(Santana)
"San, não estou entendendo esse jogo!"
"Bom, você só precisa tentar adivinhar a sequência de cores que escolhi. Eu vou colocar o pino preto se você acertar uma das combinações e brancos se acertar as cores, mas no lugar errado".
"Ainda continua confuso. Não é melhor a gente jogar videogame? Eu gosto de Mário!"
"Você é boa demais em Mário Kart! É impossível te vencer!"
"Bom, se você chamar Rachel para brincar com a gente, não vai ficar tão frustrada porque você sempre ganha dela."
"Rachel está muito chata! Só quer saber dessas competições de dança e de canto. O pior de tudo é ser arrastada pelos meus pais para vê-la se esgoelar na frente das pessoas."
"Eu acho que Rach canta bem, mas eu danço melhor do que ela!"
"De acordo! Com a parte da dança... aliás, você é quase imbatível com os pés."
Quando Brittany não entendia um jogo de tabuleiro, mesmo depois que se tenha explicado as regras uma dúzia de vezes, então era melhor esquecer. Devia ter aprendido que o único jogo de tabuleiro que realmente a deixava feliz era o Jogo da Vida, porque era um lugar onde ela poderia sonhar em ser médica, ter seis filhos, um marido e muito dinheiro no bolso. Eu desejava, do fundo do meu coração, tudo isso à minha melhor amiga. Mas sabia que ela jamais seria uma médica como papi. No máximo, uma dessas pessoas que aprendiam com os avós quais eram as ervas certas para curar doenças simples.
Mesmo que ela não entendesse a lógica dos jogos de tabuleiro que eu mais gostava, ou que fizesse uma bagunça tremenda com o meu laboratório de química a ponto de criar alguma coisa maluca que fez um buraco no meu tapete, eu a adorava. Gostava mais de ficar com Britt do que com a minha irmã. Podia falar qualquer coisa com ela. Podia discutir situações na escola, falar sobre os garotos ou de como a série Grey's Anatomy era idiota. Tudo bem que conversava sobre televisão e sobre a escola com meus pais, só que não era a mesma coisa. Eles não entenderiam certas coisas não porque nunca foram adolescentes (óbvio), mas porque não eram garotas. Claro que tinha Rachel... bom, eu odiava falar com a minha irmã porque ela sempre tinha uma lição de moral, como se ela fosse uma entidade superior, como se fosse alguém perfeito.
Não me lembro ao certo de quando deixei de conversar certas coisas com minha irmã. Tem a ver com o fato de termos poucos gostos em comum. Pra começar: ela adotou recentemente uma dieta vegana que me dá nojo. Papai é vegetariano, mas pelo menos ele não é irritante. Rachel não: ela faz cara feia quando papi e eu comemos carne e, dependendo do dia, ainda faz discursos sobre a crueldade feita com os animais.
Eu tenho pena sim dos animais, só que me apego a dois pensamentos poderosos:
1: o que os olhos não vêem o coração não sente;
2: meu humor melhora muito quando degusto um delicioso churrasco, ou um belo macarrão à bolonhesa.
Além de me irritar na hora das refeições, Rachel ainda passa boa parte do tempo falando dos planos dela em ser uma estrela da Broadway. Tudo bem que ela pode fazer os planos que quiser. Eu mesma já quis ser astronauta e nem por isso precisei ficar obcecada com a Nasa e ainda irritar a minha família por causa disso.
A grande verdade é que a minha irmã é uma chata que só sabe falar da 'Bostaway', de ficar cantando trilha de musical, e fazer todos esses cursos idiotas de dança e canto que estão disponíveis aqui em Lima. Será que ela não se manca? Que futuro e preparo um curso feito em Lima pode trazer? Sério? Ela participa dessas competições estaduais e nem sequer entende que a qualidade da concorrência é sofrível. Rachel sequer gostava mais de brincar com os garotos do bairro ou com os meninos da sinagoga. Se não fosse por mim, ela ficaria isolada.
Muitos dos garotos da escola enchem nosso saco porque temos dois pais. Eu defendia a honra deles e Britt me ajudava às vezes. Rachel ficava ouvindo as barbaridades como se não se importasse. Odiava isso nela. Antes, pelo menos, ela reagia. Agora se faz surda. Era preciso eu arrastá-la para nossas aventuras e nossos atos de vingança. Mais uma razão para gostar mais da Britt: ela me entendia, não me dava sermões e me ajudava.
Eu a conheci aos sete anos. Certo dia, a mãe de Brittany sofreu um acidente doméstico e a família Pierce correu para o hospital. Nesse mesmo dia, papai tinha viajado com alguns alunos e papi tinha de trabalhar no hospital. Acho que não tinha ninguém com quem nos deixar e a única babá que nossos pais confiavam, fora abuela, estava doente. Por isso tivemos de ficar no centro recreativo do hospital. Eu não gostava daquele lugar porque o cheiro era estranho. Era onde ficavam as crianças internadas que podiam sair dos quartos, geralmente aqueles que estavam recebendo tratamento de câncer, e também outros filhos de médicos. Tinha sempre uma monitora por perto e eu também não gostava dela. Mas naquele dia, só eu e Rachel estávamos ali. Minha irmã brincava com as bonecas enquanto eu desenhava um castelo. Foi quando a vi.
Brittany era a menina mais bonita que tinha visto na vida. Ela tinha olhos azuis incríveis, cabelos loiros e parecia um anjo. O mais puro deles. Britt se aproximou e perguntou o que eu estava desenhando. Logo estávamos conversando sobre dragões. A imaginação dela era incrível. Desde então, nunca mais nos separamos. Papi curou a mãe da Britt e nossas famílias se tornaram amigas. Tem sido assim há quatro anos.
"Puck me beijou!" Brittany disse enquanto eu organizava o meu jogo. Não sei por que, mas isso fez o meu coração parar.
"O quê?" Queria entender direito. Queria ter certeza que tinha ouvido direito.
"Na boca! Ele foi à minha casa e me beijou".
"Com a boca fechada ou foi um beijo francês?"
"Beijo francês?"
"Com a boca aberta! Igual naqueles filmes ou como naquele dia em que a gente flagrou os meus pais na estufa..." Senti o meu rosto ficar quente.
"Oh! Foi com a boca fechada." Senti um alívio, mas ainda não entendia a razão.
"Co-como foi? F-foi bom?"
"Foi esquisito. Posso te mostrar se quiser." Meu rosto ficou ainda mais quente se é que era possível, e senti algo estranho no estômago. Era como se ele estivesse infestado de borboletas que voavam tentando escapar lá de dentro, mas não sabiam onde estava a saída.
"Eu não sei..."
Brittany não esperou uma resposta. Ela se aproximou e encostou os lábios nos meus. Até aí nenhuma novidade porque eu dava selinhos nos lábios nos meus pais e, às vezes, muito raramente, em Rachel. Ou em abuela quando era menor, apesar de ela não aceitar mais esse tipo de carinho. Dizia que Rachel e eu estávamos velhas demais para isso no alto dos nossos 11 anos. Mas Brittany ficou ali parada e as coisas começaram a ficar diferentes. Ela começou a mover os lábios devagar contra os meus. Eles estavam molhados e era gostoso. Senti uma moleza boa no corpo e fechei os olhos. Nunca pensei que beijar alguém nos lábios pudesse ser tão bom e eu passei a entender porque algumas garotas da escola estavam tão obcecadas nisso.
Mas não durou muito. Ouvi batidas à porta e no susto, separei-me de Britt. Meu coração estava disparado.
"Santana!" Ouvi a voz de Rachel do outro lado. "Posso entrar?"
"Nem a pau, purgante. Sai daqui!" Fiquei revoltada com a intromissão de Rachel. Ela sempre aparecia nos momentos mais inoportunos.
"Mas é uma emergência!" Ela apelou. Parecia que ia chorar e isso chamou a minha atenção apesar de estar experimentando naquele momento um turbilhão de sentimentos. Levantei-me do tapete e abri a porta preparada para gritar com ela. Mas quando vi Rachel assustada e com os olhos umedecidos, fiquei preocupada.
"O que foi?"
"Acho que o papai brigou na rua. Ele voltou para casa com os lábios cortados e agora está lá na biblioteca. Acho que ele está falando com o advogado!"
Acho que o coração jovem devia ser muito resistente porque o meu havia disparado diversas vezes em poucos minutos.
"Precisamos descobrir o que aconteceu!" Tomei a liderança, como sempre fazia, e descemos as escadas.
A porta da biblioteca era reforçada para funcionar como um isolante acústico. A gente podia berrar lá dentro que ninguém em casa iria escutar algo além de um som abafado. Também não se ouvia quase nada de barulhos externos lá dentro. A não ser perto da janela, que não era feita com vidros adequados para isolar o som. A porta estava fechada, então Rachel, Brittany e eu saímos pela cozinha – que dava para o jardim – e demos a volta pela casa até a janela da biblioteca. Ela estava aberta, por isso nos aproximamos engatinhando pelo gramado. Dali era possível escutar papai gritando ao telefone.
"... como não será possível processar esse cretino? Então agora é permitido que imbecis como Russell Fabray saiam provocando pessoas na rua sem punição? (...) Claro que revidei! (...) Você é pago para ser advogado dessa família, então por que não começa a agir como tal? (...) Não dá (...) Claro que estou de cabeça quente! (...) Tá... vou conversar com Juan (...) Certo... (...) Certo (...) Vou aguardar".
Ouvimos papai desligar o telefone. Devagar, ergui o corpo o suficiente para espiar no canto da janela. Papai estava sentado na poltrona com as mãos sobre os olhos, daquele jeito quando o polegar fica massageando uma das têmporas. Ele estava mesmo com a cara amassada. Quer dizer, papai era botânico e nós dois éramos os aventureiros da casa. Mas chegar com a camisa suja de barro depois de uma caminhada ou de visitas às estufas de cultivos que ficavam no condado era diferente e estar com a camisa meio rasgada na gola e os lábios sangrando. Papai era muito branco, tinha olhos verdes, como os de bubbee, e os cabelos escuros. Só que, naquele momento, ele estava vermelho como pimentão por causa de uma briga com o nojento do Russell Fabray.
Muitas pessoas em Lima olhavam atravessado para os meus pais. Quando Rachel e eu éramos menores, presenciávamos algumas cenas horríveis causados pelo preconceito de certas pessoas. Gente que literalmente cuspia no chão, diante dos nossos pais. Mas em Lima, por mais que algumas pessoas virassem o rosto ou fizessem alguma grosseria, raramente alguém agredia a tal ponto que a discussão terminasse em briga. A não ser Russell Fabray e seus comparsas metidos a machões. Eles não brigavam a princípio, mas faziam comentários cruéis, sobretudo quando papai estava sem papi. Até porque Fabray e os outros não enfrentavam papi: eles apanhariam por encarar um ex-jogador de futebol americano alto e forte. E como papi era cirurgião, ele conhecia todos os lugares certos para se bater.
Abaixei e fiz sinal para que as meninas me seguissem até a casa da piscina. Lá era um lugar seguro para a gente conspirar sem chamar atenção de papai ou de Clara, que estava fazendo uma faxina especial nos armários da garagem.
"É claro que aquele babaca do Fabray atacou papai! Aquela família é podre, Ray." Esbravejei enquanto andava de um lado para outro.
"Mas o que podemos fazer?" Rachel estava resignada.
"O que a gente sempre faz!" Tínhamos algumas estratégias de vingança contra os Fabray. Eu tinha escrito até um pequeno manual de travessuras que podíamos fazer contra aquela gente racista.
"Jogar papel higiênico? De novo?" Rachel revirou os olhos. "A gente já fez isso no mês passado e acho que está na hora de crescermos! Não é melhor deixar os adultos resolverem?"
"Não! Eu odiaria cruzar meus braços e não fazer nada!"
"O que tem em mente?" Rachel perguntou suspirando.
"Desta vez vamos usar ovos!"
"Você vai jogar ovos na casa dos Fabray?" Brittany se assustou. Eu nunca tinha jogado ovo em casas alheias, mas aquele bastardo merecia. "San, isso pode ser perigoso".
"Rachel e eu estamos acostumadas!" Passei a mão com carinho no rosto da minha amiga. "Não se preocupe, ok?"
"Mas San..."
"Britt, é uma coisa que a gente precisa fazer. É só você não contar... pra ninguém!" Procurei enfatizar. Tinha de ser assim ou ela contaria a travessura para os pais dela e eu não queria que eles dessem um tempo, como aconteceu uma vez e Britt passou quase três meses sem poder me visitar.
"Eu não conto!"
"Nem pro seu gato!"
"Mas San..." Brittany estava aflita de verdade.
"Ok, Barão Frutchman pode saber. Mas só ele!"
Brittany ficou satisfeita em poder contar o segredo para o gato, mas sabia que isso não a deixaria menos preocupada conosco.
"Qual é o plano, Santy?" Rachel devia estar com raiva, porque ela sequer tentou me fazer mudar de idéia. Mas por mais irritante que Rachel possa ser, ao menos ela não era uma total fresca e covarde.
Eu era a garota dos planos. Respirei fundo e tracei uma estratégia. Então nos movimentamos. Fingi que não sabia que papai estava em casa, por isso Rachel e eu pegamos as bicicletas e gritamos para Clara que estávamos indo ao mercadinho comprar algumas balinhas, o que era verdade, menos a parte das balinhas. Era neste lugar que ficava na avenida que dividia o meu bairro com o Country Club, o lugar das grandes mansões de Lima. Entramos e a senhora Spilter estranhou a nossa compra: duas dúzias de ovos: algo diferente dos costumeiros chocolates, chicletes, cupcakes (eram os melhores da região) e revistas. Agradeci silenciosamente por ela não ter feito perguntas. Isso deixava Brittany nervosa.
Voltamos para casa e deixamos o saco com os ovos perto das bicicletas, que ficaram na lateral da nossa casa em vez de na garagem, com era de costume. Assim não teríamos de abrir a porta da garagem na hora de sair, o que chamaria a atenção dos nossos pais. Entramos em casa e ficamos na sala de televisão jogando Mário Kart até o pai da Britt tocar a buzina para buscá-la. Coincidiu de papi chegar em casa do hospital. Ele mal falou conosco. Foi direto falar com papai, na certa já ciente de toda confusão. Melhor para mim e Rachel. Jantamos em silêncio, algo raro naquela casa, depois Rachel e eu subimos para o meu quarto e matamos um pouco mais de tempo fazendo as tarefas da escola. Depois fingimos adormecer em cima da minha cama.
Papi e papai passaram por lá e deram boa noite. Tinha chegado a hora. Assim que eles entraram no quarto deles e fecharam a porta, Rachel e eu vestimos roupas escuras e descemos as escadas. Saímos pela porta da cozinha, porque fazia menos barulho, pegamos nossas bicicletas, os ovos e só começamos a pedalar no fim da nossa rua. A casa dos Fabray estava a 10 minutos de pedaladas. Quando entramos na rua deles, eu "desci" a minha touca preta que tinha dois buracos para os olhos enquanto Rachel colocou o boné dos Browns. Colocamos nossas bicicletas em frente a casa vizinha e dividimos os ovos. Precisávamos agir muito rápido.
A casa dos Fabray era uma de dois andares pintada de branco com um jardim vem cuidado logo na entrada com uma macieira no meio. Podia sentir que Rachel estava com medo. Ela ficou ao lado da árvore como se pensasse se deveria ou não atirar. Eu não quis saber. Dei uma rápida espiada na casa. As luzes do térreo estavam apagadas e a porta da garagem suspensa talvez por causa de algum reparo. Seja por qual motivo, encarei aquilo como um presente. Jogar ovos no carro de Russell Fabray era um bom negócio. Não perdi o meu tempo. Esvaziei minha sacola com ovos em tempo recorde, estourei todos os meus doze mísseis orgânicos na lataria e nos vidros. Deveria ter tirado fotografia da minha obra de arte. Então ouvi movimentação e corri dali. O velho Russell era louco capaz de jogar o carro em cima de alguém.
Rachel ainda estava ao lado da árvore jogando alguns ovos o mesmo lugar da parede. Uma luz se acendeu e Quinn Fabray apareceu na janela. Pelo menos eu achava que era ela, porque se fosse a outra praga, a Frannie, ela já teria berrado. Pensoq eu por aquele ângulo e distância, Quinn não poderia nos reconhecer, por isso enfiei a mão no saco de Rachel e joguei um ovo na direção dela. Quase acertei na janela apesar de ter mirado para dentro do quarto, mas foi o suficiente para fazer aquela menina sair dali.
"Corre! Vai pra casa!" Tomei o saco de ovos de Rachel e ela obedeceu. Sempre obedecia. Minha irmã correu até a bicicleta e saiu em disparada. A gente tinha um ponto de encontro para essas situações.
O velho Fabray saiu de casa com uma pistola. Ele era louco. Um psicopata homofóbico e racista. Quando ele apontou a arma para mim, por instinto joguei a sacola com o resto dos ovos da direção dele, para acertar. Acho que fui bem sucedida porque isso me deu tempo de correr e pegar a minha bicicleta. Comecei a pedalar sem olhar para trás, até que, no final da rua senti uma ferroada nas costas. Aquilo doeu a alma e caí no gramado. Mas não tinha tempo para chorar. Subi de novo na minha bicicleta e continuei em disparada. Sabia que ele estava na minha cola porque ouvi outro tiro. Foi um alívio ele ter errado o alvo: eu.
As minhas costas ardiam e queria chorar. Só que não podia porque as lágrimas embaçariam minha visão e poderia cair novamente. Era melhor resistir até onde podia. Foi um alívio quando perceber que ele não estava mais na minha cola. Respirei fundo e diminuí o ritmo das pedalas até encontrar com Rachel na esquina da rua que antecedia a nossa. Só então pude chorar. Como minhas costas ardiam. Parecia que estava pegando fogo. Rachel levantou a minha blusa de frio e minha camiseta para ver o estrago.
"Não foi nada!" Ela disse com a voz trêmula e tinha certeza que estava mentindo. "Acho que só foi o impacto!"
"Ok!" Limpei minhas lágrimas e seguimos andando para casa.
Nossa casa estava com as luzes apagadas, menos o quarto dos meus pais, cuja janela dava para a rua. Rachel e eu tivemos o cuidado de deixar as nossas bicicletas novamente na lateral da casa para não levantar suspeitas. Entramos pela porta da cozinha, subimos as escadas com todo cuidado e nos trancamos no meu quarto. Não sei como conseguir fazer tudo sem fazer nossos pais nos flagrarem. Também não sei como sequer subi as escadas com as pernas bambas como gelatina. Sentei na minha cama e Rachel deu mais uma boa olhada no tiro que levei nas costas.
"Precisa fazer um curativo!" Rachel alertou e correu para o nosso banheiro.
Papai tinha ensinado inúmeras vezes como desinfetar machucados e fazer curativos. Foi o que Rachel fez comigo enquanto eu mordia o travesseiro para não gritar. A bala furou a minha camisa e entrou na pele, mas não na carne. Só consegui relaxar quando Rachel colocou a gaze depois de ter feito todo curativo. Ela me puxou para a cama e me cobriu com o lençol e a manta por cima. Depois se movimentou para guardar a nossa pequena farmácia enquanto fiquei quietinha, choramingando baixinho porque a dor nas costas ainda era considerável. Eu poderia pedir um remédio para papi, mas para isso teria de revelar nossa aventura. Era melhor agüentar.
Minutos depois, senti a minha cama balançando e Rachel deitou-se ao meu lado. Não me importei.
Amanheci com a minha irmã fazendo o papel de concha maior, mesmo sendo menor do que eu. Não me importei. Nos arrumamos em silêncio para mais um dia na escola. Pouco depois cruzei com Quinn Fabray nos armários. Ela fazia a mesma série que nós. Sei que ela jamais me reconheceria por causa da máscara, mas poderia ligar os pontos em relação a minha dor não disfarçada nas costas e o tiro que o pai dela possivelmente comentou. Ela também poderia ter reconhecido Rachel, que só usou o boné e o cabelo amarrado.
"Oi." Quinn me cumprimentou. Ela nunca trocava uma palavra comigo.
"Oi." Respondi sem saber quais eram as intenções dela.
Quinn disse mais nada e ficou na dela, como sempre.
...
Observei Quinn por uma semana na escola e ela, que era caladona, continuou sem comentar uma vírgula que fosse sobre o episódio dos ovos. Já tinha a ouvido conversar sobre os marginais que jogaram papel higiênico no jardim e na árvore. Ovos? Nada! Talvez ela não tivesse nos reconhecido. Se o fez, nunca mencionou.
