Capítulo 9 – Lágrimas na chuva

No dia seguinte, Bulma foi surpreendida porque quem foi busca-la foi Goku, acompanhado de Chichi em seu fusca.

– O que vocês estão fazendo aqui? – ela brincou – achei que estavam em lua de mel.

Os dois riram e Goku disse:

– Ainda precisamos nos programar para isso, foi tudo muito repentino... eu combinei com o Kuririn de vir te pegar pra poder pegar meu cartão de crédito.

Ela entregou a ele o cartão e deu um beijo no rosto de Chichi, que disse:

– Você... – ela sorriu e corou – você foi incrível.

– Mas Goku foi mais, ele finalmente teve a coragem de te dizer o que você precisava saber. Ele tinha medo se se aproximar e você o rejeitar.

– E eu tinha medo de dizer a ele que tínhamos um filho. – ela sorriu e pegou a mão dele.

– Mas quando nos conhecemos, eu e Gohan... – Goku sorriu – foi amor à primeira vista.

– Eu sempre dizia a ele que o pai dele era fantástico e um dia ele o conheceria – disse Chichi – mas eu tinha vergonha de ter escondido isso de Goku.

– O que interessa é que agora estamos juntos e felizes – disse Goku. – e dessa vez você não vai escapar, dona Chichi...

– Eu já aceitei – ela disse, rindo – Bulma, ainda não temos uma data, porque precisamos programar tudo, mas queremos que você seja nossa madrinha! Você junto com o Vegeta!

– O... Vegeta? – ela disse, hesitante – m-mas... ele nunca sai de casa.

Os três de repente se deram conta disse e Goku disse:

– Bom, vai demorar pelo menos alguns meses para que eu e Chichi consigamos nos programar para sairmos em férias juntos para uma lua-de-mel... até lá descobrimos como lidar com Vegeta.

Goku parou o fusca em frente ao prédio de Vegeta e as duas saltaram. Ele despediu-se porque precisava ir para a empresa. Mas prometeu voltar mais tarde porque Vegeta disse que queria uma reunião. Elas entraram no prédio e Bulma disse, empolgada:

– Que lindinhos vocês dois juntos!

– Não foi fácil como parece – disse Chichi, sorrindo – houve muitos gritos e lágrimas antes... antes da gente se entender.

– É mesmo? – perguntou Bulma, curiosa – vocês discutiram?

– Bom, – Chichi suspirou – ele me perguntou se queria conversar na minha casa ou na dele... eu escolhi ir para a casa dele porque não queria que meu pai ou Gohan nos ouvissem. Quando chegamos lá, ele me contou por que nunca voltou para a faculdade – ela riu – e eu dei uma bronca nele com dez anos de atraso por isso.

Bulma riu. Chichi era realmente mandona.

– Depois ele me pediu perdão pela reação dele quando eu liguei, naquela época, e eu finalmente fiz algo que eu nunca tinha feito: coloquei-me no lugar de Goku. – ela baixou a cabeça – eu mandei ele embora tantas vezes, tantas vezes disse que ele não era importante para mim, não tão importante quanto a minha carreira... mas isso não era verdade. Tanto que em todos os caras que eu saí depois, até mesmo no Tarble, irmão do Vegeta, eu procurava algo dele. O jeito extrovertido, aquela ingenuidade que nunca foi embora... e eu percebi que eu cometi um erro quando virei as costas e disse que não precisava dele e que criaria meu filho sozinha... Gohan foi uma criança feliz, mas teria sido mais feliz ainda com o pai por perto.

– E ele me disse tudo que ele abriu mão para salvar meu restaurante, pedindo para Vegeta encobri-lo... como eu podia deixar para lá novamente alguém que fez tanto por mim e pelo nosso filho sem esperar nada em troca? Ele finalmente me confessou que demorou esse tempo todo para se revelar porque queria ter esperança, mas achava que eu jamais iria voltar para ele... – ela encarou Bulma e sorriu – então eu o beijei e ele calou a boca. Nós nos perdoamos... e o Gohan adorou o pai.

Elas entraram no apartamento com Bulma sentindo-se imensamente feliz por ter participado daquilo. Chichi foi para a cozinha preparar-se para começar seu dia e Bulma foi arrumar-se. Mas deu de cara com Vegeta escondido no mezanino, espreitando meio preocupado.

– O que você está fazendo aí, Vegeta?

– A megera tá zangada comigo?

– Ela nem falou em você, mas acho que não.

– Então eu posso descer para falar com ela antes do café da manhã...

– Acho que ela está se trocando.

– Não tem problema.

Ele desceu e um instante depois Bulma ouviu:

– Então o senhor acha realmente que vai escapar da minha bronca? – ela ouviu Chichi gritando com Vegeta na cozinha e foi se esconder no quartinho da enfermagem.

No fim, a bronca da Chichi em Vegeta era mais brincadeira do que qualquer outra coisa. A chef entendia que ele estava ajudando os dois amigos mas tinha medo de interferir. E no fim, foi chamado para ser padrinho do casamento. Junto com Bulma.

Na hora do almoço, Goku apareceu e Vegeta disse aos dois que precisava conversar sobre o futuro deles, dizendo que esperava aquela conversa há anos... então disse tranquilamente que quando Goku socorrera Chichi usando o nome dele ele tivera a ideia de separar um dinheiro e investir num fundo para realmente fazer jus à sociedade que propusera a ela, e achava que agora era o momento:

– Mas, infelizmente acho que você vai precisar deixar de cozinhar apenas para mim... porque deve ser complicado abrir uma filial de um restaurante.

Chichi levou as duas mãos à boca, sempre quisera abrir uma filial, agora que Mai dava conta do outro restaurante, mas adiara os planos porque não tinha como investir.

– E já que eu sou o padrinho de Gohan, acho que vocês têm que saber que estou sempre pondo dinheiro num fundo no nome dele para quando ele for para a faculdade!

Vegeta depois ficou horas reclamando do abraço que Goku deu nele, mas Bulma sabia que ele, no fundo, sentira-se muito feliz em poder ajudar o melhor amigo.

O tempo voou até o outono. Chichi, atarefada com o restaurante, e Goku, desenvolvendo um novo jogo e cuidando de um grande projeto de realidade virtual da empresa de Vegeta, marcaram seu casamento para o dia de São Valentin, dali a três meses. Bulma seguiu cuidando de Vegeta e sentindo seu namoro com Yamcha ficando a cada dia mais frio. Ela não sabia o que fazer. Um dia ela parecia triste e Vegeta perguntou:

– Qual o problema? Posso ajudar?

– Não é nada. É pessoal. – ela disse e ele deu um suspiro.

– Sei... esse cara...

– Você não entende...

– Entendo que você está solitária nessa relação, entre plantões do seu namorado e um trabalho que talvez seja desmotivante e...

– Vegeta, você quer me mandar embora, é isso?

– Não. De onde tirou isso? Só quero saber se, para você, cuidar apenas de mim não é entediante, ou desmotivante. Eu sei que eu sou um cara rabugento e difícil. Eu quero saber se eu sou a parte da sua vida que te aborrece.

– Não, Vegeta, não é – ela disse, sorrindo – você é intrigante, às vezes, difícil e mandão. Orgulhoso, um pouco chato...

– Chato?

– Chato, sim, quando enche meu saco porque eu esqueci de prender o cabelo ou abotoar um botão no uniforme...

Ele deu um sorriso de lado.

– Mas eu gosto de trabalhar aqui e gosto de cuidar de você, mesmo você sendo meio intragável às vezes.

Ele riu. Ela então aproveitou para pedir uma coisa:

– Vegeta, na quinta-feira vai ter um jantar da associação médica e eu vou com Yamcha. Sei que os dias de sair mais cedo são segunda, quarta e sexta, mas eu poderia sair as 16 horas nesse dia?

Ele a olhou aborrecido e disse:

– Tá, mas vou descontar do seu salário.

– Ok – ela disse, de um jeito neutro. Era a primeira vez que ele dizia que descontaria qualquer coisa do salário dela. Não chegou a pensar em ciúmes, apenas achou que ele não gostara da ideia dela sair cedo para se arrumar para uma festa.

Na quinta-feira do jantar, desde cedo, Vegeta estava irritado e aborrecido. Não conversaram quando ela fez a massagem nele e nem no almoço ele brincou ou riu. Chichi já não cozinhava para ele e a nova chef, chamada Yurin, ficou com lágrimas nos olhos quando ele reclamou que o prato principal estava sem gosto.

Bulma ficou com pena dela e foi até a cozinha conversar com a menina. Yurin devia ter no máximo 20 anos e era um pouco insegura. Quando viu Bulma tentou disfarçar o choro e disse:

– Ele era grosso assim com a senhora Chichi?

– Bem, às vezes, mas ela respondia à altura. Chichi não é do tipo que leva desaforo para casa. Você precisa ter calma, ele vai se adaptar ainda. E tem mania de descontar nos outros quando alguma coisa o aborrece.

A menina secou as lágrimas e Bulma sorriu para ela dizendo que ia ficar tudo bem. De repente, Yurin disse:

– Será que você poderia me apresentar para aquele careca bonitão da fisioterapia? Achei ele tão gato...

– Hum... – Bulma quase riu. Yurin era uma garota, afinal, como qualquer outra – eu acho que a namorada dele não ia aprovar isso...

– Awn – disse a menina, e o assunto morreu.

Bulma subiu, pretendendo se refugiar no quartinho da enfermagem e ver um pouco de TV até a hora do remédio dele quando o ouviu gritando no escritório.

– Não quero saber de custo, quero a porra do prazo cumprido, Kakarotto. E pode avisar que a equipe INTEIRA vai ser punida se houver um MINUTO de atraso nessa merda, ouviu?

Ela ouviu que Goku respondia, provavelmente em conferência, mas não entendeu a resposta dele e Vegeta respondeu, berrando:

– Foda-se, Kakarotto, foda-se!

Seguiu-se um outro barulho de coisas derrubadas e ela correu e entrou na saleta, lembrando-se do ataque de pânico dele. Vegeta voltou-se, ele estava em sua cadeira e havia jogado um peso de papel contra a parede, fazendo uma mossa feia na pintura. Quando ele a viu, disse, de forma ríspida:

– O que você quer? Não preciso de você agora, garota.

– Desculpe. Eu o ouvi gritando e...

– Agora resolveu me espionar, é mesmo? Eu comando uma empresa, gritar é o que eu mais faço, é uma das merdas de presidir uma porra de uma multinacional preso numa cadeira de rodas, com a coluna fodida e os nervos em frangalhos: ficar puto e não poder socar a cara de ninguém. E eu não te chamei aqui, não preciso que você seja minha babá. Volte para o seu lugar, enfermeira. Para isso que eu te pago!

Ela o encarou, furiosa, e disse:

– Não é porque me paga um salário que você tem o direito de me tratar como se eu fosse lixo. Aliás, você age como se todos à sua volta não importassem, sempre diz "eu quero ficar sozinho, eu gosto de ficar sozinho". Mas é fácil querer ficar só quando tem um exército de pessoas para limpar a sujeira que você deixa pra trás.

Ele a encarava surpreso. Nunca ninguém havia falado com ele daquela maneira.

– Eu entrei aqui porque estava preocupada, assim como fiquei da outra vez. Mas já que não precisa de mim, vou ficar lá no meu canto, afinal, sou uma insignificante. Quando tiver outro ataque de pânico, use o pager, porque nunca mais eu entro aqui.

Ela virou-se para sair e viu uma única coisa que chamou a sua atenção. Um dos muitos monitores da saleta era o único que não tinha nada da empresa, nada do que habitualmente ela via, mas um projeto. No meio da raiva ela não se deteve muito, mas as linhas cruzadas sobre o fundo branco numa estranha perspectiva chamaram a sua atenção. Mesmo curiosa sobre aquilo, ela saiu batendo a porta e deixando Vegeta atônito atrás de si. Ela olhou para o relógio. Ainda tinha duas horas antes de sair e um remédio para dar a Vegeta. E estava disposta a fazê-lo sem dirigir a palavra a ele.

E foi isso que fez, quando o alarme despertou, quase meia hora depois. Ela levou o remédio e um copo de água na bandeja para ele e bateu à porta. Ele abriu, em silêncio. Os dois não se encararam. Ela apenas entregou a ele o remédio e a água e, antes dele fechar a porta, ela disse:

– Estou saindo em breve. Espero que Maron faça sua massagem direito.

Ele não respondeu.

Mais tarde, Bulma tomou um banho e saiu, chegando logo ao cabeleireiro, que fez nela uma escova e depois um belo penteado, finalizando com uma maquiagem que a deixou realmente linda. Ela pegou um taxi até seu apartamento e se enfiou no seu lindo vestido azul-turquesa, que combinava com seus olhos e cabelos. Yamcha passou às sete e meia para leva-la ao jantar. Ela teve que tomar cuidado ao entrar no carro, pois caía uma chuva fria de outono, fina, constante e insistente.

Bulma gostava de festas, mas Yamcha explicou a ela que aquele jantar era formal e não uma festa com dança e música como ela gostava e que o comportamento dela deveria ser formal e delicado, nada de parecer muito espontânea. Era sua posição como médico que estava em jogo. E, para todos os efeitos, ela seria apresentada como noiva dele.

A festa era no luxuoso salão do Pavilhão Municipal de West City, que recebia apenas eventos importantes, luxuosos e exclusivos, no centro da cidade, e, apesar da chuva, as portas enormes estavam abertas e o salão iluminado, com seguranças de capa de chuva recebendo as pessoas que chegavam para o jantar.

Quando eles entraram no salão, onde serviam-se coquetéis, muitos médicos olharam furtivamente para o casal, especialmente para ela. Quase não conhecia colegas de Yamcha, que, no entanto, conhecia todos os seus amigos. Ele a levou até o grupo do hospital e ela reconheceu um médico entre eles:

– Doutor Whis! – ela cumprimentou um homem alto, de cabelo curto e platinado, pele pálida e olhos incrivelmente azuis.

– Bulma... – ele disse – como você está?

– Ótima! Não sabia que o senhor trabalhava no mesmo hospital que meu noivo.

– Ah, sim – ele sorriu – eu estou no setor de psiquiatria, mas só uma vez por semana vou lá, atender alguns pacientes. Minha irmã, a doutora Vados, que insiste, pois sabe que eu sou muito mais de consultório do que de clínica... mas você tem sido muito importante para o progresso de Vegeta, sabia?

– Tenho?

– Sim, tem... ele finalmente concordou em fazer um tratamento intensivo e se livrar da sua síndrome do pânico depois de uma conversa com você.

– É mesmo?

– Sim, querida... estamos desde o fim do verão com três sessões semanais... e nunca mais ele teve um ataque, já está confiante o suficiente para dispensar a enfermeira da noite, aquela que apenas dormia lá, e as duas do fim se semana passaram a ficar apenas 12 horas, como você.

Bulma sentiu um baque. Ele não havia dito nada daquilo para ela...

– Ele disse que você devolveu a ele parte da confiança que tinha... e estamos muito próximos do momento do confronto, quando ele se sentir preparado para tentar...

– Ora, irmãozinho... quem é essa linda moça?

Bulma virou-se e viu uma mulher alta e lindíssima, vestida com um vestido preto de um tecido que parecia brilhante e molhado e se moldava perfeitamente ao seu corpo, com um decote profundo e uma fenda de cada lado, que mostrava suas longas e intermináveis pernas. Ela tinha um cabelo tão platinado quanto o do psiquiatra e os mesmos olhos de um azul pálido, mas o rosto dela não era tão simpático e seus lábios eram finos e cruéis.

– Essa é minha noiva Bulma, doutora Vados – Yamcha saiu do grupo onde conversava e apresentou as duas. Bulma achou Vados assustadora, com aquele olhar de quem avaliava as pessoas o tempo todo, mas Yamcha, arrastando-a para a mesa dos dois, disse que esse era o jeito dela mesmo.

Depois, outros médicos se juntaram a eles, Bulma conheceu alguns colegas dele, e o diretor do hospital, um médico gordo e engraçado chamado Champa e encontrou ainda alguns médicos do hospital que ela havia trabalhado e sentiu-se adaptada, conversando alegremente com o doutor Whis, que conseguira ser remanejado para a mesa deles.

Quando era servida a sobremesa, começou o show de um cantor romântico conhecido. Ele cantava músicas de amor dele e de outros cantores e grupos. De repente, o celular de Yamcha começou a tocar e ele disse, baixo:

– Preciso sair para atender, é um sobre um paciente idoso com pneumonia. Já volto.

Bulma, como estava curtindo o show, apenas sacudiu a cabeça, sorrindo. Ela não percebeu o ar de reprovação no rosto de Whis, que estava sentado bem ao seu lado. O show seguia, e, quando já haviam passado três músicas, Bulma percebeu que Yamcha estava demorando e disse, preocupada:

– Onde será que ele foi?

Ela fez menção de se levantar e Whis segurou sua mão e perguntou, suavemente:

– Tem certeza que quer ir procurá-lo, querida? Ele pode já estar voltando.

– Mas ele está demorando muito – ela se levantou e não viu o olhar tristonho de Whis quando ela saiu para procurar Yamcha.

Não havia muitos lugares para onde ele pudesse ter ido. Ela olhou para a saída e a grande escadaria estava sob a chuva, que agora aumentara de intensidade e caía intensamente do lado de fora. Viu então um corredor lateral que levava, tanto aos toaletes como a um pátio interno, para o qual o acesso principal estava fechado, mas que era circulado pelo prédio e por corredores abertos por onde se podia andar

Bulma andou até ali, e não viu sinal de Yamcha, mas o portão que levava ao corredor que circundava o pátio estava aberto, de forma suspeita. Ela entrou e foi andando. O lugar estava escuro, e poucas luzes estavam acesas. Ela estava quase desistindo, quando ouviu um ruído vindo de uma porta lateral. Ela observou e viu luz saindo pela fresta. Era um depósito de material de limpeza, ou algo parecido, pelo que estava escrito na porta. Aproximou-se e ouviu uma voz feminina:

– Não, você não vai voltar antes de terminarmos aqui, gostosão... era o combinado lembra?

– Eu... ela vai perceber a minha falta... ugh... – Bulma gelou. Era a voz de Yamcha.

– Isso... mais fundo.,, sua... noivinha, ela faz assim? Ela faz melhor? Hein?

– Ahhh, pare com isso... você sabe que...

– Eu sei que eu sou melhor? Sim, sei... hum, eu... sei...

Bulma reconheceu a segunda voz, e aquilo a fez avançar até a porta, furiosa. Não havia tranca ou trinco, era a única porta que eles haviam achado aberta, e ela a abriu de supetão, para encontrar Yamcha e Vados encaixados pelos quadris. Ela tinha o vestido suspenso e uma das longas pernas levantada e apoiada numa prateleira do estreito depósito e ele tinha as calças abertas e a gravata frouxa.

– O que é isso? – Bulma perguntou, furiosa. – Não, Yamcha, não é algo que você simplesmente possa me explicar, porque não há explicação possível.

Ela ainda ficou um instante, olhando o casal. Vados não tinha, apesar da situação, sequer uma gota de suor no rosto ou nenhum fio de cabelo fora de lugar. Yamcha a empurrou suavemente e Bulma fechou os olhos porque a situação era simplesmente bizarra demais para acreditar.

– Querida... – disse Vados – o que nós temos aqui é um pequeno arranjo... não é fácil ser casada com um diretor de hospital de quase 60 anos, acima do peso. Eu dou algo a seu noivo que ele não tem, em troca, ele me dá algo que eu não tenho. E todos ficamos felizes, até mesmo você.

Ela olhou para a mulher e então para Yamcha, que abotoava as calças, mudo e envergonhado, de cabeça baixa. Bulma virou as costas e saiu, e Yamcha foi ao seu encalço, apavorado. Alcançou-a quase na porta do salão e disse:

– Bulma... eu,,,

– Pode explicar? É isso que vai dizer? Ou vai me pedir para não fazer uma cena, um escândalo? Será que isso tudo é amor, paixão ou simplesmente você é um cretino safado que não cabe com o pinto dentro das calças, Yamcha?

– Não – ele baixou a cabeça – Eu não fui justo com você mas não é como se eu estivesse apaixonado por ela... esse caso com a Vados me garantiu certos... privilégios que eu não tinha antes... e...

– Vai te ajudar a subir na carreira, afinal, ela é esposa do Champa. É isso?

– Bem... é mais ou menos isso.

– Ok, e eu tenho que acreditar que é apenas num casinho – ela disse baixo – apesar de ela parecer uma modelo não é como se ela fosse o amor da sua vida, não? Mas não deve ser chato dar um brilho na mulher do chefe em troca de privilégios.

– Eu... – ele não sabia o que dizer, porque não havia nada a ser dito.

– A gente acaba aqui, Yamcha. Depois eu te ligo e te digo como pegar suas coisas lá em casa.

Ela virou-se e desceu pelas escadas, sem querer saber se a chuva estava molhando seu lindo vestido ou estragando sua maquiagem ou seu penteado. A única coisa que sabia era que a chuva fria se misturava às suas lágrimas de ódio, tristeza e vergonha. Andou até um taxi e deu seu endereço, chorando copiosamente.

Ela pegou de repente o celular, pensando em pedir socorro a Lunch, Chichi, Suno ou qualquer amiga, então viu duas ligações perdidas de Vegeta. Viu que ele havia ligado para ela, provavelmente bem mais cedo, quando ela estava no cabeleireiro e tinha posto o celular no mudo. Talvez porque quisesse ouvir qualquer voz amiga, talvez porque tantas vezes ele tivesse soado desconfiado quando ela falava sobre Yamcha, ela acabou retornando sem pensar a ligação. Vegeta atendeu depois do segundo toque e disse:

– Bulma? Achei que tivesse uma festa hoje à noite.

– Vegeta – a voz dela saiu num soluço – eu preciso de ajuda...

– O que houve? Um acidente, algo grave?

– Não – ela sentiu vergonha de dizer e quase engasgou – Yamcha estava me traindo…

Um silêncio se fez do outro lado e logo depois Vegeta disse:

– Venha para cá, garota.

– Mas...

– Você me ajudou e cuidou de mim. Acho que é hora de retribuir. Não vou me aproveitar de você.

Ela engoliu em seco e disse ao motorista:

– Senhor... mudei de ideia. Me leve para Rua do Parque Central. Para a Torre Sadala.

Notas:

Momento para todo mundo gritar de ódio do Yamcha. Fiquem à vontade.

Vegeta já se apaixonou por Bulma e ela ainda não se deu conta disso. Por isso o ciúme.

O que Yamcha fez, obviamente, não tem perdão. Mas como Bulma vai reagir à traição e como Vegeta vai ajuda-la é o que importa de agora em diante. Vamos ver como as coisas se desenrolam...