(Quinn)

Apesar da professora de desenho insistir que tenho talento com um pincel em mãos, escolhi o projeto de fotografia na aula de artes. Eu tinha uma boa câmera e toda vontade do mundo para apontar meu equipamento e abusar do botão disparador. Quando tinha oito anos, meu pai me deu o que considero até hoje um dos melhores presentes: pagou um curso de fotografia analógica para crianças. Era uma atividade de dois dias sem nada aprofundado, mas ver a imagem aparecendo no papel mergulhado em químicos foi uma das coisas mais incríveis que presenciei. Desde esse dia, tornei-me uma apaixonada pela fotografia. Ano passado, meu pai me deu uma câmera semi-profissional que substituiu uma velha da Barbie que usei até quebrar.

Ainda fico confusa quando penso no que levou meu pai a me dar algo assim: logo ele que insistia em me ver rodeada de bonecas, bichos de pelúcias, saias e vestidos, além dos brinquedos de casinha: coisas que mocinhas precisavam ter. E mamãe sempre o apoiava. Também não me arriscaria em perguntar a ele. Meu avô costumava dizer que em cavalo dado não se olha os dentes. Seja lá a razão de ele ter me dado a máquina bem equipada em vez de algo mais simples, só posso agradecê-lo. A fotografia era uma paixão que eu não compartilhava com os colegas de escola. Acho que foi por isso que a professora estranhou quando escolhi um projeto diferente de fazer um quadro a tinta óleo, como ela esperava. A verdade é que eu só gosto de desenhar como passatempo: fotografia que era a paixão que, por hora, reservava a mim mesma.

"Vou fotografar a festa anual de caridade." Kelly era uma das poucas meninas que conversavam comigo. Não achava que gostasse de mim. Ela só falava comigo porque nossas mães faziam parte da comissão organizadora dos eventos da igreja onde meu avô era pastor. Então ela tinha de falar comigo. Eu é que não fazia questão de falar com ela. "Não é uma idéia genial?"

"Acho que sim." Era obrigada a concordar. Ai de mim se achasse chato qualquer coisa que fosse feita em favor da nossa comunidade cristã. Poderia ser punida com a palmatória.

"E você?"

"Ainda não sei."

Eu sabia sim. Queria fotografar pessoas no parque de diversões, mas não diria isso a ela. Vai que ela desiste de fazer a festa da caridade só para roubar a minha idéia?

"Ainda estou surpresa por você não ter escolhido o projeto de desenho. A professora sempre elogia os seus trabalhos."

"Não desenho tão bem assim."

"Você é modesta, Quinn. E estranha."

As pessoas não costumavam me chamar de estranha. Talvez só a Kelly. Mas a opinião dela não me importava. Kelly era uma boba.

"Já te convidaram para o baile?" Ela perguntou.

"Ainda não."

"Brad me chamou para ser o par dele, e eu aceitei." Ela disse com os olhos sonhadores. Senti vontade de rolar os meus. "Mas não se preocupe." Tocou no meu braço como se estivesse me consolando. "Tenho certeza que alguém vai te chamar logo." Sorri por educação. Queria mesmo era acabar com aquela conversa boba e ir para o meu canto.

Parecia uma epidemia. De repente, todas as minhas colegas passaram a falar de garotos. Eu não tinha o que dizer a respeito, por isso só escutava as conversas entre elas, como se fosse um figurante nas pequenas rodinhas. Preferia não estar nelas, mas também não queria que chegasse aos ouvidos dos meus pais que eu era uma freak solitária e pouco popular na escola. Não quando era criada para ser o contrário disso. Então era melhor ficar com as meninas populares da minha igreja de vez em quando na hora do intervalo.

A verdade é que gostava mais da minha câmera fotográfica do que de garotos ou de pessoas em geral. Falando dos garotos, tirando Sean, não ligava para nenhum deles. Todos eram barulhentos, implicantes e cheiravam mal. Sean era o único passável: ele gostava dos Beatles, dos filmes do "Poderoso Chefão" e fazia imitações engraçadas dos outros colegas da escola e dos professores. Mas daí a pensar nele como meu par no baile ou mesmo como namorado era outra história.

Além disso, bailes pareciam pavorosos. Gostava de dançar. Ao contrário da minha irmã Frannie, não achava ruim ter de ir às aulas de balé quando era menor. O problema era dançar música lenta com um garoto num lugar cheio. Morreria de vergonha. E se ele quisesse me beijar? Deveria permitir? Será que ia gostar? Eu nunca tinha beijado na boca.

De qualquer forma, até o final do dia na escola, nenhum garoto me convidou para ir ao baile e Sean estava interessado em chamar Kate Bristol. Ele acabou conversando com ela no ônibus escolar na volta para casa e a resposta foi positiva.

Cheguei em casa pendurando meu casaco no armário da entrada e gritei por minha mãe, apesar de a única pessoa que tinha certeza estar em casa era Carmem, a empregada. Por que razão diria oi para ela? Não era o estilo Fabray fazer amizade com empregados, especialmente àqueles que tinham origem latina.

"Quinnie!" Mamãe apareceu na sala enquanto estava na metade do caminho escada acima. "Bom que você chegou, assim terei companhia para ir à manicure."

"Mamãe, não é que não gostaria... é que estou lotada de tarefas da escola." Tinha sim tarefas da escola, mas nem eram tantas assim. Estava com preguiça de ir ao salão com a minha mãe. A única coisa que se tinha pra fazer lá era folhear revista de fofoca enquanto a moça fazia o serviço dela. E a dona de lá sempre me perguntava se eu já tinha namorado, o que me deixava incomodada.

"Oh, é claro. Bom, se o seu pai chegar antes de mim, diga a ele que estarei em casa a tempo para o jantar."

Ela sempre estava em casa a tempo. Às vezes esperava papai com uma taça de vinho em mãos. Entrei no meu quarto e me joguei na cama. Era bom estar de volta ao meu universo seguro, onde nada de mal poderia acontecer. Minha mãe não era de bater a minha porta a não ser que quisesse alguma coisa. Se meu pai fizesse isso, significava que estava encrencada e que seria chamada ao escritório para uma punição. Frannie odiava meu quarto e nunca entrava lá. Era eu que tinha de ir ao dela quando chamada, principalmente para pintar as unhas dela. Poderia ser uma ótima manicure.

Fechei os olhos e pude relaxar um pouco. Então imaginei como faria o meu projeto de fotografia. Que imagens gostaria de obter e se teria finalmente coragem de enfrentar a roda gigante sozinha para tirar uma foto de Lima lá de cima. Acho que cochilei no processo porque quando dei por mim estava sendo sacudida por minha mãe.

"Hora do jantar, querida. Seu pai e sua irmã estão esperando lá em baixo."

Acenei. Corri ao banheiro para lavar as mãos. Tinha de ser rápida porque papai não gostava de esperar e eu não estava com espírito para ouvir as broncas dele. Desci as escadas correndo até a primeira metade, depois desacelerei para não me apresentar ofegante. Minha mãe insistia que isso era uma atitude desrespeitosa.

"Boa noite papai." Dei um beijo no rosto dele antes de me sentar ao lado da minha irmã.

"Boa noite, Quinnie. Dia cansativo na escola?"

"O normal."

"Achei que estivesse cansada para cochilar a tarde inteira. Talvez sentindo sintomas de gripe?" Meu rosto começou a corar. Meu pai não via com bons olhos esses momentos de preguiça injustificável quando eu mesma havia dito que estava lotada de tarefas.

"Só queria descansar os olhos por alguns minutos. Peguei no sono." Justifiquei-me e meu pai gesticulou como se aquilo não fosse grande coisa. Foi um alívio. Olhei para a mesa posta. Salada de entrada e espaguete ao alho e óleo com molho de queijo e manjericão para ser servido à parte. Era um dos meus pratos favoritos. Servi primeiro a salada, como mandava a etiqueta. "Falando da escola, vou fazer um projeto de fotografia e pensei em usar o parque de diversões como tema. Amanhã é sábado, será que um de vocês poderia me levar até lá?"

"O parque não é tão longe, por que não vai de bicicleta? Seria bom você começar a perder alguns quilos. Do jeito que está, está a caminho do encalhe, irmãzinha." Frannie implicava com meu peso desde sempre. Reconhecia que estava um pouco fora de forma, mas ainda não era algo que me incomodava. Eu estava em fase de crescimento, afinal.

"Não! Ir ao parque de bicicleta sozinha é perigoso. Ouvi no rádio que há uma onda de assaltos em Lima... coisas desses mexicanos mortos de fome que atravessam a fronteira para nos roubar." Meu pai sentenciou. "Não, andar de bicicleta sozinha é arriscado, especialmente se você voltar quando estiver anoitecendo. Frannie vai te levar e te buscar."

"Papai! Não! Eu tenho um encontro com as minhas amigas!" Frannie esbravejou.

"Eu posso ir sozinha, papai. Sério!"

"Isso não é negociável. E se você, mocinha..." Apontou o dedo para Frannie. "Não arrumar tempo de levar e buscar a sua irmã, também não terá tempo de socializar com suas amigas."

"Mas papai..." Frannie tentou apelar.

"Minha palavra é final!"

"Tudo bem. Eu vou deixar Quinnie no parque." Então ela me encarou com um olhar de que fez minha coluna se arrepiar. "Ou melhor, não acha que eu deveria apenas buscá-la? Pense bem: Quinnie poderia ir andando e aproveitar para fazer algum exercício físico para perder algumas calorias. Isso não é nada saudável, sabe? Se ela não agir agora, vai se tornar um adulto obeso, como aquelas pobres coitadas infelizes que ninguém quer."

"Não enche Frannie!"

"Alguém já te convidou para ir ao baile da sua escola?"

"Não..." Disse baixinho. "Mas quem disse que eu quero ir ao baile?"

"Hum... sua irmã tem um ponto." Minha mãe disse depois de beber uma golada de vinho. "Todas as suas amigas tem namoradinhos ou pretendentes, menos você. Acho que essa gordura extra precisa ir embora, ou nunca vai conseguir um bom partido."

"Mas..."

"Você vai fazer 13 anos e já não vai crescer tanto assim para cima, só para os lados. Está na hora de frear isso. De agora em diante, você vai comer só salada e está proibida de comer porcaria."

"Mas se eu sou americana e patriota, não deveria apreciar uma boa comida americana?" Insisti. Salada não enche a barriga de ninguém.

"Esse é o argumento de gordo mais desesperado que ouvi!" Frannie me desdenhou.

"Coma menos... e não vai comer sobremesa. De hoje em diante, está de dieta, mocinha. Como vai arrumar um namorado com todo este peso?" Minha mãe me condenou.

"Eu não penso em arrumar um."

"Não diga besteira." Minha mãe insistiu. "Claro que você quer um namorado. Toda garota da sua idade quer. Por que você seria diferente?"

Resmunguei e me servi de uma porção reduzida da macarronada. Depois, enquanto a família se deliciava com uma mousse de limão, eu comia metade de uma maçã. Não era justo. Depois que papai dispensou a gente à mesa, fui para o meu quarto e me joguei na cama me sentindo humilhada. Muito mais do que no dia em que gostei de um vestido numa loja e quis experimentar a peça, mas a vendedora disse que infelizmente não tinha o meu número. Sequer permitiu que eu colocasse a roupa no corpo para ver com meus próprios olhos algo que imaginei que poderia se acomodar no meu corpo.

Não é que almejava crescer obesa. Sabia que teria de me cuidar em algum momento. Só nunca imaginei que a minha dieta começasse de forma forçada, súbita e mortificante. Chorei até dormir.

No dia seguinte, em vez do tradicional cereal ou das panquecas: uma banana e um copo de suco. Peguei a comida regrada sob risadinhas de Frannie e subi novamente para o quarto. Passei o tempo navegando na internet a procura de bons sites de fotografia para inspiração. Ao menos isso me distraía. Então veio o almoço e novamente tive de me contentar com as imposições da minha mãe. Não seria mais digno ela me mandar para um nutricionista ou um endocrinologista? Ao menos estaria lidando com as restrições ditadas por um especialista. Passei o tempo inteiro me remoendo enquanto me arrumava para ir ao parque.

"Vamos nessa, Quinnie!" Frannie bateu à porta aberta do meu quarto.

Ainda estava terminando de passar um batom. Coloquei meu casaco por cima do vestido, peguei minha câmera e calcei meus sapatos no caminho até a garagem. Minha irmã ainda passou para buscar uma amiga da escola que morava na mesma rua do Dr. Jones, que era nosso dentista. Dr. Jones tinha uma filha da minha idade, Mercedes, mas ela estudava em outra escola e eu só a via em alguns eventos da igreja.

A partir do momento em que a colega de Frannie entrou, o assunto que imperou foi uma tal festa que aconteceria naquela mesma noite. Era só que falavam: festas, cheerios (minha irmã era uma cheerio e cogitava ser capitã no próximo ano letivo), e de como um determinado atleta bonitão iria comer na mão dela. Tudo aquilo era só da boca para fora. Eu já tinha a visto com um namorado e o que me pareceu era que minha irmã comia na mão dele. Felizmente não precisei suportar aquilo por muito tempo.

"Tome 20." Frannie me deu o dinheiro e praticamente me enxotou do carro.

Não era preciso pagar entrada para o parque e ele não tinha atrações muito boas. O melhor brinquedo era uma montanha russa comum que nem looping tinha. Ainda assim fiquei parada na entrada sem saber por onde começar o meu projeto. Naquele horário havia crianças e adolescentes da minha idade circulando pelo espaço. Talvez pudesse fazer um ensaio desses muito coloridos com fotos de crianças segurando balões e bichos de pelúcia. Era uma boa idéia. Mas em vez de circular, preferi estabelecer base perto das barracas de tiro ao alvo e afins.

Achava tão divertido estar por trás de uma lente e de um excelente zoom. Era como brincar de espião: eu me escondia num lugar nem tão secreto usava o benefício da minha máquina para colocar o olho perto de alguém sem necessariamente se aproximar dela. Só precisava esperar pelo momento certo e, pronto, alguém estava capturado dentro do cartão de memória. Passei bons minutos por ali, até criar coragem para me arriscar sozinha na roda gigante. Logo vi que tirar foto panorâmica de Lima não era tão interessante quanto deveria ser à noite. A luz do dia denunciava a incômoda realidade do lugar em que morava: um grande subúrbio com um razoável centro que sobrevivia graças a uma refinaria era a responsável por movimentar a economia. De qualquer forma, não desperdicei a chance de tirar algumas fotos panorâmicas da cidade do próprio parque.

Meu estômago roncou. Poderia estar de regime forçado, mas naquele momento meus pais não estavam por perto, ou minha irmã, para me privar de todos os cachorros-quentes, pizzas, churros e pipocas. Comprei uma pizza de calabresa, churro e uma lata de coca-cola normal daquelas bem geladas. Minha mãe surtaria se me visse naquele instante com todas aquelas coisas gordurosas, mas aquela comida desceu tão bem... Tudo tão gostoso que nem senti culpa por desobedecer. Aproveitei para tirar mais algumas fotos de crianças que saiam da barraquinha de algodão doce. O açúcar com corante rosa conseguia produzir os maiores sorrisos.

Pouco antes de deixar a mesa em frente às barraquinhas de comida, vi as irmãs Berry-Lopez e Brittany Pierce atacando um monte de pizzas. Santana parecia ser a mais gulosa. Confesso que senti um pouco de inveja ao ver as três magricelas, especialmente as Berry-Lopez, devorando toda aquela comida sem se importar com a balança e com a largura do quadril. Algumas pessoas tinham mais sorte do que outras.

Deixei elas para lá e estava disposta a continuar com o meu trabalho até que lembrei de consultar o relógio. Estava quase na hora combinada de Frannie me buscar, embora soubesse que ela chegaria uma hora atrasada. Liguei do meu celular para conferir e minhas suspeitas de atraso se confirmaram a partir do instante em que ela não atendeu. Como não tinha certeza de nada, resolvi ficar no ponto de encontro olhando as pessoas passarem por mim. Vendo pelo lado bom, ao menos fazia um dia lindo em Lima.