(Quinn)
Era o último mês de aula no Junior High. Os estudantes estavam ansiosos com a High School que se iniciaria assim que terminasse as férias de verão. Os meus quase-amigos iam se espalhar em diferentes escolas. Não é que eles fossem fazer falta, mas eu perderia a referência de rostos familiares nos obscuros corredores de McKinley High. Era mais uma coisa que me prenderia à barra da saia de Frannie. Minha irmã estava determinada em fazer de tudo para que eu herdasse o reinado na colméia, desde que ela pudesse se despedir no topo, claro. Era isso que minha família e a micro-sociedade acadêmica secundarista esperavam de mim. Logo eu que só queria ficar quieta no meu canto. Meu futuro parecia desanimador.
Some o temor de um destino indesejado e inevitável com um dia tedioso na escola. Fomos obrigados a ir ao ginásio para assistir à palestra anual sobre primeiros socorros. Além de ouvir paramédicos falarem por meia hora e mostrarem vídeos grotescos, a gente ainda assistia alguns colegas selecionados ao acaso na platéia irem à frente tentar fazer massagem cardíaca e respiração boca a boca. Não há quem não fique nervoso sob os olhares de centenas às vezes indiferentes, às vezes curiosos, às vezes zombeteiros. O pior é que cada um deles falhou miseravelmente. O boneco morreu nas mãos dos cinco alunos-cobaias.
Após a palestra, fomos liberados para o intervalo e almoço. Eu tinha uma mesa cativa no refeitório. Gostava ocupar aquela que julgava ser a mais discreta no canto direito do salão. Era de onde podia observar todo mundo e, ao mesmo tempo, permanecer quase invisível. Poucas pessoas sentavam para fazer as refeições comigo, e quando isso acontecia, era porque tinham algum interesse: principalmente Kelly e Amy. Outras vezes era Sean que ficava por ali, especialmente quando precisava de uma ajuda qualquer. Às vezes garotos me abordavam e pediam para fazer companhia. Queriam um encontro ou algo assim.
Não era que fosse tão ingênua assim: eu tinha aprendido ao longo daquele ano a cobrar por certos favores.
Dois meses trás, aceitei sair com John Collins, que jogava no time de futebol. As meninas estavam pegando no meu pé porque todas namoravam, menos eu. Diziam que alguma coisa devia estar errada porque era impensável que uma menina bonita como eu (opinião delas, não minha) recusasse tantos garotos e fosse tão solitária. Então aceitei ir ao cinema com o primeiro cara que me pediu. Casou de ser John Collins, um sujeito bonito e corpulento para alguém de 14 anos. Ele pegou na minha mão no escuro do cinema e eu permiti. Depois, quando fomos tomar um sorvete, ele me beijou no roto e eu permiti. No final do encontro ele me deu um beijo nos lábios e eu permiti. Foi o meu primeiro beijo e senti nada demais. Marcamos um segundo encontro no outro fim de semana e mantivemos um namorico na escola: algo como pegar na mão, dar beijos no rosto e, às vezes, nos lábios.
No segundo encontro, para ver outro filme, John não pedia mais permissão para pegar na minha mão, para me abraçar ou para me dar beijos nos lábios. Em vez de sorvete, me levou até o parque onde ficavam alguns casais mais velhos. Ali, contra uma árvore, enfiou a língua na minha boca. Foi o meu primeiro beijo dessa natureza e não gostei. Passou a mão na minha bunda e também não gostei. O toque dele era duro e grosseiro. O corpo dele não se encaixava com o meu. Não conseguia sentir as famosas borboletas no estômago. Na segunda-feira seguinte ele pegava na minha mão e eu tinha vontade de puxar de volta, mas não fazia. Ele me beijava na boca e me esforçava para corresponder porque era isso que as pessoas esperavam. Ele colocava a mão na minha bunda e eu a puxava de volta as minhas costas. Até que, na quarta-feira, ele tentou tocar em um dos meus seios. Ganhou um tapa na cara e o meu primeiro namoro terminou ali: durou 10 dias.
Ao menos as meninas pararam de cogitar que havia algo de errado comigo.
Os cantos o refeitório eram sempre os últimos espaços ocupados e por isso mesmo eu não tinha pressa alguma em chegar para fazer o lanche: meu canto estava sempre disponível. Gostava dali.
Depois da aula excepcional de primeiros socorros, segui na rotina de sempre: bandeja, comida leve, caixinha de leite. Faltou a minha mesa. Vê-la ocupada por professores e convidados foi como se alguém tivesse roubado a minha almofada velha da sorte. Por alguns bons segundos, o chão desapareceu debaixo dos meus pés. Não sabia para onde ir. Amy e Kelly ainda não estavam no refeitório, não tinha vontade de sentar com as cheerios e Sean parecia entretido com os colegas. Entre o tumulto feito pelos alunos passando de lá para cá, vi Rachel Berry-Lopez. Acho que ela era a pessoa mais solitária da escola depois de um garoto que usava cadeira de rodas chamado Arthur.
Pelo menos eu era uma solitária por opção, mas acredito que a solidão não era uma escolha para aqueles dois. Os únicos amigos que via se aproximando de Rachel na escola eram Santana e Brittany, se é que Santana contava já que era a irmã. Mas ali no refeitório, Rachel sempre estava só em uma das mesas centrais.
Não entendia como uma pessoa tão talentosa quanto ela não conseguia atrair amigos e ser popular. Tudo bem que ela falava muito em classe, era egocêntrica e determinada demais para o gosto geral. Peguei-me muitas vezes perdendo a paciência com os discursos que proferia nas aulas de inglês. Isso a fazia ser chata. O fato de ela ser colocada sempre em oposição a Santana, que era popular a maneira dela, devia contribuir. Por outro lado, aquela garota tinha talento genuíno. Não possuía beleza clássica. Não era loira dos olhos castanhos esverdeados que as pessoas julgavam ser perfeitos. Também não se vestia bem e parecia que usava o mesmo estilo desde quando tinha oito anos. Frente à irmã dela, com traços latinos graciosos e pele morena, Rachel ficava pálida. Mesmo assim, ela era uma gracinha, com um charme só dela.
Quando vi meu canto ocupado e sem outras opções atraentes, fui até o conjunto de mesas centrais. Talvez Rachel não se incomodasse se eu ocupasse um lugar na mesa dela.
"Posso me sentar aqui?" Rachel estranhou quando me aproximei. Não podia culpá-la: não tínhamos trocados mais do que três ou quatro frases durante todos estes anos. Além disso, eu era a filha de Russell Fabray, o homem que atacava e maldizia publicamente os pais dela sempre que tinha oportunidade. Rachel olhou para os lados como se quisesse ter certeza de que me dirigia a ela. "Ok... vou procurar outro lugar".
"Pode sentar, a mesa está vazia!" Rachel se apressou em responder.
"Roubaram o meu lugar." Apontei para o meu canto e sentei-me quase que na outra extremidade do lado oposto em que Rachel se encontrava. Ela me olhava pelo canto do olho, como se estivesse incerta de como agir. "Que saco a reunião no ginásio!" Tentei puxar assunto para quebrar o gelo.
"Primeiros socorros são importantes. Meu pai é médico e ele treinou pessoalmente eu e minha irmã a fazer todo tipo de procedimento emergencial: desde massagem cardíaca até um simples curativo. Se você tiver um problema repentino e for socorrida por alguém preparada como eu, isso elevará consideravelmente as suas chances de sobrevivência e/ou cura."
"Eu vou me lembrar disso!" Ergui uma das sobrancelhas. Aparentemente, Rachel era uma diva cheia de si em tempo integral.
"Onde você vai estudar no próximo semestre?" Ela perguntou casualmente.
"McKinley. Minha irmã mais velha estuda lá..."
"Oh! Ela ainda estará lá quando você entrar em William McKinley High School?" E o mais engraçado é que ninguém falava o nome daquela escola por completo.
"Sim, ela será uma sênior."
"Você não mora no bairro vizinho ao meu?"
Estranhei essa pergunta porque Rachel sabia exatamente onde eu morava. Ela pensa que eu não sei, mas eu a vi uma vez jogando ovos na minha casa junto com Santana, e sabia muito bem que foram as duas que encheram a árvore e o jardim de frente da minha casa com papel higiênico. Nunca disse nada porque meu pai literalmente iria para a guerra contra os Berry-Lopez e não era algo que gostaria de ver.
"Por que pergunta?"
"Você não deveria ir para Carmel, pelas regras de distribuição municipal?"
"Carmel ou Mckinley, na realidade. Mas vou para McKinley porque é a escola que a minha comunidade religiosa patrocina alguns programas. Meu avô por parte de mãe é pastor..."
"Mesmo? Que tipo de programas?"
"Basicamente o time de futebol e as cheerios." Rachel me olhou admirada. "E você vai para Carmel, certo?"
"Carmel High School não apenas é a escola que atende a minha vizinhança, como também é a que melhor desenvolve programas artísticos nesta cidade. O coral deles, o Vocal Adrenalina, é um time vencedor muitas vezes campeão nacional. Acho extremamente excitante o fato de que eles treinam três horas todos os dias: uma hora de técnicas vocais, uma hora de coreografia e uma hora dedicada ao número em si. Isso será perfeito como mais uma etapa do meu preparo para Julliard e, posteriormente, para a Broadway."
"Interessante!"
Voltei a minha atenção para o meu prato e veio o silêncio. Cheguei a pesquisar sobre outras escolas e visitei o site da Carmel, que era a melhor escola pública de Lima: uma tão boa que rivalizava com o ensino da melhor escola privada da região. Se você não morasse na região atendida pela escola pelas regras, ainda podia entrar por um processo de seleção. Mas tinha gente que era aceita simplesmente por ter uma habilidade especial que interessava à escola, como aquele bom atleta ou o aluno muito inteligente. O problema era a fama que Carmel nutria por ser o corvil da arrogância da sociedade de Lima, patrocinada pelos liberais pró-aborto, e pela pequena comunidade judaica da cidade. Acho que Rachel foi a primeira pessoa a falar de Carmel com tanto entusiasmo.
"E você? Seria inconveniente perguntar a que atividades extracurriculares pensa fazer quando ingressar a William McKinley?"
"Vou ser líder de torcida, como a minha irmã."
"Oh!" Imediatamente fiquei envergonhada. Ser uma cheerio parecia tão pobre e fútil. Ela me encarou de um jeito engraçado e adorável ao mesmo tempo. "Desejo boa sorte em sua empreitada, Quinn Fabray."
"Igualmente." Sorri ainda constrangida.
"Se me dá licença..." Rachel se levantou da mesa com um sorriso enorme estampado no rosto. Algo que sabia ser forçado.
Apenas acenei e ela virou as costas com a bandeja em mãos. Fiquei a observando. Santana estava sentada ao lado de Brittany e de outras duas pessoas numa outra mesa. Então entendi porque Rachel se levantou tão de repente: Santana a chamou. Elas conversaram rapidamente e Rachel logo seguiu para fora do refeitório como se tivesse sido confrontada. Senti os olhos de Santana pesados em mim. Ela me encarou de forma ameaçadora, como se eu tivesse atravessado o caminho dela por conversar com a irmã dela. Ela não confiava em mim só por eu ser uma Fabray. Ao contrário de Rachel, Santana nunca fez questão de ser educada comigo. Nós, os Fabray, éramos os inimigos dos Berry-Lopez. Balancei a cabeça e achei toda a situação hilária. Gargalharia se ali não fosse o refeitório da escola em horário de pico.
Voltei para casa de ônibus escolar ainda sorrindo com as cenas do refeitório. Poderia ser amiga das Berry-Lopez. Elas tinham uma dinâmica divertida. Pena ser impossível. Imagina se meu pai soubesse? Ficaria uma semana sem poder me sentar e ainda amargaria um castigo gigante enclausurada no meu quarto sem computador ou minha câmera. Oh não! Isso representaria a morte: uma bem pior do que quando fui forçada a fazer regime e entrar na academia.
Em casa, fiz o meu ritual e me apressei a fazer as tarefas. Queria ficar livre. Frannie chegou tarde da escola. As cheerios iam disputar as finais nacionais no fim de semana e ela estava treinando feito uma maluca. Sue Sylvester fazia o esquadrão praticar as coreografias por três horas após as aulas. Quando papai chegou, foi o momento da família se reunir na mesa de jantar.
"Como estão os treinamentos, Frannie?" Como sempre ele se direcionava primeiro a ela "Será que vão conseguir o título neste ano?"
"Nosso time é tricampeão nacional, papai. Do jeito que treinamos, não temos adversários. Principalmente porque sou a capitã."
"É assim que se fala!" Ele sempre ficava entusiasmado com a confiança da minha irmã. Adorava o fato de ela pertencer a uma equipe vencedora e nem se importava com o fato de ela dançar rebolando para uma arquibancada cheia: afinal, ela era uma campeã! "E você Quinnie? Como foi o dia na escola?"
"Nada de interessante. Assisti a uma palestra sobre primeiros socorros." Meu pai parecia tão receptivo. Achei que talvez estivesse aberto a receber sugestões contrárias aos planos da família. "Conversei com uma colega na hora do almoço..." Não podia nem sonhar em citar o nome de Rachel Berry-Lopez dentro daquela casa. "Ela vai para Carmel semestre que vem. Disse boas coisas de lá!"
"Bobagem!" Frannie revirou os olhos. "Carmel é um buraco de novos ricos liberais".
"Ouvi coisas horríveis sobre aquela escola." Minha mãe tomou um gole de vinho. Ela bebia mais e mais nos últimos meses. "Eles mantém professores abertamente gays no corpo docente. Sem falar que a comunidade judaica está em peso naquela escola".
"Ouvi as mesmas coisas." Meu pai entrelaçou os dedos e me encarou. "Para essa sua colega querer ir para uma escola dessas, não deve ser boa companhia, Quinnie".
"Eu mal converso com ela." Forcei um sorriso confiante para desfazer o constrangimento. "Ela sentou à mesa comigo e com minhas amigas e começou a falar dos planos dela. Só isso!"
"Não se preocupe, maninha. No próximo semestre estaremos juntas em McKinley e vou poder te preparar bem antes de entregar a minha coroa a você. Vamos fazer a dinastia Fabray em McKinley durar quase uma década!"
Forcei um sorriso para a irmã antes de desviar minha atenção para meu pai. Ele tinha expressão de orgulho dispensado a Frannie. Pode parecer bobo e infantil, mas eu queria receber o mesmo tratamento. Mas como era difícil competir com Frannie. Ela era mais bonita, se vestia bem, mandava na escola, tirava boas notas, namorava o capitão do time de futebol, era eleita a rainha do baile, capitã das cheerios, comandava o clube cristão e sabia de cor toda a escalação inicial do Cleveland Indians. Era duro! Foi por isso que decidi ser ninguém, pelo menos até a high school.
"Não tenho visto Harry por estes dias." Mamãe comentou casualmente.
Harry Morgan era o namorado e Frannie. Mais do que isso, era filho de James Morgan, o dono de uma construtora que atuava em Ohio e membro ativo da comunidade da igreja.
"Harry andou mal-criado comigo. Estou dando um gelo para ele aprender." O comentário provocou risadinhas nos meus pais. Tive vontade de revirar meus olhos, em vez disso, abaixei a minha cabeça e tratei de prestar atenção no meu prato.
"E você Quinn? Não tem um namorado novo em vista?" A voz da minha mãe era de cobrança. Nem mesmo o meu curto namoro com John a fez parar de me cobrar pela companhia dos garotos.
"Não há ninguém que vale à pena na escola. É melhor esperar entrar em McKinley".
Depois do jantar, já na segurança do meu quarto, fiquei brincando com a máquina fotográfica. Estava numa fase de inventar séries estranhas. A última era "Barbie no País das Maravilhas", feita com minhas bonecas, bichos de pelúcia e desenhos em folhas brancas comum para compor cenários. Depois de alguns disparos, consultei o relógio. Eram nove horas da noite. Fui ao computador acessar o MySpace. Havia o novo post semanal de Rachel Berry-Lopez. Peguei os fones de ouvido e cliquei no play. A música da semana era "Don't Know Why", da Norah Jones. Não era bem o estilo que Rachel costumava postar, mas foi uma boa mudança. Fechei meus olhos e procurei adormecer embalada pela voz doce.
...
(Santana)
"Itália é o país das botas." Brittany disse contente em classe. Estava correta se a professora conseguisse interpretar de outra forma: Itália era o país em formato de bota. Ela sabia pegar o mapa e mostrar a Itália, dizer a língua oficial e que o Vaticano ficava em Roma. "Aliás, as botas italianas são as melhores, sem falar nos ternos, como vi na televisão. Só ainda não consegui encontrar qual é o país dos chinelos. Desconfio que seja Portugal. Ou aquela ilha da África."
A gargalhada foi geral. Mas eu nunca ria desses "complementos" de Brittany. Não conseguia porque não eram frutos de uma piada. Se existia um país em formato de bota, então, na cabeça dela, que funcionava por relação, fazia sentido ter país do chinelo, da calça, da camisa, do candelabro.
Os estudantes sabiam que Brittany era uma aluna com dificuldade no aprendizado. Ela era uma versão sexy, feminina e um pouco mais esperta de Forrest Gump. Eu procurava fazer a minha parte. Ajudei Britt a ler e a escrever, a ver as horas num relógio de ponteiros. Ensinava a usar as ferramentas básicas de um computador, a manusear o celular, a entender as matérias que ela podia fazer fora da classe especial. Mas aquilo era Junior high, onde as coisas nunca seriam tão intensas como aquelas que nos aguardavam no próximo semestre. Se eu temia não sobreviver àquela selva chamada high school, Brittany seria presa fácil. Não importava como, precisava ajudá-la a passar pela escola sem maiores traumas.
Teoricamente, Rachel e eu iríamos estudar em Carmel, por ser a escola que atendia as crianças do meu bairro e do country club. Lá tinha um bom programa de artes que Rachel se interessava e também classes especiais para pessoas como eu... os supernerds. Carmel me proporcionaria um preparo razoável em matérias exatas, e havia um programa de premiações aos alunos que participavam das olimpíadas da matemática. Eu poderia integrar esse time de nerds com os olhos vendados se me oferecessem certas regalias.
O problema era Brittany. Ela morava num bairro que era atendido por McKinley High. Além disso, Carmel não tinha lugar para alguém com as dificuldades dela. A única opção de Lima dentro do sistema público para minha melhor amiga era mesmo aquele buraco aceitava todo mundo. Os professores eram uma piada de mal gosto, o diretor era um idiota que pensava mais no que as cheerios poderiam arrecadar do que no sucesso acadêmico dos alunos. Por isso Mckinley possuía a maior população de cheerios talvez dos Estados Unidos da América. Brittany não teria a menor chance se ficasse só nesta selva.
Por isso que vinha pensando: se Brittany não podia entrar em Carmel, então que eu fosse até McKinley. Seria dureza convencer meus pais. Eles não gostavam da idéia de me separar de Rachel.
"No que está pensando, San?" Brittany me sacudiu.
"O quê?"
"Você se desligou do mundo."
"Nada não. Bobagens."
Ela sorriu. Adorava quando ela sorria. Era como se o mundo se iluminasse.
A direção da escola mandou que todos os alunos da minha série e da anterior fossem até o ginásio para a palestra anual de primeiros socorros. Era uma bela perda de tempo. Particularmente porque fui treinada por papi em primeiros socorros. Sabia que eram técnicas aparentemente simples nos livros, mas na prática é que se percebia que massagem cardíaca não era apenas tentar afundar o peito do sujeito, ou dar murros. Respiração boca a boca não era só assoprar dentro da boca de alguém. Não seria uma palestra coletiva que capacitaria, de uma vez só, centenas de alunos.
"Vou dar o fora daqui."
"Mas e a palestra?"
"É perda de tempo, Britt."
"Eu gosto..."
"Faz o seguinte: você assiste e depois a gente se encontra."
Passei parte do tempo na biblioteca porque lá tinha algumas poltronas e a monitora não enchia o saco quando se matava aulas para ficar por ali. Peguei um livro de história e fingi estudar. Precisava de um tempo para articular um plano e bolar argumentos para convencer meus pais a me deixarem ir para McKinley. Rachel seria um problema. Ela ia espernear e gritar para não ir. Sempre poderia sugerir colégios separados, mas papai andava preocupado com o meu distanciamento em relação a minha irmã. Poderia dizer que colégios separados fariam bem para a nossa relação fraternal. Quando ficava neste estado de conspiração, os minutos passavam rápido. Estava quase na hora do almoço. Encontrei com Brittany na saída do ginásio e ela parecia feliz em aprender como salvar pessoas.
"Eu passaria nesta classe." Disse orgulhosa de si.
"Claro que sim!"
Caminhamos em direção ao refeitório e sentamos na mesma mesa em que estavam Jodi e Eric. Eles eram legais e tratavam Brittany com gentileza. Uma pena que os dois estariam em Carmel no próximo semestre. Eles e Brittany conversavam bobagens e eu continuava perdida em meus planos até que a visão de Quinn Fabray sentada ma mesma mesa que minha irmã chamou atenção. O que raios aquele filhote de cobra venenosa pretendia? Quinn nunca falou com Rachel ou comigo. Por que agora? Quis ir até lá para tirar satisfações, mas isso chamaria a atenção dos outros e eu não queria levar fama de paranóica ou ciumenta. Então Rachel se levantou e essa foi a minha deixa.
"Rachel!" – ela me ouviu e se aproximou – "O que ela estava fazendo ali?" – minha conversa fez com que os outros parassem curiosos.
"Quinn perguntou se poderia se sentar e eu permiti, até porque as mesas não são nossa propriedade. Tivemos uma agradável conversa civilizada."
"Só isso? Tem certeza que ela não está armando nada?"
"Ela já armou alguma coisa contra a gente?"
"Não, mas... Fabray!"
"Você é paranóica, Santana." Rachel virou as costas, me ignorando. Fiquei sem respostas. Só me restava encarar aquela filha de cobra. Rachel podia ser ludibriada. Eu não.
"O que foi?" Perguntei aos demais que me encaravam um sorrisinho no rosto.
"Nada!" Eric levantou as mãos.
Papai me buscou na escola com atraso de mais de meia hora. Ele teve um problema a resolver na Community College. Rachel e eu estávamos sem nossas bicicletas e a volta a pé naquele calor e naquela distância era terrível, ainda mais por causa da cólica que suportava. Era melhor esperar pelo carro. Por causa do atraso, papai não teve tempo de me deixar em casa, então fui obrigada a acompanhar Rachel na aula de canto. Ela entrou na sala junto com a professora e outra aluna, e eu tive de esperar nas cadeiras desconfortáveis da recepção junto com papai. Normalmente xingaria, mas vi ali uma oportunidade para colocar meu plano em ação.
"O que foi, Santana?"
"Disse nada!"
"Tenho certos poderes no que diz respeito a você e sua irmã. Desembucha."
"É sobre a escola no próximo semestre."
"O que tem Carmel?"
"Aí é que está, papai. Não quero ir para lá."
"Como não?" Ele ameaçou levantar a voz. "Carmel é uma das melhores escolas públicas do oeste de Ohio. Melhor do que muitas em Dayton e Cincinnati. Você é felizarda por ir para lá sem precisar fazer testes ou entrar em listas de espera."
"Eu sei papai. Mas Carmel é uma escola forte para alunos excelentes."
"Sim, como você e sua irmã."
"Mas não como Brittany..." Papai me encarou como se tivesse crescido outra cabeça em mim. Então ele suspirou de forma audível.
"Eu amo Brittany, San. Você sabe que ela é como se fosse a minha terceira filha. Mas também tenho plena consciência de que ela não é minha responsabilidade. Muito menos sua. Brittany uma família amorosa e presente. Sabe disso."
"Os tios são legais, mas eles não estão dentro da escola. Não sabem como as coisas são duras. Brittany é especial e vai precisar de ajuda. Ela vai precisar da minha ajuda."
"Santana, Brittany não é uma imbecil incapaz. Ela sabe se defender e é muito inteligente a maneira dela."
"Sei que ela é capaz de dizer coisas mesquinhas quando preciso, e até de manipular, mas e as classes? Atitude não vai ajudá-la a entender a matéria de história."
"Bom, você pode ir a casa dela e dar algumas lições. No que estudar em Carmel vai te impedir?" Sentia que os meus argumentos eram furados frente a lógica de papai. Então era melhor partir para o desespero sincero.
"Não quero ficar sem ela! Eu a ajudo nas coisas de escola e a protejo. Mas a verdade é que o bem que ela faz a mim é muito maior. Britt me faz feliz, entende? Lembra daquela vez que eu aprontei e os tios não deixaram Britt falar comigo por quase dois meses? Papai, o senhor foi testemunha do quanto fiquei miserável. Tive até febre. Não estou preparada para deixá-la por causa de uma escola idiota e McKinley não vai me fazer ficar estúpida. Eu ainda vou saber somar e dividir bem o suficiente para, sei lá, ir a community college de Lima e fazer um curso de botânica só para o senhor ser meu professor."
"Ok..." Papai me abraçou. "Só que você está se esquecendo de um detalhe, docinho: e a sua irmã?"
"Ela pode estudar em Carmel!"
"Mas da mesma forma que não quer se separar da sua melhor amiga, nós não queremos que você se separe da sua irmã."
"Separadas já estamos. Não somos siamesas, certo? E a gente ainda vai viver sob o mesmo teto."
"Você sempre minimiza os problemas em relação a Rachel, não é? Sua irmã tem dificuldades de socialização e você não imagina o quanto é uma importante referência para ela. É um porto seguro. Sem você como referência, ela iria sofrer muito mais."
"Papai, Rachel e eu..."
"São parceiras e cúmplices, Santana. Sempre foram por mais que Brittany estivesse no meio. Vocês podem ter problemas de relacionamento agora por causa desses dramas adolescentes, mas vocês se amam profundamente e sempre vão procurar cuidar uma da outra. Cada uma a sua maneira. Não acha que sentirá falta da sua irmã na escola? E quem vai proteger Rachel em Carmel?"
"Rachel é forte... ela sempre soube se virar sozinha."
"Sei disso. Ainda assim, ela precisa de você."
"Então matricule Rachel em McKinley. Ela pode continuar a fazer as aulas de canto, competir naqueles concursos amadores, e ficar no teatro amador. Sei lá. É possível fazer a própria agenda mesmo num lugar limitado. Tenho certeza que se o senhor disser as palavras certas, Rachel vai encarar tudo como um desafio irresistível."
"Está mesmo segura de que quer abrir mão de uma ótima escola para seguir a sua melhor amiga em algo duvidoso mesmo que isso signifique arrastar sua irmã para lá? Pense na sua responsabilidade!"
"Eu sinto que é o certo, papai."
"Vou conversar com o seu pai e depois teremos uma reunião em família antes de bater o martelo. Estou ciente da sua posição e respeito. Mas ainda não ouvimos Rachel. Também preciso saber o que Juan pensa desta história toda."
"E o que o senhor pensa?"
"Sua atitude é nobre, Santana. Mas pouco inteligente."
"Às vezes precisamos cometer erros. É o que o senhor sempre diz."
"Só que o meu papel é também fazer com que você evite muitos deles. Vamos discutir isso mais tarde, docinho. Em família."
"Promete?"
"Por um acaso eu já faltei com a palavra?"
Nunca. Papai estava dando ao meu plano uma chance real. Nunca pensei que seria fácil, mas era sim possível terminar esse embate em McKinley High.
