E talvez não haja nada pior que a espera.

Em uma batalha que não é sua, em uma guerra de estranhos, contratado apenas para matar e morrer…

A vida é feita de escolhas e frases feitas, afinal.

Esvaziar a cabeça, liberar os pensamentos e apenas dançar com a lâmina. Não olhar para os lados, apenas para a lâmina… Não se distrair… Pensar em tudo… Pensar em nada...

O que lhe resta? Submissão a mais uma casa estranha, com sangue nas mãos? Isso se for aceito… O que lhe resta? Uma fagulha de amor inconsequente e impossível? Ela era a princesa de uma casa, ele, apenas um andarilho.

A espada maneja-o com destreza. Ela o carrega por entre corpos e vidas, gritos e sangue, dor e morte.

No último minuto, o mestre da casa ordenou que prendessem Misao em algum lugar, não era para que ela se arriscasse. Não foi difícil, já que a doparam antes. Megumi ficou cuidando dos feridos e Kaoru protegendo a casa. Não eram vidas descartáveis, como a dele era.

Se deu conta, um pouco tarde demais, de um ferimento no pescoço.

Vidas descartáveis.

Espadachins, contratados para batalhas que não são suas.

Levou a mão ao pescoço, tentando estancar o sangramento, mas a vida escorria pelos seus dedos.

Aoshi, o próximo mestre, estava seguro.

Ele não. Sua perna falhou. Se apoiou na espada.

Lágrimas escorriam pelos seus olhos.

Viu Kenshin. Descartável também.

Seu joelho tocou o solo.

Porque estava ali? Era óbvio que a morte o esperava de braços abertos.

O sangue empapava suas roupas. Os braços estavam pesados demais. Fechou os olhos para tentar recuperar as forças e não conseguiu abri-los novamente.

Sentia frio. O chão veio ao seu encontro. A espada caiu ao seu lado e ao lado de outros tantos corpos que pereceram em uma batalha que não os pertencia.

Sussurros muito desconexos fizeram parte de sua mente por horas, ou talvez dias?

O frio diminuiu, mas não passou. Queria acordar mas não conseguia, queria descansar mas não conseguia.

Por fim, finalmente abriu os olhos.

Viu Misao e pensou não estar no inferno. Ela falou algo que ele não entendeu e saiu correndo. Voltou com Megumi.

Elas falavam e ele não entendia. Ele falava e elas não entendiam. Mas ele queria apenas ver Misao. Apenas olhá-la. Já era o suficiente.

Misao pegou uma de suas frias mãos, com lágrimas nos olhos, e contou tudo que aconteceu. Que eles venceram. Que Aoshi voltou. Que tiveram poucas baixas. Que ele estava há dois dias dormindo e não acordava. Que ele foi ferido, mas ia se recuperar. Nesse momento, Megumi fechou os olhos. Souichiro apenas sorria, sem entender direito as palavras, mas gostava do calor dela.

Descartável, afinal.

O cansaço fechava seus olhos. Sentia a respiração quente de Misao sobre seu rosto e sentiu seus lábios tocarem os seus. E expirou, com um sorriso no rosto, as lágrimas dela escorrendo e aquecendo sua pele e a sensação de que talvez, não fosse tão descartável assim.

- Fim

Eu sinceramente não lembrava dessa história, até receber uma review no email de Luna, em agosto de 2019. Enrolei mais um ano e meio para finalmente resolver terminar.

Nesses anos todos eu não escrevi muito, então hoje, com muitas décadas nas costas, acabei não aperfeiçoando minha prosa, peço perdão aos leitores de 10 anos atrás. Estes, tenho certeza, melhoraram com o tempo. Imagino como estão as pessoas que conversei há quase 15 anos. Espero que bem.

Sobre a história: eu realmente não sabia como continuar, por isso parei. Finaliza-la, mesmo com meus vícios, talvez fosse o mais justo a ser feito.

Por fim, desejo a todes uma boa vida, e que ela seja celebrada a cada instante.

Até mais,

Karol.