenizado naquela noite.
Um dos últimos jovens a chegar na sala foi Vampira, depois de um treinamento solitário na academia da mansão e um longo banho relaxante na banheira. No momento em que chegou à sala de estar, se arrependeu por dar corda a sua curiosidade.
Deparou-se com Kitty, Roberto e Rahne sobre o tapete de um jogo, decorado com círculos coloridos, enquanto tentavam alcançar suas respectivas cores com as mãos e pés. Kitty foi a primeira a notar a gótica chegando enquanto colocava a mão direita sobre o círculo azul entre os pés de Roberto.
"Nem pergunta," disse quando sua amiga se aproximou.
Vampira segurou uma risada, "Nem preciso. Nossa, como eu queria ter uma câmera agora," ela se sentou no sofá, mas logo se arrependeu ao notar os pombinhos acomodados ao seu lado.
"Você não se atreveria," Lince Negra a encarou perigosamente, mas toda sua seriedade ia por água abaixo graças ao traseiro de um dos participantes estar tão perto de seu rosto. "Roberto, eu juro que se você fizer o que estou pensando–"
Vampira aproveitou a oportunidade. "Eu te dou dez pratas, Roberto."
"Eca!" Kitty desistiu na hora, não esperando por uma resposta, e se levantou do tapete, usando seus poderes para não esbarrar nos outros participantes.
"Desculpe," a gótica disse enquanto bebia um refrigerante e sua amiga sentava-se ao seu lado. "Eu não consegui resistir."
Kitty revirou os olhos, mas sussurrou o suficiente para Scott não ouvir. "Você sabia que isso era uma aposta e eu perdi um mês de folga nas tarefas, né?"
Vampira mordeu os lábios, sentindo-se culpada. "Foi mal. Eu não sabia dessa parte."
"Sabe o que você pode fazer para retribuir?"
"Eu juro que se você disser 'compras', eu me jogo pela janela."
Isso deixou a patricinha entristecida. "Mas logo agora que encontramos a cor da sua aura?"
Vampira levantou uma sobrancelha. Lá vem ela. "Mas do que você está falando, menina?"
"Eu já disse! Li isso na revista, numa coluna da Miss Grace - ela é incrível! Ela disse que cada pessoa tem uma cor que representa a sua aura, e geralmente é a cor que cai mais bem em você. Não é à toa que aquele vestido ficou tão incrível em você."
"Kitty, a minha cor não é amarelo. Muito menos dourado. Você nunca vai me ver usando amarelo, então nem fale naquele vestido–"
"Ei!"
" – que eu nunca vou usar."
Sua amiga ficou ainda mais indignada. "Mas ele foi feito pra você! Era o destino! Só tinha do seu tamanho e ficou tão lindo!"
Vampira massageou a ponte do nariz com os dedos. "Você me deve a grana que eu gastei."
"E você me deve um mês de folga nas tarefas, estamos quites."
Ela grunhiu. "Como eu fui comprar aquilo?"
"Eu já disse, sua aura estava carregada de vibrações negativas naquele dia. Será que aconteceu alguma coisa quando…?"
"Eu já falei que não aconteceu nada naquele dia na Irmandade," ela mentiu. "Cruzes, menina, me deixa em paz."
"Não foi o que eu percebi. Você estava tensa quando voltei pra mansão. Não mente, não, Vampira, eu vou descobrir–"
"Nada, porque não tem nada pra você descobrir. O pessoal da Irmandade estava me dando nos nervos como sempre, eu me levantei e saí. Só isso. Não foi minha culpa que você e o Lance demoraram tanto fazendo sei lá o quê no andar de cima," Vampira não contou que ficou esperando na X-Van estacionada a algumas casas de distância da Irmandade esperando para ver o casal saindo, para ter certeza de que não precisariam de uma carona. O que Gambit dissera a deixou mais paranóica, nunca iria se perdoar se deixasse um amigo em perigo por conta de seu descuido.
Kitty corou como um pimentão. "E-Ei! Nós fomos procurar a chave do carro. O Groxo sumiu com ela, não foi nossa culpa!"
"Não sei, não. O Pietro falou outra coisa," Vampira sorriu, aliviada por achar algo que fizesse Kitty esquecer do outro assunto.
"Ei! Não aconteceu nada! O Pietro é só um tarado mesmo, eca! E não muda de assunto, não!"
"Olha quem chegou!" Vampira a interrompeu, apontando com um leve balançar da cabeça para uma das entradas da sala.
Ao entrar lentamente, Piotr pareceu mais chocado com a muvuca do que a própria Vampira. Seus olhos azuis estudaram o ambiente, e estava claro o quanto se sentia perdido, sem ideia do que fazer no meio de toda bagunça.
"Você tá mudando de assunto de propósito," depois de observar o russo por um tempo, a mutante intangível virou-se novamente para a garota teimosa ao seu lado, ignorando sua vontade de ajudar o russo tímido.
"Não estou, não," e Vampira girou o rosto de Kitty com sua mão enluvada, forçando-a a olhar mais uma vez para Piotr, ainda parado no canto da sala sem saber o que fazer. "Olha pra ele, Kitty. Ele precisa de você e das suas excepcionais habilidades de fazer amizades. Vai deixar ele lá, sozinho, excluído?"
O conflito era aparente na expressão da patricinha.
"Ou vai esperar a Tabitha ver ele e deixá-lo ainda mais sem graça com as perguntas vergonhosas que ela faz?"
E Kitty se levantou em um salto. Ainda assim, olhou em direção à colega de quarto antes de se afastar. "Nossa conversa ainda não acabou," e foi ao resgate.
Vampira sorriu.
Era fácil distrair Kitty.
Ela observou enquanto os dois conversavam e a expressão nervosa de Piotr se transformava em uma de alívio. Kurt logo apareceu para ajudar, e os três se perderam em um assunto qualquer que a gótica não se interessou muito em saber. Começou a sentir-se nervosa com a multidão de alunos a sua volta, andando e dançando de um lado para o outro tão distraidamente.
Estar sem alguém ao seu lado mostrou-se uma desculpa para Vampira sair da sala sem que a abordassem.
Porém, antes de se levantar, Jean interviu.
"Vampira! Está gostando da festa?" ela perguntou com aquele sorriso convidativo de sempre. "Foi uma surpresa, não foi?"
A mutante segurou um suspiro. Quase... "Sim. Mas só quero ver quando o Logan chegar," forçou um sorriso enquanto olhava para Jaime que acidentalmente criou três clones. Um deles esbarrou em um vaso sobre uma mesa; não fosse pela terceira cópia, a porcelana teria quebrado no chão em mil pedaços. Ainda assim, montes de terra escaparam, sujando a superfície limpa de madeira.
"Bom, ele não vai poder fazer muita coisa. O Professor entendeu que precisávamos de um tempo pra nos animar, sabe? Ele não ligou, contanto que arrumássemos tudo depois. E não quebrássemos nada, claro…" ela observou Jaime e fez uma careta. "Mas nunca se sabe, às vezes o Wolverine até que aproveita a festa," Jean zombou e deu de ombros.
"Não sei não, mas o Logan jogando Twister não é algo que dá pra imaginar acontecendo tão cedo," Scott comentou inclinando-se para pegar um pouco de pipoca na mesa de centro. Vampira o encarou com um sorriso, até que notou que a outra mão do líder segurava a de Jean.
À tempo, ela segurou o impulso de avisá-los sobre o perigo que o contato entre suas peles poderia lhes causar, pois se lembrou que tal perigo existia apenas para ela.
A mutante mordeu os lábios e virou o rosto.
Em raras ocasiões, ações como um simples segurar de mãos chamavam sua atenção, mas, vezes ou outra, Vampira se pegava caindo na armadilha de lembrar o quão normal o contato entre duas pessoas verdadeiramente era. Como a ação era simples e tão… inofensiva para os outros.
Jean pareceu notar algo de errado, fosse por conta de seus poderes ou simplesmente por perceber o olhar distraído que a colega dera em sua direção.
Discretamente, ela soltou a mão de seu namorado.
E por mais que a telepata tentasse fazê-lo por empatia à situação da colega, ver o simples contato de suas peles foi o suficiente para deixar Vampira pensativa. O casal começou a conversar, mas ela não conseguiu prestar muita atenção.
Olhando a sua volta, se pegou reparando em ações que antes passariam despercebidas: Kitty acidentalmente apoiando a mão sobre o braço de Piotr enquanto conversavam; Tabitha e Sam segurando os pulsos de Amara quando esta quase tropeçou em algo largado no chão; Rahne tirando uma mecha de cabelo da testa de Roberto com os dedos enquanto conversavam entusiasmadamente no canto da sala; Bobby, Jubileu e Jaime esbarrando um no outro para tentarem se manter firmes no jogo, Ray rindo dos colegas.
Nenhum deles percebia…
O tecido de suas luvas de repente pareceu formigar sobre sua pele. Ela brincou com o material por um bom tempo, procurando em seu objeto de proteção algo pelo qual se distrair; algum fio solto, dobra, qualquer coisa que a ajudasse a não pensar mais em seu… dom.
Ela piscou várias vezes e suas mãos se fecharam em punhos.
Não importava quantas vezes lhe diziam o contrário, quantas vezes Professor Xavier ou Tempestade repetissem… o que ela tinha nunca seria um dom.
Era uma maldição.
O som do rádio pareceu distante. E as risadas e conversas ficaram cada vez mais difíceis de compreender.
Vampira sentiu seu corpo inteiro suar frio e ela percebeu o quanto estava coberta em comparação a todos os outros… e como essa condição seria sua realidade pelo resto da vida.
Mangas compridas, golas altas, calças, segundas-peles, luvas. Sempre as benditas luvas.
Um dia, ela esqueceria como era. Um simples toque, um aperto de mãos, um abraço. Outras coisas ela talvez nunca chegasse a conhecer.
Lembranças de outra pessoa invadiram sua mente, o que geralmente acontecia quando ela pensava demais em um assunto específico… e quando se sentia fraca. Eram intrusas que pioravam sua situação.
Por alguns segundos, enquanto o mundo a sua volta virava borrões, ela não sabia o que estava acontecendo, até que a sala transformou-se em um quarto pequeno; os ruídos de rádio e pessoas conversando viraram barulhos e buzinas de carros passando por uma avenida próxima; uma janela aberta deixava luzes neon colorirem o lugar em azul, depois vermelho, depois verde. A noite era refrescante, quase pacífica.
Conseguiam ouvir alguma banda tocando com saxofones e trompetes e guitarras e baterias em algum bar do lado de fora; mas naquele momento, não havia mais ninguém a não ser ele e ela.
A imagem se tornou nítida o suficiente para identificar a cabeça de uma garota desconhecida apoiada em seu ombro esquerdo.
Ela segurou seu braço com suas mãos delicadas enquanto parecia estudar cada traço de seus músculos. Circulou uma pequena cicatriz na pele bronzeada de seu antebraço. A sensação era boa e familiar, fazia seu coração bater mais rápido.
Quando ela inclinou sua cabeça para olhá-lo nos olhos, a imagem voltou a se desfazer e seu rosto era difícil de identificar.
A sensação, porém, continuava. Seus lábios se abriram para falar algo…
Não.
O barulho de rádio voltou. Suas luvas absorviam o suor de suas mãos, mas ela não sabia se sentia frio ou calor.
"Vampira, você está–?"
"Estou bem," ela se levantou e foi embora, sem se importar em olhar para Jean antes de sair daquela sala... sem olhar para ninguém.
O primeiro lugar que pensou em correr foi para seu quarto, mas precisava de ar fresco e de um lugar no qual não iria se sentir tão... confinada.
Como todas as vezes, as lembranças que a assombravam eram confusas e fragmentadas. Um embolado de sensações que a deixavam ainda mais frustrada, sentindo coisas que não eram dela e que sabia não ter o direito de conhecer.
Lembrou de uma irmãzinha loira e pequena abraçando… ele, sorrindo com um aparelho que cintilava sobre os dentes dela e falando de um amigo novo que fez.
Lembrou-se de outro abraço. Uma mãe olhando-o com tristeza por trás de seus óculos grossos, enquanto segurava sua mão verde e pequena, falando que tudo ia ficar bem e que seria aceito algum dia.
Vampira nem percebeu ter descido as escadas, muito menos ter aberto a porta da entrada. Percebeu apenas o ar frio da noite batendo contra seu rosto e, ao fechar a porta de vidro, o novo silêncio que a rodeou. O som distante da festa era abafado pelo barulho calmo de galhos de árvores estalando e ondas do mar batendo contra as rochas do penhasco da propriedade.
O céu estava limpo, sem nenhuma nuvem, como era comum naquela época. Poucas estrelas brilhavam no céu em volta de uma pequena lua crescente, mas eram o suficiente para embelezar a noite. O inverno estava próximo, e o que era uma das estações mais odiadas por Vampira durante sua infância, tornou-se a mais esperada; logo, poderia sair com roupas pesadas e longas sem que sofresse com um calor desnecessário ou tivesse que se preocupar com as partes expostas de sua pele encostarem acidentalmente em alguém.
A alguns metros da entrada, uma figura de pedra refletia a luz do luar, quase como se possuísse uma aura própria: um anjo observando a entrada como um guardião na frente da casa. Ela se aproximou. Logo abaixo, o ruído da fonte chamou sua atenção.
Ela se sentou na borda e lentamente tirou suas luvas, colocando-as sobre a pedra. A água distorcia o reflexo das luzes a sua volta, sua mão tentou distraidamente alcançar um deles, a sensação fria contra a pele era refrescante, um alívio.
Foi quando avistou pequenos cascalhos no fundo da fonte. Puxando uma manga até o cotovelo, inclinou-se e pegou alguns. Depois, sentando-se mais confortavelmente sobre a borda, tacou-as de volta na água, distraindo-se com a forma na qual quicavam sobre a superfície antes de afundar.
Uma, duas, três vezes, ela respirou fundo e repetiu… uma, duas, três vezes mais, enquanto continuava a arremessar as pedrinhas.
Quando se cansou, Vampira olhou mais uma vez para o anjo. Reflexos da água iluminada batiam contra aquele rosto de pedra, dando uma leve ilusão de movimento à figura inerte... Como se realmente estivesse viva e observando tudo à sua volta, vigiando e cuidando… talvez ouvindo.
Como um anjo de verdade.
Vampira nunca foi uma pessoa muito supersticiosa ou religiosa, mas de vez em quando se pegava acreditando em coisas como milagres. Talvez devesse, já que vivia em uma casa cheia de pessoas com habilidades antes consideradas inimagináveis... para ela, acreditar no extraordinário não seria algo tão absurdo.
Vez ou outra, também ouvia seu irmão postiço falando sobre milagres, algo que seus pais adotivos sempre repetiam quando ele ainda morava na Alemanha. Antes de Kurt, o casal sempre quis ter um filho, alguém para cuidar e amar. E um dia, o "milagre" deles aconteceu, da maneira que menos esperavam, mas aconteceu.
Ela observou a estátua novamente com uma expectativa que nem mesmo ela sabia do que seria, mas ainda assim ficou esperando. Esperando por alguma coisa acontecer. Por algum sinal que dissesse que algo bom estaria por vir, que não precisava ter medo. Que era tudo para um propósito maior.
Queria controle sobre sua própria pele, sobre as lembranças que sem intenção roubava, sobre sua maldição.
E se não fosse possível controle, talvez uma... cura. Tudo para não causar mais sofrimento para ela e para os outros.
Era apenas isso que importava.
O vento pareceu bater mais forte e ela fechou os olhos para protegê-los da pouca poeira que este carregava.
Alguns minutos se passaram, mas claramente nada aconteceu. E ainda assim, ela se sentiu enganada, como uma criança mimada que não recebeu o presente que queria.
Em sua frustração, atirou a maior pedra que tinha contra o peito da estátua.
O cascalho se chocou contra a figura com força o bastante para se quebrar em dois. Um barulho estridente seguiu, assustando a mutante, que aparentemente subestimou sua força. Talvez uma das personalidades que a atormentavam estava tentando sair–
Um longo assobio quebrou o silêncio e, de repente, alguém do outro lado da fonte se levantou de maneira que sua cabeça e ombros apareciam acima da borda, no campo de visão da sulista.
Vampira levantou-se em um salto e instintivamente agarrou suas luvas.
"Nossa. O que a pobre estátua fez pra você?" Gambit comentou enquanto saía de onde estava deitado. Uma parte de de seu cabelo se mostrava bagunçada, como se ele estivesse deitado até agora no chão. Estava de uniforme novamente, sem o sobretudo que provavelmente estava usando para deitar sobre a grama.
"De onde você…?" ela ainda assim perguntou.
"Só estava descansando," ele disse, levantando as mãos em sinal de defesa. Em seguida, colocou um cigarro na boca e acendeu-o com seus poderes. "Não estou te seguindo, se é o que pensa," ele disse como se aquilo fosse deixá-la triste. "Mas se veio até aqui procurando por alguma forma de relaxar. Minha proposta ainda está de pé."
Ela suspirou. Não precisava daquilo agora.
"Na verdade–" ela jogou o resto das pedrinhas de volta na água e colocou suas luvas quando percebeu que ele se aproximava, carregando um cinzeiro pequeno em uma das mãos. "Já estou indo. Pode ficar aí mesmo."
"Ei," ela sentiu uma mão agarrar seu pulso ao se virar para ir embora. Mesmo com o tecido de sua camiseta bloqueando o contato, Vampira conseguia sentir o calor emanando da pele dele.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, observando um ao outro por diferentes motivos; ela por surpresa, ele por curiosidade.
Ele colocou o cinzeiro sobre a borda da fonte, mas não soltou Vampira. Seus olhos vermelhos estudaram seu rosto pálido, tentando decifrá-la com um simples olhar, mas sem dar nenhuma informação em troca.
Aparentemente, ele viu algo de errado.
"Aconteceu alguma coisa?" foi o que se limitou a dizer; sua expressão tão neutra quanto a estátua atrás dele. Vampira o encarou ainda mais surpresa, tentando se lembrar da última vez que a voz dele soara tão séria. Quase como se estivesse genuinamente preocupado.
Ela se lembrou de Nova Orleans.
"Por que você não me contou que sequestraram o seu pai?"
"Porque você não precisa de mais problemas."
Eram só mentiras bem contadas.
"Não aconteceu nada. E mesmo que tivesse, eu não te contaria. Não é da sua conta," ela puxou o pulso da mão dele.
"Bon, seria da minha conta se você decidisse sair da mansão num horário desses. Seu professor foi bem claro com as regras, non?"
Ela grunhiu. "E de que te interessa? Você só está aqui pra reparar um sistema de segurança, não pra ser a minha babá."
"Eu sei, só estava me certificando," ele riu da grosseria dela. "Mas se um dos X-chatos, sem ofensas, sumissem depois de todo o esforço que estou tendo para melhorar a segurança daqui… O que será da minha reputação?" ele virou o rosto para o lado e expirou a fumaça do cigarro pela boca.
Ela teve que segurar uma risada. É claro…
"Achei que você fosse do tipo que não se preocupava com o que os outros pensavam de você," ela zombou.
"Bon, depende… a opinião dos que têm uma carteira cheia vale muito, na verdade," e ele esfregou os dedos indicador e polegar em um sinal óbvio de dinheiro.
Um ladrão honesto... Esse ela nunca vira antes e, apesar de tudo, a fez rir de leve. Por mais estranho que fosse, a ação a acalmou.
"Não acha que está sendo um pouco… interesseiro?"
Ele deu de ombros, como se concordasse com a dura realidade, ainda que não parecesse dar a mínima.
"E quem não seria?" Ele murmurou.
Vampira cobriu sua boca com a mão para esconder um sorriso e voltou a olhar para ele. Gambit a encarava com interesse, a boca dele quase formando um sorriso parecido, satisfeito com algo que fizera.
A fumaça do cigarro dançava na frente de seu rosto como cobras deslizando pelo ar.
Ela sentiu seu coração bater com mais rapidez. Olharam um para o outro em um silêncio que não chegava a ser desconfortante.
Ele inspirou e tirou o cigarro da boca, virando o rosto para o lado. Logo mais, um pouco de fumaça saiu de sua boca.
"Você sabe que isso é um perigo, né?" ela apontou para o cigarro com uma careta enquanto observava a ação, mudando completamente de assunto. Vampira nunca gostou do cheiro, ainda que não fosse tão ruim quanto os charutos fortes que Logan fumava escondido.
Às vezes, acidentalmente avistava o instrutor sentado em algum canto da propriedade, fumando alguns maços, e era sempre o cheiro que o entregava, mesmo quando ela estava relativamente longe dele. Em momentos como aquele, porém, Vampira tentava se distanciar o mais silenciosamente possível. Queria dá-lo sua merecida privacidade, algo raro em uma mansão cheia de adolescentes hiperativos.
Foi quando Vampira entendeu o porquê de o Cajun estar em uma área relativamente isolada do Instituto, considerando a hora.
Ela mordeu os lábios, tentando ignorar a pequena culpa que sentiu por interromper o momento de descanso dele. Ainda que não confiasse em Gambit completamente, o que ele estava fazendo para os X-Men era o suficiente para que merecesse ao menos um pouco de privacidade, um tempo de paz para recarregar suas energias.
"As melhores coisas são," sua voz grave interrompeu seus pensamentos e ela demorou para se lembrar do que estavam falando. "Mas por que você pergunta? Será que se preocupa com o bem estar desse Cajun aqui?" ele inclinou o rosto para perto do dela.
Vampira deu-lhe um sorriso falso, e sua culpa foi embora. "Na verdade…" ela tirou o cigarro da boca dele rápido o suficiente para surpreendê-lo. "Cigarros são um perigo maior para as pessoas próximas ao fumante," e apagou a bituca no cinzeiro sobre a borda da fonte. "Estou fazendo um favor ao pessoal do Instituto, não a você," ela tacou a bituca contra o peito do Cajun, mas ele desviou.
Ele sorriu com o comentário, que percebeu ser uma tentativa da colega sulista de tentar irritá-lo.
O que fez em resposta foi simplesmente tirar outro cigarro do compartimento de seu cinto. Usando seus poderes, acendeu a nova unidade e a colocou na boca.
"Você está me devendo um cigarro," Gambit murmurou. Ela fez uma careta, ainda que não estivesse realmente brava. "E ninguém está te forçando a ficar aqui. Cheguei aqui primeiro, então, fique a vontade para ir embora," fazendo o oposto do que ela esperava, Gambit sentou-se no chão com as costas apoiadas na borda da fonte.
Demorou para ele olhar novamente para Vampira, mas quando o fez, a examinou de cima a baixo. Não demorou para dar um sorriso malicioso.
"Mas pensando bem, se você está aqui, ao invés de estar brincando de creche com a criançada na 'festa' lá em cima… significa que ela não estava assim tão boa, certo? Então, você veio correndo me procurar."
Era exatamente o contrário, mas ela suspeitava que ele já sabia disso, julgando pelo seu tom sarcástico.
"Cuidado, Cajun. Se continuar falando assim, vou começar a achar que ficou ofendido por não ter sido convidado para a festa."
Nesse momento ele a encarou com a expressão de deboche mais sincera que já vira. "Olha, eu estive em uma festa de verdade esses dias. E sabe que não me lembro de jogar Twister lá? Me parece que haviam outras coisas para fazer."
Ela revirou os olhos, observando enquanto ele distraidamente passava a mão pelo cabelo. Um matinho solitário escapou de entre os fios.
Foi quando Vampira se encontrou em um dilema. Poderia deixar o Cajun sozinho e voltar para a mansão para dormir… ou se sentar na fonte por mais um tempo e evitar encontrar alguém no caminho de volta para seu quarto.
Disse a si mesma que esta foi a razão para decidir ficar.
Além do mais, Gambit estava comportado o suficiente para deixá-la relaxar por mais alguns minutos, e ela sabia que se tentasse ir para outro lugar no lado de fora da mansão, ele poderia segui-la por pura e simples curiosidade.
Ela se sentou na borda da fonte de novo, a uma distância considerável do Acólito para não esbarrar nele por acidente. De onde estava, podia ver o topo da cabeleira castanha dele.
Havia uma outra folhinha presa entre as mechas dele e os dedos dela quase se moveram para tirá-la de lá. Ela parou antes de fazer alguma besteira e massageou sua mão, pensativa.
Como se soubesse o que estava acontecendo, Gambit repentinamente virou o rosto para encará-la e, dessa vez, ela não desviou o olhar.
Ele sempre faz isso, ela percebeu; intimidar os outros com seu olhar firme, deixá-los sem graça.
Dessa vez, porém, não iria deixá-lo vencer seu jogo tão facilmente.
Aproveitou para estudar seu rosto da mesma forma que ele parecia fazer com ela.
Quando terminou de examinar os traços definidos de sua face, teve coragem de olhá-lo nos olhos. Por conta do escuro, suas írises brilhavam como duas faíscas perigosas sobre um fundo preto. Ela não conseguia entender como, apesar da aparência assustadora, podiam ser tão envolventes. Lembrou-se de quando se conheceram, de como seus olhos estavam estranhamente comuns, com córneas brancas e cor castanha e ainda assim, a deixaram sem palavras, em um tipo de transe.
Ela piscou rapidamente algumas vezes, e recordou-se de um outro momento parecido.
"Lamento, monsieur, mas não temos mais lugares," o empregado disse para os dois antes que pudessem entrar no clube. Ele olhou para Gambit com tanta naturalidade, sem medo de seus olhos, que Vampira suspeitou que ele achava serem parte de uma fantasia no meio de tantas outras daquele Mardi Gras. "Uma família reservou grande parte das mesas hoje, e eles são uns de nossos clientes mais fiéis… Não sei se os conhece, mas–"
"Eu entendo, mas é que…" o mutante encostou sua mão na parte coberta do ombro de Vampira, aproximando-a para mais perto dele e da entrada, "...minha colega aqui sempre quis experimentar a famosa jambalaya de Nova Orleans. Eu disse que se não fosse desse clube, não valeria a pena ir em qualquer outro lugar da cidade pra comer."
"Agradecemos a sua preferência, mas eu sinto muito, fui instruído a não ceder lugares neste caso. Os convidados são muito especiais, podem chegar a qualquer instante e–"
"Você não pode checar de novo, mon ami?" ele o interrompeu com sua voz suave e calma; por alguma razão, o empregado pareceu perder a fala, repentinamente interessado em cada palavra que o jovem à sua frente dizia. "Tenho certeza de que não vão perceber dois lugares a menos. Em reuniões de família alguns parentes sempre faltam, non? Não pode abrir essa exceção para nós, monsieur?"
Vampira observou o homem apoiando-se de um pé para o outro desconfortavelmente, e ela estava certa de que ouviriam um outro "não".
"Você tem razão. Temos dois lugares, sim."
A garota olhou incrédula para o empregado e depois para o Cajun ao seu lado, tentando entender o que acontecera entre os dois para ocorrer tamanha mudança enquanto era guiada para dentro do clube por uma mão sobre suas costas.
Eles se sentaram próximos ao palco, onde um grupo de jazz tocava uma música suave e romântica.
Antes que ela achasse a oportunidade para perguntar ao mutante à sua frente o que havia se passado, uma garçonete colocou dois pratos do que só poderia ser a famosa jambalaya do clube. O cheiro incrível da comida a fez esquecer do que ia perguntar...
"No clube de jazz. Como você fez aquilo?" ela falou repentinamente, finalmente desviando o olhar enquanto brincava com o tecido de suas luvas.
Ele levantou uma sobrancelha e inclinou a cabeça. "Aquilo o quê?"
"Você sabe. Em Nova Orleans, com o garçom."
"Quem?"
Vampira levantou uma sobrancelha, suspeita; ele estava fingindo que não se lembrava, como se quisesse que ela descrevesse exatamente o que acontecera.
"O que você fez quando… nos conhecemos… é parte dos seus poderes?" tentou ao máximo não ser específica enquanto o encarava novamente.
Perguntar se ele possuía algum tipo de poder hipnótico sobre as pessoas, seria como colocar mais lenha na fogueira do já imenso ego que Gambit tinha.
"Não me lembro daquele dia tão bem quanto você, chère, mas acho que você está falando disso," e, com seus poderes, ele iluminou um valete de copas tirado de um de seus bolsos, para exemplificar.
Vampira grunhiu e desviou o olhar. "Deixa pra lá."
Ela esperou que o silêncio o fizesse falar, mas ele não se importou em esclarecer, apenas continuou a fumar e embaralhar o resto das cartas que tirou do compartimento de seu cinto.
"Você faz alguma coisa com as pessoas," ela disse depois de alguns minutos batucando os dedos na pedra da fonte. "Acha que eu não percebi, mas você faz. Em Nova Orleans, quando o garçom do clube disse que não tinha mais lugares. Você falou algo e, de repente, ele fez exatamente o que você pediu."
Gambit sorriu, mas ficou em silêncio por tanto tempo que Vampira achou que ele não iria respondê-la mais. "Não sei se já percebeu, mas as pessoas adoram agradar gente bonita..."
Ela revirou os olhos. "Céus. Você não se cansa de se ouvir, não?"
"Não quando eu falo com você," ele deu de ombros.
O que realmente frustrou Vampira foi o fato de, durante toda a conversa que tiveram, não conseguir tirar qualquer detalhe novo sobre ele além de que era um homem que adorava a vida noturna… o que já era de se esperar. Não sabia o porquê de ele ter voltado para Nova York, ou o que acontecera em Louisiana para nem ao menos mandar uma desculpa esfarrapada por não ter ido lutar contra Apocalypse.
Não que fossem amigos o suficiente para que mantivessem contato ou trocassem segredos. Ela própria já deixou claro que os dois não passavam de meros conhecidos.
Mas ainda assim...
Ela duvidava que se perguntasse para ele, ele responderia com sinceridade, já que estava difícil extrair uma simples explicação sobre os poderes dele.
Ela suspirou e se levantou para ir embora, satisfeita com o tempo que passara para respirar um ar fresco. Talvez sua curiosidade permanecesse, mas ao menos Vampira sentia-se mais calma do que quando chegara, já sairia ganhando algo.
"Eu não sei explicar o que é, exatamente," ele finalmente respondeu, sem olhar para ela. Sua voz a assustou um pouco. Ela virou-se na direção dele e cruzou os braços, esperando-o continuar. "Tenho minhas teorias, mas eu nunca soube direito. Só sei que quando preciso mesmo de algum favor, ou alguma coisa… se eu estiver perto o suficiente da pessoa, ela vai concordar comigo, fazer o que eu quero."
"Como uma hipnose?"
Ele deu de ombros, seus olhos fixos nas cartas que embaralhava. "Talvez."
E Vampira se sentou novamente na borda da fonte. "Foi por isso que o garçom te obedeceu..."
"Oui."
Muitas coisas fizeram sentido, mas ainda assim ela se pegou questionando ocasiões nas quais o Cajun usava tais poderes.
"Mas não uso eles para fazer o que você está pensando," ele disse como se soubesse exatamente o que se passava em sua cabeça. "Já deve ter percebido que pra me dar bem eu só preciso do meu charme natural," e ele deu um sorriso que provavelmente usava para deixar qualquer menina na palma de sua mão.
Ela riu, mas respondeu com o intuito de irritá-lo. "Ah, é? Bom, me desculpe se eu não acredito nisso."
De repente, depois de apagar a bituca de cigarro no cinzeiro, ele se levantou, sentando bem ao lado dela sem quebrar contato visual. "Bon, eu posso provar que está errada agora mesmo."
Ela queria se distanciar, com medo de seus poderes, mas deu a si mesma e a ele uma chance maior ao invés de se afastar repentinamente. Deixou ele aproximar seu rosto um pouco mais, deixou ele pairar seus dedos sobre a pele da bochecha dela, para finalmente perguntar, querendo pegá-lo em seu próprio jogo. "E como eu sei que você não tentaria usar seus poderes neste instante?" sussurrou.
Ele segurou uma risada. "Simples. Eles não funcionam se você souber deles."
"E você acha que acredito no que você fala?" ela sorriu e segurou o pulso dele com sua mão enluvada, impedindo-o de tocá-la.
"Acho que você só vai ter que confiar em mim, mas fique à vontade para descobrir," seus olhos fitaram os lábios dela sugestivamente. Foi quando Vampira se deu conta de que se ela permitisse, Gambit provavelmente se arriscaria em tocá-la.
Ela se lembrou do olhar chocado de um garoto meigo que a segurou pelo pulso uma vez. Como ele caiu como uma estátua contra o chão do salão de dança, sem nem ao menos tentar amenizar sua queda… como ele não se moveu e permaneceu deitado com olhos arregalados e sem vida.
Isso a fez querer parar com o jogo. Ela se afastou, empurrando a mão dele contra o peito dele.
"Você quer ficar em coma de graça, só pode!"
"Talvez valha à pena, non?" ele sorriu.
Ela grunhiu em frustração. Apenas um louco como Gambit para falar algo assim… e ainda mais louco para realmente querer se arriscar com algo tão perigoso sem ganhar nada em troca. Não era à toa que tinha aquele nome.
Ela se levantou mais uma vez para ir embora e mais uma vez ele a impediu, segurando-a pela mão.
"Vampira..." há muito tempo não ouvia ele a chamar pelo nome. Ela o encarou, esperando impacientemente pelo que ele tinha para dizer. O rosto do ladrão estava imparcial como sempre. "O que você está passando… é sempre bom contar para alguém."
Ela piscou rápido por um bom tempo, tentando compreender o que aquelas palavras significavam. Perguntas se formavam em sua cabeça, e a maior de todas era o quanto ele realmente sabia sobre sua situação.
O quão bom ele era em ler as pessoas? Será que tinha algum poder empático? Ou estava apenas blefando? O que ele ganharia com isso?
Ela soltou sua mão da dele. "Eu não sei do você está falando."
Ele revirou os olhos. "Claro que não."
"E eu já disse que o que acontece na minha vida não é da sua conta."
"Talvez. Mas é sempre bom ter alguém cuidando de você."
Ela teve um déjà vu de quando estavam dentro de um vagão de trem rumo a Louisiana.
"E esse 'alguém' seria você?" ela perguntou, quase rindo com escárnio.
"Eu disse isso?" ele se fingiu de surpreso com a sugestão. "Mas você gostaria que fosse, non?"
"Eu não quis dizer…" ela parou e decidiu mudar sua abordagem. "Deixa pra lá. E, supondo que eu precise… porque você quer tanto me 'ajudar' assim?"
Por alguns milésimos de segundos ela pensou ter visto uma expressão genuína formar -se no rosto dele, mas esta desapareceu rápido demais para identificá-la.
"Eu sou um cara de princípios."
"Obviamente."
"Estou te devendo um favor."
"Ah é?" isso a deixou curiosa, esperando por algo sincero sair de seus lábios.
"Oui, aquela noite na Irmandade quando você assustou o Blob foi divertido."
"Eu não–" estava bom demais para ser verdade. "Bom, você ficando longe de mim seria um favor o suficiente, obrigada."
Ele não ficou ofendido, apenas deu de ombros. "Sua perda, sempre me disseram que sou uma ótima companhia."
"Ah, claro," ela riu. "Diga isso para o Logan. O Scott não larga do pé dele pra reclamar de você. Você deu uma dor de cabeça imensa para os dois," Vampira perdeu a conta das vezes em que se deparava com o líder discutindo com Wolverine sobre quanto mais tempo seria preciso para o Acólito terminar o trabalho.
"Mas essa é a parte mais divertida do trabalho!"
"Não se você tem que conviver com eles! E acredite, prefiro enfrentar a Irmandade sozinha a aturar os dois cabeçudos por mais tempo. "
Gambit deu um sorriso. "Não tenho dúvida de que você venceria de olhos vendados."
Isso a fez corar, surpresa com o repentino elogio e o jeito que ele a observava.
Ainda assim o sorriso dele mostrava uma certa satisfação, como se tivesse vencido alguma coisa.
"Boa tentativa, mas guarde essa lábia toda para uma menina que esteja interessada."
Ele pareceu querer dizer algo em resposta, como se soubesse de alguma coisa que ela não sabia, mas por alguma razão optou por não falar.
Novamente, ficaram em silêncio. E depois de olhar para o chão enquanto massageava as mãos em desconforto, Vampira falou quase num murmúrio, "Gambit," há muito tempo não o chamava pelo nome também. Era quase estranho. Novo.
Ele a olhou com curiosidade, provavelmente pensando a mesma coisa.
Vampira mordeu os lábios antes de continuar. Milhares de outras perguntas passavam por sua mente. Uma delas sendo o que todos na mansão também se perguntavam, e que poucos sabiam a resposta: como ele adquiriu aquelas informações que estavam mudando radicalmente a vida de todos os mutantes em Nova York? E há quanto tempo ele realmente sabia da verdade?
Ao menos o Professor Xavier deveria saber. E ainda assim foi cauteloso, preferindo investigar por si mesmo as evidências ao invés de confiar tão cegamente em um inimigo e seu capanga.
A conversa que tiveram até agora, porém, fez Vampira ter certeza de que Gambit não a responderia com honestidade, ou no máximo encheria sua resposta com meias verdades. Ela então decidiu dizer outra coisa.
"Obrigada," ele levantou uma sobrancelha, surpreso com a repentina mudança no tom de voz da X-Man. "Pelo que fez… Por nos avisar. Por nos ajudar com a segurança."
Ela sabia que o melhor era admitir a verdade. E para ela, quanto antes isso acontecesse, mais cedo estaria livre de ter que dizê-la.
"Eu já disse. Estou só fazendo o meu trabalho e ele não é de graça. Na verdade é bem caro," ele deu de ombros.
Céus, ele realmente quer ser odiado pelo mundo inteiro.
"Não é assim que eu vejo," ela murmurou e foi embora, cruzando os braços. Ainda assim, sentiu-se frustrada com a forma na qual terminaram a conversa.
Perguntou-se o porquê de Gambit parecer não estar levando nada a sério e principalmente o porquê de ela estar tão incomodada em querer saber a resposta.
Em um leve suspiro, Vampira decidiu não se preocupar mais com isso. Já tinha problemas demais para pensar.
Tradução:
Bon: bem
Chère: querida
Comment?: Como?
Monsieur: senhor
Mon ami: meu amigo
Non: não
Oui: sim
