Estou bem feliz por conseguir postar um novo capítulo tão rápido! Mas quero agradecer a quem está dando reviews e favoritando as histórias!

Obrigada Maethril por ser minha beta reader!

AVISO: Esse capítulo tem cenas explícitas de violência.

Aproveitando para responder a Karol, que deixou um review anônimo no capítulo passado: Obrigada pelas palavras! Deixa qualquer escritor(a) super feliz :D O struggle da Vampira sempre foi algo muito triste mesmo! *snif*

Capítulo 8 - Cinzas

Foi tudo em um borrão. Em um instante ele estava correndo com uma carteira qualquer na mão, e no outro, estava deitado no chão com um garoto parrudo sobre ele, apoiando suas mãos sobre os ombros dele enquanto dois outros meninos seguravam as mãos dele contra o chão.

Por mais que tentatesse, não conseguia se mover para escapar.

Sempre foi ágil, difícil de ser pego, mas o grupo o pegou de surpresa e foi difícil de encontrar um lugar para escalar no beco quando todos os idiotas bloquearam as rotas de fuga.

Imbeciles.

Dessa vez, não era culpa dele. Podia jurar que estava longe da área deles. Certificou-se de ficar o mais afastado possível da praça principal para fazer seu "trabalho".

Viu que estava errado ao notar um dos integrantes do grupo apontando para ele entre a multidão de pessoas, no mesmo instante em que estava enfiando a mão na bolsa de uma mulher distraída.

Nunca fugiu tão rápido dali.

"Não acham que estão exagerando?" ele tentou manter a calma e negociar ao mesmo tempo em que lutava para tirar Dan, o garoto parrudo, de cima dele. "A feira não fica perto de vocês–."

"Agora fica," Hunter, o mais velho do grupo, falou olhando-o de cima. "Ratinho de rua."

"Si je suis un rat, qu'est-ce que tu es?"

Ofendido, Hunter gesticulou com a cabeça para Dan, que lhe desferiu um soco certeiro nos óculos escuros que usava.

O material barato não resistiu e quebrou-se em pedaços. Um dos fragmentos cortou a parte de cima da sobrancelha do dono e este fechou os olhos para evitar que algum estilhaço o cegasse e para que não vissem o que estava tentando esconder de todos há tempos.

"Me solta!" A vítima grunhiu.

"Vai chorar agora, é?" A voz de Hunter zombou no fundo. "Acho que o Fagan se enganou. Não estou vendo nada de promissor aqui."

Não se aguentou e soltou o xingamento mais sujo que conhecia em francês. Tentou abrir os olhos quando os valentões pararam para rir, mas um deles se aproveitou para esfregar algo enlameado em seu rosto.

Ele grunhiu e tossiu, cuspindo para fora parte da sujeira que entrou em sua boca.

Passado seu pânico, ele abriu os olhos novamente. Entre todas as outras sombras que o rodeava, a vítima encontrou a silhueta do líder do grupo ao fundo, a mão dele suja com lama.

Ainda que o encarasse com raiva, nenhum deles notou… estavam distraídos demais rindo às custas do garoto mais novo.

Devia ter imaginado que não iriam desistir de persegui-lo, principalmente depois de dar um soco certeiro no nariz de Hunter. O garoto mais velho estava pedindo por briga ao tentar derrubar o novo integrante da gangue tantas vezes. Não era culpa dele que se mostrou o melhor de todos desde que entrara para a gangue de ladrões de rua e que até o (verdadeiro) líder reconheceu seu talento.

Mesmo com a sujeira ardendo em seus olhos, a vítima os manteve abertos. Ao seu redor manchas estranhas brilhavam em um vermelho ardente, depois mudavam para rosa.

Não entendeu o que aquilo significava. Não queria saber. Queria apenas escapar.

Não teve mais vontade de encarar seus adversários, então olhou fixamente para um ponto a distância, longe deles, procurando desesperadamente por alguma saída.

"Parem," falou sem pensar enquanto respirava fundo para não perder o controle, até que Dan o socou; uma, duas, três vezes. Aquilo foi o suficiente para enfurecê-lo mais do que qualquer coisa. Sentiu sua garganta latejar. Seu coração batia forte, e seu peito todo queimava.

Em seguida, sentiu seu corpo inteiro esquentar como se estivesse com uma febre terrível, um formigamento estranho também acompanhava a sensação incômoda.

"Ou o quê?" Dan zombou, tentando olhá-lo nos olhos.

O garoto mais novo não precisou se explicar.

Uma explosão fez isso por ele.

Algo próximo do grupo, uma lata de lixo, voou pelos ares, espalhando fragmentos chamuscados por todos os lados.

Todos do grupo fitaram a fumaça recém-formada. Onde antes havia um objeto de metal grande e sujo, estava agora repleto de cinzas e faíscas.

A vítima aproveitou a distração para tirar Dan de cima dele. Em um grito, acertou o nariz do valentão com a palma da mão, segurou-o pelo torso e, com uma força que não sabia ainda ter, empurrou seu inimigo para o lado, invertendo as posições.

Dan demorou para entender o que acontecera, mas nada disso importava depois que finalmente notou algo no menino mais novo.

Os valentões em volta também perceberam e rapidamente se afastaram como que fugindo de um fantasma; a explosão rapidamente esquecida.

"O-o que é você?" Dan perguntou, mas não teve resposta. "H-Hunter!" tentou pedir ajuda, virando-se para o líder que estava tão perplexo quanto seus amigos.

O garoto de rua, agora em vantagem, desferiu em seu agressor um único soco na têmpora, deixando Dan inconsciente na hora. Segurou-se para não bater mais e optou apenas por fugir enquanto tinha chance.

Porém, quando se levantou, dois valentões o impediram ao segurá-lo pelos braços.

Ele quase conseguiu escapar, mas Hunter entrou na briga; socou o menino na barriga, tirando todo o ar dos pulmões dele.

"Eu sabia que tinha algo de estranho em você," Hunter falou enquanto a vítima tossia e era tomada por uma vontade de vomitar. "Eu não sei o que você é, mas isso é só mais um motivo pra saber que você merece levar uma boa lição."

"Eu não sabia..."

Hunter riu. "E agora você não vai mais esquecer, aberração."

Partiu para cima do garoto mais novo, socando-o mais e mais até deixá-lo sem forças para ficar de pé. Os valentões que o seguravam decidiram participar, vendo que não era mais necessário prender a vítima no lugar.

O que foram apenas alguns segundos, pareceram horas para o menino no chão.

Ele finalmente notou o sangue que escorria pelo lado esquerdo do rosto, vindo da ferida que Dan lhe causara ao quebrar seus óculos. O gosto de ferro e terra era a única coisa que podia usar para esquecer-se do que estava acontecendo ao seu redor. Não funcionou por muito tempo.

Sentiu mais raiva e ficou surpreso ao ver que ainda havia espaço para mais dela.

Queria que eles parassem.

Não entendia por que o odiavam tanto, por que não o queriam por perto se eram todos garotos como ele.

Também não entendia porque nasceu do jeito que era.

Talvez merecesse tudo aquilo.

Talvez sua aparência exterior apenas refletisse um interior ainda mais assustador, que no momento parecia estar borbulhando, queimando de raiva.

Parem, tentou falar, mas sua língua estava presa. Não sabia se conseguiria manter a consciência por muito tempo, e era melhor, antes que extravasasse o que quer que estivesse o queimando por dentro. O pouco que conseguia ver a sua volta agora brilhava em uma cor magenta agressiva, mais especificamente o chão. Não sabia o que aquilo significava, mas teve medo de ser algo além de sua imaginação.

O máximo que pôde, contraiu o corpo em posição fetal para evitar que o acertassem em alguma área vital. Fechou os olhos com força e apenas aceitou o que viria a seguir.

Ele odiava o que estavam fazendo. Todos eles.

Mas tinha mais medo do que poderia causar se suas emoções conduzissem suas ações. Sabia que não seria igual aos outros. Sentia que era perigoso.

Tentou colocá-las em xeque, segurá-las até que desmaiasse. E estava indo bem, seus sentidos iam aos poucos se esvaindo, sua mente já não raciocinava direito, não ouvia mais os ruídos a sua volta, apenas sentia o frio do chão e o cheiro de sujeira... até que a voz de um deles o puxou de volta, rompendo tudo o que estava lutando para conter.

Não se lembrava mais o que era, mas ouviu alguém mencionar pessoas que ele nunca conheceu.

Abriu os olhos, encarando a única coisa que conseguia ver em sua posição: o chão do beco.

Um barulho ensurdecedor assustou os valentões, seguido por um impacto que os arremessou ao chão. Assustados olharam para o novo buraco nos paralelepípedos a alguns metros de onde estavam. Dele saía uma fumaça escura e densa. Fagulhas dançavam em volta dela.

"O que-?"

Outra explosão levou várias caixas de madeira no começo do beco aos ares e os valentões novamente viraram os rostos na direção do barulho.

Confusos, mantiveram-se onde estavam, temerosos de que, se eles se movessem, seriam os próximos.

Olharam, então, para Hunter, como se o líder soubesse a resposta. Ele, por sua vez, notou algo acima deles, na escada de emergência. A estrutura brilhava como ferro derretido, antes de sofrer o mesmo destino que a lata de lixo e o piso do beco.

Os garotos de rua, junto com um Dan recém-acordado, gritaram de pavor e tentaram se proteger dos estilhaços que poderiam atingi-los.

Houve um novo silêncio enquanto esperavam por uma explicação para tudo o que viram. Como que por extinto, lembraram-se do garoto em que estavam batendo.

Todos se afastaram em um pulo, olhos arregalados e bocas abertas.

Dan foi o primeiro a chorar.

Tentando se colocar de pé, o pequeno ladrão de rua desistiu de segurar a sensação efervescente que sentia por dentro. Por alguns segundos, esqueceu-se do que queria tanto evitar, ou apenas... passou do ponto de se importar com o que pensariam.

"É-É ele que está fazendo isso?" Um dos idiotas observou enquanto o menino se levantava. Nem ao menos sentiu as dores dos chutes e socos que levara. Naquele momento, queria apenas que todos fossem embora. Menos um.

Outra explosão, desta vez a apenas alguns metros do grupo, os fez gritar mais. Dois tropeçaram ao tentarem correr e outro apenas chorou onde estava.

Antes de conseguirem olhar para os tijolos da parede agora esburacada, uma sexta explosão os interrompeu.

Depois uma sétima, oitava, nona... a próxima sempre pior que a anterior.

Por todas as partes do beco, objetos aleatórios começavam a brilhar como ferro derretido, até mudarem para um magenta ofuscante e explodirem como uma bomba-relógio.

Não demorou para ficaram rodeados de fumaça e um cheiro horrível de lixo queimado. Cinzas e até faíscas caíam como neve.

Quando o primeiro valentão teve a ideia de arriscar e fugir entre a fumaça densa, os outros o seguiram, chorando como as crianças que ainda eram.

O único que não teve sorte foi Hunter, o verdadeiro alvo do garoto ladrão. O líder, vendo que estava sozinho, tentou escapar, mas sua antes vítima jogou-se certeiramente em cima dele.

Toda a raiva que o garoto mais novo sentia se extravasava sem controle. Grunhiu e ignorou os pedidos para que parasse.

O pânico de Hunter aumentava a cada nova explosão que continuava ao fundo. Cada uma maior que a outra, mandando estilhaços de madeira e reboco pelos ares como confetes no Mardi Gras.

O pequeno ladrão socou Hunter mais, ainda que não fosse com força o suficiente para machucá-lo como os outros o machucaram. Queria apenas assustá-lo, fazê-lo se arrepender e evitar que tudo acontecesse de novo. Sua fúria verdadeira ia para os objetos à sua volta, todos viravam cinzas conforme sua vontade. Bastava apenas um olhar.

O menino continuaria a bater em seu agressor por mais alguns segundos, não fosse pela surpresa que teve ao reconhecer a aura vermelha… em volta de Hunter.

O valentão percebeu apenas quando seu agressor saiu de cima dele com os olhos arregalados.

Hunter sentou-se e olhou para as mãos trêmulas sem acreditar no que via.

Era como se, de alguma forma, o corpo estivesse brilhando de dentro para fora. Conseguia claramente ver a aura avermelhada em volta de seus dedos, palmas, braços e todo resto. E através de sua pele, conseguia ver a sombra de suas veias e ossos.

Hunter tentou formar alguma palavra em sua boca, sem sucesso; então, simplesmente grunhiu em desespero.

Começou a chorar como os outros haviam chorado. Colocou-se de joelhos e pediu ao menino que antes atormentava para parar com o que quer que aquilo fosse.

"Por favor."

O garoto mais novo não sabia o que dizer, o que fazer. Era a primeira vez que aquilo lhe acontecia.

Ele apenas copiou a expressão apavorada do menino aos seus pés.

Não era isso o que ele queria. Não era.

"Eu não… Não sei parar. Eu não– isso nunca–" ele também começou a chorar e Hunter se desesperou. A aura ameaçadora mudou de cor, indo para o tom que indicava os míseros segundos de vida que ainda tinha.

Em um ato de desespero, Hunter tentou se afastar, como se aquilo fosse desfazer o inevitável.

"FICA LONGE DE MIM."

"Espera!" o menino o seguiu.

Não sou um assassino. Não mato pessoas. Não sou.

"DIABLE," Hunter quase tropeçou em um buraco no chão.

"Para!" Em uma agilidade que nunca pensou que teria, mesmo com os anos em que vivera nas ruas, o pequeno ladrão correu e pulou sobre Hunter, tentando imobilizá-lo antes que fosse tarde demais.

Por intuição, como se algo estivesse dizendo o que fazer, apoiou as mãos sobre a cabeça do garoto maior e fechou os olhos para se concentrar. Sentiu lágrimas queimarem seu rosto à medida que murmurava para si mesmo.

Não sou um assassino. Me desculpe. Por favor.

Com o pavor que surgira, tentou domar a raiva que sentia por dentro. Suas mãos, antes fervendo por encostar em um Hunter aterrorizado, esfriaram como metal perdendo o calor, junto com o resto de seu corpo.

O incômodo em seu peito e aquele estranho formigamento, o mais insistente de todos, foram os últimos a irem embora. Tudo demorou mais do que queria.

Ao arriscar abrir os olhos, deparou-se com o rosto ainda aterrorizado de Hunter, olhos quase vítreos de tantas lágrimas. Tremia como um louco, mas estava fora de perigo.

O coração do garoto mais novo se afundou ao vê-lo naquele estado, culpa tomando todo seu alívio.

"M-Me desculpe. Eu não sei o que foi isso, eu-" tentou se explicar olhando para suas mãos.

Ele quase acabou com a vida de alguém.

Ele nunca quis isso. Nunca.

"ME SOLTA!" Hunter se levantou de surpresa, empurrando o garoto magrelo. Este caiu de costas, sua nuca chocando-se contra o paralelepípedo. Ficou tonto e sua visão embaçou. "Socorro!"

Os gritos de Hunter ficaram cada vez mais distantes à medida que o som de sirenes se aproximavam.

Isso alertou o garoto deixado para trás e forçou-o a se mexer. Ele esperou sua visão melhorar e, o mais rápido que pôde, levantou-se.

Naquele momento, sentiu tudo o que passou. Seu corpo inteiro latejava, como se os milhares de estilhaços das explosões que causara o tivessem atingido em cheio.

Apoiou-se em um destroço qualquer, respirou fundo, e procurou por uma rota de fuga.

Foi quando notou o buraco em um dos prédios do beco dando acesso ao quarto de um apartamento qualquer, e cujo morador provavelmente estava fora, a julgar pelo silêncio.

Iria servir.

Pôs-se a correr, entrou no quarto e abriu a porta que dava para dentro do apartamento até que algo o fez parar.

Rachado em sua maioria por conta do impacto das explosões, um espelho continuava milagrosamente pendurado na parede, com todos os pedaços no lugar. Porém, o que os fragmentos refletiam fez o menino querer que não houvesse sobrado nada.

Um rosto coberto de sangue, sujeira e cinzas.

Os olhos dele estavam inchados, uma de suas bochechas também, ainda que a sujeira do chão cobrisse o vermelho dos hematomas, não ajudava em nada a melhorar a aparência dele.

E para piorar, viu o que estava evitando encarar há semanas. O que ele evitava olhar no espelho quando não estava de óculos escuros.

Dois pontos vermelhos que agora brilhavam como néon, e cujos fundos pretos se misturavam com o escuro da sujeira. Trilhas de lágrimas, já secas, eram as únicas coisas que provavam a existência de uma pele bronzeada por baixo de toda aquela imundície.

Ele forçou a si mesmo a correr, mas chorou o caminho todo enquanto as palavras de Hunter assombravam sua mente.

Ao se aproximar da mansão de Xavier, pensando apenas em um banho e até na possibilidade de dormir pela primeira vez na cama do Instituto, Gambit não estava preparado para o que viu.

Sabia que algo não estava certo ao notar áreas queimadas no asfalto perto da propriedade. Notou também marcas de laser em algumas árvores ao redor, poças de água e um cheiro nauseante de enxofre.

Em seguida, ao parar a moto ao lado da de Wolverine, que estacionou perto do portão aberto para examiná-lo, Gambit viu a grande marca negra no metal que só poderia ter sido causada por fogo.

Foi quando ele entendeu, no mesmo instante em que Wolverine fungou como sempre fazia ao literalmente farejar algo suspeito.

O mutante virou-se para o Cajun, punhos fechados como que prontos para ativar suas garras. Queria uma explicação, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Acólito o interrompeu.

"É, é. Eu sei," falou em um tom estranhamente mal-humorado que fez até Wolverine levantar a sobrancelha. "Só dá pra saber o que aconteceu entrando, então vamos logo."

Abaixou o visor de seu capacete e acelerou sua moto em direção à mansão sem esperar pela resposta do X-Man. Não estava pronto para mais uma complicação que com certeza iria se deparar ao entrar na casa.

Por mais que sua mutação o ajudasse a ter mais energia que uma pessoa normal, Gambit estava cansado de passar tantas noites seguidas em claro, pensando apenas em plantas e esquemas de segurança (e isso era dizer muito, já que o ladrão amava seu trabalho). Sem contar o mal cheiro que com certeza o impregnou por passar horas abaixo do solo caminhando pelo esgoto de Bayville e o que viu...

Ele realmente considerou a opção de ignorar o problema que viria e apenas correr para o quarto para tomar um banho quente. Mas as coisas nunca eram assim tão simples.

Chegou antes de Wolverine, o que deu ao Cajun vantagem para entrar na mansão e se preparar antes do X-Man invocado.

Quando entrou na sala de estar, se deparou com quem já esperava encontrar, mas não naquele estado.

Pyro, vestindo roupas do Instituto, estava descansando em uma poltrona com a cabeça inclinada para trás e segurando um saco com gelo sobre sua bochecha. Em volta, estavam alguns dos X-Men mais velhos: o quatro-olhos e sua namorada, o garoto de gelo, o elfo azul, a menina intangível, Xavier e Vampira.

Todos observavam o mutante pirocinético até notarem a presença de Gambit e virarem seus rostos na direção dele.

"Gambish!" John exclamou de onde estava sentado, seu sotaque australiano soando estranho por conta da bochecha inchada.

"Oi," o Cajun não se aproximou muito, consciente do cheiro de esgoto que o havia impregnado. Sem delongas, soube a razão de Pyro estar ali e o que deu de errado na entrada da propriedade. O australiano sempre foi um pouco… impulsivo, para dizer o mínimo. As atualizações mais agressivas no sistema de segurança (uma das únicas coisas que o Cajun fez que deixou Wolverine satisfeito) com certeza não o ajudaram a manter-se calmo.

Ao menos isso significava que o alarme estava funcionando. O que honestamente não era nenhuma novidade para o ladrão.

"Terminou?" Ele perguntou, sabendo que o colega iria entender.

"Não estaria aqui se não tivesse," e o loiro tirou um pendrive de seu bolso, lançando-o no ar como uma moeda. Depois olhou para Ciclope com o cenho franzido. "Eu disse."

O líder provavelmente rolou os olhos por baixo de seu visor. "Do que você tá falando? Quem atacou primeiro foi você."

"Vocês vieram pra cima de mim com uniforme e tudo. Sem contar que levei um banho de espuma. Queriam que eu fizesse o quê?"

"Não tentasse incendiar o portão e esperasse até alguém te atender?" Vampira comentou com ironia.

"O alarme disparou antes disso."

Vampira suspirou, cansada e levemente irritada com a conversa. "Tanto faz. Só fala logo o que tem nesse pendrive."

Devida à pergunta Pyro olhou para o colega, sem saber o que podia ou não dizer.

Gambit apenas deu de ombros em sinal de derrota. Agora que o estrago já foi feito, não tinha como voltar atrás. Para o ladrão, a melhor opção seria examinar tudo sozinho, antes de passar as informações para os outros. A ideia estava fora de questão agora.

Gambit segurou um suspiro. Não devia ter falado para Pyro entregar as informações o quanto antes. Devia ter pedido para esperar.

"Dá um tempo pra ele. Fui eu quem falou para ele me procurar com urgência," o Cajun levantou a mão para o australiano que entendeu e arremessou o pendrive de onde estava.

Gambit pegou o objeto rapidamente e depois lançou-o na direção de Wolverine, que acabara de chegar à sala. "São informações novas dos experimentos."

Já esperava o silêncio, em que todos percebiam o quão sério aquilo realmente era, menos Pyro.

"Posso pegar meu isqueiro de volta?"

Ao deixarem o australiano ir embora, os mutantes se direcionaram para a sala de controle onde iriam ver o que o pendrive tinha.

Gambit os seguiu pelo corredor de longe, mas tinha a intenção de virar na ala masculina e tomar um rápido banho antes de se juntar ao resto no andar subterrâneo.

Ele, porém, não se aguentou quando viu Vampira caminhando sozinha um pouco à frente dele. Ele apressou o passo para alcançá-la.

"Como vai o olho?" ele perguntou em um tom tão baixo que nem mesmo Wolverine poderia ouvir.

Vampira olhou para Gambit um pouco surpresa com a pergunta. Ele viu que ela queria sorrir, mas segurou bem. Analisando o rosto dela, concluiu que a garota fez um bom trabalho em esconder o olho roxo. Onde deveria haver uma marca azul e roxa, estava uma pele branca carregada de maquiagem escura.

Intocada.

Porém, o que a sulista não conseguia esconder era sua expressão exausta.

"Vai bem," a garota comentou desviando do olhar dele. Ela torceu o nariz e olhou para o Cajun com o cenho franzido e um sorriso um tanto maldoso. "Não é por nada não, mas você tá com um cheiro horrível de esgoto. Devia tomar um banho."

Ele deu de ombros, mas sorriu.

"É o que vou fazer agora," comentou. Não se segurou e completou. "Quer ir comigo?"

Antes que ela pudesse empurrá-lo para longe, Gambit desviou e virou no próximo corredor. Ele olhou para trás para ver uma Vampira vermelha como um pimentão. Ela rolou os olhos e apenas continuou andando até desaparecer do campo de visão dele.

Sabendo que o computador ainda levaria alguns minutos para baixar todas as informações do pendrive, Gambit tomou um dos banhos mais rápidos de sua vida. Foi o suficiente para eliminar a sujeira e o cheiro insuportável de esgoto.

Colocou um uniforme novo e desceu até a parte subterrânea da mansão em uma calma forçada.

Enquanto secava os cabelos com uma toalha de rosto, se perguntou o que poderia estar no pendrive e se algo poderia informar coisas que… os X-Men não precisavam saber.

Estava ciente de que agora não tinha muito o que fazer a não ser pensar em caminhos alternativos caso o pior acontecesse.

Chegou à sala de comando a tempo, quando a barra de carregar estava a noventa por cento. Os X-Men de antes, mais Colossus e Fera, observavam a tela atentamente. Alguns tentavam puxar conversa para que o tempo passasse mais rápido, sem muito sucesso.

Avistando Vampira, Gambit caminhou até ela que, por sua vez, observava distraidamente algo que não era a tela do computador.

Curioso, ele seguiu o olhar dela.

No outro lado da sala, Ciclope e Jean estavam sentados sobre uma mesa. O mutante de óculos decidiu tirar suas luvas e segurava a mão da ruiva com força enquanto encarava o monitor. Vezes ou outra, olhava para a namorada que sorria. Era o suficiente para acalmá-lo, até fazê-lo rir, como se ela tivesse falado algo que apenas ele ouvira. E ela provavelmente fez isso.

O Cajun estava disposto a apostar que os dois estavam compartilhando algum tipo de conexão telepática. Viu como se comportavam e como sempre pareciam estar em sincronia no que faziam. Chegavam a assustar os outros X-Men quando falavam exatamente a mesma coisa, ao mesmo tempo e com a mesma entonação.

Ele se perguntava se entendiam como aquilo podia ser perigoso no meio de uma luta. Mas o interesse dele de se intrometer nesse assunto não era dos maiores.

Existiam coisas mais interessantes para gastar o tempo.

Ao notar que Gambit se aproximava, Vampira rapidamente mudou seu olhar de direção, encarando o monitor da sala. Ele decidiu não comentar nada, fingindo que não percebeu; apenas sorriu e parou bem próximo a ela, até mais do que o necessário.

Sabia que parecia uma criança teimosa mexendo com algo perigoso, mas cansou de dizer a si mesmo que irritar Vampira não era divertido. Principalmente por ser tão fácil tirá-la do sério.

Ela fez uma careta, mas não se moveu de onde estava, se recusando a lhe dar espaço.

Ele, por sua vez, tentou imaginar o que se passava na cabeça da garota.

Considerando que estava encarando de forma tão pensativa as mãos conectadas dos queridinhos da América, Gambit tinha algumas ideias do que poderia ser. Uma relacionada à paixonite que a sulista obviamente já teve pelo sem graça do quatro-olhos e outra relacionada aos poderes dela.

O pensamento trouxe uma sensação familiar ao Cajun e várias vezes ele apertou e abriu os punhos em volta da toalha que segurava. O receio que geralmente ignorava o tomou por alguns segundos e ele se pegou esperando pela odiada sensação de formigamento em sua pele voltar.

Passados alguns minutos, nada aconteceu, obviamente. Ainda assim, ele se sentiu aliviado.

Passou a toalha em seus cabelos uma última vez para se distrair e evitar pensar no que já não importava, depois passou os dedos para desembaraçar algumas das mechas. Foi quando sentiu a cicatriz escondida por entre os fios úmidos de seu couro cabeludo. Aquilo foi o suficiente para lembrá-lo que não tinha com o que se preocupar mais.

O download parecia estar levando séculos para completar e, por mais que tentasse não deixar transparecer, o Cajun odiava não ter nada para fazer no meio tempo.

Decidiu passar a toalha sobre o cabelo mais uma vez.

Foi quando sentiu o olhar de Vampira cair sobre ele.

Ele virou o rosto na direção dela e ela fez outra careta ao ser pega de surpresa.

"O quê?" Ele murmurou com um sorriso travesso.

"Nada," desta vez, ela quem agiu como uma criança pega fazendo algo que não devia. Ia dizer mais alguma coisa, mas pensou duas vezes. Provavelmente não queria ajudá-lo a dar mais um comentário como o de minutos atrás.

Gambit podia ser bem inconveniente quando queria e Vampira queria evitar pegar o péssimo hábito dele de ter uma imaginação tão "fértil".

"Se perdeu alguma coisa no meu rosto, pode continuar a encarar, eu não mordo," Gambit falou de qualquer jeito.

Ela novamente ficou vermelha como um pimentão e ele sorriu.

Céus, era tão fácil.

Antes que Vampira pudesse retrucar (e ele estava curioso para saber o que ela ia dizer) o download completou em alto e bom som.

Todos pararam de conversar e encararam a tela.

Agora sentados na sala de reunião, os mutantes planejavam os próximos passos em discussões incessantes.

As novas informações adquiridas se resumiam a trocas de e-mails entre laboratórios, que discutiam em um palavreado técnico e frio os resultados dos experimentos que realizavam em suas cobaias. Em mutantes. Em pessoas.

Muitos dos integrantes do instituto permaneceram em silêncio por um bom tempo depois das descrições minuciosas que leram.

Ao final, o que realmente importava para agir e colocar um fim naquela atrocidade foram as coordenadas decodificadas com os e-mails.

Foram mencionados três locais que valeria a pena investigar. Um na Noruega, outro na Rússia e outro na Alemanha. Todos convenientemente próximos a usinas, em áreas montanhosas e com baixíssima circulação de pessoas.

De onde estava sentado, Gambit observou os X-Men discutirem sobre uma possível invasão em silêncio.

A maioria dos jovens estavam prontos, queriam agir o quanto antes, com esperança de ao menos resgatar alguns poucos mutantes.

Porém, os veteranos olhavam o que os outros ignoravam: o fato de as mensagens serem de quase uma década atrás. E considerando o grupo que estavam lidando, a possibilidade de aqueles laboratórios já terem sido abandonados e transformados em armadilhas para curiosos era maior do que qualquer outra coisa.

Por esta razão e para a surpresa de sua equipe, Ciclope queria esperar o momento certo para invadirem. Não via o porquê de arriscar seus amigos em uma missão imediata que poderia ser apenas uma farsa.

Logan quase se prontificou a ir por conta própria, mas acabou dando a ideia de levar apenas os mais experientes como Fera, Tempestade e possivelmente Jean, Ciclope e Colossus.

Os veteranos concordaram com a ideia, mas os mais jovens foram rápidos em se indignar.

"Não é justo fazerem isso," Lince Negra comentou, quase se levantando de seu lugar. Todos olharam para a garota, que, por sua vez, encarava Wolverine nos olhos. "Eu entendo que querem proteger a gente, mas nos tirar da estratégia é besteira."

Os mutantes deixados de fora concordaram com a garota de primeira. Logan ia retrucar, mas ela o interrompeu.

"Vocês todos nos treinaram, sempre tiveram confiança na gente, e, de repente, mudam de planos?" Ela mordeu os lábios. "Sabemos que isso é assustador, mas é por isso que temos que ir. Temos que impedir que isso continue, e só vamos conseguir se fizermos o que nos ensinaram a fazer… trabalhar juntos. Por mais clichê que isso seja, é a verdade."

Até Logan se mostrou levemente surpreso pela firmeza no tom da garota pequena.

Scott defendeu Lince Negra colocando a mão sobre o ombro dela.

"Vocês nos ensinaram a usar nossos poderes para isso. Foi assim que derrotamos Apocalipse," comentou. Mesmo já fazendo parte do grupo da missão, sabia que toda a equipe tinha a capacidade de ir. Queria agir com mais cautela, mas não queria deixar ninguém para trás, confiava em sua equipe mais do que qualquer coisa. Se os deixasse de canto por medo de que não saberiam se defender, estaria falhando como líder.

Houve mais um silêncio, Ororo, Fera, Logan e Xavier se entreolharam. Era fácil dizer o que pensavam, mesmo que mudassem de expressões rapidamente.

Quando Xavier deu um meio sorriso, os outros também o fizeram. Até mesmo Logan não conseguiu conter o pequeno orgulho que teve de testemunhar seus estudantes falarem com tanta segurança. Ele também sorriu.

Porém, tudo isso não mudava o fato de que não queriam mandar adolescentes para uma missão que nem ao menos eles estavam confiantes que seria promissora.

Queriam resgatar aqueles mutantes, mais do que qualquer outra coisa, mas se isso custasse a segurança de outros mutantes, estariam andando em círculos.

O silêncio era desconfortante, tomado de uma indecisão quase palpável. Foi Xavier quem o quebrou.

"Meus alunos. Antes de qualquer coisa, saibam que nunca nos orgulhamos tanto de vocês," sua voz falhou, algo que poucos testemunhavam do homem sóbrio e seguro. "O que vocês se tornaram não foi algo que lhes foi ensinado aqui. Vocês conquistaram isso por mérito próprio e é uma honra para nós tê-los como nossos alunos.

Ele pausou e entrelaçou as mãos, preparando a si mesmo e seus alunos para o que diria a seguir.

"Mas se eu for honesto comigo mesmo, eu não enviaria vocês nesta missão. Não por não acreditar em vocês, mas porque antes de tudo, me preocupo com a segurança de todos. E temo que este seja um desafio maior que Apocalipse, por razões completamente diferentes. Sei que eu estaria mentindo se dissesse que já não me enganei antes, mantendo segredo por puro medo de machucá-los e até achando que não estavam prontos, quando vocês estavam além disso, mas ainda não vejo outra saída a não ser deixar alguns fora disso."

Ele continuou a ponderar consigo mesmo o que deveria fazer. Tempestade, Fera e Logan mantiveram o silêncio, incertos do que fazer tanto quanto o dono do Instituto.

"Professor," Kurt decidiu se pronunciar. "Nós só queremos ajudar os mutantes que não tiveram a mesma sorte que nós."

Vampira, que estava do lado dele sorriu e segurou a mão do irmão por alguns segundos, depois virou-se e concluiu o que o mutante azul falou.

"Tudo o que vocês nos ensinaram vai ter sido em vão se não confiarem em nós agora. Estamos prontos."

Mais silêncio. Uma mistura de orgulho e incerteza continuava a tomar os mutantes veteranos.

Mas era claro que, a cada segundo que se passava, iam ficando mais e mais próximos de aprovar a rápida invasão com a ajuda dos X-Men mais novos.

Gambit observou tudo sem abrir a boca. Sem perceber, ficava mais tenso a cada segundo, apertando os punhos com força. À primeira instância, achou que era por conta do risco que aquele bando de adolescentes estava disposto a enfrentar de maneira tão gratuita, mas não era isso. Ainda mais por saber que, por mais que tentasse esconder, iria reagir da mesma maneira. Iria querer ir na missão no mesmo dia e libertar todos daquele lugar.

Homens e mulheres, jovens e idosos. Crianças.

Mas sua tensão vinha de algo diferente. Ela veio ao ver como aquelas pessoas genuinamente se importavam umas com as outras, sem pedir nada em troca.

Ele já sabia disso. Percebeu desde a primeira vez que decidiu investigar o grupo por conta própria. Mas ainda assim, observar aquilo tudo de tão perto...

"Não acho isso uma boa ideia," ele falou em alto e bom tom.

Todos o encararam, surpresos.

"Ah, é?" Logan grunhiu para o Cajun de onde estava, mais nervoso com o fato de este ter atrapalhado a conversa do que qualquer outra coisa. Seu tom estava carregado de uma zombaria cruel. "Então explica essa pra gente."

O Cajun levantou as mãos em defesa e foi rápido em se justificar.

"Olha, por mais que essas informações sejam... tentadoras, temos que olhar para o esquema maior. O que vocês têm no momento é uma vantagem enorme: eles não têm ideia do que vocês sabem.

"Honestamente, se as datas desses e-mails fossem mais recentes, o melhor seria invadir o quanto antes. Mas elas não são. Se vocês invadirem bases que nem sabemos se estão ativas ou não, vocês vão estar arriscando não apenas sua discrição, mas também sua segurança. Eles podem não apenas mudar o plano deles completamente, o que faria vocês voltarem para a estaca zero, como também revidar. E vocês não estariam nem ao menos preparados, sem contar que não teriam resgatado nem mesmo uma vítima. De que adianta o risco, então?" O Cajun passou a mão pelos cabelos como que ganhando tempo para dizer o que queria dizer a seguir. "Você tem razão," dentre todos os X-Men, olhou para Ciclope, o que pegou o líder de surpresa. Ele, por sua vez, encarou o Acólito com a boca levemente aberta. "O melhor que podem fazer agora é esperar, terminar a segurança, treinar, e então investigar. Se eles revidarem, vocês ao menos estarão preparados," Gambit então cruzou os braços e apoiou-se contra as costas da cadeira em que estava. Esperou por alguém para contrariá-lo, mas todos permaneceram pensativos. O que podia ser um ótimo ou péssimo sinal.

"Gambit, em quanto tempo você acredita que a segurança estará pronta?" Xavier falou com a mão sobre o queixo, ponderando ainda mais.

"Me dê mais duas semanas e acabo com isso."

"Professor," Jean falou. "Podemos treinar até lá. Nos preparar especificamente para essa invasão. Nos dê essa chance."

Logan concordou.

"Posso intensificar o treino deles e aumentar o tempo das sessões."

Pela primeira vez desde que virou um professor naquela escola, Wolverine viu todos os alunos, sem exceções, se animarem com a ideia de um treinamento intenso.

Finalmente, depois de olhar para Tempestade, Logan e Fera por uma última vez, Xavier tomou uma decisão.

"Mais uma vez vocês não sabem o quão orgulhosos estamos de vocês," o telepata deu um sorriso fraco, porém genuíno. "Então está decidido. Peço que se preparem ao máximo para o que está por vir."

Traduções do francês

Imbeciles Imbecis, idiotas

Si je suis un rat, qu'est-ce que tu es? Se eu sou um rato, o que você é?

Diable Demônio