Depois de um bom tempo sem postar, ai vai mais um capítulo fresquinho pra vocês. Achei que com todo essa coisa de quarentena, seria mais fácil escrever, mas as coisas estão mais corridas do que nunca. Sem contar o pesadelo de todo escritor: writer's block. Mas queria agredecer pelos reviews de vocês nos últimos capítulos que acabaram me motivando a postar, sem contar o apoio da super Maethril que me ajuda sempre com a história.
Capítulo 7 - Pária
O cheiro insuportável de esgoto era, de longe, o que menos incomodava no lugar.
A metros abaixo do solo, era impossível ouvir qualquer barulho vindo da superfície, tornando o local ainda mais silencioso. A única coisa que quebrava tal silêncio era o som da água imunda batendo contra um corpo que boiava com as costas para cima.
Logan estava ao lado de Gambit, observando com o cenho franzido a corrente da água criar uma trilha de vermelha que sumia pela escuridão dos túneis.
Nenhum dos dois falou. Especialmente por estarem perto de Callisto, que reconheceu o amigo morto na hora.
Ela mordeu os lábios e apertou os punhos com força o suficiente para criar feridas nas palmas das mãos. Até fechou o olho para segurar as lágrimas. Não deixou uma sequer escapar.
Tempestade, por sua vez, abaixou a cabeça e juntou as mãos em sinal de respeito ao mutante morto. Porém, ao observá-la de soslaio, Gambit sabia que, mais do que qualquer outra coisa, a Bruxa do Tempo pensava no sobrinho.
Callisto foi a primeira a mover-se para tirar o corpo da água imunda. Gambit e Wolverine a ajudaram, carregando o morto até uma plataforma seca e deitando-o de costas. Olhos abertos e sem vida os encarava de volta, dor iria marcar aquela face para sempre.
Callisto fechou os olhos dele tentando ao máximo não deixar a mão tremer.
Depois de mais alguns minutos em silêncio, ela finalmente falou em um tom surpreendentemente firme. "Ele é o quarto... só nesta semana."
Tempestade apoiou sua mão enluvada sobre o ombro da Morlock. A mulher de tapa olho congelou como uma estátua com o contato, era evidente que queria espaço, mas conseguiu se conter.
"Fera vai examinar o que–"
"É perda de tempo," Callisto se afastou. "Vai ser a mesma porcaria que aconteceu com os outros. Não é mais um mistério. O que temos que fazer é achar esses covardes," ela então virou-se para Gambit. "Mas antes de tudo é melhor começar logo o seu trabalho."
Ele não sabia onde a mutante tirou a ideia de que ele havia concordado em fazer alguma coisa… ainda. Considerando o tom dela, presumiu que Callisto não fosse boa em conversas.
Ele a encarou sem dar a mínima para o tom agressivo dela.
"Se eu decidir ajudar vocês, essas coisas levariam tempo, muito tempo," ele respondeu e continuou a encarar Callisto. "Talvez seja melhor aceitar a proposta de Xavier e irem morar com os X-Men por um tempo, non?"
Callisto deu uma risada seca.
"E por quanto tempo seríamos bem-vindos lá? Ou quantos de nós conseguiríamos ir?" bufou.
Tempestade abriu a boca para responder, querendo realmente resolver a situação, mas a Morlock a ignorou considerando a proposta de Xavier absurda e fora de questão
"O nosso lugar é aqui. Sinceramente, você está perdendo tempo com quem não precisa de mais proteção. Olha pra isso! Nós estamos levando o pior dos ataques," para suas próximas palavras, Callisto se direcionou aos três mutantes. "Vocês todos deveriam entender. Ainda mais você," voltou-se para o Cajun novamente.
Houve uma pausa na qual todos processavam o que ela falava.
Gambit franziu o cenho e entendeu a mensagem direcionada a ele. Comparado aos Morlocks, o ladrão teve sorte de sua mutação física ser fácil de esconder, mas isso não significava que sempre conseguia escapar do preconceito daqueles não entendiam. De uma certa forma, ele poderia entender.
"Essa é a realidade dos mutantes como nós e tudo piorou quando fomos levados a público. Não somos mais um segredo ou uma lenda urbana que ninguém dá a mínima. Viramos alvos fáceis. E pior, agora temos mais isso para nos preocupar," ela olhou para o corpo de seu amigo em desgosto. "Então se te chamaram aqui, presumo que é porque você fará alguma coisa a respeito."
Era claro que Callisto estava afetada pela perda de seus amigos e, de sua maneira, lamentava a morte deles. O ladrão, então, decidiu ignorar o tom dela. Ou melhor, decidiu ignorá-la por completo. Ofereceu apenas silêncio até que Tempestade interveio, sentindo a tensão entre os dois crescer.
"Vamos dar uma olhada nos arredores, podemos ver o que dá para fazer."
Nisso todos concordaram.
Callisto e Wolverine pegaram o corpo pelas pernas e braços e caminharam pelos túneis em silêncio enquanto Gambit observava a situação do local. Um esgoto grande como o de Bayville seria tão demorado para proteger quanto foi criar um sistema de segurança útil e discreto para a Irmandade.
E o tempo dele era curto. Muito curto.
"Eu juro que se eu achar que isso é só mais uma desculpa pra fugir, eu mesmo vou te buscar. Não importa onde estiver se metendo."
As palavras de seu pai sempre o atormentavam, desde que o mutante deixou sua cidade natal para trás… de novo.
Gambit precisava agir e ir embora logo, enquanto ainda conseguia abrandar a impaciência do pai e mantê-lo longe.
–
Em sua maioria, as vítimas eram os vigias das redondezas ou os que saíam à procura de comida. Obviamente se tornavam indefesos por estarem em menor número, mesmo sendo os mais fortes e habilidosos do grupo subterrâneo.
Quando não voltavam, Callisto e Spike saíam à procura deles... apenas para achar corpos em diversas áreas do esgoto de Nova York.
Depois da segunda morte, Spike se recusou a deixar qualquer outro Morlock caminhar pelos esgotos sozinho. Não permitia que ninguém se afastasse se não estivesse em grupo. Poucos da população de Morlocks sabiam o que estava acontecendo de fato, mas todos obedeciam às ordens sem hesitação, principalmente ao notarem os desaparecimentos.
As mortes, porém, continuavam. Bastava apenas um descuido.
Depois de duas semanas sem respostas, finalmente decidiram pedir a ajuda da superfície. O problema estava longe do controle, deixando Callisto furiosa e Spike frustrado.
Junto de Gambit, Fera também visitou os mutantes, ajudando com o que podia, examinando os corpos e investigando os locais dos assassinatos. Em sua autópsia, percebeu algo macabro. Ao explicar para os poucos mutantes do subterrâneo as circunstâncias das mortes, o Cajun notou como o semblante de Callisto piorou.
Gambit apenas se afastou, especialmente ao ver que um dos corpos era de um mutante que não parecia ter mais do que dezesseis anos.
Minutos depois estavam em uma área mais movimentada e longe do mau cheiro do esgoto.
O Cajun observou Spike enquanto este conversava com Logan, Fera e Callisto aos murmúrios. Teorizavam se as notícias dos experimentos com mutantes e as mortes dos Morlocks poderiam estar, de alguma forma, relacionados.
Havia algo estranhamente similar nos maneirismos do sobrinho de Tempestade e Wolverine ao se moverem e até falarem.
Ororo conversava com outros mutantes da estação de metrô abandonada. Um deles era uma mulher de pele acinzentada, claramente grávida, que falava com preocupação enquanto acariciava sua barriga. Era claro que ela era uma das poucas pessoas que sabiam da real situação.
O Cajun desviou o olhar e examinou o lugar. A população de Morlocks era maior do que calculara. Da última vez que leu um relatório de Magneto sobre o grupo, esperava encontrar algumas dezenas de habitantes.
O que estava vendo agora era longe da estimativa informada. Havia ao menos uma centena deles, andando para todos os lados, sabendo exatamente para onde ir no complexo emaranhado de túneis e câmaras escuras como se fossem ruas em uma cidade subterrânea.
Em algum momento da conversa, Callisto gesticulou na direção de Gambit com a cabeça e ele notou. Não demorou para Spike virar o rosto para ele também. O Acólito continuou a embaralhar suas cartas, apoiado em uma das colunas da estação e fingindo não ter percebido os olhares.
O líder Morlock aproximou-se do Cajun em passos largos e pesados.
A camada de ossos que crescia em volta do corpo dele o dava um porte mais corpulento do que ele realmente deveria ter, ainda que em estatura não chegasse perto da do Acólito.
"Eu me lembro de você," Evan Daniels falou em um tom afrontoso.
Gambit apenas balançou a cabeça.
"Você trabalha pro Magneto. O que está fazendo ajudando os X-Men?" Ainda que sua voz continuasse agressiva, a expressão de Daniels era quase calma, como se estivesse apenas curioso. Observando-o, Gambit entendeu o que havia de errado no maneirismo do mutante: por mais que tentasse esconder, Daniels ainda era só um garoto.
O Acólito também notou Callisto se aproximar.
"Tenho minhas razões, que não têm nada a ver com Magneto, se é dele que está com medo.,"
"Não estou com medo de Magneto," Evan franziu o cenho. "Só quero entender por que você quer nos ajudar."
Gambit levantou uma sobrancelha.
"Eu não disse que iria ajudar vocês," a verdade era que o Cajun não sabia se conseguiria ao menos terminar o favor aos X-Men antes que seu pai aparecesse na mansão com um exército de ladrões (e assassinos) para escoltá-lo de volta à Nova Orleans.
Ao menos de um jeito ou de outro o bebum conseguiria cumprir a maldita profecia, Gambit pensou.
Callisto fez pouco esforço para esconder sua raiva.
"Então por que está aqui?" Ela falou entre dentes.
"Honestamente, não sei; não tem nada que me interesse aqui," Gambit sabia que estava pedindo por uma briga, mas não conseguiu resistir.
"Ah, é? Não te trouxeram aqui para fazer alguma coisa além de ficar brincando com cartas?" ela resmungou.
"Me chamaram para ver o que eu podia fazer. Fiz isso. Mas nunca prometi nada a vocês."
A contínua indiferença no tom dele foi a gota d'água para a Morlock.
Ela arrancou as cartas da mão dele e as jogou no chão da estação, sem cerimônia. Vários Morlocks que passavam por perto olharam na direção dos três, mas rapidamente ignoraram e continuaram a fazer suas tarefas.
Wolverine, Fera e Ororo observaram de longe, ficando atentos para qualquer tipo de confusão.
"Então só vai embora e não gaste mais nosso tempo," por mais contraditório que parecesse, quem se retirou foi Callisto. Tempestade a seguiu, deixando Logan e Fera para conversar com o grupo da mutante grávida.
Houve um desconfortável silêncio até que Evan decidiu ajudar o Cajun a recolher as cartas.
"Desculpe. Ela não é sempre assim," ele disse. "Geralmente é o contrário. Ela é a calma entre nós dois," Evan deu de ombros. "Mas ela viu a maioria dos nossos amigos morrer. Pessoas com quem ela conviveu mais do que eu. Tudo piora quando um dos poderes dela é detectar inimigos se aproximando… e no momento que mais precisavam, ela não sentiu nada."
Gambit apenas ouviu, mas já imaginava que este fosse o motivo. Também havia se deparado com os dados de Callisto nos arquivos de Magneto há um tempo.
"Mas ela tem razão. Por que está aqui, então?" Evan continuou. "Da última vez que eu te vi, você estava tentando dar a maior surra na gen- nos X-Men."
"Obviamente, muitas coisas mudam em alguns meses," Gambit encarou Spike com um sorriso irônico.
O menino quase riu, não se mostrando ofendido.
"Verdade," ele também encarou o Acólito nos olhos. "Mas eu também me lembro do que você fez com os valentões na minha escola há um tempo atrás. Eles não me denunciaram por sua causa. Kitty e Vampira me contaram depois. Você podia ter deixado passar, deixado eu ser expulso porque era o que o Magneto iria querer: criar uma rixa entre mutantes e humanos."
O garoto estava testando as águas, o sulista percebeu.
"Às vezes, as coisas não têem um significado assim tão profundo," ele levantou uma sobrancelha, não querendo se recordar da história com muitos detalhes.
"Verdade," Evan concordou e a expressão dele mudou, seus ombros caíram mais do que já estavam. "Mas você ainda assim ajudou. Escola não deu muito certo pra mim no final," ele gesticulou para onde estavam, para a atual situação dele: longe da família, morando no esgoto, com uma aparência deformada pelo resto da vida. "Mas naquele momento você ajudou. Valeu," ele estendeu a mão para Gambit, que a apertou. "Honestamente não sei por que está trabalhando para um cara como aqueles, mas você não é que nem o Magneto. O que te fez me ajudar naquele dia na escola, acho que é a mesma coisa que está te fazendo ajudar os X-Men agora. Espero que consiga."
E sem mais cerimônias, Evan foi embora, como que mostrando que não havia ressentimentos, mas que também não perderia mais seu tempo com alguém que não iria beneficiar o grupo dele.
O Cajun não conseguiu sequer refletir no que acabara de ocorrer, pois alguém o puxou pelo sobretudo algumas vezes.
Ele olhou para baixo e encontrou dois olhos azuis o encarando de volta. Uma menininha, com mãos enluvadas e grandes demais para seu corpo mirrado, segurava uma carta que encontrara no chão: um ás de espadas com uma grande lança negra no meio.
Para ela, ajudá-lo a encontrar algo tão simples a deixou feliz, como se tivesse ganhado um presente caro. Além da carta, ela ofereceu um sorriso tímido.
A garotinha gesticulou para ele pegar o objeto de volta.
Algo nela o fez sorrir também.
Olhando ao seu redor novamente, Gambit pensou no lugar onde estava, nas pessoas que moravam escondidas por não terem escolha, por não terem sorte como outros mutantes.
Fez o que pôde para ignorar a sensação familiar que tinha ao observá-los.
"Obrigado, petite," ele pegou a carta e colocou-a de volta no maço. Quando notou que ela não iria embora tão cedo e o observava enquanto balançava para frente e para trás, Gambit sorriu. "Sabe algum truque com cartas?"
Ela concordou com a cabeça, levantando três dedos para indicar quantos sabia.
"Bom. Vou te mostrar mais um, então. Quer ver?"
Novamente, ela concordou.
Ele pegou a carta que havia recebido dela e deixou o resto do baralho de canto. Movendo o retângulo de papel entre os dedos, Gambit a fez observar atentamente ao desenho da lança preta, que aparecia e desaparecia à medida que era girada.
De repente, posicionou a carta entre o dedo indicador e polegar, apertou-os e a carta voou para a outra mão.
Ao apanhá-la, o desenho mudou para outro. Em um piscar de olhos o ás de espadas virou um ás de copas.
A pequena mutante pegou a carta nova, tentando descobrir como o truque foi feito.
Gambit a explicou e ela foi rápida em copiá-lo, rindo ao fazer um rei de copas virar um coringa.
Ele, então, a entregou o resto do baralho, gesticulando que agora era dela.
Era um presente simples demais, mas era o que ele tinha para oferecer no momento. Ela sorriu mais; abaixou a cabeça em sinal de agradecimento e saiu correndo para brincar com algum amigo seu.
Olhando-a desaparecer fez o ladrão perceber que já havia feito sua decisão.
"Ótimo," ele murmurou para si mesmo, apoiando uma mão sobre a nuca e suspirando de leve.
Caminhou calmamente até Logan e Spike. Em sua cabeça, começou a reorganizar todos os planos.
Qu'est-ce que tu fais?
"Como vocês não devem ter um mapa desse lugar, isso é o que temos que fazer primeiro..."
––
Com a xícara de café ainda quente, Vampira esquentou suas mãos enluvadas.
Encarou o problema de matemática sobre a mesinha de centro pela quarta vez desde que se sentou na poltrona da estufa de Tempestade.
Não só estava falhando, como estava ficando com mais sono a cada segundo que passava.
Ela deu um gole no café e acabou queimando a língua no processo. Fez uma careta. Tentou enganar seu cérebro, dizendo que um gole de cafeína era o suficiente para acordá-la e terminar a maldita matéria. Mais uma vez pegou a lapiseira para resolver o problema.
Sentia que dessa vez iria finalmente conseguir se livrar de ao menos um enunciado, não fosse seu irmão aparecendo em cima da mesinha de centro em um BAMF irritante.
"Put- Kurt!" Vampira exclamou em um pulo. Suas costas bateram contra o encosto da poltrona com força o suficiente para sentir a estrutura dura de madeira dentro do estofado. "Cara, eu já te falei pra parar com isso!"
"Entschuldigung..." o garoto azul falou, já esperando o tom nervoso da irmã. Ele desceu da mesinha em um pulo e sentou-se ao lado de Vampira na poltrona.
A garota virou o rosto de maneira que o irmão não visse o lado que estava desesperadamente tentando esconder de todos. Ainda que o olho roxo estivesse coberto por uma camada grossa de maquiagem, não quis se arriscar.
Mesmo sabendo que Gambit conseguira notar os hematomas dela por ser (irritantemente) esperto, Vampira não iria permitir outro descuido. Acordou meia hora mais cedo para maquiar-se sem que ninguém a visse, observou-se no espelho nos mais variados ângulos e luzes possíveis, e pegou carona em uma X-van cheia de estudantes que não iriam prestar atenção nela por estarem ocupados demais tagarelando entre si.
Odiaria pensar que alguém além do Cajun notasse e a forçasse a contar para o Professor, ou pior, Logan.
Ela suspirou.
Por mais que odiasse admitir, Vampira teve sorte de Gambit estar por perto para alertá-la de que a maquiagem inicial não estava funcionando.
Quem diria.
Por mais que ele tentasse se mostrar como traiçoeiro, Gambit era estranhamente discreto.
Vampira já suspeitava desse lado do Acólito desde Nova Orleans, mas ao vê-lo interagindo com os outros na mansão, ela notou como ele era bom em não revelar absolutamente nada pessoal quando quisesse.
Nem mesmo o nome dele sabiam.
Vampira deu mais um gole em seu café tentando se lembrar qual era. Tinha certeza de que ouvira o nome dele quando esteve em Nova Orleans.
Foi quando notou que seu irmão a observava com estranho interesse, seu cenho azul franzido em preocupação.
"Que foi?"
"Está cansada," ele foi direto ao ponto, notando a postura abatida da irmã.
Ele tinha razão. Naquela noite, Vampira teve um sono tão leve que acordava a cada cinco minutos. Ora por dores no corpo graças à maldita briga, ora por pesadelos estúpidos que não lembrava. Nunca dormira tão mal desde…
Desde que descobriu sobre sua mãe.
Vampira espremeu os lábios e decidiu ser o mais sincera que podia para com seu irmão, usando algo que todos na mansão tinham em comum: o profundo desgosto pela escola de Bayville.
"Sim, muita matéria pra estudar…e o pessoal anti-mutante dando nos nervos."
"Nem me fale," o irmão concordou, mas não pareceu convencido por completo. Ele olhou para a mesinha de centro como se estivesse tentando formular suas próximas palavras. "Parece que tudo piorou depois do Kelly."
Vampira automaticamente soube do que ele falava. Em uma pesquisa recente de intenção de votos, Robert Kelly estava com uma maioria esmagadora.
E para piorar, o infeliz iria dar um discurso sobre uma nova proposta anti-mutante no fim de sua campanha. O pouco que já se sabia foi o suficiente para "encorajar" seus adeptos a expressarem seus… descontentamentos com os mutantes com mais entusiasmo.
Um bom exemplo foi o "incidente" dos atletas com Vampira nas arquibancadas da escola, e o mais recente foi a enorme pichação nos armários da escola com spray vermelho.
Aberrações, o seu tempo está próximo.
Não era necessário nenhum gênio para saber a quem a palavra "aberrações" se referia.
O novo diretor da escola prometeu encontrar os culpados, algo que nenhum dos mutantes realmente acreditou, já que este se mostrou pró-Kelly apenas alguns dias depois de assumir o cargo na escola.
Vampira aproveitou o tempo para observar o irmão pelo canto do olho. As palavras de Gambit ecoaram em sua mente.
"Não, não é da minha conta, mas é melhor achar um jeito de avisar os seus colegas. Eles não estudam na mesma escola que esses cinco aí?"
O coração dela pareceu se partir ao meio.
Gambit tinha razão.
"Kurt…" ela apoiou a caneca sobre os joelhos. Sentiu o olhar do irmão caindo sobre ela, mas não se arriscou virar por completo.
Aproveitando o dia caótico e cheio de matéria, ela havia evitado o irmão e a colega de quarto o máximo que pôde, pois sabia que eles seriam os primeiros a notarem seu olho roxo caso se distraísse.
Contudo, ao lembrar-se do que Gambit lhe dissera, Vampira também se lembrou que o bem-estar do irmão e dos alunos do instituto era a prioridade.
"Acho melhor tomarmos cuidado com o pessoal da escola também."
Para o alívio de Vampira, não foi necessária uma explicação maior para o mutante azul entender. Ele suspirou.
"Eu sei. Scott deu a ideia de andarmos em trios dentro da escola, e de não ficarmos em nenhum lugar muito isolado," ele demorou para continuar, mas quando o fez, sua voz saiu fraca e quebrada. "Eu vou terminar com a Amanda."
Vampira apertou a caneca com mais força, se odiando por não ter notado. Virou o rosto totalmente na direção do irmão.
"Na verdade, eu já tentei terminar com ela. Eu estava tentando evitar ela o máximo que pude, mas…" ele apertou os lábios. "Ela não quis saber. Disse que sabe que eu estou tentando fazer isso para protegê-la. E é verdade. Eu não quero que machuquem ela, mas ela não me ouve."
Vampira colocou a mão sobre o ombro de Kurt. Seu coração se partindo mais a cada segundo.
"Eu consegui convencer ela a pelo menos não ficar comigo na escola. A maioria deles já sabe que eu sou mutante. E eles sabem que eu sou o... pior de todos. Encontrei um bilhete no meu armário esses dias, escrito 'Demônio'."
Foram aquelas palavras que fizeram os olhos de Vampira lacrimejarem de tristeza e sua garganta queimar de raiva.
"Kurt… Isso não é sua culpa."
"Eu sei," ele sorriu. "Mas pra eles, de alguma forma, é."
Ela queria poder ter algo para dizer, mas não tinha. Kurt tinha razão.
O garoto azul finalmente percebeu o rumo que a conversa levou e logo mudou de tom.
"Mas eu sei me proteger," ele falou, querendo acabar com uma sensação que não queria trazer para onde moravam. Já bastava a escola e o resto do mundo estarem contra eles. "É pra isso que estamos treinando e acho que estamos indo bem. Você acredita que ontem eu sem querer dei um gancho de esquerda na cara do Scott quando ele estava tentando me acordar? Todo esse treinamento exagerado do Logan veio a calhar. Nunca ri tanto."
Vampira sorriu, deixando que seu irmão mudasse o tom da conversa.
"Queria ter visto essa."
"Até a Jean riu," o comentário o fez pausar. "O que me lembra…" e Kurt sumiu em uma nuvem de fumaça, apenas para reaparecer segundos depois com um pote de plástico em mãos.
Ele o abriu, revelando alguns biscoitos de chocolate dentro.
"Jean fez hoje, mas como os biscoitos dela acabam rápido eu escondi alguns pra gente," ele colocou um inteiro na boca enquanto se jogava novamente na poltrona.
Vampira rapidamente pegou um. A sulista não conseguiu conter o sorriso que se alastrou por seu rosto.
"Danke, Brüderchen."
Kurt também sorriu enquanto mastigava com vontade. Alguns farelos de biscoito salpicavam sua bochecha azul.
"Sua pronúncia ainda precisa melhorar," ele brincou e Vampira deu um tapinha no ombro dele.
Ela decidiu voltar para sua equação de matemática.
O mundo, porém, parecia querer conspirar contra ela e sua disposição para adiantar a lição de casa, já que o novo alarme do Instituto disparou.
Em um pulo, Kurt e Vampira se encararam. Sem falar uma palavra, o mutante azul segurou sua irmã e a teletransportou para a sala de controle, onde Ciclope e Homem de Gelo já estavam a postos.
Vampira caminhou até o lado do líder e perguntou, olhando para a enorme tela do painel de controle. "Quem é dessa vez?"
Ciclope franziu o cenho. "É o Pyro, no portão da frente."
–
Traduções do francês:
non: não?
Dans quoi je m'engage?: No que estou me metendo?
Traduções do alemão:
Entschuldigung: Desculpe-me
Danke, Brüderchen: Obrigada, irmão/maninho
Esse capítulo não teve muito Romy, mas eu estava precisando avançar a história e a única forma de fazer isso era com os personagens separados. O próximo capítulo será diferente ;)
