(Rachel)
A primeira menstruação costuma ser um divisor de águas na vida de qualquer menina. Muitas vezes ela confirma o que já está presente no corpo e nas atitudes: é a entrada sem volta para a adolescência. Eu entendia bem a inevitabilidade do amadurecimento do corpo. Podia ver a pelagem que invadia minhas partes íntimas e debaixo dos meus braços. Nunca fui uma criança peluda, mas as minhas pernas estavam diferentes. Olhava minha imagem no espelho e ficava frustrada com os dois caroços que cresciam por dentro das minhas auréolas e faziam com que elas ficassem estufadas e doloridas. Achava que meu quadril estava um pouco mais largo. Pelo menos mais do que o de Santana. E minhas pernas eram compridas e desproporcionais. Ainda assim, continuava a ser uma menina baixinha.
Brittany já tinha períodos. Ela menstruou aos 11 anos, mas este era um assunto que Santana evitava. Achava repugnante a idéia de que a nossa amiga poderia ter um bebê e que ela não podia cair na piscina ou vestir o biquíni em alguns dias do mês. Mas ainda tinha minhas dúvidas. Brittany tinha um corpo lindo e muito mais harmonioso do que o meu desengonçado. Minha voz estava difícil de controlar nas aulas de canto porque ela estava se modificando e amadurecendo. Não era como a dos meninos, ainda assim uma pessoa com ouvido sensível para a música como o meu perceberia. Estava difícil domar certas notas, em especial as mais altas. Às vezes tropeçava no nada nas minhas aulas de dança e a professora da companhia comunitária de teatro tinha dificuldade de me enquadrar. Ou ela preferia Dolores, a menina de 14 anos, para os papeis mais velhos, ou as outras garotas de 9 anos para fazer literalmente as crianças. E eu ali naquele plano intermediário estranho.
Se menstruação significasse que toda essa angústia ia acabar, que assim seja. Por outro lado, Santana tinha razão ao dizer que era algo nojento sangrar entre as pernas. Imagine? Suspirei diante do espelho e terminei de vestir a minha roupa. Ainda tinha neve lá fora e precisava ir à escola, mesmo que não estivesse disposta. Encontrei Santana e meus pais na cozinha tomando café da manhã.
"Buenos días, mi estrellita." Meu pai foi o primeiro a me receber com um beijo na minha cabeça.
"Buenos días, papi." Forcei um sorriso. "Bom dia, papai" Sentei ao balcão da cozinha e tratei de me servir com frutas, pão integral, geléia e chá.
"Você dormiu comigo?" Santana resmungou.
"Desde quando se importa se desejo ou não um bom dia a você?"
"Desde quando eu sou civilizada e você é uma toupeira."
"Muito inteligente! Interessante que a sua extraordinária habilidade com números não consegue se repetir com as palavras ou na capacidade de produzir um bom argumento. Seria isto um estranho bloqueio?" Encarei minha irmã e Santana apertou os olhos, daquele jeito que prometia volta e me fazia temer por minha integridade física.
"Vocês duas podem parar agora!"Papai advertiu. "Essa lengalenga todo santo dia é dose!"
"Aborrescentes!" Meu pai sorriu e bebeu um pouco do chá.
"Bem que avisaram que a gente ainda tinha visto nada." Os dois trocaram sorrisos e foi a vez da minha irmã e eu revirarmos os olhos. "Meninas... horário!" Apontou para o relógio. Eu sempre apressava o meu café, mas Santana ignorava. Apesar dos diários esforços dela, a gente não chegava atrasada a escola. Papai sabia a controlar.
Terminamos nossa refeição e eu só tive o trabalho de pegar a minha mochila em cima do sofá enquanto Santana sempre voltava ao quarto porque esquecia alguma coisa. Entrei no banco de trás do jipe, sempre atrás do motorista, que era o meu lugar cativo. Santana, como sempre, tentava persuadir papai a deixá-la sentar no banco da frente. Era uma luta perdida que ela insistia em travar todo santo dia. Acabou, como sempre, me fazendo companhia no banco de trás. Isso me dava alguma satisfação. Chegamos à nossa pequena Junior High School e Santana, como sempre, foi a primeira a descer sem falar com ninguém e a correr para longe do carro. Eu esperava para ver se papai tinha algo a dizer.
"Seu pai vem buscá-las, por isso não enrolem." E me deu duas notas de dez dólares. Metade era da minha irmã e sabia que por volta da hora do lanche ela iria atrás de mim pelo dinheiro. "Tenha um bom dia, docinho."
"Obrigada, papai."
Não tinha muitos amigos na Junior High. A maioria dos colegas me achava chata ou simplesmente não entendia a razão por buscar sempre a excelência para tudo que me propunha a fazer. Com tempo, aprendi a aceitar que era solitário ser perfeccionista. A primeira aula era de educação física. Odiava. Gostava de fazer exercícios, ginástica. Mas as minhas habilidades motoras não eram compatíveis a qualquer coisa que envolvesse uma bola. Eu sempre fui a pior jogadora do time de futebol que se reunia no parque, e só era escalada porque Santana mandava os meninos me escolherem. Ela sempre foi a craque da equipe, e eu sempre fui a última a ser escolhida. Faz dois anos que decretei a minha aposentadoria neste esporte e penso que essa foi uma das coisas, entre dezenas, que fez Santana começar a me ignorar.
A aula era uma dinâmica estranha com bolas de basquete. Resmunguei e pedi para a professora me deixar de fora. Ao menos a minha desculpa era real desta vez: estava sentindo cólicas. Ela me deixou de fora contanto que desse pelo menos duas voltas correndo pela quadra do ginásio. Cumpri minha parte e depois sentei no chão com as pernas cruzadas no canto da quadra. Santana e Brittany estavam concentradas no jogo. As duas pareciam animais prontos a degolar as outras garotas. A maioria estava envolvida com aquela coisa com bola. Algumas, no entanto, faziam companhia a mim. Entre elas, Quinn Fabray.
Ela não falava comigo ou com minha irmã a não ser que fosse necessário. Acho que era uma proibição do pai dela, Russell Fabray. Quinn parecia não ter muitos amigos na escola, assim como eu. Ela ficava sempre na dela lendo alguma coisa no almoço ou na biblioteca. Era um pouco gordinha, mas longe de ser obesa, e tinha um jeito tímido. O cabelo loiro estava cortado na altura dos ombros, e a cor dos olhos era incrível. Quinn tinha tudo para se tornar a menina mais bonita da escola e tinha certeza que um dia ela seria. Voltei a minha atenção no jogo a tempo de poder desviar de uma bolada de basquete.
"Belo reflexo, nanica!" Ouvi minha irmã me cumprimentando. Não respondi. O jogo das meninas continuou.
"Sua irmã joga sempre bolas em cima de você?" Fiquei surpresa ao ver que era Quinn quem perguntava.
"Foi ela? Não prestei atenção."
"Não parece surpresa." Ela parecia estar genuinamente curiosa.
"Já me acostumei."
"Oh!"
"Coisas de irmãs, eu acho. A sua é chata contigo?"
"Frannie?" Sim, Frannie, aquela garota horrível e intransigente de que me lembrava. "Minha irmã é mandona, mas ela sabe das coisas."
Eu nem queria imaginar que tipo de coisas Frannie deveria saber. O que sei é que nosso papo terminou ali. Logo o sinal tocou indicando o fim da aula, e nós fomos para o vestiário trocar nossas roupas. O chato é que essa cólica não passava.
O resto do horário escolar aconteceu sem maiores problemas, apesar do contínuo incômodo no meu ventre. Tive aulas de história, de inglês e de matemática. Eu gostava das aulas de inglês, porém matemática era um drama. O livro de Santana estava todo resolvido. Nada de cópia. Ela mesma tinha aprendido tudo sem a ajuda da professora e isso era um problema. Santana só emprestava o livro dela para Brittany, ensinava algumas coisas a nossa amiga e passava o resto da aula desviando a atenção dos outros alunos. A minha, inclusive. Muitas vezes, a professora levava material extra para manter minha irmã quieta nem que fosse por meia hora. Costumava dar certo.
Maus pais levaram Santana para fazer testes de QI para determinar se ela era superdotada. Realmente ela tem um QI acima da média quando se referia, em especial, à capacidade de abstração, ou seja, para matemática. No entanto, para as outras disciplinas, minha irmã não era tão mais esperta do que as outras crianças. Isso foi uma das razões para que meus pais deixassem que ela freqüentasse uma escola normal, comigo.
"Meu pai vem nos buscar." Avisei Santana quando o sinal da última aula tocou. "Não se atrase."
"Não enche!"
Era sempre assim. Ela ligava os pinkies com Brittany e saía para conversar com alguém. Ultimamente as duas se exibiam para os garotos. Santana achava que eu era uma boba, que não observava essas coisas. No fundo, torcia para que meu pai a flagrasse numa dessas exibições. Bravo do jeito que era, abaixaria a crista dela em dois tempos. Enquanto esperava meu pai, verificava minha agenda: hoje teria apenas aula de canto às 17h. Poderia ir de bicicleta, mas ainda estava escorregadio e frio demais para se arriscar em cima de uma. Teria de pedir a papai para me levar, embora soubesse que ele estava perfeitamente ciente do meu compromisso. Papai gostava de me ver ensaiar sempre que tinha a oportunidade. Dizia que um dia eu seria uma grande diva da Broadway.
"Rachel!" Meu pai gritou de dentro do Honda Civic recém adquirido. Olhei para os lados e como sempre minha irmã não estava por perto.
"Oi papi!" Entrei no carro no banco de trás.
"Cadê sua irmã?"
"Estou ligando para ela..." Peguei meu celular e pressionei a tecla em cima do nome dela.
Não precisava. Ela logo saiu de dentro do prédio e sentou ao meu lado no banco de trás sem dizer uma palavra.
"Como foi a escola hoje?"
"Proveitoso." Eu disse.
"Normal." Santana disse meio emburrada.
Sentia que a minha cólica se apertava e desejava chegar logo em casa. Não tinha vontade de conversar com meu pai durante o trajeto. Quando o carro parou na garagem, fui a primeira a descer. Deixei minhas coisas e meu casaco grosso no meu quarto e segui para o banheiro. Queria me livrar daquelas roupas de frio e cochilar um pouco antes da aula de canto. Quando me sentei no sanitário e desci a roupa, minha respiração se alterou ao ver sangue na minha calcinha. Travei o xixi e fiquei com medo de me limpar com o papel higiênico. E se tivesse me cortado de alguma forma? E se fosse uma hemorragia? E se eu tivesse de operar, como nas dezenas de casos que meu pai pegava? Não sabia o que fazer. Não sabia se chorava, se pedia ajuda ou se desmaiava ali mesmo. Foi quando Santana invadiu o banheiro.
"Já terminou? Eu preciso..." Ela parou de falar quando me viu pálida. Então eu mostrei minha calcinha suja de sangue. "Você menstruou?" Ela sussurrou. "Que nojo!" Deu dois passos para trás até bater as costas contra a porta. Se tivesse poderes de atravessar a madeira, tenho certeza que o faria.
A palavra ressonou na minha mente: menstruação. Minha primeira. Comecei a chorar. Não estava psicologicamente preparada para ser mocinha. Tudo que tinha era um projeto de peito, não pensava ainda em garotos, namoros ou em coisas da adolescência. Como poderia ser uma mocinha? Brittany já era uma, mas e eu? Era muito cedo para isso. Não podia ficar assim primeiro que Santana. Ela nasceu primeiro. Ela era 29 minutos mais velha. Ela que tinha de passar primeiro por essas coisas. Não era para ser assim.
"Vou chamar papi..." Santana abriu a porta do banheiro e saiu correndo.
Eu fiquei ali sentada no sanitário, chorando, segurando a minha calcinha manchada de sangue. Meu pai chegou no minuto seguinte e a expressão dele me fez querer morrer. Era como se tivesse deixado de ser a bebê dele, a estrellita. Então se recompôs do choque e voltou a ser o dr. Juan Lopez, cirurgião do Lima Memorial Hospital.
"Oh, minha estrellita..." Se aproximou e passou a mão pelos meus cabelos. "Tudo isso é normal, ok. As meninas da sua idade passam por essas coisas. Quer dizer que o seu corpo amadureceu o suficiente para gerar filhos. Claro que você só vai fazer esse tipo de coisa depois dos 30..."
"Papi, eu sei o que é menstruar!"
Ele fez uma pausa como se estivesse levado um baque. Claro que eu não esperava menstruar assim, mas também não precisa me tratar como se fosse uma criancinha! Tudo bem que meu pai nunca foi bom para falar dessas coisas com as próprias filhas.
"Bom, faça o seguinte, estrellita, vá tomar um banho enquanto Santana e eu vamos ali no mercado comprar uma daquelas coisas para você colocar... bom, eu vou indo..."
Depois que meu pai saiu do banheiro (e não havia sinal de Santana), dei descarga, descartei minhas roupas e entrei no chuveiro. Hesitei em lavar lá em baixo propriamente. Não queria ver meu próprio sangue escorrendo pelo chão da banheira até o ralo, mas foi inevitável. Enrolei-me na minha toalha e caminhei até o meu quarto. Não tinha coragem de sentar na minha cama ou de pegar qualquer roupa. Parecia que tudo seria contaminado com sangue.
Meu pai chegou com um pacote em mãos. Eram os absorventes. Quis morrer quando ele me entregou.
"Tudo que você tem a fazer é remover a tira de proteção e aderir o adsorvente à calcinha... preciso mostrar?"
"Por deus, não!" Já era embaraçoso suficiente ele ter ido ao mercado comprar essas coisas.
"Ótimo... ótimo!" Meu pai ficou aliviado. "Bom... faça isso. Eu vou estar te esperando lá embaixo para a gente conversar melhor. Eu não sou tão habilidoso para esse tipo de conversa como Hiram, mas posso esclarecer qualquer dúvida médica e biológica que tiver sobre o assunto."
"Obrigada."
Meu pai saiu do quarto. Ainda não havia sinal algum de Santana. Presumi que ela me evitaria pelo resto do dia. Talvez da semana. Sem mais, me vesti, coloquei o absorvente pela primeira vez na vida e guardei o resto do pacote num canto da minha gaveta. Pensei dez vezes em sair do quarto e descer as escadas. Meu pai estava sentado à mesa da nossa biblioteca com o computador ligado. Infelizmente, ele me viu e o que se aconteceu na meia hora seguinte foi uma embaraçosa aula de ciclo menstrual e aparelho reprodutor feminino que tive em toda minha vida.
Era nessas horas que eu sentia falta de uma presença feminina em casa. Não falo de Santana, mas de uma mãe, ou de uma irmã mais velha que pudesse conversar comigo sobre coisas de mulher, que pudesse entender certas coisas que sentia. Pensei mais uma vez em minha mãe, e de como gostaria de conhecê-la. Não leve à mal: amo os meus dois pais. Tudo bem que meu pai é meio turrão e às vezes tinha a sensibilidade de uma pedra, e que papai queria tanto ser o legal/liberal, que não raro me constrangia com certos assuntos. Mas eles estavam fazendo um ótimo trabalho comigo e com Santana. Só que tudo ficaria ainda melhor se eu tivesse uma mãe por perto. Às vezes sonhava que ela morava na vizinhança e que eu poderia ir a casa dela sempre que quisesse para conversar sobre qualquer coisa: que seríamos grandes amigas acima de tudo.
Quando papai chegou e soube da notícia, começou a chorar como se algo de ruim tivesse acontecido comigo. Esqueci até da aula de canto. Santana apareceu na hora do jantar, mesmo assim evitava olhar diretamente para mim. Minha família estava ali tentando me dar suporte, mas a verdade é que tinha a sensação de ter virado um dragão de três cabeças.
À noite, na segurança do meu quarto, me olhei no espelho. Não parecia que tinha mudado tanto assim. Minhas pernas ainda eram desproporcionais ao resto do corpo, minha voz continuava difícil de domar, havia pelos ralos debaixo o meu braço e também lá embaixo, e meus seios se resumiam a duas pedrinhas. Tinha 12 anos e um mês e estava menstruada. Deitei na minha cama e pensei na minha mãe mais uma vez. O que sabia dela era que era uma moça bonita e inteligente escolhida a dedo pelos meus pais para gerar a mim e a minha irmã. E que a identidade dela só poderia ser revelada quando chegasse aos 18 anos. Mesmo assim, mesmo sendo uma completa desconhecida, queria muito que ela estivesse comigo. Mães deveriam estar com as filhas em momentos como este. Abracei o meu travesseiro extra e fingi abraçá-la. Só então consegui dormir.
