Os dedos de Goku tamborilavam nervosamente no volante do fusca, mas ele não dizia nada. Bulma havia aceitado a carona porque queria saber o que ele tinha a dizer sobre sua história com Chichi, mas estavam parados num semáforo a duas quadras da casa dela e ele ainda não tivera coragem de dizer nada. Então ela perguntou:
- É tão difícil assim assumir que abandonou Chichi grávida e nunca tomou conhecimento do seu filho?
- Ela te disse isso?
- Não. Mas eu deduzi.
- E ela te disse como Vegeta a salvou quando ela tinha 23 anos e estava à beira da falência graças ao Satan?
- Disse.
- E ela disse que o pai não sabe que o filho existe? Porque ela realmente acredita nisso, eu acho...
Bulma pensou um instante e então disse:
- Ela... só me disse que não precisa do pai da criança para nada.
- E ela tem razão. Eu sei que eu fui um inútil, mas se eu soubesse... tudo teria sido diferente.
O sinal luminoso passou para verde, Goku deu a partida, mas parou o carro numa vaga, um pouco adiante e tornou a tamborilar os dedos nervosamente no volante, antes de dizer:
- Eu jamais abandonaria Chichi, ainda mais grávida. Eu só descobri a existência de Gohan quando ele tinha 2 anos... e fui eu quem salvou o restaurante da Chichi da falência, não Vegeta. Botei todo dinheiro que eu tinha na época nisso... ela merecia, ainda mais depois do que eu fiz a ela... do quanto a magoei e feri.
- O quê?
Goku deu um longo suspiro. Então, com visível esforço, começou a falar:
- Eu conheci Chichi em Paozu, quando nós dois tínhamos 16 anos. Eu estava perdido e não tinha a mínima ideia do que fazer, só sentia raiva. Meus pais tinham morrido, meu irmão estava na faculdade, meu avô só podia fazer o que estava ao alcance dele, e nem era muito. Eu não tinha muito traquejo para ser um rebelde, então, era apenas um sujeito perdido, que tinha largado a escola e não fazia nada além de me meter em brigas, achando-me o rei das artes marciais.
- Chichi morava perto da casa do meu avô, com o pai. Teve um torneio e ela foi... lutar. Era a única garota, acredita? Eu fiquei meio que cercando ela, perguntando se ela não estava incomodada em lutar com os caras... e ela me disse algo que eu nunca mais esqueci.
- O quê?
- Que ela queria o dinheiro do prêmio e iria lutar por ele. Ela não pegou leve com ninguém, lutava sério o tempo todo. Não sei se os caras pegavam leve com ela, mas estava me excitando demais a ideia de lutar com uma garota, mais do que eu queria admitir... e aí...
- E aí?
- Eu fui com ela para a final. Ela tentava me acertar, e eu só me defendia, por algum motivo, eu não queria acertar aquela garota linda, parecia uma covardia, por mais que eu tivesse repetido mil vezes que não pegaria leve com ela. Eu sabia que era mais forte que ela e queria vencer aquele torneio, mas estava num dilema: eu não tirava da cabeça a história dela precisar do dinheiro do prêmio, eu sabia, bem mais que eu. Então eu tentei acertá-la uma vez, e quando ela se esquivou e me surpreendeu, abri a guarda sem querer e ela me acertou.
- Ela ganhou de você?
- Muito tempo ela me disse que eu deixei que ela ganhasse... mas eu escorreguei, perdi o equilíbrio com a surpresa, e caí do lado de fora, então, ela ganhou. De forma justa. Eu já tinha ganho outros torneios, então, para mim não foi nenhum drama. Depois, eu a procurei, querendo saber para que era o prêmio. Ela me disse que aquilo ajudaria na sua ida para a faculdade.
- Ela tinha a minha idade e já tinha a vida inteira planejada: ia fazer faculdade de gastronomia, que afinal, dura apenas três anos, começaria a trabalhar num bom restaurante, afinal, ela já cozinhava muito bem... pode parecer engraçado, mas quando a conheci eu comecei a me achar, basicamente, um merda.
Bulma riu e ele prosseguiu:
- Chichi não queria namorar, mas entre eu e ela parecia que tinha um magnetismo, uma química irresistível: a gente não resistia, quando se via, tinha que ficar junto. Ela planejava absolutamente tudo e eu não planejava nada... mas sabia que queria ficar com ela, ser como ela. Eu a queria mais que tudo que quisera na vida.
- A gente tava no meio das férias de verão. Com 17 anos. E eu decidi que ia terminar os estudos, afinal, só faltava um ano, e ia tentar ir para a faculdade também. Me matriculei na escola e me inscrevi para diversas faculdades, em um monte de coisas diferentes, em tudo que eu achava que era bom. Quando acabaram aquelas férias, numa noite estrelada, na caçamba da velha caminhonete do meu avô Gohan...
- Foi aí que ela engravidou? – perguntou Bulma, aflita.
- Não! Não foi... foi a nossa primeira vez, e como ela ia para a cidade e eu ia ficar, bem... a gente fez com que fosse especial e tomamos todo cuidado do mundo. Foi uma noite cheia de promessas, inesquecível. E aí a gente se separou pela primeira vez, achando que em breve ia se ver de novo. Mas não foi assim. Eu terminei os estudos e fui para a faculdade fora do país, e me desencontrei de Chichi no ano seguinte.
- Oficialmente a gente não estava namorando, ela quis assim. Ela foi para West City e eu estava simplesmente a 5 mil quilômetros dela, com um orçamento bem limitado, vivendo de bolsa de estudos... e aí me interessei por programação de jogos para smartphones. E criei o joguinho das esferas do dragão e apresentei numa feira de estágio. Os caras da startup que eu te falei ficaram malucos, e me pareceu boa ideia ganhar dinheiro com aquilo, sem a mínima pretensão. Eu disse apenas que queria liberdade criativa, se o jogo fosse bem. E o jogo virou uma febre e, de repente, eu era um cara que valia muito para eles e eles aumentaram meu contrato e, quando eu vi, tinha uma fortuna na minha conta bancária. Mas estava no meio da faculdade, faltava 1 ano para eu me formar...
- Só que eu me empolguei com aquela grana no banco e fiz o que eu nunca fazia, programei uma viagem de férias... o lógico seria eu ir para Paozu, onde estava meu avô ou para Satan City, onde estava o meu irmão. Mas Chichi estava aqui e eu estava desesperado para vê-la. Um pouco antes de chegar, começamos a trocar e-mails... como amigos. Ela deixava bem claro que estava muito focada porque estava acabando a faculdade, já estava trabalhando, tinha uma carreira pela frente...
- Eu cheguei como "amigo"... mas eu me esforcei para impressionar a Chichi. Tinha recebido uma bolada pelo jogo das esferas, e aí... aluguei um carrão, me hospedei num hotel de luxo, fiz tudo para seduzí-la. E eu acho que vivi o melhor verão da minha vida. Convenci Chichi a se afastar do restaurante por dez dias. Ela nunca tinha tirado férias e estava recém-formada, e já estava contratada fazia um ano. Você já ouviu falar em cadeias de eventos que se apenas uma coisa não tivesse acontecido evitaria o desastre?
- Não.
- Mais ou menos como o afundamento do Titanic: um grande evento que não aconteceria se apenas um dos pequenos eventos que o provocaram, apenas um deles, não ocorresse. Se o piloto não acelerasse, se o sujeito da vigia não esquecesse o binóculo... por aí vai. – disse Goku. – Eu estava muito apaixonado por Chichi, muito feliz com meu dinheiro, muito cheio de mim pelo meu sucesso... e a gente se entregou, perdeu a cabeça um pelo outro naqueles dez dias... e no fim, eu não queria ir embora, mas tinha que ir, porque queria terminar a faculdade. E então eu fiz uma grande besteira.
- Que besteira? – Bulma o encarava, meio atônita.
- Pedi Chichi em casamento e disse que ela TINHA que ir comigo. Eu não queria saber se ela tinha emprego, se estava onde queria estar... só queria levá-la comigo, arrogante, egoísta. Mas ela me disse que aquilo era loucura e me mandou embora. Terminou comigo, disse que nós tínhamos que usar a cabeça e que eu não fazia a mínima ideia do que era casamento. E ela estava certa, mas eu fiquei com raiva e disse que era a última vez que ela me mandava embora. Se eu tivesse sido mais maduro... se tivesse entendido...
- E você foi embora?
- Era para ter ido... mas na véspera da partida eu tomei um porre. Um porre daqueles que te deixam imprestável. Perdi o avião e o rumo. Aluguei um apê aqui, entrei em contato com a start up e comecei a fazer apps um atrás do outro, queria ganhar dinheiro. E aí, agora, você sabe a minha parte da história.
- Mas... e o filho de vocês?
Goku deu um suspiro profundo.
- Se eu soubesse... se eu tivesse descoberto... tudo seria diferente. Eu fiquei aqui evitando tudo que pudesse me fazer encontrar com Chichi. Eu estava magoado com ela, e queria provar que podia ter uma carreira também, mesmo sem a faculdade. Eu me inscrevi num curso fajuto por EAD apenas para ter o diploma, paguei outros para fazer as provas... e, enquanto isso, ela se descobriu grávida, sozinha... e tentou me achar. O e-mail da faculdade não servia mais, eu tinha trancado. Os telefones de lá eu tinha descartado. Ela procurou então, no seu desespero, a única pessoa que ela sabia que eu conhecia, mesmo sabendo que estávamos brigados, porque eu, apesar de tudo, sempre havia falado muito nele.
- Vegeta?
- Ele mesmo. Ele resolveu ajudá-la e ligou para Paozu para saber meu paradeiro e meu avô disse que eu estava aqui. Vegeta pegou meu endereço e meu telefone e deu para ela. E quando ela me ligou, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa... – Goku encostou a cabeça no volante. Era óbvio que ele se arrependia profundamente de alguma coisa.
- O que você fez?
- Não quis sequer escutar o que ela tinha para me dizer. Disse que nunca mais queria vê-la. Que ela provavelmente estava me procurando porque o plano tinha dado errado e precisava de um cara com grana agora, para bancar seus sonhos... mas que eu não estava mais disponível para estar por perto quando ela não tinha nada melhor a fazer, que não era prêmio de consolação. E aí, em vez de me contar sobre a gravidez... ela decidiu ter o filho sozinha.
Vegeta logo depois a procurou e perguntou a ela como tinha sido. E ela contou.
- E então?
- Vegeta a ajudou conseguindo vaga numa boa creche, ajudando-a financeiramente de forma discreta. Ele fez aquilo por mim. Ao mesmo tempo ele começou a me monitorar e me viu perdendo cada vez mais o rumo...
- E foi quando ele o procurou?
– Sim. A princípio, ele não me disse nada, mas quando eu vi que ele frequentava o restaurante de Chichi... eu fui horrível. Perguntei se ele estava interessado nela, e ele me disse que eu era ridículo. Ele tinha uma namorada, uma mulher linda, modelo, falou que era amigo de Chichi e eu não entendi de onde vinha tal amizade... e aí, aconteceu o problema com o restaurante dela e eu quando soube, por ele, tripudiei, disse que era bem feito.
Ainda com o rosto apoiado no volante, Goku fechou os olhos e disse:
- Foi a segunda vez que Vegeta me socou na vida, e ele estava certo. Eu ia reagir quando ele gritou e disse que ela tinha tido um filho... e que eu era o pai. De repente, tudo fez sentido, ela me procurar aquela vez... ter feito tanto sacrifício para conseguir comprar uma parte do restaurante... se matar de trabalhar...
- E o que você fez?
- Usei todo dinheiro que ganhei na startup para salvar o restaurante dela, virei um simples empregado da Sayajin Enterprises e deixei de ser um riquinho idiota para salvar meu filho e a mulher que eu nunca deixei de amar. Fiz isso por meio de um contrato com a empresa de investimentos do Vegeta, que no entanto disse que eu deveria contar para ela. Mas eu morria de vergonha.
Depois... assumi todos os gastos do nosso filho, sem que ela soubesse. Ela acreditou numa bolsa de estudos... o plano de saúde ela pensava que era benefício do contrato com Vegeta. Mas eu pago todas as despesas que posso de Gohan – ele sorriu – ela pôs o nome que eu dizia que queria botar num filho. O nome do meu avô.
- Então... ela não sabe de nada?
- Não. Nós nos encontramos frente a frente no hospital, quando aconteceu aquilo com o Vegeta. E ela foi fria, eu também, mas não a culpo, porque eu fui um merda com ela. E estamos assim, desde então. Muito educados, muito distantes. – ele tirou o rosto do volante e olhou para Bulma – Mas o fato é que eu nunca superei. Queria, mas não consigo, queria me aproximar, mas isso implicaria em tanta coisa, em enfrentar o medo que eu tenho de que tudo isso seja definitivo, que a separação seja para sempre... e a verdade, Bulma, é que eu não sei o que fazer.
Bulma o encarou. Não dava realmente para não gostar de Goku, mas ela precisava dizer aquilo:
- Deixe de ser covarde e diga que sabe de tudo. Diga o que fez por ela. Peça perdão. Você a salvou e esconde tudo isso por medo? Não é possível que ela não te perdoe quando souber de tudo.
Ele sacudiu a cabeça e disse:
- Não. Não acho que tenha jeito. Ela nunca vai me perdoar.
Se ele pensava assim, ela mesma não podia fazer nada.
Os dias se passaram e Bulma acostumou-se com seu trabalho e a rotina de Vegeta. Tornou-se um hábito conversar com Chichi antes do almoço e com Vegeta logo após a sobremesa, quando levava o remédio que ele tomava à tarde.
Chichi era orgulhosa de seu pequeno Gohan, totalmente dedicada a ele e não falava de nenhum interessa amoroso ou coisa que o valesse. Todo amor que tinha parecia ter sido transferido para o menino. Mais de uma vez, Bulma sentiu-se mal por saber tanto sobre a vida da amiga e não ter coragem de contar a ela que, na verdade, Goku não era o monstro que ela imaginava e que queria participar da vida do filho.
Mais de uma vez, acabou conversando sobre aquilo com Vegeta, que dizia apenas:
- Eu admiro Chichi muito mais que Kakarotto. Tudo que o imbecil faz é ficar se lamentando porque não sabia que ela tinha um filho. Mas ele já sabe a verdade há sete anos. Sete anos! Não tomou coragem todo esse tempo para se aproximar do próprio filho... e eu duvido que ele ou ela tenham superado o que sentem um pelo outro. E ele não me deixou contar a ela tudo que ele fez, e é motivo de orgulho, não vergonha.
- Vegeta... – Bulma olhou para ele com uma cara meio pidona e disse: - e se nós dois ajudássemos os dois a conversarem, de alguma forma.
Ele a encarou, meio aborrecido e disse:
- Esqueça isso, mulher. Não sirvo para bancar a tia casamenteira. Ele cansa de vir aqui e ficar frente a frente com ela. Se ainda não tomou a iniciativa é porque é um babaca.
- Mas foi você quem disse a ele que ele tinha um filho com ela.
- Porque eu queria que ele tomasse uma atitude! Mas ele não faz nada. E continua não fazendo. O filho dele está crescendo e não adianta mais tarde ele tentar recuperar o tempo perdido.
Bulma se arrependeu por ter puxado o assunto e decidiu que, em algum momento, ela ia ajudar Goku a tomar uma atitude em relação a Chichi. Era impossível para ela não se envolver com os problemas das pessoas que gostava, e, por isso, um dia perguntou diretamente a Chichi:
- Você não tem um namorado, Chichi? – Bulma sempre falava para Chichi de Yamcha, mas a outra mantinha-se sempre num discreto silêncio.
- Para quê? – disse Chichi, franzindo o rosto numa careta – para mandar em mim ou na minha carreira ou entrar em conflito com meu filho? Não, obrigada... sou bem feliz sozinha.
- Nossa, Chichi, não é possível que nunca tenha aparecido ninguém.
- Aparecer, aparece... mas não me interesso por isso. A única vez que eu me apaixonei foi por um traste... às vezes saio com um cara, ou com outro... e nunca me envolvo, simplesmente não consigo.
- Então, pelo visto, você nunca superou o pai do seu filho...
- Claro que eu superei. Minha vida está completa e ótima do jeito que está.
Bulma suspirou. Seria difícil, mais difícil que imaginara a princípio.
Nesse mesmo dia, uma quinta-feira, Vegeta pediu a ela ajuda para dar o nó numa gravata. Ela quase riu ao vê-lo de camisa social, paletó e usando a mesma calça de moletom surrada de sempre.
- Mas que elegância!
- Não vou colocar uma calça social ou sapatos para ser visto apenas da cintura para cima... – ele disse, mal-humorado. – Você tem uma caneta? As minhas vivem sumindo! – ele perguntou, procurando entre os papéis sobre uma mesa.
- Toma – ela disse entregando a caneta que tinha no bolso do uniforme. Era um velho hábito. - Com quem é a conferência?
- Primeiro com os acionistas majoritários, relatório semestral, por isso, o figurino. Depois, com meu advogado, Raditz. É sobre uma ação que estamos movendo contra um ex-parceiro de negócios.
- O irmão do Goku?
- Ele mesmo. Você vai gostar dele, as mulheres sempre gostam. Era um inferno sair com ele quando a gente era mais novo.
- Eu já te disse que tenho namorado, Vegeta.
- Eu sei. Isso nunca impediu a mulherada de virar a cabeça quando Raditz passava.
- Ele era tão bonito assim?
- Sei lá, acho que era o cabelo grande. Agora ele o usa preso.
- Goku me disse que você namorava uma mulher linda.
A boca de Vegeta se contraiu e Bulma se arrependeu do comentário assim que o fez, mas ele não evitou o assunto, pelo contrário:
- Era meio óbvio para ela que era impossível trocar um playboy milionário que garantia notas em colunas sociais por um paralítico... talvez eu não tivesse tanto glamour depois que me tornei... esse cara aqui. O aleijado.
Bulma terminou de ajeitar a gravata e disse, olhando para a gravata e não para ele, sem saber exatamente por quê:
- Você devia parar de se definir de forma tão negativa. Apesar de não sair de casa, você continua sendo temido no mundo dos negócios – brincou Bulma – Goku me disse que você continua sendo um tubarão nos negócios – ela se ergueu e completou – ainda que esteja nadando num aquário.
Vegeta olhou para ela e sorriu. De repente, pensou que estava se entendendo com ela rápido demais. Ela deixava claro que era apenas um relacionamento profissional, então, era melhor continuar não olhando demais para ela, não se encantando demais por aqueles olhos tão azuis.
Bulma ia saindo do quarto quando ele disse:
- Fique aqui por perto. Às vezes depois desse tipo de conferência, sobre assuntos tão espinhosos, eu não me sinto muito bem.
- Ok- disse Bulma, indo para a sala de enfermagem.
Ela jamais saberia o que a fez sair do quarto, mais ou menos uma hora depois. Talvez tivesse sido alguma espécie de intuição. Mas ela saiu do quarto de enfermagem, achando algo estranho, como se houvesse um ruído em algum lugar que ela quase conseguia ouvir. Se aproximou da porta do quarto e ouviu que Vegeta gritava com alguém:
- Dê um jeito, Raditz! Eu não vou!
- Se não comparecer, Vegeta, o juiz vai interpretar como desinteresse.
- Mande Kakarotto, peça um laudo médico ao Whis, ao Kamisama, ao Piccolo, tem uns vinte médicos que me examinam e sabem da minha condição, peça um laudo a qualquer um, Raditz. Eu não quero ir ao tribunal!
- Você precisa ir! Foi convocado, vamos perder esse processo à revelia estando certos, Vegeta. Leve seu médico, seu terapeuta, mas VÁ.
- EU NÃO VOU! – ela teve certeza de que, depois dessa frase, Vegeta desligou a conferência. Ficou em suspense, tentando ouvir qualquer sinal que indicasse que ele estava bem. De repente, ela ouviu um baque surdo, e pensou que Vegeta havia caído de alguma forma da cadeira de rodas.
Bulma abriu a porta bruscamente e viu Vegeta caído de bruços sobre o chão acarpetado, tentando, em agonia, se virar, enquanto ao mesmo tempo tentava tirar a gravata. Ela deu dois passos rápidos para dentro do quarto e ele levantou o rosto, uma expressão de agonia estampada nele, enquanto ele apoiava-se com a mão direita no carpete enquanto a esquerda remexia ainda a gravata de forma aflita.
- Me ajude... – ele implorou num fiapo de voz e ela não hesitou: sentando-se no chão diante dele, ela o puxou pelas axilas como pôde e o virou de frente, sentindo-o tremer enquanto ela puxava a gravata e o aproximava dela.
Antes que ela pudesse ajeitá-lo, ele a abraçou como um afogado, e ela sentiu o suor frio dele nas mãos e sobre o peito, onde ele mergulhou o rosto de olhos fechados, as mãos tremendo agarradas às costas dela, que não conseguia se mexer por conta do peso dele, que só conseguia se mover dos quadris para cima.
Ela sentiu as mãos dele crispadas contra suas costas e disse, quando retribuiu o abraço com seu toque, que ela pretendia que fosse calmo e seguro:
- Eu estou aqui, Vegeta. Eu estou aqui.
- Me ajude – ele repetiu e ela respondeu:
- No que você precisar de mim. Eu estou aqui para isso...
Ela deixou-se ficar naquele abraço sabendo que era a única coisa que poderia fazer, enquanto o sentia os tremores dele, entendo pela primeira vez que ele poderia parecer um homem que levava bem a sua condição, que se aceitava e não se incomodava... mas no fundo tinha o emocional ainda mais quebrado e esfacelado que a sua medula ou qualquer outra parte do seu corpo físico.
Notas:
Eu sei, eu sei. Dá uma tremenda agonia essa cena do Vegeta agarrando a Bulma no meio de um ataque de pânico. Embora eu nunca tenha sido afetada por essa condição, uma vez me vi na situação de ajudar uma pessoa em um ataque de pânico, e a experiência me marcou muito.
Goku e Chichi nessa fanfic são coadjuvantes, mas a solução do seu conflito é importante para a trama da Bulma com o Vegeta. Olho neles.
Desculpem a demora, precisei me ausentar e logo antes da minha viagem fiquei sem wi-fi. Só atualizo pelo PC e sem wi-fi é impossível.
