Capítulo 4 – Nadando no aquário com o grande tubarão

Depois de três dias de aflitivo treinamento, a senhora Uranai deu-se por satisfeita e disse a Bulma que ela poderia começar sozinha na semana seguinte, pois já era sexta feira. Aquele era o único fim de semana do mês que Yamcha não teria plantão no sábado ou no domingo e eles passaram o fim de semana juntos num balneário, a uma hora da cidade. Chegaram bem cedo ao pequeno chalé que ele havia alugado e foram logo para a praia.

Estava um dia lindo, gloriosamente ensolarado. O verão já estava terminando, mas a temperatura estava agradável. Bulma sentou-se na espreguiçadeira que o hotel-chalé fornecia e ficou olhando para o mar. Yamcha perguntou:

- Pensando no novo emprego?

- O quê? – ela disse – não. Estou apenas relaxando. Estou aliviada porque finalmente vou começar a fazer alguma coisa, amor. Aquela velha me tratava igual a um autômato, tinha que ver.

- Talvez seja essa a disciplina que o paciente exige – disse Yamcha – tem gente que não gosta de gente, você sabe...

Bulma suspirou. Yamcha era um médico do tipo frio, que não se envolvia muito com seus pacientes. Ele mesmo era gente que não gostava de gente. Escolhera uma especialidade que o fazia correr de emergências mais sérias, e por isso mesmo, quando tinha os fins de semana realmente livres, preferia escapar de West City, como eles estavam fazendo naquele momento.

Foi um fim de semana exatamente como muitos que eles passavam, exceto pelo fato de que Bulma estava realmente um pouco nervosa. Yamcha percebeu isso na tarde de domingo, quando eles almoçavam e ela olhava para o lado de fora do restaurante, para o mar que se estendia azulado até encontrar com o céu no horizonte. Ele perguntou:

- O que foi?

- Nada – ela disse, mas prosseguiu – eu estou aqui olhando essa varanda e pensando no apartamento do paciente, sabe?

- Não, não sei – ele disse, ligeiramente mal-humorado – e não sei também se gosto de você com um paciente só, milionário. Parece muito "cinquenta tons de cinza" para o meu gosto.

Bulma riu e disse:

- Engraçado, porque a impressão que eu tive é que tudo dele é preto ou branco, tirando a calça de moletom que ele usa, sempre cinza – ela contou então a história das duas torres que ele havia projetado e completou– na sexta feira eu escapei um tiquinho da velha e fui olhar a piscina e o terraço... e eu levei um susto. É tudo fechado, lacrado, coberto... mesmo que as telhas sejam transparentes. Aí percebi que todo apartamento é lacrado como um aquário, Yanny, nenhuma janela abre.

- Isso parece meio insalubre... – ele disse, dando uma garfada na comida – o ar não deve se renovar...

- Tudo é controlado! Eu perguntei isso e a velha me disse, tudo, o ar que entra, a temperatura, o ar que sai, tem filtros de ar, controle de umidade... não importa se está frio ou calor do lado de fora, dentro estaremos sempre à agradável temperatura de 26ºC, como se aquele fosse um imenso aquário de um peixe só... em volta da piscina, há pedras brancas, lindas, uma cascatinha... é um ambiente luxuoso e absolutamente sem nenhuma planta ou bicho...

- Meu apartamento também não tem plantas nem bichos – ele ponderou – médicos não tem tempo para colocar ração ou molhar samambaias...

- Você não entende... o sujeito tem uma obsessão por controle! Plantas e bichos não são muito controláveis, pelo jeito.

Ele segurou o queixo dela com uma das mãos e disse, sorrindo:

- E você também não, minha flor. Pelo visto, não vai durar muito nesse emprego se esse ricaço quiser te controlar...

Ela não disse nada. Mas sabia que Yamcha poderia estar com a razão.

No dia seguinte, chegou pontualmente à casa de Vegeta e sentou-se, sozinha, à mesa para o café da manhã. A mesa lotada de comida ainda a incomodava demais, mas ela pensou que, talvez, aquilo tudo pudesse ser aproveitado depois. Não queria crer que um bolo intocado iria para o lixo, embora o bolo nunca fosse do mesmo sabor do dia anterior. Ouviu o habitual bater de porta e a cadeira descendo a rampa enquanto servia-se com um croissant.

Vegeta surgiu um instante depois, usando seu habitual moletom cinzento e uma camisa branca e ela disse, assim que o viu:

- Bom dia! Teve um bom fim de semana?

- Sim – ele disse, secamente, sem olhar para ela.

- Estou pronta para assumir o seu tratamento. Espero que tenhamos uma ótima relação.

Ele a encarou, sem nenhuma alteração na expressão e disse:

- Não temos porque não ter.

- Eu estive na praia no fim de semana, foi ótimo – ela disse e a reação dele foi a de quem não ligava absolutamente nem um pouco para o relato dela, que prosseguiu – uma praia maravilhosa. Você gosta de praia?

Ele a encarou, com ar aborrecido e disse:

- Você não precisa puxar assunto comigo para dizer que é simpática.

Ela o olhou. Já tinha visto gente como ele, que gostava de ser desagradável. Ela sorriu e perguntou:

- Eu posso chama-lo pelo nome ou sou obrigada por contrato a te chamar de senhor?

Ele ergueu uma sobrancelha e disse:

- Não me importo em ser chamado apenas de Vegeta. Mas não precisa jogar conversa fora comigo.

- Então, Vegeta... em primeiro lugar, eu não finjo que sou simpática. Esse é meu jeito mesmo. Segundo: você não precisa me dar um fora apenas para que eu perceba que você não gosta de dar assunto à ralé. Finalmente, quando eu cuido de um paciente, gosto de saber que estou lidando com uma pessoa, não com uma máquina.

Ele parou com a xícara, que estava a caminho da boca e a descansou no pires, encarando Bulma em silêncio. De repente, ele riu.

- Entendi por que o Kakarotto te escolheu.

Ela ficou encarando-o, esperando uma resposta, mas ele não disse nada. Então ela disse:

- Não entendi.

Ele a encarou e disse:

- Não é preciso que você entenda. E tem mais uma coisa. Eu não me importo que você fale pelos cotovelos, contanto que faça seu trabalho direito e não seja inconveniente. Você sabe que eu não saio desse apartamento. Tenho certeza que cada um que falou contigo até agora te disse isso, disse o quanto eu sou mentalmente doente e não devo ser contrariado... então, você já sabe que eu não costumo frequentar praias. Mesmo que eu saísse de casa, o que eu não faço, na areia a cadeira afunda e atola. Praias não são para paralíticos – ele disse, num tom azedo.

Bulma havia terminado seu café e se levantou, dizendo:

- Ok. Vou esperar você me chamar para sua massagem.

Ela subiu a rampa, em silêncio e Vegeta a seguiu com o olhar. Só então, voltou para seu café, que terminou tranquilamente.

Mais tarde, ele esperava Bulma, como de hábito, para sua massagem. Ela havia feito uma massagem nele em conjunto com a senhora Uranai, então disse, antes de começar, enquanto esfregava as mãos com óleo:

- Eu vou seguir o mesmo protocolo que a senhora Uranai, ou você prefere que eu mude alguma coisa?

- Tanto faz, já é constrangedor o suficiente precisar que alguém esfregue óleo todos os dias na minha bunda para que eu não fique assado ou com feridas – ele disse, parecendo resignado.

- É parte do meu trabalho perguntar os protocolos. Mas acho, pelo tônus da sua pele, que você estava bem cuidado por ela. Deve ser realmente chato perder alguém de confiança...

- Ela precisava se aposentar, realmente. E o jeito bajulador dela, na verdade, me dava nos nervos.

- Ah, a mim também. Que bom que você disse isso, odiaria ter que ficar te bajulando.

Ele olhou por cima do ombro para ela, que não parou o que fazia, e disse:

- Mas convém também não forçar muito a intimidade nem bancar a engraçadinha.

- Nem pretendo. Mas não consigo tratar meus pacientes feito um pedaço de carne, nem gosto de ser tratada como parte da mobília. Eu sou obrigada a ficar trancada naquela sala de enfermagem?

- Por que a pergunta?

- Por que eu não gosto de ficar confinada, numa gostei. E também não gosto de ficar sozinha.

- Então finalmente eu encontrei o meu extremo oposto. Por mim nem saía do meu quarto e detesto companhia.

- Essa última parte eu notei. Nunca conheci ninguém que gostasse tanto de parecer desagradável.

- Você é sempre assim, excessivamente sincera, mulher?

- Claro. E acho isso bom, porque desde que comecei a falar, já ouvi mais de você do que nos três dias que passei como estagiária da Dona Autômata.

Ele riu do comentário. Não era fácil fazer Vegeta rir, mas ele a achou engraçada. Ela terminou a massagem e ajudou a virar-se. Ele sempre parecia constrangido quando era virado. Não era para menos, ela imaginava. Tinha uma certa empatia pela situação dele, de ser obrigado a ter ajuda para cuidar do próprio corpo.

Quando começou o exercício de dobrar a perna, o viu fazer a careta de sempre e perguntou:

- O que dói, Vegeta?

- Não é bem dor... mas sinto um certo incômodo acima da lesão. Sensibilidade, creio.

- Falou sobre isso com seu médico?

Ele a encarou, apreciando legitimamente o interesse dela. Gostava de profissionais atenciosos ao seu trabalho.

- Sim – ele disse – e ele falou que é normal.

- Me desculpe perguntar sobre isso. Mas é parte do meu trabalho.

- Eu sei – ele suspirou – e todo mundo deve ter metido medo em você sobre mim, até eu mesmo um pouco, e você deve estar achando que não deve falar comigo sobre... a minha condição.

- Verdade, fou advertida por absolutamente todos, mas quero saber a sua opinião. Devo ou não falar sobre isso?

- Houve um tempo – ele disse, olhando para o teto – em que eu odiava o que eu era. O que eu tinha me tornado. Agora eu simplesmente me conformei e me aceito. Afinal, eu sei que podia ser pior. Se o aneurisma tivesse seccionado algumas vértebras acima, eu teria de usar fraldas e isso sim, seria humilhante.

Ela sorriu para ele e disse:

- Eu farei de tudo para que você se sinta bem. É o que sempre faço pelos pacientes.

- Cuide bem do Tubarão do Aquário...

- Nossa, você conhece o seu apelido?

Ele a encarou e esboçou um sorriso, antes de dizer:

- As paredes do meu aquário podem parecer escuras de fora para dentro, mas permitem que eu olhe para fora. Quem olha para dentro que não me enxerga.

- Não se preocupe, eu não sou do tipo fuxiqueiro ou que força qualquer contato mais íntimo, Vegeta. Meu compromisso com você é profissional. Pode manter seus dentes afiados, senhor tubarão. Eu manterei você bem cuidado.

Ela o ajudou a sentar e ele a encarou, sério e disse:

- Eu realmente acredito. Desculpe se pareço rude. Não sou bem-humorado ou agradável como Kakarotto... na verdade, nunca fui, apenas piorei um pouco.

Ela foi até a cadeira de banho, dizendo

- Eu não me importo tanto com isso, mas com seu bem-estar. Contanto que eu não seja a razão do seu mau humor...

- Ah, não – ele disse, ligando o chuveiro – há coisas bem desagradáveis na minha vida, mas pelo menos por enquanto, você não parece ser uma delas.

Ela ficou o observando debaixo do chuveiro, sério como sempre, e pensou o que poderia ser tão desagradável para ele.

Finalmente livre, ela explorou a casa de forma mais detalhada naquela tarde, apenas onde as portas estavam abertas, com o pager na cintura caso ele a chamasse, logo depois do banho dele. Já estava familiarizada com aquela parte, que parecia um spa, onde ele tomava banho pela manhã e, depois da massagem da tarde, relaxava numa jacuzzi adaptada por cronometrados 25 minutos. Saindo do spa, havia a piscina espetacular, que ela jamais vira ser usada, e o terraço, que tinha uma vista panorâmica da cidade, era acessado por uma rampa que subia a partir da piscina. Exatamente sobre o spa ficava a sala onde ele fazia sua fisioterapia três vezes por semana, normalmente no fim do turno dela, com Tehsinhan, namorado de sua amiga Lunch.

A sala, que ocupava grande parte do andar de baixo, tinha dois ambientes decorados com extremo bom gosto, tudo em preto ou branco, como parecia ser a obsessão de Vegeta, e ainda havia um mezanino que levava ao terceiro ambiente, que tinha som, televisão e home theater, e se ligava ao terraço e aos oito quartos, dos quais ela só conhecia aquele que era o quartel general da enfermagem e o quarto de trabalho dele.

Mas ela elegeu a cozinha como seu cômodo favorito, e a invadiu um pouco sem cerimônia, perguntando a Chichi:

- Atrapalho?

- Não – sorriu a chef, enquanto picava legumes lindamente em julianne para o almoço.

- O que você está fazendo, Chichi? – ela perguntou, curiosa. Os dois assistentes de Chichi cuidavam cada um de uma boca de fogão, com cuidado profissional. Bulma ficou parada à porta, sabendo que poderia atrapalhar e que não era adequado entrar naquele ambiente sem touca ou rede no cabelo. Mas Chichi tinha uma conversa agradável e explicou:

- Vou preparar um ratatouile, com berinjela, abobrinha, cenoura!

- Ah, que nem naquele filme do ratinho! Adorei o filme e sempre quis comer isso!

- Esse é o segundo prato, acompanhado de um croc monsieur de gorgonzola

- Croc o quê?

- É um nome chique para um sanduíche – disse Chichi. Depois tem um pato, que o pilaf está ali, glaceando e a sobremesa é um zabaione, que o Shun está preparando.

- Nossa, Chichi... você é incrível. Como Vegeta te descobriu?

Ela ficou séria e disse:

- Bem... na verdade, eu o conheço há muito tempo. Eu o conheci quando tinha... uns 22, 23 anos. Nós somos da mesma idade. Eu logo me tornei a chef do restaurante favorito dele...

- Tão jovem?

- Bem, o curso de gastronomia não é tão longo, comecei o meu aos 17 e terminei aos 20, aos 19 já estagiava nesse restaurante, e aos 21 estava num ótimo momento da minha carreira...

- Que incrível! Aos 21 eu ainda estava limpando comadres no hospital no meu estágio, que tristeza...

- Eu trabalhava para o chef Satan, conhece ele?

- Claro, o que tem programa de TV!

- Pois é... quando ele foi para a TV, me passou o restaurante dele, disse que era um ótimo negócio. E parecia. Só que havia uma dívida impagável, que ficou para mim.

- Meu Deus... que horror!

- Nessa época, eu havia acabado de conhecer Vegeta e ele frequentava o restaurante, sabe? E quando eu disse que iria fechar... ele salvou meu restaurante comprando as dívidas e me deu um bom prazo e um desconto na dívida, sou grata a ele até hoje por isso.

- Que bacana da parte dele...

- Ele queria acionar o Satan, mas eu não permiti. Disse a ele que queria pagar a divida a ele de alguma forma, e ofereci sociedade, mas ele não aceitou e me ajudou a investir no restaurante e o tornar lucrativo. E quando aconteceu... o que aconteceu com ele, fui ao hospital visita-lo. Ele brigou comigo porque havia abandonado o restaurante – ela sorriu – e logo depois, ele deixou de frequentá-lo, por motivos que você já sabe.

- Vegeta nunca me pediu para vir cozinhar para ele, mas eu simplesmente vim. Eu assino o menu no meu restaurante, é verdade, mas o deixei a cargo da minha assistente, Mai, eu a tornei minha sócia. Vegeta administra nossas finanças e, agora, não falta nada a meu filho...

- Você é mãe?

- Antes que pergunte, não sou casada. Meu filho é uma produção independente, nunca pedi nada ao pai dele, que por sinal, é um irresponsável...

De repente, as palavras "Ela é meu problema pessoal" vieram à mente de Bulma, e Goku já não parecia um cara tão legal quanto ela imaginava. Mas ela não disse nada.

Depois do almoço, Bulma foi levar alguns dos remédios a Vegeta e o encontrou numa teleconferência com um jovem, que parecia bastante com ele, mas usava roupas esportivas. Vegeta parecia estressado quando disse:

- Você já escalou os seus malditos sete cumes! De onde tirou essa maluquice agora?

O rapaz, que era visível num enorme telão que Bulma jamais vira ligado, fez uma cara aborrecida antes de sorrir e então dizer:

- Opa, quem é a gatinha de branco?

Vegeta olhou para trás e ao ver Bulma disse:

- Minha nova enfermeira, seu maníaco. Tire o olho dela.

- Ela é sua enfermeira, não sua namorada, mano – gracejou o rapaz. – Tá livre na semana que vem, gatinha? Vou estar na cidade...

- Eu... quem é você? – disse Bulma, sem jeito, enquanto entregava o copo de água e o remédio a Vegeta.

- O irmão mais novo, mais legal e mais bonito dele. – disse o rapaz – meu nome é Tarble, e eu estou disponível...

- Mas eu não – disse Bulma, séria. – Eu tenho um namorado, desculpe.

- Desculpe você a folga do meu ridículo irmão – disse Vegeta, balançando a cabeça. Esse idiota passa tempo demais em altitudes elevadas e isso afetou seu cérebro. Suma da minha frente, Tarble – ele disse, preparando-se para desligar – semana que vem a gente conversa.

- Ei, eu não...

Vegeta desligou bruscamente a ligação, parecendo aborrecido.

- Tem uma caneta? – ele perguntou – para variar a minha sumiu e eu preciso assinar uns papéis.

Ela tirou a caneta do bolso e entregou a ele antes de perguntar.

- Está tudo bem? Você parece meio chateado...

- Meu irmão é um retardado, só pode...

- Por quê? – Bulma deixou-se ficar, mesmo sabendo que já tinha terminado sua obrigação ali. Vegeta suspirou e disse:

- Aquela criatura irresponsável nunca gostou de trabalhar como eu. Quando pegou a parte dele na herança dos nossos pais veio com a história de alpinismo. Eu, que já era maior de idade, o obriguei a estudar, mas ele continuou escalando mesmo depois de se formar.

- Ele é formado em...?

- O vagabundo é arquiteto, mas jamais exerceu. Eu disse que não ia deixá-lo gastar a herança dele toda nessa besteira de alpinismo, então, ele conseguiu tornar essa porcaria algo lucrativo.

- Bem... pelo que dizem de você, ganhar dinheiro deve ser uma vocação de família.

- Ele investiu na sua própria linha de equipamentos de alpinismo, e foi atrás dos sete cumes para se promover, e deu certo...

- Sete cumes?

- Sim, sete montanhas. As mais altas de cada continente, mais uma que fica na maldita ANTARTIDA!

- Você quer dizer que ele escalou tipo... o Everest?

- Lógico, e duas vezes! Aí agora, quando eu acho que acabaram os desafios malucos e ele vai sossegar ele inventa que vai escalar todos os cumes a mais de oito mil metros! E são quatorze! Ele vai acabar se matando!

Bulma olhou para Vegeta, que parecia seriamente aborrecido e disse:

- Sabe... eu entendo você. Tenho uma irmã que cismou em ser policial na cidade mais violenta do país. E eu vivo achando que algo vai acontecer a ela... mas não podemos escolher a vida que os outros levam, Vegeta.

Ele a encarou, então, virou a cadeira para a grande janela que se debruçava para a cidade e disse, olhando para a paisagem:

- Se aos 17 anos alguém me dissesse "um de vocês vai acabar numa cadeira de rodas" eu diria "com certeza, o maluco do Tarble..." Mas ele está aí, fazendo tudo que faz, se expondo ao risco de morte e eu, que nem o parkour do Kakarotto topava fazer porque achava maluquice estou aqui. No fundo, eu tenho inveja do meu irmão.

Bulma se aproximou e pôs a mão no ombro de Vegeta, que olhou para trás, encarando os grandes olhos azuis.

- Você não precisa se cobrar tanto, Vegeta.

Ele baixou a cabeça, sem jeito, para procurar os papéis que deveria assinar e Bulma saiu, pensando que, no fundo, ele era apenas mais um ser humano.

No fim do dia, depois da segunda massagem em Vegeta, e de vê-lo sair da banheira em segurança, Bulma estava de saída quando deu de cara com Goku, que chegava ao apartamento.

- Oi Bulma – ele disse, alegremente – como está a nova rotina?

- Boa – disse ela, friamente. Goku a encarou e disse:

- Só vim entregar uma coisa a Vegeta... se me esperar, te dou uma carona.

- Não, obrigada – ela disse, de cara fechada, Goku deu um suspiro.

- Você descobriu sobre Chichi – ele disse. Ela não respondeu. – eu preciso te dizer que toda história tem dois lados... e que ela não sabe tanto sobre mim quanto sei sobre ela...

Bulma o encarou, em silêncio e ele disse:

- E se você esperar pela minha carona, eu te conto a minha parte.

Ele subiu, na direção do quarto de Vegeta e Bulma hesitou por um instante, com a mão na maçaneta da porta de saída. Então, talvez porque tivesse gostado muito de Chichi e não conseguisse desgostar de Goku, ela decidiu pegar carona com ele e ouvir a sua história.

Notas:

Antes que vocês pergunte, o Gohanzinho existe, não é outra criança.

Bulma já saiu se metendo em tudo. Ela não teve medo, nem precisa ter, mas, por enquanto, o interesse dela é apenas profissional.

Chichi tem profunda gratidão por Vegeta e uma grande mágoa em relação a Goku... mas no próximo capítulo vamos conhecer a versão dele.

Tarble aparece mais nessa história, aguardem.

No próximo capítulo, Bulma sente-se na obrigação de ajudar Chichi e Goku a resolver seus "problemas pessoais". Mas não é fácil como parece.