Capítulo 15 – Fora do aquário

- Quero fazer um pacto pré-nupcial – disse Bulma, sentada no colo de Vegeta e sorrindo para ele.

Ele a encarou desconfiado. Então disse:

- Pactos pré-nupciais normalmente são propostos por homens na minha condição para protegerem seus bens quando se casam com mulheres mais pobres, mas eu confio em você, Bulma.

Ela riu e disse:

- Não é esse tipo de pacto, seu bobo. – ela deu nele um beijo de leve – eu não estou falando de bens materiais ou dinheiro. Estou falando de confiança.

- Ok – ele murmurou, ainda irritado.

- Eu gosto da sua mania de segredos quando se trata de boas surpresas, como essa – ela mostrou a casa – ou a caixinha de música que eu ganhei de Natal. Mas não quero nunca descobrir que você escondeu de mim uma recaída da depressão ou um novo pensamento suicida. Promete que vai confiar seus sentimentos a mim, Vegeta?

Ele a encarou, sério. Ele era um ser humano naturalmente fechado, desde criança. Orgulhoso, muitas vezes arrogante, e que sempre tinha acreditado que podia resolver tudo, inclusive o que guardava dentro de si mesmo, sozinho. Mas tinha sido justamente esse jeito de ser que o confinara naquela torre por cinco anos. Tinha sempre escondido seus sentimentos, frustrações e dores todas dentro dele como uma grande arca que ele trancara e decidira esquecer em algum lugar do porão da sua alma.

Só que Bulma tinha trazido luz para aquele porão. Ela tinha se interessado por ele como pessoa, sem nenhum interesse no que ele tinha, em quem ele era. Ela havia apenas se proposto a cuidar dele, e cuidara tão bem que ele havia se apaixonado por ela. Quando começou o caminho de volta, ele não sabia que ela estaria esperando por ele de braços abertos no final, apenas queria sair daquele estado de raiva e tristeza permanente, tinha começado o tratamento em busca de paz de espírito e tinha sido bom que ela só tivesse, de fato, se envolvido com ele no final do processo.

De repente, Vegeta sorriu para ela porque a entendia. Puxou-a para seu abraço e sussurrou no seu ouvido:

- A minha vida toda sempre acreditei em resolver tudo sozinho, e não depender de ninguém. Mas foi só quando você estendeu a mão para mim e me ajudou que eu percebi que não iria chegar a lugar algum sozinho. Eu prometo que se a escuridão voltar, eu te pedirei ajuda, e peço que também confie em mim. Aquele dia em que você chegou aqui, molhada e chorando porque tinha sido enganada foi muito importante para mim, porque mais cedo eu achei que você iria embora depois da grosseria que eu te fiz. Que bom que você não desistiu de mim e lembrou de mim pra pedir ajuda.

Ela o abraçou com mais força e ele disse:

- E sabe de uma coisa? Depois que você me deu aquela caneta nunca mais tive problema para assinar nada. Jamais me atreveria a perder a caneta que você me deu.

Ela riu e fechou os olhos, em paz finalmente nos braços fortes dele.

Ela optou por não se mudar imediatamente para o apartamento dele, e, pelo menos duas vezes na semana dormiam juntos no apartamento dela. Era como quando ele passava noites na casa do amigo Kakarotto quando era criança: havia um pouco de caos sem criados para arrumar tudo assim que necessário, mas havia vida e graça naquele ambiente.

Bulma tentava cozinhar para os dois, e ele ainda se divertia mais quando dava tudo errado e eles eram obrigados a pedir comida com ela choramingando que precisava tomar aulas com Chichi. Então, viam filmes juntos, na sala dela que parecia um ovo perto da dele, ou simplesmente ficavam juntos.

Numa dessas noites, estavam beijando-se no sofá dela quando ela começou a tirar a camiseta de malha dele que murmurou:

- Mas no sofá?

Ela sorriu, maliciosa e trouxe a cadeira de rodas dele para a sala, ordenando:

- Sente-se.

Ele se transferiu para a cadeira e ela tirou as calças dele, que, como sempre, estava sem nada por baixo, então, ela mesma tirou a roupa e acionou as travas da cadeira de rodas. Ele ficou contemplando-a conforme ela o acariciava deixando bem claro que não iriam para o quarto. Quando ele estava irremediavelmente excitado, ela o encarou e disse:

- Posso me sentar?

- Isso é um fetiche? – ele brincou, acariciando os cabelos dela

- Não... é mais uma experiência.

Sentou-se sobre ele, apoiando as pernas na lateral da cadeira e ele a sentiu, inteira, excitado por toda situação e assim, com ela movimentando-se e controlando tudo, chegaram a um orgasmo quase simultâneo. Quando estavam ofegantes, abraçados ele perguntou:

- Afinal, qual era a experiência?

Ela riu e disse:

- Nenhuma, mas se eu dissesse que era uma fantasia que eu alimentava desde antes da primeira vez da gente, você não ia ficar confortável.

- Que tipo de tarada fantasia com um homem numa cadeira de rodas? – ele brincou.

- Aquela que é apaixonada por um – ela respondeu, completando – mas acho que para dormir vai ser melhor irmos para a minha cama.

- Verdade – ele disse, destravando a cadeira e já direcionando-a para o quarto – mas sempre que você quiser, podemos repetir, de preferência, com a cadeira em movimento. Numa rampa.

- Quem é o tarado agora mesmo?

- Olha o que você despertou...

Mais tarde estavam deitados um de frente para o outro e ele disse:

- Sabe, Tenshin me disse que meu condicionamento e músculos são bons para tentar usar um equipamento para andar com a ajuda de muletas. Eu fiquei de pensar se quero dar esse passo.

- E você quer? – ela perguntou.

- Sinceramente? Não faz mais diferença para mim estar na cadeira de rodas. Eu não quero me submeter a um enorme e doloroso esforço só para dizer que consigo andar. Claro que eu antes tinha esperanças, e ainda tenho... tanto que ponho muito dinheiro mesmo em pesquisas sobre lesões como a minha e reabilitação ao redor do mundo. Se ainda na minha existência eu puder usufruir dos benefícios de uma dessas pesquisas, ótimo.

- E se não acontecer?

- Pelo menos eu terei contribuído de alguma forma. Antes disso tudo eu era egoísta e mesquinho. Agora não mais.

- "Quem planta tâmaras não colhe tâmaras" – disse Bulma, rindo.

- O quê?

- Dizem que um pé de tâmaras demora 80 anos para dar frutos.

- É mesmo?

- Não sei, mas a história que eu conheço é a de um velhinho que plantava tâmaras em seu quintal quando um jovem se aproximou e perguntou: "Sábio mestre, porque plantas tâmaras se jamais irá colhê-las?"

- E o que o velho respondeu?

- "É a merda do meu quintal, eu planto a porra que eu quiser, seu arrombado!"

Vegeta deu uma gargalhada e disse:

- Mas que mulher mais vulgar... você beija sua mãe com essa boca suja, Bulma?

- Não, mas vou beijar você! – ela disse e o puxou para um beijo.

Goku e Chichi voltaram da lua de mel no início de março e, numa bela manhã daquela primavera, Vegeta e Bulma oficializaram o noivado numa pequena festa no restaurante de Chichi. Logo depois, foram juntos ao casamento de Tenshinhan e Lunch, numa pequena capela fora da cidade.

Com os quatro sentados na mesma mesa, junto com Gohan, que saiu logo para brincar, e Goku mostrava para Vegeta o seu novo projeto, que ainda não estava concluído:

- Então, é uma reedição do Budokai, lembra? Aquele jogo que fez sucesso uns anos atrás, mas esse é por times.

- Porque aqui diz "Universos"

- Ah, é que eu imaginei uma realidade multiversal. Escolhe o universo sete, vai...

- Goku, já te falei para não falar de trabalho quando a gente está em momento de lazer! – Ralhou Chichi. – Isso está aborrecendo o Vegeta e a Bulma!

- Tudo bem – disse Vegeta e Bulma concordou – se eu não olhar esse troço Kakarotto vai ficar tentando falar nisso o fim de semana inteiro.

- Meu jogo não é um "troço" – disse Goku, ofendido.

- Tá, escolhe aí o universo 7... – disse Vegeta, aborrecido.

O jogo mostrou 10 lutadores e Vegeta riu quando se viu entre eles.

- Esse sou eu?

- Sim! E eu consegui uns acordos aí, o Jiren e o Toppo, da academia Proudtroop cederam a imagem também. Esse jogo vai ser irado! Olha, no nosso time eu coloquei o Tenshinhan, o Mestre Kame, lembra dele? E ainda o Kuririn e a namorada dele que luta também.

- E claro que tem você...

- Lógico que sim. – Goku sorriu.

Vegeta olhou para Bulma, que sorria e disse:

- Ok, Kakarotto, sinal verde, prossiga, prepare tudo para produzir seu jogo!

- Aha! Sabia que eu ia topar! Fiquei tão feliz que até vou te tirar para dançar, Chichi!

Ele puxou a esposa para a pista de dança e Bulma se aproximou, rindo, de Vegeta, que disse:

- Esse cara nunca vai sair dos 13 anos de idade, sabia?

Ela sorriu e deu um beijo de leve em Vegeta, perguntando:

- O que acha de dançar também?

Ele olhou para ela e sorriu antes de dizer:

- Nunca achei que parecia uma dança, mas se você quer, sobe aí.

Ela sentou-se no colo dele e o abraçou e ele começou, lentamente, a mover a cadeira ao som de "Unchained melody", tema do filme Ghost. De repente ele disse:

- Nunca entendi porque gostam tanto de tocar temas de filmes meio tristes em casamentos. Ghost, Titanic... nenhum desses filmes o casal acaba junto.

- Mas são muito românticos. Eu chorei assistindo Ghost.

- Você não conta, Bulma, você chorou assistindo Trolls, que até agora não sei como você me convenceu a assistir.

- A gente estava tomando conta do Gohan.

- Sim, e ele odiou o filme porque disse que não é mais criancinha. Só você para achar que um guri de dez anos ia gostar de um desenho onde criaturinhas pequenas peidam purpurina. E é musical ainda por cima!

- Quando tivermos nossos filhos, que filmes você vai querer assistir com eles?

Ele deu um suspiro profundo, resignado e disse:

- Eu já te disse que não sei se posso ter filhos... a lesão pode ter afetado a produção de esperma e...

- Vegeta. Você pode sim.

- Você é tão otimista...

Ela riu porque ele não tinha entendido. Então completou:

- Eu fui meio irresponsável porque não estava usando método nenhum quando nós... você sabe. – ele a olhou, de forma suspeita e ela seguiu – e, puxa, Vegeta... acho que seu esperma não tem problema nenhum.

Ele a olhou, aturdido. Quando eles haviam conversado sobre isso pela primeira vez, ela tinha demonstrado receio por não estar usando nenhum método anticoncepcional e ele a tranquilizara dizendo que não tinha certeza se conseguiria um dia engravidá-la. Ele a apertou com força e disse:

- Você tem certeza?

- Confirmei ontem – ela sussurrou – você está feliz? Queria mesmo filhos?

- Só de pensar na ideia, já me sinto feliz – ele beijou-a e disse – e vamos decorar um quarto lindo para ele ou ela na casa nova!

Os dois abraçaram-se, sentindo-se mais unidos que nunca.

No início do verão, casaram-se. E, novamente no restaurante de Chichi, com uma festa planejada por ela e Goku, que fez tudo para reunir a banda novamente, mas dessa vez de forma muito mais organizada e com Vegeta milagrosamente concordando antes, dizendo que não queria tocar outra guitarra que não fosse a sua Fender.

Bulma surgiu, linda num vestido azulado com detalhes brancos, a discreta barriguinha de grávida já aparecendo, de braço dado com seu pai, e o coração de Vegeta disparou.

Diante do celebrante, os dois prometerem amar-se e respeitar-se e dividir os bons e maus momentos da vida, que certamente viriam. E um instante antes de beijarem-se, Vegeta disse, num sussurro:

- Não esqueci nosso pacto.

Ela sorriu para ele e disse:

- Eu sei.

Claro que a festa foi maravilhosa, com os convidados gritando quando Vegeta introduziu "Sweet child o' mine" e Raditz começou a cantar, o sério advogado transformado num carismático e cabeludo cantor de rock. Vendo os 4 juntos, Vegeta, Goku, Turles e Raditz, Bulma pensou que a banda "Os Sayajins" só não tinha dado certo mesmo porque todos eles precisaram cuidar de outras coisas na sua vida. Mas que enquanto pudessem se encontrar e tocar, o sonho da juventude estaria ali, intacto.

Quando Bulma jogou o buquê, a Lazuli e Tights disputaram-no a tapa, mas a namorada do motorista baixinho acabou levando a melhor. Caulifla, que tinha ficado na direção do buquê sem querer, tinha dado um passo para o lado para fugir dele e Tarble fez uma graça, fingindo uma cara de decepção.

Bulma viu Kuririn recebendo um beijo da loura bonita e alta e lembrou-se de quando ele namorava a antipática Maron e perguntou para Chichi como ele tinha acabado com aquela outra moça.

- Ah, os dois levaram pé na bunda na mesma época e acabaram se consolando mutuamente – disse ela disse, e Bulma percebeu, pelo nível de descontração, que a festa tinha sido tão boa que até mesmo a rígida chef tinha saído do sério.

Naquela mesma noite, Vegeta e Bulma partiram para sua lua de mel, num cruzeiro de 30 dias que iria passar por lugares lindos até terminar na costa da Nova Zelândia. Quando se deitaram juntos, na elegante suíte reservada para eles, Bulma perguntou:

- O que será de nós quando nosso menino nascer?

Ele olhou para ela. Não era mais o homem danificado e inseguro que entrara na vida dela para mudar tudo, um ano antes. Cheio de confiança, ele disse, puxando-a para o seu abraço:

- Seremos uma família.

Fim.

Notas:

Se você acompanhou a história até aqui MUITO OBRIGADA! Foi escrita com muito carinho, para mostrar que mesmo nos momentos mais difíceis, a luz está lá, no fim do túnel, esperando por nós...

Quis os destino que eu terminasse essa história na semana em que eu fiquei sabendo que tinha um longo desafio pela frente, e hoje parte desse desafio já ficou para trás: aos amigos, muito obrigada por tudo nesses últimos seis meses.

São muitas, muitas pessoas que eu gostaria de agradecer por tudo, e para não esquecer de ninguém, fica aqui meu carinho a todos. Vocês são DEMAIS.