Depois de um tempinho sem postar nada, segue um capítulo fresquinho pra vocês!

Obrigada, Maethril, pelas correções. Como sempre, você me salva!

Algumas observações: passei um tempo reescrevendo grande parte dos capítulos anteriores (a partir do dois), pois muitas coisas estavam me incomodando, desde caracterizações, até a maneira como a história era contada.

Em sua essência, a história continua a mesma, então quem leu os capítulos antes de Novembro não precisa ler de novo (caso não queiram) pois não vai atrapalhar a ideia principal da fic ;)

De resto, espero que gostem deste próximo capítulo!

Também queria agradecer pelos reviews! É sempre bom ler o que vocês acham!

Capítulo 6

Sua pele já não tinha mais aquela sensação formigante com a qual já estava tão acostumado. Ocasionalmente sentia sua cabeça latejar e seus olhos ardiam, mas a memória daquela dor excruciante ainda era a pior de todas.

Podia estar ficando louco, mas parecia que ainda conseguia ouvir seus gritos ecoando pelo lugar. E, às vezes, pareciam de outra pessoa.

Ele encostou os dedos sobre sua cabeça enfaixada e sentiu uma parte da gaze molhada com suor e sangue.

"Cuidado para não reabrir," a sombra disse a distância enquanto lia algo em uma prancheta. "A cirurgia foi um sucesso. Você dormiu por alguns dias, mas ainda precisa descansar."

Desorientado, o garoto olhou para seu reflexo na bandeja de metal próxima a sua maca.

Não reconheceu a pessoa a sua frente.

Seu cabelo, que antes chegava acima de seus ombros, foi completamente raspado. A parte do rosto dele não coberta pela gaze estava inchada, como se tivesse levado um soco no olho, agora rodeado de hematomas roxos e amarelos. Ele franziu o cenho por conta da dor, piscou várias vezes e até encostou os dedos trêmulos sobre a pálpebra que não estava tão deformada.

O pior de tudo foram os dois olhos castanhos, assustados e confusos, o encarando de volta.

"Efeitos colaterais do soro que apliquei em você. Ele afeta seu gene mutante por um tempo… mas voltarão ao normal, eventualmente," explicou o doutor.

"Ta gueule," o paciente respondeu, enfurecido. Tentou se levantar, pronto para dar um soco naquele desgraçado, mas suas pernas ficaram bambas e ele voltou a sentar na maca, enfraquecido.

A sombra aproximou-se de um computador grande, para digitar algo. "Vai se sentir assim por algumas semanas, mas vai melhorar. Até lá, não tente nada muito arriscado, nem use seus poderes. Recomendo deitar para fazermos alguns testes."

O paciente escondeu a raiva com uma risada seca, seus dedos se mexiam inquietos à procura de algo para manusear. Desde que começou a usar armas incomuns e de aparência inofensiva para os outros, se acostumou a tê-las sempre por perto para passar o tempo ou quando estava próximo de algum perigo.

"Onde estão minhas coisas? Quero meus cigarros," exclamou, furioso. Ele olhou a sua volta em um desespero contido, não conseguindo enxergar direito no lugar escuro.

Avistou o sobretudo pendurado perto da maca e desajeitadamente apalpou os bolsos, procurando pela caixa de cigarros, uma das únicas coisas que lhe foi permitida manter antes de entrar naquele lugar. Ele abriu a caixinha com dedos trêmulos e tirou um cigarro, junto com um objeto pequeno escondido no meio das outras unidades.

"Eu não recomendaria fumar depois de uma cirurgia como essas. Além do mais… Você não é muito jovem pra isso?" o homem nas sombras perguntou enquanto continuava a digitar em sua máquina, achou tanta graça na ação do paciente que quase riu. A luz da tela acentuou os traços angulares daquele rosto pálido de uma forma quase diabólica.

"Desde quando isso é da sua conta? Va te faire fout!" em um ataque de fúria, empurrou todos os objetos em cima da mesa mais próxima. O chão liso se encheu de estilhaços de vidro e manchas de químicos; peças de metal fizeram barulhos agudos ao encontrarem a superfície antes limpa do piso e uma mistura de cheiros fortes impregnou o ar.

"Você sabia!" raiva foi o que o motivou a se levantar novamente.

Ele esbarrou em vários móveis enquanto cambaleava até a sombra e o computador.

"Imbécile, eu juro que se você fez alguma coisa comigo eu–," uma pontada forte em seu pé descalço o fez tropeçar, não antes de apoiar-se no computador e enfiar o pequeno aparato em uma entrada USB, sem a sombra notar. Ele teria caído de barriga na superfície fria, não fosse uma mão gélida segurando-o pelo braço.

"Ou o quê? Pelo que eu saiba, seu pai não sabe que você me procurou, sabe? Você está sozinho," e um sorriso se formou naquele rosto assustador, seus dentes caninos eram tão pontudos e sua pele tão pálida que o faziam parecer um vampiro que saíra direto de um filme de terror. "Mas não se preocupe, filho," a sombra ajudou-o a voltar para a maca. O pé do garoto ainda ardia e, ao sentar-se, ele finalmente percebeu que pisou no fragmento de um dos objetos que quebrara em sua fúria. "Sou um homem de palavra; vocês, ladrões e assassinos, sabem disso. Não fiz nada além do que combinamos. E eu preciso de você bem e vivo, lembra? Ainda me deve uma missão."

Ele tentou tirar o fragmento do pé sozinho, mas se arrependeu no mesmo instante. Gritou de dor e desistiu. Começou a se sentir tonto novamente e queria vomitar. A cabeça dele voltou a latejar.

O homem pálido foi quem o ajudou, mesmo com a relutância do paciente.

"E que favor… é esse que… que você… precisa?" o garoto se sentiu cansado, fraco demais para lutar. Tudo em volta virou uma tela de borrões e os pingos de suor percorrendo suas têmporas sumiam na faixa que emoldurava o rosto dele.

"Ah, não se preocupe, você vai saber quando o momento chegar."

E o mundo escureceu.

Gambit abriu os olhos e se endireitou na cadeira em um salto. Olhou a sua volta e lembrou-se de que estava longe de qualquer perigo.

Acalmou-se o máximo que pôde, massageando a ponte do nariz e respirando fundo. Ainda assim, sentia que precisava sair antes que enlouquecesse.

Ao se levantar da cadeira na qual ficara sentado por horas, apertou um último botão no teclado do painel. As telas do computador escureceram por alguns segundos, até que dezenas de janelas com códigos começaram a abrir e eram rapidamente substituídas por outras.

Gambit, então, colocou seu sobretudo e caminhou até o outro canto da enorme sala subterrânea, onde Pyro dormia sobre uma cadeira com rodinhas. Seus roncos profundos eram um dos únicos barulhos que ecoavam pelo lugar vazio, além dos eventuais bips emitidos pelo supercomputador de Magneto.

"Ei. John," Gambit chutou um dos pés do mutante, tentando acordá-lo. A primeira vez não funcionou, mas a segunda foi forte o suficiente para fazer Pyro mudar de posição e finalmente abrir os olhos.

"Hã? O quê?" Com a mão enluvada, o garoto limpou a baba que havia escorrido da boca. Em seguida, olhou para Gambit, ainda desorientado, até se lembrar do que estavam fazendo. "Conseguiu?"

"Está quase, mas tenho que ir. Quando o computador terminar de decodificar tudo, você me avisa, entendeu?"

"Claro, claro," Pyro sacudiu o braço, sinalizando para o colega ir embora enquanto deslizava sua cadeira até o painel. Em uma das telas uma barra de progresso avançava lentamente.

"Estou falando sério," Gambit disse sem aumentar o tom de voz. "É pra me avisar na hora, entendeu?"

"Eu entendi, não sou surdo, cara," o garoto retrucou, indignado com a falta de confiança de seu colega. Em seguida, tirou um joystick de baixo de um dos compartimentos, colocou seu fone de ouvido e começou a jogar na única tela vazia do supercomputador.

"Certo," o ladrão murmurou em um tom cético. No caminho para os andares superiores do esconderijo, pensou se mais tarde deveria voltar para o local para se certificar de que tudo estava correndo como deveria. Esperava que não precisasse, mas Pyro podia ser pouco confiável em situações que não julgava tão importantes quanto aumentar sua pontuação no videogame. O que eram muitas.

Na garagem, Gambit montou em sua moto e saiu do esconderijo o mais rápido que pôde. Passou pelas ruas do bairro industrial em alta velocidade, aproveitando o fato de estarem desertas, para correr ainda mais até o centro da cidade. O vento gelado batendo contra o seu rosto ajudou-o, em parte, a esquecer o pesadelo que tivera.

O sol apareceu, deixando a noite para trás e clareando o céu em um tom rosado, depois alaranjado e finalmente azul. As luzes dos vários prédios da cidade sumiram e as poucas lojas que não funcionavam vinte e quatro horas por dia começaram a abrir. O movimento de pedestres e veículos aumentou, tornando o trânsito insuportável.

Freando no farol, Gambit olhou a sua volta, tentando se distrair de pensamentos que não iriam ajudá-lo em nada com seus atuais problemas. Quando notou uma cafeteria do outro lado da avenida, achou uma boa ideia tomar um café que não fosse feito por adolescentes apressados em uma cozinha cheia, como geralmente acontecia na mansão de Xavier.

Dirigiu até o prédio e estacionou na frente. Depois, tirou o capacete, colocou seus óculos de sol e entrou.

Ainda que a fila estivesse longa, não houve demora para ser atendido.

Aproveitou o tempo para conversar com a garota que estava preparando o café dele (e os de outros dez clientes apressados). Mesmo de uniforme, ela era bonita, com olhos grandes e verdes, cabelo vermelho escuro, quase castanho, e lábios carnudos. Quando ela o notou, ele disse algo que a fez rir apesar da pressa. Passaram alguns breves minutos trocando palavras enquanto ela trabalhava.

Ao colocar uma tampa no café dele e entregá-lo, comentou que gostaria de vê-lo mais vezes. Ele sorriu, concordando com a cabeça, e foi embora.

Na mansão de Xavier, Gambit foi direto para seu trabalho. Passou horas embaixo do painel da sala de controle, trocando placas e reorganizando fios. Depois, manteve-se ocupado contando todos os pontos cegos da propriedade (de novo) e o que poderia fazer para melhorá-los.

Ainda não conseguia entender como os X-Men não sofreram uma invasão inimiga pior que a de Juggernaut, considerando o quão baixo era o número de câmeras e sensores no vasto Instituto.

Com o treinamento certo, até mesmo a Irmandade conseguiria atacá-los de surpresa.

Depois de ser contratado por Magneto, o Acólito se lembrou de como foi fácil "visitar" o lugar para estudar seus novos inimigos.

Nunca contou ao Mestre do Magnetismo da visita, ou o que aprendeu de cada mutante, além de informações como nome completo e tipo sanguíneo. Ser bem pago não era razão o suficiente para ser leal a alguém como Magneto, ainda mais considerando o que ele fizera com a família de Piotr para tê-lo como aliado.

Ao terminar o trabalho do dia, recolheu suas ferramentas e foi até o quarto que Xavier lhe oferecera, ainda que Gambit o usasse apenas para guardar seus equipamentos e mudas de roupas.

No caminho, deparou-se com alguns dos mutantes mais jovens do Instituto.

Primeiro, encontrou-se com o garoto de gelo, junto com a menina que criava fogos de artifício e o menino para quem ensinou alguns truques de mágica para irritar Vampira. Todos pareciam nervosos, reclamando sobre os problemas que tinham com colegas de classes, além de um boato que correu pela escola naquele dia.

Depois, deixando-os para trás e subindo as escadas, Gambit viu a mutante loba. Ao notá-lo, Rahne deu-lhe um tímido aceno.

Quando ele respondeu com um sorriso amigável e perguntou como ela estava, as bochechas dela se avermelharam, adquirindo um tom tão escuro quanto seus cabelos ruivos. Ela puxou assunto para acompanhá-lo, freneticamente movendo as mãos enquanto dava mais detalhes sobre o tal boato que corria na escola: uma possível briga entre alguns garotos do time de futebol americano.

"Possível porque, aparentemente ninguém viu eles brigando," explicou Rahne. "Mas acharam um deles inconsciente no chão e outro com o nariz quebrado. Eles não quiseram falar o que aconteceu."

E por mais que o assunto deixasse Gambit curioso, ele foi rápido em concluir a conversa ao se aproximarem da ala masculina. A última coisa que queria era se meter em algum mal-entendido e ser forçado a ter Wolverine como seu "guarda-costas" pelo resto de seu trabalho na mansão, importunando-o mais do que já fazia.

A punição seria ainda pior considerando que não faria algo do tipo durante seu expediente e que a maioria das meninas era jovem demais para que algo acontecesse.

No corredor da ala masculina, Gambit encontrou-se com mais um mutante, Ciclope, que caminhava na direção oposta. O Acólito, então, fez o que sempre fazia quando se deparava com o X-Men: sorriu como se estivesse tramando algo.

O líder do grupo aprendeu a ignorá-lo, mesmo que fosse péssimo em esconder suas emoções. Desta vez, apenas franziu o cenho e não olhou o Acólito no olho. Um progresso, considerando que já ameaçou tirar os óculos na direção do "suposto inimigo".

Depois de entrar no quarto e guardar suas ferramentas, Gambit tomou um banho quente no banheiro da suíte e desceu para a cozinha. Não pensava em nada mais além de comer algo antes que os moradores atacassem o cômodo na hora do jantar.

Teve sorte. Ao aproximar-se do corredor da cozinha, percebeu que não havia um barulho sequer vindo do lugar. Não significava que estava sozinho, mas pelo menos poderia pegar algo para comer sem precisar passar por uma multidão de adolescentes famintos.

Quando entrou na cozinha, deparou-se com a pessoa que mais via sozinha na mansão. Agachada na frente de um armário, Vampira colocou um prato e uma caneca sobre o balcão.

O Cajun apoiou o ombro contra o batente da entrada e assistiu à cena, sabendo exatamente o que falar para deixá-la irritada.

"Bela vista."

Ela ouviu e virou-se, mas não pareceu surpresa com a presença dele.

"Sempre o cavalheiro," Vampira retrucou, levantando-se. Pegou uma faca e cortou um pedaço do bolo que estava no canto do balcão.

"Eu tento," ele sorriu e decidiu pegar uma fatia também.

Vampira segurou a respiração quando o viu se aproximando. Querendo evitar o que acontecera da última vez que o vira na cozinha, afastou-se o suficiente para não dar a Gambit uma chance de tentar gracinhas. Também evitou o olhar dele, criando uma barreira de mechas prateadas com seu cabelo enquanto ele mexia nos talheres.

Ao examinar o bolo com uma faca em mãos, Gambit hesitou.

"O que foi?" Vampira perguntou depois de arriscar um olhar na direção dele.

"Foi sua amiga quem fez isso?"

"Quem? A Kitty?" Vampira olhou para todos os lados para ter certeza de que não havia ninguém por perto. "Não foi ela, não. Por quê?"

"Bom, uma vez ela falou alguma coisa sobre colocar pimenta na massa de bolo…"

Vampira segurou uma risada.

"Parece com algo que ela faria mesmo. Foi a Ororo quem fez, relaxa."

Isso o deixou mais seguro, cortou uma fatia e mordeu na hora.

"A Kitty só fez a cobertura."

Se algum ingrediente de gosto questionável foi adicionado à receita, Gambit não sentiu nada. Ainda assim, parou de mastigar e encarou Vampira, querendo uma explicação.

Novamente, ela se conteve para não rir. Quando mordeu o seu pedaço de bolo sem medo, Gambit percebeu que era seguro continuar a mastigar o seu.

O bolo estava bom, cobertura e tudo.

"Cobertura de bolo é uma das únicas coisas que Kitty não tenta colocar algum 'ingrediente secreto'."

"Percebe-se," ele terminou de comer seu pedaço, depois foi até a geladeira para beber algo. Encontrou uma lata de refrigerante e a abriu. Quando deu dois goles, percebeu a careta de Vampira.

"O que foi?" Ele lambeu os lábios.

"Esse refri aí tem dono."

Girando a lata, ele notou a etiqueta com uma escrita agressiva, quase ilegível, que só podia ser de Wolverine.

"Ah," ele respondeu, depois deu mais um gole.

"Você é louco, vai ouvir um monte."

"Com medo dele, é?"

"Pf, não," ela riu. "Mas eu sei que não iria querer ouvir ele reclamando no meu ouvido só por causa de um refrigerante."

"Não precisa se preocupar comigo," Gambit sorriu e, antes que a garota pudesse retrucar, ele acrescentou. "E acho que ele não vai se importar."

"Estamos falando do mesmo Logan?"

"Baixinho e rabugento? Sim, o mesmo. Ouvi dizer que ele está longe, em uma missão com a Tempestade, não é?"

"Isso não importa. Ele vai lembrar."

"Talvez, mas ainda acho que ele não vai ligar, pois vai estar bem ocupado tentando descobrir como você ganhou essa marca feia no rosto," Gambit gesticulou para a própria têmpora.

Por reflexo, Vampira moveu os dedos sobre o canto direito de seu olho. Rapidamente puxou os cabelos para cima do hematoma, mesmo sabendo que era tarde demais para tentar escondê-lo. Achou que a maquiagem que havia passado seria o suficiente… e que não encontraria ninguém na cozinha naquele horário para ter que se preocupar.

"Se for esconder isso, acho melhor você usar o cabelo de lado por um tempo," Gambit apoiou as costas no balcão e deu mais um gole no refrigerante de Logan, parecendo indiferente.

Ela virou para mexer na cafeteira, ainda que não houvesse nada que precisasse fazer. Queria apenas evitar o olhar dele.

"Você deve ter dado um trabalho e tanto para o moleque que estava te irritando, ouvi dizer que ele saiu com o nariz quebrado," ele colocou a lata de refrigerante sobre o balcão.

"Um deles, sim," Vampira admitiu. Encarando Gambit de soslaio, ela se perguntou o que mais ele saberia. "Sei que a pergunta é idiota, mas como você descobriu?"

"As notícias correm rápido por aqui," em algum momento, o Acólito havia tirado um maço de cartas de seu bolso e começou a embaralhá-lo sem ao menos olhar para as mãos.

Vampira mordeu o lábio. Achava que tinha feito um bom trabalho em não ligar o ocorrido a ela. Pelo que parecia, estava enganada. Começou a se perguntar quando seria chamada para o escritório do Professor e torceu para que fosse logo, antes que Logan retornasse de sua missão.

"Mas não se preocupe, chère. Ninguém sabe que você estava envolvida, eles só sabem que houve uma briga," o Cajun pausou, mas logo completou. "E aqueles idiotas não vão querer admitir que levaram uma surra de uma garota que estava em desvantagem."

Vampira respirou fundo, aliviada, mas sentiu uma ponta de frustração ao perceber o quão fácil Gambit conseguiu tirar a verdade dela. Ela esqueceu com quem estava lidando… e o quão incisivo ele realmente era.

Ele continuou a encará-la, uma intenção misteriosa escondida em seu olhar.

"Mas não se preocupe, tá bem? Minha boca é um túmulo…" o comentário dele fez Vampira franzir o cenho.

Ela cruzou os braços, não acreditando naquelas palavras.

"Se?"

Sem conseguir se segurar, Gambit aproximou-se lentamente de Vampira. Apenas falou quando estava a centímetros de distância dela, como se estivesse prestes a contar um segredo. Ela não se mexeu.

"Me diz, como uma pessoa tão… simpática como você, conseguiu irritar uns caras a ponto de causar uma briga?"

"Fácil," Vampira não se deixou intimidar e ignorou como suas bochechas começaram a esquentar. "Eles estavam sendo irritantes e enxeridos. Como alguém que conheço."

"Isso é uma indireta? Está insinuando que nós deveríamos brigar também? Porque existem outras maneiras muito melhores de passarmos o tempo, sabe?"

"Nem começa."

"Começar o quê?"

"Com isso," ela gesticulou para o espaço quase inexistente entre os dois e que ele diminuía a cada passo.

Gambit apoiou as mãos no balcão atrás dela, cercando-a.

"Isso o quê?"

Vampira riu.

"Você quer parar no hospital?"

"Depende. Como?"

Um soco na cara, pensou para si mesma, mas optou por não falar nada.

Ficaram em silêncio novamente, o rosto dele tão próximo ao dela que seus narizes quase se tocavam. Vampira teve que se inclinar para trás e odiou-o pela forma como ele fazia o coração dela bater mais forte.

Era um dos maiores problemas que encontrou nele desde Nova Orleans, (e até antes): mesmo com Vampira, a garota intocável, Gambit aceitava a proximidade física como um jogo que queria ganhar. Em todas as oportunidades que teve, não hesitava em fazer o que muitos tinham medo, e o que ela já não estava mais acostumada a ter.

Ele se sentava perto dela, esbarrava nela de propósito e até a tocava (quando conseguia) como se não soubesse o que ela poderia causá-lo.

"E então?"

"E então o quê?"

"Vai me falar por que eles tiveram a genial ideia de atacar uma pessoa tão inofensiva como você?"

Ela revirou os olhos enquanto ele finalmente se afastava, dando-a espaço para responder.

"Se quer tanto saber, eles são os usuais… anti-mutantes da escola. Me viram sozinha e acharam que seria uma boa ideia me assustar. Acho que queriam fazer parecer que comecei uma briga para pedirem minha expulsão, não sei."

Gambit permaneceu inabalado frente a explicação. "Honroso."

"Nem me fale. São tão ruins que nem conseguiram me forçar a usar os meus poderes. E como eles não sabiam quais eram, não puderam inventar uma história convincente para me acusar."

"Então, você derrubou eles do jeito antigo," para examinar melhor o machucado, Gambit empurrou as mechas brancas do cabelo de Vampira com o dedo indicador.

Ela se assustou com o movimento, mas achou melhor não se mover para evitar que sua bochecha roçasse à pele dele como já acontecera em Nova Orleans.

Uma vez já foi o bastante.

"Ruim para minha saúde física, melhor pra minha saúde mental. A última coisa que preciso são de quatro idiotas na minha cabeça," ela pegou a mão dele e a tirou de perto.

O café finalmente ficou pronto. Vampira virou-se para tirar a jarra da cafeteira e encheu sua caneca. Não percebeu que Gambit a fitava com as sobrancelhas levantadas.

"Eram quatro?"

"Uh-hum," depois de colocar açúcar no café, ela assoprou a bebida e encostou os lábios na borda da caneca, pensativa. "Bom, na verdade tinha cinco, só que um deles tentou me derrubar. Aí, eu desviei e ele deu de cara com a arquibancada. Ele ficou inconsciente o resto da briga. Então, quatro."

Notando que Gambit não falou mais nada, Vampira olhou para cima. Ele a encarava com as sobrancelhas levantadas e um leve sorriso no rosto.

"O quê?"

"Nada," ele pareceu se recompor do que quer que o deixara surpreso, pegou seu refrigerante, e murmurou. "Mon Dieu. O que as escolas estão ensinando hoje em dia?"

Vampira deu-lhe um meio-sorriso.

"Humildade?" Falou com ironia.

"E todos na sua escola reprovaram na matéria."

"Ei," ela deu um tapinha no braço do Acólito, esquecendo por alguns segundos com quem estava falando… o que ele era, e o que ele havia feito.

Ao notar que ele não iria fazer mais nenhum comentário provocador, Vampira levou sua caneca à boca. Os dois sorriram um para o outro e, em silêncio, beberam. Ela foi a primeira a terminar seu café e logo se virou para colocar mais um pouco em sua caneca.

Apoiado no balcão, Gambit aproveitou para estudar Vampira. Atentou-se a cada detalhe, cada parte dela que pudesse ajudá-lo a entender a garota que sempre trazia uma nova surpresa.

Mesmo por baixo de roupas que escondiam a forma dela, ele conseguia notar quadris largos e músculos definidos de alguém que claramente passava horas por dia se exercitando.

E da mesma forma que usava sua vestimenta para se esconder, Gambit via o quanto Vampira tentava mascarar sua verdadeira personalidade com um maneirismo agressivo e antissocial. Ela era reservada, sim, mas tinha facilidade em fazer amizades se quisesse, se preocupava com o bem-estar dos outros mais do que com o próprio e era leal a ponto de ser uma fraqueza.

Em Nova Orleans, grande parte desta personalidade estava começando a se manifestar... antes de tudo ir por água abaixo e ela se fechar novamente. Voltou a tratá-lo como a uma possível ameaça.

Gambit não poderia dizer que estava surpreso com a reação dela, mas esta era a parte divertida: fazê-la se abrir novamente. Por mais que soubesse que não deveria estar se envolvendo com os X-Men a nível pessoal, que deveria terminar seu trabalho e depois ir embora sem olhar para trás, algo nela o deixava interessado em arriscar.

Seus olhos vermelhos pararam na gola alta da camisa da garota, a cor preta do tecido contrastava com um pescoço branco como porcelana. Ao examinar com mais atenção, ele notou algo estranho escondido embaixo daqueles cabelos escuros. Moveu-se rapidamente sem dar a ela tempo para reagir.

Em dois rápidos movimentos, ele puxou os cabelos dela para trás e abaixou a gola de sua camisa o suficiente para ver o hematoma ainda vermelho percorrendo o pescoço dela.

Vampira empurrou as mãos dele para longe.

"O que você pensa que está fazendo?"

"A briga foi tão feia assim?"

"Não é da sua conta," ela quase grunhiu, ainda agitada com a repentina aproximação do Cajun.

Mais uma vez, Vampira se odiou por baixar a guarda perto de Gambit.

"Não, não é da minha conta, mas é melhor achar um jeito de avisar os seus colegas," ele cruzou os braços. "Eles não estudam na mesma escola que esses cinco aí?"

Isso fez Vampira arregalar os olhos, com raiva por não ter pensado nisso.

"Eles te pegaram de surpresa, não foi?"

Ela concordou, relutante. "Tentaram, mas eu vi eles me seguindo."

Como se já vivesse na casa há muito tempo, Gambit caminhou até uma bancada e abriu uma gaveta com panos ainda não usados. Depois, abriu o freezer e tirou um cubo de gelo da forma.

"Alguns dos seus amigos aqui não têm a sorte de serem tão alertas como você, mesmo com o treinamento que estão recebendo," ele observou depois de um tempo em silêncio.

Vampira concordou.

A maioria ainda é criança, pensou. Crianças que sempre tiveram a proteção de uma família e que não precisaram aprender a se defenderem sozinhas para sobreviver.

A garota fez o máximo que pôde para reprimir as poucas lembranças que ainda tinha de sua infância antes de ser adotada por Mística e Irene. Pensou nas inúmeras vezes em que fugia e se escondia na floresta perto de casa, cansada de uma família cujos rostos nem ao menos se lembrava.

Enrolando o pano envolta do cubo de gelo e prendendo-o com um nó, Gambit jogou o objeto para Vampira. Ela o pegou por reflexo.

"Se passar um pouco, sai mais rápido."

Vampira concordou, mas olhou para a entrada, receosa de alguém aparecer e notar seu estado. Decidiu ficar em um canto estratégico para não ser vista. Depois, apertou o gelo contra a área avermelhada de sua pele e fez uma careta ao sentir o incômodo.

Havia quase esquecido da dor, mas o contato com o pano gelado a fez sentir tudo de novo.

Gambit manteve-se em silêncio, assistindo-a com uma expressão que não entregava seus pensamentos. Ao terminar o refrigerante, ele arremessou a lata no lixo e manteve o silêncio.

Vampira o fitou, curiosa pela forma na qual ele estava reagindo com tudo o que ela dissera. Ficou cada vez mais curiosa para saber o que acontecera no passado de Gambit para deixá-lo tão… indiferente.

Lembrou-se de como, indiretamente, ele admitiu que precisou bater carteiras para sobreviver… Queria perguntar mais, mesmo sabendo que ele não responderia. Ao decidir que iria arriscar, ouviu vozes se aproximando da cozinha.

Vampira grunhiu em frustração.

"É melhor sair se não quiser que ninguém veja essa marca aí," ele ofereceu um sorriso zombador e a oportunidade, que poderia ter dado a Vampira uma chance de entendê-lo melhor, passou.

"Não me diga," ela abaixou o braço. Não havia planejado demorar tanto na cozinha, mas graças à sua própria distração, ficou tempo demais no lugar.

Sem se despedir, apenas arremessando o pano com gelo de volta para o Cajun e pegando seu bolo e café, Vampira foi embora. Caminhou apressadamente para longe das vozes e torceu para não topar com seu irmão se teletransportando ou com Kitty atravessando paredes para cortar caminho pela mansão.

Teve sorte passando pelos primeiros dois corredores... mas sentiu que não estava sozinha. Virando para trás, Vampira viu que Gambit a seguia, assobiando uma melodia qualquer como se estivesse, por coincidência, indo na mesma direção que ela.

"O que você está fazendo?"

"Sendo um cavalheiro e te acompanhando até seu quarto."

"Eu sei onde é o meu quarto. Você está livre para importunar outra pessoa. Tchau."

"Não é tão divertido quanto importunar você."

"Palavras nobres."

"Merci," ele sorriu e continuou a acompanhá-la. Vampira, então, optou por ignorá-lo e, quando chegasse em seu quarto, simplesmente fecharia a porta na cara dele.

Quando ela estava se acostumando com o silêncio, Gambit apoiou a mão no quadril dela, enroscando o dedão no passante lateral do jeans para fazê-la parar.

Ela quase deu um pulo. Olhou para a mão dele, depois para ele, que fitava algo à frente.

A garota não teve tempo de reclamar, já que Gambit a empurrou para a direita com força o suficiente para sumir de vista no corredor ao seu lado. Ela titubeou e quase derramou seu café e bolo no tapete.

Vampira fuzilou o Acólito com os olhos, pronta para dar-lhe um chute pela brincadeira sem graça, até que notou as vozes de Jubileu e Bobby vindas do corredor no qual caminhavam antes.

"Ei, Gambit!" Vampira ouviu a sino-americana falar. "Vai jantar com a gente hoje?"

De onde estava, o Cajun sorriu.

"Desculpa, petite, mas hoje não dá."

"Você sempre diz isso," ela riu, escondendo sua decepção

Gambit apenas encolheu os ombros e deu um sorriso arrependido.

"Talvez na próxima."

"Você sempre diz isso também," ela passou perto do Cajun com as costas viradas para o corredor onde Vampira estava.

"Vamos, Jubileu," Bobby falou, soando um pouco irritado ao puxá-la para longe.

Nenhum dos dois viu Vampira.

Quando os adolescentes sumiram de vista, Gambit voltou sua atenção para a gótica no corredor adjacente a ele. Notou a forma como ela o encarava.

"Que foi?"

"Céus, eu não sei o que está me impedindo de te chutar agora."

"Meu charme irresistível? E por que você faria isso? Depois da ajuda que eu dei," ele parecia indignado, mas pelo brilho malicioso em seus olhos vermelhos, Vampira sabia que ele queria rir.

"Da próxima vez, faça um favor para mim e só não ajuda."

"Depois reclamam que o cavalheirismo está morto."

"Com modos como os seus, é bom que esteja," Vampira rolou os olhos. Ao notar que ele ainda a seguia, segurou a vontade de grunhir em frustração.

Chegando à ala feminina, Gambit até que a ajudou, indo na frente e vendo se não havia ninguém por perto ou se Kitty não estava no quarto.

"Não vai me convidar para entrar?" Ele perguntou, ainda segurando a maçaneta da porta e observando a mutante passar por ele. Sabia que ouviria um "não", mas era divertido irritá-la.

Para a surpresa dele, Vampira parou e mordeu os lábios, mostrando-se indecisa a ponto de fazê-lo acreditar que ela iria dizer sim. Não durou muito. "Não," mudando rapidamente de expressão, ela ofereceu o sorriso mais falso que ele já vira.

"Meu coração está partido," ele colocou uma mão sobre o peito.

"Você vai sobreviver," ela disse, mas hesitou em se despedir. Depois de colocar a caneca sobre o gaveteiro perto da entrada do quarto, Vampira virou-se para Gambit e sorriu de leve.

Ele levantou as sobrancelhas e perguntou. "Isso é um sorriso de gratidão?"

Vampira aproximou-se do Cajun e encarou-o com um brilho travesso nos olhos. Apoiou sua mão enluvada sobre o peito dele, ignorando a sensação formigante que sentia a cada respiração que ele dava. Brincou com a lapela do sobretudo dele por um tempo e quando o olhou nos olhos, parou.

"Também não," ela o empurrou para longe da entrada. "Boa noite."

Antes que ele pudesse reagir, Vampira fechou a porta em um barulho que encerrava a conversa do dia.

Por mais que não fizesse sentido, Gambit não conseguiu conter o sorriso que se alastrava por seu rosto.

A garota realmente era uma caixinha de surpresas.

Decidindo deixá-la em paz pelo resto da noite, caminhou até a cozinha para pegar mais alguma coisa para comer e depois treinar na academia da mansão se estivesse vazia.

Seus planos foram interrompidos ao sentir um cheiro estranho emanando de algum dos corredores próximos a ele.

Não demorou muito tempo até avistar a fonte.

Logan caminhava pelos corredores em passos pesados e claramente nervoso, mais do que o normal.

Avistando Gambit, aproximou-se.

"Ei, Cajun. Eu estava te procurando."

Esse fez uma careta.

"Perfume novo, Wolverine? Melhorou bastante."

Logan nem ao menos se mostrou irritado, pois considerando sua expressão, não teria como ficar pior.

"Gracinha agora não, moleque," passou por Gambit, mas ao invés de se explicar, apenas ordenou. "Me segue. Precisamos de você."

Foi o suficiente para fazer o Acólito obedecer. Presumiu que o "nós" se referia a Logan e Tempestade… e julgando pelo cheiro horrível emanando do X-Man, tinha uma ideia para onde iriam.