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Capítulo 9 - Prática
Uma semana inteira passou despercebida. Por mais que a única coisa que os X-Men pensassem fosse no treinamento, o mundo à volta deles estava virando uma confusão difícil de ignorar.
Pessoas apoiando Kelly pareciam se multiplicar a cada dia, e era fácil identificá-las. O nome do candidato a prefeito aparecia estampado em bottons, cartazes e até adesivos de carros por Bayville inteira.
Reportagens sobre a polícia apreendendo grupos de vigilantes que patrulhavam as cidades de noite para "proteger" os cidadãos de ameaças depois de discursos anti-mutantes eram recorrentes e assustadoras.
Se já não estavam saindo de Bayville por conta dos sequestradores que os queriam como cobaias, os mutantes provavelmente estariam na mesma situação de isolamento para evitar os grupos de vigilantes, ao menos até que a campanha passasse... e Kelly não fosse eleito.
Era comum para os X-Men sentirem falta de um tempo mais fácil, quando suas condições genéticas eram um segredo do qual nem mesmo o presidente dos Estados Unidos estava ciente, e a maior ameaça deles era a Irmandade.
Para piorar tudo, a notícia que receberam dos recentes ataques aos Morlocks fazia os X-Men veteranos se sentirem ainda mais incapacitados. Não era muito difícil de suspeitar que tais ataques poderiam estar relacionados aos sequestradores que procuravam, mas até encontrarem mais provas não havia mais nada que pudessem fazer além de ajudar Evan a vigiar os esgotos e melhorar a segurança do local.
A única (outra) coisa que os alunos de Xavier conseguiam fazer para manter o mínimo de calma era focar no resgate.
Treinavam para a esperada missão todos os dias, especialmente os que não precisavam se preocupar com estudos como Scott e Colossus, que saíam da sala de perigo apenas para rápidos descansos ao decorrer do dia. Mais tarde, Jean, Vampira, Kitty, Kurt e Bobby se juntavam aos treinos e ficavam horas com Logan para recuperar o que perdiam.
Os treinamentos eram repetitivos, mudando apenas de clima e tipo de segurança; algumas vezes lutavam contra humanos armados, outras com mutantes com poderes aleatórios. Até mesmo sentinelas apareciam uma vez ou outra.
Encontrar os esconderijos no meio da floresta era fácil (especialmente com as eventuais dicas que Logan dava do painel de controle), derrotar os seguranças, por mais fortes que fossem na simulação, também não era o complicado. O verdadeiro problema estava quando encontravam o que tanto procuravam. Todas as repetidas vezes em que finalmente chegavam aos laboratórios, reagiam com um silêncio gritante, onde tentavam aceitar o que estavam fadados a ver.
Não ia ser fácil.
Com uma semana intensa de treino, Vampira se sentia preparada e, ao mesmo tempo, estranhamente desconfiada. Um frio na barriga sempre aparecia ao pensar que, daqui a alguns dias, iria para o lugar onde aquelas fotos perturbadoras provavelmente foram tiradas.
Não conseguia ignorar a sensação de que talvez estivessem indo diretamente para uma armadilha.
Ela suspirou, sabendo que sua usual paranoia não deixaria de perturbá-la tão cedo.
Tinha um pressentimento de que, por mais cansada que estivesse do treino, também não conseguiria ter uma boa noite de sono. As coisas pioraram desde sua briga dias atrás. Sempre houve épocas em que seus poderes eram mais difíceis de controlar. Mas ela ainda conseguia dormir por mais tempo do que atualmente. As visitas que fazia à cozinha de madrugada para tomar chá também não pareciam mais fazer efeito algum.
Ela parou de andar no corredor por alguns segundos e, depois de tomar uma decisão, caminhou confiante para o quarto.
Em sua cabeça, o plano estava feito: iria treinar mais na sala de perigo, aproveitando que estaria vazia.
Por mais que fosse ter a mesma programação de treinos exaustivos que seus colegas no dia seguinte, Vampira achou melhor arriscar e praticar mais. Estava decidida a pelo menos passar seu tempo fazendo algo de útil, ao invés de ficar se revirando na cama.
Talvez até conseguisse dormir melhor se gastasse sua energia com mais um treino.
Ao chegar ao quarto, ela pegou uma bolsa e, dentro, enfiou uma calça legging, um top esportivo e uma camiseta de manga comprida. Fez tudo o mais rápido possível antes que Kitty saísse do banho e a encontrasse no quarto.
Pegou mais alguns objetos que precisaria, como fones de ouvido e toalha, e saiu.
–
Ao descer até o subsolo, Vampira esperava ver a sala de controle inativa, apenas com os painéis de comando brilhando contra o escuro, mas era evidente que alguém a estava usando. Todas as luzes estavam acesas e o enorme salão abaixo projetava o holograma de uma floresta boreal.
De início, a mutante pensou que poderia ser Logan, pois o ouviu conversando com Ororo e Hank sobre o treinamento de amanhã.
Talvez estivessem fazendo alguns testes de antemão.
Para ter certeza, ela se aproximou da borda da sala, próxima à parede de vidro inclinada.
A metros abaixo, o salão estava configurado em uma das fases que Wolverine usava para treinamentos próprios ou dos mutantes veteranos.
Vampira não avistou ninguém, mas considerando o estrago causado, com restos metálicos chamuscados e fumaça saindo para todos os lados, ela podia dizer que a sessão acabou segundos antes de chegar… e que não era Wolverine quem estava treinando.
Suspeitando de quem era, a garota não conseguiu vencer a curiosidade e foi até o painel de controle para ver a pontuação.
Geralmente os maiores recordes eram de Ciclope e Wolverine, os X-Men que passavam mais tempo praticando na sala de perigo.
Ao ver o nome de Gambit competindo com o dos dois, Vampira não escondeu sua surpresa por mais que já esperasse algo do tipo. Segundos depois, ouviu a porta do elevador abrir. Ela virou o rosto e se deparou com ele.
Limpando o rosto distraidamente com uma toalha enquanto segurava seu sobretudo com a outra mão, o ladrão não demorou em perceber a outra pessoa na sala.
Como que colocando uma máscara, ele substituiu sua expressão neutra e compenetrada com o sorriso zombeteiro e despreocupado de sempre.
"Oi," ele caminhou calmamente até ela e percebeu o que ela bisbilhotava.
Ao encará-la, Vampira desviou o olhar. Não falou nada, sem graça por novamente ser pega com a boca na butija.
"Impressionada?" Gambit simplesmente perguntou.
A garota deu uma risada seca e ignorou a forma como ele a encarava.
"Quando você superar a pontuação do Logan talvez eu fique, Cajun."
Por mais que Scott tivesse uma ótima pontuação, não chegava perto do tutor dos X-Men. Wolverine era imbatível na sala de perigo em todas as fases, todos os percursos, na maioria das modalidades.
Gambit sorriu mais. "Talvez uma hora eu aceite o desafio. Mas e você? Como está se saindo?" Ele se apoiou no painel e deslizou a tela de pontuação geral até encontrar o nome dela. "Oitavo lugar, Vampira? Tsk, tsk, eu esperava mais," ele brincou.
Vampira rolou os olhos. "É difícil competir com a galera que pode se regenerar em segundos ou explodir as coisas só com um toque."
A sulista nunca iria superar a pontuação de seus colegas em termos de danos. Não se ela não absorvesse os poderes de alguém, e isso estava fora de questão.
Preferia se virar sozinha.
Ainda assim, ela sempre foi melhor no combate corpo-a-corpo, estando a apenas alguns pontos de superar Scott e Kurt no placar - o que a ajudou a subir bastante no ranking geral que Gambit agora analisava. Depois deles, havia apenas Wolverine, mas alcançá-lo seria, novamente, impossível.
"Talvez hoje seja diferente," ele se afastou (um pouco) do painel de controle, sinalizando para Vampira escolher uma fase.
A gótica franziu o cenho, desconfiada com a forma como ele se mostrava tão interessado no treinamento alheio.
Notando a expressão dela, Gambit levantou uma sobrancelha.
"O quê? Não é por isso que está aqui? Ou você só veio me ver?"
Sem falar nada, ela empurrou o Cajun para o lado para ter melhor acesso ao painel.
Não chegou a ativar as fases mais difíceis de Wolverine, mas colocou um circuito que ele gostava de chamar de "trabalhoso". Drone armado, obstáculos com escalada e até redes...
Dane-se.
Ao concluir as configurações, Vampira marchou até o elevador, deu meia volta e encarou o único integrante da sala.
"Se você mudar alguma coisa nesse painel..." ela não terminou a frase, sabendo que o que falara já era o suficiente para sugerir uma ameaça. As portas se fecharam devagar o suficiente para ela ver o olhar de Gambit adquirir um brilho malicioso.
–
Por mais que tivesse terminado o treino com êxito, Vampira ficou insatisfeita com o resultado.
No começo, foi um pouco difícil de ignorar o fato de que Gambit estava no painel de controle observando cada movimento dela, mas à medida que os obstáculos se tornaram mais difíceis, Vampira foi obrigada a se concentrar apenas em seus arredores.
O circuito que a mutante percorreu consistia em um caminho que começava em uma clareira, adentrava uma floresta de pinheiros e terminava no topo de uma elevação rochosa, nela havia uma bandeira que sinalizava a presença do botão que daria fim à sessão. Mas como o circuito foi planejado por Logan, a corrida até o topo era a parte fácil. Na clareira, hologramas de guardas armados a esperavam, seguidas de armas escondidas na floresta e um drone que seguiu a mutante pela subida rochosa.
A garota perdeu a conta das vezes em que quase escorregou ou foi atingida de raspão pela maldita máquina. Não negou que sentiu uma certa satisfação ao atingir o aparelho com a haste da bandeira, fazendo-o voar para longe como uma bola de baseball.
No momento em que ela apertou o botão o holograma foi desativado, a floresta transformou-se em um labirinto de plataformas metálicas que desceram para formar o chão da sala de perigo. Vampira largou a haste da bandeira no chão e apoiou as mãos no joelho para recuperar o fôlego.
Por mais que estivesse cansada, estava quase considerando refazer o percurso. Em sua cabeça, calculou tudo o que poderia ter feito melhor, especialmente quando era atingida. Era como se estivesse ignorando tudo o que Wolverine a ensinava, mas não sabia o que poderia fazer para mudar.
Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir as portas de metal se abrindo e, logo em seguida, Gambit ofereceu-lhe uma garrafa de água em sua visão periférica.
Foi quando Vampira percebeu que estava morrendo de sede. Aceitou a garrafa e deu três longos goles.
"Quatro minutos e vinte e cinco," ele disse enquanto pegava a bandeira largada do chão.
Vampira franziu o cenho.
"Pela sua cara, acho que esse não foi uma das suas melhores sessões," o Cajun girou a haste algumas vezes em sua mão como sempre fazia com seu bo staff.
"Pf, nem de perto, mas também não foi tão ruim. Eu só não sei–" ela mordeu a língua antes de continuar.
Gambit a encarou, mas se notou a razão para a garota hesitar, não quis falar.
"Não sabe onde melhorar?" Ele completou a frase para ela.
Vampira encarou-o de soslaio.
"Sim," finalmente admitiu em um suspiro.
"Hm, bom, você está precisando melhorar," ele disse com uma naturalidade que a deixou irritada. Trocou a haste da bandeira de mãos e continuou a girá-la com facilidade.
"Ah, sério? E você tem alguma ideia do que poderia ser, ou só queria falar isso pra me motivar?" Ela cruzou os braços.
"Os dois," Gambit sorriu, mas quando Vampira não fez questão de esconder sua irritação, ele decidiu ir direto ao ponto. "Olha, você foi bem. Você é boa, luta bem, sabe os básicos e até já tem um estilo próprio de luta. Mas parece que às vezes você pensa demais e isso te deixa vulnerável e… devagar. "
Ela não se mostrou surpresa com a observação, ainda mais porque, depois de tantos treinos com ela, Wolverine havia falado exatamente a mesma coisa - com outras palavras.
"Sei que parece contraditório dizer isso, mas… bom, você tem que relaxar," Gambit deu de ombros. "Existem momentos em que você não vai ter tempo de calcular todos os seus movimentos, muito menos os dos seus inimigos. Você vai ter que se deixar levar pelo seu instinto, entende?"
Depois de um tempo em silêncio, Vampira decidiu perguntar. "E como você acha que eu deveria fazer isso?"
"Acho que você já sabe o que eu vou dizer."
Ela suspirou. "Prática?"
Ele concordou com a cabeça. "Prática. Uma hora você simplesmente destrava."
"Falar é fácil," ela não escondeu sua decepção, deixando seus ombros caírem um pouco.
Por alguns segundos, Gambit ficou em silêncio. Vampira o encarou e não pode deixar de pensar que talvez ele estivesse hesitando.
"Posso te ajudar."
Ah.
Se a proposta viesse de qualquer outra pessoa na mansão, Vampira aceitaria a ajuda sem hesitar muito. Mas Gambit sempre tentava encontrar uma desculpa para se aproximar dela fisicamente e a mutante já imaginava onde as coisas poderiam parar…
Provavelmente com um Cajun inconsciente largado no chão, já que ela se recusaria a carregá-lo para o quarto dele por ser descuidado.
Ainda assim, Vampira também não pôde deixar de considerar a proposta. Talvez aquilo fosse uma boa oportunidade para melhorar mais.
Gambit com certeza teria algum insight que seria útil; diferente da brutalidade de Logan e da inflexibilidade de Scott. Se fosse honesta consigo mesma, Vampira já estava um pouco cansada de treinar com os dois para ouvir sempre as mesmas coisas… mais com Scott do que com Logan.
Considerando o treinamento pouco convencional que deve ter tido, Gambit parecia ser do tipo que se adaptava fácil ao imprevisível, que era o que Vampira desesperadamente precisava aprender.
Ainda assim, ela não conseguiria dizer ao certo o quão bom Gambit realmente era pois, ao contrário dele, ela nunca o viu lutar de verdade.
O ladrão era esperto, sempre se escondia para pegar vantagem e atacava apenas quando necessário, deixando seu estilo de combate ainda mais misterioso.
Foi quando ela teve uma ideia.
"Tudo bem," antes que ele pudesse se surpreender com a resposta, Vampira continuou. "Se você for mais rápido que eu nesse percurso–" ela pensou melhor. "Não. Mais rápido que o Logan. Só que sem cartas, sem poderes."
Por um bom tempo, Gambit considerou a proposta. Olhou para os lados pensativo enquanto passava os dedos sobre a barba.
"D'accord," ele fincou a haste da bandeira de volta em seu lugar inicial e sorriu, o que fez Vampira encará-lo com desconfiança.
Ele tirou seu cinto, contendo seus inúmeros baralhos de carta e outros utensílios que não seriam úteis para o exercício que faria.
Sem avisar, jogou a peça na direção de Vampira, que a pegou por reflexo
"Mais alguma exigência, Vampira?" Ele perguntou pegando a garrafinha da mão dela e dando alguns goles.
Quando ele devolveu a garrafa, ela fez que não com a cabeça e caminhou em direção à sala de controle.
"Só anda logo."
"Sabia que estava torcendo por mim."
Vampira o ignorou.
No caminho, ela pensou se deveria ter imposto mais condições. Lembrou a si mesma como os dois minutos e dez de Wolverine no circuito eram rápidos demais para serem superados por qualquer um. Talvez alguém com super velocidade ou teletransporte conseguiram… mas Gambit não era um desses mutantes.
Não tinha com o que se preocupar.
–
"Filho da mãe," a X-Man murmurou enquanto encarava os números marcados na tela.
A sessão foi em um borrão.
O alarme mal tocara e o Cajun já havia avançado alguns metros de distância sem ao menos se preocupar com os obstáculos.
Os tiros não o alcançavam, como se fossem lerdos demais para ele, e os que chegavam perto, ele desviava com pulos e cambalhotas rápidas.
Ainda assim, ficou claro que, por mais que estivesse tentando terminar a sessão a tempo, Gambit não estava levando o resto a sério.
Evitou a área com mais armamentos, contornando o caminho ao invés de passar por ele. E, quando teve a chance de chegar perto de uma das armas, abriu sua tampa com a ponta de um destroço qualquer e manualmente a desativou, junto com outras três conectadas a ela.
A pior parte foi a falsa impressão que Vampira teve de que o Cajun não iria chegar a tempo para apertar o botão.
O cronômetro marcava dois minutos e dois quando Gambit chegou ao topo.
Porém, ao invés de correr em disparada até a plataforma, ele ajeitou as luvas enquanto esperava o drone alcançá-lo.
Quando a máquina chegou ao topo, bem atrás dele, deu um tiro que o mutante desviou agachando. Em seguida, ainda agachado, Gambit virou o corpo e pegou o drone com as duas mãos.
Segurando-o firmemente e dando dois giros para pegar impulso e se levantar, o mutante lançou o objeto como um frisbee em direção à plataforma.
O drone fez um arco pelo ar e quicou em cheio sobre o botão, concluindo a sessão e congelando o cronômetro.
Vampira encarou os números na tela, em seguida olhou para a silhueta do Cajun no salão abaixo.
Como ele fazia aquilo?
Ela não desceu, apenas esperou para que ele subisse até a sala de comando.
"Dois minutos e nove," Vampira disse sem realmente acreditar.
Por um segundo...
Ele não pareceu muito surpreso. O sorriso estava lá, e o brilho malicioso em seus olhos também não havia mudado muito.
Vampira cruzou os braços e apoiou-se no painel.
"Você trapaceou."
Ele discordou com um balançar da cabeça.
"Então o que foi tudo aquilo?"
"Aquilo foi eu usando o ambiente a meu favor."
"Aquilo foi você desativando as armas, e desviando do caminho do circuito pra ganhar tempo," Vampira cruzou os braços.
"E?"
"As armas simulam pessoas no treinamento e–"
"Pessoas não ficam paradas esperando para levar tiros," ele pegou a garrafa que Vampira deixou sobre a mesa e deu alguns goles. "E numa luta, sempre existe um ponto fraco, seja com pessoas ou com armas. O que eu fiz, daria pra você fazer em uma situação real."
Isso fez Vampira permanecer em silêncio, considerando a resposta do Cajun.
Ainda que não tivesse levado o percurso a sério, Gambit foi capaz de ultrapassar Logan e Ciclope em uma única tentativa.
E sem usar os poderes.
Alguma coisa ali Vampira poderia aprender.
"Certo, então vamos acabar com isso," ela disse enquanto pegava sua mala para se trocar.
"Tem pique pra lutar agora?" Se Vampira não conhecesse o Cajun, ela diria que ele estava surpreso com a disposição dela, mesmo depois de tantos treinos cansativos a deixarem sem fôlego.
E ele estaria certo. Se ela fosse a mesma pessoa de um ano atrás, quando deixou a preguiçosa Irmandade para trás e se juntou aos X-men, seu corpo estaria protestando com tudo o que já fizeram no dia, mas ela não era mais uma novata.
Estava mais preparada para puxar seus limites, para ignorar o cansaço quando necessário e lutar sozinha sem a vantagem de ter poderes e uma resistência sobre-humana.
Mesmo antes de tudo, Vampira sempre tentou se virar sozinha, praticando autodefesa e outros estilos de luta. Quando Wolverine começou a treiná-la, ela só melhorou.
Se ela recusasse uma luta com o Cajun só por se sentir um pouco cansada, estaria não apenas decepcionando Logan, mas a ela mesma.
"O quê? Cansou?" Ela perguntou para Gambit copiando aquele sorrisinho provocante que ele adorava dar.
Ele copiou a expressão dela. Obviamente não estava, pelo menos não como ela.
O sortudo com certeza tinha algum tipo de mutação que o deixava mais resistente.
Vampira caminhou até o pequeno vestiário na sala de perigo.
Seu uniforme estava cheio de rasgos e ela preferia não depender de sorte para não relar no Cajun com sua pele exposta.
"Vou me trocar; nos encontramos lá embaixo em cinco minutos."
"Como deseja," ele falou em um tom zombeteiro, mas claramente satisfeito com o rumo que aquele dia estava tomando.
–
Dessa vez, quando Vampira entrou na sala de perigo, o ambiente não mudou de aparência. Estava em seu estado neutro, vazio, com suas paredes e chão de metal. A única coisa de diferente era o enorme tatame no meio do salão que Gambit havia acabado de colocar.
A garota pensou em sugerir treinarem no ginásio, mas desconsiderou a ideia ao pensar que haveria mais chance de algum enxerido passar por perto e ouvi-los. Mesmo no meio da noite, havia algumas surpresas e a última coisa que ela queria era ser vista em alguma posição de luta vergonhosa… com Gambit acima de tudo.
Vampira não era ingênua, sabia que provavelmente poderiam terminar caindo um em cima do outro, e não queria que ninguém estivesse por perto para achar que algo a mais estivesse acontecendo. Ela estava, afinal, morando em uma mansão cheia de adolescentes com imaginações férteis e desesperados por alguma coisa para falar durante um tempo torturante de isolamento.
Ao se aproximar do meio do salão, ela percebeu que Gambit também havia se trocado. Estava usando tênis, uma calça larga preta e uma camiseta cinza de manga comprida. A única coisa que manteve de seu uniforme foram suas luvas sem dedos.
Por alguns segundos, Vampira ficou aliviada ao ver que ele estava tão coberto quanto ela. Poderiam focar mais no treino e ela não precisaria se preocupar com toques acidentais… até que ele arregaçou as mangas de sua camisa até para cima do cotovelo e tirou as luvas.
"Pronta?" Ele perguntou ao ver que Vampira havia hesitado. Arremessou as luvas para longe do tatame e pegou o cronômetro para ajustar o tempo.
"Vamos só lutar um contra o outro?"
"Sim, só isso."
"E não vai explicar nada antes?"
"Acho que comentamos que a melhor forma de aprender é com a prática, non?"
Ela espremeu os lábios, desconfiada, mas concordou com a cabeça.
"Vê se leva isso a sério, Cajun," ela retrucou em um tom que deixaria o próprio Wolverine orgulhoso.
Gambit sorriu mais e apertou o cronômetro.
"Dez segundos."
O objeto começou a emitir um som agudo de contagem regressiva. O Cajun colocou-o longe dos dois e em seguida moveu-se para frente de Vampira.
Enquanto isso, a garota fez o que pôde para manter suas mangas compridas grudadas até embaixo de suas luvas. Respirou fundo e colocou-se a alguns metros de distância de seu oponente.
Ambos se prepararam.
Olhos verdes ligaram-se aos vermelhos.
Estudaram um ao outro como que procurando por uma dica de como o adversário avançaria.
Vampira era a que mais desviava seu olhar, esperando pelo cronômetro tocar, e tentando prever algum movimento de Gambit. Ele iria começar na defensiva? Ou era do tipo que preferia ganhar vantagem com um ataque?
Ela aproveitou para pensar em seus próprios movimentos, até que o alarme tocou e ela se viu caída de costas no tatame depois de levar uma rápida rasteira.
"Mas o que-?" Ao se recompor, Vampira encarou o Cajun em surpresa. "Como?"
Ele deu de ombros enquanto oferecia a mão para ajudá-la. "Eu disse que você pensa demais."
Ela afastou a mão dele para se levantar sozinha. Suas costas doíam com o impacto contra o tatame, já que nem teve tempo de amortecer sua queda.
Agora Vampira tinha certeza...
"Você tem outra mutação, não tem? Além de explodir as coisas e hipnotizar as pessoas."
"Peut-être," como que sabendo a verdadeira intenção de Vampira, ele respondeu o que ela realmente queria saber. "Mas tudo o que eu fiz na sessão e estou fazendo aqui, agora, você pode copiar… talvez mais devagar que eu, mas com certeza mais rápido que muita gente."
Ela não respondeu, pois sabia que ele tinha razão. E não era como se ele fosse o único com vantagem. Logan tinha seus poderes regenerativos e reflexos rápidos, Ciclope seus raios oculares e resistência a eles. E ainda assim, o Cajun conseguiu ter um rendimento parecido com os dois.
Gambit caminhou até o cronômetro e reajustou o alarme.
Dessa vez, Vampira foi mais rápida e conseguiu desviar dos primeiros golpes, evitando ao máximo encostar em alguma parte de pele exposta dele.
Os movimentos dele eram fluidos e imprevisíveis, e doíam mais do que pareciam. Ela tentou encontrar alguma abertura, mas toda vez que achava que entendia como a mente de Gambit funcionava, ele mudava de direção e a pegava de surpresa em outro ângulo.
Na quarta vez que caiu, Vampira deu um longo suspiro. Decidiu ficar deitada lá mesmo, olhando para o distante teto da sala de perigo. Quando Gambit entrou em seu campo de visão, ele estava com uma expressão curiosa em seu rosto, como que achando graça em vê-la jogada no tatame.
"No que exatamente você acha que eu estou pensando demais?" Ela perguntou a contragosto. Gambit se segurou para não rir do leve biquinho que a garota fez.
Vampira não entendia o que estava acontecendo… com Logan, ela conseguia durar muito mais tempo em combate, mas com o Cajun ela se sentia uma novata que só apanhava. Devia haver alguma coisa que ela estava deixando passar e que Gambit estava usando como vantagem.
"Isso é uma boa pergunta," ao ver que ela não ia se levantar, ele se sentou perto dela.
"E você vai me contar ou vou ter que continuar caindo no chão?"
"Você é esperta, vai perceber sozinha uma hora ou outra."
"Você está adorando isso…" ela murmurou.
"Juste un petit peu."
Ela se levantou, com ele a seguindo, e mais uma vez preparou-se. O Cajun ressetou o cronômetro.
Vampira pensou na forma como ele se movia e tentou procurar algum ponto cego.
Diferente de Logan e Scott, que avançavam mais com socos e cotoveladas, Gambit preferia usar chutes e rasteiras, era rápido mesmo quando precisava ganhar impulsos para seus golpes, mas eram nesses momentos que Vampira via uma chance de conseguir acertá-lo.
O cronômetro tocou e ela esperou para que seu adversário começasse com mais um chute. Ele, então, a atacou com um gancho de esquerda. Pega desprevenida, mas mais acostumada com esse tipo de combate, Vampira desviou. Ela abaixou e conseguiu socá-lo no abdômen.
Gambit recuou alguns metros, mas Vampira aproveitou para enchê-lo de golpes antes que ele pudesse se recuperar.
Finalmente se sentiu na vantagem, e ela iria usar isso a seu favor.
Tentou um chute lateral, em seguida investiu em todos os tipos de socos que Wolverine a ensinou, e alguns que ela mesma aprendera. Em sua maioria, o Cajun desviava bem, mas estava difícil de encontrar alguma brecha para contra-atacar. Até que ele arriscou um soco ao mesmo tempo que Vampira . O punho dele relou na manga comprida da garota e, com seu dedinho, puxou o tecido até a altura do cotovelo dela.
Toda a força que ela investiu para aquele golpe se perdeu no mesmo instante. Vampira perdeu a concentração e equilíbrio, cambaleando para o lado e dando a chance para o Cajun contra-atacar. Ele a pegou pelo mesmo braço, tocando-a apenas nas áreas cobertas, e a puxou para frente com força. Vampira perdeu todo o equilíbrio que lhe sobrara e caiu de barriga.
Ela sentiu o ar escapar de seus pulmões com força e o barulho de seu corpo chocando contra o tatame ecoou pelo salão.
Vampira virou-se para respirar melhor e mordeu os lábios em frustração. Analisou todos os momentos em que foi derrubada e o que poderia estar deixando passar despercebido.
"Descobriu?" Gambit perguntou arregaçando ainda mais as mangas de sua camiseta.
"Se você me deixar–" então a ficha caiu. Ela se sentou no tatame e o observou arrumar a roupa. "Você está fazendo isso de propósito."
"Bingo," ele deu um sorriso largo. "Bom, você perde a concentração quando acha que vai relar na pele de alguém."
"E você usou isso contra mim."
"Obviamente. Olha…" e ele se agachou para ficar no mesmo nível do olhar dela. Com o movimento, algumas mechas de seu cabelo castanho caíram por sobre seus olhos vermelhos que, naquele ângulo, brilhavam como dois rubis em um fundo escuro.
Ele puxou a franja para trás e Vampira piscou algumas vezes, voltando sua atenção para o que ele estava falando. "Você está dando muita atenção aos seus poderes, sendo que quem deveria se preocupar com eles é o seu adversário. Nesse momento, eu. A pessoa que pode cair e ficar preciosos segundos vulnerável no chão, sou eu. Parece que você se esqueceu disso," tudo o que ele falava deixava Vampira ainda mais pensativa. "Deixa eu adivinhar, toda vez que você treina com os seus X-amigos, eles estão totalmente cobertos, não é?" Ela o encarou um pouco surpresa, o que foi o suficiente para responder a pergunta dele. "Você ficou muito dependente disso, desse conforto que, no meio de uma luta de verdade, você pode não ter."
"É mais complicado do que isso," ela disse por baixo de seu suspiro. Desviou seu olhar para o tatame, como se houvesse algo mais interessante naquele objeto do que nos olhos de Gambit.
Quando ganhou seus poderes, no começo, Vampira era mais descuidada e os usava com mais frequência, principalmente para ganhar em combates que não tinha chance. A consequência veio mais tarde, e foi uma lição que ela não esqueceria tão cedo.
"Eu entendo," ele disse. A voz dele pareceu amainar por um instante, de um jeito que chamou a atenção de Vampira. Como os dela, os poderes de Gambit dependiam do toque, uma prova de que ele provavelmente estava sendo sincero, e do que aquilo poderia significar...
Era possível ele já ter acidentalmente…?
Uma sensação estranha instaurou-se no peito de Vampira e ela não quis saber.
Gambit também não fez questão de explicar mais. "Se você quiser melhorar, vai ter que deixar esse medo de lado por um tempo."
Vampira mordeu o lábio e respondeu com ironia. "Você realmente não liga de cair inconsciente no chão, né?"
Ele deu de ombros e se levantou. "Já disse. Quem tem que se preocupar com isso, sou eu," e mais uma vez, ele estendeu a mão para ela. "E o risco valeria a pena."
Dessa vez, Vampira a pegou. Não soube o que dizer, especialmente ao ver que ele estava completamente sério.
Por um tempo, os dois se encararam, as palavras dele ecoando na mente da garota.
Vampira estudou o rosto dele, procurando por qualquer sinal de humor, de mentira.
Valeria a pena?
Ela deixou que ele inclinasse o rosto mais um pouco em sua direção, segurando a respiração ao ver que ele mudou o olhar para os lábios dela.
"E você também precisa melhorar o seu gancho de direita."
Por mais que ele dissesse aquilo para irritá-la, Vampira não considerou uma ofensa. Ela apenas sorriu desafiadoramente.
Como todas as vezes que ele conseguia aquele feito, Gambit também sorriu, satisfeito e ainda distraído com os lábios dela.
Aproveitando a oportunidade, ela o atacou com uma rasteira e o jogou no chão.
Não sabia dizer se o Cajun a deixou desferir o golpe ou se realmente foi pego de surpresa. De qualquer modo, ele terminou derrubado no tatame com um sorriso ainda maior.
"Não vai reclamar que eu trapaceei?" Vampira perguntou, encarando-o de cima com as mãos na cintura.
"Não," em um piscar de olhos, ele a agarrou pela perna e girou o corpo para derrubá-la. Vampira conseguiu amenizar a queda usando os braços como apoio. "Você está aprendendo," o ladrão deu-lhe uma piscadela enquanto se levantava.
Vampira não conseguiu deixar de sorrir também. Pela segunda vez no treino, aceitou a ajuda do Cajun para se levantar.
"Mais uma?" Ela perguntou. Mesmo cansada, sentiu-se esperançosa com a próxima tentativa.
Novamente, ele piscou para ela e se preparou. "Quantas vezes você quiser."
Dessa vez, as lutas duraram mais. Desviar dos golpes que Gambit investia ainda era complicado, já que agora era evidente para Vampira que a outra mutação dele envolvia ter reflexos mais rápidos. Ainda assim, ela conseguia entendê-los o suficiente para encontrar brechas.
E ele estava certo, havia algo nos movimentos dele que, por mais rápidos que fossem, podiam ser copiados por alguém sem seu tipo de mutação. Ela só precisava se acostumar…
Sentia que, algumas vezes, partes expostas de sua pele quase relavam nas dele, mas em nenhum momento havia verdadeiro contato, graças ao cuidado do Cajun, e a cada segundo que se passava, Vampira se preocupava menos.
Se concentrava mais em acertá-lo, derrubá-lo pelo menos uma vez sem que precisasse de uma vantagem inicial.
Ela viu a oportunidade ao agachar-se para desviar de um chute. Perdeu a chance de contra-atacar com uma rasteira, mas podia investir em um soco no queixo do Cajun enquanto se levantava.
Ele percebeu o que ela ia fazer e soube que não conseguiria desviar, mas podia revidar.
No momento em que o punho enluvado de Vampira encontrou-se com o queixo de Gambit, a mão dele também chocou-se contra uma massa de cabelos prateados e, em seguida, uma bochecha pálida e suada.
Com a força dos socos, ambos cambalearam para longe um do outro.
Arfando, Vampira acariciou sua maçã do rosto enquanto ele massageava o maxilar.
"Melhorei o meu gancho?" Ela perguntou sorrindo e tentando ignorar a dor do golpe que levara.
Ele espremeu os lábios em consideração e concordou.
"Mas também não foi um dos mais fortes que levei."
Ela sorriu, ainda que o que ele falara novamente a fez sentir um leve aperto no peito.
Ao invés de responder com palavras, Vampira decidiu avançar. Mais uma vez, se perderam em um ritmo de chutes e socos, pulos e esquivas.
Vampira percebeu que se acostumou com os movimentos dele, pois era um pouco mais difícil para o Cajun acertá-la. Ainda assim, ela precisava encontrar uma saída para vencê-lo antes que se cansasse demais.
Como último recurso, tentou um golpe de judô que Wolverine a ensinara: um arremesso de mão. Ela iria esperar por uma tentativa de soco por parte de Gambit, segurá-lo pelo braço e usar o impulso do adversário para jogá-lo por sobre ela.
Já havia feito aquilo em Scott e Noturno, e na maioria das vezes era o que ajudava a garota a ganhar.
Esperou pela oportunidade e conseguiu agarrar o Cajun pelo braço. Porém, ele foi mais rápido e conseguiu escapar antes que ela o segurasse com a outra mão. Ele deu um giro em volta de Vampira até terminar de costas para ela. Confusa, mas encontrando uma oportunidade para jogar-se sobre ele enquanto ele estava de costas, ela avançou.
Iriam cair juntos no chão, mas pelo menos seria uma derrota para ele.
O plano de Vampira foi por água abaixo quando, em um movimento inesperado, Gambit saltou e girou seu corpo no ar até que suas pernas se enroscaram no tronco de Vampira. Colocando uma mão no tatame como apoio e usando o impulso do giro, ele desequilibrou a garota, lançando-a contra o tatame com as pernas.
Gambit posou de pé e olhou para Vampira, que mais uma vez perdera. Desta vez, porém, ela não resmungou, apenas arregalou os olhos em surpresa.
Sentando e encarando o Cajun, ela disse, "Você tem que me ensinar essa," soava quase como uma criança que acabara de ver um brinquedo novo em uma vitrine.
Aproveitando a oportunidade, ele ofereceu sua mão para ela levantar e respondeu. "Posso te ensinar muitas coisas."
Vampira rolou os olhos, mas aceitou a ajuda dele para levantar. "Estou falando sério."
"Eu também estou. Posso te ensinar vários golpes. No que estava pensando?"
Ela rolou os olhos, sabendo exatamente o que ele estava fazendo. Apenas ignorou a isca e continuou, enquanto respirava fundo. "Então, vamos continuar depois? Mesma hora amanhã?"
Ele levantou uma sobrancelha. "Gostou tanto assim?"
Ela espremeu os lábios, pensativa. "Quero aprender o máximo possível antes da missão."
O lembrete do que estavam para fazer daqui alguns dias pareceu transformar o ambiente. Gambit ficou em silêncio por um tempo, estudando a expressão de Vampira e notando sua inquietação.
Não podia culpá-la; ele estaria mentindo se dissesse que não estava sentindo algo parecido.
"Combinado."
Houve um estranho silêncio, no qual Vampira esperava que ele continuasse a falar.
Gambit, porém, caminhou até suas luvas e as colocou sem falar nada. Em seguida, foi recolher o tatame com a ajuda da garota.
"O que foi?" Ele perguntou, notando os olhares furtivos que ela lançava na direção dele.
"Eu achei que você ia pedir por algo em troca," ela admitiu, desconfiada.
"Ah, não se preocupe, chère, eu vou pensar em alguma," e pela terceira vez naquele dia, ele piscou para ela.
–
Depois de terminarem o treino, Gambit acompanhou Vampira até o andar térreo da mansão. Conversaram um pouco sobre estilos de luta e o que poderiam praticar no próximo treino. Chegando na sala de entrada, falaram em sussurros, como que contando segredos um para o outro.
Quando ela chegou à escada e viu que ele não iria subir, perguntou, "Vai treinar mais?"
"Um pouco mais, sim."
Vampira concordou, e ofereceu-lhe um sorriso fraco. Deixando-o no hall, ela subiu calmamente as escadas, finalmente sentindo o efeito de todos os treinos do dia pesar sobre seu corpo. Mas antes que pudesse chegar ao final das escadas, ouviu a voz de Gambit chamá-la pelo nome.
A mutante parou e se virou, deparando-se com o Cajun se aproximando. Ao alcançar o degrau abaixo do dela, a mão dele deslizou pelo corrimão até chegar perto da dela.
Vampira não se afastou, pega de surpresa pela forma como ele a olhava, com uma expressão preocupada, porém confortante. Seus olhos vermelhos brilhavam suavemente na sala mal iluminada.
A mão dele roçou sobre a de Vampira, gentilmente segurando o dedo anelar dela.
"Vocês vão sair dessa. Tudo vai ficar bem," ele sussurrou.
Como que por reflexo ela dobrou os dedos da mão, enroscando seu anelar no indicador dele. Sentiu o polegar dele a acariciando, e mesmo com a luva atrapalhando, ela também sentiu o calor emanando da pele dele.
Naquele momento Vampira percebeu o quão tensa estava. Seus ombros relaxaram um pouco e ela respirou fundo.
Era uma promessa fácil de ser quebrada, mas era sincera… e era o que ela precisava ouvir.
"Obrigada."
E naquele momento, foi ela quem quis se aproximar… absorta pela forma como a luz fraca da sala definia as feições do rosto dele e como aqueles olhos brilhavam contra o escuro. Eles igualmente a estudavam, e ele sorriu de leve.
"Boa noite," ela finalmente disse, relutando para se afastar.
Diferente dela, ele fez o mesmo com facilidade, desenroscando seus dedos do dela vagarosamente, porém sem hesitar.
"Boa noite."
Ela se virou e continuou a subir as escadas.
Quando soube que estava fora do campo de visão dele, Vampira parou de andar e caiu em si. Perguntou a si mesma se era sensato deixar Gambit se aproximar dela mais uma vez.
Sem uma resposta e cansada, entrou no quarto para ir dormir.
Traduções do francês:
D'accord: Feito/De acordo
Peut-être: Talvez
Juste un petit peu: Só um pouquinho.
Caso o golpe que o Gambit fez tenha ficado difícil de entender, aqui está o video para dar um visual aid ;)
watch?v=xqgvz2TSDDY&list=PLyMMElp11cm9llVigqkClYaH1jDBluV3T&index=3
Como sempre, obrigada Maethril por ser minha beta reader! Você sempre me salva das minhas gafes no português!
